O julgamento de Céline

Saul Bellow
                  Saul Bellow  

A França, que já foi a França de Vichy, decidiu não comemorar os 50 anos da morte de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). A justificativa apresentada pelo ministro da Cultura, Fréderic Mitterand, é que Céline escreveu uma série de panfletos antissemitas (Bagatelles pour Un Massacre) e esteve pessoalmente engajado em delatar e entregar famílias judias que modificavam os seus nomes na tentativa de fugir da deportação para os campos de extermínio. A  questão que aqui se coloca é, mais uma vez, da distinção que se deve ou não fazer entre autor e obra. Acredito que a obra de Céline deve ser exaltada e comemorada em sua efeméride, da mesma maneira que o homem Céline deve ser execrado e julgado por sua conduta ética e moral bastarda. Em outros tempos, devo admitir, obra e  autor deveriam ser tratados de maneira indissociável, pensava eu. Mas como escreveu Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ muda-se o ser, muda-se a confiança.” Percebi que, ao confundir criador e criatura, o maior prejudicado era eu mesmo. Lembro-me que Faulkner e outros escritores americanos pediram que Saul Bellow assinasse manifesto em apoio a Ezra Pound. “Vocês pedem que eu assine algo a favor de alguém que quer ver a mim e aos meus iguais mortos, carbonizados, extintos?”, disse Bellow. Aqui o ponto essencial: o cidadão, escritor ou não, intelectual ou não, é responsável por suas opiniões e por tudo aquilo que elas possam lhe acarretar. E o julgamento, Céline, acontecerá. Ainda que durante fuga empreendida por sua vã viagem ao fim da noite.                                          

Discussão - 3 comentários

  1. E que pensa a respeito de Monteiro Lobato e sua obra? Parece que há cartas de Lobato que mostram não apenas seu lado eugenista, como racista, e tendo consciência de usar sua obra para disseminar tais ideais.
    []s,
    Roberto Takata

  2. Gloriosa Greta disse:

    cada vez mais olho mundo e vida como um lugar onde cabe mesmo tudo.
    o distinguir, o depurar, o discernir, o compreender, o ofertar
    – são os verbos que aprendemos no caminho, enfim –
    belíssimo texto.

  3. Amigo de Montaigne disse:

    Garbosa Greta,
    obrigado!

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