Arquivo da tag: Rio de Janeiro

Museu Nacional pega fogo. Fim.

Minha filha, infelizmente, n√£o conhecer√° o Museu Nacional do Rio de Janeiro como eu o visitei na minha inf√Ęncia. Ali√°s, esse era um grande sonho que vou ter que dormir com ele. Acabar o domingo com esse fim.

WhatsApp Image 2018-09-02 at 22.41.26O Museu Nacional,  vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, era a mais antiga instituição científica do Brasil. Um dos principais museus da América Latina, quiçá o mais relevante. Simplesmente, isso. As chamas levaram embora a nossa história brasileira e parte do passado da Terra.

Para se ter uma ideia da sua import√Ęncia, a Luzia, o esqueleto mais antigo das Am√©ricas, estava l√°. Durante a sabatina que fiz ao Walter Neves, pesquisador que descobriu a import√Ęncia desse achado, perguntei para ele: “Posso ver a Luzia”? Ele sorriu: “Ela n√£o fica exposta ao p√ļblico, esta l√° no Rio de Janeiro. Quando for para l√°, quem sabe?”

E eu estive, em agosto, no Rio de Janeiro. No estado. Por motivos pessoais, não fui até a capital. Que pena. Era a chance da minha filha ter conhecido o Museu Nacional. Mas ela não verá o Museu Nacional que eu vi.

A import√Ęncia do Museu Nacional
Fui algumas vezes ao meu Museu Preferido, principalmente, antes de cursar faculdade. Mas uma dessas vezes, quando eu tinha cerca de 14 ou 16 anos, foi inesquecível. Quando me dei conta da sua imponência (pausa para as lágrimas).

Estava com meus pais e meu irm√£o. Acho que minha madrinha foi junto. Passamos um dia todo no museu – quem dera se pud√©ssemos ficar a noite para ver tudo “acordar”.

Lembro como se fosse ontem dos sarc√≥fagos e m√ļmias eg√≠pcias que Dom Pedro II trouxe. Algumas delas foram mumificadas de um modo √ļnico, sendo um dos poucos exemplares do mundo.

Tamb√©m vi algumas m√ļmias encontradas nos Andes. Perfeitas, pareciam at√© que estavam vivas! Tinha c√≠lios, roupas, cabelo comprido. Impressionante.

Tive a oportunidade de contemplar por minutos que pareciam a eternidade o maior meteorito encontrado no Brasil. E, o melhor, com explica√ß√Ķes sobre ele dadas por um ge√≥logo, meu pai.

Entre tanta beleza, outro item me chocou: o descaso. No ambiente onde estavam as m√ļmias, haviam goteiras. Fungos na parede. Mofo! Muita umidade. Abandono. Itens mal cuidados. Fazem 20 anos isso. Trag√©dia anunciada.

Tenho certeza que o descaso não partia dos funcionários e nem dos pesquisadores. Muito menos dos frequentadores que se admiravam. Nem dos moradores orgulhosos com tanta preciosidade numa cidade tão maravilhosa. O Museu Nacional não passava vergonha frente ao Museu de História Natural de Nova York.  Não é ufanismo.

Pelo celular, vi queimar a minha inf√Ęncia. O nosso passado. A hist√≥ria de todos os habitantes do planeta √°gua. Desde que comecei a namorar meu marido, o Gustavo, eu dizia que um dia o levaria ao Museu Nacional. Ele ia amar.

Mas, infelizmente, o Gustavo não terá essa oportunidade. Nunca saberá o que era o Museu Nacional. E nem minha filha. Desculpe, meu amor. Gostaria de deixar um país melhor para você. Ficaremos com as palavras.

Museu de Astronomia do Rio tem evento sobre divulgação de ciência na internet

Pessoal (quem gosta do tema, quer se aprofundar ou tem algum interesse), participe do evento sobre divulga√ß√£o cient√≠fica na internet no¬†Museu de Astronomia e Ci√™ncias Afins (MAST) do Rio de Janeiro. Ser√° nesta sexta-feira, dia 3 (sim, logo chegaremos em junho!), com entrada gratuita! Quem n√£o poder ir, pode acompanhar o debate ao vivo online. Um abra√ßo! ūüėÄ E uma estrelada semana!

13282661_746520988822913_344297820_o

Conhe√ßa o √ļnico fiorde brasileiro

Ando meio sumida por aqui, n√©? Por enquanto, farei posts mais espa√ßados devido ao tempo dedicado ao trabalho (http://revistapesquisa.fapesp.br/) e a outros projetos tomara rent√°veis – preciso pagar o financiamento no fim do m√™s! Mas saiba que assuntos para compartilhar n√£o faltam. Por exemplo, voc√™ j√° ouviu falar sobre o √ļnico ‚Äúfiorde‚ÄĚ brasileiro?

Em junho, viajei com amigos para o Saco do Mamangu√°, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. O local √© conhecido por ser o √ļnico ‚Äúfiorde‚ÄĚ brasileiro – fiorde √© uma forma√ß√£o geol√≥gica em que o mar passa entre altas montanhas. A paisagem √© comum em pa√≠ses pr√≥ximos √† Ant√°rtida ou ao √Ārtico como a Noruega e a Nova Zel√Ęndia.

Segundo uma mat√©ria na revista Mundo Estranho, essas forma√ß√Ķes foram criadas pela a√ß√£o do degelo. H√° milhares de anos, quando a temperatura do planeta esquentava, a √°gua derretida avan√ßava pelo vale ‚Äúcavando‚ÄĚ ainda mais a terra. Resultado: nesses locais, as montanhas s√£o alt√≠ssimas e a √°gua pode ter mais de um quil√īmetro de profundidade.

Logo… n√£o existe fiorde no Brasil. De acordo com um ‚Äúinformativo sobre o Saco do Mamangu√°‚ÄĚ que recebi dos donos da casa que alugamos – fino, n√£o? -, o local √© uma forma√ß√£o¬†conhecida como “ria”, ou seja, um leito de rio que foi invadido pelo mar. Mesmo assim, o Mamangu√° √© incr√≠vel.

Imagine um bra√ßo de mar com √°gua transparente, calma e com tons que variam do verde-esmeralda ao azul-calcinha. Esse bra√ßo de mar avan√ßa entre duas cadeias de montanha de 11 quil√īmetros de comprimento e recobertas pela Mata Atl√Ęntica bem preservada. Ao fim do bra√ßo de mar, uma cachoeira desagua no mangue. Ah, detalhe, a areia das praias √© dourada.

Em frente √† casa alugada, entre o √≠ngreme morro e o mar, duas tartarugas-marinhas todo dia colocavam o rosto para fora da √°gua – l√° a profundidade m√°xima √© de 9 metros no centro do bra√ßo de mar. Para atravessar de uma margem √† outra, bastavam alguns minutos remando em uma canoa – a dist√Ęncia entre as margens opostas deve ser de um quil√īmetro ou mais.

Bom, cerca de 100 fam√≠lias cai√ßaras vivem no Mamangu√° – entre as salpicadas mans√Ķes. Os habitantes prestam servi√ßos para os turistas e aos donos das casas – como fazer o transporte das pessoas para o local usando barcos, j√° que √© inacess√≠vel de carro -, pescam e praticam a agricultura de subsist√™ncia, o extrativismo e o artesanato.

Duas unidades de conserva√ß√£o se sobrep√Ķem na regi√£o: √Ārea de Preserva√ß√£o Ambiental de Cairu√ßu (em √Ęmbito federal) e a Reserva Ecol√≥gica da Juatinga (estadual). Detalhe: os barulhentos jet-skis n√£o s√£o bem-vindos no lugar onde a Bella e Edward, protagonistas do hit adolescente Crep√ļsculo, passaram a lua de mel.

Saiba a origem da cor preta da areia da praia

No feriado do Dia do Trabalho, fui romantizar em um peda√ßo de terra que me encantou mais do que esperava: Ilha Grande, em Angra dos Reis. O arquip√©lago j√° fazia parte do meu imagin√°rio. Por um dia estive l√° h√° sete anos, durante o cruzeiro em um navio de 17 andares. Do pen√ļltimo andar da embarca√ß√£o, o c√©u se mostava azul-Rio-de-Janeiro, o mar azul-mediterr√Ęneo, havia uma discreta brisa enquanto o barco navegava por entre “tufinhos” de ilhas verdes reluzindo a luz do Sol, cada uma com um tamanho – mais altas ou baixas que a altura do navio. De pertinho, a √°gua transparente tinha tons de azul-piscina e verde-esmeralda. A descri√ß√£o do para√≠so. “Ainda volto para conhecer esse lugar com mais calma”, mentalizei. E deixei o universo conspirar.

At√© que esse dia chegou. De pertinho, as Ilhas de Angra s√£o t√£o incr√≠veis quanto sua vis√£o panor√Ęmica, com destaque para a Ilha Grande – a maior do arquip√©lago. L√°, eu vi cardume de curiosas lulas, um peixe que parecia cavar com as nadadeiras da frente e abria nadadeiras azuis-arroxeadas do lado do corpo como um p√°ssaro, diversos corais, estrelas-do-mar, um tenso helic√≥ptero naufragado, maravilhosas ba√≠as, ru√≠nas arqueol√≥gicas, densa Mata Atl√Ęntica, areia dourada com a textura e cor como a de Fernando de Noronha e uma “Praia Preta” com uma instigante areia… preta, preta, pretinha (clique nas fotos para ampliar)!

De modo geral, o sedimento levado ao mar pelos rios pr√≥ximos, os restos de corais, os peda√ßos de conchas, os fragmentos vulc√Ęnicos, entre outros, formam as areias das praias. No caso da Praia Preta de Ilha Grande, a areia √© principalmente formada por quartzo (habitual na composi√ß√£o da maioria das areias), feldspato e biotita (minerais constitu√≠dos por sil√≠cio e alum√≠nio raros nas praias porque se alteram rapidamente com a presen√ßa da √°gua) e por um grupo de minerais pesados. Estes minerais pesados, chamados assim por ter a densidade maior que a dos minerais comuns, s√£o escuros dando a colora√ß√£o preta para a areia da praia. Entre eles, est√£o: magnetita (que √© magn√©tico), ilmenita (com tit√Ęnio na composi√ß√£o e brilho met√°lico), monazita (fluorescente na luz ultravioleta devido a presen√ßa de elementos radioativos), zirc√£o (v√≠treo com zirc√īnio) e rutilo (uma das principais fontes de tit√Ęnio da natureza).

O mais incrível é que as ondas do mar separam os minerais pesados do quartzo, do feldspato e da biotita. O movimento das ondas agrupa os minerais de acordo com sua densidade (mais leve ou mais pesada). As ondas acumulam os minerais pesados próximos à vegetação, mais longe do oceano, e arrastam os mais leves para perto do mar. O desenho das faixas coloridas formadas na areia lembra aqueles quadrinhos de vidro com areia dentro, hit dos anos 1980, que mudavam as paisagens conforme eram movimentados por nós. Lembra-se?

Obs.: As explica√ß√Ķes sobre a areia preta da praia retirei de um cartaz oficial de informa√ß√£o sobre o local.

Valorize os pequenos (grandes) momentos da natureza

Era um fim de tarde nublado em Ipanema. Eu caminhava no cal√ßad√£o com amigos ao encontro de mais amigos num bar que comercializava deliciosos quitutes, localizado no xadrez dos quarteir√Ķes, no √ļltimo novembro. Preferimos, claro, ir pela praia. Naquelas passadas recheadas de risadas, parei para observar as ilhas do Arquip√©lago das Cagarras. Elas me fascinam. Parece que foram propositalmente colocadas ali para, da areia, emoldurarem o mar. Descendo os olhos em dire√ß√£o ao centro do quadro, √† praia, encontro tr√™s cenas comuns, quaisquer, triviais que devem ocorrer todos os dias sobre os min√ļsculos gr√£os. Suas plasticidade e vulgaridade cativaram. As oito personagens faziam parte daquele ambiente natural, talvez tendo consci√™ncia desse pertencimento. Querendo ou n√£o, nossa rela√ß√£o com a natureza √© de depend√™ncia. Somos pequenos em rela√ß√£o ao mundo em que vivemos, mas cada um pode ser grande dentro dele.

Foto e efeito: @isisrnd

Por que o Rio tem morros?

Essa eu aprendi caminhando na Pista Cl√°udio Coutinho, na Cidade Maravilhosa – clique aqui para ver um v√≠deo do passeio e saber mais. O local √© repleto de placas com explica√ß√Ķes sobre a flora, a fauna e a forma√ß√£o rochosa locais. Duas delas me chamaram muito a aten√ß√£o, diziam como aqueles morros do Rio de Janeiro “apareceram”. Veja que incr√≠vel – a geologia me encanta por proporcionar um contato com o passado remoto: a maioria das rochas cariocas que vemos nos morros se formou h√° cerca de 600 milh√Ķes de anos, durante a √©poca chamada Eon Paleoz√≥ica.

Faz tanto tempo que a América nem existia.

Simplificando a hist√≥ria, existiam v√°rios continentes dispersos. Devagarinho, eles foram se juntando, juntando, aglutinando… At√© que se uniram em um continente gigante chamado Gondwana. Conforme os continentes colidiam, suas margens se acavalam umas sobre as outras formando uma cordilheira de montanhas (isso lembra os Andes?) e soterrando vastas por√ß√Ķes da crosta (“casca” externa da Terra). Era algo lentamente violento.

A press√£o e o calor da colis√£o entre os continentes foram t√£o intensos que fizeram com que uma rocha que estava l√° no fundo da crosta se modificasse e aparecesse. Essa rocha, entre elas a do P√£o-de-A√ß√ļcar, se chama gnaisse. Segundo indicam as placas da Pista, as gnaisses que vimos em forma de morros cariocas foram formadas h√° 25 quil√īmetros de profundidade. A eros√£o – a√ß√£o da chuva, vento e mar – das partes mais superficiais da crosta fez com que a gnaisse aparecesse.

Nem preciso dizer que me delicio com essas histórias. Leitor, vamos preservar o que levou tanto tempo para ser esculpido.

Para onde v√£o os p√°ssaros?

Pare√ßo crian√ßa. Ali√°s,¬† meus pais sofriam enquanto passava pela fase do “mas por que”… No √ļltimo feriado, estava em um dos meus locais preferidos do Rio de Janeiro. Ah, o Arpoador… A miss√£o era ver o por-do-sol. Enquanto me esfor√ßava (estava nublado), uma outra coisa chamou a aten√ß√£o: os p√°ssaros.

Era uma revoada em um fim de tarde, claro. Um bando de ave voltando rumo ao horizonte do alto mar. Fiquei intrigada. Aquela a√ß√£o trouxe √† minha cabe√ßa rela√ß√Ķes de aves e ilhas que j√° presenciei. Por sorte, ao meu lado estava Mauro Rebelo, escrevinhador do “Voc√™ que √© bi√≥logo” e um dos meus guias do Rio de Janeiro. Lancei a d√ļvida para ele: “Sabe por que os p√°ssaros est√£o indo embora?”

 

A resposta, caro leitor, era √≥bvia. O rush no c√©u se dava na volta para casa. Essas aves dormem nas ilhas, onde tamb√©m constroem seus ninhos. J√° vi isso em outro lugar, acho que em Fernando de Noronha. L√°, as fragatas, tamb√©m conhecidas por “piratas”, atacam os atob√°s na volta ao ninho (feito nas ilhas) para roubar a pesca do dia –¬†leia uma mat√©ria bacana aqui.

 

Em seguida, veio outra quest√£o que guardei para mim e agora divido com voc√™. Ser√° que, antes da ocupa√ß√£o desenfreada da Ba√≠a de Guanabara, alguns desses p√°ssaros n√£o “moravam” no continente?

 

Clique acima para ver a volta dos p√°ssaros – apesar de n√£o parecer, havia um monte de ave no c√©u. A grava√ß√£o foi feita no Aterro do Flamengo e n√£o no Arpoador. Afinal, quem viu meu¬†v√≠deo sobre os tucanos de S√£o Paulo – aqui –¬†deve ter reparado que filmar aves n√£o √© o meu forte.

Pensou em subir o morro do bondinho a pé?

Este post √© para quem gosta de apreciar mar, montanha, p√°ssaros, flores, esp√©cies em extin√ß√£o, tudo junto e misturado. A Pista Cl√°udio Coutinho, mais conhecida como Trilha da Urca, √© um dos meus pontos preferidos no Rio de Janeiro – outros s√£o o Arpoador, Museu da Ch√°cara do C√©u, Parque das Ru√≠nas, Aterro do Flamengo, Prainha, Grumari, Lagoa, afe, lista extensa. A trilha une pr√°tica de esportes ao ar livre, caminhada ou corrida, com a contempla√ß√£o de paisagens de tirar o f√īlego. O melhor: tudo com a seguran√ßa de um terreno do ex√©rcito.

Seus 2.500 metros podem ser feitos a p√© por pessoas de todas as idades, pois o caminho ligeiramente √≠ngreme possui ch√£o de asfalto. Durante o agradabil√≠ssimo passeio, √© poss√≠vel ver pau-brasil rec√©m-plantado e esp√©cies em extin√ß√£o como, por exemplo, orqu√≠dea-da-g√°vea, brom√©lia-da-urca, vel√≥zia-branca e roxa. Entre os p√°ssaros, podem ser avistados: ti√™-sangue, gavi√£o-carij√≥, sa√≠-azul, sanha√ßos e tesour√£o. Claro que os saguis tamb√©m d√£o pinta por l√° – veja o v√≠deo com mais informa√ß√Ķes clicando na primeira imagem deste post.

 

Agora, a cereja do bolo é a trilha que dá acesso ao topo do Morro da Urca, onde fica a primeira parada do bondinho. Sim, é possível subir os cerca de 220 metros do Morro da Urca com seus próprios pés! O caminho que dá acesso ao topo está sinalizado à esquerda nos primeiros metros da Pista Рfique atento. Alguns degraus de madeira improvisados são o começo da árdua subida. Prepare-se.

O caminho exige do corpinho – em alguns trechos, usei at√© as m√£os para me equilibrar devido √† inclina√ß√£o… Para piorar ou aumentar a adrenalina, quando fui tinha acabado de chuviscar. A terra estava molhada e escorregadia. Como o clima entre as √°rvores √© sempre √ļmido, talvez essa seja uma condi√ß√£o constante do solo.

Durante a subida, estava ansiosa para ver a paisagem. O que não foi possível porque a mata fechada impedia, inclusive, a entrada dos raios solares. De certa maneira, não poder apreciar a Baía de Guanabara aumentou ainda mais a ansiedade, a inquietação, a euforia. O que viria à frente?

Apenas ao chegar quase no topo da trilha √© poss√≠vel avistar parte da Praia de Botafogo (foto ao lado) – o outro lado do Morro, j√° que o acesso √† Pista se d√° pelo cantinho da Praia Vermelha, no bairro da Urca (foto √† esquerda). Bom, seguindo trilha adentro alguns metros para a esquerda… Tcha-nan! Um port√£o √© a dica de que chegou a primeira parada do bondinho! Cerca de uma hora e pouco de subida, voc√™ est√° na primeira parada do bondinho! Do bondinho!

√Č emocionante atingir o topo com seu pr√≥prio esfor√ßo. L√° em cima, a t√£o almejada vista √© de tirar o f√īlego – se √© que sobrou algum. Vale cada gota de suor. Suspiro.

Obs.: Quem preferir, pode fazer o caminho inverso. Descer o Morro da Urca pela trilha. Ou subir e descer. No meu caso, voltei usando o bondinho como meio de transporte – voc√™ pode comprar a passagem s√≥ de descida l√° em cima, mesmo. H√° mais de 15 anos n√£o passeava nele…

Baía de Guanabara contra águas e morros?

Este √© um post no estilo: voc√™ sabia? Ao menos 15% da Ba√≠a de Guanabara, aquela coisa linda circundada por cidades como Rio de Janeiro e Niter√≥i, foi aterrada desde a “descoberta” do Brasil. Uma famosa obra do tipo √© o aterro onde est√° inserido o Parque do Flamengo – delicioso ficar pasmando nele admirando o P√£o-de-A√ß√ļcar. Bom, apesar de sua beleza, qual o limite para tal ocupa√ß√£o? H√° muitas “est√≥rias” para refletirmos sobre as altera√ß√Ķes feitas por n√≥s na paisagem.

 

Segundo um pessoal da Fiocruz, localizada no bairro de Manguinhos, antigamente o mar chegava até a avenida Brasil (veja no mapa), umas das vias expressas mais importantes de entrada da Cidade Maravilhosa e que possui a péssima fama de ser perigosa devido aos tiroteios. Também já ouvi e li rumores de que praias como a do Botafogo e Copacabana sofreram com a interferência humana.

 

Talvez a hist√≥ria mais triste sobre aterros na Ba√≠a de Guanabara diz respeito ao Aeroporto Santos-Dumont. Existe um bairro, no centro do Rio, chamado Castelo que ainda hoje √© conhecido por alguns como “Morro do Castelo”. O local era hist√≥rico. De acordo com not√≠cias publicadas em jornais, foi nesse morro que os portugueses, em 1500 e bolinhas, se abrigaram ap√≥s expulsarem os franceses da cidade (ali√°s, dizem que o “r” carioca √© pronunciado puxado devido ao sotaque franc√™s). Ent√£o, foi ali que a cidade se estabeleceu.

 

Assim, v√°rios edif√≠cios hist√≥ricos foram constru√≠dos desde a √©poca dos jesu√≠tas e se mantiveram de p√© at√© o come√ßo de 1900 – entre eles, uma fortaleza que inspirou o nome dado ao morro. At√© que, nos anos de 1920, o morro foi ladeira abaixo. Sob o pretexto de melhorar a circula√ß√£o de ar na cidade para as comemora√ß√Ķes do 1¬ļ Centen√°rio da Independ√™ncia do Brasil, o prefeito Carlos Sampaio mandou demolir o local.

 

Aquele mont√£o de terra tirada de l√° foi usado, entre outros, para aterrar a √°rea do Aeroporto Santos-Dumont. E, assim, a hist√≥ria literalmente se encontrou demolida. Pr√©dios hist√≥ricos, acidente geogr√°fico natural, resid√™ncias, lembran√ßas… ao ch√£o – ou no fundo do mar. Valeu a pena? Como disse meu marido, “parece que as pessoas tentam insistentemente deixar o Rio de Janeiro feio, mas mesmo assim n√£o conseguem”. Tomara.

 

Saguis: bonitinhos, mas ordin√°rios

Quem passeou de bondinho no Rio de Janeiro, pelo P√£o-de-A√ß√ļcar, j√° deve ter visto aqueles macaquinhos engra√ßadinhos que ficam nos encarando com cara de pid√£o: os saguis. Eles encantam pela fisionomia e pelo jeito, por√©m causam um problem√£o por serem¬†quando s√£o uma esp√©cie invasora no estado do Rio de Janeiro e de S√£o Paulo.

Esses saguis s√£o origin√°rios da Mata Atl√Ęntica (n√£o do Sudeste), mas de uma parte do bioma do Nordeste – leia mais sobre os saguis. Aqui, no Sudeste, eles foram introduzidos pelo homem. As m√°s l√≠nguas dizem que as pessoas compravam os saguis como bicho de estima√ß√£o. Por√©m, como o macaquinho √© inquieto, acabavam abandonando em matas da cidade.

 

Não vou nem falar sobre a prática de ter em casa um bicho de estimação sem permissão legal e, tão péssimo quanto, largá-lo depois. Há um outro problema. Os saguis souberam se virar por aqui. Eles se alimentam de frutas, de insetos e de ovos de passarinho.

 

Há alguns anos, quando estive no Parque Estadual da Ilha Anchieta, em Ubatuba (litoral norte de São Paulo), um responsável pelo local me contou que os saguis estavam causando um desequilíbrio no ecossistema da ilha. Os saguis, por se alimentarem de ovos, diminuem a população de pássaros nativos que não conseguem defender sua cria. E agora, José?

 

Curiosidade: lá no Morro da Urca, vi um sagui passando seu filhotinho lindo para outro sagui. Achei estranho devido à nossa proximidade (humanos) deles e porque sempre, em documentários, vi a mãe macaca carregar o bichinho Рclique na imagem ao lado para ver o filhotinho. A Maria Guimarães, do Ciência e Ideias, me contou que o macho sagui ajuda a fêmea a carregar o filhote. Afinal, levar um bebê pesadinho o dia todo junto ao corpo cansa.
Corre√ß√Ķes: Leia os coment√°rios abaixo feitos pelo veterin√°rio especializado em animais silvestres¬†e fot√≥grafo¬†Samuel Betkowski.¬†“Existem SIM esp√©cies de saguis origin√°rias da regi√£o sudeste do Brasil. (…) N√£o existe problema nenhum nisso. Ainda, algumas esp√©cies nativas do sudeste est√£o amea√ßadas de extin√ß√£o como √© o caso do Sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita)”, explica.