A Gentileza de Estranhos

Fonte: Project Syndicate

Autor: Paul Bloom

Tradução: André Rabelo

Porque somos gentis com estranhos?

Eu admito que esta seja uma maneira incomum de ver o mundo, mas, ao ler o jornal, eu fico constantemente impressionado com a extens√£o da gentileza humana. A mais nova boa not√≠cia vem do Centro sobre a Riqueza e Filantropia no Boston College, que estima que os americanos v√£o doar cerca de¬†$250 bilh√Ķes em contribui√ß√Ķes¬†individuais¬†de caridade ¬†em 2010, muitos bilh√Ķes a mais do que no ano passado.

Pessoas doam seu sangue a estranhos, viajam em miss√Ķes humanit√°rias para lugares como o Haiti e o Sud√£o e arriscam suas vidas para lutar contra a injusti√ßa em outros lugares. E nova-iorquinos t√™m crescido acostumados a ler sobre her√≥is do metr√ī – bravas almas que saltam em dire√ß√£o aos trilhos para resgatar passageiros e ent√£o frequentemente somem, inconfort√°veis com a aten√ß√£o ou o cr√©dito.

Como um psic√≥logo, eu sou fascinado pela origem e as consequ√™ncias de tal gentileza. Alguns de nossos sentimentos morais e motiva√ß√Ķes morais s√£o o produto da evolu√ß√£o biol√≥gica. Isso explica porque n√≥s somos frequentemente gentis com a nossa pr√≥pria carne e sangue ‚Äď aqueles que compartilham nossos genes. Isto tamb√©m pode explicar nossas liga√ß√Ķes morais com aqueles que vemos como membros da nossa tribo imediata. Continue lendo…

Corpos Sem Almas

Fonte: Project Syndicate

Autor: Paul Bloom

Tradução: Rodrigo Véras e André Rabelo

O principal estudioso da inteligência artificial do mundo, uma vez descreveu as pessoas como máquinas feitas de carne. Isso capta muito bem o consenso nas áreas de psicologia e neurociência, que nos diz que nossas vidas mentais são produtos dos nossos cérebros físicos, e que esses cérebros são moldados não por um criador divino, mas pelo processo cego de seleção natural.

Mas, com exce√ß√£o de uma pequena minoria de fil√≥sofos e cientistas, ningu√©m leva essa vis√£o a s√©rio. √Č ofensiva. Ela viola as doutrinas de toda religi√£o e¬† entra em conflito com o senso comum. N√≥s n√£o sentimos, afinal, que somos apenas corpos materiais, pura carne. Ao contr√°rio, ocupamos nossos corpos. N√≥s os possu√≠mos. Somos espontaneamente atra√≠dos para a vis√£o defendida por Ren√© Descartes: N√≥s nascemos naturalmente dualistas, assim, vemos corpos e almas de forma separada.

Esse dualismo tem consequ√™ncias significativas para a forma como pensamos, agimos e sentimos. O fil√≥sofo Peter Singer discute a no√ß√£o de um c√≠rculo moral – o c√≠rculo de coisas que s√£o importantes para n√≥s, que t√™m um significado moral. Este c√≠rculo pode ser muito pequeno, incluindo apenas os seus parentes e aqueles com os quais voc√™ interage diariamente, ou pode ser muito amplo, incluindo todos os seres humanos, mas tamb√©m fetos, animais, plantas e at√© mesmo o pr√≥prio planeta terra. Para a maioria de n√≥s, o c√≠rculo √© de tamanho m√©dio, e destrinchar seus limites precisos – Ser√° que inclui as c√©lulas-tronco, por exemplo? – pode ser uma fonte de ang√ļstia e conflitos. Continue lendo…

Negacionismo

“O sono da raz√£o produz monstros” (el sue√Īo de la raz√≥n produce monstruos) √© o t√≠tulo que acompanha a obra ao lado, de Francisco Goya, onde um homem adormece e √© assombrado por “monstros” da noite. Goya foi um defensor do iluminismo e satirizou a sociedade de sua √©poca na s√©rie de gravuras “Los Caprichos“.

A sociedade da época de Goya guarda muita semelhança com a sociedade em que vivemos, ainda impregnada pela superstição, pela religião, pelo misticismo e pela antipatia à razão.

Avançamos muito desde o século XVIII nesse sentido, tempos onde uma mulher seria queimada viva se alguém a denunciasse como bruxa Рmesmo que não existissem provas Рe um homem poderiar ser torturado até a morte se duvidasse de algum dogma religioso.

Ao longo do s√©culo passado houve uma tend√™ncia, principalmente nos c√≠rculos filos√≥ficos mas na popula√ß√£o de um modo geral, de se negar evid√™ncias e tentar demonstrar que n√£o havia consenso sobre v√°rios conhecimentos estabelecidos. A cr√≠tica que visava invalidar a raz√£o e relativizar tudo ad infinitum ficou conhecida como o negacionismo. Continue lendo…

A Nova Ciência da Moralidade

“Algo radicalmente novo est√° no ar: novos meios de entender os sistemas f√≠sicos, novos meios de pensar sobre o pensamento que questionam muitas das nossas suposi√ß√Ķes. Uma biologia da mente realista, avan√ßos na biologia evolucionista, f√≠sica, tecnologia da informa√ß√£o, gen√©tica, neurobiologia, psicologia, engenharia, a qu√≠mica dos materiais: todas essas s√£o perguntas de import√Ęncia cr√≠tica em rela√ß√£o ao que significa ser um humano.

Pela primeira vez, temos as ferramentas e a vontade para nos empreendermos no estudo cient√≠fico da natureza humana”(tradu√ß√£o minha). Esse √© o texto traduzido que abre a p√°gina da web sobre a confer√™ncia organizada pela Edge, na qual v√°rios cientistas discutiram a nova ci√™ncia da moralidade. Continue lendo…

Beb√™s t√™m no√ß√Ķes de moralidade?!

Muito se discute hoje em uma √°rea de pesquisa da psicologia chamada de Moral Psychology (Psicologia da Moral) sobre os aspectos gen√©ticos e culturais envolvidos no desenvolvimento do julgamento moral e das no√ß√Ķes de certo e errado que n√≥s temos sobre os nossos e os comportamentos dos outros.

Por muito tempo uma id√©ia dominante foi a de que esses padr√Ķes de moralidade s√≥ podem existir atrav√©s de um aprendizado formal, alguns chegando at√© a afirmar que s√≥ atrav√©s de uma educa√ß√£o religiosa isso √© poss√≠vel e que sem a religi√£o n√≥s ser√≠amos selvagens, violentos e desumanos.

A despeito das na√ß√Ķes mais desenvolvidas hoje em dia serem as menos religiosas (e.g. Su√©cia, Noruega, Dinamarca), como descreve Phil Zuckerman em seu livro Society Without God, esse argumento ainda v√™m sendo usado, at√© mesmo pelo pobre papa Bento XVI, em v√°rias declara√ß√Ķes infelizes recentemente, apontando o dedo para novos inimigos (ateus) na tentativa de mostrar a import√Ęncia da igreja no mundo e tirar o foco da aten√ß√£o nos casos de abuso sexual que h√° muito tempo a igreja v√™m abafando nos seus bastidores (aonde est√° essa moralidade t√£o imponente que a educa√ß√£o religiosa oferece nesses padres abusadores de criancinhas?).

ResearchBlogging.orgUm artigo publicado em 2007 na Nature, uma das revistas cient√≠ficas mais importantes no mundo e de maior impacto, traz dados sobre a “avalia√ß√£o” de comportamentos sociais por parte de beb√™s de 10 e 6 meses de idade. Os resultados indicaram que ao observar uma intera√ß√£o entre um boneco que ajudava o outro a subir uma montanha e um boneco que atrapalhava o outro a subir uma montanha, mais de 90% dos beb√™s escolheram o boneco que ajudava o outro a subir a montanha. Mais precisamente, 14 dos 16 beb√™s de 10 meses de idade e 12 dos 12 beb√™s de 6 meses de idade escolhiam o boneco que havia ajudado o outro na intera√ß√£o que o beb√™ tinha assistido. Continue lendo…