No tempo do agora

https://www.blogs.unicamp.br/amigodemontaigne/wp-content/uploads/sites/206/2011/09/Casal-de-Camponeses-Indo-para-o-Trabalho-1990-Vincent-Van-Gogh.jpg
Casal de camponeses
Vincent Van Gogh 

Jean Baudrillard saiu da minha estante hoje. Não abria as páginas de “O sistema dos objetos” desde 1997, conforme última anotação, a lápis, nas páginas derradeiras do livro. É curioso como me surpreendo, de tempos em tempos, com pequenas notas por mim feitas no momento da leitura. Algumas tornaram-se ininteligívies, pois temos – ou o tenho eu  – o costume de acreditar que, as ideias e relações estabelecidas naquele particular momento, serão para sempre imortalizadas em nossa memória. No livro de Baudrillard, li a seguinte nota: “revolução industrial; sol; tez.”  Não sem esforço, pude rememorar o significado daquelas palavras. No período pré-revolução industrial, a economia era essencialmente agrícola, o que tornava a tez dos donos dos meios de produção nada ou quase nada bronzeada, pois mantinham-se abrigados do sol enquanto os camponeses sofriam a agressão direta dos raios ultravioleta. Com o advento das fábricas, tornou-se necessária a imediata diferenciação entre o dono do capital e os seus subordinados. Pois eis que não se inverteram os papéis mas se inverteu a tez: nas fábricas, onde chegavam pela madrugada e só saiam quando a noite já havia avançado, os trabalhadores empalideceram. Por outro lado, os burgueses (não me recrimine pela palavra, caro leitor) se postaram ao sol. Na mesma página, outra anotação, mais prolixa: “As sociedades, desde tempos imemoriais, sempre estabeleceram meios de tornar patente a existência de categorias hierárquicas.” Lembrei-me bem o que quis dizer. No tempo do agora, é o consumo que, fetichizado, estabelece a hierarquia. No tempo do agora. Infelizmente.                         

Discussão - 7 comentários

  1. Karl disse:

    Essa tendência à hierarquização da sociedade seria necessária para o estabelecimento da paz? Única forma de uma sociedade prosperar, a paz necessita de uma caracterização clara dos papéis sociais.

  2. Sibele disse:

    No tempo do agora, a máxima é:
    Consumo, logo existo”.

  3. Amigo de Montaigne disse:

    Prezado Karl,
    será que os Anarquistas concordariam com você?
    Abraço, Amigo de Montaigne.

  4. Karl disse:

    Quero saber se você concorda. Pelo que sei, tens a tez bastante bem bronzeada…

  5. Cretinas disse:

    Mas será que é só “agora”? O “consumo conspícuo” sempre foi um indicador de proeminência social (daí o ouro dos faraós, o harém dos califas, e o arminho dos reis medievais). O que a revolução industrial e o aburguesamento da sociedade fizeram foi, apenas, democratizar o acesso a essa forma específica de auto (e sócio) afirmação.

  6. Amigo de Montaigne disse:

    Estou mais para vampiro…

  7. Amigo de Montaigne disse:

    Caro “Cretinas”,
    você tem plena razão. Eu escrevi “as sociedades, desde tempos imemoriais, sempre estabeleceram meios de tornar patente a existência de categorias hierárquicas.”
    Mais que o ouro dos faraós, os casamentos consanguineos mantinham o status quo, por exemplo.
    Obrigado pela visita!
    Abs, Amigo de Montaigne.

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