Quem disse que animais não gostam de fogos de artifício?

Numa matéria (porcamente mal escrita, preciso avisar) publicada em 8 deste, o jornal sorocabano Cruzeiro do Sul informa do banimento (nem tanto, é apenas uma notícia já velha, retificando uma notícia errada do dia anterior, de que a prefeitura local deixou oficialmente de se valer) de fogos de artifício alegando o bem-estar dos animais.

Em setembro do ano passado, o portal G1 publicou algo semelhante mas mais especificamente voltado para a proibição, em municípios do Tocantins, durante a campanha eleitoral devido ao risco de incêndios. No entanto, a matéria também cita desconforto em animais.

Foto por: Andy Wilkes

Foto por: Andy Wilkes

Mas ser√° que os fogos de artif√≠cio (roj√Ķes, foguetes, bombas, traques, bichas, buj√Ķes, peidos-de-v√©a e demais variantes regionais) realmente, causam desconforto em animais? Ou, como alega o Cruzeiro do Sul (sic): “[A]ssustam as aves e outros animais que mudam o comportamento, alterando a rotina”?

Ser√° que os animais se importam tanto assim? Quer dizer, alguns deles at√© se importem, mas o que eu noto durante a √©poca junina (que vai do Dia de Santo Ant√īnio at√© o Dia de S√£o Pedro e n√£o sei se isso se aplica a outras regi√Ķes n√£o-nordestinas) √© que a queima indiscriminada e desnecess√°ria de imensos volumes de madeira por indiv√≠duos despreparados para lidar com poss√≠veis consequ√™ncias √© uma pr√°tica comum, conhecida e incentivada (sem falar nada da “brincadeira” infantil de pular a fogueira j√° perto do fim da festa, quando todos os adultos j√° est√£o devidamente quent√£ozados e ainda menos capazes de intervir e/ou socorrer) e que continua firme e forte, sendo levada adiante gera√ß√£o ap√≥s gera√ß√£o pela mesma subesp√©cie de animais cuja rotina √© justamente a de criar um ambiente sujo tanto auditiva quanto atmosfericamente (visto que n√£o adquiriram evolutivamente[1] capacidade cognitiva adequada para identificar quando est√£o incomodando) e cujo comportamento subumano continua inalterado h√° mil√™nios. Pois n√£o h√° nada melhor que uma celebra√ß√£o europeia pag√£ (a chegada do ver√£o, representada pelo solst√≠cio), refor√ßada pelo uso de dispositivos orientais para o afastamento de maus esp√≠ritos (fogos barulhentos e coloridos) e abastecida por rituais ind√≠genas pr√©-colombianos (o alto consumo de milho, representando a fartura do nosso solst√≠cio de inverno), para reacender a paix√£o dos cat√≥licos pelas fogueiras e manter queimando a certeza prepotente de que o que eles fazem √© sagrado e blindado a cr√≠ticas ou reclama√ß√Ķes.

Pessoas que enchem a boca e estufam o peito ao declarar que o Brasil é o maior país católico do mundo[2] são as mesmas que estão agora segurando a calcinha/cueca nos dentes de ódio de mim (e seriamente pensando num bom uso para as fogueiras acima mencionadas). Ora, se ateus deveriam trabalhar no natal (ou hoje, que por algum motivo que me escapa foi feriado para mim e para toda a Justiça do RN), então por que católicos quereriam negar a origem 100% católica desse espetáculo medieval de adoração à destruição primitiva, irracional e inconsequente que tem seu maior palco precisamente nas áreas mais atrasadas (socialmente) do país mais atrasado (culturalmente)? Aliás; qual outra razão existiria para justificar tal comportamento? Ao que tudo indica, o homo erectus foi extinto ainda no médio paleolítico!

Foto de fonte duvidosa

Foto de fonte duvidosa

Uma coisa, por√©m, n√£o posso negar: admiro grandemente essa conflu√™ncia multicultural de religi√Ķes naturais e sobrenaturais europeias com pitadas do misticismo oriental e rituais incas/maias. Se ao menos tivessem tido tempo para evoluir um pouco essa mentalidade m√°gica que, apesar de claramente proibir a adora√ß√£o de √≠dolos e outras divindades, abre vastas exce√ß√Ķes para est√°tuas, folhetos, templos e comemora√ß√Ķes √† mem√≥ria de sub-deuses e seus poderes santificados que, sob encomenda, fazem desde uma pessoa se pr√©-apaixonar por outra premonitoriamente atrav√©s de uma faca enfiada numa bananeira ou gotas de cera quente pingando numa bacia at√© abrir as portas de um p√≥s-vida que, n√£o obstante ser eterno, n√£o √© infinitamente sem gra√ßa e entediante.

Então, até talvez os animais silvestres e de estimação (como bem frisou o G1) sejam perturbados pelas luzes, pelo barulho e pela fumaça junina, mas creio convictamente que, aos animais que fazem uso dos explosivos (sob os auspícios de uma justificativa hermeticamente neolítica), a queima de fogos e sua eventual cota extra de poluição visual, sonora e atmosférica faça até bem.

Ah! E por falar nisso: vá doar sangue. Você tem mais do que precisa e esta época do ano é ideal para alguma criança perder um dedo ou um olho ou pelo menos parte da pele.

Retirada da Wikipedia

Retirada da Wikipedia

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[1] Que s√£o animais √© indiscut√≠vel, mas n√£o posso dizer que tal conjunto de caracter√≠sticas √© uma esp√©cie de retardo pois precisaria supor que criaturas desse tipo teriam um potencial refinado que lhes foi negado por alguma circunst√Ęncia. Eles s√£o realmente prejudicados ontogenicamente, desevolu√≠dos e retr√≥grados.

[2] No√ß√£o duplamente errada, tanto absoluta quanto percentualmente, visto que 100% da popula√ß√£o do Vaticano √© cat√≥lica e o fato do M√©xico ter mais ou menos cinco milh√Ķes a mais de cat√≥licos na popula√ß√£o geral que n√≥s. Ufa! Menos uma vergonha para este pa√≠s de quinta.

“Homeopatia √© rem√©dio”

Recentemente, uma leitora (ou espectadora, mais especificamente) do 42. me convenceu, via email, de que homeopatia funciona.

Vou reproduzir aqui (sic, sempre lembrando) os argumentos dela para que vocês também sejam convertidos.

[nota: eu estava de f√©rias e, mesmo com um assunto t√£o chamativo que claramente (conhecendo os apologistas que se d√£o ao trabalho de me alcan√ßar por correspond√™ncia eletr√īnica) haveria de ter sido t√£o bem pesquisado e argumentado, aguentei bravamente e deixei para ler o email quando voltasse ao ritmo normal de vida.]

16/05

De: Suzane [suzane.******@hotmail.com]

Assunto: Homeopatia é remédio

Achei você bobão de tudo com aqueles vídeos da homeopatia.
Pra você ver que a homeopatia funciona, quando estiver com caganeira beba o Arsenicun Albun pra ver que cura, a não que ser que esteja com algo grave no intestino.
Minha filha que bebia antibiótico todos os meses pra dor de garganta, passou 13 anos sem tomar, pois quando tinha dor de garganta usava essa fórmula; Beladona, Mercurio solb.e Barita Carb.
A homeopatia não é milagrosa, é remédio e tem que tomar com perseverança.

Os vídeos aos quais ela se refere são os da minha overdose homeopática e meu vídeo-diário de sintomas.

Abaixo, minha resposta, no início de junho:

Pois é, remédio não precisa de perseverança. Homeopatia precisa porque, no fim das contas, dor de garganta se cura sozinha enquanto você está se enganando e pondo sua filha em risco de algo mais sério acreditando em bruxaria.

E, finalmente, agora há pouco, chega em minha caixa de mensagens sua réplica inescrupulosamente impenetrável impressionantemente inteligente, idioticamente inescusável instigantemente inescrutável, intragavelmente insípida incrivelmente inspirada, imbativelmente incompreensível intrinsecamente inédita, indescritívelmente impenetrável intrigantemente imaculada e inescrupulosamente ideológica impositivamente imparcial da correspondente imberbe?:

16/06

De: Suzane [suzane.******@hotmail.com]

Assunto: Homeopatia é remédio

Igor
Tenho pena de ti!
Esses dias ainda li, um cara achando um absurdo que a homeopatia tem remédio feito de veneno de cobra.
Eu disse pra ele: Boboca que não sabe de nada, o capotril que tu bebes que não é homeopático, pra pressão alta também é feito de veneno de cobra.
Mas num país que o médicos não dão valor na alimentação, o povo tem que ser doentão da cabeça e não confiar na homeopatia.

E pronto! Bastou isso para me converter à religião prática charlatã curativa da homeopatia.
Viu? √Č assim que a ci√™ncia funciona. Bons argumentos, apresentados de forma clara, preferencialmente por email, provando que homeopatia funcio.., opa, o que √© isso?

Mil e oitocentos estudos mais tarde, cientistas concluem (mais uma vez) que homeopatia n√£o funciona.

De acordo com a Revista do Smithsonian:

“Talvez voc√™ lembre de quando os cientistas desbancaram a homeopatia em 2002. Ou 2010. Ou 2014. Por√©m, agora um grande estudo australiano, analisando mais de 1800 trabalhos mostrou que homeopatia (‚Ķ) √© completamente ineficaz.

“Ap√≥s avaliar mais de 1800 estudos sobre homeopatia, o Conselho Nacional de Pesquisa M√©dica e de Sa√ļde Australiano (NHMRC) conseguiu achar apenas 225 que eram bons o suficiente para analisar. E uma revis√£o sistem√°tica desses estudos revelou ‚Äúnenhuma evid√™ncia de qualidade que ap√≥ie as alega√ß√Ķes de que homeopatia √© eficaz para tratamentos de problemas de sa√ļde‚ÄĚ.”

Aqui o link (PDF) diretamente para o estudo do NHMRC: Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions.

Hum. E agora? Em quem eu confio? Numa an√°lise sistem√°tica de quase dois mil trabalhos feitos por uma institui√ß√£o de boa reputa√ß√£o envolvendo centenas de profissionais qualificados que comprova que algo f√≠sica, qu√≠mica, farmacol√≥gica e biologicamente imposs√≠vel n√£o funciona ou na opini√£o semi-intelig√≠vel de uma an√īnima da Internet que mal sabe usar pontua√ß√£o, que me acha um “bob√£o de tudo” e que tem pena de mim?

Hum...

Hum…

Resenha ‚Äď Serial Killer – Louco ou Cruel?

Olá, caros leitores. Estavam sumidos. O que aconteceu com vocês?

Que interessante! Bom, chega de falar de voc√™s, calem a boca e me escutem um pouco para variar. Aff…

ilana-casoy-serial-killer

Na minha infinita busca por algo que me entretenha enquanto me informa, recebi (pedi, na verdade) da Ediouro o livro de Ilana Casoy sobre matadores em série e, assim que o recebi, não quis largar o pacote. Infelizmente, minha mulher é mais esperta e retirou o livro da embalagem sem que eu notasse (caixas me fascinam, sou como um gato assim) e se prestou a ler o volume antes que eu pudesse protestar.

Como eu rapidamente me ocupei com outra coisa (novamente, como um gato), ela leu e escreveu uma resenha que apresento a seguir (ela tirou o livro de mim, eu tirei a resenha que iria para o Tumblr dela. Nada mais justo).

(Nota do editor: a boneca na foto ao final do texto não é minha. Eu jamais teria uma boneca Monster High. Prefiro brincar com miniaturas.)

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Serial Killer – Louco ou Cruel?

(Ilana Casoy, 2ª Edição, Ediouro)

A brasileira Ilana Casoy se formou em administra√ß√£o de empresas por√©m acabou mergulhando no estudo da mente criminosa. Mesmo sem ter forma√ß√£o em Direito, Medicina ou Psicologia Forense, hoje √© considerada especialista no assunto e atua como consultora da OAB/SP, do N√ļcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jur√≠dica do Hospital das Cl√≠nicas de SP, bem como auxilia diversas Pol√≠cias na elabora√ß√£o de perfis de criminosos.

Serial Killer РLouco ou Cruel? é o primeiro dos quatro livros da autora e foi relançado em 2010 pela Ediouro, que teve a gentileza de nos enviar um exemplar.

Na fase introdut√≥ria, Ilana faz um resumo did√°tico e bastante acess√≠vel ao leigo sobre as teorias que tentam explicar o que leva uma pessoa a praticar atos hediondos em s√©rie, os diferentes padr√Ķes psicol√≥gicos dos criminosos, o ciclo vicioso com que os crimes no geral se processam, a capacidade de simula√ß√£o do indiv√≠duo para “envernizar-se” e viver em sociedade sem que ningu√©m desconfie de seus atos e as caracter√≠sticas comuns √† inf√Ęncia de muitos deles, bem como o fato de que eles s√£o, em sua maioria, brancos.

N√£o existe uma teoria que sozinha explique satisfatoriamente as a√ß√Ķes de um assassino em s√©rie, e √© digno de nota ressaltar que a autora nem se deixou contaminar pelas teorias dos defensores da t√°bula rasa, tampouco por teorias de determina√ß√£o gen√©tica pura e simples. N√£o se pode, do ponto de vista cient√≠fico, afirmar que uma pessoa nasce com o destino selado porque conta com uma carga gen√©tica X pois a qualidade dos relacionamentos interpessoais e as experi√™ncias psicol√≥gicas que a pessoa acumula ao longo da vida, ainda que n√£o necessariamente mudem sua personalidade, podem atenuar ou moldar seu car√°ter violento. Ela se mostra muito mais preparada do que muitos professores universit√°rios brasileiros.

Há psicopatas que escolhem, por exemplo, cursar Medicina e se especializar em cirurgia, outros que se encaminham para os crimes de colarinho branco sem chegar perto de uma gota de sangue durante toda a vida, outros que apenas vampirizam financeiramente a família e os criminosos de diversas naturezas. Os psicopatas estão por toda parte. A menor fatia deles, felizmente, age como os que Ilana coletou em sua obra.

Muitas pessoas adeptas da cren√ßa que descarta o biol√≥gico e defende que o homem √© apenas produto do seu meio esquecem que a maioria das pessoas que sofreu abuso sexual nunca se tornou molestadora de crian√ßas ou assassina em s√©rie e esquecem o principal; que adultos psicopatas que alegam passado de abuso no geral apontam que foram molestados de modo sistem√°tico pelo pai, pela m√£e, por tios ou av√≥s. Os abusadores do passado destes psicopatas n√£o s√≥ doaram a sua carga gen√©tica como tamb√©m acionaram o gatilho para que a inf√Ęncia do serial killer se transforme na perfeita incubadora para o mal latente. De um lar desestruturado para uma inadequa√ß√£o social √© um pulo.

O livro √© interessante do come√ßo ao fim. Cinco dos dezoito assassinos seriais retratados, como Ed Gein que inspirou ‘Psicose’de Hitchcock, ganharam uma descri√ß√£o bem romanesca e diferente do relato algo jornal√≠stico dos outros casos, por√©m sem qualquer tipo de apelo √† compaix√£o do leitor em favor do assassino. √Č preciso refor√ßar que embora a imputabilidade seja algo relevante durante o julgamento, o fato √© que indiv√≠duos que praticam crimes hediondos em s√©rie n√£o podem recuperar sua liberdade, seja atrav√©s da perman√™ncia em casas de cust√≥dia ou de pris√£o perp√©tua ou pena de morte, de acordo com a legisla√ß√£o de cada pa√≠s. Aqui no Brasil ainda se consegue manter alguns indiv√≠duos de alta periculosidade em casa de cust√≥dia, mas √†s custas de um trabalho silencioso pois sempre h√° press√£o para que o indiv√≠duo, por mais cruel que seja, ganhe liberdade.

Apesar de não ser um livro técnico (nem ter a pretensão de ser), em minha opinião é leitura obrigatória para Policiais, Promotores, Médicos, Psicólogos, Advogados e Juízes. Muitos dos erros da nossa Justiça hoje, como soltar um criminoso perigoso só porque ele tem bom comportamento na cadeia, foram cometidos no passado em outros países e resultaram na perda de vida de muitas pessoas. No emblemático caso de Arthur Shawcross, que foi solto pelo Juiz por bom comportamento mesmo diante de vários pareceres médicos desfavoráveis Рo que é revoltante -, mais onze pessoas morreram.

Um pedófilo que molesta crianças pode ser um cidadão modelo, um trabalhador dedicado em sua profissão, frequentar Igreja e fazer trabalho voluntário, e na cadeia se comportar como um Lorde Inglês, porém isso não muda em nada o fato dele ser incapaz de parar de molestar crianças sempre que tiver oportunidade.

O Brasil simplesmente não consegue entender isso e a cada natal temos mais pessoas mortas, estupradas, agredidas e assaltadas por causa do indulto natalino. E como se não bastasse, ainda temos a figura legal aberrante do semi-imputável, uma piada sem nenhuma graça.

Outra lição interessante que podemos extrair dos estudos de Ilana é que algumas Polícias costumam revistar a casa e fazer alguma devassa nos antecedentes dos assassinos quando estes são presos por crimes banais. Muitos sociopatas criminosos em série foram pegos assim, após furtarem uma conveniência saindo sem pagar ou fraudarem cartão de crédito, pois são mais cuidadosos quanto mais grave é a ofensa. Isso deveria ser rotina no Brasil. Quantos assassinos e estupradores entraram na cadeia por um crime bobo e saíram em poucos meses?

Todo mundo mente. E quando essa pessoa √© um assassino em s√©rie essa regra √© ainda mais forte. M√©dicos s√£o educados sem capacita√ß√£o para diagnosticar simula√ß√£o e essa capacidade s√≥ vem com a pr√°tica que leva √† busca de dados extra-m√©dicos, de evid√™ncias circunstanciais que apoiem o racioc√≠nio m√©dico. A qualidade da Assist√™ncia T√©cnica ao Juiz foi bem ilustrada no caso de Dennis Andrew Nilsen, o serial killer ‘carente’. Os dois m√©dicos que o avaliaram criaram uma s√©rie de teorias mirabolantes totalmente desconectadas dos fatos j√° documentados √† √©poca e enquanto eu lia as ideias dos colegas quase arranhei meu pr√≥prio rosto pensando que o criminoso havia se safado. Andrew trabalhava todos os dias em dois expedientes, mantinha rotina regular, cuidava de um animal dom√©stico e descreveu detalhadamente todos os seus crimes e mesmo assim um dos psiquiatras afirmou que ele teria “brancos” ocasionais como se fosse uma esquizofrenia que vai e volta, sugerindo imputabilidade! O terceiro parecer, que foi emitido por um M√©dico Legista, concluiu que o criminoso era um ex√≠mio manipulador.

Muitos dos dados de entrevistas acerca da inf√Ęncia dos criminosos n√£o resistem a um detalhamento mais t√©cnico, bem como as alega√ß√Ķes das suas motiva√ß√£o para os crimes. Uma assassina em s√©rie que escolheu matar homens de meia idade foi mudando sua vers√£o da hist√≥ria calculando os riscos, por√©m quando estava no corredor da morte disse que estava cansada das mentiras e confessou mais um crime, para o qual n√£o havia sido julgada.

As mulheres são minoria entre os assassinos em série. A autora mostra a lista de mulheres executadas nos EUA desde 1976 e a das que estavam no corredor da morte até 2007. Além disso, ela também inclui um apêndice com alguns nomes apelidos de criminosos de todo o mundo e algumas frases famosas.

E, como ‘faixa b√īnus’, Ilana coloca o famoso caso do ‘Zod√≠aco’, sem resolu√ß√£o at√© hoje e que inspirou filmes, livros e seriados.

Recomendo a leitura.

Agora me responda: você é a favor da pena de morte? Por quê?

N√£o tem opini√£o formada? Sugiro que para ilustrar seu brainstorm leia os casos de Andrei Chikatilo e de Edmund Emil Kemper III.

Abraço,

M.

serial-killer-ilana-casoy

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Serial Killer РLouco ou Cruel?, de Ilana Casoy, pode ser adquirido diretamente na página da Ediouro ou, se você é do tipo que ainda sai de casa, em livrarias.

Até mais. E não sumam novamente.

Resenha – E Se?

“√Č prov√°vel que bifes sobrevivam ao romper a barreira do som. Se o bife estivesse s√≥ parcialmente congelado, ele iria se estilha√ßar muito f√°cil. Contudo, se ele aterrissar na √°gua, na lama ou em folhas, talvez fique ok.[1]

Plasma incandescente, petabits por segundo, gotas de chuva de um quil√īmetro de di√Ęmetro, escala Richter negativa, cozimento gravitacional, quantos mortos existem no Facebook, o sinal UAU! e um secador de cabelos indestrut√≠vel. Este livro √©, sem sombra de d√ļvidas, o meu fil√£o.

Sem se manter numa mesma linha de racioc√≠nio por mais de dois par√°grafos, Randall Munroe, autor do sempre (estatisticamente) excelente XKCD, responde perguntas hipot√©ticas (e algumas aparentemente nem tanto) de seus leitores com um rigor cient√≠fico encontrado apenas nas mais bem conceituadas institui√ß√Ķes de publica√ß√£o de webcomics. Afinal, apesar de ser roboticista, Randall √© um cartunista humorista (ou “roboticisto”, “cartunisto” e “humoristo”, como o jornalisto J√ī Soares acredita ser correto).

Foto do autor

Foto do autor

Um dos melhores capítulos é o que fala sobre o que aconteceria com a órbita terrestre se todas as pessoas se juntassem num mesmo lugar e pulassem ao mesmo tempo. E não digo isso porque o Scienceblogs é citado (é a matriz, afinal, mas está valendo) mas pela reviravolta épica que me pegou de surpresa. Pensamento lateral daqueles que caem para fora da página. E ainda me lembrou um texto épico meu.

Um livro extremamente divertido, f√°cil de ler (para mim foram tr√™s ou quatro horas de pura empolga√ß√£o) e de acompanhar (as contas mais pesadas ele guarda para si e n√£o “mostra o trabalho”, s√≥ d√° a resposta). Divulga√ß√£o cient√≠fica de primeira com in√ļmeras piadinhas discretas espalhadas por todo lugar (incluindo no verso da folha de rosto que, quando trabalhei num jornal, chamavam de “servi√ßo”) que certamente causar√£o gargalhadas em quem as encontrar dentre as 300 e poucas paginas.

Eu achei muito erro de tradução[2] e até alguns de gramática (e uns mistos, como muito uso de vírgula que sobrou do original mesmo não existindo em português). Mas não acho que a maioria das pessoas realize ou se incomode, com essas coisas.

e se

A minha c√≥pia √© da primeira edi√ß√£o e tem uma diagrama√ß√£o esquisita no inicio, onde um mapa com os oceanos do mundo esvaziados ficou praticamente sem √Āfrica e Europa, que se perderam dentro da lombada. Mas, como sou gente boa, eis aqui o desenho original.

Em E Se?, lançado aqui pela Companhia das Letras, você também vai descobrir uma nova solução para a máxima do copo meio vazio, quanto custaria morrer num quebra-molas e, com a ajuda de girafas empilhadas, como uma criança de cinco anos pode destruir a lógica de um físico e a força de um arremessador profissional.

Minha cópia me foi enviada pela editora, mas é o tipo de livro que eu compraria sem hesitar. Recomendo fortemente para você que lê o 42. e não volta para casa com confusão mental. E, se você é fã do XKCD, nem sei porquê está lendo isto.

Ah, e para quem estiver lendo isto a tempo e precisar saber até sexta-feira:

Sweet.

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[1] Intacto, no caso. N√£o ok para comer.

[2] Por√©m, preciso parabenizar o tradutor que teve a ideia de traduzir “flyover state” para “estado janelinha”. A melhor manobra tradu√ß√£o que vi desde que “blaster” virou “explosor” nos anos 70.

Resenha РRaízes do Brasil

“A falta de coes√£o em nossa vida social n√£o representa um fen√īmeno moderno. E √© por isso que erram profundamente aqueles que imaginam na volta √† tradi√ß√£o, a certa tradi√ß√£o, a √ļnica defesa poss√≠vel contra nossa desordem.”

Lan√ßado seis anos antes de Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo, este livro √© uma das bases para a compreens√£o do nosso pa√≠s. De onde veio? O que come? Como sobrevive?

O historiador S√©rgio Buarque de Holanda descreve a situa√ß√£o que nos criou; da falta de hierarquia e “frouxid√£o da estrutura social” at√© a forma√ß√£o e longevidade das oligarquias que conhecemos muito bem hoje.

Os problemas, que começaram em Portugal mas que hoje já são bem nossos, explicam muito sobre nossa herança social e o motivo por sermos tão diferentes de países com a mesma idade do nosso (Estados Unidos) e até consideravelmente mais jovens (Austrália).

raizes

O volume mostra um pouco como a nossa escravid√£o (que acompanhou a planta√ß√£o de cana-de-a√ß√ļcar que foi escolhida porque t√≠nhamos espa√ßo demais para aproveitar) moldou os rumos das rela√ß√Ķes entre popula√ß√Ķes urbanas e rurais s√©culos depois e detalha as diferen√ßas das mentalidades das maiores pot√™ncias da √©poca (Portugal e Espanha) e como isso dificultou a forma√ß√£o de uma personalidade brasileira.

[O] aparente triunfo de um princípio jamais significou no Brasil mais do que o triunfo de um personalismo sobre o outro.

√Č um livro fascinante realmente. Eu pensei em incluir algumas frases excepcionais mas percebi que estava sublinhando o livro inteiro. Qualquer p√°gina onde o livro for aberto vai ter uma excelente frase que √© t√£o verdade hoje quanto era oitenta anos atr√°s.

Come√ßa meio lento por causa da linguagem mas rapidamente voc√™ se acostuma com o passo e o mundo se abre ao seu redor. √Č um livro razoavelmente curto (cento e cinquenta p√°ginas de texto propriamente holandiano) com uma leitura agrad√°vel.

“√Č ineg√°vel que em nossa vida pol√≠tica o personalismo pode ser em muitos casos uma for√ßa positiva e que ao seu lado os lemas da democracia liberal parecem conceitos puramente ornamentais ou declamat√≥rios, sem ra√≠zes fundas na realidade.”

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, relançado pela Companhia das Letras (com Abaporu virado pro lado errado na capa) e a venda em casas do ramo. Recomendo (especialmente para mostrar, ao contrário do que a escola nos ensina, que História pode ser interessante).

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A frase que abre esta resenha e demonstra a ideia nada nova e apropriadamente ultrapassada de que “antigamente era melhor” se torna um tanto quanto comicamente ir√īnica ao longo do livro, salpicado de cita√ß√Ķes n√£o-traduzidas em franc√™s, espanhol, italiano e, a mais esquisita, uma em latim retirada de um livro em alem√£o.

√Č bem estabelecido que “hoje” √© sempre a melhor √©poca para se viver, independente de quando esse “hoje” se encontre, mas parece que antigamente o pessoal era mais poliglota.

Buscas e nível de escolaridade

Acho interessante como minhas buscas vão aumentando de escolaridade ao longo do tempo, à medida que o nível de complexidade das respostas não me satisfaz.

Para um post vindouro, preciso saber a influ√™ncia do calor na quantidade de cafe√≠na em uma x√≠cara de caf√©. Comecei hoje cedo com ‚Äúquanta cafe√≠na numa x√≠cara de caf√©‚ÄĚ, mudei para ‚Äúcafe√≠na quente‚ÄĚ e passei para ‚Äúquantidade cafe√≠na calor‚ÄĚ, lendo blogs de consumidores.

Em seguida, mudei o idioma e fui para ‚Äúcoffee caffeine quantity‚ÄĚ e ‚Äúcaffeine heat influence‚ÄĚ e fui parar em blogs de baristas.

Segui com ‚Äúcaffeine milligrams heat‚ÄĚ e li p√°ginas de produtores. Mas ainda sem descobrir o que quero.

trimetilxantina-42

Agora j√° estou procurando por ‚Äúcaffeine availability +extraction +methods‚ÄĚ e ‚Äúpharmacological objective measurements of heat acquired trimethylxanthine‚ÄĚ e lendo PDFs de universidades.

Pr√≥ximo passo √© comprar papers com t√≠tulos como ‚Äú1,3,7-Trimethylpurine-2,6-dione adsorption models‚ÄĚ e ‚ÄúGas Chromatography Time-Of-Flight Mass Spectrometry-Based Metabolomics for Comparison of Caffeinated and Decaffeinated Coffee in the Role of Adenosine Receptors and Endogenous Adenosine in Citalopram-induced Inhibition of PKC-dependent Extracellular Ca2+ Entry‚ÄĚ.

Ainda não achei o que quero, mas já sou especialista em absorção de glicose durante exercícios de baixo impacto e conheço a fundo a permeabilidade passiva microfluidica usando interface de gotículas nanolítricas em bicamadas de lipídios, por algum motivo.

Anivers√°rios do 42.

Hoje completam-se 2ŌÄ anos que blogo.

N√£o √© bem esse tipo de “2 pi anos”.

ŌÄ, ou pi, √© um n√ļmero irracional (ou seja, que n√£o pode ser representado como uma fra√ß√£o, como 8, racional, pode ser representado como 32/4, por exemplo) que corresponde √† circunfer√™ncia de um c√≠rculo dividida pelo seu raio.

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Anivers√°rios do 42.

Hoje, completo 10 anos venusianos de blog! Comecei com outro, que mudou de nome e depois se separou em v√°rios, dentre eles o 42.

Parabéns!

Parabéns!

A Vênus de Willendorf aí em cima tem uns trinta mil anos terráqueos, o que dá mais ou menos quarenta e oito mil anos venusianos.

“No meu tempo n√£o existia bullying!”

O problema de envelhecer √© ficar velho. Essa frase pode parecer uma tautologia ou um daqueles ditames de bolso do tipo “quem conhece, sabe” ou “para quem gosta, √© bom” (ou ainda o infame “para quem sabe, √© f√°cil” que eu costumava ouvir muito em √©poca de prova na escola), mas ela melhora com defini√ß√Ķes mais precisas.

“Envelhecer” significa continuar vivendo, que √© o que todos n√≥s neste momento estamos fazendo. O “ficar velho” n√£o √© o mesmo que viver por muito tempo (que geralmente s√≥ √© sin√īnimo de sabedoria no entendimento popular – que, via de regra, n√£o √© nem uma coisa, nem outra); est√°, sim, mais para que se tornou obsoleto [1].

Assim como as juntas endurecem e a musculatura atrofia, endurece tamb√©m a parte antes male√°vel da nossa personalidade que nos fazia gostar de aprender (quem nunca se animou quando descobria como ajustar a hora num v√≠deo cassete?) e atrofia a regi√£o do c√©rebro que nos d√° capacidade de entender e aceitar novas informa√ß√Ķes (√≥bvio que DVD √© melhor que CD, mas esse tal de Blu-ray s√≥ existe para me prejudicar).

"Bullying não existe, o que existe é frescura."

“Bullying n√£o existe, o que existe √© frescura.”

A frase pode ser reescrita como “O problema em continuar vivendo atrav√©s das mudan√ßas da sociedade √© solidificar seus pr√≥prios conceitos pessoais em detrimento do bem-estar coletivo”. A frase que d√° t√≠tulo a este post √© um exemplo bom disso.

O fato do termo n√£o existir antigamente n√£o significa que a atitude n√£o existisse. E, mesmo que esse fosse o caso (que n√£o √©), o fato de ele n√£o ter existido antes n√£o significa que ele n√£o exista agora. O que tamb√©m existe √© uma capacidade aparentemente infinita de nega√ß√£o e prepot√™ncia, um “tire isso daqui porque isso n√£o existe porque s√≥ eu sei o que √© verdade e isso a√≠ n√£o √©” (tipo o secret√°rio de seguran√ßa do Rio Grande do Norte dizendo que os cad√°veres a c√©u aberto no p√°tio do ITEP documentados em v√≠deo n√£o existem).

Isso √© coisa de gente amargurada com a vida. N√£o por ter sofrido e n√£o ter conseguido lidar com o sofrimento mas somente pelo fato de estar velho e temer tudo que √© novo. Uma s√≠ndrome de ego√≠smo recalcado de “eu n√£o sei o que √© isso e n√£o quero que mais ningu√©m saiba porque eu n√£o estou disposto a aprender”. Ou algo assim. [2]

Eu apanhei no colégio, apanhei dos meus pais em casa e cresci normal.

√Č. Virou um adulto que acha que bater em crian√ßa n√£o s√≥ √© normal como tamb√©m deve ser incentivado, inclusive na escola, por desconhecidos. Porque isso vai fazer com que ela cres√ßa “normal”.

Infelizmente, eu sei o que é isso pelos dois lados.

Infelizmente, eu sei o que é isso pelos dois lados.

Cresceu para ser um adulto normal, daqueles que defendem a diminui√ß√£o da maioridade penal e a criminaliza√ß√£o do aborto. Porque o problema n√£o √© social e, sem d√ļvida, tamb√©m n√£o √© o crime, mas o criminoso. Adequar a puni√ß√£o ao crime, independente da idade, n√£o √© op√ß√£o, tem mais √© que prender esse bando de pivete, que quanto mais jovem, pior. Por isso que deve apanhar e ser preso o quanto antes. Preferencialmente assim que nascer ao fim de uma gravidez indesejada por√©m for√ßada.

Um adulto normal que acha que “racismo n√£o existe“, “bandido bom √© bandido morto” e que pobre tem mais √© que se lascar mesmo, porque ningu√©m nunca √© acusado injustamente e emprego tem sobrando. Voc√™ nunca viu “algu√©m na rua pedindo emprego ao inv√©s de esmola” e l√° na sua casa “tem uma pia cheia de lou√ßa suja“. N√£o que voc√™ v√° contratar um imundo desses para entrar na sua casa. Mesmo porque ele deve ser ladr√£o, n√©?

A crian√ßa que apanhou tanto em casa quanto na rua cresceu completamente normal e bem ajustada, achando que maconha √© igual a crack e hero√≠na, que “destr√≥i neur√īnios” e, por isso, deve ser proibida e reprimida. √Ālcool, por outro lado, deve continuar sendo vendido, j√° que “√© uma escolha pessoal beber ou n√£o” e isso “n√£o prejudica mais ningu√©m al√©m do bebedor“.

Cresceu achando que “bom mesmo era na Ditadura“, porque “n√£o havia corrup√ß√£o, infla√ß√£o nem impostos altos“. E ainda por cima “a m√ļsica era boa e n√£o essa seboseira de hoje em dia“, que deveria ser censurada e proibida. [3]

Adulto que acha um absurdo existir ateu e que a falta de deus no cora√ß√£o √© o problema de hoje em dia, onde todo mundo √© ego√≠sta e s√≥ pensa em si mesmo. Tem que seguir a B√≠blia porque s√≥ ela tem a Verdade. N√£o fala em penicilina nem manda ferver √°gua antes de beber e tem tamb√©m aquela parte controversa onde Jesus ordena que um sujeito “v√°, venda os seus bens e d√™ o dinheiro aos pobres” mas isso voc√™ acha que √© uma par√°bola ou uma met√°fora, porque f√© √© a √ļnica forma de salva√ß√£o. [4]

Gays não devem casar porque dar esse direito a eles, de alguma forma, diminui os seus direitos, que permanecerão inafetados. Você cresceu sabendo que gays não podem casar porque isso é proibido pela sua religião (que, aliás, ordena o assassinato sumário dos envolvidos), apesar de isso ser uma questão civil num estado laico. Mas você quer continuar tendo o direito a se divorciar. Só por garantia, sabe como é

Velho durão que nunca sofreu problemas psicológicos por apanhar em casa e tem certeza que a maioria dos casos de estupro são culpa da vítima que anda por aí de roupa apertada, provocando. Quando entram na sua casa para roubar sua TV ou quando abordam você na rua e levam sua carteira, por outro lado, claramente a culpa não é sua por ter bens e andar com eles.

Aliás, mulher já dá motivo, né? Se leva um tapa na cara, do marido, é porque mereceu. Deve ter pensado em voz alta ou provocado um pedreiro a assobiar quando andava na rua (mulher é bicho perigoso, não pode dar chance!). Porque só apanha quem merece mesmo. Menos quando você não coopera e leva uma coronhada do sujeito que queria levar seu relógio. Ele merece apanhar porque deu uma surra em você, que não merecia.

Prega que “feminismo √© sexismo ao contr√°rio“, pois, a exemplo da uni√£o homoafetiva citada previamente, lutar por direitos iguais para ambos os sexos √©, de alguma forma, cercear os direitos dos homens brancos crist√£os de classe m√©dia que “n√£o s√£o todos iguais, espalhar esse tipo de estere√≥tipo √© coisa de mulher“. Reclama que “mulher quer ter os direitos iguais s√≥ na hora de ganhar dinheiro mas n√£o quer servir o ex√©rcito nem trocar pneu[5] mas acha supimpa que teve cinco dias de folga quando casou e jamais diria um “ai” contra a licen√ßa paternidade (que, talvez, poderia ser, tipo, um pouco mais longa?). Ter mais dinheiro entrando na conta tamb√©m n√£o seria ruim, voc√™ s√≥ n√£o sabe como isso poderia acontecer, n√£o √©?

Maria da Penha Maia Fernandes - Nunca precisou sair mostrando os peitos para lutar pelo direito das mulheres! Não, nunca precisou mostrar os peitos. Só precisou recorrer a um tribunal internacional após sobreviver a uma tentativa de eletrocução em sua cadeira de rodas depois de ter ficado paraplégica por ter sido baleada nas costas, enquanto dormia, pelo marido que batia nela e nos três filhos menores de sete anos para que, ao fim de dezenove anos de luta, este ficasse preso por apenas dois anos.

N√£o deixa a esposa trabalhar porque “n√£o vou deixar minha mulher me sustentar” ou porque “lugar de mulher √© na cozinha“, j√° que mulher quando sai de casa pode “ter ideias” e deixar de ser “mulher de fam√≠lia” que, deus-o-livre, comece a pensar e agir como um ser independente e aut√īnomo. Por outro lado, se bandido for preso, tem mais √© que deixar a fam√≠lia desvalida mesmo!, porque aux√≠lio reclus√£o n√£o deve existir! j√° que quem n√£o trabalha √© vagabundo!, especialmente se for pobre. Mesmo que tenha se tornado pobre somente ap√≥s a pris√£o do arrimo de fam√≠lia. Que n√£o deixava a esposa trabalhar.

Videogames causam viol√™ncia, mas o fato de voc√™ ter sido criado como um le√£o de circo dos anos 30 n√£o. Voc√™ √© a favor da viol√™ncia contra crian√ßas mas n√£o √© violento, j√° que no seu tempo n√£o existia Mortal Kombat ou GTA. S√≥ d√° “palmada educativa, que nunca fez mal a ningu√©m“, j√° que no seu tempo n√£o existia essa viol√™ncia toda de hoje em dia que come√ßou a pouco tempo e s√≥ depois de come√ßarem a proibir viol√™ncia infantil.

Voc√™ √© contra a viol√™ncia √† sua integridade f√≠sica e sua propriedade mas acha que ladr√£o deve ser morto e n√£o v√™ nada errado em amarrar algu√©m num poste ou em linchamentos populares porque “quem rouba merece apanhar” (mesmo n√£o havendo evid√™ncias formais do crime, punido com excesso de for√ßa). Que, por coincid√™ncia, nunca acontece com gente branca de classe m√©dia, mesmo com aqueles malditos “direitos humanos que s√≥ existem para proteger bandido“. O mesmo bandido que voc√™ quer ver linchado pela popula√ß√£o e espancado pela pol√≠cia. E ainda reclama dessa “viol√™ncia de hoje em dia” enquanto distribui a culpa entre in√ļmeros agentes, nenhum dele sendo voc√™. Que apanhou quando era crian√ßa e cresceu “normal”.

Voc√™ apanhou na escola e em casa mas tudo bem, porque isso “faz bem ao car√°ter” e “prepara para o mundo real“. Um mundo real onde o seu preconceito e seu desprezo por minorias fomenta a perpetua√ß√£o da viol√™ncia alimentada por um car√°ter defeituoso que cr√™ que surrar seres humanos que ainda nem acabaram de crescer √© perfeitamente justific√°vel.

ATUALIZAÇÃO РLeiam os comentários. Eles são terrivelmente instrutivos.

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[1] Tipo um carro nacional fabricado em 1990 ou um prato de arroz esquecido dentro duma gaveta.

[2] Quem sou eu para julgar?

[3] “Geni e o Zepelim”, por exemplo, composta em 1978 no auge da ditadura pelo artista mais reverenciado como intelectual, √© apenas uma m√ļsica rebuscada e tortuosa sobre estupro e linchamento movido a misoginia. O Rock das Aranhas tamb√©m √© daquela √©poca. Bem como o √© o cl√°ssico da literatura “superbacana superbacana superbacana Super-homem superflit supervinc superist superbacana, o espinafre, o biot√īnico, o comando do avi√£o supers√īnico, do parque eletr√īnico, do poder at√īmico, do avan√ßo econ√īmico, a moeda n√ļmero um do Tio Patinhas n√£o √© minha, um batalh√£o de cowboys barra a entrada da legi√£o dos super-her√≥is”.

[4] Eu linkei uma passagem editada mas recomendo fortemente a leitura de todo o capítulo 2 do livro de Tiago. Você vai ter uma lição em falso moralismo e hipocrisia.

[5] Isso aí era uma frase minha e costumava passar pela minha boca sob a mínima provocação. Eu nunca pude ser considerado uma pessoa boa, mas antigamente eu era bem pior.

Anivers√°rios do 42.

Continuando o ano de comemora√ß√Ķes, hoje, mais especificamente neste momento, o 42. completa tr√™s milh√Ķes de minutos! Com uma m√©dia de quase um visitante por minuto [1] desde que comecei a blogar.

êêêêê

êêêêê

Dois milh√Ķes, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove (2999999), por sua vez, √© um n√ļmero primo! Mas isso n√£o tem nada a ver com a data de hoje! √ä√™√™√™√™√™√™√™!

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[1] Contando somente o horário comercial, menos a pausa para o almoço e o cafezinho. Vários cafezinhos, aliás. E talvez uma ordem de magnitude a menos, também.

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