Nossa mente ontológica

Hannah Arendt

Os psicólogos evolucionistas tentam explicar e justificar a existência de um “sentimento inato de religiosidade”. Segundo esses especialistas, possuir uma crença religiosa, acreditar em alguma divindade ou ser supremo teria uma função de preservação da espécie humana por encerrar respeito ao próximo e estimular a constituição de família. Ontem, após conversa com o amigo Karl (ecce medicus), passei a enxergar com certa cautela tal argumento evolucionista. O sábio amigo, um diletante bem sucedido no campo da filosofia, dissertou sobre a natureza metafísica da cognição humana, aqui entendida como a busca pelas causas primeiras do ser. O nosso raciocínio cognitivo, segundo Arendt, sempre desemboca em uma deidade, solução apaziguadora de nossos conflitos psíquicos, de nossa necessidade irrefreável de não deixar questão sem resposta. É bastante acertada a noção que o background cultural do indivíduo exerce papel preponderante na trajetória traçada desde o momento de formulação da indagação “metafísico-ontológica” até a solução redentora transcendental, divina. A quebra ponderada e refletida dessa maneira ancestral de raciocinar levaria ao ateísmo. Isso ficou claro durante a leitura da correspondência entre o judeu-ateu Philip Roth e a católica-atéia Mary McCarthy transcrita no livro Entre nós, citado no post anterior. Os dois escritores exemplificam como a cultura influencia e modifica a destruição da cognição metafísica que nos leva até um deus. Judeus e católicos necessitam de caminhos mentais diferentes para a resolução do problema levantado por Hannah Arendt. Será que nunca nos livraremos da herança judaico-cristã? Nietzsche está morto?

Discussão - 10 comentários

  1. Eu disse:

    Oi AMEm qual livro Arendt diz que nosso raciocício sempre desemboca numa deidade?

  2. Anonymous disse:

    Alguns neurocientistas,também veêm assim,mais ou menos como uma muleta necessária. Para mim é:transferência de responsabilidade.Helena

  3. Cara Luisa,A condição humana. Abraço, Amigo de Montaigne.

  4. Helena,”ecce” o problema!

  5. Carol disse:

    Não diga uma coisa dessas! To ficando com calafrios só de pensar nesse assunto.Medo, muito medo!Bjos

  6. Etienne LB disse:

    Belo post, Amigo

  7. Acredito que haja suficiente contraditório entre psicólogos evolucionistas e o primordial pensamento da evolução das espécies por seleção natural; quando esta é entendida ou explicada com diretrizes puramente antropocêntricas. Como se evolução fosse à solução final ou procurada. A estabilidade de uma cultura pode ser diferente da estabilidade de uma espécie quando, por exemplo, se analisa o tempo biológico versus tempo cultural muito mais recente e curto. Penso que outros fatores biológicos como a disposição de alimentos, o clima, ou a questão da união sexual consangüínea e suas conseqüências; possam ter influenciado nossa diferenciação.

  8. Caro Luiz Cláudio, acho que concordamos quando eu olho com alguma reserva para a psicologia evolucionista. Precisaríamos definir o que ambos entendemos por cultura, mas tenho a impressão que os seus argumentos sobre “diferenciação” não se aplicam à resolução do dilema “ontológico” levantado pelo post. Cordiais saudações, Amigo de Montaigne.

  9. Anonymous disse:

    Amigo,Serão, então, que o pensamento puramente racional conduz a uma resposta (deidade) não admitida pela própria maneira racional de pensar? A razão não encontra a si mesma. Por que não admitir o não-racional (deidade), se é fruto da razão?Aquelábrasso!PS: Estou acessando seu Blog pela primeira vez, por recomendação de um colega. Parabéns pelo empenho na manutenção deste site com excelentes notas culturais. Ainda tenho muitos outros post´s para ler, o que farei com muito prazer. Outros comentários deverei deixar às suas inteligentes provocações.

  10. Caro Amigo de MontaigneCertamente!Agradeço-lhe pela forma cortês de advertir-me quanto ao uso de termos como cultura e diferenciação sem o devido cuidado. Um reducionismo apressado e descuido ansioso de quem se empolga com o tema proposto. Ficarei restrito aqui ao conceito antropológico de cultura e não me atreveria a tratá-lo dialeticamente. Confesso aqui minha ignorância. No lugar de diferenciação temos um termo melhor senão a própria seleção natural. Até aí certamente a questão da Mente e Ser ficaram sem reflexão. Vivenciei “…a quebra ponderada e refletida dessa maneira ancestral de raciocinar…” e penso igualmente que o raciocínio ocorre de modo facilitado e natural diante das ferramentas adquiridas (cultura) até que determinadas soluções são cada vez menos utilizadas.Sou grato pela oportunidade,Um abraço,Luiz

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