Vampiros

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Castelo de Bran, Transilvânia

A onda das sagas vampirescas parece não ter fim. Desde as prateleiras das livrarias até as salas de cinema, passando pelas vitrines de lojas de roupas para adolescentes e revistas de fofoca, há uma verdadeira invasão. Não assisti aos filmes e nem li os livros que tratam do tema, embora isso não invalide as minhas opiniões a respeito do fenômeno. Antes de mais nada, precisamos analisar a mítica figura do vampiro e a razão contextualizada de seu sucesso em pleno século XXI. Ora, os predicados encarnados pelo conde Drácula são irresistíveis: imortalidade e sex appeal. Temos, acesso
riamente, a forma esbelta, que, não nos esqueçamos, é moldada às custas de sangue humano, e o poder de encantamento de animais noturnos. Em uma sociedade que valoriza cada vez mais a juventude, o vigor sexual, o corpo sarado e as explicações místico-religiosas para os fenômenos naturais e evolutivos, nenhuma surpresa causa o triunfo da figura diabolicamente sedutora do vampiro. Li que há jovens que conhecem em detalhes inacreditáveis tudo o que diz respeito a tal série de Stephenie Meyer – Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer. Existem, até mesmo, relatos de pacto de sangue envolvendo adolescentes e a fidelidade a preceitos “vampirescos”. Lembrei-me destes versos do poeta maldito François Villon:

“Príncipe, eu sei, de tudo estou a par,
Conheço os de tez branca ou de carmim,
Sei que a Morte vem tudo consumar,
Tudo conheço, caso exclua a mim.”

Será assim? Esses jovens conhecem tudo, menos a eles próprios?                          
   

Discussão - 17 comentários

  1. Sibele disse:

    Creio que o intenso marketing em torno desses livros tem grande responsabilidade por tal adesão maciça dos jovens, que se deixam levar por um comportamento de manada, já que é tão caro a sua autoestima o pertencer ao grupo, à “turma”, sendo reconhecido entre iguais. O jovem que se distingue, ousa ser diferente, é invariavelmene execrado e torna-se um pária. E assim todos declaram sua adesão a essas vampirices.
    De fato, muito bem colocado: eles se esquecem de si mesmos.
    Se tal força marqueteira agisse para disseminar leituras mais consistentes…

  2. Karl disse:

    É mesmo, né? Por que é que não tem vampiro gordo? Sangue engorda: estima-se que 100 g de chouriço de sangue tenha 600 Kcal.
    Caríssimo AM. Não sei o que é pior. Pelo menos estão a ler…

  3. Igor Santos disse:

    Amigo, dê uma olhada nos comentários do meu artigo sobre vampiros.
    Eu sinto uma certa tristeza quando penso que alguns desses garotos realmente acreditam no que dizem.

  4. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Karl,
    já fui mais otimista, pois acreditava que, a partir de leituras menores, formava-se o futuro leitor dos clássicos. O tempo passa e não tenho visto isso acontecer.
    Será que os vampiros tomam sangue light?
    Abs, Amigo de Montaigne.

  5. Amigo de Montaigne disse:

    Lerei!
    Abs, Amigo de Montaigne.

  6. Caro AM,
    Você já viu alguma estória em que vampiros têm pai e/ou mãe? Em que eles têm que estudar? Vampiros não têm que se sujeitar a frustrações, ou têm? E eles vivem em bandos, não é?
    Um abraço!

  7. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Stephen,
    me sopraram que há um vampirinho com pai nas histórias em quadrinhos do Maurício de Sousa…
    Abs!

  8. Joey Salgado disse:

    Essa “geração crepúsculo” é bem intrigante. Encontraram uma forma de se expressar por meio desses livros, mas não que os livros tenham incitado isso. (Ou seja, discordo de você Sibele, de certa forma, rs). É uma juventude (e sinto-me um velho escrevendo dessa forma, rs) que estava há tempos atrás de uma maneira de expor sua forma de pensar e seus “credos”, por assim dizer, mas que não tinham respaldo na mídia. Então, eles encontraram alguém como a Stephenie Meyer, que somente transcreveu em palavras e de forma lírica algo que estava pungente na parcela jovem da sociedade.
    Mas é algo bem triste de se ver, na minha opinião. Uma molecada que sofre de Síndrome de Peter Pan e que, aparentemente, só dá valor a coisas que tenham sido obtidas com sofrimento e que tenham retorno imediato. Uma hora elas voltam para o mundo real. Mas a volta sempre é uma queda, e cair sempre machuca.
    Boa sorte para esses novos adolescentes. Que a força esteja com vocês, rs.

  9. Igor Santos disse:

    Joey, discordo de você.
    Eu acredito que a juventude vai seguir a moda corrente, seja qual for, mudando apenas a cor. Existem aqueles que seguirão tudo o que for preto, outros preferem o branco e alguns, o rosa.
    Essas crianças não sempre quiseram ser vampiros, apenas querem seguir a moda do preto. Cinco anos atrás era Emo, antes disso era Grunge, antes ainda era Gótico.
    Se alguém conseguir fazer Cthulhu virar moda mundialmente, teremos adolescentes em crise existencial por não ter tentáculos suficientes.
    Ninguém quer ser vampiro, apenas todo mundo quer se sentir parte de uma turma.

  10. @ AM: Por isso o Zé Vampir, do Maurício de Souza, não fez tanto sucesso – ele era um vampiro infantil…
    @ Igor Santos: Concordo contigo, em parte – se a sociedade colocasse que a moda era se esforçar e tal, não sei se a garotada iria querer seguir. Não vejo muitos garotos (e, especialmente, garotas) “querendo” ser nerds (mas posso estar enganado).
    Um abraço!

  11. Joey Salgado disse:

    Igor, concordo que a juventude anda em bandos e que quem não segue a modinha tá fora da turma, mas isso até certo grau, como disse acima o Stephen Dedalus. O fato da juventude mudar de moda como quem muda de roupa simplesmente é porque ela vai ficando velha e os jovens que vem a seguir, por definição, possuem um comportamento completamente avesso ao da geração predecessora. O fato do preto ter feito parte de jovens vampirizados, emonizados, grunges e góticos, por exemplo, é que de, certa forma, a cor foi emprestada por uma questão de fuga do comum, mas a simbologia é completamente diferente em sua essência para cada uma dessas “classes” de jovens.
    E, reforçando meu ponto, a Stephenie Meyer (se é que é assim que se escreve…) somente transcreveu um comportamento jovial para uma fábula. Os fãs dos livros dela já eram daquele jeito antes de ter vampiro no meio, oque é, de certa forma, aquilo que você quis dizer. Entretanto, os filhos dessa molecada (caso eles “procriem”…) não terão essa visão de mundo, esses livros de vampiros não irão funcionar com eles e preto será uma opção de cor de roupa para demonstrar revolta para com a sociedade, provavelmente, mas com certeza não o será pelos mesmos motivos que agora.

  12. Sibele disse:

    Joey, e acaso esses jovens têm motivo de revolta para com a sociedade? Sério mesmo?

  13. Eliana Teixeira disse:

    Caro Amigo,
    Há tempos não faço comentários sobre seus posts, mas leio todos com voracidade e deleite. Sobre leituras na adolescência, não posso me esquecer que, no meu tempo (que horror dizer isso), a febre era Castañeda. Ah, quanta saudade daqueles livros…Ainda os tenho em algum canto de meus guardados. Hoje, quando leio Joseph Campbell, por exemplo, vejo similitudes e penso em quanta mitologia e filosofia li, inspirada por aquela iniciação. É claro que, hoje, lamentavelmente, a maioria não vai passar de Paulo Coelho. Mas sempre, como em todas as gerações, uns poucos perceberão que estão com o mapa do tesouro nas mãos, e, certamente chegarão a Thomas Mann, Borges, Joyce…
    É claro que adolescentes não conhecem a si próprios, mas ainda perceberão que a busca da identidade, de um lugar no mundo, da sensação de pertencimento são a maravilhosa trilha da vida vivida em plenitude, e esse é um caminho que só tem fim quando a vida em si termina.
    Um grande abraço,
    Eliana

  14. Amigo de Montaigne disse:

    Cara Eliana,
    obrigado por sua assiduidade e gentileza. Sim, a vida é “work in progress”.
    Abraço, Amigo de Montaigne.

  15. Joey Salgado disse:

    Sibele,
    Confesso que lendo novamente meu comentário, percebi que faltaram umas aspas na palavra revolta para, de fato, transparecer minha opinião, rs.

  16. Chloe disse:

    Caro Amigo de Montaigne,
    muito se falou dos jovens aqui, mas será que nós, ‘adultos’, podemos realmente dizer que nos conhecemos?
    será mesmo que esse conhecimento um dia chega a se dar, considerando que estamos constantemente aprendendo, evoluindo, mudando nossa forma de pensar, conhecendo e reconhecendo o mundo, seja ele interior ou exterior?
    todos nós tivemos nossas quedas; umas machucaram mais, outras menos; alguns voltaram para o mundo real, outros nem tanto…
    penso que cada um se conhece tanto quanto é possivel considerando sua idade, maturidade e influência externa.
    cada um tem a sua experiência de vida e se torna impossivel compará-la, ainda que para vivê-la as pessoas se juntem em bandos.
    aprecio muito a proposta reflexiva geralmente presente em suas postagens.
    abç. ; )
    C.

  17. Amigo de Montaigne disse:

    Cara C.,
    já dizia o oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”…

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