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Será que somos mais parecidas com nossas avós maternas?

Para mim, a maternidade trouxe uma maior conex√£o¬†comigo. Ela me fez voltar ao meu passado, aos meus antepassados, √† minha inf√Ęncia. Dias ap√≥s parir, tive momentos depressivos, devido √† baixa nos horm√īnios e √† mudan√ßa radical no meu estilo de vida. Antes, eu (esp√≠rito livre) sa√≠a por a√≠ para encontrar pessoas queridas, para passear, para trabalhar, sem a responsabilidade de ter que cuidar de algu√©m. Que, ali√°s, dependia de mim para sua sobrevi√™ncia no sentido mais animalesco da palavra: eu carregava no meu corpo¬†o¬†alimento dessa pessoa. Para suprir essa inquieta√ß√£o e na busca em¬†ser uma boa m√£e, comecei a ler muito, a estudar ainda mais sobre maternidade (a quest√£o biol√≥gica, psicol√≥gica, comportamental). E decidi que esta √© mais uma chance que a vida oferece para me conhecer mais,¬†me aceitar e usar isso para me tornar uma pessoa melhor – n√£o sei se j√° consegui ou se vou conseguir, mas procuro¬†o caminho.

Nessa viagem espiritual, me deparei com um texto em espanhol¬†que poetizava a quest√£o do √≥vulo (pena que perdi o link). Eu sabia que n√≥s nascemos com os √≥vulos que dar√£o origem aos nossos filhos. Mas nunca parei para pensar no significado dessa condi√ß√£o. O que a nossa av√≥ comeu, sentiu, viveu enquanto gerava a nossa m√£e influenciou diretamente a nossa gen√©tica. Coincidentemente, ap√≥s ler esse texto, cheguei a uma pesquisa apontado que algumas condi√ß√Ķes¬†psicol√≥gicas das av√≥s s√£o mais vistas ou ainda observadas em netos do que nas pr√≥prias filhas (se eu achar o link para pesquisa, posto aqui). Como, por exemplo, traumas. Incr√≠vel, n√£o?

E, desde a gravidez, tenho vontade de compartilhar esse meu conhecimento. Algumas amigas minhas, que ficaram gr√°vidas logo depois, at√© brincavam comigo dizendo que eu era a doula delas. Tirei muitas d√ļvidas e dei muitas dicas que, literalmente, mudaram a minha gravidez e o parto para melhor. Dicas nem sempre facilmente encontradas. Eu gostaria de compartilh√°-las com mais pessoas, colocar mais quest√Ķes e filosofar mais sobre o tema. Quem sabe possam ser √ļteis para outras tamb√©m? Ap√≥s meses gestando a ideia, quando a beb√™ dormiu, resolvi gravar o primeiro v√≠deo da pretendida s√©rie “Ci√™ncia da Maternidade”. Gravei¬†sem roteiro, de supet√£o, como diz minha m√£e. Editei¬†na madrugada, durante o sono da crian√ßa. Este √© um piloto. Aceito d√ļvidas, sugest√Ķes, cr√≠ticas e elogios (claro!). E, com esses v√≠deos, quero criar uma corrente do bem. Neste mundo √°rido para as m√£es e aos criadores em geral, quero deixar muito amor e palavras de conforto para acalentar os cora√ß√Ķes. <3 Bem-vinda a mais um primeiro filho!

Maternidade: cinco motivos para se sentir muito mamífera

peNunca me senti tão mamífera em minha vida. Lembro-me que, quando era adolescente, fiz um um vídeo engraçadinho com um colega de classe no Zoológico de São Paulo sobre o Reino Animal. No final, nos filmávamos mostrando que éramos parte da natureza, exemplo de uma espécie de mamíferos (pena que a professora ficou com a fita VHS, hunf). Mas esta vida vivida sobre o asfalto, desconectada da terra, pode levar os homo sapiens a se julgarem reis de um reino à parte. Síndrome do Pequeno Príncipe. Até vir a maternidade e, ufa, jogar todo esse concreto no ventilador!

Como eu tenho vivenciado, literalmente na pele, essa emo√ß√£o, resolvi compartilha os cinco principais motivos que me fazem sentir extremamente mam√≠fera. Se voc√™ √© pai, seja paciente com a m√£e (tenha ela parido ou adotado). Se voc√™ tem filhos, pode se identificar. Se voc√™ est√° gr√°vida ou √© ‚Äútentante‚ÄĚ, veja o que te espera! Acima de tudo, saiba que √© uma del√≠cia lembrar que somos animais. Como se tivesse me conectando, novamente, com Gaia.

Lembrando que a ciência não é exata, ainda mais quando se trata de maternidade, vamos ao top five:

 

 5. Colinho

O beb√™ n√£o chora √† toa. Cada autor determina uma idade diferente para afirmar que a crian√ßa faz a famosa ‚Äúmanha‚ÄĚ. Tem pesquisador que diz que √© com dois anos, outros com cinco, sete ou mais! ‚ÄúO choro do beb√™ pode ser pelos principais motivos: fome, sono, calor, frio, coc√ī, xixi ou aconchego‚ÄĚ, disse uma enfermeira carrancuda para n√≥s, pais novos, no √ļltimo dia em que est√°vamos na maternidade. Sim, a crian√ßa tem necessidade de colinho. No tempo das cavernas, se voc√™ deixasse seu beb√™ no ch√£o, ele poderia morrer por in√ļmeros motivos. √Č no colo, principalmente da m√£e, que ele se sente seguro. Quando o beb√™ come√ßa a reconhecer seus cuidadores (a chorar no colo dos ‚Äúestranhos‚ÄĚ, o que √© sinal da sua evolu√ß√£o cognitiva), chega at√© a buscar o olhar da m√£e para checar se o¬†colo do outro √© seguro. Algumas pesquisas cient√≠ficas, inclusive, mostram que crian√ßas que ficam no sling (aquela ‚Äúrede‚ÄĚ de levar o beb√™ junto ao corpo) choram menos. Assim, eu me sinto uma macaca ou uma tamandu√°. Sempre carregando minha cria comigo, seja pendurando a roupa no varal, guardando a lou√ßa ou comprando algo por a√≠.

 

4. Antissocial

Em algumas fases da maternidade, as m√£es se tornam antissociais. Por exemplo, nos primeiros quatro meses de gravidez √© comum as futuras mam√£es n√£o quererem sair de casa ou conversar com amigos (mesmo aquela que adorava passar madrugadas bebendo no boteco). As explica√ß√Ķes s√£o in√ļmeras. No come√ßo da gravidez, a mulher sente muito sono. Al√©m disso, √© uma fase delicada: quando mais h√° aborto espont√Ęneo e quando o que n√≥s ingerimos ou doen√ßas que pegamos podem prejudicar mais o desenvolvimento do embri√£o (este se torna feto l√° pela pela d√©cima semana, quando os principais √≥rg√£os est√£o formados). Ap√≥s o nascimento, talvez pela exaust√£o em ter que amamentar a cada tr√™s horas e pela adapta√ß√£o √† nova vida com uma vida nova nos bra√ßos, as m√£es tamb√©m costumam permanecer¬†antissociais. Outra explica√ß√£o pode ser porque a crian√ßa rec√©m-nascida √© muito vulner√°vel. A maioria das doen√ßas que, para adultos sadios n√£o fazem c√≥cegas, em rec√©m-nascidos pode ser fatal. Assim, a s√°bia natureza faz a m√£e ficar quietinha se recuperando com a cria em casa.

 

3. Proximidade

Este √© um comportamento que jamais imaginei que teria (o mesmo serve para o antissocial, rs): neura longe do beb√™. Simplesmente, √© quase insuport√°vel ficar longe do bebezinho, pior ainda se ele s√≥ se alimenta mamando no peito. Parece que um peda√ßo seu est√° faltando. Um peda√ßo, ali√°s, que acabou de existir. √Č muito, mas muito estranho. D√° medo de acontecer alguma coisa conosco que nos impedir√° de chegar a tempo para¬†amamentar o beb√™. E o beb√™, pode ter certeza, ficar√° se esgoelando de fome. A vontade √© de ficar grudadinha, corpo a corpo, o tempo inteiro com o beb√™. Mais um comportamento de prote√ß√£o da esp√©cie da s√°bia m√£e natureza.

 

Katy_Perry_California_Gurls

2. Amamentação

Este dispensa muita explica√ß√£o, concorda? Quer fato mais maravilhoso e animal do que ver sua cria crescendo apenas se amamentando com o leite produzido pelo seu pr√≥prio corpo? Eu at√© suo amamentando. Fico exausta, mesmo permanecendo parada ao amamentar! Bom, tenho v√°rias curiosidades sobre o assunto. Pesquisas recentes mostram que o corpo guarda no culote, t√£o detestado pelas pr√≥prias mulheres na nossa atual sociedade, nutrientes important√≠ssimos enviados para o beb√™ via leite materno. Ser√° por isso que homens acham mulheres com culote mais atraentes? Afinal, beleza tem liga√ß√£o com sa√ļde e preserva√ß√£o da esp√©cie‚Ķ Outra curiosidade √© que o leite materno tem subst√Ęncias como melatonina, em maior quantidade durante a noite. Ela √© um horm√īnio que ajuda a regular o sono. Portanto, deixa o beb√™ com sono para a mam√£e ter horas de descanso revigorante. Sobre quest√£o mais f√≠sica, sabia que o bico do peito tem uma esp√©cie de ‚Äúdispositivo‚ÄĚ? Quando o seio n√£o est√° muito cheio de leite, deixar o bico para cima e o suti√£ bem preso, segurando o peito para cima, evita que o leite vaze. Pode reparar: o beb√™ coloca o bico para baixo e aperta a aur√©ola como se estivesse bombeando o leite. Por isso, se a m√£e est√° sentindo dor no peito ao amamentar, alguma coisa est√° errada. Com a famosa ‚Äúpega‚ÄĚ correta, sai mais leite.

 

 1. Gravidez

Outro estado de corpo e de alma livre de explica√ß√Ķes. Eu me sentia uma canguru, carregando meu filhotinho dentro da bolsa. Como gosto de ler e mais ainda sobre fatos cient√≠ficos‚Ķ Imagine o tanto que pesquisei sobre o tema durante a minha condi√ß√£o grav√≠dica. Desde a gravidez, o corpo guarda e d√° para o beb√™ tudo o que h√° de melhor dentro de voc√™. Portanto, voc√™ pode ter uma anemia se n√£o se cuidar, porque aquele bichinho hospedeiro est√° sugando tudo o que h√° de melhor em seu corpo. Seu corpo – e mente – trabalha em fun√ß√£o dele. Dizem que pode haver at√© mudan√ßas f√≠sicas no c√©rebro da gr√°vida! O que pode explicar o porqu√™ de gr√°vidas terem problemas de mem√≥rias de curto prazo e de concentra√ß√£o. Para compensar, acredita-se que gr√°vida pode aprender mais r√°pido e ter melhor capacidade de resolver problemas. Como me disseram, se f√īssemos r√©pteis, seria mais pr√°tico. Botar√≠amos ovo e a cria se viraria comendo o que est√° dentro do ovo. Depois, sairia buscando seu alimento. Mas existe coisa mais bela do que se doar para o pr√≥ximo e am√°-lo como a si mesmo?

 

Obs.: Não coloquei referências bibliográficas porque leio muito artigo pelo celular e, infelizmente, acabo perdendo os links.

Seja bem-vinda, você que sempre esteve aqui

2014-10-07 13_42_50Lembro como se fosse ontem. Há seis meses, eu passava pela experiência mais transcendental da minha vida. Talvez, fosse a segunda dela, perdendo apenas para meu nascimento. Momento que, infelizmente, não lembro. Quando acordei sentindo uma cólica leve, sabia que, enfim, o momento estava próximo. Só não o quão próximo. Será que pressionar os pontos de acupuntura deu certo? Talvez. Conversar com você? Talvez, também.

Depois de descobrir que estava com um centímetro e meio (e meio, rs) de dilatação, fiz o que a fisioterapeuta recomendou: suba e desça escada. Caminhe. Atividades que ajudam a aumentar o começo da dilatação.

N√£o encontrei nada mais agrad√°vel e po√©tico do que andar para ver uma exposi√ß√£o em¬†um hospital a ser reestruturado, o Hospital Matarazzo. Eram os nossos momentos de renascimento ‚Äď espero que o local, s√≠mbolo da cidade de S√£o Paulo, tenha o destino de perman√™ncia. E, na Avenida Paulista, eu estava feliz. Mesmo me amparando nos troncos das √°rvores a cada contra√ß√£o ou naquele que dividiria comigo o momento mais incr√≠vel das nossas vidas.

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Inexplicavelmente, descobri que √© poss√≠vel dormir entre cada pico de contra√ß√£o durante o trabalho de parto ‚Äď at√© atingirmos cinco cent√≠metros de dilata√ß√£o. Deve ser o corpo se preparando para renovar as energias naqueles poucos minutos ou segundos que temos. Uma prepara√ß√£o para conseguir descansar ou dormir entre mamadas a cada tr√™s horas? Pode ser. Devemos nos alimentar decentemente. Devemos ter calma. Eu estava em paz.

Quando nos entregamos ao instinto animal, nosso corpo e mente sabem como agir na hora ideal. Como disse o anestesista (nunca esquecerei da imagem que formei em minha mente, um misto de Monet com Vidas Secas): ‚ÄúPense em uma ponte com um rio correndo sobre ela. Essa √© a for√ßa da natureza. Deixe ela agir‚ÄĚ. Al√©m de bem-humorado, era um m√©dico fil√≥sofo, rs.

Tamb√©m nunca esquecerei do sorriso feliz da obstetra chegando de madrugada e me olhando com a cabe√ßa de lado: ‚ÄúComo voc√™ est√° se sentindo?‚ÄĚ ‚ÄúMorrendo‚ÄĚ, reclamei. Na hora, o riso fechou e apareceu uma fei√ß√£o de investiga√ß√£o. Acho que eu precisava daquele ombro para desabafar e ter mais seguran√ßa. Ela saberia o que fazer.

E, quando ela chegou, eu me rendi √† dor das contra√ß√Ķes. N√£o resisti. N√£o relutei. N√£o desisti. Ali√°s, desistir era uma palavra que n√£o existia no meu dicion√°rio naquele momento. S√©rio, mesmo. No fundo, a gente sabe que n√£o h√° volta. Ent√£o, ela nem passa em nossa mente. E quando me entreguei √†quela dor que, para mim, parecia que seria partida ao meio, entrei em transe.

N√£o tinha no√ß√£o de hor√°rio, n√£o me importava aos sons que emitia (que pareciam de entusiasmo), nem pensava na dor de cada contra√ß√£o que estava por vir no curto intervalo de minuto (acho que as contra√ß√Ķes, neste momento, vinham a cada menos de dois minutos). Simplesmente, me entreguei. Queria vomitar, segurava para n√£o desmaiar. Desfalecia. Tudo em transe. Tamb√©m nem pensava no que estava por vir.

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Ap√≥s fazer for√ßa, muita for√ßa, com vontade de colocar para fora sabiamente a cada contra√ß√£o, ouvi o choro estridente. Naquele momento, fomos apresentadas na vida a√©rea. Voc√™ tinha acabado de chegar e eu n√£o sabia o que fazer. Como agir. Falei o que havia programado: ‚ÄúSeja bem-vinda‚ÄĚ. Era tudo novo. Euf√≥rico. Estranho. Desconhecido.

Dei de mamar primeiro no peito esquerdo, como li que era a tradi√ß√£o, se n√£o me engano, judaica. Porque, assim, voc√™ ouve mais de perto a batida do meu cora√ß√£o e tem uma refer√™ncia de algo que j√° conhecia. Queria que se sentisse acolhida. Ajud√°-la nessa passagem da √°gua para o ar. Que fosse a mais harm√īnica poss√≠vel. N√≥s s√≥ nos conhec√≠amos em sonho, em voz, em barriga.

Hoje, voc√™ tem seis meses de mundo externo. Seis meses de um cansa√ßo que ainda n√£o superei. Seis meses de choro. De risadas. De descobertas. De alegria. De dor. De felicidade. De exaust√£o. De nascimento e renascimento. Embora tenha apenas seis meses e eu 33 anos nesta Terra, parece que voc√™ sempre esteve conosco. Parece que sempre fez parte das nossas vidas. Com l√°grimas nos olhos, repito: ‚ÄúBem-vinda‚ÄĚ.

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Sei que este blog é sobre meio ambiente e ciência, mas quer algo mais científico do que o milagre da vida?