Homeopatia, evangelhoterapia, teoria da harmonia energética e eu.

Ontem eu recebi dois emails. Recebi v√°rios, na verdade (a maioria deles sendo de pessoas que acham que meu endere√ßo √© algum tipo de √Ęncora ou registro oficial para todo e qualquer Igor Santos), mas com algum tipo de import√Ęncia foram s√≥ dois.

E quando qualifico import√Ęncia como “algum tipo”, quero dizer “sem a menor import√Ęncia para qualquer ser vivo”. Porque o primeiro dos aludidos veio com o assunto “Colabora√ß√£o” e com o t√≠tulo (sim, t√≠tulo, pois √© como se fosse uma c√≥pia de um panfleto qualquer) “Teoria da Harmonia Energ√©tica“.

Agora vocês vão ver porque estou perdendo meu tempo com isso. O email começa (sic):

A energia √© essencialmente harm√īnica e as formas organizadas de energia, como √© o caso da mat√©ria, que √© uma organiza√ß√£o de energia percebida por nossos sentidos, tendem a voltar a ser energia.

Em primeiro lugar, o que significa “essencialmente harm√īnica”? Porque s√£o necess√°rias pelo menos duas coisas para existir harmonia entre elas. Da mesma forma como n√£o pode existir nado sincronizado individual n√£o posso afirmar que A energia √© harm√īnica. Falta um outro agente a√≠. Mas vamos ignorar esse erro conceitual b√°sico e passar para outro; “mat√©ria √© uma forma organizada de energia”.

√Č? E a energia √©, ao mesmo tempo, harm√īnica e desorganizada? Mas calma! Olhem o que vem a seguir:

Esta volta √† energia √© estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas, ou seja, que contrariam a harmonia energ√©tica. Assim sendo, a√ß√Ķes poluidoras, por exemplo, desencadeiam processos destrutivos da mat√©ria.

Eu vou organizar as afirma√ß√Ķes em uma s√≥ linha para facilitar a visualiza√ß√£o. “A energia √© essencialmente harm√īnica, a mat√©ria √© uma organiza√ß√£o de energia e tende a voltar a ser energia estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas”. Ou seja, o ^j√™nio^ que n√£o consegue escrever duas linhas coerentes entre si acha que a mat√©ria volta a ser harm√īnica por um processo de desarmonia. √Č como dizer que passar com o carro por cima de um viol√£o bem afinado faz com que ele volte a ser afinado pelo fato de ter sido destru√≠do. Ou algo assim, esse email me deixou confuso.

No nosso organismo, a√ß√Ķes perturbadoras da harmonia desencadeiam rea√ß√Ķes, agravadas por novas interven√ß√Ķes perturbadoras da harmonia inicial.

Eu adoro frases como “desencadeiam rea√ß√Ķes”. Me lembra uma picha√ß√£o que vi numa mesa da faculdade onde algu√©m escreveu com corretivo “a mol√©cula do √°tomo”. A frase acima parece dizer muita coisa mas n√£o sobrevive √† mais superficial an√°lise, como outra frase j√° discutida aqui. S√©rio, leia l√° de novo e pense a respeito.

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Na sociedade humana, decis√Ķes desarm√īnicas como, por exemplo, concentra√ß√£o de recursos financeiros em determinadas pessoas, contrariam a harmonia social, que √© um aspecto da harmonia energ√©tica.

Harmonia social √© um aspecto da harmonia energ√©tica? Ent√£o essas a√ß√Ķes socialmente desarm√īnicas s√£o desej√°veis, j√° que foi estabelecido que a desarmonia traz harmonia. E √© harmonia que queremos, n√£o?

Portanto, sigam o conselho do email e concentrem seus recursos financeiros em mim! Vamos atingir o máximo de harmonia possível!

A Teoria da Harmonia Energ√©tica permite o entendimento da individualidade harm√īnica, mesmo sem substrato f√≠sico…” Opa, pera√≠! Preciso interromper aqui. Qual dos dois √©: energia sendo harm√īnica em si mesma ou indiv√≠duos (necessariamente materiais) s√£o harm√īnicos mesmo n√£o tendo forma f√≠sica? Essa deve ser mesmo uma teoria de lascar porque s√≥ seus preceitos j√° est√£o em outro plano de exist√™ncia.

Continuando:

…pois ela se aplica a um conjunto organizado de princ√≠pios harm√īnicos, orientados para pintura, arquitetura, artesanato, inven√ß√Ķes √ļteis, m√ļsica, magist√©rio, verso, prosa, e tantas outras formas de a√ß√Ķes harm√īnicas que encantam nossos sentidos e melhoram a qualidade de vida. Quem age segundo a harmonia energ√©tica preservar√° a individualidade, n√£o importa sob que forma esteja atuando.

Pintura, arquitetura, artesanato, m√ļsica, magist√©rio, verso e prosa, essas inven√ß√Ķes in√ļteis… Sem falar do magist√©rio, esse grande encantador dos sentidos. N√£o passa um s√≥ dia sem que minha propriocep√ß√£o e minha percep√ß√£o temporal n√£o sejam estimuladas pelo magist√©rio.

E, novamente, por que devemos preservar a individualidade? Ela existe? Como “a energia” pode ser harm√īnica sendo desarmonizada pela mat√©ria descondensada enquanto indiv√≠duos sem substrato f√≠sico poluentes e m√ļsicos? Hein?

No par√°grafo a seguir h√° um destaque por minha conta. Vamos ver quem consegue perceber o motivo.

Corruptos, corruptores, maus administradores, criminosos, assassinos, mistificadores, ladr√Ķes, demagogos, parasitas e tantos outros que agridem a harmonia social, simplesmente desaparecer√£o com a desencarna√ß√£o, pois estavam em desacordo com a harmonia energ√©tica.

Todos desaparecer√£o. Seja por desencarna√ß√£o, inuma√ß√£o, falecimento, vencimento do prazo de validade ou qualquer outro eufemismo rid√≠culo que se queira usar. Mas deixando o galopante e relinchante √≥bvio de lado, volto a perguntar: se estamos procurando harmonia, por que devemos nos preocupar em manter a “harmonia social, que √© um aspecto da harmonia energ√©tica” se a “volta √† energia √© estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas” e a “energia √© essencialmente harm√īnica“? Eu quero harmonia! E, para isso, segundo as diretrizes da teoria, preciso ser desarm√īnico.

Esta singela, e despretensiosa, teoria permite que se entenda o que somos e o que seremos na eternidade., inexistindo qualquer julgamento, mas sim harmonia ou desarmonia energética.

E sabem por que n√£o existe julgamento? Porque √© imposs√≠vel entender uma coisa que n√£o faz sentido por ser apenas uma s√©rie de contradi√ß√Ķes. E o sujeito ainda quer entender a eternidade? #com√īfas?

Vou suprimir o nome do remetente para preservar… n√£o sei o que. Ia dizer “preservar seu bom nome” mas n√£o fui eu que enviou o email. Email que, ali√°s, veio com o assunto “colabora√ß√£o” apesar de nenhuma outra palavra a esse respeito ter surgido. Talvez ele queira que eu colabore com a desarmonia.

Tamos aí.

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O segundo email, recebido nos √ļltimos minutos do dia (certamente para algum outro Igor Santos que ainda n√£o aprendeu como emails funcionam) √© de um m√©dico. *suspiro*

Infelizmente, como eu j√° disse aqui, homeopatia √© uma especializa√ß√£o em medicina no nosso querido territ√≥rio pol√≠tico federativo brasileiro. Por mais imoral que isso seja, continua sendo verdade. Falando em imoralidades, eu sempre tremo um pouco quando ou√ßo que o mesmo indiv√≠duo se qualifica como pediatra e homeopata. Como √© o caso desse pr√≥ximo remetente que, apesar de se qualificar tamb√©m como escritor, refere-se a si mesmo na terceira pessoa e acha que campo de assunto de email n√£o precisa de pontua√ß√£o, acentua√ß√£o ou ortografia em geral, j√° que esse veio como “saude homeopatia e evangelho“. Sic, sempre lembrando.

"Eu sei o que estou fazendo, n√£o se preocupe!"

“Eu sei o que estou fazendo, n√£o se preocupe!”

Desta vez eu vou deixar o nome porque, apesar de tudo, nada do que ele escreveu para mim é considerado errado no querido território supracitado e infrapodal (mais sobre pés daqui a pouco).

Gilberto Ribeiro Vieira √© m√©dico pediatra e homeopata e escritor. Al√©m disso, √© professor do curso de medicina da Universidade Federal do Acre ‚Äď UFAC e possui diversos livros publicados que abordam sa√ļde, homeopatia e Evangelho. A concilia√ß√£o desses dois temas rendeu diversas publica√ß√Ķes.

Er, quais dois? Voc√™ citou tr√™s assuntos que, se tentassem, n√£o poderiam ser mais opostos. Mantendo sempre em mente que homeopatia n√£o √© sa√ļde, mas bruxaria e xamanismo, coisa que o evangelho rejeita fortemente (ver 2 Cr√īnicas 33, por exemplo).

O objetivo principal √© mostrar a possibilidade de obter benef√≠cios ao se reunir conhecimento e espiritualidade, mesmo quando se caminha com relativa independ√™ncia entre as religi√Ķes organizadas do cristianismo. Seu trabalho tem m√ļltiplas faces.

Eu juro que li aquela √ļltima palavra como “faeces” mas talvez seja culpa de um vi√©s involunt√°rio meu. Falando em involunt√°rio, viram ali como ele separou claramente “conhecimento” de “espiritualidade”?

E, para um escritor, ele at√© √© meio ruinzinho em evitar ambiguidades. O que significa “relativa independ√™ncia”? Minha interpreta√ß√£o √© que ele √© dependente de algumas religi√Ķes crist√£s mas n√£o tanto quanto algu√©m que pratique somente uma.

Discorrendo sobre as m√ļltiplas f√¶ces do seu trabalho, ele continua:

Na primeira predomina a ci√™ncia e o racioc√≠nio. A jornada come√ßa pela an√°lise detalhada de alguns casos de cura do Cristo no Evangelhoterapia ‚Äď a Ci√™ncia de Amar, juntamente com a descri√ß√£o sucinta das virtudes divinas na cria√ß√£o ‚Äď em Deus Radiografia Simples.

Faltou s√≥ incluir ci√™ncia e racioc√≠nio ali. Especialmente no lugar de “virtudes divinas na cria√ß√£o“.

Em seguida, √© conduzido um estudo rigoroso das palavras e contradi√ß√Ķes de Jesus em O Evangelho Dial√©tico. Por fim, o autor tem o privil√©gio de apresentar a abordagem homeop√°tica num enfoque in√©dito e contempor√Ęneo em Homeopatia e Sa√ļde: do reducionismo ao sist√™mico, publicado por coedi√ß√£o pelo Conselho Regional de Medicina do Acre e a Editora da UFAC.

Novamente, cadê a ciência e o raciocínio? O que o estudo das palavras do Hércules judaico tem a ver com ciência? Porque já sabemos que homeopatia tem exatamente zero ciência e/ou raciocínio atrelados.

E, se o Conselho de Medicina do Acre for igual ao daqui, qualquer m√©dico tem apoio editorial para lan√ßar qualquer livro. Ou gravar um disco, pintar um quadro, expor fotografias, etc. O CRM gosta de incentivar m√©dicos em suas persegui√ß√Ķes art√≠sticas. Ent√£o citar o CRM/AC como parceiro n√£o √© medalha de m√©rito.

Na segunda etapa prevalecem o sentimento e a f√©.” <= Na primeira tamb√©m, amig√£o.

Com esse enfoque, surgem cr√īnicas repletas de ternura e criatividade em Os Filhos de Deus. Ao mesmo tempo, nasce um novo entendimento da rela√ß√£o √≠ntima e profunda entre o Eu e o Pai em DeuS, gra√ßas √† an√°lise meticulosa dos vers√≠culos do Novo Testamento.

√Č sempre interessante quando um escritor se refere a si mesmo como criativo. Especialmente quando isso leva √† frase “gra√ßas √† an√°lise meticulosa dos vers√≠culos do Novo Testamento”. Eu s√≥ queria dizer, j√° que estamos firmemente no mundo das pseudoci√™ncias, que Freud mandou lembran√ßas.

Por fim, o autor descortina o significado original dos chacras desde os p√©s ‚Äď cidadania ‚Äď ao mais elevado do homem ‚Äď intui√ß√£o ‚Äď no instigante Poema das Moradas.

Isso est√° escrito desse jeito. Ele descortinou o significado original dos chacras. E, melhor ainda, o chacra da cidadania reside nos p√©s. Por isso que eu fiz aquele trocadilho l√° em cima, sacaram? N√£o? Nem eu. Especialmente porque o chacra “mais elevado do homem” √© a intui√ß√£o.

E A P¬į—Ź—Ź4 DA CI√äNCIA, CAD√ä!?

"chacras"

Uma terceira vertente √© exposta em um livro que aborda dois temas: Adole*sente, publicado pela Secretaria de Estado de Sa√ļde do Acre, une-se ao Adole*santo e mistura informa√ß√£o cient√≠fica e reflex√Ķes crist√£s, em linguagem direcionada aos adolescentes e √†s pessoas que se relacionam com eles.

Queria muito saber o teor e a qualidade dessa informação científica que o autor cita. Principalmente ajustando a linguagem para adolescentes.

(Vocês viram os títulos? Eu consigo até imaginar o quão estufado ficou o peito do autor ao pensar nesses excelentes jogos de palavras.)

E, encerrando os trabalhos, A Fraternidade em Movimento, obra que cont√©m as experi√™ncias e opini√Ķes do autor sobre um dos amores de sua vida, o Movimento da Fraternidade, iniciativa espiritualista de amor ao pr√≥ximo, gerada em Belo Horizonte em meados do s√©culo XX. Alguns livros est√£o em edi√ß√£o e ser√£o publicados em breve e, portanto, ainda n√£o se encontram dispon√≠veis. O pre√ßo de lan√ßamento √© promocional juntamente com o frete gr√°tis por tempo limitado.

Eu gostaria de reiterar que quem escreveu isso tudo aí em itálico foi o próprio autor, através de seu email pessoal.

Lembram das profundas an√°lises dos evangelho pelo autor? E lembram do 2 Cr√īnicas, cap√≠tulo 33 l√° em cima? A p√°gina p√ļblica do perfil do Facebook do autor mostra que, entre seus favoritos, est√° o Pai Toninho de Xango.

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Pensamento fant√°stico, del√≠rios m√≠sticos, disson√Ęncia cognitiva, dificuldade de autoan√°lise, nega√ß√£o do √≥bvio, teorias conspirat√≥rias. Pseudoci√™ncias v√™m em v√°rias embalagens diferentes. E boa parte delas custa dinheiro.

Boa noite.

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