“O mundo é um moinho”

Críticos da chamada era da superespecialização não faltam. É dito corrente “o especialista é alguém que sabe cada vez mais sobre cada vez menos”. Mas será tão deletéria assim a especialização, o estudo menos raso, mais abrangente de determinadas questões? Muitas vezes, durante as minhas aulas, sou indagado pelos jovens universitários a respeito da profundidade com que devem estudar a matéria que foi ministrada em sala. “Mas preciso saber esse detalhe?” “O senhor vai perguntar isso na prova, tão rodapé de livro?”. Serenamente, respondo com uma história verídica, acontecida com Ney Matogrosso. O artista gravou uma coletânea intitulada “Romântico”, que incluía a famosa – e a mais bela – canção de Cartola, “O mundo é um moinho”. Nesse CD, pode-se ouvir “(…)preste atenção/o mundo é um moinho/ vai triturar teus sonhos tão mesquinhos”. Pouco tempo depois, Ney gravou um CD exclusivamente com músicas do Cartola e, para tanto, estudou um pouco melhor a vida e a obra do genial artista. Produto desse estudo, no CD “Ney Matogrosso interpreta Cartola” ouve-se a mesma canção: “(…) o mundo é um moinho/ vai triturar teus sonhos tão mesquinho”. Note que, nessa última versão, Ney retirou o “s” e cantou mesquinho, e não mais “mesquinhos”. O estudo mais apurado fizera o intérprete entender que a intenção de Cartola era concordar “mundo” com “mesquinho”, e não “sonhos” com “mesquinhos”. Afinal, sonhos nunca são mesquinhos. Já o mundo, não deixa de nos dar provas de que é indiscutivelmente mesquinho. Caros alunos, estudar um pouco mais não vos fará mal e poderá torná-los mais generosos.

Discussão - 16 comentários

  1. Professor disse:

    É caro amigo o x da questão consiste em como mudar esse pensamento dos alunos. Na maioria das vezes eles pensam ainda como secundaristas, querem conteúdos delimitados, prova marcada, qual vai ser o estilo da prova, perdem tempo demais com as redondezas da disciplina e se esquecem que se estiverem preparados nada disso vai fazer diferença. O mundo é mesmo um moinho, e não podemos ter sonhos mesquinhos, pois aí seriam idealizações e não sonhos.

  2. Carol disse:

    Nada pior que estudantes com preguiça…

  3. ped paulo disse:

    Nossa Língua, tão e cada vez mais incompreendida.

  4. Anonymous disse:

    AMIGO DE M,CONCORDO PLENAMENTE COM VC,E O CARTOLA E SUA MÚSICA E O NEY COM SUA VOZ DESTE POST ALGO DE INEXPLICÁVEL BELEZA.QUANTO A ESTUDAR DEVEMOS TODOS ESTUDAR SEMPRE E SEMPRE E SEMPRE…..

  5. Du terroir disse:

    Estudar é bom, mas quem tem estímulo com os professores desinteressados e mau pagos que temos, mesmo nas faculdades particulares de nível. O estudante é antesd e tudo um forte, caro Amigo!

  6. Léo Mariano disse:

    oi amigo.só um detahe que não sei se vai ou não ajudar.depois de sonho há uma vírgula.”o mundo é um moinho/vai triturar teus sonhos, tão mesquinho”parece coisa de bobo, mas acho que ajuda um pouco mais no que esse post quer dizer.abs

  7. Anonymous disse:

    Caro Léo, colocação correta. Essa vírgula é essencial.

  8. Anonymous disse:

    carolina,diga-me: você é ainda estudante?pois parece tão entusiasmada e com tanta vontade de aprende e ao mesmo tempo apreender.continue assim linda.bjussssssssssssssss

  9. o Cronista disse:

    olá, primeira vez no teu blog, mto msm!essa canção do cartola é melancolicamente maravilhosa; o post do niemeyer tb, como ele msm diz: a vida é um sopro!

  10. Anonymous disse:

    pois é: é: presta atenç~so querida/ de cadaamor/tu hepaardaras abismo que cavaste copm seus pé.

  11. luiz damasceno disse:

    A música brasileira de qualidade é a melhor do mundo, sem sombra de dúvida. Cartola, Pixinguinha, Noel, Tom, Chico, Caetano, Tom Zé,

  12. Léo Mariano disse:

    é bom lembrar que o velho Villa-Lobossubia o morro para ver e ouvir Cartola. diz a lenda que o Maestro sempre dizia: ” Meu filho! você faz tudo errado, mas é lindo”.Carlos Drummond considerava “a vida é um moinho” a mais bela canção da música brasileira.

  13. Amigo de Montaigne disse:

    Sim, Léo. Villa-Lobos era fã de Cartola. E quanto a Drummond, apesar de não conhecer essa preferência por Cartola, acredito que um poeta adivinha outro…

  14. Anonymous disse:

    AMIGO DE M ,NÃO É MARAVILHOSO ERASMO? VILLA-LOBOS E CARTOLA, OS JÁ VALEM TODA PENA DO MUNDO

  15. Chloe disse:

    Caro Amigo de Montaigne,
    eis que minha memória funcionou!
    Eu sabia que já tinha lido algo assim há pouco tempo.
    http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2010/04/a_mesquinhez_de_um_sonho.php
    E reproduzo aqui o comentário que deixei por lá:
    ‘… entendo da seguinte maneira:
    o mundo, habitado predominantemente por pessoas egoistas (considerando aqui ‘egoistas’ aqueles que invariavelmente colocam a si mesmos em primeiro lugar) vai, através dos atos dessas mesmas pessoas egoistas, triturar os sonhos dos demais; as vezes só por inveja.
    Mas por outro lado, penso sim que os sonhos de cada um de nós, em sendo egoistas, como numa grande maioria de vezes, também podem ser chamados de mesquinhos e, uma hora ou outra, serão triturados pelo mundo, através de sua não receptividade.
    Particularmente, concordo com aqueles que acham que a palavra ‘mesquinho’, na frase em questão, se refere a ‘mundo’, originalmente.
    Cazuza pode ter usado de sua liberdade poética para mudar propositalmente o significado da frase original; ou, pode simplesmente ter cantado no plural pelo fato da palavra ‘mesquinho’ estar mais próxima de sonhos; ou nenhuma das alternitivas acima, rs…
    Talvez compositores e interpretes tenham pensado nisso e em outros tantos significados para a frase.
    No final das contas, é uma alegria que possamos todos – compositores, interpretes e ouvintes – filosofar a respeito das infinitas possibilidades de entendimento de uma tão pequena e ao mesmo tempo tão grandiosa frase.’
    Abçs. ; )
    C.

  16. Chloe disse:

    … e concordo totalmente contigo: estudo e conhecimento nunca são demais.
    E às vezes aquele ‘detalhe’ é o que vai fazer a diferença para resolver uma confusão do senso comum, que sabe o resto e não sabe ‘aquele detalhe’.
    Penso que a generosidade que advém do estudo, na verdade, tem como causa anterior a constatação íntima do infinito de coisas que ainda temos a aprender, pois, por mais que estudemos, nunca será o bastante. Que bom! ; )
    C.

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