Buscas e nível de escolaridade

Acho interessante como minhas buscas vão aumentando de escolaridade ao longo do tempo, à medida que o nível de complexidade das respostas não me satisfaz.

Para um post vindouro, preciso saber a influ√™ncia do calor na quantidade de cafe√≠na em uma x√≠cara de caf√©. Comecei hoje cedo com ‚Äúquanta cafe√≠na numa x√≠cara de caf√©‚ÄĚ, mudei para ‚Äúcafe√≠na quente‚ÄĚ e passei para ‚Äúquantidade cafe√≠na calor‚ÄĚ, lendo blogs de consumidores.

Em seguida, mudei o idioma e fui para ‚Äúcoffee caffeine quantity‚ÄĚ e ‚Äúcaffeine heat influence‚ÄĚ e fui parar em blogs de baristas.

Segui com ‚Äúcaffeine milligrams heat‚ÄĚ e li p√°ginas de produtores. Mas ainda sem descobrir o que quero.

trimetilxantina-42

Agora j√° estou procurando por ‚Äúcaffeine availability +extraction +methods‚ÄĚ e ‚Äúpharmacological objective measurements of heat acquired trimethylxanthine‚ÄĚ e lendo PDFs de universidades.

Pr√≥ximo passo √© comprar papers com t√≠tulos como ‚Äú1,3,7-Trimethylpurine-2,6-dione adsorption models‚ÄĚ e ‚ÄúGas Chromatography Time-Of-Flight Mass Spectrometry-Based Metabolomics for Comparison of Caffeinated and Decaffeinated Coffee in the Role of Adenosine Receptors and Endogenous Adenosine in Citalopram-induced Inhibition of PKC-dependent Extracellular Ca2+ Entry‚ÄĚ.

Ainda não achei o que quero, mas já sou especialista em absorção de glicose durante exercícios de baixo impacto e conheço a fundo a permeabilidade passiva microfluidica usando interface de gotículas nanolítricas em bicamadas de lipídios, por algum motivo.

Doces, bolhas e hipóteses; uma autoexperiência improvisada


Antes de qualquer coisa (exceto isto aqui <=), um aviso: lembre sempre que pl√°sticos tendem a deformar sob calor excessivo.

Parte 0 – Ideia brilhante

Estava eu h√° alguns dias sem dormir que preste quando, numa bela tarde da noite, n√£o mais que de repente, sou abatido por um desejo incontrol√°vel de vasculhar a geladeira. Eis ent√£o que encontro uma caixa de leite aberta.

Totalmente desprovido de capacidade cognitiva de estimar a data de abertura do longa-vida devido ao meu estado ins√īne de semiconsci√™ncia, lembro de um velho truque culin√°rio que √© passado de gera√ß√£o em gera√ß√£o na minha fam√≠lia (come√ßando com a minha m√£e e findando em mim) que consiste em aquecer o conglomerado coloidal at√© que este ferva ou talhe (se ferver, apesar de nutricionalmente arruinado, pode ser bebido com seguran√ßa; se talhar, serve nem para jogar ralo abaixo porque leite azedo talhado √© capaz de entupir at√© a boca da panela).

Na minha casa nunca teve essa conversa de “beber leite quente ajuda a dormir” (a palavra de ordem era “banho”), logo jamais passou pela minha anuviada cabe√ßa faz√™-lo (era quase um litro tamb√©m) e como leite fervido e esfriado cria uma nata t√£o aderente que Van der Waals teria dificuldade em explicar, eu precisava usar aquilo de alguma forma.

Qualquer fita métrica que passasse ao redor da minha cintura naquele momento poderia prever (caso implementos alfaiáticos possuíssem alguma forma inata de precognição) a ideia que surgiria na minha mente em instantes.
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Doce de leite.

Parte 1 – O doce

Ao ver subirem √† superf√≠cie do l√≠quido n√£o ma√ßarocas de s√≥lidos l√°cteos mas bolhas de ar, estimei volumetricamente a quantidade de leite na panela e despejei o que julguei ser metade daquele valor em a√ß√ļcar, alguns poucos cravos-da-√≠ndia (para dar um toque ex√≥tico) e uma quantidade arbitr√°ria de manteiga (para dar um brilho).

Juntei, de forma sim√©trica, as pontas dos dedos da m√£o esquerda √†s pontas dos dedos da m√£o direita, proferi um “excelente” e me preparei para passar os pr√≥ximos noventa minutos mexendo a mistura enquanto ela atingia ponto de fio.

Quando o volume total inicial fica reduzido pela metade, é necessário um olho experiente para perceber a sutil variação na cor do produto que gradualmente escurece e notar quando o doce está no ponto e pronto para ser retirado do fogo. Como eu não tenho um olho assim, uso uma tabela cromática com 256 tons de marrom.

Nesse momento a √ļnica diferen√ßa significativa entre doce de leite e magma, al√©m da propor√ß√£o entre os minerais, √© que um √© quente o suficiente para derreter rochas enquanto o outro encontra-se a quil√īmetros de profundidade sob o manto terrestre.

Eu costumo ser bastante cuidadoso enquanto estou cozinhando e diretamente proporcional ao cuidado é o desleixo que me toma assim que desligo a boca do fogão.

A comida est√° pronta e o fogo apagado, o que poderia acontecer de errado?

Grande erro.

Parte 2 – As bolhas

Dos recessos mais profundos do meu armário de receptáculos vedáveis, produzo um cilindro oco de polietileno despejando dentro dele a produção da minha noite oniricamente prejudicada e coloco o sistema doce-plástico no parapeito da janela para esfriar mais rápido.

Temendo que a coruja albina que mora nas caixas de condicionadores de ar do meu edif√≠cio se interessasse pela iguaria, achei por bem tampar o recipiente que se encontrava a oitenta cent√≠metros de mim (aproximadamente uma pia de dist√Ęncia), cometendo o erro de n√£o levar em considera√ß√£o a varia√ß√£o de ductibilidade do material sob altas temperaturas (vide aviso no in√≠cio deste artigo) e a perfei√ß√£o do lacre da tampa, cuja bitola √© apenas alguns nan√īmetros maior que a da boca do pote.

Agora, preciso da ajuda da capacidade de abstra√ß√£o de voc√™s. Imaginem a seguinte cena: um l√≠quido ultraviscoso e pegajoso aproximando 160 graus cent√≠grados dentro de um reservat√≥rio que se torna mais male√°vel a cada segundo e cuja vaz√£o est√° rapidamente dando lugar √† press√£o devido a uma tampa (que em condi√ß√Ķes ideais j√° √© deveras dif√≠cil de encaixar com sucesso) sendo inadequadamente for√ßada por um gordo burro e sonolento a uma dist√Ęncia totalmente impratic√°vel.

O que temos ent√£o? Isso mesmo.

Napalm caseiro.

Parte 3 РHipóteses

Após a parte do jato incandescente de creme açucarado que conseguiu desviar da palma da minha mão me atingiu na perna e pé, meu cérebro resolveu me ajudar um pouco e entrou no modo Alerta 2 (Avaliação de danos => Exploração superficial de riscos latentes nos arredores => Escolha de método de reversão de ameaça).

Após finalizar a coleta de dados inciais, a diretiva principal era bastante clara: reduzir temperatura imediatamente.

Como a amea√ßa estava incorporada em um ser pastoso e grudento mas completamente hidrossol√ļvel que cobria √°reas variadas do meu corpo, cautelosamente (porque n√£o gosto de entrar em p√Ęnico) me dirigi ao chuveiro o mais r√°pido que o atrito entre meus p√©s e o piso do apartamento me permitia (porque eu estava em chamas).

Já debaixo de uma coluna semicontínua de água fria (eu tomei um tempinho para verificar se a resistência estava mesmo desligada) pensei, enquanto admirava os tons rubros que partes da minha pele estavam adquirindo, qual seria o próximo passo no tratamento.

O engenheiro de materiais que ocupa um quartinho no lado esquerdo do meu lobo frontal me recomendou que, depois que a temperatura voltasse a n√≠veis aceit√°veis, eu deveria manter uma certa oleosidade sobre os locais afetados para impedir o ressecamento das superf√≠cies e evitar rachaduras e infiltra√ß√Ķes futuras. Logo, assim que parei de delirar, me enxuguei cuidadosamente e comecei a me lambuzar generosamente com um hidratante √† base de √≥leo (que eu s√≥ possuo porque minha caminhadas di√°rias costumam deixar meu entre-coxas assado).

No meio da a√ß√£o pensei: “este √© um momento ideal para conduzir um experimento impromptu!”

Passei o hidratante em todos os pontos fumegantes, exceto no pé, que resolvi deixar como controle.

Neste momento preciso fazer uma pausa para inserir uma das minhas famosas desmitifica√ß√Ķes: popularmente acredita-se que jogar √°gua em queimaduras favorece o aparecimento de bolhas, mas a n√£o ser que o sujeito possua uma lata de ar comprimido ao alcance das m√£os, √°gua √© a coisa que vai esfriar a pele mais rapidamente. O que propicia o aparecimento de bolhas √© a temperatura e o calor espec√≠fico daquilo que o queimou (n√£o pude controlar para isso mas talvez num pr√≥ximo epis√≥dio eu tenha mais autocontrole).

De nada.

Eu poderia também ter tentado outros métodos para comparação, mas nenhum (pasta de dentes, clara de ovo, manteiga) me pareceu justificadamente funcional, então resolvi manter o plano inicial e me ater a testar apenas a hipótese da eficiência real do hidratante.
queimadura na mao.jpg

Hoje, alguns dias depois, tenho bolhas médias indolores na mão, uma bolha gigante e dolorida no pé e uma marca (como de um açoite com chicote em brasa) na perna, também sem dor na região.
queimadura na perna.jpg

As demais √°reas afetadas n√£o podem ser expostas neste blogue, que se orgulha em ser Censura Livre.

O hidratante parece ter ajudado. Meu pé ainda dói consideravelmente.

Sei que n√£o foi um teste cego, mas minha frieza consegue amea√ßar minhas emo√ß√Ķes e subjetividade de um jeito fabuloso.

Precisa ver.
queimadura no pe.jpg

E precisei de tudo isso para conseguir inspiração para escrever um artigo decente enfim.

=¬¶¬§√ĺ

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