Intolerância

Mais vale asno que me carregue do que cavalo que me derrube! – no primeiro plano, Luís França e Maria Cristina de Castro

Hoje fui posto numa situação que não deveria ter sido tão constrangedora como foi. Conversando com um amigo, fui apresentado a um conhecido dele enquanto travávamos uma amigável discussão sobre a cultura ou a religião como freio moral: se não a cultura, dizia ele, pelo menos deve haver a religião para “segurar o povão”. Discurso manjado. Eis que, alguns instantes após a chegada do, para mim, até então desconhecido senhor, fui apresentado como um “ateu que sabia conversar”-sic. Com toda a sem cerimônia típica dos fanáticos religiosos, fui fulminado pelo olhar de raiva e desprezo motivado por minha crença – ou não crença, melhor dizendo. A partir daí, mantive-me calado. Seguiram-se quase 15 minutos de duras palavras contra “o meu egocentrismo, o meu saber pretensamente científico que não me permite enxergar que energias que não dominamos existem, forças que à razão humana não foram dadas conhecer”. Lembrei-me de um aforismo de Nietzsche, mas preferi não sacá-lo de meu coldre. Agora, apaziguada a emoção do momento, touché: “O Diabo tem as mais amplas perspectivas sobre Deus, motivo pelo qual se mantém tão afastado dele. O Diabo: o mais velho amigo do conhecimento”*. O Diabo que me carregue!

*Além do bem e do mal, aforismo 129.

Discussão - 13 comentários

  1. Anonymous disse:

    Amigo, vc foi muito fino. O diabo que o carregue – o intolerante-solidário-crente.

  2. Carol disse:

    Nossa, isso acontece comigo sempre que alguém descobre que sou atéia. Onde trabalho, todos são espíritas e ficam me contando as explicações “científicas” para a existência de deus… Minha vó acha que o demônio está me possuindo para que eu não acredite em deus… Juro que não sei mais o que pensar e o que falar em casos assim. Acabo fazendo como você, fico quieta porque muitas vezes não existe forma de diálogo com religiosos.P.S.: eles também ficam putos quando eu escrevo deus com letra minúscula…

  3. Alessandra disse:

    Oi, estava procurando na net se aqui no Brasil houve algum artista c influências do Renascimento e acabei caindo no seu blog. Acabei lendo seu texto “Intolerância”. Achei interessante. Quanto a Carol Domingues, acho q as pessoas q trabalham c ela não são realmente espíritas pq todo espírita respeita a opinião e a crença “ou não crença” das pessoas. Todos temos o livre arbítrio de acreditar ou não no q quisermos. Se vc, dono do blog, tiver alguma informação sobre o assunto q mencionei, por favor, tire minha dúvida. Agradeço a atenção de qualquer forma.Abraços, Lela 😉

  4. Anonymous disse:

    estranho modo de se referir a um amigo, AMIGO DE M.”ateu que sabe conversar” qual a amplitude desta frase-adjetiva?ah! que o diabo me leve também.helena

  5. Karl disse:

    “Vocês, homens sóbrios, que se sentem defendidos contra a paixão e as fantasias e bem gostariam de transformar em orgulho e ornamento o seu vazio, vocês chamam a si próprios de realistas e insinuam que, tal como lhes aparece o mundo, assim é ele realmente: apenas diante de vocês a realidade surge sem véu, e vocês próprios seriam talvez a melhor parte dela (…)” E vai por aí. Gaia Ciência Livro II parag. 57. Parabéns pela tolerância.

  6. Karl, não entendi se o trecho é pró-tolerância ou não! Talvez falte alguma parte…Abraço!

  7. Karl disse:

    Permita-me então, abusar de seu espaço, Amigo.”Mas também vocês, no seu estado sem véu, não continuam seres altamente apaixonados e obscuros, se comparados aos peixes, e ainda muito semelhantes a um artista apaixonado? – e o que é ‘realidade’ para um artista apaixonado? Vocês ainda levam e andam às voltas com as avaliações das coisas que tiveram origem nas paixões e amores de séculos passados! Sua sobriedade é ainda impregnada de uma oculta e inextinguível embriaguez! O seu amor à ‘realidade’, por exemplo – como é velho, antiquíssimo! Em cada impressão, em cada sensação há um quê desse velho amor: e igualmente alguma fantasia, um preconceito, uma desrazão, um insciência, um temor e alguma coisa mais contribuíram para tecê-la. Ali, aquela montanha! E aquela nuvem! O que é real nelas? Subtraiam-lhes a fantasmagoria e todo o humano acrescimo, caros sóbrios! Sim, se pudessem fazê-lo Se pudessem olvidar sua procedência, seu passado, sua pré-escola – toda a sua humanidade e animalidade! Não existe ‘realidade’ para nós e tampouco para vocês, sóbrios -, estamos longe de ser tão diferentes como pensam, e talvez nossa boa vontade em ultrapassar a embriaguez seja tão respeitável quanto sua crença de qua são incapazes de embriaguez.”Todo o capítulo.

  8. theo disse:

    Caro Amigo,antes de ir pro Inferno, exijo um julgamento justo, com direito ao contraditório e à ampla defesa.Abraço!

  9. Thorus disse:

    Acho que o silêncio é o modo mais inteligente de lidar com qualquer radicalismo. E com isso me refiro também aos ateus devotos, aqueles que defendem com unhas e dentes o ateísmo do mesmo modo que o senhor citado no post.Não sei se estou equivocado, mas o que tenho percebido é um crescimento da intolerância, tanto por parte dos religiosos quanto dos ateus. “Manifestos ateístas”, livros que negam a existência de deus através de métodos científicos etc.: novos modos de dogmatismo e intolerância.Parece que daqui a pouco existirão ateus que precisarão falar do mesmo modo que alguns religiosos: “eu acredito em deus, mas não frequento nenhuma igreja”.Ps.: que ‘tipo’ de conhecimento vc pensa qdo citou Nietzsche?

  10. theo disse:

    Caríssimo Amigo,certa vez euzinho fazia blague com um grupo de carolas numa festa. Disse eu “Deus nos deve um bocado de explicações!”. Um deles arregalou os olhos obtendo apoio imediato dos olhares dos outros e rebateu “mas nós também devemos um bocado de explicações a Deus!”. Eu ri, e num tom simpático-jocoso fiz a tréplica silabando lenta e enfaticamente “qualquer explicação que Deus precisar de mim eu dou sem o menor constrangimento. Qualquer coisa que Ele quiser!”… Abrakadabraaaaaaaaço!!

  11. Anonymous disse:

    Amigo,fico curiosa em saber dos protagonistas do diálogo…JS

  12. Anonymous disse:

    Estimado Amigo,O assunto é delicado. Radicalismo, pela crença ou não-crença, é demonstração clara de ignorância. Só pode ser ateu quem se dispôs a exaurir a religião; só pode ser religioso quem exauriu a profundeza do nada. Esse exaurimento, num e noutro sentido, é inviável…Tudo não passa de meias verdades. Nada melhor que a fé!Abraço.

  13. Anonymous disse:

    É..acho que esse último Anônimo disse tudo…Saudações e bom retorno a “Terrinha”!

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