Miriam Rita Moro Mine, a Presidenta da Rep√ļblica e vinte e dois segundos no Google

Penso que você acha a vida tão problemática porque acredita que existem as pessoas boas e as pessoas más. Você está, é claro, errado. Existem, somente e sempre, as pessoas más; sendo que algumas delas estão em lados opostos.

– Lord Havelock Vetinari

Pol√≠tica n√£o √© meu fil√£o. Como eu n√£o sou programador, a ideia de um mundo bin√°rio me escapa e eu tento me afastar um pouco dos que s√≥ enxergam o “eu” e o “eles” e isso inclui futebol, religi√£o, cara-ou-coroa, esquizofr√™nicos bipolares e, especialmente, pol√≠tica.

Esclare√ßa-se: meu uso da palavra “pol√≠tica” neste texto diz respeito ao entendimento popular, ou a “defini√ß√£o do torcedor”, como s√≥ eu chamo. No Brasil (e aqui uso a palavra “Brasil” para designar aqueles que est√£o perto de mim com a boca constantemente mexendo para evitar que o c√©rebro comece a funcionar), a palavra “pol√≠tica” significa “PT vs. PSDB, e eu estou de um lado e odeio qualquer um que se declare apoiar o outro”. Comportamento t√≠pico de torcedor, da√≠ minha defini√ß√£o.

Quanto √† defini√ß√£o de “pol√≠tica” como “princ√≠pios que visam guiar decis√Ķes para alcan√ßar resultados racionais”, sou 100% partid√°rio. Mas eu possuo um dicion√°rio em casa ent√£o posso estar um pouco desconectado da realidade.

Arranjem um quarto, vocês dois!

Arranjem um quarto, vocês dois!

Eu, como j√° deixei claro em algumas ocasi√Ķes (de batons com chumbo ao letal caso do camar√£o com vitamina C, passando pelo alarde dos “espelhos falsos”), n√£o sou imune a spams pseudocient√≠ficos mas, agora, parecem estar expandindo a √°rea de mensagens indesejadas na minha caixa de entrada. Passei recentemente a receber emails com cr√≠ticas ao governo (ou, melhor dizendo, emails dizendo que o PT √© feio e bobo). Um deles discorre sobre a (n√£o-) pol√™mica do uso (n√£o-) inadequado da palavra “presidenta” pela corrente (Girino maldito!) atual ocupante da cadeira principal de Presid√™ncia da Rep√ļblica Federativa do Brasil.

Contendo in√ļmeras mudan√ßas de tamanho e cores de letra e toda sorte de √™nfases inapropriadas, o texto, aparentemente escrito por Miriam Rita Moro Mine (mais sobre ela daqui a pouco), nos conta como a “presidenta” j√° foi estudanta quando adolescenta e representanta de ‘etc’, ETC, ~etc~, etc, e minha paci√™ncia √© muito pouca para textos nojentamente escritos e pe√ßo perd√£o por ter feito voc√™s provarem um pouco da orgia gr√°fica que √© aquilo que me mandaram.

O original é bem pior, acredite.

Imagem representativa do estado dos meus olhos e da minha sa√ļde mental ap√≥s ler o email da “presidenta”.

Uma belíssima aula de português.

Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer d√ļvida se tem presidente ou presidenta.

Ser√° que est√° certo?

Acho interessante para acabar com a pol√™mica de “Presidente ou Presidenta”

A melhor forma de acabar com a “pol√™mica” citada √© admitir que ela nunca existiu e quem escreveu isso √© s√≥ muito afetado e precisa cuspir em algu√©m para se sentir bem.
Uma coisa que vou dizer logo agora, estragando a surpresa vindoura: obviamente quem escreveu o trecho transcrito acima n√£o foi a mesma pessoa que elaborou a “bel√≠ssima aula de portugu√™s”, considerando a falta de liga√ß√£o entre frases sem sujeito. S√≥ faltou um “#com√īfas” ali depois da interroga√ß√£o.

Isso e a incapacidade de saber que o g√™nero de “aula” √© feminino e que um substantivo mulher nunca poderia ser “elaborado”. O resto da frase eu n√£o consegui entender, ent√£o n√£o vou comentar.

A imbecilidade toupeirice tapadez suposta “aula de portugu√™s” come√ßa da seguinte maneira:

A presidenta foi estudanta?

Existe a palavra: PRESIDENTA?

Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?

√Č. Que tal?

Segundo o Loogan/Houaiss ‚Äď Enciclop√©dia e Dicion√°rio (ano de 1998 ‚Äď ISBN 85-86185-01-9), na p√°gina 1299 temos o verbete:

PRESIDENTA s.f. Mulher que exerce função de presidente.

Ou seja, essa defini√ß√£o existe numa c√≥pia f√≠sica (a √ļnica que tem perto de mim no momento em que escrevo isto) desde que a r√©, M√īnica Dilma, era apenas uma estudante de doutorado em economia (durante uma pausa que fez em sua carreira pol√≠tica entre 1995 e 1999).

Segundo o FLiP (Ferramentas para a L√≠ngua Portuguesa), que abriga o dicion√°rio on-line Priberam (vejam aqui o verbete “presidenta”):

A palavra presidenta pertence à língua portuguesa.

Podemos fazer esta afirma√ß√£o, por um lado, porque a palavra tem indesmentivelmente curso na l√≠ngua (o que √© poss√≠vel aferir atrav√©s da pesquisa em corpora e em motores de busca) e, por outro lado, porque est√° registada em todos os dicion√°rios e vocabul√°rios contempor√Ęneos consultados, nomeadamente nas principais obras de refer√™ncia da lexicografia portuguesa e brasileira, como o Vocabul√°rio da L√≠ngua Portuguesa de Rebelo Gon√ßalves (1966) ou o Vocabul√°rio Ortogr√°fico da L√≠ngua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (5.¬™ edi√ß√£o, 2009). N√£o sabemos ao certo desde quando √© que este registo lexicogr√°fico √© feito, mas a palavra constava j√° do Novo Dicion√°rio da L√≠ngua Portuguesa de C√Ęndido de Figueiredo (1913) ou do Vocabul√°rio Ortogr√°fico e Remissivo da L√≠ngua Portuguesa de Gon√ßalves Viana (1914).

Desde 1913, hein?

Pronto. Basta dado.

E bem dado.

Se tivesse que chutar, n√£o diria que Dilma est√° a elogiar a gravata de Fernandinho.

Se tivesse que chutar, n√£o diria que Dilma est√° a elogiar a gravata de Fernandinho.

Mas calma, o que é isso aqui?

Meu espirito deu um salto para traz, como se descobrisse uma serpente deante do si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente, a ver se lhe apanhava algum pensamento occulto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, n√£o violenta, uma’placidez salpicada de alegria. Respirei, e n√£o tive animo de olhar para Virgilia; senti por cima da pagina o olhar delia, que me pedia tamb√©m a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um modo administrativo.

Uai!? Quem ter√° sido o analfabeto comunista safado e moderno que escreveu tamanha besteira?

Ora, meus caros, ele n√£o √© analfabeto, apenas de outra √©poca. Mais especificamente 1880, durante o Imp√©rio do Brasil. Mais especificamente ainda, Machado de Assis, no cap√≠tulo 80 do seu livro Mem√≥rias P√≥stumas de Br√°s Cubas (ou, no portugu√™s original do s√©culo retrasado, “Memorias Posthumas de Braz Cubas”).

Então agora já chega, né? O verbete tem pelo menos 133 anos.

Mas n√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£√£o, o spammeiro n√£o quer saber de basta, para satisfazer sua doen√ßa mental ele quer agredir a figura p√ļblica que representa o outro time, objeto do seu √≥dio.

Baixinha, dentu√ßa, gorducha (menos na √©poca do c√Ęncer), sempre de vermelho, andando com um amigo que fala errado e outro que √© bem sujo.

A mensagem indesejada continua, incluindo agora um nome e um título: Miriam Rita Moro Mine РUniversidade Federal do Paraná.

Excelente! Um ponto objetivo para a nossa an√°lise.

Antes de qualquer outra coisa, vejo no Currículo Lattes que Miriam (que é doutora e passará a ser denominada doravante Dra. Mine) é realmente da Universidade Federal do Paraná.

Em seguida, alguns poucos segundos no Google me devolvem um post chamado Esclarecimento, de um sub-blog do Blog do Noblat (tudo bem, n√£o chamaria essa fonte de “confi√°vel”, mas…), onde a autora diz ter recebido um (sic) “desmentido formal” da doutora, que diz:

Prezada Sra Maria Helena

Nunca escrevi absolutamente nada sobre a exist√™ncia ou n√£o da palavra ‚Äúpresidenta‚ÄĚ. Meu nome est√° sendo usado indevidamente como autora de um texto que circula na internet e na imprensa.

Sou professora da Universidade Federal do Paran√° – UFPR, Departamento de Hidr√°ulica e Saneamento, graduada em ‚ÄúEngenharia Civil ‚Äú e com p√≥s-gradua√ß√£o em cursos de ‚ÄúEngenharia‚Äú (Mestrado e Doutorado) e professora de cursos de ‚ÄúEngenharia‚ÄĚ na UFPR (ver meu Curriculum Lattes ‚Äď www.cnpq.br ‚Äď plataforma lattes)

Eu jamais escreveria um texto que não fosse da minha área de atuação.

Miriam Rita Moro Mine

Miriam Rita Moro Mine

Universidade Federal do Paran√°

Departamento de Hidr√°ulica e Saneamento

Caixa Postal 19011

81531-990 Curitiba – PR

Como Maria Helena (a autora do blog citado) diz que havia publicado o spam “coberto de elogios”, acho que n√£o haveria de se retratar t√£o facilmente por causa de uma mensagem an√īnima.

Bom, eu realmente não sei. O que sei é que no blog de Juca Kfouri, aparentemente a propósito de nada, encontro um comentário que lê (sic):

Prezados Circula na internet um e-mail sobre a palavra presidenta como se fosse de minha autoria. Nunca escrevi nada sobre este assunto. Sou professora de cursos de Engenharia e não de Gramática da Língua Portuguesa. Miriam Rita Moro Mine

Renan Calheiros está pegando na aliança. O que será que Lula está cochichando?

Renan Calheiros está pegando na aliança. O que será que Lula está cochichando?

Novamente, como n√£o posso confirmar a identidade da comentarista, n√£o posso afirmar que ela n√£o escreveu o texto que virou spam.

O que posso confirmar √© que existem vers√Ķes mais antigas que n√£o contam com a assinatura dela (cuja primeira refer√™ncia √© justamente em outro post do blog de Maria Helena, em 14 de outubro de 2010).

Por exemplo: em 16 de junho de 2010, no blog webartigos, foi publicado o texto Espelho, espelho meu, existe reda√ß√£o mais bela do que eu? que inclui uma vers√£o do spam afirmando explicitamente que “no e-mail n√£o h√° identifica√ß√£o do autor”.

E, em primeiro de novembro de 2010, um comentarista do blog Palavras e origens – Considera√ß√Ķes Etimol√≥gicas cola o texto referido e √© prontamente respondido pelo autor do blog com a mensagem: “Prezado, esse texto que voc√™ envia (sem autoria) apareceu pela primeira vez no site Levante-se Brasil, cujos organizadores mant√™m essa comunidade no Orkut ‚ÄĒ http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=73197065.”

Eu juro que tentei entrar na tal comunidade (desde agosto do ano passado, de fato, quando primeiro pesquisei a respeito) mas não consegui. Mais um beco sem saída.

Por outro lado, mais uma confirma√ß√£o de que o texto n√£o √© de autoria da Dra. Mine (digo “confirma√ß√£o” porque quem sai por a√≠ colando esse tipo de besteira n√£o tem capacidade intelectual suficiente para editar informa√ß√Ķes – que o digam os comentaristas de um texto meu).

O líquido na taça está numa posição esquisita. Estariam os dois deitados?

O líquido na taça está numa posição esquisita. Estariam os dois deitados?

Continuar minha barragem (ver 4) a partir daqui seria bater em quem est√° no ch√£o.

Mas como eu só luto sujo, deixo o golpe final para o senhor Juscelino Kubitchesk

LEI N¬ļ 2.749, DE 2 DE ABRIL DE 1956

D√° norma ao g√™nero dos nomes designativos das fun√ß√Ķes p√ļblicas.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1¬ļ Ser√° invari√†velmente observada a seguinte norma no empr√™go oficial de nome designativo de cargo p√ļblico:

‚ÄúO g√™nero gramatical d√™sse nome, em seu natural acolhimento ao sexo do funcion√°rio a quem se refira, tem que obedecer aos tradicionais preceitos pertinentes ao assunto e consagrados na lexeologia do idioma. Devem portanto, acompanh√°-lo neste particular, se forem gen√®ricamente vari√°veis, assumindo, conforme o caso, elei√ß√£o masculina ou feminina, quaisquer adjetivos ou express√Ķes pronominais sint√†ticamente relacionadas com o dito nome‚ÄĚ.

E, desta página, concluo da situação que: NÃO CONSTA REVOGAÇÃO EXPRESSA.

√Č presidenta. E quem disse foi um homem, o que significa que est√° certo e deve ser obedecido.

Agora morram todos de hemorroida explosiva.

Finalizando e esclarecendo: eu acho que o mundo só vai ser um lugar bom quando Lula morrer enforcado nas tripas de FHC (ou equivalentes). Mas eu odeio extremistas e acho que todos eles devem morrer da forma mais brutal possível, principalmente os violentos. [1]

Uma frase ótima que achei durante minha pesquisa e vou, daqui em diante, passar como minha (mantendo a tradição dos spams): Não misture vernáculo com ideologia.

2 x 3 = 6. Se esse não foi o sinal da besta, eu não sei o que é.

2 x 3 = 6. Se esse não foi o sinal da besta, eu não sei o que é.

S√£o todos iguais, pessoal. Parem de se enganar achando que existe “o outro lado”.

Concluo com uma frase do próprio spam:

Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..

Essa frase lembra alguma outra?

Texto original do spam para fins de pescar paraquedistas e misturar analogias (sem a bizarra edição gráfica pois sou bonzinho):

A presidenta foi estudanta?Uma belíssima aula de português.
Foi elaborado para acabar de vez com toda e qualquer d√ļvida se tem presidente ou presidenta.
Ser√° que est√° certo?
Acho interessante para acabar com a pol√™mica de “Presidente ou Presidenta”
A presidenta foi estudanta?
Existe a palavra: PRESIDENTA?
Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?
Miriam Rita Moro Mine – Universidade Federal do Paran√°.
No portugu√™s existem os partic√≠pios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o partic√≠pio ativo do verbo atacar √© atacante, de pedir √© pedinte, o de cantar √© cantante, o de existir √© existente, o de mendicar √© mendicante… Qual √© o partic√≠pio ativo do verbo ser? O partic√≠pio ativo do verbo ser √© ente. Aquele que √©: o ente. Aquele que tem entidade.
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionarem à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.
Portanto, √† pessoa que preside √© PRESIDENTE, e n√£o “presidenta”, independentemente do sexo que tenha.
Diz-se: capela ardente, e n√£o capela “ardenta”; se diz estudante, e n√£o “estudanta”; se diz adolescente, e n√£o “adolescenta”; se diz paciente, e n√£o “pacienta”.
Um bom exemplo do erro grosseiro seria:
“A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta.
Esperamos v√™-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta pol√≠tica, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, n√£o tem o direito de violentar o pobre portugu√™s, s√≥ para ficar contenta”.
Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..

P.S. Mas eu achei o texto massa. Queria eu tê-lo escrito, pois é bem meu filão. Só jamais o faria pelas falhas gramaticais aberrantes.

[1] Para os mais lentos de raciocínio, isso foi uma piada do tipo autorreferente de propósito autoderrotado.

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