Resenha ‚Äď Serial Killer – Louco ou Cruel?

Olá, caros leitores. Estavam sumidos. O que aconteceu com vocês?

Que interessante! Bom, chega de falar de voc√™s, calem a boca e me escutem um pouco para variar. Aff…

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Na minha infinita busca por algo que me entretenha enquanto me informa, recebi (pedi, na verdade) da Ediouro o livro de Ilana Casoy sobre matadores em série e, assim que o recebi, não quis largar o pacote. Infelizmente, minha mulher é mais esperta e retirou o livro da embalagem sem que eu notasse (caixas me fascinam, sou como um gato assim) e se prestou a ler o volume antes que eu pudesse protestar.

Como eu rapidamente me ocupei com outra coisa (novamente, como um gato), ela leu e escreveu uma resenha que apresento a seguir (ela tirou o livro de mim, eu tirei a resenha que iria para o Tumblr dela. Nada mais justo).

(Nota do editor: a boneca na foto ao final do texto não é minha. Eu jamais teria uma boneca Monster High. Prefiro brincar com miniaturas.)

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Serial Killer – Louco ou Cruel?

(Ilana Casoy, 2ª Edição, Ediouro)

A brasileira Ilana Casoy se formou em administra√ß√£o de empresas por√©m acabou mergulhando no estudo da mente criminosa. Mesmo sem ter forma√ß√£o em Direito, Medicina ou Psicologia Forense, hoje √© considerada especialista no assunto e atua como consultora da OAB/SP, do N√ļcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jur√≠dica do Hospital das Cl√≠nicas de SP, bem como auxilia diversas Pol√≠cias na elabora√ß√£o de perfis de criminosos.

Serial Killer РLouco ou Cruel? é o primeiro dos quatro livros da autora e foi relançado em 2010 pela Ediouro, que teve a gentileza de nos enviar um exemplar.

Na fase introdut√≥ria, Ilana faz um resumo did√°tico e bastante acess√≠vel ao leigo sobre as teorias que tentam explicar o que leva uma pessoa a praticar atos hediondos em s√©rie, os diferentes padr√Ķes psicol√≥gicos dos criminosos, o ciclo vicioso com que os crimes no geral se processam, a capacidade de simula√ß√£o do indiv√≠duo para “envernizar-se” e viver em sociedade sem que ningu√©m desconfie de seus atos e as caracter√≠sticas comuns √† inf√Ęncia de muitos deles, bem como o fato de que eles s√£o, em sua maioria, brancos.

N√£o existe uma teoria que sozinha explique satisfatoriamente as a√ß√Ķes de um assassino em s√©rie, e √© digno de nota ressaltar que a autora nem se deixou contaminar pelas teorias dos defensores da t√°bula rasa, tampouco por teorias de determina√ß√£o gen√©tica pura e simples. N√£o se pode, do ponto de vista cient√≠fico, afirmar que uma pessoa nasce com o destino selado porque conta com uma carga gen√©tica X pois a qualidade dos relacionamentos interpessoais e as experi√™ncias psicol√≥gicas que a pessoa acumula ao longo da vida, ainda que n√£o necessariamente mudem sua personalidade, podem atenuar ou moldar seu car√°ter violento. Ela se mostra muito mais preparada do que muitos professores universit√°rios brasileiros.

Há psicopatas que escolhem, por exemplo, cursar Medicina e se especializar em cirurgia, outros que se encaminham para os crimes de colarinho branco sem chegar perto de uma gota de sangue durante toda a vida, outros que apenas vampirizam financeiramente a família e os criminosos de diversas naturezas. Os psicopatas estão por toda parte. A menor fatia deles, felizmente, age como os que Ilana coletou em sua obra.

Muitas pessoas adeptas da cren√ßa que descarta o biol√≥gico e defende que o homem √© apenas produto do seu meio esquecem que a maioria das pessoas que sofreu abuso sexual nunca se tornou molestadora de crian√ßas ou assassina em s√©rie e esquecem o principal; que adultos psicopatas que alegam passado de abuso no geral apontam que foram molestados de modo sistem√°tico pelo pai, pela m√£e, por tios ou av√≥s. Os abusadores do passado destes psicopatas n√£o s√≥ doaram a sua carga gen√©tica como tamb√©m acionaram o gatilho para que a inf√Ęncia do serial killer se transforme na perfeita incubadora para o mal latente. De um lar desestruturado para uma inadequa√ß√£o social √© um pulo.

O livro √© interessante do come√ßo ao fim. Cinco dos dezoito assassinos seriais retratados, como Ed Gein que inspirou ‘Psicose’de Hitchcock, ganharam uma descri√ß√£o bem romanesca e diferente do relato algo jornal√≠stico dos outros casos, por√©m sem qualquer tipo de apelo √† compaix√£o do leitor em favor do assassino. √Č preciso refor√ßar que embora a imputabilidade seja algo relevante durante o julgamento, o fato √© que indiv√≠duos que praticam crimes hediondos em s√©rie n√£o podem recuperar sua liberdade, seja atrav√©s da perman√™ncia em casas de cust√≥dia ou de pris√£o perp√©tua ou pena de morte, de acordo com a legisla√ß√£o de cada pa√≠s. Aqui no Brasil ainda se consegue manter alguns indiv√≠duos de alta periculosidade em casa de cust√≥dia, mas √†s custas de um trabalho silencioso pois sempre h√° press√£o para que o indiv√≠duo, por mais cruel que seja, ganhe liberdade.

Apesar de não ser um livro técnico (nem ter a pretensão de ser), em minha opinião é leitura obrigatória para Policiais, Promotores, Médicos, Psicólogos, Advogados e Juízes. Muitos dos erros da nossa Justiça hoje, como soltar um criminoso perigoso só porque ele tem bom comportamento na cadeia, foram cometidos no passado em outros países e resultaram na perda de vida de muitas pessoas. No emblemático caso de Arthur Shawcross, que foi solto pelo Juiz por bom comportamento mesmo diante de vários pareceres médicos desfavoráveis Рo que é revoltante -, mais onze pessoas morreram.

Um pedófilo que molesta crianças pode ser um cidadão modelo, um trabalhador dedicado em sua profissão, frequentar Igreja e fazer trabalho voluntário, e na cadeia se comportar como um Lorde Inglês, porém isso não muda em nada o fato dele ser incapaz de parar de molestar crianças sempre que tiver oportunidade.

O Brasil simplesmente não consegue entender isso e a cada natal temos mais pessoas mortas, estupradas, agredidas e assaltadas por causa do indulto natalino. E como se não bastasse, ainda temos a figura legal aberrante do semi-imputável, uma piada sem nenhuma graça.

Outra lição interessante que podemos extrair dos estudos de Ilana é que algumas Polícias costumam revistar a casa e fazer alguma devassa nos antecedentes dos assassinos quando estes são presos por crimes banais. Muitos sociopatas criminosos em série foram pegos assim, após furtarem uma conveniência saindo sem pagar ou fraudarem cartão de crédito, pois são mais cuidadosos quanto mais grave é a ofensa. Isso deveria ser rotina no Brasil. Quantos assassinos e estupradores entraram na cadeia por um crime bobo e saíram em poucos meses?

Todo mundo mente. E quando essa pessoa √© um assassino em s√©rie essa regra √© ainda mais forte. M√©dicos s√£o educados sem capacita√ß√£o para diagnosticar simula√ß√£o e essa capacidade s√≥ vem com a pr√°tica que leva √† busca de dados extra-m√©dicos, de evid√™ncias circunstanciais que apoiem o racioc√≠nio m√©dico. A qualidade da Assist√™ncia T√©cnica ao Juiz foi bem ilustrada no caso de Dennis Andrew Nilsen, o serial killer ‘carente’. Os dois m√©dicos que o avaliaram criaram uma s√©rie de teorias mirabolantes totalmente desconectadas dos fatos j√° documentados √† √©poca e enquanto eu lia as ideias dos colegas quase arranhei meu pr√≥prio rosto pensando que o criminoso havia se safado. Andrew trabalhava todos os dias em dois expedientes, mantinha rotina regular, cuidava de um animal dom√©stico e descreveu detalhadamente todos os seus crimes e mesmo assim um dos psiquiatras afirmou que ele teria “brancos” ocasionais como se fosse uma esquizofrenia que vai e volta, sugerindo imputabilidade! O terceiro parecer, que foi emitido por um M√©dico Legista, concluiu que o criminoso era um ex√≠mio manipulador.

Muitos dos dados de entrevistas acerca da inf√Ęncia dos criminosos n√£o resistem a um detalhamento mais t√©cnico, bem como as alega√ß√Ķes das suas motiva√ß√£o para os crimes. Uma assassina em s√©rie que escolheu matar homens de meia idade foi mudando sua vers√£o da hist√≥ria calculando os riscos, por√©m quando estava no corredor da morte disse que estava cansada das mentiras e confessou mais um crime, para o qual n√£o havia sido julgada.

As mulheres são minoria entre os assassinos em série. A autora mostra a lista de mulheres executadas nos EUA desde 1976 e a das que estavam no corredor da morte até 2007. Além disso, ela também inclui um apêndice com alguns nomes apelidos de criminosos de todo o mundo e algumas frases famosas.

E, como ‘faixa b√īnus’, Ilana coloca o famoso caso do ‘Zod√≠aco’, sem resolu√ß√£o at√© hoje e que inspirou filmes, livros e seriados.

Recomendo a leitura.

Agora me responda: você é a favor da pena de morte? Por quê?

N√£o tem opini√£o formada? Sugiro que para ilustrar seu brainstorm leia os casos de Andrei Chikatilo e de Edmund Emil Kemper III.

Abraço,

M.

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Serial Killer РLouco ou Cruel?, de Ilana Casoy, pode ser adquirido diretamente na página da Ediouro ou, se você é do tipo que ainda sai de casa, em livrarias.

Até mais. E não sumam novamente.

Resenha – E Se?

“√Č prov√°vel que bifes sobrevivam ao romper a barreira do som. Se o bife estivesse s√≥ parcialmente congelado, ele iria se estilha√ßar muito f√°cil. Contudo, se ele aterrissar na √°gua, na lama ou em folhas, talvez fique ok.[1]

Plasma incandescente, petabits por segundo, gotas de chuva de um quil√īmetro de di√Ęmetro, escala Richter negativa, cozimento gravitacional, quantos mortos existem no Facebook, o sinal UAU! e um secador de cabelos indestrut√≠vel. Este livro √©, sem sombra de d√ļvidas, o meu fil√£o.

Sem se manter numa mesma linha de racioc√≠nio por mais de dois par√°grafos, Randall Munroe, autor do sempre (estatisticamente) excelente XKCD, responde perguntas hipot√©ticas (e algumas aparentemente nem tanto) de seus leitores com um rigor cient√≠fico encontrado apenas nas mais bem conceituadas institui√ß√Ķes de publica√ß√£o de webcomics. Afinal, apesar de ser roboticista, Randall √© um cartunista humorista (ou “roboticisto”, “cartunisto” e “humoristo”, como o jornalisto J√ī Soares acredita ser correto).

Foto do autor

Foto do autor

Um dos melhores capítulos é o que fala sobre o que aconteceria com a órbita terrestre se todas as pessoas se juntassem num mesmo lugar e pulassem ao mesmo tempo. E não digo isso porque o Scienceblogs é citado (é a matriz, afinal, mas está valendo) mas pela reviravolta épica que me pegou de surpresa. Pensamento lateral daqueles que caem para fora da página. E ainda me lembrou um texto épico meu.

Um livro extremamente divertido, f√°cil de ler (para mim foram tr√™s ou quatro horas de pura empolga√ß√£o) e de acompanhar (as contas mais pesadas ele guarda para si e n√£o “mostra o trabalho”, s√≥ d√° a resposta). Divulga√ß√£o cient√≠fica de primeira com in√ļmeras piadinhas discretas espalhadas por todo lugar (incluindo no verso da folha de rosto que, quando trabalhei num jornal, chamavam de “servi√ßo”) que certamente causar√£o gargalhadas em quem as encontrar dentre as 300 e poucas paginas.

Eu achei muito erro de tradução[2] e até alguns de gramática (e uns mistos, como muito uso de vírgula que sobrou do original mesmo não existindo em português). Mas não acho que a maioria das pessoas realize ou se incomode, com essas coisas.

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A minha c√≥pia √© da primeira edi√ß√£o e tem uma diagrama√ß√£o esquisita no inicio, onde um mapa com os oceanos do mundo esvaziados ficou praticamente sem √Āfrica e Europa, que se perderam dentro da lombada. Mas, como sou gente boa, eis aqui o desenho original.

Em E Se?, lançado aqui pela Companhia das Letras, você também vai descobrir uma nova solução para a máxima do copo meio vazio, quanto custaria morrer num quebra-molas e, com a ajuda de girafas empilhadas, como uma criança de cinco anos pode destruir a lógica de um físico e a força de um arremessador profissional.

Minha cópia me foi enviada pela editora, mas é o tipo de livro que eu compraria sem hesitar. Recomendo fortemente para você que lê o 42. e não volta para casa com confusão mental. E, se você é fã do XKCD, nem sei porquê está lendo isto.

Ah, e para quem estiver lendo isto a tempo e precisar saber até sexta-feira:

Sweet.

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[1] Intacto, no caso. N√£o ok para comer.

[2] Por√©m, preciso parabenizar o tradutor que teve a ideia de traduzir “flyover state” para “estado janelinha”. A melhor manobra tradu√ß√£o que vi desde que “blaster” virou “explosor” nos anos 70.

Resenha РRaízes do Brasil

“A falta de coes√£o em nossa vida social n√£o representa um fen√īmeno moderno. E √© por isso que erram profundamente aqueles que imaginam na volta √† tradi√ß√£o, a certa tradi√ß√£o, a √ļnica defesa poss√≠vel contra nossa desordem.”

Lan√ßado seis anos antes de Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo, este livro √© uma das bases para a compreens√£o do nosso pa√≠s. De onde veio? O que come? Como sobrevive?

O historiador S√©rgio Buarque de Holanda descreve a situa√ß√£o que nos criou; da falta de hierarquia e “frouxid√£o da estrutura social” at√© a forma√ß√£o e longevidade das oligarquias que conhecemos muito bem hoje.

Os problemas, que começaram em Portugal mas que hoje já são bem nossos, explicam muito sobre nossa herança social e o motivo por sermos tão diferentes de países com a mesma idade do nosso (Estados Unidos) e até consideravelmente mais jovens (Austrália).

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O volume mostra um pouco como a nossa escravid√£o (que acompanhou a planta√ß√£o de cana-de-a√ß√ļcar que foi escolhida porque t√≠nhamos espa√ßo demais para aproveitar) moldou os rumos das rela√ß√Ķes entre popula√ß√Ķes urbanas e rurais s√©culos depois e detalha as diferen√ßas das mentalidades das maiores pot√™ncias da √©poca (Portugal e Espanha) e como isso dificultou a forma√ß√£o de uma personalidade brasileira.

[O] aparente triunfo de um princípio jamais significou no Brasil mais do que o triunfo de um personalismo sobre o outro.

√Č um livro fascinante realmente. Eu pensei em incluir algumas frases excepcionais mas percebi que estava sublinhando o livro inteiro. Qualquer p√°gina onde o livro for aberto vai ter uma excelente frase que √© t√£o verdade hoje quanto era oitenta anos atr√°s.

Come√ßa meio lento por causa da linguagem mas rapidamente voc√™ se acostuma com o passo e o mundo se abre ao seu redor. √Č um livro razoavelmente curto (cento e cinquenta p√°ginas de texto propriamente holandiano) com uma leitura agrad√°vel.

“√Č ineg√°vel que em nossa vida pol√≠tica o personalismo pode ser em muitos casos uma for√ßa positiva e que ao seu lado os lemas da democracia liberal parecem conceitos puramente ornamentais ou declamat√≥rios, sem ra√≠zes fundas na realidade.”

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, relançado pela Companhia das Letras (com Abaporu virado pro lado errado na capa) e a venda em casas do ramo. Recomendo (especialmente para mostrar, ao contrário do que a escola nos ensina, que História pode ser interessante).

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A frase que abre esta resenha e demonstra a ideia nada nova e apropriadamente ultrapassada de que “antigamente era melhor” se torna um tanto quanto comicamente ir√īnica ao longo do livro, salpicado de cita√ß√Ķes n√£o-traduzidas em franc√™s, espanhol, italiano e, a mais esquisita, uma em latim retirada de um livro em alem√£o.

√Č bem estabelecido que “hoje” √© sempre a melhor √©poca para se viver, independente de quando esse “hoje” se encontre, mas parece que antigamente o pessoal era mais poliglota.

Resenha – Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo

“Salvo em alguns setores do pa√≠s, ainda conservam nossas rela√ß√Ķes sociais, em particular as de classe, um acentuado cunho colonial. (…) Quem percorre o Brasil de hoje fica muitas vezes surpreendido com aspectos que se imagina existirem nos nossos dias unicamente em livros de hist√≥ria.”

Surpreendentemente (ou n√£o), as palavras acima foram publicadas pela primeira vez 72 anos atr√°s. Caio Prado Jr. descreveu, em 1942, um Brasil que parece rec√©m sa√≠do da situa√ß√£o de col√īnia escravista, onde o trabalho livre ainda √© desorganizado, a economia interna ainda √© quase inexistente e a sociedade ainda n√£o aprendeu a lidar com a falta de escravos sociais. Isso tudo, tristemente, continua desconfortavelmente atual hoje em dia, quase duzentos anos depois do nosso “grito de independ√™ncia”.

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Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo foi o livro que mais contribuiu para o autoconhecimento do nosso pa√≠s, at√© ent√£o dividido em ilhas de informa√ß√Ķes com intercomunica√ß√£o inadequada. Ele investiga esmiu√ßadamente a realidade do pa√≠s desde que √©ramos col√īnia portuguesa at√© a entitulada forma√ß√£o do Brasil como na√ß√£o.

A forma como ele exp√Ķe os problemas atuais (sim, a maioria continua bem fresca, mostrando como evolu√≠mos muito pouco nos √ļltimos dois s√©culos) e suas causas no passado nos ajuda a compreender o contexto para o resto do livro e nos d√° os fundamentos do que ele pensa ser a melhor forma de resolver nosso ran√ßo colonial, que serviu para nos distanciar do resto do mundo, e que nos desviou para o lado errado da evolu√ß√£o social.

Caio Prado Jr. deixa bem claro que fomos colonizados somente para facilitar os interesses mercantilistas, transformando o país num imenso galpão fornecedor de riquezas para os outros e que isso nos afeta até hoje (1942 para ele, 2014 para nós). Por estarmos na zona tropical, nossa sociedade foi inventada, diferente da tradicional sociedade colonial temperada, parecida o suficiente com a colonizadora a ponto de ser quase uma extensão desta. Aqui fomos diferentes desde o primeiro dia. A ocupação do interior, por exemplo, foi apenas uma necessidade num mundo sedento por monoculturas, tanto agrícolas quanto pecuárias.

Ele fala tamb√©m sobre as ra√ßas no Brasil, reclamando da falta de an√°lise sistem√°tica que “[f]ornece por isso ainda muito poucos elementos para a explica√ß√£o de fatos hist√≥ricos gerais, e temos por isso de nos contentar aqui no estudo da composi√ß√£o √©tnica do Brasil, em tomar as tr√™s ra√ßas como elementos irredut√≠veis, considerar cada qual unicamente na sua totalidade“. Especialmente na homogeneiza√ß√£o dos escravos, provenientes de v√°rias culturas distintas que foram for√ßados a conviver sob o peso dos grilh√Ķes pelos brancos, geralmente cat√≥licos.

Outra parte interessante √© quando ele discorre sobre a cria√ß√£o disforme da nossa sociedade, antes baseada no mercantilismo e escravid√£o, que precisa agora crescer, de alguma forma, num mundo onde existe liberdade social e econ√īmica. Esse monstro que se forma dessa situa√ß√£o cria a nossa sociedade com imensas fendas entre os abastados, que podem ter tudo do bom e do melhor que a Europa pode oferecer, e os desafortunados, impedidos de possuir.

Isso lembra alguma coisa?

Da coloniza√ß√£o e povoamento, passando por economia e com√©rcio e findando em (literalmente, sendo a √ļltima parte do livro) vida social e pol√≠tica, uma excelente leitura; did√°tica e intrigante. Certamente, este √© um dos livros que sempre quis ler mas me faltava oportunidade.

O volume acaba com uma entrevista sobre a import√Ęncia hist√≥rica de Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo com o historiador Fernando Novais, seguida por um posf√°cio de Bernardo Ricupero.

O livro √© muito bom para nos fazer enxergar como nossa sociedade mudou muito pouco nestas √ļltimas oito ou doze d√©cadas e que algumas solu√ß√Ķes que poderiam ter sido postas em pr√°tica antes ainda t√™m seu lugar hoje em dia.

Recomendo para aqueles que gostam de aprender de onde vieram e, tudo coninuando da mesma forma, para onde ir√£o. Talvez marxista demais para a maioria dos gostos, mas objetivo em suas descri√ß√Ķes.

A bibliografia me deixou um pouco nervoso. √Č muita coisa interessante e muito pouco tempo para ler (ou at√© achar) tudo.

E, como bem lembrou minha esposa, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro Рtambém na Companhia das Letras) e Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala) são os três autores indispensáveis para aqueles que querem entender melhor do Brasil. Por favor, se você gostar de um, leia-os todos.

Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo, de Caio Prado Jr., relan√ßado pela Companhia das Letras e dispon√≠vel em livro eletr√īnico ou arb√≥reo.

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Resenha atrasadíssima. Mas a culpa não é minha, afinal não posso ser responsabilizado pelas coisas que a procrastinação me força a fazer. Ou não fazer, como seja.

Aguardem mais resenhas de volumes da Companhia das Letras nos próximos meses. Fizemos uma parceria.

Dez livros que marcaram a minha vida

Com muito tempo livre e sem ter algo mais construtivo para fazer, Rafael e Ana me incluiram numa corrente de Facebook. Com ainda mais tempo livre e com menos algos construtivos a fazer, eu aceitei o convite indica√ß√£o intima√ß√£o praga elo (porque √© uma corrente, sacou? H√£? H√É!?). Seguem as instru√ß√Ķes.

Consiste em fazer uma lista com os 10 livros (ficção ou não-ficção) que tenham me marcado. A ideia não é gastar muito tempo, nem pensar muito. Não precisam ser grandes obras, apenas que tenham sido importantes pra mim. Eu tenho que marcar 10 amigos que vão gostar da brincadeira. E eles me incluírem quando fizerem suas listas para que eu possa ver a lista deles e conferir boas dicas.

O par√°grafo acima est√° em Comic Sans porque √© um trecho copiado. Eu jamais come√ßaria uma frase com “consiste em”. O “e eles me inclu√≠rem” tamb√©m n√£o √© da minha safra. Mas se voc√™s passaram mais que dois minutos no Facebook ultimamente sabem do que se trata. Ent√£o vamos aos livros:

1) Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa РAurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Não somente para consulta. Eu o li de capa a capa e esse exercício em inutilidade foi bom para o desenvolvimento do meu pedantismo.

O primeiro Aurélio

Eu já lia Aurélio antes de virar Aurélio.

2) B√≠blia Sagrada, Nova Vers√£o Internacional – v√°rios. Esta vers√£o em especial √© importante porque foi escrita por gente que sabe “tu” e “v√≥s” saiu de voga h√° muito e que palavreado rebuscado √© apenas uma forma de arrebanhar a massa ignorante que mal sabe escrever o nome direito, quanto mais conjugar verbos irregulares em segunda pessoa ou entender que est√° sendo amea√ßado por um aproveitador da ingenuidade alheia. Tamb√©m lida de capa a capa, me fez entender o sentido da palavra “hipocrisia” e descobrir que muito “religioso de verdade” jamais leu uma s√≥ linha do que tanto gosta de impor aos outros.

A seção de fantasia da minha biblioteca

A seção de fantasia da minha biblioteca.

3) C√Ęndido – Voltaire. Me ensinou que otimista s√≥ se lasca. E que se voc√™ for bonzinho vai se lascar mais ainda.

4) Breve História de Quase Tudo РBill Bryson. Num dia frio e solitário, numa biblioteca centenária de um país muito, muito distante, este livro reacendeu minha paixão por aprender Рcoisa que o Sistema Formal de Ensino (SiFodE) me havia estripado anos antes. O universo (ou natureza) é uma coisa massa. Ultramassa. Quem acha que não, ou nunca chegou a ser apresentado ao conceito, ou não gosta de pensar.

Nota-se que ele já foi bem amado. Tem muita informação já ultrapassada, mas continua sendo excelente.

Nota-se que ele já foi bem amado. Tem muita informação já ultrapassada, mas continua sendo excelente.

5) O M√©dico e O Monstro – Robert Louis Stevenson. Quando li este, ainda crian√ßa, notei como somos ruins em traduzir t√≠tulos. E quando digo “ruim”, uso no sentido de “aquele que gosta de fazer ruindade”, porque “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” n√£o chocaria ningu√©m.

6) Cole√ß√£o Descobrir – Editora Globo. Competiu bravamente contra o j√° mencionado SiFodE pela domina√ß√£o da √°rea da curiosidade no meu c√©rebro[1]. Perdeu, no entanto. Mas ainda guardo boas lembran√ßas (apesar das instru√ß√Ķes para montar uma “armadilha para fantasmas” que vieram em um dos fasc√≠culos).

Stevenson, Conan Doyle e King. LeCarre apareceu de gaiato na foto.

Stevenson, Conan Doyle e King. LeCarre apareceu de gaiato na foto.

7) The Meaning of Liff – Douglas Adams. Mais um dicion√°rio, desta vez escrito por Douglas Adams. Fui amea√ßado de expuls√£o da biblioteca supracitada se n√£o conseguisse controlar minhas convuls√Ķes gargalh√°ticas. Sofri dores abdominais por uma semana por causa do livro.

8) Dicionário Filosófico РVoltaire novamente. Terceiro dicionário. Poderia roubar e incluir um quarto, o Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce, mas este é bem parecido com aquele, o Filosófico sendo melhor. Me ajudou a entender que sarcasmo, ironia, desconfiança e chacota são armas mais poderosas que dogmas ou ameaças termodinamicamente impossíveis na criação de caráter.

Foto tirada em frente à biblioteca anteriormente aludida

Foto tirada em frente à biblioteca anteriormente aludida.

9) O Cão dos Baskervilles РArthur Conan Doyle. Olá, ceticismo. Tudo bem? Meu nome é Igor Santos, prazer conhecê-lo.

10) O Homem que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu РOliver Sacks. Ninguém é normal mas ninguém demonstra saber disso. Apenas alguns não conseguem esconder.

Oliver Sacks, mais um médico que sabe escrever.

Oliver Sacks, mais um médico que sabe escrever.

Quase entrou na lista: Uma Breve Hist√≥ria do Tempo, de Hawking; Deus N√£o √Č Grande, de Hitchens; Deus, um Delirio, de Dawkins; uma cole√ß√£o de contos de Lovecraft; Quatro Esta√ß√Ķes, de Stephen King; WWZ, de Max Brooks; A Vida na Terra, de Attenborough; um livro de Chico An√≠sio com o mais negro dos humores (Telefone Amarelo, talvez?), e a trilogia da distopia: 1984, Admir√°vel Mundo Novo e Fahrenheit 451.

Melhores que a Escolinha do Professor Estereótipo.

Melhores que a Escolinha do Professor Estereótipo.


Ateus malditos! Por que precisam escrever t√£o bem?

Ateus malditos! Por que precisam escrever t√£o bem?

S√≥ n√£o entraram na lista porque n√£o t√™m nome, autor ou editora: minhas apostilas de m√ļsica.

N√£o entraram porque n√£o s√£o exatamente livros mas deveriam fazer parte da lista: Enciclop√©dia Koogan Larousse, blogs de ci√™ncia, meus livros de culin√°ria, a revista Scientifc American (que, por incr√≠vel que pare√ßa, foi minha porta de entrada no mundo dos podcasts), o roteiro do √ļltimo epis√≥dio jamais produzido de Caverna do Drag√£o, a cole√ß√£o de cromos do chocolate Surpresa, os r√≥tulos das coisas, encartes de discos, uma enciclop√©dia/dicion√°rio (mais um) da hist√≥ria da m√ļsica (n√£o encontro, devo ter perdido), a Constitui√ß√£o Federal, tamb√©m lida na √≠ntegra, e uma cole√ß√£o da Reader’s Digest chamada Fa√ßa Voc√™ Mesmo.

J√° lia DIY antes de virar sigla.

J√° lia DIY antes de virar sigla.

N√£o entrou porque n√£o lembro do nome: um de antropologia, que me fez perceber que somos todos macacos; um de hist√≥rias das religi√Ķes, que me fez perceber que somos todos macacos; um tratado filos√≥fico, que me fez perceber que somos todos macacos metidos, e; um pdf de psicologia. Mas a√≠ eu j√° sabia que somos todos macacos.

Alguns macacos s√£o mais metidos a besta que outros.

Alguns macacos s√£o mais metidos que outros.

Mas o livro que me marcou mais profundamente foi um de Lair Ribeiro que continha um CD que, fato desconhecido por mim, tende a explodir quando queimado.

Menção honrosa: A Divina Comédia. Primeiro livro que não consegui ler todo. Me ajudou a entender a bossalidade, especialmente daqueles que dizem tê-lo lido mas que sabem apenas da existência dos nove círculos do inferno, de Beatriz e Virgílio.

O "-pedia" em "Wikipedia".

O “-pedia” em “Wikipedia”.

Leiam também a lista da minha mulher e entendam porque me casei.

E a sua lista, como seria?

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[1] Eu sei que isso n√£o existe, mas o SiFodE quis me ensinar o contr√°rio.

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