Pedro Maciel e a promessa de novos amanheceres


Sol nascente, Claude Monet, 1873

Já não é de hoje que expresso a minha admiração pelo escritor mineiro Pedro Maciel. Autor de A hora dos náufragos  (Bertrand, 2006) e de Como deixei de ser Deus (Topbooks, 2009), acaba de lançar o seu inclassificável livro Retornar com os pássaros (Leya). Colagem coerente de aforismos, máximas e versos líricos, a inclassificabilidade do gênero tem aí o seu ponto forte. Em meio ao marasmo editorial brasileiro e mundial, consequência do dito “pós-modernismo”, Pedro Maciel traz frescor e revitaliza o nosso olhar, o nosso sentir. Tal qual um Pascal dos trópicos, brinda-nos com o seguinte pensée: “Penso em não morrer aqui, sentado, esperando por um facho de luz ou por uma ideia brilhante. Penso em não morrer por hoje. Penso em não morrer. Não é a primeira vez que penso em não morrer. A pior coisa de todas é morrer logo; a segunda pior é simplesmente morrer um dia“. Há momentos de grande lirismo, que eu ousaria em classificar de hilstianos – quanta falta me faz Hilda!, mas logo a enxergo na estante, à direita, entre amigos: “(…); não te esqueças de mim quando não encontrar palavras para nomear as coisas indeterminadas e sem-nome, não se deslumbre com a luz artifcial dos palcos da vida, ouça o rumor do vaivém dos seus descaminhos, não atenda se o passado ligar fora de hora, esqueça o passado por um instante“. Manoel de Barros arquetípico que vive em todos nós, Pedro Maciel vaticina: “O tempo e o habitat são fundamentais para a sobrevivência dos pássaros. Quem não é ave, não deve acampar-se sobre abismos.Pode-se reconhecer aves selvagens ou domésticas através do voo ou da voz. Basta observar os pássaros a cantar nos arbustos, o voo dos insetos diversos, os vermes a rastejarem pela terra úmida, e refletir que essas formas elaboradamente construídas, tão diferentes entre si e tão dependentes umas das outras de modo imensamente complexo, foram todas produzidas por leis que atuam à nossa volta“. Constituído por 72 pensamentos, a capa de Retornar com os pássaros se equivoca: onde se lê “romance”, leia-se “inclassificável: novos amanheceres possíveis”.

Discussão - 7 comentários

  1. Chloe disse:

    Caro Amigo de Montaigne,
    adorei a passagem: ‘… não se deslumbre com a luz artifcial dos palcos da vida…’.
    Se puder nos passar o nome do livro de onde a tirou.
    Obrigada!
    Abç.
    C.

  2. Amigo de Montaigne disse:

    Cara C.,
    trata-se do livro “Retornar com os pássaros”, de Pedro Maciel.
    Abs, Amigo de Montaigne.

  3. Chloe disse:

    Ah… é dele mesmo.
    Fiquei em dúvida se seria da Hilda Hilst, já que um pouco acima a postagem se refere a ela, entre amigos.
    Acho muito atencioso esse seu cuidado em não colocar lado a lado autores que não sentariam juntos pessoalmente.
    Poucas pessoas possuem sensibilidade para tal delicadeza.
    Obrigada pela informação. ; )
    Abç.
    C.

  4. Amigo de Montaigne disse:

    C.,
    são os tais versos hilstianos de Pedro Maciel…

  5. morani disse:

    “Penso em não morrer aqui sentado, esperando um facho de luz ou por uma idéia brilhante” A idéia brilhante já foi concretizada com a obra “Retornando com os pássaros”.
    “Penso em não morrer por hoje”. O amanhã, ao chegar, será o “hoje”.
    “Penso em não morrer” Não se morre; ficamos encantados, no dizer do grande poeta mineiro. Para que uma obra viva eternamente, o Poeta tem que morrer.
    “Não é a primeira vez que penso em não morrer”. Haverá outras vezes, mas temos esse compromisso inadiável à Vida.
    “A pior coisa de todas é morrer logo; a segunda pior é simplesmente morrer um dia.” Morrer ou não morrer? Eis o fulcro primordial da questão. Morre-se para a Vida ou para o Tempo? Vida/Tempo/Morte caminham de mão dadas. Quando não podemos levar de vencida os contrários, damos nossas mãos a eles. A sua obra não é inclassificável e, sim, revestida do brilho do que se faz novo; e o que se faz novo se faz eterno.

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