Miriam Rita Moro Mine, a Presidenta da Rep√ļblica e vinte e dois segundos no Google

Penso que você acha a vida tão problemática porque acredita que existem as pessoas boas e as pessoas más. Você está, é claro, errado. Existem, somente e sempre, as pessoas más; sendo que algumas delas estão em lados opostos.

– Lord Havelock Vetinari

Pol√≠tica n√£o √© meu fil√£o. Como eu n√£o sou programador, a ideia de um mundo bin√°rio me escapa e eu tento me afastar um pouco dos que s√≥ enxergam o “eu” e o “eles” e isso inclui futebol, religi√£o, cara-ou-coroa, esquizofr√™nicos bipolares e, especialmente, pol√≠tica.

Esclare√ßa-se: meu uso da palavra “pol√≠tica” neste texto diz respeito ao entendimento popular, ou a “defini√ß√£o do torcedor”, como s√≥ eu chamo. No Brasil (e aqui uso a palavra “Brasil” para designar aqueles que est√£o perto de mim com a boca constantemente mexendo para evitar que o c√©rebro comece a funcionar), a palavra “pol√≠tica” significa “PT vs. PSDB, e eu estou de um lado e odeio qualquer um que se declare apoiar o outro”. Comportamento t√≠pico de torcedor, da√≠ minha defini√ß√£o.

Quanto √† defini√ß√£o de “pol√≠tica” como “princ√≠pios que visam guiar decis√Ķes para alcan√ßar resultados racionais”, sou 100% partid√°rio. Mas eu possuo um dicion√°rio em casa ent√£o posso estar um pouco desconectado da realidade.

Arranjem um quarto, vocês dois!

Arranjem um quarto, vocês dois!

Eu, como j√° deixei claro em algumas ocasi√Ķes (de batons com chumbo ao letal caso do camar√£o com vitamina C, passando pelo alarde dos “espelhos falsos”), n√£o sou imune a spams pseudocient√≠ficos mas, agora, parecem estar expandindo a √°rea de mensagens indesejadas na minha caixa de entrada. Passei recentemente a receber emails com cr√≠ticas ao governo (ou, melhor dizendo, emails dizendo que o PT √© feio e bobo). Um deles discorre sobre a (n√£o-) pol√™mica do uso (n√£o-) inadequado da palavra “presidenta” pela corrente (Girino maldito!) atual ocupante da cadeira principal de Presid√™ncia da Rep√ļblica Federativa do Brasil.

Contendo in√ļmeras mudan√ßas de tamanho e cores de letra e toda sorte de √™nfases inapropriadas, o texto, aparentemente escrito por Miriam Rita Moro Mine (mais sobre ela daqui a pouco), nos conta como a “presidenta” j√° foi estudanta quando adolescenta e representanta de ‘etc’, ETC, ~etc~, etc, e minha paci√™ncia √© muito pouca para textos nojentamente escritos e pe√ßo perd√£o por ter feito voc√™s provarem um pouco da orgia gr√°fica que √© aquilo que me mandaram.

O original é bem pior, acredite.

Imagem representativa do estado dos meus olhos e da minha sa√ļde mental ap√≥s ler o email da “presidenta”.

Uma belíssima aula de português.

Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer d√ļvida se tem presidente ou presidenta.

Ser√° que est√° certo?

Acho interessante para acabar com a pol√™mica de “Presidente ou Presidenta”

A melhor forma de acabar com a “pol√™mica” citada √© admitir que ela nunca existiu e quem escreveu isso √© s√≥ muito afetado e precisa cuspir em algu√©m para se sentir bem.
Uma coisa que vou dizer logo agora, estragando a surpresa vindoura: obviamente quem escreveu o trecho transcrito acima n√£o foi a mesma pessoa que elaborou a “bel√≠ssima aula de portugu√™s”, considerando a falta de liga√ß√£o entre frases sem sujeito. S√≥ faltou um “#com√īfas” ali depois da interroga√ß√£o.

Isso e a incapacidade de saber que o g√™nero de “aula” √© feminino e que um substantivo mulher nunca poderia ser “elaborado”. O resto da frase eu n√£o consegui entender, ent√£o n√£o vou comentar.

A imbecilidade toupeirice tapadez suposta “aula de portugu√™s” come√ßa da seguinte maneira:

A presidenta foi estudanta?

Existe a palavra: PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?

√Č. Que tal?

Segundo o Loogan/Houaiss ‚Äď Enciclop√©dia e Dicion√°rio (ano de 1998 ‚Äď ISBN 85-86185-01-9), na p√°gina 1299 temos o verbete:

PRESIDENTA s.f. Mulher que exerce função de presidente.

Ou seja, essa defini√ß√£o existe numa c√≥pia f√≠sica (a √ļnica que tem perto de mim no momento em que escrevo isto) desde que a r√©, M√īnica Dilma, era apenas uma estudante de doutorado em economia (durante uma pausa que fez em sua carreira pol√≠tica entre 1995 e 1999).

Segundo o FLiP (Ferramentas para a L√≠ngua Portuguesa), que abriga o dicion√°rio on-line Priberam (vejam aqui o verbete “presidenta”):

A palavra presidenta pertence à língua portuguesa.

Podemos fazer esta afirma√ß√£o, por um lado, porque a palavra tem indesmentivelmente curso na l√≠ngua (o que √© poss√≠vel aferir atrav√©s da pesquisa em corpora e em motores de busca) e, por outro lado, porque est√° registada em todos os dicion√°rios e vocabul√°rios contempor√Ęneos consultados, nomeadamente nas principais obras de refer√™ncia da lexicografia portuguesa e brasileira, como o Vocabul√°rio da L√≠ngua Portuguesa de Rebelo Gon√ßalves (1966) ou o Vocabul√°rio Ortogr√°fico da L√≠ngua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (5.¬™ edi√ß√£o, 2009). N√£o sabemos ao certo desde quando √© que este registo lexicogr√°fico √© feito, mas a palavra constava j√° do Novo Dicion√°rio da L√≠ngua Portuguesa de C√Ęndido de Figueiredo (1913) ou do Vocabul√°rio Ortogr√°fico e Remissivo da L√≠ngua Portuguesa de Gon√ßalves Viana (1914).

Desde 1913, hein?

Pronto. Basta dado.

E bem dado.

Se tivesse que chutar, n√£o diria que Dilma est√° a elogiar a gravata de Fernandinho.

Se tivesse que chutar, n√£o diria que Dilma est√° a elogiar a gravata de Fernandinho.

Mas calma, o que é isso aqui?

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente deante do si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento occulto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, n√£o violenta, uma’placidez salpicada de alegria. Respirei, e n√£o tive animo de olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar delia, que me pedia tamb√©m a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um modo administrativo.

Uai!? Quem ter√° sido o analfabeto comunista safado e moderno que escreveu tamanha besteira?

Ora, meus caros, ele n√£o √© analfabeto, apenas de outra √©poca. Mais especificamente 1880, durante o Imp√©rio do Brasil. Mais especificamente ainda, Machado de Assis, no cap√≠tulo 80 do seu livro Mem√≥rias P√≥stumas de Br√°s Cubas (ou, no portugu√™s original do s√©culo retrasado, “Memorias Posthumas de Braz Cubas”).

Então agora já chega, né? O verbete tem pelo menos 133 anos.

Mas n√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£o, o spammeiro n√£o quer saber de basta, para satisfazer sua doen√ßa mental ele quer agredir a figura p√ļblica que representa o outro time, objeto do seu √≥dio.

Baixinha, dentu√ßa, gorducha (menos na √©poca do c√Ęncer), sempre de vermelho, andando com um amigo que fala errado e outro que √© bem sujo.

A mensagem indesejada continua, incluindo agora um nome e um título: Miriam Rita Moro Mine РUniversidade Federal do Paraná.

Excelente! Um ponto objetivo para a nossa an√°lise.

Antes de qualquer outra coisa, vejo no Currículo Lattes que Miriam (que é doutora e passará a ser denominada doravante Dra. Mine) é realmente da Universidade Federal do Paraná.

Em seguida, alguns poucos segundos no Google me devolvem um post chamado Esclarecimento, de um sub-blog do Blog do Noblat (tudo bem, n√£o chamaria essa fonte de “confi√°vel”, mas…), onde a autora diz ter recebido um (sic) “desmentido formal” da doutora, que diz:

Prezada Sra Maria Helena

Nunca escrevi absolutamente nada sobre a exist√™ncia ou n√£o da palavra ‚Äúpresidenta‚ÄĚ. Meu nome est√° sendo usado indevidamente como autora de um texto que circula na internet e na imprensa.

Sou professora da Universidade Federal do Paran√° – UFPR, Departamento de Hidr√°ulica e Saneamento, graduada em ‚ÄúEngenharia Civil ‚Äú e com p√≥s-gradua√ß√£o em cursos de ‚ÄúEngenharia‚Äú (Mestrado e Doutorado) e professora de cursos de ‚ÄúEngenharia‚ÄĚ na UFPR (ver meu Curriculum Lattes ‚Äď www.cnpq.br ‚Äď plataforma lattes)

Eu jamais escreveria um texto que não fosse da minha área de atuação.

Miriam Rita Moro Mine

Miriam Rita Moro Mine

Universidade Federal do Paran√°

Departamento de Hidr√°ulica e Saneamento

Caixa Postal 19011

81531-990 Curitiba – PR

Como Maria Helena (a autora do blog citado) diz que havia publicado o spam “coberto de elogios”, acho que n√£o haveria de se retratar t√£o facilmente por causa de uma mensagem an√īnima.

Bom, eu realmente não sei. O que sei é que no blog de Juca Kfouri, aparentemente a propósito de nada, encontro um comentário que lê (sic):

Prezados Circula na internet um e-mail sobre a palavra presidenta como se fosse de minha autoria. Nunca escrevi nada sobre este assunto. Sou professora de cursos de Engenharia e não de Gramática da Língua Portuguesa. Miriam Rita Moro Mine

Renan Calheiros está pegando na aliança. O que será que Lula está cochichando?

Renan Calheiros está pegando na aliança. O que será que Lula está cochichando?

Novamente, como n√£o posso confirmar a identidade da comentarista, n√£o posso afirmar que ela n√£o escreveu o texto que virou spam.

O que posso confirmar √© que existem vers√Ķes mais antigas que n√£o contam com a assinatura dela (cuja primeira refer√™ncia √© justamente em outro post do blog de Maria Helena, em 14 de outubro de 2010).

Por exemplo: em 16 de junho de 2010, no blog webartigos, foi publicado o texto Espelho, espelho meu, existe reda√ß√£o mais bela do que eu? que inclui uma vers√£o do spam afirmando explicitamente que “no e-mail n√£o h√° identifica√ß√£o do autor”.

E, em primeiro de novembro de 2010, um comentarista do blog Palavras e origens – Considera√ß√Ķes Etimol√≥gicas cola o texto referido e √© prontamente respondido pelo autor do blog com a mensagem: “Prezado, esse texto que voc√™ envia (sem autoria) apareceu pela primeira vez no site Levante-se Brasil, cujos organizadores mant√™m essa comunidade no Orkut ‚ÄĒ http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=73197065.”

Eu juro que tentei entrar na tal comunidade (desde agosto do ano passado, de fato, quando primeiro pesquisei a respeito) mas não consegui. Mais um beco sem saída.

Por outro lado, mais uma confirma√ß√£o de que o texto n√£o √© de autoria da Dra. Mine (digo “confirma√ß√£o” porque quem sai por a√≠ colando esse tipo de besteira n√£o tem capacidade intelectual suficiente para editar informa√ß√Ķes – que o digam os comentaristas de um texto meu).

O líquido na taça está numa posição esquisita. Estariam os dois deitados?

O líquido na taça está numa posição esquisita. Estariam os dois deitados?

Continuar minha barragem (ver 4) a partir daqui seria bater em quem est√° no ch√£o.

Mas como eu só luto sujo, deixo o golpe final para o senhor Juscelino Kubitchesk

LEI N¬ļ 2.749, DE 2 DE ABRIL DE 1956

D√° norma ao g√™nero dos nomes designativos das fun√ß√Ķes p√ļblicas.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1¬ļ Ser√° invari√†velmente observada a seguinte norma no empr√™go oficial de nome designativo de cargo p√ļblico:

‚ÄúO g√™nero gramatical d√™sse nome, em seu natural acolhimento ao sexo do funcion√°rio a quem se refira, tem que obedecer aos tradicionais preceitos pertinentes ao assunto e consagrados na lexeologia do idioma. Devem portanto, acompanh√°-lo neste particular, se forem gen√®ricamente vari√°veis, assumindo, conforme o caso, elei√ß√£o masculina ou feminina, quaisquer adjetivos ou express√Ķes pronominais sint√†ticamente relacionadas com o dito nome‚ÄĚ.

E, desta página, concluo da situação que: NÃO CONSTA REVOGAÇÃO EXPRESSA.

√Č presidenta. E quem disse foi um homem, o que significa que est√° certo e deve ser obedecido.

Agora morram todos de hemorroida explosiva.

Finalizando e esclarecendo: eu acho que o mundo só vai ser um lugar bom quando Lula morrer enforcado nas tripas de FHC (ou equivalentes). Mas eu odeio extremistas e acho que todos eles devem morrer da forma mais brutal possível, principalmente os violentos. [1]

Uma frase ótima que achei durante minha pesquisa e vou, daqui em diante, passar como minha (mantendo a tradição dos spams): Não misture vernáculo com ideologia.

2 x 3 = 6. Se esse não foi o sinal da besta, eu não sei o que é.

2 x 3 = 6. Se esse não foi o sinal da besta, eu não sei o que é.

S√£o todos iguais, pessoal. Parem de se enganar achando que existe “o outro lado”.

Concluo com uma frase do próprio spam:

Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..

Essa frase lembra alguma outra?

Texto original do spam para fins de pescar paraquedistas e misturar analogias (sem a bizarra edição gráfica pois sou bonzinho):

A presidenta foi estudanta?Uma belíssima aula de português.
Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer d√ļvida se tem presidente ou presidenta.
Ser√° que est√° certo?
Acho interessante para acabar com a pol√™mica de “Presidente ou Presidenta”
A presidenta foi estudanta?
Existe a palavra: PRESIDENTA?
Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?
Miriam Rita Moro Mine – Universidade Federal do Paran√°.
No portugu√™s existem os partic√≠pios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o partic√≠pio ativo do verbo atacar √© atacante, de pedir √© pedinte, o de cantar √© cantante, o de existir √© existente, o de mendicar √© mendicante… Qual √© o partic√≠pio ativo do verbo ser? O partic√≠pio ativo do verbo ser √© ente. Aquele que √©: o ente. Aquele que tem entidade.
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionarem à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.
Portanto, √† pessoa que preside √© PRESIDENTE, e n√£o “presidenta”, independentemente do sexo que tenha.
Diz-se: capela ardente, e n√£o capela “ardenta”; se diz estudante, e n√£o “estudanta”; se diz adolescente, e n√£o “adolescenta”; se diz paciente, e n√£o “pacienta”.
Um bom exemplo do erro grosseiro seria:
“A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta.
Esperamos v√™-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta pol√≠tica, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, n√£o tem o direito de violentar o pobre portugu√™s, s√≥ para ficar contenta”.
Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..

P.S. Mas eu achei o texto massa. Queria eu tê-lo escrito, pois é bem meu filão. Só jamais o faria pelas falhas gramaticais aberrantes.

[1] Para os mais lentos de raciocínio, isso foi uma piada do tipo autorreferente de propósito autoderrotado.

O lens flare como forma de express√£o

Muito se discute atualmente acerca do uso do efeito de reflexo de lente, ou lens flare, pelo diretor de Super 8 e criador de Felicity, J.J. Abrams.

Mas o que diabos é esse tal de lens flare que parece irritar tanto os neo-nerds? [1]

Se você tentou fotografar alguma coisa contra o sol, provavelmente já percebeu como a imagem não fica exatamente cristalina. Por causa do excesso de luz, a imagem aparece esbranquiçada, com pouco contraste ou simplesmente ruim demais para ser aproveitada até no Instagram, repositório de tudo que não presta em termos de efeitos visuais.

lens-flare-wiki

O efeito pode ser tamb√©m o de escurecer a imagem enquanto o software da c√Ęmera se concentra em proteger seus filtros regulando o obturador para uma velocidade mais r√°pida, captando praticamente apenas a luz do sol.

lens-flare

Outra manifestação do efeito são círculos (ou, por vezes, outras formas geométricas [3]) psicodélicos, como os da primeira foto lá em cima, causados quando a fonte de luz não está diretamente no campo da lente mas ainda assim a afeta, infiltrando raios fora de eixo, como no diagrama abaixo.

lente

Ou seja, para um lens flare ocorrer, s√£o necess√°rias duas coisas: uma lente e uma fonte de luz intrusa.

Nos sets completamente verdes e inexistentes dos filmes grandiosos de hoje em dia n√£o existem acidentes. N√£o existe uma l√Ęmpada pendurada num lugar errado dando interfer√™ncia no resto da cena. Se a imagem estiver estourada, com ru√≠do ou com pouco contraste, tenha certeza de que foi proposital.

Então, vem a pergunta: por que usar, num filme milionário, um (d)efeito tão amador que geralmente é causado por um erro de preparação?

A resposta: preservação da suspensão de descrença. Mais sobre isso adiante.

George Lucas, por exemplo, é fortemente criticado pelo uso excessivo do chroma key, abandonando a técnica antiga de animatronics e modelos em escala reduzida em busca de maior flexibilidade (um boneco do tipo Gizmo, de Gremlins, não pode dar saltos e piruetas de forma convincente, como o faz Jar Jar Binks) mas, segundo alguns, em detrimento do senso de realidade que a interação de humanos com objetos físicos e reais proporciona. Mas logo ele, que um dia foi multado pela Directors Guild of America (Associação Americana de Diretores) por não incluir créditos no começo de Star Wars justamente para não destruir a suspensão de descrença ao dizer claramente aos espectadores que aquilo era um filme feito por atores!?

O revolucion√°rio (nem tanto) O Hobbit causa frisson com sua alta taxa de quadros (48fps, o dobro do comum) mas Peter Jackson pr√©-resolveu o problema da suspens√£o de descren√ßa usando mais loca√ß√Ķes (cen√°rios reais) do que sets verdes (o famoso chroma key j√° citado). Ou seja, √© mais dif√≠cil o espectador sair do mundo fant√°stico no qual est√° imerso porque percebeu algum artefato visual que o lembrou de que aquilo na tela n√£o √© um document√°rio de verdade.

Nada de computa√ß√£o. Apenas uma c√Ęmera deslizando sobre um papel.

George Lucas está sendo julgado pelas pessoas que sabem que existe um anão dentro de R2-D2 e que o movimento quebradiço dos olhos e lábios de Jabba são controlados por um técnico com um controle remoto na mão. Ou seja, essas mesmas pessoas conseguem identificar que o ator está contracenando com uma bola de tênis pendurada numa vara de pescar na frente de um fundo verde ou azul ao invés de realmente defletindo raios laser de um flutuante módulo de treinamento Jedi. Para quem não assistiu ao primeiro Jurassic Park no cinema (o principal filme de transição entre as técnicas de marionetes e computação) porque não era ainda nascido, isso não faz diferença. A cara esquisita de Falcor com sua língua obviamente mecanicovertebrada parece ridícula e antiquada para a geração que já cresceu com computadores de alta eficiência e capacidade de processamento.

Eles querem mais é mergulhar junto com Anakin na lava enquanto ele perde permanentemente o braço. A nova trilogia de Star Wars é para eles, não para nós.

Mas, se depender de J.J. Abrams, teremos nossa doce, doce vingança geriátrica em breve. E graças aos lens flares.

A gera√ß√£o para qual Jar Jar Binks foi criado sempre viu filmes digitais de alto or√ßamento com cen√°rios e personagens virtuais, onde cada costura no bolso da bermuda do terceiro figurante sem fala numa cena de p√Ęnico √© planejada e calculada. M√ļsica n√£o tem mais chiado de fita (sil√™ncio digital √© absoluto, j√° que n√£o existem mais cabe√ßotes ro√ßando em pl√°stico magneticamente embebido), o preto n√£o √© mais mofado (deixou de ser a representa√ß√£o de uma cor que foi filmada, processada e projetada – tr√™s passos envolvendo luz -, para ser a absoluta falta de est√≠mulo luminoso) e a imagem n√£o tem mais riscos e marcas de cortes (n√£o existe mais fita para desgastar no projetor a cada sess√£o nem para ser recortada e colada para depois ser copiada – agora √© tudo um arquivo digital incorrupt√≠vel).

Como o sol no plano de fundo n√£o √© mais o Sol, estrela prim√°ria do nosso sistema planet√°rio, mas sim uma s√©rie de uns e zeros, as lentes n√£o s√£o mais sobre-estimuladas e n√£o distorcem o que est√£o captando (que est√° sendo perfeitamente iluminado por tr√°s, com luz indireta e difusa, etc, etc termos t√©cnicos, etc). A √ļnica coisa que o reflexo na lente faz para os representantes da corrente gera√ß√£o consumidora de blockbusters √© tir√°-los da trama, fazendo-os lembrar que aquilo √© um efeito incluido na p√≥s-produ√ß√£o.

“No espa√ßo, ningu√©m ouve voc√™ reclamar do lens flare…”

Ao usar o t√£o previamente evitado reflexo de lente, Abrams inteligentemente reconecta os f√£s antigos com os filmes contempor√Ęneos.

Ao mostrar a USS Enterprise envolta num clar√£o supostamente indesejado, ela fica contextualizada num universo onde ela existe, √© real e est√° sendo filmada! O diretor se utiliza de um truque para enganar nosso c√©rebro e faz√™-lo crer ainda mais na exist√™ncia daquele universo do qual ele (o c√©rebro do espectador) n√£o deve sair, pois ao lembrar que o lens flare ocorre com lentes e uma fonte de luz intrusa, a associa√ß√£o com “esta cena foi filmada por uma c√Ęmera in loco” √© praticamente inevit√°vel. Mas s√≥ para quem assistia a Os Trapalh√Ķes Nas Minas do Rei Salom√£o num assento de madeira numa sala com ventila√ß√£o ambiente e j√° viu o efeito ocorrendo naturalmente nas m√£os de um operador de c√Ęmera inexperiente seguindo as orienta√ß√Ķes org√Ęnicas de um diretor mal pago num filme de baixo or√ßamento.

Ou seja, ao tirar os espectadores jovens da ilus√£o de que aquilo √© real pois foi filmado, o diretor paradoxalmente coloca os mais velhos ainda mais dentro do mundo onde aquilo √© real pois foi filmado! No espa√ßo sideral! H√Ā MUITO, MUITO TEMPO!

E isso é genial!

Mal posso esperar o novo filme da terceira trilogia de Star Wars. [2]

———

[1] – Aqueles que cresceram sem saber muita coisa mas hoje em dia gostam de dizer ‚Äúbazinga‚ÄĚ e se autodenominam ‚Äúnerds‚ÄĚ por gostarem de ver TV e por nunca terem cal√ßado um sapato social.

[2] РMentira, posso esperar até bem confortavelmente. Não sou exatamente um cinéfilo.

[3] – Tem ainda o efeito como o da imagem abaixo, onde o reflexo n√£o forma c√≠rculos mas cortes horizontais, por causa da distor√ß√£o anam√≥rfica usada para proje√ß√Ķes em telas largas (widescreen). Sugiro que leiam a respeito, pois √© bem interessante.

A √ļnica coisa real nessa cena √© a m√° atua√ß√£o.

Uma elegia a um dinossauro

Para os que talvez ainda n√£o saibam, sinto informar que Carlos Hotta, do Brontossauros em meu Jardim se foi.

N√£o sei exatamente por onde come√ßar, ent√£o come√ßarei do come√ßo e deixarei o fluxo de consci√™ncia tomar conta (e se parecer que estou fazendo piada, estou mesmo. √Č assim que lido com as coisas no dia a dia).

At√© abril de 2008, parte da minha rotina consistia em responder/corrigir (com informa√ß√Ķes, na medida do poss√≠vel, corretas) a correntes de email e, aproveitando a imensa quantidade de endere√ßos que vinham atrelados a tais mensagens, espalhar algumas gotinhas de conhecimento da Natureza e aprecia√ß√£o da Ci√™ncia.

Quando vi uma imensa quantidade de emails retornando, percebi que estava sendo, na maior parte, mandado para a caixa de spam dos outros a quem tentava convencer de que o mundo √© fascinante e que tomate n√£o d√° nem cura c√Ęncer.

Ent√£o, um dia ap√≥s o meu anivers√°rio, aproveitei alguns textos que j√° havia escrito (e mandado por email para pessoas mal agradecidas) e resolvi iniciar um blog (ou “blogue”, como eu pedantemente chamava, at√© perceber que n√£o faz diferen√ßa) que, √† √©poca, se chamava “N√£o Acredite no que Eu Digo, Pois Minto Tanto Quanto Voc√™” e que, por motivos √≥bvios, rapidamente foi mudado para “42”, ainda sem o ponto final que adorna o cabe√ßalho deste.

Pouco mais de um mês e meio depois, um mundo completamente novo apareceu diante dos meus olhos: blogs especializados em ciência (o meu era do que quer que estivesse na minha cabeça no momento em que sentava para escrever) e, principalmente, em português (pois já conhecia alguns em inglês). Por ocasião de um comentário, conheci em poucos minutos Atila Iamarino, Rafael Soares e Carlos Hotta.

Mais ou menos um m√™s depois, sozinho e carente, escrevo um texto especificando nos m√≠nimos detalhes o tipo de mulher com quem desejo passar meus dias (e que demoraria ainda dois anos e meio para finalmente conseguir), finalizando com “se voc√™ se identificou com o texto, me procure”.

O primeiro comentário, poucos minutos após a publicação do post foi esse aí:

Carlos Hotta

Sem saber muito bem como reagir nem para que lado a intera√ß√£o penderia, mandei um email para Carlos da forma mais neutra poss√≠vel. Algo como “que foi?”.

Ao responder, ele me tranquilizou e disse que me queria para um projeto que ele e Atila estariam montando e que seria um “condom√≠nio” de blogs de ci√™ncia, chamado Lablogat√≥rios.

Logo original do Lablogatórios

Logo original do Lablogatórios

Cinquenta dias após aquela primeira notícia, entrava no ar o portal com o melhor nome de todos os tempos até hoje e que, apenas sete meses depois, viraria o Scienceblogs Brasil.

Toda essa celeridade que n√£o me deixa lembrar de como era ser blogueiro sem ser scienceblogueiro foi, em grande parte, por causa de Hotta.

Foi por causa dele que eu estou aqui hoje, falando para as milhares de pessoas que leem diariamente as insanidades que eu escrevo vez por outra.

Se uma mulher passou batom despreocupada por causa de um texto meu, agradeçam a Carlos.

Se alguém pesquisou por auto-hemoterapia, viu o comportamento animalesco de seus defensores e pensou duas vezes antes de abandonar um tratamento sério em busca de alternativas potencialmente arriscadas, os louros são de Carlos.

Se um médico deixou de usar seu jaleco na rua e uma infecção não piorou por causa disso, esse não-evento é devido, em parte, a Carlos.

Quando algu√©m conseguiu entender o motivo de espirrar sob luz forte; soube pela primeira vez que homeopatia √© s√≥ √°gua, a√ß√ļcar e pensamento m√°gico; descobriu que a chamada “medicina ortomolecular” s√≥ cura a falta de pedras nos rins; se divertiu com meus enigmas ou aprendeu o conceito de “napalm caseiro”, parte de tudo isso foi gra√ßas √† falta de tato de Carlos Hotta em me abordar num momento constrangedor.

Foi também por causa de sua influência que conheci outros seres, com os quais interajo quase diariamente, que foram e são muito importantes em minha formação intelectual e identidade pessoal, como Karl, que me ensinou que eu posso, ao mesmo tempo, estar correto mas ainda errado; Fafá, que se tornou meu amigo, ocasional hospedeiro e acessório em crimes companheiro em projetos extra-blogs; Fernanda e Bessa, que me mostraram, de pontos de vista diferentes, que um passeio pela universidade pode ser a mais fascinante jornada de conhecimento (certamente as duas pessoas que serviram de estopim para a minha saída do armário não-religioso); até mesmo Meire, a minha confidente e companheira esposa a quem eu provavelmente não teria conhecido caso não tivesse ainda a auto-bibliografia atrelada e on-line do 42. e que se encaixou como uma luva feita sob medida e com talco no texto tão rudemente epilogado por Hotta.

(Atila também é responsável por muito disso, mas como ele ainda está aqui não preciso falar bem dele. E Kentaro também é um que pertence à lista acima, mas eu já o conhecia antes, então não conta. Outros também deveriam aparecer, mas FOCO!)

Também ainda por causa dele, em uma reunião onde decidimos os rumos do condomínio, realizei um sonho e criei meu próprio podcast (que não durou o suficiente, mas isso é culpa minha).

At√© um restaurante japon√™s excelente em S√£o Paulo (quem diria que eles existissem…) me foi apresentado por ele.

Um jeito tranquilo de falar (com um leve problema nos fonemas PR e FR) mas sempre com algo relevante a dizer, com uma genialidade do tipo que sabe o que importa e sabe que chamar aten√ß√£o para o fato √© uma das que n√£o importam e com uma maturidade psicol√≥gica muito al√©m dos seus 45 anos (eu acho que nascemos no mesmo ano, mas ele adquiriu tantas realiza√ß√Ķes ao longo da vida que trinta e poucos anos n√£o seria tempo suficiente para um ser que vive na mesma velocidade dos outros).

Semana passada eu gravei uma entrevista com ele – talvez sua √ļltima. Quarta-feira que vem ela sair√° na p√°gina do Dispersando e por l√° dever√° ficar at√© que as circunst√Ęncias permitam, nos fazendo lembrar como ele foi um dia; tranquilo e s√°bio.

Este texto é dedicado (caso não tenha ficado extremamente óbvio ainda) a Carlos Hotta.

Sentirei, além de imensa e eterna gratidão, enormes saudades.

———

Antes que alguém se confunda com alguma coisa, Carlos Hotta não morreu. Apenas seu blog deixou o Scienceblogs.

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