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Carnaval: pode usar glitter?

Est√° chegando, em alguns locais como na Bahia e nas capitais paulista e carioca j√° chegou, uma das √©pocas do ano que mais adoro: o Carnaval! E a cada ano aumenta a pol√™mica em torno de um brilho muito usado pelos foli√Ķes: o glitter. A maioria do glitter √© feito de pequenos peda√ßos de pl√°stico que demoram mais de 400 anos para se decompor. E, por serem t√£o pequenos, passam direto pelos filtros das esta√ß√Ķes de tratamentos de esgoto das cidades (quando h√° tratamento). Assim, caem nos rios e c√≥rregos que, mais cedo ou mais tarde, desembocar√£o no mar. Muitos animais aqu√°ticos como ostras, pequenos peixes e at√© baleias ingerem esse glitter. Ele pode ser confundido com os pl√Ęnctons, organismos bem pequenos que fazem parte da base da cadeia alimentar aqu√°tica. Ent√£o, surge a d√ļvida: o que usar no lugar do glitter comum? Escolha o glitter biodegrad√°vel, que n√£o prejudica o meio ambiente. No Brasil, existe at√© glitter vegano biodegrad√°vel. O problema √© que esses produtos ainda s√£o caros. Assim, deixo a dica para quem quer sair ecologicamente purpurinado: use glitter comest√≠vel para brilhar. No YouTube, d√° para encontrar receitas caseiras. Outra op√ß√£o √© comprar glitter comest√≠vel com aten√ß√£o ao r√≥tulo: ele deve ser livre de pl√°stico e de metais. E bom carnaval!

*Este texto foi falado por esta palpiteira oficial no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo.  Uma vez por semana, minha coluna vai ao ar por volta das 6h15 da manhã! Geralmente, às quintas-feiras. Beijo!

Foto: Carnaval de 2018/ Isis Diniz

Que tipo de praieiro é você?

Hoje, dia 8 de junho, é comemorado o Dia Mundial dos Oceanos. Você, que como eu ama o mar, manja do ambiente marinho onde estica sua canga e pega sua onda? Vamos ver! Teste seus conhecimentos abaixo.

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  1. O Brasil tem a segunda maior barreira de corais do mundo?a)Verdade, parte dela fica no litoral nordestino.
    b)Verdade, os Corais da Amaz√īnia fazem parte dela.
    c)Mentira, todo mundo sabe que barreira de coral quem tem é a Austrália.
    d)
    Mentira, a segunda maior barreira de coral fica na Flórida, Estados Unidos.
  1. O que é um tsunami?
    a)Uma onda gigantesca que perde pouca energia e pode aumentar de tamanho perto da praia.
    b)Uma onda gigantesca que nasce do mesmo tamanho e segue destruindo tudo.
    c)Indiferente. O que importa é surfar a onda.
    d)Uma onda como as marolas que se acabam na praia, mas por ser maior destrói mais.
  1. Com quantas √°rvores se constr√≥i uma canoa cai√ßara ‚Äúde um s√≥ pau‚ÄĚ?
    a)
    Pelo menos duas, uma para os bancos e outra para a estrutura. b)Prefiro n√£o responder a esta pergunta capciosa.
    c)
    Com um √ļnico tronco esculpido de maneira artesanal.
    d)Com um tronco apenas que também é usado para levantar a vela.
  1. O que é um molusco bivalve?
    a)√Č um personagem inventado para o desenho do Bob Esponja.
    b)
    √Č aquela famosa conchinha de duas partes que encontramos na beira do mar.
    c)
    √Č um animal com duas v√°lvulas que vive no fundo do oceano e se alimenta de invertebrados.
    d)
    √Č uma esp√©cie de esponja marinha que se fixa nos corais.
  1. Qual a diferença de um siri para um caranguejo?
    a)
    O caranguejo tem duas pinças e o siri tem uma.
    b)O caranguejo tem dez patas e o siri tem oito patas.
    c)O siri tem duas patas traseiras que s√£o como nadadeiras.
    d)Só sei que quem anda para trás é caranguejo.
  1. O que √© uma ‚Äúba√≠a‚ÄĚ?
    a)√Ē, Meu Rei, √© apenas um estado brasileiro.
    b)
    Uma área de terra que avança para o mar e cercada de água por todos os lados.
    c)
    Um eufemismo para uma praia ‚Äúbonita‚ÄĚ.
    d)
    Um acidente geográfico onde o mar é quase todo rodeado por terra.

7. O que s√£o peixes bent√īnicos?
a)
Peixes que vivem junto ao sedimento marinho.
b)Uma esp√©cie de peixe chamada assim em homenagem ao Chico Bento, da Turma da M√īnica.
c)Peixes que se alimentam de algas bentas.
d)Peixes que vivem próximos à superfície do mar.

  1. O que s√£o bancos de algas?
    a)Onde os animais marinhos guardam suas economias.
    b)Um local de ref√ļgio e de alimenta√ß√£o para esp√©cies como cavalo-marinho e tartaruga-marinha.
    c)Algas √† deriva que enroscam em embarca√ß√Ķes.
    d)Algas que invadem a praia deixando a √°gua colorida.

Gabarito:

1.a 2.a 3.c 4.b 5.c 6.d 7.a 8.b

Se voc√™ acertou menos de quatro quest√Ķes, √©¬†mergulhar mais no tema para n√£o morrer na praia!

Se voc√™ acertou entre cinco e sete quest√Ķes, j√° √© quase um surfista na crista da onda.

Se você acertou entre oito e nove, quem sabe com mais braçadas alcança o tesouro do pirata?

Agora, se você acertou tudo, parabéns sereia ou sereio do mar! Seu mar está para peixe!

Saiba mais sobre o ambiente marinho e áreas costeiras acompanhando o trabalho do Instituto Costa Brasilis! Mais teste aqui!

 

 

J√° pensou em lagartear sob o Sol?

Toda vez que visito um local paradis√≠aco natural muito frequentado por humanos em temporadas, mas com pouca ou quase nula fauna silvestre, penso: ‚ÄúCad√™ os bichinhos que estavam aqui?‚ÄĚ Existiriam animais que ainda frequentam o lugar? Quais seriam? Em qual quantidade? Em quais √©pocas do ano esses animais v√™m para c√°? A natureza sempre nos surpreende.

Passei o √ļltimo fim de semana em S√£o Sebasti√£o (litoral norte de S√£o Paulo) e, j√° que n√£o tinha compromisso na capital, aproveitei para emendar mais dois dias na praia. Quando tenho a possibilidade de fazer isso √© comum me deparar com animais marinhos. Estes devem ficar escondidos – onde? -, enquanto o tumulto toma conta da praia.

Certa vez, quando s√≥ avistava no m√°ximo dez pessoas em toda uma praia de cerca de tr√™s quil√īmetros, quase pisei em uma arraia enquanto entrava no mar. Paulistanos sabem o quanto isso √© raro aqui no litoral do Sudeste. Em outra ocasi√£o, durante um deslumbrante p√īr do sol no qual a maioria dos humanos j√° havia se evadido da areia, vi duas tartarugas no raso (a √°gua estava abaixo do meu joelho) dan√ßando e se alimentando de restos de vegetais conforme o balan√ßo das ondas.

Muitas outras vezes encontrei siris de diversas cores e estampas, caranguejos rosa-choque, uma quantidade surpreendente de maria-farinha, de mergulh√Ķes, de golfinhos, de ermit√Ķes, etc. √Č o que se espera de um ambiente litor√Ęneo, certo? Nem sempre! Desta vez‚Ķ os lagartos estavam por todas as partes!

N√£o sei se √© √©poca de reprodu√ß√£o, mas na estrada que d√° acesso √† praia vi um tei√ļ correndo para o meio das √°rvores. Achei sorte. At√© comentamos no carro! Seguimos em frente. Caminhando para a praia, vi mais dois tei√ļs em momentos diferentes e de diferentes tamanhos correndo para o mato. Ok.

https://www.instagram.com/p/BZea_52ge-o/

Na segunda-feira, quando voltamos √† areia da praia, notei que ela estava repleta de pegada de lagartos! E um tei√ļ com mais de um metro e meio (n√£o √© hist√≥ria de pescador) correu para dentro de uma pequena caverna na praia! Ficamos de tocaia esperando ele sair para v√™-lo de perto. Conseguimos!

Em seguida, ao virarmos a cabe√ßa para o caminho que acaba na praia, observamos um tei√ļ pequeno, parecia jovem, correndo e saltando mais de dois metros! Um lagarto sal-tan-do. Nunca vi isso. Mas analisando a anatomia do bicho, um rabo grande e patas com dedos longos, d√° para entender que o corpinho deles deve ter se adequado para a modalidade salto √† dist√Ęncia.

https://www.instagram.com/p/BZecYg3Aq4Z

Era tanto lagarto tomando sol próximo da gente que até a novidade perdeu a graça. De ambos os lados. Nem mais os lagartos corriam de nós como nem as crianças queriam saber de correr atrás dos bichos para vê-los mais de perto.

Olhando para o lado direito, a moça deitada sobre a canga com o braço protegendo os olhos, e para o lado esquerdo, o lagarto parado nos fitando ao longe, deu para entender a expressão. Lagartear ao Sol. Aliás, o sol estava tão forte, a brisa tão fresca e branda e o céu tão azul que ninguém resistia ao lagartear. Nada melhor para dar aquela esquentadinha no sangue e liberar endorfina. Que o Sol brilhe para todos.

Baleias: elas voltaram!

IMG_8232Reparou que, no √ļltimo m√™s, h√° mais not√≠cias de baleias jubarte sendo avistadas na costa brasileira? Principalmente, vistas de passagem pelos estados da regi√£o Sudeste como S√£o Paulo e Rio de Janeiro? Coincid√™ncia? N√£o (na foto, uma r√©plica de filhote de jubarte, no Projeto Baleia Jubarte, Bahia).

Nesta √©poca, inverno, essa esp√©cie de baleia (Megaptera novaeangliae) sobe o litoral brasileiro at√© a regi√£o da Bahia, onde parem seus belos e gigantes filhotes que nascem com quatro metros e pesam mais de uma tonelada! L√°, no divino estado brasuca, ficam at√© cerca de novembro amamentando a cria. Quando o filhotinho est√° mais rechonchudinho, ela volta para as √°guas frias do oceano em busca de alimento, o krill (um min√ļsculo camar√£o).

Devido √† prote√ß√£o delas, sua popula√ß√£o est√° aumentando. Se voc√™ for para a Praia do Forte (Bahia), entre julho e outubro, poder√° fazer um passeio de barco para avistar esses belos animais – eles ficam cerca de tr√™s quil√īmetros longe da costa. Duas dicas: fa√ßa o passeio com ag√™ncias credenciadas pelo Projeto Baleia Jubarte e em qualquer √©poca visite a organiza√ß√£o.

O Projeto oferece visita monitorada no local explicando muita curiosidade sobre os cet√°ceos (animais dos quais ela faz parte) e h√° algumas r√©plicas fabulosas para crian√ßas. √Č uma visita r√°pida, mas de intenso aprendizado.

Ent√£o, se voc√™ √© daqueles que s√≥ gosta de praia no ver√£o, repense. Se tiver sorte, pode ver maravilhosas baleias dando um ‚Äúoi‚ÄĚ com seus saltos (elas saltam para se livrar dos piolhos, eca) ou batendo suas caldas por a√≠ (√© por meio da calda que os pesquisadores sabem qual baleia √©, o desenho √© como uma impress√£o digital). Este ano, minha cunhada viu jubarte em S√£o Sebasti√£o. Eu bem que fiquei horas e dias fitando o mar, mas n√£o tive a mesma sorte. Mas j√° observei pinguins no litoral de S√£o Paulo e de Santa Catarina. <3

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Ali√°s, outra informa√ß√£o r√°pida. As jubartes n√£o s√£o as √ļnicas baleias que procuram o litoral do Brasil para procriar. A maravilhosa baleia-franca (Eubalaena australis), aquela cheia de cracas brancas, tamb√©m sobe at√© Santa Catarina para ter seus filhotinhos nesta √©poca do ano. E voc√™ tamb√©m pode v√™-las saltar sentado na areia (!) ou de barco (a foto acima e abaixo tirei de uma franca na √Āfrica do Sul – se for para l√°, tenho muitas dicas de passeio para parques).

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Por fim, √ļltima curiosidade: voc√™ sabe como as baleias e golfinhos dormem? O porqu√™ deles n√£o fecharem os olhos? Pois descobri l√° no Projeto Baleia Jubarte. Os lados direito e esquerdo do c√©rebro desses animais s√£o separados. Na hora do sono, eles ‚Äúdesligam‚ÄĚ um dos lados, enquanto o outro mant√©m atividades b√°sicas de sobreviv√™ncia como n√£o deixar afundar. Incr√≠vel, n√©?

Bom, eu pretendo fazer mais apari√ß√Ķes por aqui. Espero conseguir. A maternidade e a experi√™ncia do meu trabalho¬†na Iniciativa Verde me trouxeram mais repert√≥rio e uma nova maneira de ver a vida. Um beijo desta amante dos cet√°ceos. Vamos falar balei√™s!

Conhece o gigante bambu do mar?

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=JDOWF3zBlWQ” ratio=”4:3″]

J√° ouviu falar sobre o gigante bambu do mar? Ele vive em alguns locais com √°guas frias do sul do planeta como no litoral da √Āfrica do Sul. Pode ser encontrado jogado na areia, geralmente, arrancado pela for√ßa das ondas do mar. Mas sua beleza se real√ßa quando um bambu vive ao lado do outro formando uma misteriosa floresta aqu√°tica. E, assim, percebemos que a natureza √© superlativa na √Āfrica at√© debaixo da √°gua.

Conhe√ßa o √ļnico fiorde brasileiro

Ando meio sumida por aqui, n√©? Por enquanto, farei posts mais espa√ßados devido ao tempo dedicado ao trabalho (http://revistapesquisa.fapesp.br/) e a outros projetos tomara rent√°veis – preciso pagar o financiamento no fim do m√™s! Mas saiba que assuntos para compartilhar n√£o faltam. Por exemplo, voc√™ j√° ouviu falar sobre o √ļnico ‚Äúfiorde‚ÄĚ brasileiro?

Em junho, viajei com amigos para o Saco do Mamangu√°, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. O local √© conhecido por ser o √ļnico ‚Äúfiorde‚ÄĚ brasileiro – fiorde √© uma forma√ß√£o geol√≥gica em que o mar passa entre altas montanhas. A paisagem √© comum em pa√≠ses pr√≥ximos √† Ant√°rtida ou ao √Ārtico como a Noruega e a Nova Zel√Ęndia.

Segundo uma mat√©ria na revista Mundo Estranho, essas forma√ß√Ķes foram criadas pela a√ß√£o do degelo. H√° milhares de anos, quando a temperatura do planeta esquentava, a √°gua derretida avan√ßava pelo vale ‚Äúcavando‚ÄĚ ainda mais a terra. Resultado: nesses locais, as montanhas s√£o alt√≠ssimas e a √°gua pode ter mais de um quil√īmetro de profundidade.

Logo… n√£o existe fiorde no Brasil. De acordo com um ‚Äúinformativo sobre o Saco do Mamangu√°‚ÄĚ que recebi dos donos da casa que alugamos – fino, n√£o? -, o local √© uma forma√ß√£o¬†conhecida como “ria”, ou seja, um leito de rio que foi invadido pelo mar. Mesmo assim, o Mamangu√° √© incr√≠vel.

Imagine um bra√ßo de mar com √°gua transparente, calma e com tons que variam do verde-esmeralda ao azul-calcinha. Esse bra√ßo de mar avan√ßa entre duas cadeias de montanha de 11 quil√īmetros de comprimento e recobertas pela Mata Atl√Ęntica bem preservada. Ao fim do bra√ßo de mar, uma cachoeira desagua no mangue. Ah, detalhe, a areia das praias √© dourada.

Em frente √† casa alugada, entre o √≠ngreme morro e o mar, duas tartarugas-marinhas todo dia colocavam o rosto para fora da √°gua – l√° a profundidade m√°xima √© de 9 metros no centro do bra√ßo de mar. Para atravessar de uma margem √† outra, bastavam alguns minutos remando em uma canoa – a dist√Ęncia entre as margens opostas deve ser de um quil√īmetro ou mais.

Bom, cerca de 100 fam√≠lias cai√ßaras vivem no Mamangu√° – entre as salpicadas mans√Ķes. Os habitantes prestam servi√ßos para os turistas e aos donos das casas – como fazer o transporte das pessoas para o local usando barcos, j√° que √© inacess√≠vel de carro -, pescam e praticam a agricultura de subsist√™ncia, o extrativismo e o artesanato.

Duas unidades de conserva√ß√£o se sobrep√Ķem na regi√£o: √Ārea de Preserva√ß√£o Ambiental de Cairu√ßu (em √Ęmbito federal) e a Reserva Ecol√≥gica da Juatinga (estadual). Detalhe: os barulhentos jet-skis n√£o s√£o bem-vindos no lugar onde a Bella e Edward, protagonistas do hit adolescente Crep√ļsculo, passaram a lua de mel.

Conhe√ßa os pl√Ęnctons!

[youtube_sc url=”http://youtu.be/S83_rs_HVUc”]

Depois de muitas tentativas frustradas, consegui filmar os pl√Ęnctons – organismos bem pequenos que vivem na coluna de √°gua do mar – dos quais tanto falo por aqui. Eles impressionam. Quando agitamos a √°gua, esses organismos (algas, larvas, pequenos animais) emitem uma luz pr√≥pria. Em alguns locais mais preservados do litoral brasileiro, como no Saco do Mamangu√°, os pl√Ęnctons emitem luz com a quebra das ondas e quando um peixe ou outro animal marinho faz movimentos bruscos sob a √°gua. A luz emitida por eles forma c√≠rculos e pontos no mar como se fossem fogos de artif√≠cio. Apaixonante.

Existe apenas 10% da vida marinha no Rio?

No feriado de Corpus Christi, peguei um barquinho – cujo quase todo o casco permanece dentro da √°gua e mal tem espa√ßo para uma pessoa sentada sem bater a cabe√ßa na lona azul que o recobria – e fui embora feliz da vida para um lugar onde n√£o chega sinal de celular. Ali√°s, e nem energia el√©trica. Ap√≥s suportar o vento com chuvisco soprado do Sul por cerca de 45 minutos, desembarco no Saco do Mamangu√°, em Paraty. N√£o sei se o lugar √© um vilarejo, afinal, havia mans√Ķes e casinhas de pescadores separadas por trilhas por todo o local – depois escrevo um post sobre a incr√≠vel geologia de l√° para entender melhor esse salpicado de constru√ß√Ķes.

Visualmente, o Saco do Mamangu√° parece um lugar intocado. Sua vasta e densa mata, os altos morros que acabam no mar, a √°gua azul-clara e verde-esmeralda, as pequenas faixas de areia dourada-clara me levaram longe. Lembraram paisagens asi√°ticas de pa√≠ses como o Vietn√£. Um lugar naturalmente imponente. Talvez, por isso mesmo, dif√≠cil de ser domado pelo homem. A √ļnica vendinha ficava distante cerca de 20 minutos por trilha – ou, dependendo da dire√ß√£o e velocidade do vento, 5 minutos remando – da casa onde me hospedei com amigos. Bom, resolvemos encarar o barro para explorar a mata, vislumbrar as paisagens e comprar mais velas e frutos do mar direto do pescador.

 

Escolhemos alguns quilos de peixes. Enquanto a moça limpava, por quase 20 minutos aprendi mais sobre meteorologia e sobre a natureza com um senhor de 79 anos. Esperto, há cerca de 50 anos tem sua mesma casa privilegiada de frente para o mar e pretende continuar por ali mesmo, longe da bagunça dos grandes centros urbanos que ele conhece bem. Atentamente, eu olhava nos olhos profundos e vividos do senhor, hoje, ex-pescador e dono da vendinha. Ele dizia que o sol apareceria quando voltar a ventar novamente do Sudoeste e, passado um tempo, começar a entrar vendo do Leste Рfoi o que aconteceu no domingo. Ele tinha razão.

 

Deixamos o c√©u, focamos no mar. N√≥s, moradores de S√£o Paulo, ficamos com vontade de comer camar√£o e lula. Por√©m, a quantidade muito pequena dispon√≠vel para a venda n√£o daria para alimentar todas as bocas da casa que alugamos. O senhor contou que, nos √ļltimos 20 anos, ele viu despencar o n√ļmero de peixes e de frutos do mar pescados. Antes, com a √°gua no joelho, pegava peixes de 16 quilos. Agora, n√£o h√° nada de consistente no raso. N√≥s pudemos observar tartarugas, siris e peixes “beb√™s”. Perguntei o quanto a vida marinha diminuiu na regi√£o. “Hoje em dia, pesco 10% do que pegava h√° 50 anos”, disse. “10%”, repeti, inconformada, na esperan√ßa de ter ouvido errado. “Isso.”

 

Ele disse que a pior queda aconteceu nos √ļltimos 20 anos. Listou ao menos cinco esp√©cies de peixes que nunca mais viu no local. Para o ex-pescador, a pesca indiscriminada dos cardumes – sem deixar um peixe no mar para contar hist√≥ria – foi uma das causas do problema. Ele tamb√©m falou sobre o defeso do camar√£o, quando sua coleta √© proibida no Sul e Sudeste entre os meses de mar√ßo e maio devido √† √©poca de reprodu√ß√£o do animal. Contou que no fim do ano o camar√£o tamb√©m se reproduz e teceu uma vasta argumenta√ß√£o t√©cnica alegando que deveriam haver dois defesos. Infelizmente, n√£o tenho informa√ß√Ķes cient√≠ficas para confirmar ou refutar a queda na pesca e o breve causo do defeso – se voc√™ tiver, deixe nos coment√°rios. Espero que tudo isso n√£o passe de hist√≥ria de pescador.

Quando os barcos olham para o Sul

O cotidiano de quem mora em ilhas – com exce√ß√£o de algumas como Florian√≥polis e Manhattan, claro – √© bem diferente se comparado ao dia a dia daqueles que vivem em centros urbanos. Os habitantes t√™m uma rela√ß√£o mais pr√≥xima com o meio ambiente que o cerca e tem no√ß√£o que dependem diretamente da natureza. Por exemplo, √© comum as operadoras de turismo cancelarem passeios quando o mar est√° “mexido” (agitado demais). Infelizmente, nesses casos, alguns pescadores se arriscam devido √†s suas condi√ß√Ķes econ√īmicas. De qualquer maneira, os habitantes, de modo geral, percebem quando √© melhor fincar o p√© em terra firme. E, assim, para garantir a pr√≥pria preserva√ß√£o naquele ambiente isolado, colocam em pr√°tica os conhecimentos emp√≠ricos – aqueles adquiridos pelas experi√™ncias cotidianas.

No feriado do dia primeiro de maio, durante o caf√©-da-manh√£ eu observava os barcos ancorados na Vila do Abra√£o, Ilha Grande, em Angra dos Reis. Fazia frio e o c√©u estava coberto de nuvens. O frac√™s dono da pousada percebeu meu olhar de d√ļvida perdido no horizonte. Chegou √† mesa em que estava sentada com meu marido: “Os barcos est√£o olhando para o Sul”. Era verdade, a frente dos barcos estavam voltadas a esse ponto da rosa dos ventos. “Isso significa que est√° vindo uma frente fria”, explicou. E, com base no movimento dos barcos, completou a previs√£o do tempo: “Hoje vai ser frio e chegar√° mais chuva”. Acertou, mas mesmo assim aquele sol ardido de chuva mostrou as cores completamente transparente das √°guas e a area dourada.

 

Eu, que sou toda mar, comecei a reparar com outros olhos a dan√ßa dos barcos. Quando eles est√£o presos pela √Ęncora ou amarrados por um s√≥ ponto, se movimentam sobre as √°guas, principalmente, de acordo com a velocidade e a dire√ß√£o do vento. Por isso que em uma ba√≠a √© raro uns se chocarem com os outros mesmo ancorados lado a lado. Para algumas pessoas, essa hist√≥ria pode parecer boba. Afinal, j√° temos diversas institui√ß√Ķes pesquisando sobre meteorologia e divulgando na internet as previs√Ķes do tempo. N√£o desmere√ßo o trabalho deles, ao contr√°rio, admiro. Mas n√£o dever√≠amos perder a conex√£o com o meio ambiente que nos cerca. Seja em Manhattan, seja em Ilha Grande.

Tenha um dia colorido

 

O po√©tico cen√°rio acima foi fotografado no dia 1¬ļ de maio, na Vila Abra√£o, em Ilha Grande (Angra dos Reis). Os dois arco-√≠ris apareceram para nos despedir horas antes de deixarmos a ilha da fantasia e voltarmos √† nossa realidade no continente. Como paisagens encantadoras nunca s√£o demais, compartilho essa beleza da natureza com um desejo de bom dia para voc√™.