Doutor, socorro! #consultavirtual

Sexta-feira passada eu estava quase me afogando enquanto trabalhava e n√£o conseguia parar de tossir.
Me recomendaram um expectorante que era certeza me curar em um dia e a situação estava tão fora de controle que eu quase comprei, mesmo sabendo que estava no fim do ciclo do resfriado que havia adquirido na semana anterior e muito provavelmente acordaria curado de todo jeito no sábado.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Acordei ainda meio embotado mas bastaram algumas assoadas de nariz, um banho quente e uma xícara de café para que estivesse 100% curado antes do almoço.
Eis que ent√£o me ocorreu: e se eu tivesse comprado o diabo do xarope (mesmo sabendo da sua inefic√°cia)? Por mais c√©tico que fosse, teria atribu√≠do a ele minha recupera√ß√£o instant√Ęnea e talvez at√© passasse a recomend√°-lo e tomasse de novo ano que vem, no meu pr√≥ximo acesso de tosse (ou caso quisesse ficar doid√£o).
Toda doença (ou pelos menos a maioria delas até onde eu saiba sem pesquisar) tem um histórico, uma linha começo-fim.
Tomar quantidades industriais de vitamina C não vai prevenir gripe, e mesmo que não fosse o caso, depois de gripado já era! Você pode tomar todo o estoque regional de Redoxon que vai continuar gripado por pelo menos mais uma semana.
Mas, na hora que a mazela sumir: “√ď a√≠! Fiquei bom por causa da vitamina!”
√Č dif√≠cil raciocinar o contr√°rio pois n√£o existe controle. N√£o d√° para a mesma pessoa tomar E n√£o-tomar a vitamina e ver no que d√°.
Sempre vem aquela sensa√ß√£o de “se n√£o tomar agora vou ficar doente mais tempo” ou “s√≥ fiquei bom dez dias depois porque tomei o neg√≥cio”.
√Č algo parecido com a barganha da S√≠ndrome do Jogador: e se eu n√£o jogar agora, justamente na hora em que ia ganhar?
Isso tudo me lembrou de um conselho sobre automedicação que deveria estar na primeira página de todos os jornais: Gripe é causada por vírus. Antibióticos (que matam apenas bactérias) não devem ser tomados em hipótese alguma para tratar gripe pois você estaria perdendo tempo, dinheiro e imunidade.
Finalizando, com uma frase de X, onde X é alguém sensato, razoável e, de preferência, antigo (melhor ainda se for um sábio oriental que viveu antes da Grande Muralha ser construída):
“Um resfriado n√£o tratado desaparece em 14 dias. Um resfriado medicado √© curado em duas semanas.”

p.s. leiam as respostas tocantes à minha aflitiva situação e também se emocionem:
@Karl_Ecce_Med @uoleo Me diga onde é que dói, meu filho!
@carloshotta @uoleo por quanto tempo vc quer q a gente mantenha o seu blog depois do seu falecimento?
@clauchow @uoleo @carloshotta consulta médica via twitter?
@renanpicoreti @uoleo Fique feliz em ter achado um biólogo. Você poderia ter achado um proctologista. =P
@oatila bom dia senhores e senhoritas! o @uoleo ainda t√° vivo?
S√≥ posso ser algu√©m muito querido…

N√ļmeros Percentuais e Estat√≠sticas S√©rias

Desde o ano passado que eu queria escrever sobre analfabetismo estatístico e finalmente tomei vergonha na cara e o fiz.
L√° vai.
(O t√≠tulo √© para diferenciar das minhas Estat√≠sticas In√ļteis do outro blogue)
Eu vi uma propaganda aqui que me chamou aten√ß√£o: “O curso de ingl√™s que mais cresce em Natal!” e imediatamente pensei em qual tipo de crescimento eles se basearam para imortalizar tal alega√ß√£o num outdoor.
Aumento Relativo e Aumento Absoluto
Digamos que em 2008 o “curso” fosse apenas um professor dando aula em casa para 1 aluno que gostou do m√©todo e chamou dois amigos para participar com ele.
Professor de Ingl√™s, vision√°rio que s√≥ ele, foi numa gr√°fica, mandou imprimir uma faixa com um nome inventado, a pendurou sobre a porta de sua morada e pagou pela exposi√ß√£o de uma propaganda num lugar bem movimentado da cidade dizendo que seu “curso” foi o que mais cresceu do ano passado para c√°, pois subiu impressionantes 200%!
Mas esse foi um crescimento relativo.
Um Cursinho de Inglês que contasse com mil alunos em 2008 e hoje tenha mil e quinhentos, apesar dos míseros 50% de aumento relativo, conseguiu atrair 500 pessoas extras.
Apesar de 200% encher mais os olhos que 50%, o crescimento absoluto de Professor foi de apenas duas pessoas.
Uma sala que cabe duas pessoas acondiciona quatro aconchegantemente.
S√≥ o fluxo adicional causado pelos quinhentos novos alunos do Cursinho j√° deve interferir no tr√Ęnsito de boa parte da cidade e provavelmente ser√£o necess√°rias novas instala√ß√Ķes f√≠sicas para acomodar tanta gente a mais.
Então, qual curso de inglês cresceu mais?
O primeiro teve um crescimento relativo de 200% enquanto o segundo teve um crescimento absoluto de quinhentas pessoas.
Eu fico com o segundo.
(Outra forma bem mais simples de notar a diferen√ßa entre crescimentos absoluto e relativo √© pensar numa sequ√™ncia simples de n√ļmeros naturais, tipo 1, 2, 3, 4…
O aumento absoluto é sempre 1 (1+1 = 2; 2+1 = 3; 3+1 = 4, etc), mas o aumento relativo muda a cada incremento: de 1 para 2 há um aumento de 100%; de 2 para 3 o aumento é de 50%; de 3 para 4, 33%, e assim por diante.)
N√ļmeros relativos podem ser uma armadilha, levando um leigo a pensar que o n√ļmero em si √© significante quando o maior significado est√° no resultado geral e no impacto que aquilo cause.
Dizer que 0,1% da popula√ß√£o √© formada por soldados √© um dado percentual relativo irrelevante no caso da China, por exemplo, cujo n√ļmero absoluto √© um milh√£o e duzentos mil militares.
Tão irrelevante quanto dizer que o Vaticano, com apenas 825 indivíduos, tem 16% de sua população formada por membros da Guarda Suíça, ou 134 homens.
Eu ficaria do lado do 0,1% chinês contra os 16% vaticanos qualquer dia.
Da mesma forma, afirmar que “apenas 1% da √°gua do mundo √© pot√°vel” √© um dado completamente in√ļtil se n√£o soubermos quanta √°gua existe. 1% mant√©m todos os seres vivos do planeta hidratados, logo, 1% √© √°gua suficiente e 2% talvez fosse desperd√≠cio.
(Ainda sobre água: uma parte significativa desses 99% restantes é água presa em nossos corpos (e no de outros animais) que está sendo constantemente reciclada e trocada pelo 1% da propaganda.
Por menos que 1/100 pareça ser aqui, a realidade é bem mais generosa e temos potencialmente muito mais que isso.)
Ponto Percentual
Esse aqui só ouvimos falar em época de eleição. Um ponto percentual nada mais é que um por cento do total.
No caso de uma votação num município com um milhão de eleitores, cada ponto percentual (que equivale a um por cento do total de votos) é igual a dez mil votos.
Se numa pesquisa para elei√ß√£o de prefeito Candidato A tem 36% (trezentos e sessenta mil votos) e na pesquisa seguinte ele aumenta “quatro pontos percentuais”, significa dizer que as inten√ß√Ķes de voto aumentaram quatro por cento do total (um milh√£o), totalizando quatrocentos mil votos, ou 40%.
O segundo na corrida, Candidato B, apareceu com 15% na primeira pesquisa e, quando saiu a segunda, divulgou que cresceu incríveis 26%, o que pode levar alguns eleitores a concluir que B passou A na corrida eleitoral (15 + 26 = 41), porém o aumento de vinte e seis por cento foi em cima da percentagem original de B e não sobre o total de votantes.
Enquanto o candidato A foi de 36% para 40% (pois subiu quatro pontos percentuais), Candidato B foi de 15% para 18,9% (pois aumentou 26% de 15%, que é igual a 3,9%) e continua atrás como um bom menino.
Depois de ter passado pelo crivo da Tine, minha estaticista de plantão e antiga colega de lablogatório, me ocorreu um exemplo que tem mais ou menos a ver com o assunto.
Digamos que exista uma doença qualquer, uma gripe por exemplo.
Para efeito alegórico, vou denominar como A, caso eu queria comparar com outra mais adiante.
Dados:
No primeiro dia, existem cinco pessoas infectadas com a gripe, ou Influenza, A.
No décimo dia já existem mil casos confirmados da doença.
Existem 2 maneiras de se interpretar os dados acima: 1 maneira honesta (ou H1) e 1 maneira neurótica (ou N1).
A maneira honesta diz: o n√ļmero real de indiv√≠duos gripados n√£o cresceu significativamente nesses dez dias. O que aumentou foi o n√ļmero de casos confirmados.
Essas pessoas já estavam doentes, só que ninguém sabia.
A maneira neur√≥tica diz: o n√ļmero de pacientes infectados subiu tr√™s ordens de magnitude em menos de duas semanas! Ocorreu um aumento relativo de 20mil% e um absoluto de 995 pessoas! Essa Influenza A est√° se espalhando mais r√°pido que protetor solar em ombro de surfista! Desde j√° estamos enfrentando uma epidemia pancontinental e vamos todos morrer!
A primeira forma de ver as informa√ß√Ķes dadas difere da segunda pois admite que o lombinho, o bacon, o presunto, a costelinha e o salame j√° estavam dentro da minha geladeira antes dela ser aberta. Eu apenas tomei conhecimento do fato ao abri-la.

Falta grave

Minha semana passada foi deveras atribulada, [inserir desculpas esfarrapadas] e etc, etc, mas nada que eu diga aqui justifica eu não ter agradecido ao Professor Luis Eduardo Lima, do excelente Tecnoclasta, pelo prêmio que eu recebi no II Concurso Científico.
Obrigado e desculpe pelo esquecimento!

Ajuda com fóssil

D√©cadas atr√°s, no Sert√£o do Serid√≥ norte-riograndense, local de feudos e disputas, casas caiadas, √°gua de cacimba, posto telef√īnico, energias el√©trica em poucas resid√™ncias, mais carros de boi que autom√≥veis, um anci√£o passa √† frente seu mais valioso objeto, aquele que o une ao passado mais que qualquer outra coisa, que cont√©m suas mem√≥rias dos tempos idos de outrora, um presente do Pai-Mar, repassado pela M√£e-Terra que o acolheu tantos e tantos anos atr√°s.
O garoto que o recebeu, ainda muito novo, n√£o poderia ainda discernir que o que tinha em m√£os era algo grandioso, √ļnico e potencialmente revolucion√°rio, muito mais importante do que os seus trinta cent√≠metros de comprimento davam cr√©dito, que havia sido achado pelo velho enquanto arrancava tocos de jurema do ch√£o que s√≥ n√£o havia ainda rachado sob o impiedoso sol por ser basicamente poeira seca e esvoa√ßante.
Um fóssil de um dente de baleia!
(continue lendo clicando no link abaixo)

Continue lendo…

Quando a luz dos olhos teus…

Quando saímos de um lugar escuro para um bem mais claro, nós sentimos um pouquinho de dor (olhar direto para o Sol, por exemplo, dói porque a retina está literalmente queimando) mas conseguimos acostumar a visão rapidamente.
As pupilas se contraem quase instantaneamente e muito pouca luz entra.
Simples.
Já o contrário não é tanto assim.

Um experimento para se fazer em casa: num dia de sol forte, fechem as janelas, portas e cortinas, esperem uns dez minutos e saiam. Contem quanto tempo demora para a vis√£o se adaptar.
Novamente, aguardem mais uns dez minutos embaixo do sol forte, entrem novamente na casa escurecida e marquem o tempo de se acostumar.
A segunda etapa levar√° mais tempo.

Mas por que? Não é só a pupila dilatando e contraindo?

N√£o.

Existe uma faixa de claridade onde a retina funciona melhor e a pupila se encarrega de deixar a luz nesse meio.
Mas tamb√©m existe uma subst√Ęncia chamada rodopsina, que fica nas c√©lulas no fundo dos olhos, que muda para um formato diferente, nos fazendo ver a luz.
Quando essa convers√£o se d√°, ela n√£o volta atr√°s facilmente e, ficando-se ao sol num dia muito claro, essa subst√Ęncia √© usada muito rapidamente, dificultando a vis√£o noturna, que se utiliza do formato inicial da rodopsina para funcionar.
Por isso que ficamos tanto tempo com aquele flash nos perseguindo desde a √ļltima fotografia…

O controle da vis√£o n√£o √© s√≥ mec√Ęnico (pupila), mas tamb√©m qu√≠mico (rodopsina).
√Č, eu tamb√©m achava que fosse algo mais f√°cil

———
Este artigo finaliza a minha participação e encerra a semana da Blogagem Coletiva Luminosa.
luz
Por favor, o √ļltimo a sair apague a luz.

Alergia à luz

Existe um nervo dentro do nosso cr√Ęnio chamado Nervo Trig√™meo, que tem fun√ß√£o mista (serve tanto para mexer quanto para sentir). A parte motora desse nervo faz a mand√≠bula funcionar e a parte sensitiva d√° sensa√ß√£o √† pele do rosto, √† parte de tr√°s da l√≠ngua, aos dentes, √†s p√°lpebras e √†s mucosas da boca e nariz. E √© aqui onde meu interesse come√ßa.
O nervo √≥tico (um nervo do tipo que s√≥ serve para sentir) quando superestimulado (sair de um lugar escuro para um muito claro) pode vazar e interferir no trig√™meo (assim como ligar o liquidificador pode interferir na imagem do televisor. Fia√ß√£o mal-feita…), acionando-o. Isso √© um tra√ßo gen√©tico de codomin√Ęncia (n√£o vou explicar isso aqui, mas √© o mesmo esquema de tipo sangu√≠neo) que faz com qu√™ os indiv√≠duos que a possuam espirrem quando saiam ao sol.
Eu sou um deles.
Não consegui achar ainda relação entre isso e fotofobia (que apesar do nome não é medo de luz, mas dor e desconforto nos olhos quando expostos à luz forte), que também me acomete, mas acho que faz sentido.
Fotofobia é um problema nos fotorreceptores da retina, que absorvem muita luz e mandam uma quantidade exagerada de estimulação pro nervo ótico.
Esse defeito causa dor nos olhos e, se a exposi√ß√£o for longa e cont√≠nua, conseq√ľente dor de cabe√ßa.
Segundo meu oftalmologista, não existe cura, só paliativo; óculos escuros.
Quando meus olhos se enchem de luz, logo ap√≥s a dor de agulha (de tric√ī) quente (incandescente) entrando (de lado) no olho, a parte √≥tica nervosa se acende (como um filamento de l√Ęmpada) e transborda (como leite n√£o-vigiado no fog√£o) para dentro do nervo que controla a sensitividade da mucosa nasal.
Além de ser quase cego em dia de sol forte perto de paredes brancas, eu ainda fico espirrando feito menino novo gripado brincando no tapete da sala.
Tenho amigos míopes que antes de abrir os olhos pela manhã precisam calçar suas lentes corretivas. Quando os vidros do meu lar não eram enegrecidos, eu precisava fazer isso com os meus óculos escuros. Já acordava espirrando e com dor de cabeça.
E cada espirro meu me custa uma semana de vida (quem já me viu espirrando concordará). Eu não posso andar sem proteção visual (pelo menos se quiser chegar aos trinta).
Caso você espirre ao primeiro sinal de sol, saiba que não está sozinho.
Eu também sou alérgico à luz.

“Como a gente sabe como os cachorros enxergam?”

Um amigo meu me perguntou isso v√°rias vezes e nunca esperou para ouvir a resposta, ficava t√£o indignado com a impossibilidade da certeza da informa√ß√£o que ia logo embora jogar bola, resmungando “quem foi que disse?”.
Antes de mais nada (fora o que eu já disse aí em cima), os cachorros são animais noturnos por natureza. Eles só foram domesticados por nós há mais ou menos quinze mil anos e ainda não deu tempo deles evoluirem o aparato visual para visão diurna.
No escuro não dá para ver cores (tente escolher uma camisa pela cor, de noite, sem acender uma luz), então é mais vantagem desenvolver mais os sentidos que não dependem de luz, como olfato e audição [1].
Na parte dos olhos dos mamíferos que capta luz, existem dois tipos de células que fazem isso; cones e bastonetes.
Os cones são responsáveis por captar cores e pela visão detalhada (visão direta) enquanto os bastonetes existem para detectar movimento (visão periférica) e para visão noturna.
Nós temos três tipos de cones nos nossos olhos, mas os cachorros só possuem cones azuis e verdes. Eles não enxergam vermelho e muito pouco verde (que misturado com azul fica amarelo).
espectro
O espa√ßo que sobra na retina canina √© compensado com muito mais bastonetes, fazendo-os se adaptar melhor a condi√ß√Ķes de pouca luz. Os cachorros percebem movimento bem melhor que n√≥s e o mundo deles tamb√©m √© bem mais claro por causa dessa quantidade extra de c√©lulas receptoras de luz e movimento.
Mas ao mesmo tempo o mundo deles é menos colorido e mais borrado, pela falta de células captadoras de cor e de traços finos.
A evolução fez os cães assim e a ciência médica e veterinária descobriram o resto.
N√£o √© que algu√©m tenha chegado prum cachorro e dito “Ei, de que cor √© essa ma√ß√£?” e riu depois que ele respondeu “Preta!” e ficou abanando o rabo com a l√≠ngua para fora por ter interagido com uma pessoa.
Não é assim que Ciência funciona.
Finalmente, os cachorros não enxergam em preto e branco, eles só não vêem a cor vermelha nem os detalhes das coisas, então nem adianta mostrar aquela escultura em argila bem trabalhada de Chico Barreiro que eles não vão saber apreciá-la.
Acho que é isso mesmo.
——
ATUALIZA√á√ÉO: [1] O que eu escrevi ficou meio estranho mesmo, meio fora do rumo e dando a impress√£o de prop√≥sito, mas o Luiz Bento me corrigiu: “A aus√™ncia de luz n√£o √© uma press√£o seletiva forte para cores, ent√£o organismos que nas√ßam de forma aleat√≥ria com uma vis√£o para cores mais desenvolvida n√£o ter√£o vantagem perante os outros. J√° os que nascem com qualquer desvio para um sentido como olfato e audi√ß√£o mais desenvolvida ter√£o uma vantagem reprodutiva e ir√£o passar essa caracter√≠stica para os seus descendentes.”
Valeu!

Espectro Eletromagnético РParte 2/2

==> Isto é uma continuação, se você chegou aqui agora e não leu a primeira parte, volte e leia, senão nada aqui fará sentido.
Bem, fará, mas você estaria perdendo metade da diversão! <==
Tanto os olhos quantos as antenas de rádio são receptores de luz. Nós não vemos o sinal do celular porque as estruturas de captação de luz nos nossos olhos são muito pequenas e as ondas de rádio são muito longas e não cabem dentro das células.
√Č como jogar sinuca com bolas de v√īlei.
=> N√£o consigo pensar numa frase inteligente para esta passagem…
Chegamos ao Ultravioleta. “Ultra” significando “acima”, “violeta” significando a cor violeta. √ďbvio (ainda estou estudando e achei pouca coisa, a√≠ estou enchendo com miolo de pote).
Ah, achei uma coisa interessante; O sol produz muita luz ultravioleta que √© bloqueada pela nossa atmosfera, ou era, pois o que bloqueia mesmo √© oz√īnio (um al√≥tropo do oxig√™nio, que se combina em tr√™s √°tomos) e esse oz√īnio est√° sendo quebrado por clorofluorcarboneto (o famoso CFC).
Por ser muito energ√©tica, radia√ß√£o UV tem a propriedade de quebrar liga√ß√Ķes qu√≠micas. Uma dessas quebras acontece na nossa pele (e na dos porcos), causando as queimaduras de sol e, em casos extremos, c√Ęncer de pele (o carcinoma √© causado quando um desses f√≥tons super-energizados atinge e desmantela uma mol√©cula de DNA, fazendo-a agir de forma imprevis√≠vel e incontrol√°vel). O mesmo processo pode causar catarata no olho, ressequid√£o (acho que essa palavra n√£o existe), rachadura em pl√°sticos (pol√≠meros em geral) e degrada√ß√£o em tintas expostas ao sol.
Tinta UV √© usada em sistemas de seguran√ßa (da pr√≥xima vez que voc√™ estiver numa boate com luz negra, olhe pro seu cart√£o de cr√©dito) e l√Ęmpadas que criam luz ultravioleta (como as fluorescentes) s√£o usadas em armadilhas para insetos (que se orientam √† noite navegando pela luz da lua e das estrelas, mas √© um pouco mais complicado que isso. Entomologia √© divertido).
Análise de minerais, espectrofotometria (tipo espectroscopia, mas mais especializado) e outras coisas com nomes ainda mais difíceis de ler e pronunciar.
=> Carcinoma nos ossos.
A próxima etapa na escala energética da luz é a dos Raios-X.
Esse nome é muito aleatório mas é muito massa também, coisa de revista em quadrinhos e foi dado por um alemão, Wilhelm Röntgen, que recebeu o PRIMEIRO prêmio Nobel de Física por seus estudos sobre os raios. Invocado!
Lorde Kelvin, o da escala de temperatura, disse uma vez que “raios-x n√£o existem, isso √© conversa”, mas eu n√£o o ouvi dizendo, n√£o porei minha m√£o proverbial no fogo.
Raios-x (sempre no plural, diferentemente do terceiro verso da can√ß√£o festiva “Parab√©ns A Voc√™”, que √© “muita felicidade”, no singular) s√£o usados principalmente em contadores Geiger (para medir o n√≠vel de radia√ß√£o em determinados locais), em astronomia (olha a√≠, os astr√īnomos de novo) para medir buracos negros e a freq√ľ√™ncia de pulsares e, mais comumente, para bater chapas radiogr√°ficas, que depois de usadas, podem servir para a observa√ß√£o de eclipses solares (por astr√īnomos-mirins, talvez?).
Gerar esse tipo de radiação consome MUITA energia, que geralmente é associado à temperatura dos corpos. Pulsares brilham nessa faixa de luz por serem absurdamente quentes.
Uma máquina de raios-x é na verdade uma grande máquina fotográfica que enxerga fótons hiper-energéticos (gerados por ela própria), mas precisa imprimir num filme, como um lambe-lambe.
Não adianta o Super Homem ter visão de raios-x se não tiver algo atrás do objeto para aparar a radiação, que deve ser lançada de seus olhos (pois objetos frios como paredes e roupas não emitem esse tipo de luz).
=> Do Homem de Aço para o Homem Verde Zangado.
Depois de Raios-X, vêm os Raios Gama.
Não importa o quão mais energético se tornem (não existe ainda limite teórico máximo de energia), continuarão sendo raios gama.
Alternativamente à forma como os comprimentos de onda da faixa de Rádio podem ser enormes, os da faixa Gama são tão pequenos que uma ruma deste tamanho ainda não dá para ver.
Al√©m de transformar o pac√≠fico f√≠sico Bruce Banner na besta selvagem e incontrol√°vel conhecida por Incr√≠vel Hulk, a radia√ß√£o gama, por ser altamente letal para qualquer esp√©cie de vida, √© usada como meio de esteriliza√ß√£o de equipamentos m√©dicos e irradia√ß√£o de alimentos (ou “pasteuriza√ß√£o fria”, como querem chamar agora para distanciar o m√©todo do estigma de “radia√ß√£o”), o que destr√≥i qualquer ser vivo, como bact√©rias, que estejam s√≥ esperando um hospedeiro quentinho para se estabelecer e tomar de conta.
S√£o naturalmente gerados em explos√Ķes de Supernovas e em explos√Ķes nucleares, guardadas as devidas propor√ß√Ķes.
Bicho muito perigoso. Sempre que puder, evite (radiação gama é não-residual, ou seja, não deixa restos por onde passa, portanto você pode comer comida irradiada sem preocupação; a não ser que você seja o técnico responsável pelo processo).
E este é o Espectro Eletromagnético!
Espero que tenha sido compreensível.

Espectro Eletromagnético РParte 1/2

F√≥tons – por√ß√Ķezinhas de energia que s√£o, ao mesmo tempo, part√≠culas (como coisas s√≥lidas) e ondas (como som), que se movem √† velocidade da luz (trezentos mil quil√īmetros por segundo) e que variam em freq√ľ√™ncia, ou em quantidade de energia, e carregam energia eletromagn√©tica.
Energia eletromagnética é mais ou menos tudo, variando de ondas de rádio, passando por cores, até raios gama.
As ondas de r√°dio variam em tamanho de v√°rios metros a poucos mil√≠metros. Mas isso √© irrelevante (para este artigo, pelo menos). Interessante mesmo √© que elas servem para r√°dio (√© nada!) AM (amplitude modulada), FM (freq√ľ√™ncia modulada), amador, TV VHF (very high frequency, ou freq√ľ√™ncia muito alta), UHF (ultra high frequency, ou freq√ľ√™ncia ultra-alta), telefones celulares, resson√Ęncia magn√©tica, radares, redes sem fio (do tipo que pessoas usam para espalhar internet gr√°tis pela vizinhan√ßa, sem se dar conta), Bluetooth (ou dente-azul, o apelido dum rei noruegu√™s) e outras coisas.
=> Da TV para a pipoca.
Alguém (provavelmente americano), num-sei-quando (provavelmente durante a Segunda Guerra), num-sei-onde (essa nem chutando eu sei) descobriu que Micro-ondas aumentam a energia das moléculas de água, fazendo-as vibrar mais rápido, resultando em aquecimento do líquido.
Como toda comida tem um pouco de √°gua, essa energia podia ser usada para esquentar o alimento.
E inventaram o forno de micro-ondas; um forno mágico que só esquenta a comida e não os recipientes.
Os pratos esquentam por condução de calor. O sanduíche quente esquenta o prato encostado nele. Da mesma forma, a umidade do ar esquenta o ar dentro do forno, aquecendo o prato.
Micro-ondas servem para outras coisas, como radioastronomia e transmissão de dados, mas comida quente é melhor. Principalmente se botar farinha depois.
=> Aqueceu, ficou quente.
Radiação infravermelha é basicamente calor.
N√≥s a utilizamos em √≥culos de vis√£o noturna (mesmo sem luz vis√≠vel, corpos ainda emitem calor, captado pelos √≥culos), espectroscopia (t√©cnica usada para medir quanto de cada material existe em determinada subst√Ęncia. Exemplo: quanto de g√°s carb√īnico existe no ar), em previs√£o do tempo (que precisa melhorar um bocado ainda) e em astronomia (astr√īnomos usam TODA a tecnologia dispon√≠vel no mundo), pois a luz infravermelha n√£o √© bloqueada por nuvens de poeira, como acontece com a luz vis√≠vel.
O nome vem do fato dessa faixa de freq√ľ√™ncia ser imediatamente inferior (em energia) √† luz vermelha, que √© onde nossa vis√£o come√ßa a funcionar.
=> E fez-se a Luz Visível!
Experiência interessante: acenda a boca de um fogão e coloque um garfo (os dentes finos ajudam a acelerar o processo (use um garfo com cabo de madeira ou plástico ou enrolado num pano (cuidado para não queimar o pano!))) em contato com a chama. Quando avermelhar, você estará testemunhando a criação de luz visível, nascendo do estágio energético imediatamente inferior (a energia aumenta porque está sendo suprida pela labareda), radiação infravermelha.
Física é o que há!
A transi√ß√£o da radia√ß√£o infravermelha (mil√©sima vez que escrevo a palavra “infravermelho” e n√£o consigo escrever certo de primeira… a mesma coisa acontece com “limitando-se”) para a luz vis√≠vel d√°-se quando uma coisa fica t√£o arrochadamente quente que fica incandescente, avermelhada.
Tudo até agora e daqui em diante é luz, do mesmo jeito que luz é luz, mas a luz que chamamos de luz é, na verdade, luz visível.
Esta vai do vermelho ao violeta e √© composta por uma quantidade virtualmente infinita de cores, e n√£o s√≥ as sete do arco-√≠ris (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta). Estas s√£o apenas concentra√ß√Ķes mais f√°ceis de ver dentro das transi√ß√Ķes infinitas.
Com luz visível dá para fazer um mói de coisa. Ver é a melhor delas.
Todos os que estão lendo isto enxergam, então não preciso discorrer sobre o assunto (e também não dá para explicar percepção subjetiva; tente imaginar uma cor que você nunca viu, por exemplo).
Minha cor favorita de dizer √© “gren√°” (existem pessoas que sofrem de uma condi√ß√£o chamada sinestesia, que as fazem experimentar cores combinadas com outras sensa√ß√Ķes, como ouvir um azul, mas eu dedicarei um artigo completo a isso porque √© muito legal de verdade).
==> Em prol da parcim√īnia e zelando pela paci√™ncia de meus visitantes, divido este artigo em dois. A primeira parte acaba aqui, a segunda vir√° amanh√£. <==

Fibras óticas e limpadores de parabrisa РBlogagem Coletiva

Vejam essa foto (retirada daqui):
gotas.jpg
Isso é água jogada pra cima com o Sol brilhando nas gotas.
Tem algo faltando na foto, mas o quê?
Antes que a tens√£o se torne insuport√°vel (estresse causado por suspense j√° se tornou uma doen√ßa cr√īnica em algumas partes da Gal√°xia), eu dou a resposta: o Sol est√° faltando.
Tudo bem, ele aparece centenas de vezes na foto (oitocentas e setenta e cinco ocorrência. Sim, eu contei, porque eu sou do tipo de pessoa que conta as coisas compulsivamente. Mas demorei um bocado porque eu também sou do tipo de pessoa que se enrola quando está contando muitas coisas iguais), mas não aparece de fato em lugar algum.
Ele também não está sendo refletido pelas gotas. Está na verdade sendo refratado (novamente, eu sou desse tipo de pessoa).
Reflex√£o √© o “retorno de uma onda vindo de uma superf√≠cie, mantendo √Ęngulo de incid√™ncia original”, o que significa que se um motoqueiro n√£o consegue ver seus olhos nos retrovisores do seu carro, voc√™ n√£o pode ver a moto.
Similarmente, quando eu estou dentro da minha garagem, não consigo ver se há carros vindo pela rua. Mas se eu colocar um espelho no canto, aí sim eu vejo a rua.
Por mais pobre que tenha sido esse meu exemplo, é exatamente assim que fibras óticas funcionam. Elas enxergam ao redor de curvas com a ajuda de espelhos colocados nas quinas.
(Para efeito de esclarecimento, fibras √≥ticas n√£o s√≥ n√£o enxergam como tamb√©m n√£o colocam coisa alguma em quinas. Apenas me utilizei de um recurso liter√°rio chamado “personifica√ß√£o”. Mas, de volta ao que interessa.)
Uma fibra ótica é composto por uma parte interna feita de vidro (ou plástico) transparente para o transporte de luz, uma cobertura ao redor do miolo que serve para refletir a luz lá dentro, e uma camada externa, para proteção (criando efetivamente um espelho cilíndrico de reflexão interna).
Uma luz é acesa numa ponta e vai refletindo, através das curvas e dobras, até chegar ao outro lado. Se essa luz estiver piscando (digamos, em Código Morse) e alguém na outra ponta souber interpretar tal intermintência, uma mensagem pode ser passada.
Se essa luz estiver piscando loucamente r√°pido (usando o onipresente C√≥digo Bin√°rio) e houver um aparelhinho do outro lado que consegue acompanhar e entender, uma mensagem √ļtil pode ser transmitida.
Ali√°s, v√°rias mensagens podem ser transmitidas ao mesmo tempo pelo menos fio (geralmente mais fino que um fio de cabelo humano normal).
“Mas como?”, eu os escuto perguntar.
Voltando ao exemplo da moto e do carro: digamos que exista duas motos atrás do seu carro, cada uma com uma placa (no mundo bizarro que eu estou criando para este exemplo, motos têm placas na frente) e você só possa usar um espelho.
Por causa do √Ęngulo, voc√™ s√≥ consegue ver uma das motos e, consequentemente, s√≥ consegue ler uma das placas.
Isso é 1 informação que seu retrovisor passou.
Mas o seu passageiro (sim, voc√™ tem um passageiro, n√£o se assuste, ele √© seu amigo ou c√īnjuge), por estar sentado numa posi√ß√£o diferente da sua, consegue ver a outra moto e ler a outra placa.
O mesmo espelho passou duas informa√ß√Ķes diferentes.
Numa fibra ótica ocorre o mesmo, mas numa escala bem menor.
Dependendo do √Ęngulo de partida, um feixe de luz vai aparecer do outro lado em um ponto e n√£o em outros.
Similarmente, você pode enfiar vários espetos num abacaxi e eles continuarão perfeitamente unitários e reconhecíveis do outro lado.
Um cabo de fibra √≥tica mant√©m uma dana√ß√£o de fios individuais contidos num espa√ßo ainda pequeno (mais fino que o rolo de papel√£o marrom que indica que algu√©m usou o papel higi√™nico at√© o fim e n√£o trocou a bobina), mas mais resistente e mais facilmente manuse√°vel, possibilitando a transmiss√£o de quantidades ridiculamente grandes de informa√ß√£o, quase na velocidade de luz (√© mais lento que r√°dio…), ao redor do mundo (…mas tente mandar uma onda de r√°dio al√©m da curvatura terrestre e voc√™ vai ver qual m√©todo √© melhor) e esticar um cabo no ch√£o sai muito mais barato que mandar sat√©lites para o espa√ßo.
Refra√ß√£o, por sua vez (lembram que era disso que eu estava falando?), √© uma mudan√ßa de dire√ß√£o que a luz (qualquer onda, na verdade) pode sofrer quando passa de um ambiente para outro, facilmente observada quando as densidades (ou “√≠ndices refrativos”, para usar um termo que eu usaria ao redor duma mesa de bar) dos meios s√£o radicalmente diferentes, como as da √°gua e do ar e se d√° pela diferen√ßa de velocidade que ocorre durante a mudan√ßa.
Mas só o comprimento da onda muda, não a sua frequência (explicando porcamente através de uma das minhas analogias ridículas, seria como se, no ar eu demorasse segundo para cair no chão depois de pular para cima, e na água eu demorasse o mesmo segundo para retornar ao ponto de partida, mas conseguisse ir muito mais alto).
Se a foto no começo deste artigo fosse maior (com menos zoom ou tirada mais de longe), o Sol apareceria abaixo das gotas, estragando o retrato (algo a ver com superexposição ou similares).
Ou, como nesse vídeo a seguir (imagens capturadas por mim mesmo, obrigado):

Notem que as gotas se “acendem” apenas quando a luz do poste j√° est√° sobre o carro e n√£o mais vis√≠vel na minha linha de vis√£o imediata.
Um s√≥ l√Ęmpada brilhando dez metros na minha frente n√£o apresenta riscos muito grandes, mas quando essa l√Ęmpadas se multiplica por v√°rios milhares (ainda n√£o consegui contar as gotas no meu parabrisas pois sempre bato o carro antes) e essas minicandelas ficam prostradas a menos de um metro dos meus encandeados olhos sens√≠veis, o mundo ao meu redor corre s√©rio perigo.
Ent√£o foi para isso que inventaram os limpadores de parabrisa.
Eu falei isso tudo, mas bastava mostrar essa foto:
reflexão, refração
Em cima está a refração, embaixo a reflexão.
Coisas da Luz.

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