Hoje n√£o estou conseguindo dormir.

Minha m√£e sempre teve o sonho de viajar de avi√£o. Mas eu e minha vida de estudante universit√°ria nunca permitiram que eu pudesse presente√°-la com algo do tipo.
Hoje moro nos EUA e sua primeira viagem ser√° para me visitar. Continuo n√£o podendo pagar por isso. E n√£o paguei.
Mas, sinto que contribuí de alguma forma. Isto me tirou sono.
Uma ins√īnia feliz.

E a pegada de carbono mais feliz que j√° deixei.

Rastro de Merc√ļrio

Este post √© uma parte do InterCi√™ncia! O amigo secreto cient√≠fico dos blogs mais lindos e cheirosos da blogosfera! O trabalho de nossos leitores √© descobrir quem foi o autor dessa pe√ßa e… descobrir onde foi parar o texto que foi escrito por esta pessoa que vos fala!

E se voc√™ ainda quer participar da nossa brincadeira, ainda d√° tempo! Instru√ß√Ķes aqui

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Rastro de Merc√ļrio

Rastro de Merc√ļrio!

Rastro de Merc√ļrio!

N√£o, n√£o vamos falar do rastro que o planeta mais pr√≥ximo do sol deixa no c√©u a noite. Vamos falar de sujeira “pesada”. Sim, pesada e suja. O rastro em quest√£o √© de um dos elementos mais paquid√©rmicos do universo: o denso e t√≥xico merc√ļrio (o Hg da tabela peri√≥dica).

Merc√ļrio: o esculhambador geral das prote√≠nas

Apesar de ser um elemento bem bonito, parecendo at√© “prata l√≠quida” (da√≠ que vem o s√≠mbolo “Hg”, da palavra para “prata l√≠quida” em latim: “hydrargyrum”), voc√™ n√£o vai querer por a m√£o nesse l√≠qu√≠do prateado.

O "hydrargyrum", a "prata l√≠quida". Vulgo merc√ļrio!

O “hydrargyrum”, a “prata l√≠quida”. Vulgo merc√ļrio!

Legenda: O “hydrargyrum”, a “prata l√≠quida”. Vulgo merc√ļrio!

Essa belezinha √© uma subst√Ęncia bem t√≥xica. Pra falar a verdade √© t√≥xica pra caramba. N√£o √© aquele tipo de coisa que faz voc√™ morrer na hora, mas o contato excessivo com essa subst√Ęncia atrapalha o funcionamento e causa danos severos a diversos √≥rg√£os. S√≥ pra mostrar quantos lugares ele se acumula, eis uma “pequena” listinha: c√©rebro, tire√≥ide, seios, mioc√°rdio, m√ļsculos, gl√Ęndulas adrenais, f√≠gado, rins, pele, gl√Ęndulas sudor√≠paras, p√Ęncreas, enter√≥citos, pulm√Ķes, gl√Ęndulas saliv√°rias, test√≠culos e pr√≥stata, e etc [1].
O seu variado alvo de toxicidade no organismo se deve ao fato de se ligar √† ciste√≠nas e selenociste√≠nas das prote√≠nas do nosso corpo e alterar suas estruturas terci√°rias e quatern√°rias [1]. Ou seja: o merc√ļrio estraga a maquinaria celular! Al√©m disso, estudos apontam que esse metal pesado interfere tamb√©m com a transcri√ß√£o do DNA e a s√≠ntese de prote√≠nas [1]. No c√©rebro em desenvolvimento (De bebezinhos! Veja s√≥!), ele chega a destruir o ret√≠culo endoplasm√°tico de c√©lulas e o ribossomo. Se h√° alguma coisa horr√≠vel de se destruir dentro de uma c√©lula √© o ribossomo. Sem ele n√£o existem prote√≠nas – que s√£o basicamente as protagonistas da m√°gica da vida!

Terroristas An√īnimos

OK, sabemos que o merc√ļrio faz bem mal. Imagine ent√£o se o merc√ļrio fosse usado como arma qu√≠mica! Um veneno! Sim! Imagine se algum grupo terrorista espalhasse merc√ļrio por a√≠, colocando-o na sua comida, no ar que voc√™ respira e na √°gua que voc√™ bebe! Seria horr√≠vel n√£o!? Imagine os bebezinhos sem ribossomo! Que trag√©dia! Mas vamos falar s√©rio agora: tenho duas not√≠cias importantes sobre esse assunto. Uma muito boa e outra muito ruim.
Boa not√≠cia: n√£o h√° grupos terroristas que espalham merc√ļrio por a√≠ para matar bebezinhos! Viva a humanidade!
M√° not√≠cia: segundo um estudo conjunto de duas organiza√ß√Ķes em defesa do meio ambiente (o Biodiversity Research Institute e o IPEN – n√£o, n√£o √© o IPEN brasileiro!), em amostras de peixe de diversos locais do globo, cerca de 86% estavam contaminados por merc√ļrio acima dos n√≠veis seguros de consumo [2].
Se n√£o h√° um grupo terrorista, como diabos estamos sendo envenenados!? Quem est√° fazendo isso!? Resposta: “n√≥s” mesmos.
Não somente as águas, mas também o ar, estão sendo contaminados principalmente devido a atividades de mineração e a queima de combustíveis fósseis.

Retirado da fonte [2].

Retirado da fonte [2]

As principais causas de contaminação da água são similares. Os principais contaminadores antropogênicos são usinas de produção de compostos cloro-alcáli (ex: produção de NaOH e Cl2 a partir de NaCl), plantas energéticas à base de carvão e mineiração de ouro em pequena escala [2].

Extra√ß√£o artesanal de ouro - um risco √† sa√ļde e ao meio ambiente.

Extra√ß√£o artesanal de ouro – um risco √† sa√ļde e ao meio ambiente.

De acordo com o estudo, se voc√™ morar nas regi√Ķes dos 9 pa√≠ses em que foram realizadas coletas, comer peixe mais de uma vez ao m√™s poderia j√° exceder os n√≠veis seguros de consumo de merc√ļrio na dieta. Segundo outro estudo, dessa vez realizado pela UNEP (United Nations Environment Programme), cerca de 260 toneladas de merc√ļrio s√£o despejadas em rios e lagos todos os anos [3]. √Č merc√ļrio pra caramba!

Pegadas Tóxicas

Assim como os famigerados ciclos do nitrog√™nio, oxig√™nio e da √°gua, h√° uma cadeia alimentar que leva o merc√ļrio at√© n√≥s – e cada vez mais concentrado.

A concentra√ß√£o de merc√ļrio aumenta o quanto mais pr√≥ximo do topo da cadeia alimentar.

A concentra√ß√£o de merc√ļrio aumenta o quanto mais pr√≥ximo do topo da cadeia alimentar.

O merc√ļrio gasoso, tamb√©m como quase todos os compostos no ar, vai parar no grande reservat√≥rio qu√≠mico que chamamos de oceano. L√° existem pl√Ęnctons bem resistentes a esse metal pesado que logo o transformam em metilmerc√ļrio. Pra se ter uma ideia de como a concentra√ß√£o de merc√ļrio vai aumentando, dentro desses pequenos animaizinhos a concentra√ß√£o de merc√ļrio chega a ficar 10 mil vezes maior que a do oceano [3]. Ent√£o imagine o qu√£o concentrado esse elemento fica em inst√Ęncias superiores da cadeia alimentar!? E o peixe que come muitos pl√Ęnctons!? E o peixe que come peixes-que-comem-pl√Ęnctons!? O merc√ļrio s√≥ vai aumentando at√© chegar aos humanos, que recebem de volta aquilo que jogaram indiscriminadamente na natureza.

O metal pesado não é eficientemente excretado pelos peixes, ficando em uma forma estável dentro dos mesmos [1], o que o conserva ainda mais dentro daquilo que será a comida de muita gente.

Como Resolver o Problema

Longo Prazo

A preocupa√ß√£o com metais pesados em √°gua √© antiga. Uma das solu√ß√Ķes mais interessante √© aquela que usa recursos da pr√≥pria natureza para resolver os problemas ambientais: a bioremedia√ß√£o. Basicamente √© explorar o primeiro ponto da cadeia alimentar da transfer√™ncia de merc√ļrio, os microrganismos!
Propriedades de resist√™ncia √† concentra√ß√Ķes de merc√ļrio foram descritas pela primeira vez em 1960, em estudos com o microrganismo Staphylococcus aureus[4]. O que os pesquisadores estavam tentando descobrir na √©poca era como e quais pat√≥genos sobriveviam √† desinfetantes e antis√©pticos √† base de merc√ļrio. Com o desenvolvimento das pesquisas durante o tempo, foram descobertos os “genes chave” para a detoxifica√ß√£o de merc√ļrio, os genes mer[4] (merA e mer B). Eles basicamente est√£o envolvidos na quebra das liga√ß√Ķes entre carbono e Hg e na redu√ß√£o do √°tomo de merc√ļrio a uma esp√©cie n√£o reativa, o merc√ļrio molecular Hg0. Isso fecha o ciclo do merc√ļrio na natureza:

A concentra√ß√£o de merc√ļrio aumenta o quanto mais pr√≥ximo do topo da cadeia alimentar.

Retirado da fonte [4].

V√°rias esp√©cies resistentes a merc√ļrio, contendo os genes mer ou varia√ß√Ķes dele, foram reportadas. A explora√ß√£o e demonstra√ß√£o do uso deses microrganismos como agentes de remedia√ß√£o j√° foi feita a cerca de 30 anos atr√°s [4]. Hoje em dia existem avan√ßados bioreatores para bioremedia√ß√£o de efluentes de ind√ļstrias, principalmente nas ind√ļstrias cloro-alc√°li, uma das vil√£s da polui√ß√£o com merc√ļrio nos estudos das organiza√ß√Ķes ambientais citadas anteriormente. Esses bioreatores, contendo principalmente bact√©rias do g√™nero Pseudomonas, chegam a remover o merc√ļrio com cerca de 99% de efici√™ncia[4]! Que maravilha n√£o √©!? Al√©m disso, visando baratear o processo, estudos v√™m sendo feitos para gerar organismos modificados que fa√ßam esse trabalho [4].

Curto Prazo

Se j√° existe solu√ß√£o para o problema de contamina√ß√£o de merc√ļrio, porque ela ainda ocorre!? A resposta pode ser resumida em uma palavra: regulamenta√ß√£o. A aus√™ncia de pol√≠ticas efetivas que gerem legisla√ß√Ķes combativas e fiscaliza√ß√Ķes presentes e eficazes fazem o problema persistir. Isso fica bem evidente em outro gr√°fico de emiss√£o de Hg, tamb√©m em 2010, indicando como maior contribuidor a atividade de extra√ß√£o de ouro artesanal de pequena escala, o que tamb√©m corrobora com o gr√°fico anteior – atividades assim n√£o s√£o triviais de serem fiscalizadas, uma vez que acontecem “quase que” clandestinamente.

Retirado da fonte [3].

Retirado da fonte [3].

Os pa√≠ses mais envolvidos com contamina√ß√£o de merc√ļrio na natureza s√£o principalmente os em desenvolvimento, como √ćndia, China, M√©xico e pa√≠ses do leste europeu. √Č preciso dar grande destaque √† China, que provavelmente devido √† sua economia constantemente aquecida, √© o pa√≠s com mais focos de polui√ß√£o.

Retirado da fonte [2].

Retirado da fonte [2].

A UNEP vem desde 2003 alertando sobre as quest√Ķes da contamina√ß√£o de merc√ļrio. Em 2009 iniciara-se os esfor√ßos para criar instrumentos legais de regulamenta√ß√£o global sobre o merc√ļrio. Com reuni√Ķes de negocia√ß√£o que come√ßaram em junho de 2010, foram conclu√≠das a um pouco mais de uma semana (18 de Janeiro), na Su√≠√ßa. A organiza√ß√£o ligada √† ONU planeja firmar um tratado ainda neste ano durante uma confer√™ncia diplom√°tica no Jap√£o. Esperamos que de uma vez por todas a press√£o pol√≠tica (pelo menos!) para a regulariza√ß√£o de atividades poluidoras envolvendo a libera√ß√£o de merc√ļrio e seus compostos na natureza seja efetiva!

Vale prestar aten√ß√£o no tempo que em tudo isso demorou: 10 anos, desde 2003 at√© hoje. Isso sem contar o tempo antes dos estudos iniciados pela UNEP, em que j√° se sabia dos problemas ambientais e de sa√ļde envolvendo o merc√ļrio. O rastro ecol√≥gico que esse metal deixa √© literalmente pesado. A reuni√£o no Jap√£o este ano vai ajudar a definir quais rastros de merc√ļrio nosso filhos ir√£o se preocupar no futuro: o biol√≥gico ou o celeste. Prefiro o celeste!
***
[Este texto √© parte da primeira rodada do InterCi√™ncia, o interc√Ęmbio de divulga√ß√£o cient√≠fica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

Referências

1. Bernhoft AB. “Mercury Toxicity and Treatment: A Review of the Literature”. Journal of Environmental and Public Health, volume 2012, doi:10.1155/2012/460508
2. “Global Mercury Hotspots – New Evidence Reveals Mercury Contamination Regularly Exceeds Health Advisory Levels in Humans and Fish Worldwide”. BRI e IPEN, jan de 2013. Dispon√≠vel em: http://www.briloon.org/uploads/documents/hgcenter/gmh/gmhFullReport.pdf
3. “Global Mercury Assessment 2013 – Sources, Emissions, Releases and Environmental Transport”. UNEP, 2013. Dispon√≠vel em: Link
4. Barkay T, Miller SM, Summers AO. “Bacterial mercury resistance from atoms to ecosystems”. FEMS Microbiology reviews, vol 27, 2003. Dispon√≠vel em: Link