Ler

Acredito que o desfrute de certos autores, o mesmo valendo em relação a compositores, é um processo lento, sem fim, alinhavado pelas experiências de leituras sucessivas e, claro, pelas experiências de vida. Ninguém começa – pelo menos não deveria – por James Joyce ou J.L. Borges a deleitosa jornada da leitura. Passei por muito Monteiro Lobato e um pouco de Júlio Verne. Descobri, depois, a coleção “Para gostar de ler”, que reunia crônicas de três dos “quatro cavaleiros do apocalipse”, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, além de outro ilustre mineiro, Carlos Drummond de Andrade. Lembro-me como se fosse hoje quando, ao voltar da escola, ainda dentro do ônibus, abri o livro na página de uma crônica de Drummond intitulada “Recalcitrante”. Como um foguete, assim que cheguei em casa, corri até a estante e abri o Aurélio:”adj.2g.s.2g. que ou aquele que recalcitra, que resiste obstinadamente”. A adolescência me trouxe Machado de Assis – por prazer e obrigação-, Eça de Queirós – por obrigação e prazer, inicialmente nessa ordem- , George Orwell e Guimarães Rosa – então um choque para os meus padrões conservadores de linguagem -, dentre outros. Atrevi-me a folhear livros de filosofia, sem muito entusiasmo. A exceção foi Platão, que me prendeu com os diálogos de “A República” que descobri num volume amarelado de meu pai. Minha vida de leitor se incrementou depois do contato com a professora de literatura Walquíria, no primeiro colegial. Alicerçadas as bases,  o caminho estava pronto para os livros. Descobrir, escolher, ler, apreender, reler e opinar. Certa passagem também ficou para sempre gravada em minha memória. Aos 11 anos, recebemos, na escola, a visita do escritor Ignácio de Loyola Brandão. Ele falou sobre a sua infância em Araraquara, sobre coisas de criança e, claro, sobre livros. A sua alegria e emoção ao falar me contagiaram. Naquele dia, cheguei em casa com uma decisão definitiva: a leitura sempre seria a minha companheira. Cara professora Walquíria, caro Ignácio, se este post chegar até vocês, recebam a minha perene e sempre insuficiente gratidão.       

P.S.: Estive na Argentina, sem tempo para o blog. Peço a compreensão dos fiéis leitores.
                    

Horowitz plays Mozart piano concerto 23 2nd mov

Discussão - 8 comentários

  1. Bessa disse:

    Afortunado de você que teve uma Walquíria que, tal e qual as Valquírias, sobrevoou a safra de mentes escolares com seu cavalo alado e escolheu a você como digno de entrar no Valhala literário. Meus professores de literatura me obrigaram a ler autores que não condiziam com meus interesses ou capacidades. O resultado é que hoje dificilmente me interesso pelos autores clássicos. Sou um leitor recalcitrado, mas comecei com os livros-jogo (publicações interessantes em que a leitura dependia de escolhas feitas pelo leitor), narrativas de viagem no estilo Amyr Klink e, mais recentemente temas relacionados a Ciência e alguns romances policiais.

  2. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Bessa,
    o caminho já está sendo trilhado. Em pouco tempo você estará desfrutando do prazer da leitura de Shakespeare (que tal as traduções de Hamlet e Rei Lear feitas pelo Millôr?), Cervantes, Dante, Montaigne e Laurence Sterne. Apesar do didatismo fúnebre de seus professores de literatura…
    Abs!

  3. Sibele disse:

    Adoro ver testemunhos assim, contando-nos como se deu a iniciação à leitura como fonte de prazer. E esse, que veio com Horowitz tocando Mozart ao piano, de bônus, é especialmente delicioso. Parabéns à sua professora Walquíria e a Ignácio de Loyola Brandão – vemos por aqui o resultado de seu belo trabalho.
    Bessa tem razão: faltam mais Walquírias no mundo, para apontar o caminho de agradáveis deleites que a leitura proporciona, formando leitores por prazer. Não entendo o motivo de na escola a leitura ser introduzida como obrigação, inculcando desde cedo uma injustificável ojeriza ao ato de ler.
    Ultimamente, o sucesso das séries de J.K. Rowling (Harry Potter) e Stephenie Meyer (Crepúsculo e as demais sagas vampirescas) tem estimulado a leitura de livros por jovens. Muito se discute sobre a validade de tais temáticas, mas penso que se esses best sellers de alguma forma despertam o interesse e a opção pela leitura, que sejam. Contanto que o leitor neófito evolua para leituras mais consistentes.
    Pelo menos assim ocorreu comigo: criança, eu devorava gibis, rsrs!

  4. Amigo de Montaigne disse:

    Cara Sibele,
    coincidência esse seu comentário, pois a minha ideia inicial era postar algo exatamente sobre a tal febre de leituras de “sagas vampirescas”. Taí, o próximo post tratará disso.
    Abs, Amigo de Montaigne.

  5. Sibele disse:

    Caro Amigo,
    essa coincidência só explicita que estamos afinados, não? 🙂
    Aguardamos o próximo post! Algo me diz que será vampiresco!

  6. Amigo de Montaigne disse:

    Aguardemos! 😉

  7. Jonas disse:

    Como anda a Argentina, Amigo? Vou para Buenos Aires daqui a duas semanas 🙂

  8. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Jonas,
    a Argentina se ressente dos desvarios de sua presidente. Apesar disso, o turista pode se esbaldar com a cultura, o Malbec e o dulce de leche. Melhor ainda, o preço é honesto e nada hiperinfacionado.
    Buen viaje!

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