Para cada escravo que você financiar, eu vou comprar três cintos de couro

Lembram alguns meses atrás quando a Arezzo causou uma imensa polêmica por usar pêlo de animais em seus sapatos?

Eu digo “p√™lo” (ainda na gram√°tica antiga, eu sei, mas o acento √© para efeitos de √™nfase) porque foi isso que chamou aten√ß√£o, afinal, h√° anos que a marca usa pele sem que ningu√©m se importe muito. O problema foram os p√™los. Talvez o pessoal sofra de caetofobia.

Procurando pela data do ocorrido, entro no blogue Espelho M√°gico e leio o seguinte trecho: (sic)

Quando vi no site Chic da Gl√≥ria Kalil a nova cole√ß√£o de inverno da Arezzo intitulada de “PELEMANIA” (clique no link para ver a cole√ß√£o na √≠ntegra) n√£o tive como n√£o ficar impressionada. Sim, os cal√ßados e acess√≥rios s√£o lindos, as peles est√£o super em alta, tudo seria perfeito se n√£o fosse um detalhe: as peles costuradas junto com aquelas pe√ßas s√£o de animaizinhos de verdade. Juro que tentei achar em meio aos an√ļncios dos produtos a palavra “fake” ou “sint√©tico”, mas n√£o encontrei. Em alguns produtos agora √© poss√≠vel ver o nome “pele fantasia” mas n√£o s√£o em todos, e o que nos garante que o maketing n√£o quis disfar√ßar depois do au√™ causado?! As peles foram retiradas de coelhos, cabras, ovelhas e raposas e o que aconteceu? Campanha em massa contra a cole√ß√£o! At√© quem n√£o √© “Eco-Chato” se sensibilizou com isso, que claro, √© um absurdo!

Em seguida, a autora coloca uma foto de um filhote de raposa, uma de um filhote de coelho e outra de uma ovelhinha que faria Lisa virar vegetariana novamente e conclui com: “Ser contra esse massacre de dilacera√ß√Ķes de animais para obter seu couro e pele para fins mesquinhos? N√ÉO TEM PRE√áO!

No mesmo blogue, procurei pela palavra “couro” e, tirando posts sobre xampus que citam “couro cabeludo”, todos os outros falam do material com bastante naturalidade e at√© positivamente, como quando ela sugere que “misturar flores, rendas, cora√ß√Ķes, la√ßos, cores fofas, estampas liberty com tachas, preto, caveiras, couro, sand√°lias e bolsas “pesadinhas”, etc” equilibram “nosso lado delicada e feminina com nosso lado de atitude, sexy e marcante“.

Em outro, narrando as roupas de um desfile de moda, cita que foram usados “a l√£, o couro, peles, tule, mousselines e cetim“. Sem assombro algum.

Em outro blogue, o Glamouragem, a autora escreve:

A nossa Arezzo, que é uma marca de sapatos e acessórios belíssimos Рcá pra nós! Рacabou exagerando MUITO e tirando a pele dos nossos animais (raposa, coelho, cabra e lã de ovelha) em tempo que se fala de sustentabilidade, aquecimento global e outras coisas mais, isso foi mais que um tiro no pé.

Apesar de sustentabilidade e aquecimento global n√£o terem nada a ver com o uso de couro em roupas, fica claro que a blogueira n√£o gosta que tirem a pele “dos nossos animais“.

Mais explicitamente, ela diz: (sic, sempre lembrando)

Arrancar a pele dele só pra se sentir mais bonita? Isso não é bonito e nem bacana, eu teria vergonha de dizer que to usando um casaco de pele de cabra, ou de pele de coelho ou qualquer outro animal, o universo da beleza tem limites e a Arezzo ultrapassou todos eles.

Infelizmente, temos que esperar ainda uma posição da marca, mas já que o assunto ta formado, quero saber a opinião de vocês sobre usar pele de animais e também a outra polêmica que gera entorno disso, se você não gosta de tire a pele dos animais porque acaba comendo carne de boi, galinha, porco, entre outros?

Lembrando, que sou totalmente contra a qualquer tipo de agressão a animais, não sou vegetariana e acabo comendo carne sim, mas não por visão da beleza e sim por questão de sobrevivência e tudo mais, afinal a diferença é enorme entre uma coisa e outra, uma coisa é questão de sobrevivência e outra totalmente diferente é tirar pele de animal pra luxo de socialite.

Hum. Ser√°? Comer carne √© mesmo “quest√£o de sobreviv√™ncia“? Novamente, procurando pela palavra “couro” e eliminando produtos que lavam a cabe√ßa, achei coisas como: “Oi meninas, hoje vim mostrar pra voc√™s as diversas bolsas que est√£o na moda.

Ela mostra ent√£o seis bolsas de couro e conclui com: “Pre√ßos salgados, por√©m as bolsas s√£o super chiques, n√£o acham ?” Nenhuma demonstra√ß√£o de rep√ļdio ao uso de pele animal.

O mesmo acontece no post intitulado “Os sapatos queridinhos do inverno“, que mostra uma ruma de sapatos de couro e alguns at√© de camur√ßa.

Ent√£o, por que tanta revolta com a pele peluda que a Arezzo usou? Ambos posts condenat√≥rios foram publicados no mesmo dia (17/04/11), o que n√£o as impediu de proclamar as virtudes da capa externa de vacas (e cordeiros, no caso da camur√ßa) outros dias. Mentalidade de turba? Sem d√ļvida. Est√° todo mundo amaldi√ßoando a empresa, por que n√£o fazer isso tamb√©m?

A Arezzo, até onde faça parte do meu repertório de conhecimento, é uma empresa que trata bem seus funcionários. Usa couro de bovinos em quase tudo mesmo.

E da√≠? Couro √© bom, couro √© excelente! √Č um dos materiais mais vers√°teis que existe. √Č flex√≠vel, resistente, imperme√°vel e dur√°vel como poucas coisas s√£o.

Outra vantagem do couro: não é feito de gente. Vacas não são pessoas, por mais estranho que isso possa parecer para algumas blogueiras de moda. Aliás, é bem possível que as vacas que serão um dia compradas pela Arezzo vivam uma vida melhor que os escravos da Zara.

A Zara não é recentemente citada nos blogues exemplificados acima. Eu só não entendo o motivo. As garotas (21 e 19 anos) foram tão rápidas em chover fogo e enxofre sobre uma companhia nacional que retira a pele de animais mortos para criar indumentárias que ambas tanto apreciam mas não se manifestam quando seres humanos, colegas de espécie, são escravizados em solo nacional por uma empresa estrangeira? Como assim?

Os restos mortais de um bicho est√£o mais altos na escala de prioridade que a vida de v√°rias pessoas? Hein!?

Muito barulho foi feito por causa da “descoberta” das condi√ß√Ķes “an√°logas √† escravid√£o” (ah, o que seria do jornalismo sem os eufemismos) as quais s√£o submetidos alguns funcion√°rios da Zara, sendo que essa “descoberta” √© t√£o surpreendente quanto √† “descoberta” do Brasil por um portugu√™s, oito anos depois que um italiano provou j√° existir terras antes da beirada do mundo.

J√° √© fato conhecido h√° anos que “escravos da moda” √© um termo apropriado.

Ou√ßam o que uma m√©dica perita do INSS (com experi√™ncia em atender os funcion√°rios que n√£o s√£o considerados escravos) tem a dizer sobre o “lado podre da ind√ļstria da moda”:

A amea√ßa de “se multar minha ind√ļstria, eu demito todo mundo e mudo a produ√ß√£o para a China” deveria ser tratada como terrorismo e dever√≠amos adotar a pol√≠tica estadunidense de n√£o-negocia√ß√£o com terroristas.

O dono de uma f√°brica semi-escravocrata que diz isso deveria ser preso. E quem diz isso √© o C√≥digo Penal Brasileiro, em seu Artigo 149: “Pena – reclus√£o, de dois a oito anos, e multa, al√©m da pena correspondente √† viol√™ncia.

Uma m√©dica dizer das condi√ß√Ķes de trabalhos de uma oper√°ria √© uma coisa. No entanto, por mais for√ßa que sua palavra tenha, nada se compara ao relato de algu√©m que realmente passa por isso todos os dias.

A seguir, o depoimento de uma escrava funcion√°ria da ind√ļstria da moda:

Passar a ferro até cem peças de roupa por hora com direito a folga no domingo se a meta de horas for alcançada (sem direito a hora extra, obviamente) e ser forçada a comer no trabalho (efetivamente devolvendo parte do salário à empresa) dá uma nova perspectiva ao problema.

Eu acho isso t√£o an√°logo √† escravid√£o que diria at√© que √© escravid√£o. Mas se eu reclamar para o Minist√©rio P√ļblico a mulher vai perder o emprego dela para uma chinesa, ent√£o √© melhor eu fingir que vou boicotar a butique da esquina. Pelo menos at√© semana que vem, porque meu guarda-roupa est√° t√£o fora de moda…

E aí? Um courinho mal raspado nem parece mais tão chocante, né?

E ainda tem gente que chama moda de arte. S√≥ se for a arte de ser f√ļtil e cega para a realidade.

Este blogueiro continua preferindo o couro das barrigas de bovinos, caprinos, ovinos, suínos, macropodídeos, répteis, anfíbios em geral e até de hominídeos não-sapiens ao das costas de humanos.

E, me espelhando no exemplo da blogueira acima, apelo emocionalmente para as seguintes imagens:

Exemplo de pessoa

punijao

Exemplo de animal

picanha

Ser contra esse massacre da liberdade individual de seres humanos para obter lucro de dondocas para fins mesquinhos?

NÃO TEM PREÇO!

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