Coisas que não sei – comida carregada

Alguns anos atrás eu estava com a garganta inflamada e liguei para meu médico para perguntar o nome do remédio (eu tenho isso uma vez por ano, todo ano, sem falta e sempre tem o mesmo diagnóstico, então era estatisticamente seguro supor que era a mesma mazela de sempre sem precisar ir ao larigonlogista).
Nome dado, perguntei se tinha alguma restrição e recebi um: “Evite comer coisas muito quentes ou muito geladas. No mais, pode se alimentar normalmente.”
“Ótimo”, disse eu, “minha mãe fez assou um lombinho de porco hoje que vai virar minha janta!”
Rapidamente, ouvi um “NÃÃÃÃÃÃÃO!!!” estridente do outro lado da linha. “PORCO NÃO PODE!”
E mesmo sob protestos meus de “mas você disse que eu podia comer normalmente e, não sendo judeu, porco faz parte da minha alimentação normal”, a resposta continuou sendo “não coma carne de porco senão a inflamação piora”.
O mesmo conselho é válido para crustáceos (que eu nunca como normalmente, pois não sou apreciador de baratas pré-históricas nem de fábricas vivas de muco perolado), o que precipita a minha pergunta da semana: por que indivíduos totalmente não-alérgicos não devem comer carne suína ou crustáceos quando com alguma inflamação?
Eu sei que essa indicação é excessivamente abrangente por segurança (é melhor privar alguém imune de três refeições de costelinha do que expor a uma inflamação fatal alguém predisposto) e até conheço um sujeito que, após uma pequena cirurgia na mão, almoçou camarão, jantou porco e ceiou lagosta e não apresentou problema algum, mas desconheço totalmente o mecanismo de ação.
É uma proteína? Todo mundo diz que é, mas será mesmo?
Pergunta Bônus: uma pessoa alérgica a camarão deve também evitar espetinho de grilo quando viajando pela China continental?

Seu mestrado é em quê mesmo?

Esta é a terceira parte de um texto que começou segunda-feira (clique aqui para ler a primeira parte), seguiu pela quarta-feira (clique aqui para ler a segunda parte) e se encerra hoje.
Se não tiver lido as duas primeiras, por favor o faça antes de continuar aqui.
CONTINUAÇÃO
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Mesmo que me considerem sinistro ou mórbido, eu consigo ver um lado bom nisso: rapidamente a verdade sobre “medicina alternativa” surgiria (antes tarde do que nunca), ao verem que uma fratura exposta não sara com reflexologia, que cólera mata independente da técnica de acupuntura usada e que homeopatia facilita a contaminação por cólera e esquistossomose mais do que cura catarata (homeopatia não cura catarata).
Pouca gente sabe, mas já existe um termo genérico para designar coletivamente qualquer tratamento ou procedimento de medicina alternativa que comprovadamente funcione de verdade fora da “realidade” mental de alguns hippies: “medicina“.
E, já que comecei a falar em lixo, algo que poucos consideram em seus dia-a-dias: remoção de sujeiras e dejetos.
O que fazer com o lixo? Porque sem dúvida ele há de acumular. E sem água corrente, vasos sanitários não servem para muita coisa além de monumentos em homenagem a uma época distante e confortável.
Em que ponto você teria que começar a se preocupar com a inevitável contaminação da sua única fonte de água razoavelmente segura das redondezas?
Não só com o que for produzido a partir de então, mas também com os bilhões de cadáveres impertubados apodrecendo onde cairam. Alguém terá tido o bom senso de retirá-los?
Fogueiras parecem uma alternativa boa, mas apenas momentaneamente (e tão somente pelo prazer de ver coisas queimando). Além do cheiro insuportável de cabelo queimado, tanta matéria orgânica sendo queimada abertamente sem restrições há de causar problemas mais adiante, desde nevascas de gordura até contaminação do ar.
E ainda o aumento do aquecimento da atmosfera, que vai fazer subir o nível das águas que por sua vez cobrirão os restos putrefatos de seus colegas e conhecidos, aumentando seus problemas de contaminação de água (mais uma dica: num mundo onde a neve é cinza, não beba água da chuva).
Se você acha que pensamento positivo vai ajudar a manter doenças longe, sugiro que consulte um londrino do século 17 e use palavras-chave como: “miasma”, “bubônica” e “Tâmisa”.
Voltando um pouco para a eletricidade que não mais existe abundantemente.
É possível usar motores de combustão para gerar eletricidade, mas depois que gasolina, álcool e diesel acabarem, quem vai refinar e destilar mais? Melhor ainda, quem vai obter o petróleo ou plantar os inúmeros hectares de cana ou milho necessários?
Por aqui nós usamos basicamente hidrelétricas, que teoricamente têm combustível ilimitado fornecido por barragens, mas e quanto a reparos? Elas não foram feitas para durarem para sempre. Quando uma turbina emperrar, quem vai consertar enquanto outra é encomendada? E quem vai se responsabilizar pela construção da encomenda?
E você faz ideia de onde fica a hidrelétrica mais próxima da sua casa? Eu apostaria a metade do meu salário em “não” e a outra metade em “muito, muito longe”.
E mesmo que a usina esteja em perfeito estado, ainda não é tão simples. E as subestações? E as linhas de alta-tensão? Um único poste caído em milhares de quilômetros ou apenas um transformador queimado em alguma dentre centenas de cidades é só o que basta para que a energia permaneça faltando.
O mesmo problema de manutenção é valido para painéis solares e turbinas eólicas, com o aditivo de que esses métodos geram pouquíssima eletricidade.
E se você mora perto de uma usina nuclear que ficou abandonada por muito tempo, eu só lamento. Brilhar no escuro pode lhe trazer certas vantagens imediatas, mas você não vai conseguir aproveitá-las por muito tempo.
“Mas e o conhecimento armazenado? E as bibliotecas?”, eu ouço você perguntando neste momento.
É bem verdade que bibliotecas não são raras, mas boa sorte tentando achar um livro sobre Reparo em Peças Móveis de Turbinas Transdutoras de Núcleo Gerador e melhor sorte ainda tentando aprender e por em prática tirando diretamente de um livro que, sem dúvida, está repleto de jargões e termos técnicos que requerem conhecimento prévio (transdutor: equipamento ou dispositivo que converte um tipo de energia em outro).
O mesmo é válido para os problemas médicos. Quantos livros você acha que existem com a receita para morfina? Se você já tentou instalar um ventilador de teto mesmo lendo instruções detalhadíssimas, sabe o quão difícil seria realizar uma cirurgia de hérnia de disco em outrem.
Ademais, certamente alguém já terá chegado lá antes de você e a biblioteca à sua frente será agora pouco mais que um enorme reservatório de lenha para fogueira (livros queimam supreendentemente bem).
E você sabe que isso é mais que provável. A maioria das pessoas são terrivelmente péssimas em planejar suas necessidades futuras (e surrealmente proficientes em queimar coisas, especialmente livros).
Em resumo, alcançar novamente o nível de sofisticação que temos hoje em dia levará consideravelmente mais tempo do que o necessário para se chegar a ele da primeira vez, pois onde antes tínhamos “engenheiros”, hoje temos engenheiros: florestais, atuariais, de incêndio e combate ao pânico, biomédicos, eletricistas, têxteis, de materiais, hidráulicos e mais umas mil especializações com “engenheiro” no começo.
Onde antes haviam “médicos”, hoje há ortopedistas, traumatologistas, otorrinolaringologistas, reumatologisas, oncologistas, nefrologistas e mais duas mil especializações derivadas da Medicina.
Ferreiros viraram apertadores de botões; Sapateiros viraram encaixotadores; Tecelões viraram vendedores; Cientistas viraram Químicos que viraram misturadores, ou Físicos que viraram digitadores, ou Biólogos que viraram cozinheiros.
Minha avó sabia plantar milho para alimentar galinhas que seriam posteriormente depenadas por ela para serem cozidas e postas à mesa junto com queijo feito por ela a partir de leite tirado também por ela de uma vaca alimentada com grãos que ela plantou, e que iriam somar ao jantar para alimentar a família da minha mãe, que por sua vez sabe escolher, no supermercado com o melhor preço, um frango congelado e os ingredientes mais frescos que irão para a panela juntos para serem cozinhados e transformados em um delicioso almoço para me alimentar.
Eu sei o telefone da pizzaria.
Provavelmente o pai da minha avó sabia curtir o couro das vacas que criava para fazer suas próprias roupas. Eu não sei o número das minhas calças e quem compra minhas camisas é a minha namorada.
Seis ou sete gerações atrás, um ancestral meu talvez usasse um bico de ema modificado para raspar carne dos ossos de um peba.
Ontem eu cortei o dedo tentando separar um pão em dois.
Numa sociedade altamente especializada como a nossa em que fósforos e pão são facilmente obtidos, poucas são as pessoas que sabem, sozinhas, resolver muitos dos problemas que enfrentaríamos num futuro desorganizado.
Não que especialização seja ruim. Não é. Sem ela não teríamos todas essas coisas que irão fazer falta aos seis milhões de brasileiros remanescentes, mas quando o pau cantar, algumas habilidades serão de grande uso. Por exemplo: experiência em primeiros-socorros, caça e pesca, tendências piromaníacas (não me julguem), conhecimentos gerais de botânica, geografia e animais peçonhentos, noções de química, física e aplicações práticas laboratoriais e, em casos extremos, sangue frio para “eliminar” os irremediavelmente feridos num mundo sem centros cirúrgicos ou analgésicos.
Você conhece alguém assim?
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Esta estória completa faz parte da blogagem coletiva da semana de Caça ao Paraquedista do ScienceBlogs Brasil.
Se você estava procurando previsões obscuras para o fim do mundo e veio dar aqui, seja bem-vindo!
Se você gostar de Ciências, aqui é o seu lugar (e não, eu não escrevo tanto assim sempre).

Você será necessário após o fim da civilização?

Esta é a segunda parte de um texto que começou segunda-feira. Caso não tenha ainda lido o começo, clique aqui.

CONTINUAÇÃO

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Já tendo metade do seu dia ocupado no processo de purificação de água, e a comida?
Quantas vezes você precisou caçar ou pescar para sobreviver?
Pescar é uma atividade estonteamente entediante e desprovida de atrativos, mas eu já cacei alguns animais pequenos, mas nunca porque precisava.
É tudo muito bom quando “pegar um peixe” é seguido por “para mostrar pra mãe”, mas a estória é outra quando se depende disso para viver. E a não ser que você more num sítio ou num interior idílico, dificilmente você encontrará fruteiras suficientes para lhe prover alimentação.

Você sabe identificar uma cenoura enquanto ela ainda está plantanda? E um pé de batata? Você sabe plantar batatas? Ou arroz?
Considerando que você aprenda a caçar e a distinguir um pé-de-batata de um mói-de-mato e consiga plantar arroz, agora você precisa de fogo (batata crua é ruim para o estômago e arroz cru péssimo para os dentes).
Você sabe fazer fogo? Isqueiros e fósforos eventualmente vão acabar e manter uma fogueira acesa para sempre é muito dispendioso, pois gasta móveis preciosos queimando-os à toa mesmo quando não é necessário para assar a comida ou destilar água (fica a dica).

Digamos que a sua aldeia consiga se estabelecer perto de um riacho e vocês agora tenham água boa, comida suficiente e abrigo (novamente, casas desocupadas são a melhor solução, mas mesmo que não exista nenhuma por perto, barracos são muito fáceis de se construir). E agora? O que cada um sabe fazer e com o quê cada um pode contribuir?

Olhe ao seu redor: se você está trabalhando enquanto lê isto, quem dessas pessoas na sua imediata vizinhança você gostaria que o acompanhasse? O que eles sabem fazer que você não sabe mas que lhe seria útil e complementar às suas próprias habilidades?
(Se você está sozinho em casa, olhe ao seu redor figurativamente e pense nos seus vizinhos, amigos, conhecidos, etc.)

Quantos Contadores você acha necessário para o seu Novo Mundo? E quantas Secretárias Executivas?
E que Novo Mundo será esse? Apenas uma assembleia de esfarrapados que não tomam banho para poder beber mais água enquanto um solitário desesperado tenta a todo custo fermentar o próprio cuspe numa tentativa vã de produzir vodca? Ou uma comunidade forte e focada com o intuito de reconstruir a civilização humana a partir de praticamente nada? Pois tudo que existe e que nos é precioso no presente não funciona ou nem existe mais no futuro.
Será possível reparar a humanidade com o grupo de pessoas que sobrar?

Estatisticamente, a grande maioria dos sobreviventes será constituída de Advogados, Donas de Casa e Operários em geral. Mas sem leis para estudar, casas para cuidar e máquinas para manobrar, qual uso eles viriam a ter?
Um Físico Teórico (que sobreviveu ao apocalipse por não sair jamais de casa e, tendo conseguido evitar por completo contato com a sociedade por vinte e cinco anos, só ficou sabendo que o mundo entrou em colapso quando seu Stereo Hi-Fi Double Deck parou de funcionar e o telefone da assistência técnica estava mudo) pode ser Ph.D. o que for, será tão ou mais inútil que um Analista de Sistemas.
Especialidade aqui é irrelevante, principalmente se for em alguma ocupação primariamente contemporânea.

Um Engenheiro Mecatrônico saberia montar uma armadilha para animais melhor que um Astrônomo?
Um Pianista talvez saiba trançar palha para fazer cordas melhor que um Guarda de Trânsito, mas talvez não.
Preferiria ter ao meu lado uma Enfermeira a um Cirurgião Plástico.
Um Pedreiro seria muito mais útil que um Engenheiro Civil.
Eu trocaria dois Despachantes, seis Cabelereiros, um Taxista, sete Publicitários e oito Webdesigners por um Padeiro.
Ou trinta e seis mil Homeopatas por um Mecânico (não-diluído). E entre um Chef Francês e um Açogueiro, ficaria com o último.

Essa nova sociedade precisa de pessoas que saibam mexer com coisas que poucos sabem ou que ninguém quer. Todos querem comer, mas ninguém quer se sujar de sangue ou de terra.
Todos querem um teto, mas ninguém quer cavar barro e suar ao lado de fornos de olaria.
Especializações modernas não servem de muita coisa nesse literal fim de mundo.

Você sabe fazer sabão? Melhor ainda, você sabe ao menos quais os ingredientes necessários para se fazer sabão? Conhece alguém que saiba? Talvez um Engenheiro Químico saiba uma fórmula, mas ele seria por demais acostumado a usar produtos processados, prontos para misturar, e não teria muita idéia de onde conseguir matéria-prima.

Você pode muito bem saber fazer um bolo, mas sabe criar vacas, galinhas, plantar trigo, cana-de-açúcar e construir fornos? Sabe tirar leite, fazer manteiga, farinha ou açúcar?

Você faz a mínima ideia de como uma geladeira funciona e quais os seus componentes essenciais?
Sabe extrair sal?
Sabe tirar coco?
Sabe montar uma pilha para uma lanterna? Sabe fazer uma lanterna?
E repelente de mosquitos, sabe alguma coisa sobre?

Pois é, nesse apocalipse por mim previsto, ou você é Renascentista, ou é parasita. E em tempos de dificuldade, os parasitas (sociais) são os primeiros a sofrer.

Mas mesmo as profissões que eu listei como mais úteis, seriam realmente úteis?
A Enfermeira certamente sabe dar pontos, parar sangramentos e dar remédios, mas saberia fabricar um antibiótico ou insulina?
De que me serveria um pedreiro num mundo sem sacos de cimento e fábricas de tijolos?
Será que o padeiro sabe fazer farinha a partir de plantas ou apenas sempre trabalhou com mistura pronta?
E o Mecânico? Sabe construir um motor-gerador com peças avulsas ou sempre trabalhou com computadores na concessionária?
O Açogueiro certamente sabe separar uma picanha de um contra-filé de boi, mas saberia qual o melhor pedaço de um cachorro (ou rato) para se comer? E saberia assar esse pedaço?
(Por favor, notem que não acho que eu, um digitador/blogueiro/músico que come mais que dois atletas me sairia muito bem nessa situação.)

Num planeta sem as conveniências modernas que esperamos encontrar em cada esquina, uma dor de cabeça pode significar o fim de seus dias. Você não pode mais caçar, plantar ou sequer se defender. Nada que uma aspirina não resolva em duas ou três horas, mas e quando elas acabarem?
Lembre-se que o quadro que estou pintando é permanente, não há volta daqui. Quem sabe fabricar aspirina? Você sabe? Se sim, excelente! O único problema agora é achar a matéria-prima. Existem salgueiros perto de onde você está? Você sabe diferenciar um salgueiro de uma jurema? Sabia que aspirinas são derivadas de casca de salgueiro?
A menos que você já esteja dentro da mata certa, sem combustível para o transporte suas chances são nulas.
E se de repente surge uma dor abdominal intensa em alguém? Sem radiografia ou remédios, qual o procedimento?

Para o final dessa mininovela, aguarde até sexta-feira (link para o final)!

Auto-Hemoterapia e a medicina da Idade Média de mãos dadas

Sem ter o que fazer e procurando por pajés e feiticeiros modernos, me deparo com uma tal de Auto-hemoterapia (nome já devidamente adaptado às novas regras gramaticas) e uma rusga entre um médico e um jornalista acerca disso.
A ANIVSA proíbe, o Conselho Federal de Medicina apresentou um parecer sobre o assunto, dizendo que sua prática é potencialmente perigosa e o médico Munir Massud, escalado pelo tal conselho para preparar o documento (posteriormente apreciado, revisado e corrigido pelos 28 conselheiros federais do órgão) passou a ser furiosamente atacado pelo jornalista Walter Medeiros.
Um médico professor e pesquisador prepara um documento, a pedido do CFM, após decisão da ANVISA e um jornalista o ataca como sendo desonesto?
Achando um tanto quanto curioso, fui atrás de mais informações (novamente, era um dia ocioso, sem muito o que fazer).
Em primeiro lugar, auto-hemoterapia não consiste em tratar a si mesmo ouvindo Nx Zero ou Fall Out Boy, pois isso seria auto EMO terapia.
Ou nem isso, apenas auto emossificação, nada que qualquer adolescente hoje em dia já não faça.
Auto-hemoterapia é o ato de retirar sangue de uma veia e injetá-lo em um músculo da mesma pessoa.
O “auto” aí é falacioso, pois quem faz o procedimento é outra pessoa, em geral um médico.
Mas se médicos fazem então é beleza, certo?
Alguns médicos também praticam homeopatia e acupuntura, dois métodos não apenas comprovadamente falsos como também potencialmente perigosos que não trazem qualquer resultado benéfico aos pacientes além do efeito placebo (agulhas podem causar inflamações seríssimas e homeopatia é caro e pode desviar recursos de, e atenção a um tratamento realmente eficaz).
Zero eficácia e possibilidade de complicações? Passo.
Médicos são pessoas e como tal estão sujeitas a sugestões e preconceitos e uma das maiores forças naturais que existe é a Preguiça.
É tão mais fácil receber um dado e deixar por isso mesmo. Procurar corroboração adequada e confiável é muito mais difícil que simplesmente acreditar.
(E existem ainda os charlatões sem caráter que lesão propositalmente e que, como agravante, inventam estórias mirabolantes para justificar seus métodos sórdidos de infligir dor em outrem, como um tal de Francisco Rodrigues, que admitiu descaradamente em um periódico natalense (Diário de Natal) que tratava doentes mentais com passes (prática supersticiosa que envolve “espíritos” tomando os corpos dos vivos) e que, pasmem, pois eu estou 100% indignado, criou a disciplina opcional Medicina e Espiritualidade na UFRN.)
Auto-hemoterapia (que daqui para frente será referida por AHT para evitar repetição) não possui efeitos adversos comprovadamente atrelados a ela (o que não é o mesmo que dizer que ela está livre de efeitos colaterais indesejados, mas apenas que estes ainda não foram conectados sem sobra de dúvida à terapia) por simples falta de observações controladas.
Isso é o que a literatura me diz, mas eu digo um efeito adverso agora: dor.
Para qualquer tratamento que não traga benefício, o menor desconforto já é um malefício por demais grande.
É como um tapa na cara; por menor que o dano causado seja, a plena falta de benefícios torna o menor indício de dor algo insuportável.
E essa tal de AHT serve para o quê?
Segundo Luiz Moura, proeminente proponente da precitada prática; para tudo (incluindo câncer e HIV)!
Segundo a Ciência Médica, para nada!
Entre centenas de anos de melhoria, milhares de estudos e milhões de profissionais pesquisadores e um indivíduo, aposto sempre no primeiro grupo.
Quer revolucionar a medicina? Prove.
Apresente um projeto de pesquisa de uma condição específica (não pode ser tudo ao mesmo tempo) a uma comissão de ética, mendigue dinheiro de uma universidade e siga o método científico com a metodologia adequada.
Todo pesquisador faz isso (principalmente a parte da mendicância), por que alguns se acham perseguidos e merecedores de tratamento diferenciado?
Descobriu o moto-perpétuo da Medicina e acha que não precisa provar a ninguém?
Popper discorda de você.
Se acha o novo Newton e acha que é mais sabido que toda a comunidade médica?
Occam está de olho (e ele anda armado).
Voltando à confusão que me chamou atenção.
A maior parte das críticas (uma busca no Google por “Munir Massud” mostra vários resultados, podem ir atrás) são simples ataques à pessoa do médico.
Nenhum comentário que li, tanto do seu arquirrival Walter Medeiros (jornalista E poeta!) quanto de outros colegas seus são críticas ao documento, mas ao sujeito que primeiro o escreveu.
Eles não conseguem sequer citar trabalhos razoáveis que cubram seus argumentos, apenas estiram a língua e chamam de bobo.
Na minha terra, o nome disso é meninice. Na terra dos mais instruídos, chama-se ad hominem.
Não consegue discutir no mesmo nível intelectual? Seus argumentos não passam de xingamentos e tentativas de desacreditar o oponente?
Parabéns, você é um falacioso!
Há até um que o acusa de “criminoso” por ele assinar o documento como Professor Doutor Munir Massud.
Oxente, acusar Munir Massud de criminoso porque ele assina um texto como “professor doutor” é de uma cretinice esférica.
Em primeiro lugar, é tradicional se referir a médicos (e a advogados) por “doutor”.
Isso é um sinal de respeito pela dignidade da profissão e uma formalidade tradicional.
Médicos são doutores em Medicina, não necessariamente doutores acadêmicos. Contestar o fato tradicional (eis a palavra novamente) de que “médico” pode ser substituído por “doutor” é simplesmente desonestidade intelectual, visando somente ofender a honra e sujar o nome de Munir.
A não ser que o sujeito tenha sido criado numa caverna por um louco, ele sabe o que “doutor” nesse contexto significa.
(E sim, quando eu digo “cretino” estou me referindo à patologia de retardo mental.
Quem escreveu aquele texto tem duas opções: ser extremamente idiota (novamente, outra forma de retardo) ou ser irremediavelmente sem caráter. Escolha.)
Em segundo lugar, ele dá aulas numa universidade, logo pode se denominar “professor”.
E a premissa inicial ainda é falsa! Massud não foi o único responsável pelo documento.
Ele não fez uma apresentação .pps e saiu espalhando pelos emails de seus conhecidos. Ele procurou informações sérias (MedLine, EndNote) e teve seu artigo revisado e corrigido por um painel de 28 pessoas.
Houve ainda outro teorista da conspiração que sugeriu que a AHT não é aceita pela comunidade médica por ser uma terapia barata.
Beber água, caminhar meia hora por dia e dormir bem são atividades proibitivamente caras, por isso que são tão recomendadas por qualquer médico. Né?
Lavar as mãos antes de comer então, aff! Os olhos da cara!
Meus xingamentos não constituem ad hominens pois são baseados em evidências empíricas. É perfeitamente possível argumentar com alguém de igual para igual e continuar a chamá-lo de “feio” se ele assim o for.
Ou mesmo que não seja, argumentos sólidos podem ser construídos e temperados com esculachos. Por exemplo: “Você está errado porque está usando estudos com metodologia dúbia que não foram propriamente cegados e randomizados e que não contêm o menor valor científico, seu imbecil!”
A propósito, muito do que é dito por aí é fruto exatamente daquilo: estudos porcamente mal feitos, sem controles, não-cegos, não-randomizados, não-revisado por pares, não-replicados e divulgados em publicações sem critério.
Ou, pior ainda, divulgado em meios de mídia ANTES de passarem pelo crivo de pessoas que realmente sabem do que dizem.
Foi o que fez Luiz Moura, que distorceu estudos de um médico chamado Jesse Teixeira (já consideravelmente mal estruturados por terem sido idealizados antes de exigências metodológicas confiáveis) que se referiam a tratamentos de pós-operatórios.
Luiz Moura pegou a conclusão de Jesse e a esticou, sacudiu, dobrou, enrolou e distorceu até chegar a uma conclusão própria: AHT é a cura de todos os males!
URRÚ!!
Se você pegar um bolo solado e queimado feito de laranja azeda com farinha mofada e bater no liquidificador, temperar com alho e coentro, deixar no freezer por doze horas e reaquecer no micro-ondas e tentar comer, perceberá rapidamente que manipular algo que já começou ruim vai apenas incrementar a ruindade.
Ciência é como culinária nesse aspecto, mas várias ordens de magnitude maior.
Mexer em algo que desde o começo já está fora do escopo científico só tende a aumentar ainda mais a distância entre aquilo e o que é cientificamente aceitável.
E já que mencionei algumas falácias, aqui vem outra: alguns defensores da AHT afirmam que ela é boa por ser antiga (talvez não com essas palavras, estou interpretando um pouco), pois baseiam sua eficácia nas observações dos trabalhos do Dr. Teixeira. Se for um Apelo a Antiguidade, é um muito do reiêra, pois tem nem 80 anos direito. Velho o suficiente para ser ultrapassado, mas não o bastante para ser ‘antiguidade’. Igual a um Chevette.
E em medicina, quanto mais antigo o tratamento, menos crédito merece (a não ser que continue se mostrando bom ao longo dos anos).

ATUALIZAÇÃO: hoje, primeiro de novembro, venho adicionar dizendo que meus comentaristas crentes (veja abaixo) demonstram que minha interpretação acima é confiável. Acreditam na terapia somente por ela ser antiga.

Mais uma vez, a ANVISA proibiu a prática da AHT e pediu ao Conselho Federal de Medicina que elaborasse um parecer com base científica.
Hoje em dia não apenas Vigilância Sanitária e o CFM proibem essa prática como também o fazem os Conselhos Federais de Enfermagem e Farmácia.
A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (notem a falta do “auto” no nome) apresentou o seguinte comunicado:

“A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia- SBHH, frente a inúmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais médicos como não médicos, relacionados à suposta prática hemoterápica denominada “auto-hemoterapia”, vem a público esclarecer o que se segue:
• A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia NÃO RECONHECE do ponto de vista científico o procedimento “auto-hemoterapia”;
• Não existe na literatura médica, tanto nacional quanto internacional, qualquer estudo com evidências científicas sobre o referido tema;
• Por não existirem informações científicas sobre o referido procedimento, são desconhecidos os possíveis efeitos colaterais e complicações desta prática, podendo colocar em risco a saúde dos pacientes a ela submetidos;
• Agrega-se a este parecer, a Resolução do Conselho Federal de Medicina- Resolução CFM no 1.499/98, que em seu artigo 1º, “Proíbe aos médicos a utilização de práticas terapêuticas não reconhecidas pela comunidade científica”.
Frente ao exposto, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia não recomenda a prática desse procedimento.
O comunicado é assinado pelo Presidente da SBHH, Dr. Carlos Chiattone”

Buraco cavado, caixão lacrado, cal por cima.
Dúvidas, sugestões ou esculhambações, me procurem. Meu email está por aqui em algum lugar.
Eu procurei o jornalista Walter Medeiros para comentar o caso, mas ele se mostrou envergonhado e não quis gravar entrevista (mentira, apenas sempre quis dizer isso e, como agora posso oficialmente ser tão jornalista quanto ele, posso dizer esse tipo de coisa também).
O Dr. Munir, no entanto, estava disponível e me ajudou com material (verdade, mas não confiem em mim, pois eu minto tanto quanto vocês).

Agora o mundo acaba!

O mundo acabou. E agora?
Inspirado em parte por esse comentário, movido pela necessidade de criar meu próprio pânico em massa (todo mundo está fazendo, quero ser popular) e tendo estudado bastante psicohistória, cheguei à inevitável conclusão de que os sobreviventes morrerão à míngua.

(Não precisando explicar, pois é óbvio, mas explicando de todo jeito, claramente me refiro aos sobreviventes da peste maligna submissão ao Mulo colisão com o planeta Nibiru explosão de um supervulcão Skynet SkyLab ameaça extraterrestre síndrome respiratória aguda grave previsão do calendário maia 2012 frota Vogon queda de um asteróide vingança de Cthulhu epidemia zumbi gripe espanhola do frango suína.)

Quando 80% da população mundial estiver devidamente morta em decorrência da inevitável letalidade desta nova pandemia pandemônica panterritorial, os que sobrarem vão penar.
Nos primeiros dias, após o Estado de Sítio cessar por falta de quem o preserve, não teremos mais energia elétrica corrente e abundante.
Afinal, quem estaria cuidando das instalações das nossas hidreléticas, garantindo seu correto funcionamento?

Daqueles vinte por cento restantes, outros sete décimos pereceriam devido ao choque causado pela falta de TV, condicionadores de ar e enfeites natalinos luminosos.

Mais alguns certamente seriam pegos de surpresa ao notar que a Internet não mais existe num mundo sem linhas telefônicas, mesmo com energia suficiente para algumas horas de navegação ainda armazenadas em seus celulares e dispositivos similares da moda.
Poucos morreriam aqui, pois a inanição – resultante da inação causada pela incrível concentração com que certas pessoas fitam o monitor até o momento em que seus computadores façam o que se é esperado deles – que acompanha o tranco de se ver sem conexão vem ao decorrer de alguns dias. Baterias duram apenas poucas horas.

Tendo a produção de energia cessado, bombas de combustíveis não mais funcionariam, causando mais algumas mortes por excesso de exercício físico em alguns indivíduos (já severamente fragilizados pela falta de televisores) durante a árdua e extenuante tentativa de caminhar (a pé! Que disparate!) cem metros até a esquina para comprar pão.
E mesmo que você ainda consiga salvar muita gasolina das fogueiras de veículos abandonados, seria impraticável dirigir em ruas apinhadas de corpos (sim, pois os responsáveis pela coleta de cadáveres estão também mortos, talvez até contribuindo pessoalmente para o mórbido empilhamento das ruas).

Em seguida, o fornecimento de água também deixaria de existir para aqueles que moram acima do nível de rios e lagoas de abastecimento. Ou seja; todos.
Água não fica mais dominantemente em caixas comunitárias como antigamente, pois isso é pouco prático.
Em cidades com milhões de habitantes, os reservatórios teriam que ser tão grandes que a estrutura física requerida para mantê-los acima de todos os prédios teria um custo proibitivo. Bem mais fácil, prático e barato usar bombas que forçam água ladeira acima, diretamente das estações de tratamentos (ou similares).

Milhares de mortes mais aqui nesta etapa, pois se até a esquina já era um esforço tremendo, que dirá até um rio ou lagoa em um bairro circunvizinho.
Notem que a praga já eliminou 95% da população planetária (80% diretamente + 15% indiretamente).
Mas claro, isso é apenas um cálculo aproximado. O número de vítimas diretas é apenas inferido (tendendo para menos) e o de indiretas está sendo grosseiramente subestimado (por exemplo: muitas cabeças explodirão pela pressão causada pelo acúmulo de idiotices a qual era dado vazão adequada via telefone e Internet. Apresentadores de telejornais matutinos serão particularmente propícios a esse tipo de acidente).
Até o momento, a população, antes em sete bilhões, já baixou para trezentos e cinquenta milhões e continua caindo pela simples falta de conveniência e conforto modernos que eletricidade nos traz (obrigado Tesla!), queda que é tanto mais intensa quanto mais avançada for a sociedade em foco.

Nesse ponto, os Txucarramães, os Zulus e os Amish perderão apenas 80% de seus participantes (mortes diretamente relacionadas ao evento catastrófico) enquanto EUA e Coréia do Sul já não mais existirão (mortes indiretas, por falta de privilégios eletrônicos).
Um situação Senhor das Moscas se instauraria. Quem iria comandar as coisas agora que não existe mais governo?
(Não posso falar por outros países, mas aqui no Brasil eu acho que essa tragédia seria a gota d’água – por assim dizer – para qualquer sobrevivente que visse um Senador da República degustando uma Evian ou uma Fuji impunemente.)

Sem governo, até que me provem o contrário (e duvido que consigam pelos exemplos que já abundam), é cada um por si/lei da selva/sobrevivência do mais apto a desviar de balas.
Com a cooperação, que nos é imposta por leis, já devidamente morta, estraçalhada e enterrada num canto úmido de um terreno abandonado e cheio de mato, os mais preparados passariam a defender seus territórios e, eventualmente, a desbravar e conquistar novos espaços para continuar sobrevivendo.

Não gosta da sua casa? Vá para a do vizinho. Há 1 chance em 1,05 de que ela esteja vazia pois seus antigos ocupantes estão mortos.
Uma área que contenha um supermercado valerá infinitamente mais que uma contendo vários bancos, pois dinheiro já não vale mais um centavo.
Um frigorífico só terá valor nas primeiras semanas, mas salsichinhas aperitivo, biscoitos recheados e salgadinhos crocantes de milho serão prezados por meses ou até anos (décadas, no caso dos salgadinhos).

Mesmo aqui, um país sem lojas de armas, lutas ferozes e sangrentas irromperão, pois quem tem tiver a maior ripa com mais pregos na ponta será constantemente desafiado pela posse do cacete, enquanto insistentemente combaterá outros mais fracos por território.
Não havendo água corrente nas torneiras das casas (e 10 entre 10 pessoas se recusando a beber água das privadas, mesmo sendo perfeitamente potável), galões e garrafas de água mineral rapidamente virarão prêmios a se ter a qualquer custo. Depois disso virão os refrigerantes e as tubaínas. Por fim, em casos de desespero (do tipo que leva pessoas ao canibalismo e urinofagia), as cervejas sem álcool e Schin Cola.
Bebidas alcoólicas serão as primeiras a desaparecer, antes mesmo das caixas d’água secarem.
Considerando, no entanto, que os sobreviventes sejam gente boa e gostem de companhia, haverão aqueles que se agruparão e formarão pequenas colônias longe dos territórios dos Supremos Mestres dos Arrabaldes do Carrefour.

Então, a melhor opção é voltar ao mato, você e sua recém-formada “tchurminha”.
Depois de um tempo, apenas água natural restará, naqueles rios e lagoas aludidos anteriormente.
Mas a água é segura para o consumo? Ela não passa antes por estações de tratamento?
Como saber se ela pode ser bebida? Esperar alguém testar antes é pouco prático, pois doenças aquáticas podem levar até semanas para se desenvolver e causar óbito e esse tempo é mais que suficiente para levar alguém a morrer de sede.
Sem métodos eficientes para teste, só resta purificar antes de beber.
Você já purificou água alguma vez na vida? Sabe como proceder para obter um líquido seguro para consumo?
Se a sua resposta é “sim”, eu queria apenas frisar que peneira não é um equipamento adequado, nem muito menos o é uma meia velha.
E ferver lama não lhe garante água potável. É certo que ela agora estaria limpa de micro-organismos, mas sílica, mercúrio, chumbo e ácidos provenientes de decomposição de matéria orgânica ainda são um problema sério para o nosso frágil corpo rosado.

Em caso da resposta ainda não ter mudado, saiba que agora você deverá purificar água em grande escala (doença não se pega só bebendo, pois às vezes contato já é suficiente), todos os dias.

Para sempre.

Este texto continua quarta-feira (eis o link). Não percam!.

Coisas que não sei – suor feminino

Essa aqui eu já pesquisei e até já publiquei uma estorinha mas nunca consegui uma explicação que me satisfizesse: por que, em geral, mulheres suam consideravelmente menos que homens?
Eu entendo o “mecanismo mais eficiente”, mas preciso entender como funciona; o porquê de ser mais eficaz.
De que forma as mulheres regulam calor senão pelos poros?

A luz que nos alumia

O que sabemos do mundo é limitado.
Como um bagre-cego de caverna que evoluiu sem necessitar de olhos, inocentemente esbarrando ns paredes pedregosas da nossa clausura nós evoluímos apenas com uma habilidade primitiva de sentir nossos arredores.
O espectro total do nosso ambiente continuaria escondido de nós como o sol acima da piscina cavernosa do peixe cego não fosse nossa habilidade única de conduzir o ato revolucionário da Ciência.
Com a Ciência nós podemos ver bem mais além dos limites da nossa bolha evolucionária.
Do giro de elétrons às aglomerações de galáxias do jovem universo, a Ciência nos dá um método de tocar, ouvir, ver, sentir e degustar que a natureza sozinha não seria capaz.
E mesmo sendo controverso se nossa mente científica é separada da natureza ou simplesmente uma extensão de como a Natureza faz modificações em ferramentas genéticas usadas para observar as coisas, potencialmente trazendo à tona o argumento sobre se a vida é realmente natural quando comparada com a letalidade do resto do Universo, resultando, em princípio, em algo totalmente não-natural qualquer coisa que uma forma de vida faça.
Preparem-se para deixar a segurança evolucionária de suas bolhas protetoras e, como um cego porém curioso bagre de caverna, sair da água, indo audaciosamente até onde nenhum peixe jamais esteve.
Não use, porém, a Ciência como bengala. Use-a como olhos, mãos, ouvidos, narizes e línguas adicionais.
Mas, se mesmo assim você se perder, não entre em pânico!
Estamos aqui para ajudar.
———
Texto original por Justin Jackson, traduzido e adaptado por Igor Santos, com permissão presumida.

Gripe suína, MSN e spam

E não acabam as maneiras inovadoras de espalhamento de pânico e terror.
A mais nova (recebi sexta-feira passada) é um email que aparentemente é uma conversa de MSN, colada e repassada para “o bem da humanidade”.
Alguém que, aparenta ser médico, conversa com uma amiga que gentilmente pede permissão (esse pedaço de informação inútil e autosserviente pseudo-humilde está também incluído na mensagem) para enviar o conteúdo do diálogo para avisar todo o mundo que a gripe suína vai comer o seu fígado.
O melhor de tudo é que eu recebi esse spam por engano.
Existe uma geóloga arquiteta (valeu Sara) que trabalha na UFRN com um outro Igor Santos e que acha que o email dele é igual ao meu.
Eu já avisei várias vezes mas ela parece não se importar e continua mandando.
Dessa vez, mandou essa mensagem para mil outras pessoas (expondo todos os endereços para potenciais spammeiros de plantão) e eu pude responder diretamente, via email, para todos.
E a resposta está, neste momento, virando artigo de blogue.
Eis:

Cecilia, você conhece esse “deco” ou essa “Lilis”?
Porque isso tem cara de ser email falso.
Por exemplo, semana passada o México registrou mais de mil casos novos da gripe (http://indexet.investimentosenoticias.com.br/arquivo/2009/08/04/165/VIRUS-A-H1N1-Mexico-tem-mais-de-1-mil-novos-casos-da-doenca.html) e nesse texto tem dizendo que eles acabaram por lá tomando medidas drásticas e que o vírus tem níveis, o que não é verdade e qualquer médico saberia disso.
Outra, aí diz que a única solução é diagnosticar antes do vírus atingir o pulmão. Um médico jamais diria isso porque não faz sentido. O vírus está no sangue e, levando o coração 1 minuto para bombear todo o sangue do corpo uma vez, sessenta segundo após a infecção o vírus já estaria por todo o corpo.
O médico citado é um cirurgião cardiovascular (segundo o Google, para “Marcelo Tizzot Miguel”, visto que “marclo” não existe) e dificilmente seria o primeiro a diagnosticar um caso de gripe.
E em qual segunda-feira Curitiba vai ser posta em Estado de Calamidade Pública? Porque antes deveria passar pelo estágio de Estado de Emergência, segundo avaliação da Defesa Civil (http://www.defesacivil.gov.br/situacao/index.asp).
E numa busca rápida eu achei cópias desse email de três semanas atrás. Novamente, qual segunda-feira?
A UNIMED já desmentiu essa parte em seu site (http://www.unimed.com.br/pct/index.jsp?cd_canal=49146&cd_secao=49125&cd_materia=289426) e, de acordo com o jornal GP1 (http://www.gp1.com.br/noticias/gripe-comum-matou-17-por-dia-em-sp-em-2008-91900.asp): “A gripe comum foi responsável por 17 mortes por dia em São Paulo no ano passado. Ao todo, 6.324 pessoas morreram na cidade em 2008 devido a males provocados pela gripe, como pneumonias, bronquites e outras doenças pulmonares.”
Mais de seis mil pessoas mortas em São Paulo e mais de setenta mil mortas no país só ano passado por causa da gripe comum e nem Estado de Emergência foi necessário
Até o dia de hoje, no mundo todo, a gripe suína matou mil quatrocentas e sessenta e duas pessoas (http://news.xinhuanet.com/english/2009-08/14/content_11882170.htm), quatro vezes menos pessoas que só na cidade de São Paulo de gripe comum ano passado.
Já se passaram quase seis meses, então extrapolando, deverão morrer, no mundo todo de complicações da gripe suína, metade da pessoas que morreram de gripe comum em uma só cidade brasileira.
Emails que espalham o pânico fazem mais mal que bem, pois dão a sensação de impotência, deixando as pessoas catatônicas e as impedindo de agir, pois “tudo já está perdido e sem remédio”.

Mais sobre o caso, leia no blogue do Atila.

Outros spams destruídos:
Alpiste não cura diabetes nem nenhuma outra coisa;
Como reconhecer um spam;
Motivos para não incluí-los em meus textos;
Spam da Doença de Chagas em feijão;
Spam dos batons com chumbo;
Spam do camarão e da vitamina C;
A falsa cura do câncer desmentida mais rapidamente que eu já vi;
Spam dos absorvente internos que causam câncer;
Spam do benzeno em condicionadores de ar de automóveis.

Absorventes internos NÃO causam câncer

Nos bastidores do SBBr surgiu uma discussão certa vez de que falta algo para as mulheres, algo como no Papo de Homem. Um sítio para mulheres, com todo tipo de assunto interessante a elas mais ciência.
Essa necessidade se mostrou imensa semana passada, quando recebo (novamente nos bastidores, vindo da ClauChow) um email afirmando que absorventes internos causam câncer (ô palavra doce!).
Minha colega recebeu a mensagem, mas como é acostumada a pensar, não acreditou nela.
Mas quantas outras mulheres receberam o mesmo texto e simplesmente o tomaram como verdade?
Não necessariamente por estupidez (apesar de haver sim mulheres extremamente tapadas), mas mais por preguiça, acomodação e a tendência natural humana para acreditar sem criticar no que os outros dizem.
A quantidade de blogs onde encontrei a mesma estória, simplesmente regurgitada sem o mínimo de raciocínio crítico é impressionante, especialmente quando uma busca rápida por “absorvente” e “amianto” acha, logo no primeiro link, um artigo cético sobre o assunto.
Esses emails chocantes de “o que você não sabe pode lhe matar” sempre contém pequenas dicas de que são falsos ou deliberadamente escritos para causar pânico.
A melhor de todas são os nomes contidos: sempre que um nome é citado, esse nome pode ser investigado e, hoje em dia, basta um email ou alguns poucos minutos no Google para achar esclarecimentos.
(Normalmente, quando um dos citados é um hospital, ainda é mais fácil, pois não há coisa nova sob o céu e as instituições muito provavelmente não só já receberam vários pedidos de confirmação como geralmente já deixam no FAQ de seus sítios um destrinchamento das mensagens.)
Mas a grande maioria vai apenas dizer: “segundo um médico muito sabido, morrer é perigoso” sem jamais citar nomes ou locais ou dar qualquer outra informação passível de contestação, ou o nome de algum incauto que se prestou a passar adiante e deixou involuntariamente sua assinatura no corpo do texto, como que o validando (nem devia ter repassado, né? Em boca fechada não entra mosca).
Um email com muitas interrogações (perguntas retóricas do tipo: “sabia que você pode morrer?”), muitas palavras maiusculizadas (como em: “100% DAS PESSOAS MORREM UMA HORA OU OUTRA”), insistentes pedidos para ser repassado (como nas cartas-correntes dos anos 80: “envie para cinco outras pessoas ou morra um dia”) e apelos emocionais (“enviem para suas mães e avós pois elas merecem saber disso, não sejam ingratos!”) são marcas indeléveis de pilantragem internética.
Falta de consistência interna também, como no caso da mensagem sendo tratada aqui, que eu certo ponto pede para que se leia o rótulo dos produtos com atenção e em seguida faz uma pergunta retórica me dizendo que há amianto em sua composição.
Mentira.
Neste exato momento, tenho uma caixa de absorvente interno ao meu lado onde lê-se: 50% algodão, 50% rayon.
Se, mais para frente, o email pede para que eu não acredite no que está escrito, porque então me pede para ler com atenção o rótulo?
(Amianto é uma causa conhecida de câncer, principalmente pulmonar, mas como absorventes não contém amianto, não podem causar câncer pelo motivo do email.)
Novamente, mais uma pergunta já respondida, me dizendo que rayon faz mal e recomendando que eu só use absorventes que não o contenham.
Em primeiro lugar, rayon não faz mal (segundo o FDA, órgão estadunidense de controle de produtos onde incluem-se absorventes íntimos) e, em segundo, ainda mais importante que o primeiro: sem rayon, absorventes seriam poucos mais que toalhas.
Já viu como um pequeno rolo de algodão é eficiente em reter líquidos? Eu já, e não é nem um pouco (a imagem mental de sangue pingando fica por conta da casa, disponham).
E rayon é um derivado de madeira, feito de celulose (papel também). O que poderia até ser tóxico é um tal de “dióxido” ou “dioxina”, referidos no texto.
A palavra “dióxido” sozinha não faz sentido do mesmo jeito que “caldo” também não.
Você toma caldo de alguma coisa. Dióxido tem sempre que ser de alguma coisa também (dióxido de enxofre, de sódio, de carbono, etc). Outra falha de consistência.
Os níveis de dióxido de cloro presentes em amostras de absorventes (novamente, medidos pelo FDA) variam entre não-detectável e uma parte em um trilhão.
Uma parte em um milhão equivale ao peso de uma moeda de cinco centavos comparado ao de uma camionete cabine dupla.
1 bilhão são 1000 vezes 1 milhão. Uma parte em um bilhão é o peso de uma moeda de cinco centavos comparado ao peso de mil camionetes.
1 trilhão é 1000 vezes 1 bilhão. Uma parte em um trilhão é o peso de uma moeda de cinco centavos comparad ao peso total de toda a frota de veículos do estado do Rio Grande do Norte multiplicada por três (se todos os carros fossem camionetes Dodge RAM cabine dupla).
Não sei vocês, mas eu acho muito pouco.
Outra dica importante: propaganda. Eventualmente um spam vai alcançar um momento onde “indica” amigavelmente uma certa marca em detrimento de outras.
Cospe em um produto e diz que um concorrente é melhor.
Agora, o indício mais latejante de que tudo ali escrito não passa de delírios de algum teorista conspiratório ou da desesperada necessidade de atenção de algum garotinho solitário em busca de amigos virtuais invisíveis é a presença da famosa tática de pôr em dúvida as intenções de uma corporação.
Afirmações do tipo: “veja só, eles só querem ganhar dinheiro” são, além de óbvias (ninguém vende um produto para desganhar dinheiro), completamente maliciosas.
Um equivalente seria eu dizer: “seu cachorro não só baba como também nunca lhe ajuda nas suas tarefas domésticas”. A frase faz sentido por ser latentemente óbvia mas é absolutamente desnecessária pois apenas soa como uma tentativa de fazer com que você veja seu cachorro como um obstáculo em sua vida.
Qual motivo uma empresa teria para tentar matar você? Mesmo uma empresa bélica não quer que o cliente morra, pois isso contaria como -1 cliente. E, sempre lembrando, eles querem dinheiro.
Quanto mais gente comprar, mais dinheiro eles ganham. Quanto mais gente viva gostar e continuar usando e recomendando, mais dinheiro eles ganham.
E dizer que existem padrões distintos de qualidade entre sedes estrangeiras da mesma empresa é ridículo.
Por serem, majoritariamente, empresas multinacionais, essas companhias exigem um padrão de qualidade mínimo.
Essa é a maior segurança que existe no mercado. Não tem fiscalização governamental nem reclamações de consumidores que se iguale em poder a uma determinação do dono.
A fábrica da Tampax na Ucrânia (leiam o rótulo) não está em conforme com os quesitos de qualidade da Procter & Gamble Int.? Fecha! Simples assim.
É muito mais rentável a longo prazo (e empresa que sabe andar só pensa “a longo prazo” senão dança) fechar dezenas de fábricas por falta de consistência do que pagar eventuais multas estatais e milhões em indenizações pessoais.
E nem precisa fechar, basta recolher o que está errado e voltar a fabricar que preste.
Um problema realmente sério levantado pelo email é Síndrome do Choque Tóxico que pode ser sim causado pelo uso de absorventes internos, mas, que fique bem claro, em 1997 apenas cinco casos dessa síndrome foram confirmados (novamente, minha fonte é o FDA).
Isso é um negócio raro cuja ocorrência independe do uso de absorventes (homens e crianças também podem sofrer disso) porque agentes que eram melhores relacionados com a síndrome foram totalmente retirados do processo de fabricação.
Ou seja, se você tiver Síndrome do Choque Tóxico, eu apostaria que não foi por causa de um absorvente.
Finalizando (porque faz mais de dez dias que eu escrevo): absorventes íntimos são seguros porque são controlados pelos consumidores, fornecedores, fabricantes, governos e concorrência.
Se fizessem mal, teriam sido extintos.

Mais spams destruídos:
Alpiste não cura diabetes nem nenhuma outra coisa;
Como reconhecer um spam;
Motivos para não incluí-los em meus textos;
Spam da Doença de Chagas em feijão;
Spam sazonal da gripe suína;
Spam dos batons com chumbo;
Spam do camarão e da vitamina C;
A falsa cura do câncer desmentida mais rapidamente que eu já vi;
Spam do benzeno em condicionadores de ar de automóveis.

Coisas que não sei – espinhas

Esta deve ser a mais rápida de todas: qualé a das espinhas?
Qual (se algum) é o benefício em ter a face banhada em sebo durante um momento crucial em nossas vidas, então sociais?
Sem dúvida (na minha cabeça, mas isso pode ser mudado) elas estão relacionadas a hormônios (e tubos, como a Internet), mas por que?
Teria o óleo que nos escorre da cara quando estamos amadurecendo sexualmente um aroma agradável aos antigos receptores olfativos dos nossos predecessores?
Essa dúvida (e a possível resposta acima) me veio durante uma conversa sobre ciclo menstrual e o aparecimento inevitável de espinhas durante o mais vermelho dos dias.
Mas desconsiderando tudo isso para que não se influenciem (tarde demais, eu sei), qualé a das espinhas? Por quê durante a adolescência? E por que a já derrubada relação causal chocolate/espinha não funciona comIgor (é batata! Comi, espinhei)?
Por favor, meus ObiWans, vocês são a minha única esperança!

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