Alguém me explica que Merd, ops, Nerdologia foi esse?

Como venho me dedicando aos livros em detrimento aos podcasts, venho marcando a passagem das semanas pelas quintas-feiras. Mais especificamente pelo excelente Nerdologia, escrito e apresentado por Atila Iamarino (sim, aquele do Rainha Vermelha).

O videocast √© patrocinado, via de regra, pela Nerdstore (autoexplicativo) e, vez por outra, por alguma outra empresa fora do conglomerado Jovem Nerd (do qual o Nerdologia faz parte), mas nunca deixando de ser algo relacionado ao mundo neo-nerd, como videogames, computadores, esportes de a√ß√£o (hein?). Exceto este √ļltimo.

O episódio mais recente me pegou de surpresa. E me pegou num lugar inesperado. E privado.

Logo no comecinho, na primeira aparição do patrocinador, surge a imagem abaixo:

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Como a imagem aparece por menos de dois segundos na tela, li “hearing guardian” e achei que fosse algum tipo de protetor auricular. Sabe? Daquele que guard sua hearing? Pois. N√£o √©.

No final, meio distra√≠do (porque quando estou prestando aten√ß√£o eu fecho o v√≠deo antes da propaganda come√ßar), escuto uma voz diferente exclamando(sic): “Agora que voc√™ j√° sabe para que servem as suas c√©lulas ciliadas, voc√™ pode exercitar as suas com o Hearing Guardian V1 da Biosom.”

Depois de recolher meu diploma do ch√£o e recoloc√°-lo na parede, voltei para ouvir o resto. A propaganda alega que o produto Hearing Guardian V1 da empresa Biosom (sic) “√© um software que ativa e movimenta as suas c√©lulas ciliadas uma a uma, como se fosse um afinador de piano, deixando elas mais resistentes ao longo de sua vida”.

Eu at√© poderia discorrer sobre as propriedades fisiol√≥gicas dos estereoc√≠lios (o nome pr√≥prio das c√©lulas que o software promete re-energizar reativar ressuscitar rejuvenescer exercitar) e fazer compara√ß√Ķes do tipo “alegar que um programa pode exercitar as c√©lulas do seu ouvido com est√≠mulos sonoros √© como tentar vender um massageador de per√≠neo que promete deixar seus espermatoz√≥ides mais bronzeados, j√° que ambos prometem dar novas propriedades √†s celulas” ou ainda que dizer que isso vai deixar os estereoc√≠lios “mais resistentes ao longo da sua vida” √© semelhante a propor que a pedra s√≥ √© dura porque precisou aguentar, por anos a fio, as pancadas da √°gua (que √© mole pelo mesmo motivo, s√≥ que ao contr√°rio).

Todavia, como sou formado apenas em engenharia de √°udio, vou me ater aqui ao que vem escrito na fonte.

E sabe o que mais movimenta suas células ciliadas uma a uma? Barulho. Qualquer barulho. E isso para não falar nada sobre o fato de que elas não ficam isoladas, mas sim em feixes de várias ao mesmo tempo.

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria...

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria…

O locutor da propaganda diz, em seguida, que o software foi desenvolvido na Cor√©ia do Sul e teve sua efic√°cia comprovada pelo Instituto Earlogic de Pesquisa da Cor√©ia. Bom, a partir dessa informa√ß√£o impressionante de comprova√ß√£o de efic√°cia, j√° posso passar para o site da empresa Biosom. L√°, me deparo com a temida se√ß√£o “depoimentos” que todo pseudocientista adora, j√° que experi√™ncia pessoal √© sempre mais importante que qualquer estudo bem feito com milhares de pessoas (agora, adivinha o que nunca tem nessas p√°ginas? Um formul√°rio de “escreva aqui o seu depoimento” ou algo semelhante). S√£o oitenta depoimentos dos quais cinquenta e um (63,75%) agradecem √† marca por uma melhora significativa do zumbido ou tinnitus. Mas isso s√≥ fica importante mais para a frente.

Em seguida, encontro a subse√ß√£o “estudo“, onde se l√™:

V√°rios estudos t√™m relatado que o condicionamento de som (ou seja, exposi√ß√£o pr√©via a sons de baixo n√≠vel) poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ru√≠do traum√°tico em um n√ļmero de esp√©cies de mam√≠feros, incluindo humanos.

Palavra-chave ali √© “proteger”, correto? Como em portugu√™s essa frase s√≥ existe nessa p√°gina e noutras apontando para ela (e n√£o sei do que se trata coreano), catei em ingl√™s at√© achar isto aqui:

“In addition to delaying progressive hearing loss, acoustic stimuli could also protect hearing ability against damage by traumatic noise. In particular, a method called forward sound conditioning (i.e., prior exposure to moderate levels of sound) has been shown to reduce noise-induced hearing impairment in a number of mammalian species, including humans.”

Isso eu achei no ClinicalTrials.gov, uma base de dados de estudos cl√≠nicos em humanos do Instituto Nacional de Sa√ļde americano. Esse estudo deveria comparar a diferen√ßa de percep√ß√£o entre tons puros, antes e depois da estimula√ß√£o sonora. Pena que, mesmo tendo sido completado dois anos atr√°s, ele nunca apresentou os resultados.

Um dos links na se√ß√£o “Outros estudos sobre a tecnologia” √© este, igualmente sem resultados publicados.

Ambos, prepare-se para a surpresa, patrocinados pela Earlogic Korea, Inc., tendo como investigadores principais Eunyee Kwak, Ph.D. e Earlogic Auditory Research Institute, empresa que o locutor diz ter comprovado a efic√°cia do software. Volto j√° para a Earlogic, calma.

Procurando mais especificamente pelo resultado do ^estudo^ (aspas ir√īnicas) na p√°gina da Biosom vejo que na Internet inteira (ou na parte alcan√ßada pelo Google, pelo menos), n√£o h√° uma s√≥ men√ß√£o (fora, claro, o site da marca) que relacionasse “13,51 dB” com “P= 0.00049” a um estudo sobre audi√ß√£o. Ou sequer a qualquer outra coisa sen√£o o pr√≥prio texto.

Me interessando bastante o “v√°rios” em “v√°rios estudos t√™m relatado que o condicionamento de som poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ru√≠do traum√°tico”, fui atr√°s. Achei um bem interessante, este sim publicado (no Journal of Neurophysiology da American Physiological Society).

O teste mostrou que o condicionamento sonoro (em ratos, seis horas di√°rias) realmente melhora a resposta coclear. Exceto na faixa testada acima de 12kHz. Que √© o que acontece com a idade, quando os agudos come√ßam a morrer. Como se ela tivesse sido exposta a sons, como quem passou anos ouvindo (como os ratos que passaram seis horas di√°rias e consecutivas durante dez dias ouvindo o equivalente ao som de um liquidificador de 600W triturando cem gramas de gelo a uma dist√Ęncia de noventa e cinco cent√≠metros, mais ou menos [1]).

O estudo acima diz que √© poss√≠vel melhorar (simplificando, porque a explica√ß√£o toda envolve termos como “permanent threshold shift” e “high pass filter” que eu aprendi quando fui alfabetizado em ingl√™s e estou com s√©ria indisposi√ß√£o agora) a efici√™ncia coclear. Sabe o que o estudo n√£o diz? Ali√°s, sequer cita? Que essa macumba sonora cura tinnitus ou zumbido ou perda de audi√ß√£o. Que √© no que os depoimentos do site se concentram.

Se eles dizem ter sido curados de seus zumbidos e a propaganda diz que a eficácia foi comprovada pela Earlogic, vamos agora para a Coréia do Sul (a boazinha da duas) conhecer de perto a empresa.

Procurando primeiro por Eunyee Kwak, Ph.D., vejo que ela é a diretora de pesquisa da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Na página da Biosom ela é constantemente associada a outro Kwak, Sangyeop. Este, descobri, é o fundador e presidente/CEO da Earlogic Corporation (link em PDF). Segundo seu currículo, Sangyeop não publica desde 2010.

Fu√ßando na publica√ß√Ķes curriculares, tem o promissor “Hearing Improvement with Customized Sound Stimulation“, supostamente publicado na American Academy of Audiology. O problema √© que a academia nunca ouviu falar desse trabalho.

Aliás, somente a Eartronic e sua irmã Earlogic (digo irmã porque o currículo Kwak está no fileadmin da primeira, mostrando que ele é dono da segunda) parecem saber dessa publicação.

Do tamb√©m excitante Ameliorative Effect of Customized Sound Stimulation on Sensorinerual Hearing Loss, s√≥ achei o abstract na Association for Research in Otolaryngology. As demais supostas publica√ß√Ķes do curr√≠culo s√£o mais espec√≠ficas da pr√°tica de otologia do que da de magia negr, ops, “condicionamento sonoro antecipado”.

Aprofundando-me mais ainda naquele(a) obscuro(a) fosso(a) de desinforma√ß√£o que √© o site da Biosom, encontro a se√ß√£o “curiosidades“, onde acho o trecho a seguir:

“O software foi baseado no nosso equipamento que se chama REVE 134 (…)”

O que é esse REVE 134? O produto vendido pela Earlogic, criado por Kwak.

Ali√°s, as passagens ‚ÄúUm aparelho auditivo auxilia os deficientes auditivos amplificando os sons externos. Ele n√£o tem a fun√ß√£o de uma terapia fundamental para perda auditiva‚ÄĚ da Biosom e ‚ÄúAccording to the current hearing loss management, hearing aids is used to help hearing-impaired people hear better by amplifying external sounds.It is not a fundamental therapy for hearing loss and does not cure the damaged auditory hair cell.‚ÄĚ da Earlogic s√£o bem, digamos assim, traduzidas.

Na parte de “Perguntas frequentes -> D√ļvidas sobre os efeitos do Hearing Guardian V1 -> H√° provas da efic√°cia do software?”, podemos ler e confirmar o que o locutor da propaganda diz, que:

“(…) estudos do Instituto Earlogic de Pesquisas da Cor√©ia do Sul e do Grupo de Pesquisa Tecnol√≥gica Adaptive Neuromodulation GmbH (ANM) da Alemanha comprovaram que a utiliza√ß√£o da tecnologia adequadamente pode recuperar em at√© 10dB a audi√ß√£o perdida no prazo de duas semanas, podendo assim diminuir sintomas decorrentes da perda auditiva, como zumbido e dores de cabe√ßa.”

O produto Hearing Guardian V1, que tamb√©m responde por REVE 134, foi desenvolvido pela Earlogic, aquela l√° do Doutor Quack – ops, Kwak (hoje estou especialmente disl√©xico, que diabos!), mesma empresa (ou “Instituto”, como eles anunciam) que ^provou a efic√°cia^ do pr√≥prio produto em ^v√°rios estudos^ nunca publicados.

O m√©todo descrito no ^estudo^ do site da Biosom usa um certo tom “a um n√≠vel m√≠nimo aud√≠vel” (o que n√≥s, detentores de um diploma basicamente in√ļtil, chamamos de “limiar de audi√ß√£o”). Bem diferente do som de liquidificador do estudo realmente publicado! O ^estudo^ com 17 volunt√°rios (!) publicado no site √© uma tradu√ß√£o do “The Effect of Sound Stimulation on Pure-tone Hearing Threshold” que o ClinicalTrials.gov diz n√£o ter sido completado (√ļltima atualiza√ß√£o em 7 de setembro de 2011) enquanto a Eartronic (irm√£ da Earlogic) publica uma vers√£o atualizada dia 7 de janeiro de 2011 (PDF). Huuum…

E todos, todos os estudos, reais ou n√£o, sempre dizem que o treinamento sonoro melhora a percep√ß√£o de alguns tons ou ajuda a proteger contra les√Ķes traum√°ticas. Nenhum deles cita zumbido/tinnitus ou restaura√ß√£o de audi√ß√£o perdida. Essas alega√ß√Ķes s√≥ aparecem nas propagandas, subrepticiamente sempre conectada a “v√°rios estudos” ou “teve sua efic√°cia comprovada” usando testes que nunca disseram coisas do tipo. E isso √© propaganda enganosa, desonestidade intelectual e fal√™ncia moral.

N√£o posso dizer que me decepcionei com o Nerdologia, visto que seu conte√ļdo continua sendo muito bom, al√©m do programa ser bem produzido. O que posso afirmar √© que o locutor do an√ļncio n√£o pode dizer que o software teve sua efic√°cia comprovada. Especialmente tendo o p√ļblico-alvo que tem. Mais ainda quando um deslize desses pode sujar a reputa√ß√£o de um cientista de verdade. Mais especificamente quando se trata de um amigo meu.

Agora durma com esse barulho.

———

[1] Segundo meu decibelímetro e minha fita métrica.

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam n√£o necessariamente por email. Achar posts, imagens, tu√≠tes, v√≠deos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso n√£o √© dif√≠cil. O dif√≠cil √© confirmar a veracidade das informa√ß√Ķes antes de sair por a√≠ espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alega√ß√Ķes s√£o, via de regra, as seguintes: as moedas falsas s√£o mais leves, n√£o brilham como as verdadeiras, n√£o s√£o atra√≠das por √≠m√£s, os detalhes s√£o grosseiros, a falsa √© “mais oval”, o tamanho dos detalhes “s√£o um pouco maior, pouca coisa, mas s√£o!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que n√£o significa que n√£o estejam todos certos, visto que n√£o existiria s√≥ um fals√°rio fazendo moedas sempre no mesmo padr√£o. O problema aqui √©, como muitos outros problemas na vida, ignor√Ęncia dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, voc√™ me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo √© uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

√Č como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois √©, ambas s√£o joaninhas). Se voc√™ sup√Ķe previamente que uma delas √© falsa, voc√™ vai concluir que uma delas n√£o √© uma joaninha. N√£o porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contr√°rio da primeira, √© sim uma aranha disfar√ßada) ou outra esp√©cie de inseto, mas porque voc√™ chegou a essa conclus√£o antes de obter dados suficiente para qualquer conclus√£o, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso √© comum em apologistas de pseudoci√™ncias como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles j√° come√ßam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X √© geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles n√£o entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contr√°rio). Os que s√£o um pouquinho mais dispostos da cabe√ßa (e n√£o pegam toda informa√ß√£o acerca de sua religi√£o pr√°tica exclusivamente atrav√©s de um blog escrito todo em mai√ļsculas e negrito) at√© se d√£o ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas j√° tendo certeza de que, digamos, exerc√≠cio e dieta balanceada n√£o funcionam, pois o que funciona √© s√≥ sua religi√£o pr√°tica e s√≥ pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religi√£o pr√°tica. No artigo tem algo como “mas certas pessoas t√™m problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARR√Ā! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL EST√Ā ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabe√ßa de Rorschach. No caso da pseudoci√™ncia ela precisa n√£o ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detect√°vel por qualquer instrumento que n√£o minha pr√≥pria f√© e precisa ser algo que n√£o me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que √© certo √© a moeda que eu “sei” que √© verdadeira. Como a outra n√£o se enquadra nas categorias arbitr√°rias pr√©-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circula√ß√£o moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modifica√ß√Ķes em suas caracter√≠sticas f√≠sicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na pr√°tica, as modifica√ß√Ķes na moeda de R$0,50 ‚Äď de disco prateado ‚Äď e na de R$1,00 ‚Äď de n√ļcleo prateado e anel dourado ‚Äď s√£o pouco significativas. Al√©m de apresentarem pequenas altera√ß√Ķes de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. J√° os desenhos de ambas n√£o sofreram nenhuma modifica√ß√£o.

E, saca s√≥!, nem cupron√≠quel e nem alpaca (liga de cobre, n√≠quel e zinco) s√£o ferromagn√©ticos e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos por √≠m√£s. S√£o tamb√©m ligas mais male√°veis que a√ßo, ficando mais propensas a riscos e pequenas deforma√ß√Ķes. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, s√£o ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na Rep√ļblica ou p√©-de-galinha no Bar√£o de Rio Branco √© prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil √© um pa√≠s vagabundo e vira-lata, que acha que √© primeiro mundo e cunha moedas de cupron√≠quel/alpaca mas n√£o tem sequer condi√ß√Ķes de recolher moedas que j√° circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cupron√≠quel/alpaca depois de apenas tr√™s anos porque eles s√£o caros demais e o custo n√£o √© compensado pelo valor irris√≥rio da face. [3]

Mas o Brasil √© um pa√≠s rico! E auto-hemoterapia cura c√Ęncer! E shiatsu tem comprova√ß√£o cient√≠fica! E homeopatia n√£o √© s√≥ √°gua e a√ß√ļcar! E o PT √© diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” s√£o apenas a√ßo-inox pintado. Cobre (mat√©ria-prima do bronze, do cupron√≠quel e da alpaca) √© caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes p√ļblicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher cap√īs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso Рtalvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

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[1] Fora notoriedade, claro. E a sensa√ß√£o de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da popula√ß√£o que nunca leu uma s√≥ linha de Sir Doyle e n√£o sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por a√≠ acusando algu√©m de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mist√©rios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

Miriam Rita Moro Mine, a Presidenta da Rep√ļblica e vinte e dois segundos no Google

Penso que você acha a vida tão problemática porque acredita que existem as pessoas boas e as pessoas más. Você está, é claro, errado. Existem, somente e sempre, as pessoas más; sendo que algumas delas estão em lados opostos.

– Lord Havelock Vetinari

Pol√≠tica n√£o √© meu fil√£o. Como eu n√£o sou programador, a ideia de um mundo bin√°rio me escapa e eu tento me afastar um pouco dos que s√≥ enxergam o “eu” e o “eles” e isso inclui futebol, religi√£o, cara-ou-coroa, esquizofr√™nicos bipolares e, especialmente, pol√≠tica.

Esclare√ßa-se: meu uso da palavra “pol√≠tica” neste texto diz respeito ao entendimento popular, ou a “defini√ß√£o do torcedor”, como s√≥ eu chamo. No Brasil (e aqui uso a palavra “Brasil” para designar aqueles que est√£o perto de mim com a boca constantemente mexendo para evitar que o c√©rebro comece a funcionar), a palavra “pol√≠tica” significa “PT vs. PSDB, e eu estou de um lado e odeio qualquer um que se declare apoiar o outro”. Comportamento t√≠pico de torcedor, da√≠ minha defini√ß√£o.

Quanto √† defini√ß√£o de “pol√≠tica” como “princ√≠pios que visam guiar decis√Ķes para alcan√ßar resultados racionais”, sou 100% partid√°rio. Mas eu possuo um dicion√°rio em casa ent√£o posso estar um pouco desconectado da realidade.

Arranjem um quarto, vocês dois!

Arranjem um quarto, vocês dois!

Eu, como j√° deixei claro em algumas ocasi√Ķes (de batons com chumbo ao letal caso do camar√£o com vitamina C, passando pelo alarde dos “espelhos falsos”), n√£o sou imune a spams pseudocient√≠ficos mas, agora, parecem estar expandindo a √°rea de mensagens indesejadas na minha caixa de entrada. Passei recentemente a receber emails com cr√≠ticas ao governo (ou, melhor dizendo, emails dizendo que o PT √© feio e bobo). Um deles discorre sobre a (n√£o-) pol√™mica do uso (n√£o-) inadequado da palavra “presidenta” pela corrente (Girino maldito!) atual ocupante da cadeira principal de Presid√™ncia da Rep√ļblica Federativa do Brasil.

Contendo in√ļmeras mudan√ßas de tamanho e cores de letra e toda sorte de √™nfases inapropriadas, o texto, aparentemente escrito por Miriam Rita Moro Mine (mais sobre ela daqui a pouco), nos conta como a “presidenta” j√° foi estudanta quando adolescenta e representanta de ‘etc’, ETC, ~etc~, etc, e minha paci√™ncia √© muito pouca para textos nojentamente escritos e pe√ßo perd√£o por ter feito voc√™s provarem um pouco da orgia gr√°fica que √© aquilo que me mandaram.

O original é bem pior, acredite.

Imagem representativa do estado dos meus olhos e da minha sa√ļde mental ap√≥s ler o email da “presidenta”.

Uma belíssima aula de português.

Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer d√ļvida se tem presidente ou presidenta.

Ser√° que est√° certo?

Acho interessante para acabar com a pol√™mica de “Presidente ou Presidenta”

A melhor forma de acabar com a “pol√™mica” citada √© admitir que ela nunca existiu e quem escreveu isso √© s√≥ muito afetado e precisa cuspir em algu√©m para se sentir bem.
Uma coisa que vou dizer logo agora, estragando a surpresa vindoura: obviamente quem escreveu o trecho transcrito acima n√£o foi a mesma pessoa que elaborou a “bel√≠ssima aula de portugu√™s”, considerando a falta de liga√ß√£o entre frases sem sujeito. S√≥ faltou um “#com√īfas” ali depois da interroga√ß√£o.

Isso e a incapacidade de saber que o g√™nero de “aula” √© feminino e que um substantivo mulher nunca poderia ser “elaborado”. O resto da frase eu n√£o consegui entender, ent√£o n√£o vou comentar.

A imbecilidade toupeirice tapadez suposta “aula de portugu√™s” come√ßa da seguinte maneira:

A presidenta foi estudanta?

Existe a palavra: PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?

√Č. Que tal?

Segundo o Loogan/Houaiss ‚Äď Enciclop√©dia e Dicion√°rio (ano de 1998 ‚Äď ISBN 85-86185-01-9), na p√°gina 1299 temos o verbete:

PRESIDENTA s.f. Mulher que exerce função de presidente.

Ou seja, essa defini√ß√£o existe numa c√≥pia f√≠sica (a √ļnica que tem perto de mim no momento em que escrevo isto) desde que a r√©, M√īnica Dilma, era apenas uma estudante de doutorado em economia (durante uma pausa que fez em sua carreira pol√≠tica entre 1995 e 1999).

Segundo o FLiP (Ferramentas para a L√≠ngua Portuguesa), que abriga o dicion√°rio on-line Priberam (vejam aqui o verbete “presidenta”):

A palavra presidenta pertence à língua portuguesa.

Podemos fazer esta afirma√ß√£o, por um lado, porque a palavra tem indesmentivelmente curso na l√≠ngua (o que √© poss√≠vel aferir atrav√©s da pesquisa em corpora e em motores de busca) e, por outro lado, porque est√° registada em todos os dicion√°rios e vocabul√°rios contempor√Ęneos consultados, nomeadamente nas principais obras de refer√™ncia da lexicografia portuguesa e brasileira, como o Vocabul√°rio da L√≠ngua Portuguesa de Rebelo Gon√ßalves (1966) ou o Vocabul√°rio Ortogr√°fico da L√≠ngua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (5.¬™ edi√ß√£o, 2009). N√£o sabemos ao certo desde quando √© que este registo lexicogr√°fico √© feito, mas a palavra constava j√° do Novo Dicion√°rio da L√≠ngua Portuguesa de C√Ęndido de Figueiredo (1913) ou do Vocabul√°rio Ortogr√°fico e Remissivo da L√≠ngua Portuguesa de Gon√ßalves Viana (1914).

Desde 1913, hein?

Pronto. Basta dado.

E bem dado.

Se tivesse que chutar, n√£o diria que Dilma est√° a elogiar a gravata de Fernandinho.

Se tivesse que chutar, n√£o diria que Dilma est√° a elogiar a gravata de Fernandinho.

Mas calma, o que é isso aqui?

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente deante do si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento occulto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, n√£o violenta, uma’placidez salpicada de alegria. Respirei, e n√£o tive animo de olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar delia, que me pedia tamb√©m a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um modo administrativo.

Uai!? Quem ter√° sido o analfabeto comunista safado e moderno que escreveu tamanha besteira?

Ora, meus caros, ele n√£o √© analfabeto, apenas de outra √©poca. Mais especificamente 1880, durante o Imp√©rio do Brasil. Mais especificamente ainda, Machado de Assis, no cap√≠tulo 80 do seu livro Mem√≥rias P√≥stumas de Br√°s Cubas (ou, no portugu√™s original do s√©culo retrasado, “Memorias Posthumas de Braz Cubas”).

Então agora já chega, né? O verbete tem pelo menos 133 anos.

Mas n√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£o, o spammeiro n√£o quer saber de basta, para satisfazer sua doen√ßa mental ele quer agredir a figura p√ļblica que representa o outro time, objeto do seu √≥dio.

Baixinha, dentu√ßa, gorducha (menos na √©poca do c√Ęncer), sempre de vermelho, andando com um amigo que fala errado e outro que √© bem sujo.

A mensagem indesejada continua, incluindo agora um nome e um título: Miriam Rita Moro Mine РUniversidade Federal do Paraná.

Excelente! Um ponto objetivo para a nossa an√°lise.

Antes de qualquer outra coisa, vejo no Currículo Lattes que Miriam (que é doutora e passará a ser denominada doravante Dra. Mine) é realmente da Universidade Federal do Paraná.

Em seguida, alguns poucos segundos no Google me devolvem um post chamado Esclarecimento, de um sub-blog do Blog do Noblat (tudo bem, n√£o chamaria essa fonte de “confi√°vel”, mas…), onde a autora diz ter recebido um (sic) “desmentido formal” da doutora, que diz:

Prezada Sra Maria Helena

Nunca escrevi absolutamente nada sobre a exist√™ncia ou n√£o da palavra ‚Äúpresidenta‚ÄĚ. Meu nome est√° sendo usado indevidamente como autora de um texto que circula na internet e na imprensa.

Sou professora da Universidade Federal do Paran√° – UFPR, Departamento de Hidr√°ulica e Saneamento, graduada em ‚ÄúEngenharia Civil ‚Äú e com p√≥s-gradua√ß√£o em cursos de ‚ÄúEngenharia‚Äú (Mestrado e Doutorado) e professora de cursos de ‚ÄúEngenharia‚ÄĚ na UFPR (ver meu Curriculum Lattes ‚Äď www.cnpq.br ‚Äď plataforma lattes)

Eu jamais escreveria um texto que não fosse da minha área de atuação.

Miriam Rita Moro Mine

Miriam Rita Moro Mine

Universidade Federal do Paran√°

Departamento de Hidr√°ulica e Saneamento

Caixa Postal 19011

81531-990 Curitiba – PR

Como Maria Helena (a autora do blog citado) diz que havia publicado o spam “coberto de elogios”, acho que n√£o haveria de se retratar t√£o facilmente por causa de uma mensagem an√īnima.

Bom, eu realmente não sei. O que sei é que no blog de Juca Kfouri, aparentemente a propósito de nada, encontro um comentário que lê (sic):

Prezados Circula na internet um e-mail sobre a palavra presidenta como se fosse de minha autoria. Nunca escrevi nada sobre este assunto. Sou professora de cursos de Engenharia e não de Gramática da Língua Portuguesa. Miriam Rita Moro Mine

Renan Calheiros está pegando na aliança. O que será que Lula está cochichando?

Renan Calheiros está pegando na aliança. O que será que Lula está cochichando?

Novamente, como n√£o posso confirmar a identidade da comentarista, n√£o posso afirmar que ela n√£o escreveu o texto que virou spam.

O que posso confirmar √© que existem vers√Ķes mais antigas que n√£o contam com a assinatura dela (cuja primeira refer√™ncia √© justamente em outro post do blog de Maria Helena, em 14 de outubro de 2010).

Por exemplo: em 16 de junho de 2010, no blog webartigos, foi publicado o texto Espelho, espelho meu, existe reda√ß√£o mais bela do que eu? que inclui uma vers√£o do spam afirmando explicitamente que “no e-mail n√£o h√° identifica√ß√£o do autor”.

E, em primeiro de novembro de 2010, um comentarista do blog Palavras e origens – Considera√ß√Ķes Etimol√≥gicas cola o texto referido e √© prontamente respondido pelo autor do blog com a mensagem: “Prezado, esse texto que voc√™ envia (sem autoria) apareceu pela primeira vez no site Levante-se Brasil, cujos organizadores mant√™m essa comunidade no Orkut ‚ÄĒ http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=73197065.”

Eu juro que tentei entrar na tal comunidade (desde agosto do ano passado, de fato, quando primeiro pesquisei a respeito) mas não consegui. Mais um beco sem saída.

Por outro lado, mais uma confirma√ß√£o de que o texto n√£o √© de autoria da Dra. Mine (digo “confirma√ß√£o” porque quem sai por a√≠ colando esse tipo de besteira n√£o tem capacidade intelectual suficiente para editar informa√ß√Ķes – que o digam os comentaristas de um texto meu).

O líquido na taça está numa posição esquisita. Estariam os dois deitados?

O líquido na taça está numa posição esquisita. Estariam os dois deitados?

Continuar minha barragem (ver 4) a partir daqui seria bater em quem est√° no ch√£o.

Mas como eu só luto sujo, deixo o golpe final para o senhor Juscelino Kubitchesk

LEI N¬ļ 2.749, DE 2 DE ABRIL DE 1956

D√° norma ao g√™nero dos nomes designativos das fun√ß√Ķes p√ļblicas.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1¬ļ Ser√° invari√†velmente observada a seguinte norma no empr√™go oficial de nome designativo de cargo p√ļblico:

‚ÄúO g√™nero gramatical d√™sse nome, em seu natural acolhimento ao sexo do funcion√°rio a quem se refira, tem que obedecer aos tradicionais preceitos pertinentes ao assunto e consagrados na lexeologia do idioma. Devem portanto, acompanh√°-lo neste particular, se forem gen√®ricamente vari√°veis, assumindo, conforme o caso, elei√ß√£o masculina ou feminina, quaisquer adjetivos ou express√Ķes pronominais sint√†ticamente relacionadas com o dito nome‚ÄĚ.

E, desta página, concluo da situação que: NÃO CONSTA REVOGAÇÃO EXPRESSA.

√Č presidenta. E quem disse foi um homem, o que significa que est√° certo e deve ser obedecido.

Agora morram todos de hemorroida explosiva.

Finalizando e esclarecendo: eu acho que o mundo só vai ser um lugar bom quando Lula morrer enforcado nas tripas de FHC (ou equivalentes). Mas eu odeio extremistas e acho que todos eles devem morrer da forma mais brutal possível, principalmente os violentos. [1]

Uma frase ótima que achei durante minha pesquisa e vou, daqui em diante, passar como minha (mantendo a tradição dos spams): Não misture vernáculo com ideologia.

2 x 3 = 6. Se esse não foi o sinal da besta, eu não sei o que é.

2 x 3 = 6. Se esse não foi o sinal da besta, eu não sei o que é.

S√£o todos iguais, pessoal. Parem de se enganar achando que existe “o outro lado”.

Concluo com uma frase do próprio spam:

Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..

Essa frase lembra alguma outra?

Texto original do spam para fins de pescar paraquedistas e misturar analogias (sem a bizarra edição gráfica pois sou bonzinho):

A presidenta foi estudanta?Uma belíssima aula de português.
Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer d√ļvida se tem presidente ou presidenta.
Ser√° que est√° certo?
Acho interessante para acabar com a pol√™mica de “Presidente ou Presidenta”
A presidenta foi estudanta?
Existe a palavra: PRESIDENTA?
Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?
Miriam Rita Moro Mine – Universidade Federal do Paran√°.
No portugu√™s existem os partic√≠pios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o partic√≠pio ativo do verbo atacar √© atacante, de pedir √© pedinte, o de cantar √© cantante, o de existir √© existente, o de mendicar √© mendicante… Qual √© o partic√≠pio ativo do verbo ser? O partic√≠pio ativo do verbo ser √© ente. Aquele que √©: o ente. Aquele que tem entidade.
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionarem à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.
Portanto, √† pessoa que preside √© PRESIDENTE, e n√£o “presidenta”, independentemente do sexo que tenha.
Diz-se: capela ardente, e n√£o capela “ardenta”; se diz estudante, e n√£o “estudanta”; se diz adolescente, e n√£o “adolescenta”; se diz paciente, e n√£o “pacienta”.
Um bom exemplo do erro grosseiro seria:
“A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta.
Esperamos v√™-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta pol√≠tica, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, n√£o tem o direito de violentar o pobre portugu√™s, s√≥ para ficar contenta”.
Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..

P.S. Mas eu achei o texto massa. Queria eu tê-lo escrito, pois é bem meu filão. Só jamais o faria pelas falhas gramaticais aberrantes.

[1] Para os mais lentos de raciocínio, isso foi uma piada do tipo autorreferente de propósito autoderrotado.

UTILIDADE P√öBLICA – Cuidado com os ESPELHOS, ops, SPAMS!

Gabriel mandou essa belezura para mim (eu já conhecia mas nunca tinha tido saco de escrever a respeito) e resolvi repassar aqui porque é realmente um assunto muito importante: a irresponsabilida de quem perpetua spams.

Por respeito aos meus leitores, a mensagem foi reproduzida aqui sem cores e com uniformidade de fontes.

Meus comentários estão intercalados ao spam. Acho que não será difícil reconhecer qual é qual.

VOC√ä SABE SE O ESPELHO EM LOCAL P√öBLICO EM QUE VOC√ä EST√Ā SE VENDO √Č O VERDADEIRO?

Se voc√™ est√° “se vendo”, provavelmente voc√™ est√° olhando para um espelho que, se fosse falso, n√£o refleteria e, portanto, n√£o seria chamado “espelho” mas “parede”.

ESPELHO DE 2 DIRE√á√ēES: COMO DETECTAR?

#com√īfas?

INFORMAÇÃO POLICIAL

Mesmo que seja verdade, o que provavelmente não é o caso, seria uma informação policial de outro país, visto que o email é uma tradução.

Quando forem curtir um hotel, lojas de departamentos, pousada ou mesmo banheiro p√ļblico, prestem aten√ß√£o nos espelhos.

Especialmente se você for desengonçado, estiver carregando artigos pesados e pontudos e tiver a pele frágil. Eu me cortei num pedaço de espelho quebrado um dia desses e não foi nada divertido.

Vocês podem estar sendo observadas, por isso não custa nada fazer o teste abaixo.

O famoso “mas n√£o custa nada”. Esses spammeiros sempre deixam de fora a dignidade, que nos √© muito cara.

Servi√ßo de Utilidade P√ļblica em Prol da Integridade Feminina:

Todo Em Inicias Mai√ļsculas De Modo A Parecer Algo Oficial.

Não é para assustar, mas para alertar.

Igual ^alertar^ “FOGO! FOGO!” num cinema.

Quando as mulheres v√£o √† toaletes, banheiros, quartos de hotel, vesti√°rios de mudar de roupa, academias, etc., quantas podem estar certas de que o espelho, aparentemente comum, pendurado na parede √© um espelho de verdade ou um espelho de duas dire√ß√Ķes? (daqueles em que voc√™ v√™ sua imagem refletida, mas algu√©m pode te ver do outro lado do vidro como os da Casa dos Artistas, A Fazenda e Big Brother).

Tirando o mal uso da crase (a prostituta da gram√°tica), o idiota “vesti√°rios de mudar roupa” (diferente daqueles vesti√°rios onde j√° entramos nus) e a men√ß√£o aos espet√°culos televisivos da esc√≥ria humana, eu posso responder √† pergunta usando elementos dela mesma. Se o espelho est√° “pendurado na parede”, ele √© um espelho comum.

Espelhos de observação não são pendurados, da mesma forma que janelas não são penduradas, mas instaladas dentro da parede. E uma forma de se pensar em tais espelhos é que eles são janelas refletivas (aliás, durante uma noite particularmente preta, acenda as luzes da sua casa e olhe pelo vidro de uma janela fechada e se surpreenda ao ver sua própria cara assustada, olhando de volta). O ambiente que estiver mais iluminado vai aparecer mais, independente de qual lado você esteja.

Tem havido muitos casos de pessoas instalando espelhos de duas dire√ß√Ķes em locais freq√ľentados por mulheres, para filmar, fotografar ou simplesmente ficar olhando.

A boa e velha informa√ß√£o vaga. Esse “tem havido” √© do mesmo time de “dizem que comer capim faz crescer a orelha, vide os burros”. Como assim “tem havido”? D√° para ser mais impreciso que isso?

√Č muito dif√≠cil identificar positivamente o tipo de espelho apenas olhando para ele.

Ou, como se trata de espelhos, olhando para você mesmo.

Então, como podemos determinar com boa dose de precisão que tipo de espelho é o que estamos vendo?

Encostando o rosto no vidro e colocando as m√£os acima dos seus olhos para cobrir o reflexo da luz, mais ou menos assim:

A cara de abestalhamento é opcional

Porque o vidro espelhado continua sendo um vidro transl√ļcido (lembre-se do exemplo da janela) e, do jeito que a luz funciona, parte da ilumina√ß√£o do seu lado necessariamente vaza para o outro, mais escuro. Usando a t√©cnica da imagem acima √© poss√≠vel “desmascarar essa quadrilha”, se √© que existe uma.

√Č MUITO SIMPLES:

Concordo. Até já disse como fazer.

Faça apenas este teste: Toque na superfície refletida com a ponta da unha.

√Č. Fa√ßa apenas o teste sugerido e saia como entrou: totalmente ignorante quanto ao modelo do espelho.

Se existir um ESPA√áO entre a sua unha e a imagem refletida, o espelho √© GENU√ćNO.

"Ninguém vai colocar dedo nenhum em mim, sai dessa!"

E, se não existir reflexo, o espelho é falso. Você está encostando sua unha num muro.

O espaço é equivalente à espessura do espelho, pois a parte que reflete é a parte do FUNDO do vidro, não a parte da frente.

Isso nos espelhos cuja superf√≠cie refletiva fica atr√°s, e n√£o na frente do vidro, que s√£o a maioria. Mesmo porque o que reflete √© uma fina camada met√°lica facilmente desgast√°vel por pontas de unhas daqueles que s√£o dementes o suficiente a ponto de acreditar inquestionavelmente em informa√ß√Ķes recebidas via email colorido. Um espelho bom e resistente com camada refletiva anterior √© bastante caro e as lojas de departamento que esse pessoal frequenta jamais gastaria dinheiro com isso.

Entretanto, se a unha TOCA DIRETAMENTE na imagem, N√ÉO havendo um espa√ßo CUIDADO COM ELE (…)

CUIDADO!!! SEU DEDO TOCOU DIRETAMENTE UMA IMAGEM!!! CORRAM!!!

(…) POIS √Č UM ESPELHO DE DUAS DIRE√á√ēES.

OU UMA BANDEJA DE PRATA!!!!

Ou qualquer outra superfície refletiva. Incluindo um espelho perfeitamente normal e extremamente caro. Não o quebre.

A parte reflexiva é a parte da frente, não a do fundo do vidro.

"Minha parte reflexiva certamente não é o fundo. Sai dessa."

Ent√£o, lembre-se a cada vez que voc√™ vir um espelho, fa√ßa o “TESTE DA UNHA”, tem que haver um espa√ßo!

Teste da Unha¬ģ – para os obsessivos compulsivos entre n√≥s.

Aproveite para chamar a polícia, pois trata-se de crime previsto em lei.

Que lei, exatamente? O melhor que eu achei foi o artigo 227 do C√≥digo Penal, que diz: “Induzir algu√©m a satisfazer a lasc√≠via de outrem”. Mas brechar n√£o √© induzir, ent√£o como fica?

Novamente, essa mensagem foi traduzida. Talvez voyeurismo seja crime no país de origem do mito, mas não o é (pelo menos explicitamente) no Brasil.

Acreditar em estorinhas e espalhar spams é sinal de uma mente pouco crítica e é exatamente disto que menos precisamos.

Vamos aprender a pensar e deixar de pregui√ßa. Cinco segundos no Google (considerando que voc√™ est√° lendo emails, ou seja, com acesso instant√Ęneo ao resto da Internet) mostraria como isso a√≠ √© falso e, ao contr√°rio do que promete, s√≥ serve para espalhar o p√Ęnico. Imagine a quantidade de chamadas in√ļteis que a pol√≠cia receberia em virtude de um rid√≠culo “teste da unha” feito por pessoas ing√™nuas, inexperientes e j√° cr√©dulas nessa besteira de que est√£o sendo observadas. Al√©m de burrice isso seria uma irresponsabilidade (fora que chamar a pol√≠cia para motivos f√ļteis ou falsos √© crime sim, de acordo com o artigo 340)

Novamente, vou usar um lembrete do próprio spam e que se adequa aqui:

Mulheres, ensinem isto para suas amigas!
Homens, ensinem isto para suas esposas, filhas, namoradas, amigas.

(Fora que ainda nos deixa com a sexista mensagem “Os homens que se danem! Neste mundo s√≥ se brecha mulher!”. Que absurdo.)

Mais spams destruídos:

Como reconhecer um spam;

Motivos para não incluí-los em meus textos;

Spam da Doença de Chagas em feijão;

Spam sazonal da gripe suína;

Spam dos batons com chumbo;

Spam do camar√£o e da vitamina C;

A falsa cura do c√Ęncer desmentida mais rapidamente que eu j√° vi;

Spam dos absorvente internos que causam c√Ęncer.

Curso de Capacitação DAIME PARA TODOS

Recebi um email com o assunto que entitula este texto e, antes de apagar e mandar para a pasta de spam, pensei “isso √© muito rid√≠culo para permanecer n√£o-compartilhado”.

Portanto, ei-lo, compartilhado e comentado:

O participante ter√° acesso completo a todas as informa√ß√Ķes sob a √≥tica m√©dica, jur√≠dica, biol√≥gica, hist√≥rica e espiritual da ayahuasca, atrav√©s de aulas te√≥ricas e viv√™ncias pr√°ticas com profissionais de cada √°rea.

Tirando o fato de que “acesso completo a todas as informa√ß√Ķes” √© uma afirma√ß√£o um tanto quanto grandiosa (e uma promessa dificilmente cumpr√≠vel), notem que eles oferecem informa√ß√Ķes jur√≠dicas num “curso” para o consumo de um entorpecente. Legal, n√©?

Percebam tamb√©m a estrutura da frase: “O participante ter√° acesso (…) a todas as informa√ß√Ķes (…) atrav√©s de aulas te√≥ricas e viv√™ncias pr√°ticas com profissionais de cada √°rea“. Acesso a informa√ß√£o atrav√©s de viv√™ncia pr√°tica? Com profissionais? Quer dizer que os participantes v√£o ter uma aula te√≥rica e em seguida v√£o compartilhar o ch√° alucin√≥geno com m√©dicos, advogados, bi√≥logos, historiadores e xam√£s (este √ļltimo n√£o sendo exatamente uma “profiss√£o”)? Uau!

Este curso poderá propiciar ao participante a afiliação ao Céu Nossa Senhora da Conceição, e a partir disto, ser beneficiado recebendo gratuitamente todo mês como cortesia 1 litro de nossa forte ayahuasca para seu uso religioso e individual no altar de sua casa.

A mensalidade de filiação ao Céu Nossa Senhora da Conceição é de apenas 10 reais ao mês.

Viram a evasiva palavra “poder√°”? E a tergiversa√ß√£o convoluta do “recebendo gratuitamente todo m√™s como cortesia” seguido de “A mensalidade (…) √© de apenas 10 reais ao m√™s“? O produto √© gratuito, voc√™ s√≥ paga pela “mensalidade”. Certo.

O CONAD (Conselho Nacional de Pol√≠ticas sobre Drogas), na Resolu√ß√£o n¬ļ 1, de 25.01.10, considerando uma ruma de coisa, resolveu que o ayahuasca √© legal (concordo 100% com a decis√£o, que fique claro desde agora). No entanto, o relat√≥rio final do Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT – Ayahuasca) ressalva e aconselha o seguinte (editado e grifado para maior efeito):

V РCONCLUSÃO:

b. Considerando que o GMT, ap√≥s diversas discuss√Ķes e an√°lises, onde prevaleceu o confronto e o pluralismo de id√©ias, considerou como uso inadequado da Ayahuasca a pr√°tica do com√©rcio, (…), a propaganda, e outras pr√°ticas que possam colocar em risco a sa√ļde f√≠sica e mental dos indiv√≠duos;

O Grupo Multidisciplinar de Trabalho aprovou os seguintes princípios deontológicos para o uso religioso da Ayahuasca:

5. Ressalvado o direito constitucional √† informa√ß√£o, recomenda-se que as entidades evitem a propaganda da Ayahuasca, devendo em suas manifesta√ß√Ķes p√ļblicas orientar-se sempre pela discri√ß√£o e modera√ß√£o no uso e na difus√£o de suas propriedades;

Eu n√£o pedi para ser contactado pela C√©u Nossa Senhora da Concei√ß√£o (ali√°s, que nomezinho mais contradit√≥rio) e n√£o considero a pr√°tica de spam como “discri√ß√£o e modera√ß√£o no uso e na difus√£o“. Logo, acho que a entidade est√° abusando de seus direitos, manobrando as considera√ß√Ķes e sugest√Ķes do GMT para promover, para todos os fins e efeitos, com√©rcio atrav√©s de propaganda, apesar do trecho “para seu uso religioso e individual” estar devidamente grifado na mensagem original.

Minha reclama√ß√£o, no entanto, √© quest√£o de premissa. Eu posso fazer uso do ch√° no “altar” de minha escolha, mas devo (minha interpreta√ß√£o) eu mesmo procurar entidades organizadas e me afiliar a elas, e n√£o o contr√°rio.

Agora, a melhor parte de todo o email:

‚ÄúCabresto √© coisa que se p√Ķe em burros, n√£o se p√Ķe cabrestos em HOMENS! Quem AMA… Liberta!!!‚ÄĚ

Xam√£ Gideon dos Lakotas

Agora sim! Agora que o xam√£ Gideon (s√©rio, esses nomes s√£o muito contradit√≥rios) tirou essa frase do bolso declamou essa profunda verdade, eu me sinto inclinado a usar tal “mediador de realidade”! N√£o quero ser burro, quero ser homem! Especialmente agora que vi que a frase termina com tantas exclama√ß√Ķes!!

Ops… pera√≠… O que essa frase tem a ver com as cal√ßas? Quem est√° colocando cabresto em quem? De onde saiu tanta energia defensiva? E como assim “quem ama, liberta”? Quem ama o qu√™ liberta quem de onde por qual motivo (e de que horas)?

Essa frasezinha de efeito √© totalmente vazia sob o m√≠nimo escrut√≠nio. Parece estar dizendo “use o daime e seja livre” ou algo assim, mas n√£o faz o menor sentido. Quem incluiu essa cita√ß√£o (que, sem a mais fina sombra de d√ļvida, n√£o √© original daquele sujeito) deve ter contratado muito os servi√ßos da minha ag√™ncia de viagens favorita, a Non-SequiTur.

Finalizando esta escaramuça, eis o restinho da mensagem:

Duração do Curso: 09 dias na fazenda sede

Contribui√ß√£o: 180 reais. Est√° incluso nos 09 dias todas as refei√ß√Ķes (caf√© da manh√£, frutas, almo√ßo e janta) alojamento, aulas, fogueiras e viv√™ncias com ayahuasca em rituais nas matas.

Ufa! Ainda bem que n√£o vou precisar pagar por fora pelas fogueiras!

Resenha – Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas

– Pode ser que seja uma mulher…

– Ora essa, e o que mais podia ser?

– H√° mais coisas entre o c√©u e a terra… Se √© uma mulher, por onde √© que ela entra?

– N√£o sei.

– Pois √©. Nem eu. Mas se for outra coisa… Ora, qual, para um pr√°tico homem de neg√≥cios no fim do s√©culo dezenove, essa esp√©cie de conversa √© um tanto rid√≠cula.

Ele parou por aí, mas eu vi que o assunto o preocupava mais do que ele queria dar a parecer. A todas as velhas histórias de fantasmas de Thorpe Place, uma nova se estava acrescentando bem sob os nossos olhos.

No conto ‚ÄúA caixa de char√£o‚ÄĚ (The Jappaned Box – 1899), dois personagens discutem acerca de uma voz feminina que surge sem explica√ß√£o num quarto trancado onde ningu√©m √© visto entrar ou sair.

Notem que a incredulidade expressa acima por um dos interlocutores √© acompanhada de uma auto-recrimina√ß√£o, visto que “essa esp√©cie de conversa √© um tanto rid√≠cula” j√° “no fim do s√©culo dezenove“. E por que pessoas pr√°ticas acreditam em coisas estranhas?

O conto citado acima foi escrito pelo criador do detetive que é (discutivelmente) o símbolo máximo do ceticismo, Sherlock Holmes. E mesmo assim, Arthur Conan Doyle, que tanto pregava a racionalidade em seus escritos, acreditava em fadas. Então, por que pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas?

Michael Shermer descreve casos, discute estudos, apresenta evid√™ncias e nos transporta para dentro da mente das pessoas que acreditam; tanto em coisas ‚Äúcomuns‚ÄĚ, quanto em coisas ‚Äúestranhas‚ÄĚ (ou seja, todos n√≥s).

Com uma bibliografia impressionante (quase vinte p√°ginas s√≥ de refer√™ncias), este livro, dividido em cap√≠tulos auto-contidos, √© prazeroso e divertido de ler. Pelo menos para o verdadeiro c√©tico, j√° que muitos conceitos e pr√© concep√ß√Ķes s√£o desafiados e demonstrados √† luz da evid√™ncia cient√≠fica, fazendo dele um volume bastante revelador em alguns pontos, que certamente s√£o bem interessantes para os c√©ticos de carteirinha (mas sinta-se √† vontade para duvidar desta minha afirma√ß√£o).

Eu notei alguns erros de tradu√ß√£o (como o uso de ‚Äúdesvio‚ÄĚ em lugar do mais comum ‚Äúvi√©s‚ÄĚ e o mais literal e confuso ‚Äúsistema de endere√ßamento p√ļblico‚ÄĚ quando um simples ‚Äúcaixa de som‚ÄĚ resolveria) e uma certa desatualiza√ß√£o (como quanto ao consenso do in√≠cio da vida na Terra), culpa da demora do lan√ßamento nacional, quase dez anos depois da edi√ß√£o revisada e quase quinze depois do lan√ßamento original.

Fora algumas besteiras que meu pedantismo não deixa passar, todo o livro se mantém fresco e revigorante.

Por que o fen√īmeno de ‚Äúca√ßa √†s bruxas‚ÄĚ ocorre mesmo frente √† impossibilidade das alega√ß√Ķes? Como uma filosofia que prega o racionalismo e a individualidade absoluta se desvirtua e se transforma num movimento com aspectos de seita (onde discutem-se at√© se homic√≠dio √© justific√°vel em casos de desrespeito ao l√≠der)? Por que pessoas inteligentes defendem, com todos os seus recursos, ideias absurdas e apoiam a nega√ß√£o pura e simplesmente insustent√°vel de fatos cient√≠ficos e hist√≥ricos, como a evolu√ß√£o e o holocausto nazista?

Algumas das pistas que Shermer nos dá para respondermos a essas (e outras) perguntas tão difíceis são: gratificação imediata; simplicidade, e; moralidade e sentido. Ou seja, algumas vezes, crer em absurdos é mais reconfortante, mais fácil e ainda transfere a responsabilidade para algo maior.

Teorias conspirat√≥rias, seitas, religiosismo (e at√© livros de auto-ajuda) podem ser criaturas de simples falhas de pensamento cr√≠tico (como seria o caso das fadas de Conan Doyle, que n√£o escapa de ser mencionado no √ļltimo cap√≠tulo).

Dedicado a Carl Sagan, com pref√°cio de Stephen Jay Gould e com in√ļmeras refer√™ncias a Martin Gardner, ‚ÄúPor Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas‚ÄĚ tem um p√ļblico certo que, sem d√ļvida, vai se identificar com as palavras do editor da revista Skeptic, Michael Shermer (e de Pope, Hume, Eddington, Malinowski, Randi, Pinker e outros tantos citados).

Excelente livro que ir√° residir ao lado do meu Mundo Assombrado Pelo Dem√īnios (assim que a reforma aqui em casa acabar) por sua capacidade em ser, ao mesmo tempo, tanto uma leitura introdut√≥ria quanto de aprofundamento. Se voc√™ se interessa pela maquinaria do pensamento humano e gosta de ter seu pr√≥prio status quo interno desafiado, eu o recomendo fortemente.

Agora, vamos para o sorteio

Kentaro, editor do Ceticismo Aberto, está sorteando um volume entre todos que responderem à pergunta abaixo:

Participem. E, para a maioria que n√£o ganhar, o livro pode ser adquirido diretamente pela p√°gina da editora.

A Veja e os índios

A SBPC lan√ßou uma nota de rep√ļdio e at√© por aqui fizeram barulho por causa disso. T√£o parecendo uma ruma de √≠ndio!

E daí que um jornalista insinuou que todo índio é preguiçoso? São não, por acaso?

Só falta virem me dizer que nem todo japonês é igual e que nem todo cearense tem a cabeça chata.

Até que ponto somos fruto da nossa época?

Ano passado, o cineasta Roman Polanski foi preso por “namorar garotas menores de idade” na d√©cada de 70. A acusa√ß√£o foi feita em 1977 porque, aparentemente, ele n√£o sabia que era contra a lei fazer sexo com meninas de treze anos.
(Antes de continuar, uma das minhas famosas interrup√ß√Ķes que quebra completamente o fluxo da narrativa e faz a segunda parte do argumento parecer sem sentido at√© que se leia a primeira novamente pulando os par√™nteses: manter rela√ß√Ķes sexuais com menores √© crime, independente da vontade do parceiro. Um sujeito que for seduzido por uma garota de 14 anos vai pagar, e vai pagar caro, por ter consumado o fato, caso seja denunciado.)

Em 1976, o mundo nos dava Quando as Metralhadores Cospem (Bugsy Malone), estrelando Jodie Foster que, aos catorze anos de idade, interpretava uma dançarina de cabaret (que não é exatamente o mesmo que um cabaré como nós conhecemos, mas também não é nenhum salão de vendas de concessionária de automóveis).

Não só todas as dançarinas são igualmente jovens como todo o elenco do filme o é.

Em 1980, três anos depois da acusação, víamos os peitos de Brooke Shields, recém-familiarizada com a adolescência (aos quinze anos, mais precisamente).

N√£o vou incrustrar o v√≠deo aqui porque quem j√° ligou a TV durante a tarde mais de uma vez nos √ļltimos trinta anos j√° viu esse filme.

A mesma atriz, cinco anos antes, fez um ensaio “sensual” (at√© onde um corpo de uma crian√ßa de dez anos pode ser mais sensual que, digamos, tinta fresca ou um prato pingando no escorredor de lou√ßa) cujas fotos foram, n√£o s√≥ no mesmo ano como no mesmo m√™s e apenas quatro dias ap√≥s a pris√£o de Polanski, retiradas de uma exposi√ß√£o na Inglaterra porque “estava atraindo ped√≥filos” ou algo do tipo.

Atrair não pode, mas acobertar, proteger e remanejar tá liberado, né Ratzo?

Num mundo assim é realmente difícil ter certeza de que é errado fornicar com menores.

Notem que eu disse “ter certeza”. Obrigado.

Voc√™, que agora me l√™, tem certeza de que deve dar passagem a um carro de emerg√™ncia (ambul√Ęncia, pol√≠cia, bombeiros) mesmo correndo o risco de ser multado por uma c√Ęmera de sinal?
Certeza mesmo?

Eu sei que isso beira a analogia falsa e que desconhecer a lei n√£o √© desculpa para infring√≠-la sem puni√ß√Ķes, mas s√©rio, se de uma hora para outra voc√™ descobrir que o simples fato de ter assistido ao v√≠deo acima faz de voc√™ um(a) criminoso(a), voc√™ acharia justo?

gramatica capaMudan√ßa 100% de assunto mas me aproximando cada vez mais da minha meta, no come√ßo da semana eu desenterrei minha velha gram√°tica (que √© a minha preferida pois tem mais figuras que as outras) e, enquanto meu queixo caia ao ler que “explodir” n√£o pode ser conjugado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo (i.e. eu explodo) e que o mesmo se aplicar a “feder” (regra essa abolida segundo meu dicion√°rio de conjuga√ß√Ķes 2010, gra√ßas ao qual agora eu fedo o quanto quiser), resolvi relembrar os erros gramaticais mais comuns do passado (a publica√ß√£o √© de 1994) e, na p√°gina 389, me deparo com o seguinte exemplo:
gramatica indio detalhe.jpg

N√≥s (e quando eu digo “n√≥s” quero na verdade dizer “eu”, j√° que tenho uma forte tend√™ncia a extrapolar a minha experi√™ncia para todas as pessoas existentes e que s√£o mais jovens que meus pais mas ainda nascidos antes do mundo se transformar num para√≠so ridiculamente est√©ril) fomos criados realmente pensando que √≠ndio √© bicho e que deve ser tratado como tal.

Mas, pior que isso, bicho selvagem, porque também fomos criados para tratar nossos cães e gatos como gente, então eles não contam. Bichos caseiros, de estimação, são melhores que índios.

Eu tomei um choque alucinante quando fui a Macap√° em sei-l√°-que-ano e vi √≠ndios andando na rua. Porque aquele dia foi a primeira vez que eu aprendi a associar “ind√≠o” com “pessoa” e n√£o com “aldeia”.

Antes daquilo, todo √≠ndio usava cocar, andava com cal√ß√£o da copa de 86 e morava em uma oca. Depois daquilo, “√≠ndio” virou ra√ßa, como preto, branco e pardo (que s√≥ √© ra√ßa no Brasil e uma vez por d√©cada, durante o censo).

Eu cresci sabendo que índio = bicho = selvagem < eu. E, sinceramente, num sistema de ensino deformado como o nosso é demais querer que um mero jornalista saiba que "selvagem" tem mais de um sentido.

Ironia? Talvez. Preconceito? Sem d√ļvida. Mas um preconceito institucionalizado, enraizado no √Ęmago mais profundo da pessoa do nosso ser individual, com direito a todos os pleonasmos repetitivos e desnecess√°rios que caibam aqui.

Antes da primeira pedra, impulsionada pela mentalidade de turba que há de se criar ao redor disso, voar e atingir algum inocente, vamos tentar atribuir culpa a alguém mais distante e mais efêmero, cuja honra, por já ser suficientemente etérea, não pode mais ser manchada.

O propósito deste ensaio não é inocentar a revista ou os redatores ou os jornalistas envolvidos na matéria, mas relembrar que devemos manter sempre a chama do ceticismo acesa, em todos os momentos.

Antes de matar, vamos ver se tem graça.

Antes de queimar a bruxa vamos ver se ela boia primeiro.

Depois, se forem realmente culpados, pau neles.

Eu seguro e vocês batem.

Você sabe conjugar o verbo "rir"?

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