Quem disse que animais não gostam de fogos de artifício?

Numa matéria (porcamente mal escrita, preciso avisar) publicada em 8 deste, o jornal sorocabano Cruzeiro do Sul informa do banimento (nem tanto, é apenas uma notícia já velha, retificando uma notícia errada do dia anterior, de que a prefeitura local deixou oficialmente de se valer) de fogos de artifício alegando o bem-estar dos animais.

Em setembro do ano passado, o portal G1 publicou algo semelhante mas mais especificamente voltado para a proibição, em municípios do Tocantins, durante a campanha eleitoral devido ao risco de incêndios. No entanto, a matéria também cita desconforto em animais.

Foto por: Andy Wilkes

Foto por: Andy Wilkes

Mas ser√° que os fogos de artif√≠cio (roj√Ķes, foguetes, bombas, traques, bichas, buj√Ķes, peidos-de-v√©a e demais variantes regionais) realmente, causam desconforto em animais? Ou, como alega o Cruzeiro do Sul (sic): “[A]ssustam as aves e outros animais que mudam o comportamento, alterando a rotina”?

Ser√° que os animais se importam tanto assim? Quer dizer, alguns deles at√© se importem, mas o que eu noto durante a √©poca junina (que vai do Dia de Santo Ant√īnio at√© o Dia de S√£o Pedro e n√£o sei se isso se aplica a outras regi√Ķes n√£o-nordestinas) √© que a queima indiscriminada e desnecess√°ria de imensos volumes de madeira por indiv√≠duos despreparados para lidar com poss√≠veis consequ√™ncias √© uma pr√°tica comum, conhecida e incentivada (sem falar nada da “brincadeira” infantil de pular a fogueira j√° perto do fim da festa, quando todos os adultos j√° est√£o devidamente quent√£ozados e ainda menos capazes de intervir e/ou socorrer) e que continua firme e forte, sendo levada adiante gera√ß√£o ap√≥s gera√ß√£o pela mesma subesp√©cie de animais cuja rotina √© justamente a de criar um ambiente sujo tanto auditiva quanto atmosfericamente (visto que n√£o adquiriram evolutivamente[1] capacidade cognitiva adequada para identificar quando est√£o incomodando) e cujo comportamento subumano continua inalterado h√° mil√™nios. Pois n√£o h√° nada melhor que uma celebra√ß√£o europeia pag√£ (a chegada do ver√£o, representada pelo solst√≠cio), refor√ßada pelo uso de dispositivos orientais para o afastamento de maus esp√≠ritos (fogos barulhentos e coloridos) e abastecida por rituais ind√≠genas pr√©-colombianos (o alto consumo de milho, representando a fartura do nosso solst√≠cio de inverno), para reacender a paix√£o dos cat√≥licos pelas fogueiras e manter queimando a certeza prepotente de que o que eles fazem √© sagrado e blindado a cr√≠ticas ou reclama√ß√Ķes.

Pessoas que enchem a boca e estufam o peito ao declarar que o Brasil é o maior país católico do mundo[2] são as mesmas que estão agora segurando a calcinha/cueca nos dentes de ódio de mim (e seriamente pensando num bom uso para as fogueiras acima mencionadas). Ora, se ateus deveriam trabalhar no natal (ou hoje, que por algum motivo que me escapa foi feriado para mim e para toda a Justiça do RN), então por que católicos quereriam negar a origem 100% católica desse espetáculo medieval de adoração à destruição primitiva, irracional e inconsequente que tem seu maior palco precisamente nas áreas mais atrasadas (socialmente) do país mais atrasado (culturalmente)? Aliás; qual outra razão existiria para justificar tal comportamento? Ao que tudo indica, o homo erectus foi extinto ainda no médio paleolítico!

Foto de fonte duvidosa

Foto de fonte duvidosa

Uma coisa, por√©m, n√£o posso negar: admiro grandemente essa conflu√™ncia multicultural de religi√Ķes naturais e sobrenaturais europeias com pitadas do misticismo oriental e rituais incas/maias. Se ao menos tivessem tido tempo para evoluir um pouco essa mentalidade m√°gica que, apesar de claramente proibir a adora√ß√£o de √≠dolos e outras divindades, abre vastas exce√ß√Ķes para est√°tuas, folhetos, templos e comemora√ß√Ķes √† mem√≥ria de sub-deuses e seus poderes santificados que, sob encomenda, fazem desde uma pessoa se pr√©-apaixonar por outra premonitoriamente atrav√©s de uma faca enfiada numa bananeira ou gotas de cera quente pingando numa bacia at√© abrir as portas de um p√≥s-vida que, n√£o obstante ser eterno, n√£o √© infinitamente sem gra√ßa e entediante.

Então, até talvez os animais silvestres e de estimação (como bem frisou o G1) sejam perturbados pelas luzes, pelo barulho e pela fumaça junina, mas creio convictamente que, aos animais que fazem uso dos explosivos (sob os auspícios de uma justificativa hermeticamente neolítica), a queima de fogos e sua eventual cota extra de poluição visual, sonora e atmosférica faça até bem.

Ah! E por falar nisso: vá doar sangue. Você tem mais do que precisa e esta época do ano é ideal para alguma criança perder um dedo ou um olho ou pelo menos parte da pele.

Retirada da Wikipedia

Retirada da Wikipedia

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[1] Que s√£o animais √© indiscut√≠vel, mas n√£o posso dizer que tal conjunto de caracter√≠sticas √© uma esp√©cie de retardo pois precisaria supor que criaturas desse tipo teriam um potencial refinado que lhes foi negado por alguma circunst√Ęncia. Eles s√£o realmente prejudicados ontogenicamente, desevolu√≠dos e retr√≥grados.

[2] No√ß√£o duplamente errada, tanto absoluta quanto percentualmente, visto que 100% da popula√ß√£o do Vaticano √© cat√≥lica e o fato do M√©xico ter mais ou menos cinco milh√Ķes a mais de cat√≥licos na popula√ß√£o geral que n√≥s. Ufa! Menos uma vergonha para este pa√≠s de quinta.

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