Resenha ‚Äď Serial Killer – Louco ou Cruel?

Olá, caros leitores. Estavam sumidos. O que aconteceu com vocês?

Que interessante! Bom, chega de falar de voc√™s, calem a boca e me escutem um pouco para variar. Aff…

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Na minha infinita busca por algo que me entretenha enquanto me informa, recebi (pedi, na verdade) da Ediouro o livro de Ilana Casoy sobre matadores em série e, assim que o recebi, não quis largar o pacote. Infelizmente, minha mulher é mais esperta e retirou o livro da embalagem sem que eu notasse (caixas me fascinam, sou como um gato assim) e se prestou a ler o volume antes que eu pudesse protestar.

Como eu rapidamente me ocupei com outra coisa (novamente, como um gato), ela leu e escreveu uma resenha que apresento a seguir (ela tirou o livro de mim, eu tirei a resenha que iria para o Tumblr dela. Nada mais justo).

(Nota do editor: a boneca na foto ao final do texto não é minha. Eu jamais teria uma boneca Monster High. Prefiro brincar com miniaturas.)

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Serial Killer – Louco ou Cruel?

(Ilana Casoy, 2ª Edição, Ediouro)

A brasileira Ilana Casoy se formou em administra√ß√£o de empresas por√©m acabou mergulhando no estudo da mente criminosa. Mesmo sem ter forma√ß√£o em Direito, Medicina ou Psicologia Forense, hoje √© considerada especialista no assunto e atua como consultora da OAB/SP, do N√ļcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jur√≠dica do Hospital das Cl√≠nicas de SP, bem como auxilia diversas Pol√≠cias na elabora√ß√£o de perfis de criminosos.

Serial Killer РLouco ou Cruel? é o primeiro dos quatro livros da autora e foi relançado em 2010 pela Ediouro, que teve a gentileza de nos enviar um exemplar.

Na fase introdut√≥ria, Ilana faz um resumo did√°tico e bastante acess√≠vel ao leigo sobre as teorias que tentam explicar o que leva uma pessoa a praticar atos hediondos em s√©rie, os diferentes padr√Ķes psicol√≥gicos dos criminosos, o ciclo vicioso com que os crimes no geral se processam, a capacidade de simula√ß√£o do indiv√≠duo para “envernizar-se” e viver em sociedade sem que ningu√©m desconfie de seus atos e as caracter√≠sticas comuns √† inf√Ęncia de muitos deles, bem como o fato de que eles s√£o, em sua maioria, brancos.

N√£o existe uma teoria que sozinha explique satisfatoriamente as a√ß√Ķes de um assassino em s√©rie, e √© digno de nota ressaltar que a autora nem se deixou contaminar pelas teorias dos defensores da t√°bula rasa, tampouco por teorias de determina√ß√£o gen√©tica pura e simples. N√£o se pode, do ponto de vista cient√≠fico, afirmar que uma pessoa nasce com o destino selado porque conta com uma carga gen√©tica X pois a qualidade dos relacionamentos interpessoais e as experi√™ncias psicol√≥gicas que a pessoa acumula ao longo da vida, ainda que n√£o necessariamente mudem sua personalidade, podem atenuar ou moldar seu car√°ter violento. Ela se mostra muito mais preparada do que muitos professores universit√°rios brasileiros.

Há psicopatas que escolhem, por exemplo, cursar Medicina e se especializar em cirurgia, outros que se encaminham para os crimes de colarinho branco sem chegar perto de uma gota de sangue durante toda a vida, outros que apenas vampirizam financeiramente a família e os criminosos de diversas naturezas. Os psicopatas estão por toda parte. A menor fatia deles, felizmente, age como os que Ilana coletou em sua obra.

Muitas pessoas adeptas da cren√ßa que descarta o biol√≥gico e defende que o homem √© apenas produto do seu meio esquecem que a maioria das pessoas que sofreu abuso sexual nunca se tornou molestadora de crian√ßas ou assassina em s√©rie e esquecem o principal; que adultos psicopatas que alegam passado de abuso no geral apontam que foram molestados de modo sistem√°tico pelo pai, pela m√£e, por tios ou av√≥s. Os abusadores do passado destes psicopatas n√£o s√≥ doaram a sua carga gen√©tica como tamb√©m acionaram o gatilho para que a inf√Ęncia do serial killer se transforme na perfeita incubadora para o mal latente. De um lar desestruturado para uma inadequa√ß√£o social √© um pulo.

O livro √© interessante do come√ßo ao fim. Cinco dos dezoito assassinos seriais retratados, como Ed Gein que inspirou ‘Psicose’de Hitchcock, ganharam uma descri√ß√£o bem romanesca e diferente do relato algo jornal√≠stico dos outros casos, por√©m sem qualquer tipo de apelo √† compaix√£o do leitor em favor do assassino. √Č preciso refor√ßar que embora a imputabilidade seja algo relevante durante o julgamento, o fato √© que indiv√≠duos que praticam crimes hediondos em s√©rie n√£o podem recuperar sua liberdade, seja atrav√©s da perman√™ncia em casas de cust√≥dia ou de pris√£o perp√©tua ou pena de morte, de acordo com a legisla√ß√£o de cada pa√≠s. Aqui no Brasil ainda se consegue manter alguns indiv√≠duos de alta periculosidade em casa de cust√≥dia, mas √†s custas de um trabalho silencioso pois sempre h√° press√£o para que o indiv√≠duo, por mais cruel que seja, ganhe liberdade.

Apesar de não ser um livro técnico (nem ter a pretensão de ser), em minha opinião é leitura obrigatória para Policiais, Promotores, Médicos, Psicólogos, Advogados e Juízes. Muitos dos erros da nossa Justiça hoje, como soltar um criminoso perigoso só porque ele tem bom comportamento na cadeia, foram cometidos no passado em outros países e resultaram na perda de vida de muitas pessoas. No emblemático caso de Arthur Shawcross, que foi solto pelo Juiz por bom comportamento mesmo diante de vários pareceres médicos desfavoráveis Рo que é revoltante -, mais onze pessoas morreram.

Um pedófilo que molesta crianças pode ser um cidadão modelo, um trabalhador dedicado em sua profissão, frequentar Igreja e fazer trabalho voluntário, e na cadeia se comportar como um Lorde Inglês, porém isso não muda em nada o fato dele ser incapaz de parar de molestar crianças sempre que tiver oportunidade.

O Brasil simplesmente não consegue entender isso e a cada natal temos mais pessoas mortas, estupradas, agredidas e assaltadas por causa do indulto natalino. E como se não bastasse, ainda temos a figura legal aberrante do semi-imputável, uma piada sem nenhuma graça.

Outra lição interessante que podemos extrair dos estudos de Ilana é que algumas Polícias costumam revistar a casa e fazer alguma devassa nos antecedentes dos assassinos quando estes são presos por crimes banais. Muitos sociopatas criminosos em série foram pegos assim, após furtarem uma conveniência saindo sem pagar ou fraudarem cartão de crédito, pois são mais cuidadosos quanto mais grave é a ofensa. Isso deveria ser rotina no Brasil. Quantos assassinos e estupradores entraram na cadeia por um crime bobo e saíram em poucos meses?

Todo mundo mente. E quando essa pessoa √© um assassino em s√©rie essa regra √© ainda mais forte. M√©dicos s√£o educados sem capacita√ß√£o para diagnosticar simula√ß√£o e essa capacidade s√≥ vem com a pr√°tica que leva √† busca de dados extra-m√©dicos, de evid√™ncias circunstanciais que apoiem o racioc√≠nio m√©dico. A qualidade da Assist√™ncia T√©cnica ao Juiz foi bem ilustrada no caso de Dennis Andrew Nilsen, o serial killer ‘carente’. Os dois m√©dicos que o avaliaram criaram uma s√©rie de teorias mirabolantes totalmente desconectadas dos fatos j√° documentados √† √©poca e enquanto eu lia as ideias dos colegas quase arranhei meu pr√≥prio rosto pensando que o criminoso havia se safado. Andrew trabalhava todos os dias em dois expedientes, mantinha rotina regular, cuidava de um animal dom√©stico e descreveu detalhadamente todos os seus crimes e mesmo assim um dos psiquiatras afirmou que ele teria “brancos” ocasionais como se fosse uma esquizofrenia que vai e volta, sugerindo imputabilidade! O terceiro parecer, que foi emitido por um M√©dico Legista, concluiu que o criminoso era um ex√≠mio manipulador.

Muitos dos dados de entrevistas acerca da inf√Ęncia dos criminosos n√£o resistem a um detalhamento mais t√©cnico, bem como as alega√ß√Ķes das suas motiva√ß√£o para os crimes. Uma assassina em s√©rie que escolheu matar homens de meia idade foi mudando sua vers√£o da hist√≥ria calculando os riscos, por√©m quando estava no corredor da morte disse que estava cansada das mentiras e confessou mais um crime, para o qual n√£o havia sido julgada.

As mulheres são minoria entre os assassinos em série. A autora mostra a lista de mulheres executadas nos EUA desde 1976 e a das que estavam no corredor da morte até 2007. Além disso, ela também inclui um apêndice com alguns nomes apelidos de criminosos de todo o mundo e algumas frases famosas.

E, como ‘faixa b√īnus’, Ilana coloca o famoso caso do ‘Zod√≠aco’, sem resolu√ß√£o at√© hoje e que inspirou filmes, livros e seriados.

Recomendo a leitura.

Agora me responda: você é a favor da pena de morte? Por quê?

N√£o tem opini√£o formada? Sugiro que para ilustrar seu brainstorm leia os casos de Andrei Chikatilo e de Edmund Emil Kemper III.

Abraço,

M.

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Serial Killer РLouco ou Cruel?, de Ilana Casoy, pode ser adquirido diretamente na página da Ediouro ou, se você é do tipo que ainda sai de casa, em livrarias.

Até mais. E não sumam novamente.

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