Como se chapar sem drogas

Apareceu por a√≠ um textinho interessante sobre como sentir sensa√ß√Ķes estranhas sem o uso de subst√Ęncias il√≠citas (ou modificadoras do estado normal de consci√™ncia).

Eu gostei e achei que deveria não só espalhar como adicionar algumas coisas à lista.
(O t√≠tulo diz “como se chapar com seguran√ßa sem drogas”, mas eu n√£o garanto a seguran√ßa de nada aqui porque tudo isso pode ser tornar v√≠cio que, de certa forma, √© sempre uma coisa perigosa.)

1 – Hipotens√£o postural ou “levantar r√°pido demais”.

Uma forma bem comum de se sentir mal que é razoavelmente parecido com estar bêbado por alguns segundos.
Para atingir esse estado de desorienta√ß√£o, diminua rapidamente a press√£o sangu√≠nea dentro do seu cr√Ęnio. A melhor maneira de fazer isso √© se deitar no ch√£o com as pernas para cima, respirar aceleradamente por alguns segundos e levantar o mais r√°pido poss√≠vel.

Cuidado: você pode desmaiar e bater com a cabeça no chão no processo, causando outro tipo de alteração de consciência, mas de forma bem mais grave e permanente.

Efeito moment√Ęneo comum: desorienta√ß√£o.

2 – Hiperventila√ß√£o ou “nirvana acelerado”.

Alguns monges gostam de passar dias sentados contabilizando o ar que entra e sai de seus narizes para alcan√ßar um “estado de consci√™ncia mais elevado”, o que quer que isso signifique (i.e. nada), mas uma forma de se chegar l√° sem perder horas da sua vida √© respirar fundo o mais r√°pido poss√≠vel por alguns minutos para aumentar a quantidade de oxig√™nio no seu sangue (eu n√£o acho que a mistura gasosa realmente mude tanto assim, mas o efeito √© real de todo jeito).

Cuidado: isso cansa bastante, então certifique-se de que seu sistema circulatório aguenta o esforço. Você não quer sofrer um derrame, né?

Efeito moment√Ęneo comum: euforia.

3 – Alucina√ß√£o hipnog√≥gica ou “paralisia do sono”.

Eu tive isso naturalmente e foi um dos eventos mais aterrorizantes da minha vida (clique aqui para ler o relato). Talvez forçar o acontecimento seja mais interessante, ainda não testei.

Segundo a lista (que pode ser lida em ingl√™s no primeiro link deste texto), basta deitar-se completamente im√≥vel, resistindo ao m√°ximo o impulso de se mexer at√© que seu c√©rebro se engana (o que n√£o √© raro, vides ilus√Ķes de √≥tica) e acha que voc√™ j√° est√° pronto para sonhar. Coisas bizarras se seguem.

Cuidado: você pode ficar traumatizado para sempre e passar a acreditar em fantasmas e afins.

Efeito moment√Ęneo comum: o abandono completo da raz√£o e pensamento cr√≠tico. Voc√™ realmente vai acreditar que uma for√ßa maligna e sobrenatural est√° agindo sobre seu corpo.

4 – Euforia do corredor ou “overdose de endorfina”.

Tendo sido, durante boa parte da minha vida, um atleta, eu garanto a exist√™ncia deste. Fa√ßa o seguinte: se exercite (correr √© uma maneira boa, mas nem todo mundo sabe correr atleticamente) moderadamente at√© al√©m da sua capacidade percept√≠vel. Voc√™ vai sentir um cansa√ßo incr√≠vel e uma vontade irresist√≠vel de se deitar num lugar ventilado pelos pr√≥ximos vinte e cinco dias, mas n√£o pare. Logo ap√≥s esse ponto, voc√™ cruza um limiar e seu c√©rebro, com pena do seu corpo, libera uma quantidade incr√≠vel de endorfina, proporcionando um prazer imensur√°vel, indescrit√≠vel e inef√°vel e que tamb√©m √© viciante. No entanto, voc√™ provavelmente vai passar os pr√≥ximos cinco dias sentindo todos os m√ļsculos que possui reclamando vociferozmente, o que vai impedir que voc√™ de fato se vicie nisso.

Mas vale a pena enquanto dura.

Cuidado: novamente, tenha certeza de que seu coração não vai explodir com o esforço e que você está respirando o suficiente para não desmaiar em alta velocidade.

Efeito moment√Ęneo comum: muito prazer, seguido de imensa exaust√£o.

A lista acaba aqui, mas eu ainda posso citar alguns métodos de se drogar usando somente seu próprio corpo.

5 – Alucina√ß√£o auditiva hipnog√≥gica ou “ei, voc√™ a√≠ dormindo”.

O que acontece aqui √© muito estranho, mas voc√™ s√≥ tem seu c√©rebro a culpar. Quando estiver quase dormindo, comece a pensar no seu pr√≥prio nome, no equivalente mental a “em alto e bom som”. Voc√™ pode at√© apimentar um pouco com alguns vocativos tipo “ei, [seu nome]!”.

Quando você começar a dormir, vai achar que está acordado ainda e que há alguém ao seu lado, em alto e bom som (desta vez fisicamente), chamando sua atenção.

Talvez você não consiga dormir por algum tempo depois disso por causa do susto, mas é interessante.

Cuidado: tenha certeza de que você não vai ficar achando depois que foi alguma alma penada puxando seu pé enquanto você dormia, especialmente se, no outro dia, você souber que alguém que você conhece morreu durante a noite.

Efeito moment√Ęneo comum: medo do escuro.

6 – Embriaguez psicol√≥gica ou “ebriedade pavloviana”.

Esta só funciona se você já bebe e sabe como é se embriagar (clique aqui para um relato mais dramático).

O método é o seguinte: vá para onde você geralmente vai para beber e com as mesmas pessoas com quem você geralmente se embriaga. Passe o tempo que você passaria normalmente mas, e aqui está o segredo, não beba uma só gota de álcool.

O ambiente e as companhias ter√£o, depois de v√°rias sess√Ķes, condicionado voc√™ de tal maneira que, mesmo sem beber, voc√™ se sentir√° embriagado.

Cuidado: nenhum. Sempre que você lembrar que não está bebendo, ficará sóbrio instantaneamente.

Efeito moment√Ęneo comum: embriaguez.

7 – Alucina√ß√£o do prisioneiro ou “vendo estrelas”.

Este aqui ocorre geralmente como efeito do primeiro desta lista (hipotens√£o postural), mas pode ser ativado sem aquele contexto.

Se tranque num quarto completamente escuro (que √© uma coisa bastante dif√≠cil, mas voc√™ precisa estar com os olhos abertos e sem enxergar coisa alguma para que funcione) e espere uns vinte minutos. Seus olhos v√£o tentar se adaptar aumentando a sensibilidade da retina at√© que voc√™ veja alguma coisa, real ou n√£o. Em algumas pessoas o resultado √© t√£o intenso que chega a parecer com uma tela de televisor fora do ar, mas o mais comum s√£o apenas algumas “fa√≠scas fantasmas” passando pelos seus olhos.

Isso também ocorre comigo quando eu olho por muito tempo para um céu sem nuvens. Depois de alguns minutos, eu começo a ver as faíscas cinzentas cruzando minha visão através do campo azul do céu aberto, porém praticamente nada quando comparado com o que acontece na escuridão total.

Infelizmente a maioria de nós vive em locais onde a maior escuridão é, na verdade, uma penumbra, suficiente para tornar nossa visão monocromática mas não para ativar essa reação exagerada da retina. Mas lembre-se: guarda-roupas são geralmente bem escuros de noite.

Cuidado: se alguém acender uma luz onde você estiver, seus olhos vão doer bastante.

Efeito moment√Ęneo comum: alucina√ß√£o visual intensa.

8 – Desaparecimento ou “ponto cego”.

Nem tanto uma alteração de consciência, apenas uma curiosidade. Para enxergar, nossos olhos precisam se mover constantemente. Fixar o olhar em um ponto faz com que ele desapareça até que os olhos (ou o ponto) se movam.

√Č um pouco dif√≠cil conseguir isso olhando para um monitor (que n√£o √© est√°tico, mas pisca v√°rias vezes por segundo) mas bastante f√°cil num papel.

Desenhe um ponto num papel e olhe fixamente para ele por alguns segundos (tentando n√£o mexer os olhos) e, pasme, o ponto desaparece!

√Č por isso que quando olhamos para um foco forte de luz, aquele ponto negro na vista desaparece e s√≥ volta a aparecer quando as condi√ß√Ķes mudam (ou seja, quando piscamos). A queimadura tempor√°ria na nossa retina (sim, queimadura) est√° fixa num ponto, ent√£o depois de algum tempo deixamos de percebe-la.

Cuidado: nada quanto à técnica, mas evite olhar para o sol porque sua retina pode ficar irremediavelmente danificada e desenvolver para sempre um ponto cego no seu campo visual.

Efeito moment√Ęneo comum: alegria da descoberta.

Relate sua experiência nos comentários ou adicione mais algum tipo à lista.

Dia 31 de outubro, vote 42!

Vote 42

Entre estabelecer uma neo-ditadura e voltar para um sistema que potencialmente pode quebrar mais uma vez nosso país, prefiro ficar em casa tomando sopa no dia 31.

E eu detesto sopa.

Quem sou eu

Gr√°fico

O artigo de hoje ia ser s√≥ isso a√≠ em cima mesmo, porque eu pensei: “j√° que n√£o sei mais escrever, vou come√ßar a desenhar minhas ideias”.

Mas enquanto eu estava finalizando os √ļltimos detalhes, recebi a not√≠cia de que o Professor Sandro Silva e Costa havia se suicidado e pensei que n√£o seria apropriado publicar uma piada.

Logo em seguida, pensei que talvez conseguisse extrair alguma coisa √ļtil das duas situa√ß√Ķes anti-sincronicamente emaranhadas.

O que leva uma pessoa a tirar a própria vida? O que poderia ser tão ruim assim?

Essa linha de pensamento é sempre a primeira e a mais perigosa, pois eu estou supondo que há uma escolha, mas isso é uma falácia.

Uma pessoa neurologicamente prejudicada não enxerga alternativa. Não é questão de opção, apenas um adiantamento no inevitável décimo-terceiro da vida.

“Todos vamos morrer de todo jeito, ent√£o por que permanecer aturando uma coisa que eu n√£o gosto?”

Isso é, para mim, ainda mais triste, pois não há apoio familiar ou terapia que resolva. Só remédio.

Muito.

Para o resto da vida.

Assim como não há psicoterapia anticonvulsiva pois não existe conversa que resolva falhas eletroencefálicas, o mesmo é verdade para desequilíbrios químicos no cérebro. Palavras são poderosas, mas não onipotentes.

Para aumentar a minha tristeza, do plano individual para o p√ļblico, existem aqueles que ignorantemente condenam o sujeito por ser “fraco” ou as pessoas que o rodeiam por n√£o “enxergarem os sinais”.

Depois que o diabo do cachorro morde √© f√°cil lembrar que ele “latia de um jeito estranho”, n√©? Previs√Ķes s√£o sempre excelentes quando surgem depois do fato.

Os √ļltimos textos de Stephen Dedalus mostram “claramente” como ele estava prestes a cometer um ato terr√≠vel:

“Ontem cheguei ao fundo do po√ßo. No come√ßo do dia encarei o abismo por longos minutos, decidindo se dava um passo √† frente ou n√£o, depois vaguei o dia todo a p√© sem rumo, sem lugar para ir e sem praticamente falar com qualquer pessoa, s√≥ para terminar o dia muito cansado.”

Claro como o dia, n√£o?

Agora esse outro pedaço de texto, de outra pessoa, igualmente carregado de frustração:

“Pois bem, reitero o apelo: procura-se a felicidade. Eu n√£o sei onde ela est√°, devo t√™-la perdido em algum lugar, mas sei descrever bem sua apar√™ncia por ter convivido tanto tempo com ela.
Mas aparentemente agora ela √© Isabeau para meu Navarre, desaparecendo quando eu acordo e retornando quando me recolho.”

O autor do trecho acima não só continua vivo como está, neste exato momento, escrevendo sobre ele mesmo na terceira pessoa.

Tristeza todo mundo tem vez por outra. Menininhas adolescentes que brigam com o namorado não ficam depressivas. Depressão, apesar da banalização do termo, é uma condição psiquiátrica séria.

Voltando ao gr√°fico do come√ßo: talvez uma pessoa com depress√£o enxergue a vida com os par√Ęmetros trocados, intrinsicamente dando mais valor √† opini√£o alheia sobre si e julgando hipernegativamente tal opini√£o, criando um “o que eu penso de mim” na ponta direita. E se algo vale assim t√£o pouco, qual o motivo para permitir que esse algo continue ocupando espa√ßo valioso no mundo?

Não creio que uma pessoa se torne depressiva da mesma forma que ninguém se torna homossexual. Não é uma escolha ou resultado de experiências, mas algo definido fisiologicamente no cérebro do indivíduo.

E isso é triste, muito triste.

Especialmente quando chega ao mais extremos dos pontos finais.

Espero que a falta dele seja sentida e que sua vida seja lembrada.

Heurística em uma simples lição

A grosso modo, d√°-se o nome “heur√≠stica” ao processo de busca da verdade por intui√ß√£o ou experi√™ncia.

Simplificando ainda mais: heur√≠stica √© um “atalho mental” que n√≥s usamos para chegar rapidamente a uma conclus√£o de maneira que esta esteja o mais perto poss√≠vel da “verdade”, por√©m nem sempre com √™xito.

Um exemplo interessante, vindo da Universidade da Pensilv√Ęnia, nos diz que temos uma tend√™ncia a estimar o peso das pessoas de acordo com suas larguras, independente da altura dos indiv√≠duos. Via de regra, o mais gordo √© o mais pesado (esse √© o atalho mental), no entanto, um baixinho gordinho pode pesar bem menos que um gigante esbelto, apesar disso (em acordo com a nossa experi√™ncia) ser mais raro.

Mas esse mesmo erro de conceito (e uma certa incapacidade de adicionar muitas coisas ao mesmo tempo) nos faz achar que v√°rias pequenas por√ß√Ķes de um alimento fornecem menos calorias que uma s√≥ por√ß√£o grande, mesmo quando o peda√ßo maior √©, de fato, menor que a soma dos peda√ßos menores (em outras palavras, achamos que um bife de 300g tem mais calorias que um bife de 500g cortado em vinte pedacinhos porque somos ruins de conta), o que nos faz comer, sem culpa, um pacote de 200g inteiro de Fandangos Eco enquanto torcemos nosso nariz diet√©tico para uma batata assada de 150g.

Heur√≠stica nos faz chegar a conclus√Ķes que est√£o mais ou menos certas no menor tempo poss√≠vel. Evolutivamente isso faz sentido, j√° que n√£o √© t√£o vantajoso ficar muito tempo ponderando se aquilo √© mesmo um tigre dente-de-sabre.

Dessa maneira, podemos ver as fotos a seguir e dar valores diferentes ao que é, basicamente, a mesma coisa. Notem:

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bebe fofinho com chapéu de pele

A rea√ß√£o comum √† foto acima √©: “Ooommmm, que fofinho, o bebezinho com um chap√©u de pele”.

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garota fofinha com chapéu de furão

Temos aqui uma rea√ß√£o parecida, mas o conjunto j√° n√£o √© t√£o fofo assim porque o bicho ainda est√° vivo e, potencialmente, pode machucar a garotinha. Existe uma reserva maior, caracterizada por um “om” menor e menos efusivo e por pausas de tens√£o entre as frases: “Oomm, que linda… fazendo o fur√£o de chap√©u…”

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sujeito bizarro com chapéu de pele

Aqui, novamente, exatamente a mesma coisa, por√©m agora se trata de um adulto. J√° sem express√Ķes de fofura, lemos a foto como: “Hum…” e evitamos contato visual enquanto atravessamos para o outro lado da rua.

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velhote bizarro com chapéu de raposa

Mesm√≠ssima situa√ß√£o, mas agora evitamos contato visual com a raposa morta e temos um: “Credo, que velho macabro!”

A próxima foto pode ser bastante perturbadora para alguns. Por favor, exerçam discrição ao contemplá-la.

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Continue lendo…

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