O que faria você mudar sua opinião?

A discussão – que já se tornou ridícula, sinceramente – que está se desenvolvendo aqui neste meu blogue me fez pensar muito durante o feriado (durante fins-de-semana e feriados eu me desplugo do mundo e fico pensando na vida) e eu cheguei à uma conclusão que deve aumentar minhas dores de cabeça consideravelmente mas que é, ao fim e ao cabo, a melhor de todas: mudar de tática.
Eu parei de responder aos comentários e emails por um motivo simples: “Ideias precisam ser distintas para que Razão lhes possa ser aplicada.”
Essa frase é a segunda metade de uma proferida por Thomas Jefferson (o autor é irrelevante, o que importa é o conteúdo). A primeira parte lê: “a única arma que pode ser usada contra propostas incompreensíveis é o escárnio.”
A frase é ótima, mas o problema que eu tenho com o começo dela é que nem todas as pessoas vão conseguir entender a piada. O que precipitará muitas delas a esculhambar e achincalhar o mensageiro, sem se preocupar com o conteúdo da mensagem.
Eu acredito em tudo o que escrevo aqui a ponto de incluir meu nome, meu email e meu rosto para que qualquer um possa me reconhecer.
Eu não me escondo, não tenho medo das minhas palavras nem receio de desagradar alguns poucos cujas ideias eu ataco.
Até alguns dias atrás eu pensava em proponentes de terapias pseudocientíficas como charlatões que nutrem o mal propositalmente por algum motivo obscuro (ou por simples maldade).
Mas depois de ler todas os comentários que recebi (e as agressões que sofri), notei que a grande maioria dessas pessoas não são mal-intencionadas, mas mal-guiadas ou apenas ignorantes (outras têm tão pouco em suas vidas que ficam lisojeadas achando que um texto foi escrito especificamente com elas em mente. Pena).
Elas querem o bem de todos. Apenas não sabem que estão enganadas.
É muito difícil entender como o mundo real funciona e fácil acesso a informação não implica necessariamente fácil entendimento ou mesmo vontade de aprender.
É normal aceitar a informação que mais se adequa ao seu pensamento como verdadeira e rejeitar qualquer coisa que diga que você está errado.
Cientificamente, a auto-hemoterapia não funciona. Ponto final.
Para que ela seja aceita, é necessário que prove (pois o ônus da prova está na alegação) que funciona.
O modo padrão sob o qual o mundo opera é o de que nada funciona. Não são necessárias provas disso.
Se eu disser que uma maçã cai porque a massa terrestre a está puxando para o seu centro de gravidade, eu preciso provar minha hipótese.
Alternativamente, se eu disser que não é a maçã que cai mas o chão que sobe para encontrá-la, eu preciso provar o que estou dizendo.
Ambos modelos estão errados até que se mostrem certos.
Band-Aid, cuspe, esparadrapo, bosta de vaca, Vick Vaporub e clara de ovo não ajudam a cicatrizar feridas até que provem que sim. Uns vão passar pelo corte, outros não.
O mecanismo usado para que uma hipótese venha a ser aceita é ao mesmo tempo extremamente complexo e extremamente simples.
É simples porque eu só preciso mostrar que aquilo funciona, mas é complexo porque o processo assim o é.
Para provar que uma auto-transfusão curou minha dor nas costas eu precisaria mostrar que sentar direito não curou e que dormir de lado não curou e que o problema não se curou sozinho e que etc etc.
Uma estória só não conta. Se eu jogar um dado só uma vez e cair um 2, eu não posso afirmar que aquele dado vai dar 2 sempre ou que ele só tenha uma face, o 2.
Já se eu jogar o dado seis milhões de vezes, o lado 2 só aparecerá em um milhão de jogadas.
Como é um tanto impraticável testar dor nas costas em um só indivíduo mil vezes, é necessário mil voluntários com dores semelhantes para que um teste razoável seja conduzido e um resultado significativo seja alcançado. E quanto mais gente melhor.
Infelizmente, estatística é um negócio aparentemente de outro mundo; o análogo matemático de “falar grego”.
Voltando ao dado do exemplo acima, eu posso dizer com toda confiança que a face 2 de um dado tem um sexto de chances de cair voltada para cima, mas posso me deparar com um resultado diferente, porque o mundo é assim mesmo. Murphy tem certa razão.
Eu estou atualmente engajado num tratamento anti-calvície que me diz que 60% dos pacientes experimentam estagnação da alopecia.
Isso não significa que pouco mais de metade da minha cabeça vai continuar cabeluda, mas que 6 em 10 homens param de ficar careca. Eu não sei se estou nos 6 ou nos 4, mas continuarei em frente por pelo menos um ano para saber o que vai acontecer (tenho mais que meia chance).
Reiterando e esclarecendo: os testes conduzidos para que se chegasse a esse número não foram realizados em dez homens, mas em centenas ou até milhares.
Uma parcela significativa da população precisa estar envolvida, como numa pesquisa eleitoral.
De que adianta uma pesquisa feita dentro de um escritório onde funciona a base da campanha de um candidato? 100% das pessoas ali dentro devem votar nele, não?
Para que eu saiba a altura médio do brasileiro eu não posso medir só os frequentadores da Associação Norte-Riograndense de Basquete nem tampouco os membros de uma só família de anões. Preciso medir inúmeros sujeitos aleatórios, inespecíficos e não-relacionados.
Anteontem eu não conseguia lembrar da palavra “alfândega”.
Posso concluir então que ninguém se lembra dessa palavra?
Ontem eu estava jogando bilhar e, com uma tacada, encaçapei três bolas.
Posso dizer que todo mundo que jogar bilhar vai sempre encaçapar três bolas com um só movimento?
Não.
E por que não? Porque minha experiência não vale de nada.
Sequer posso dizer que vou sempre esquecer de uma determinada palavra ou marcar tantos pontos num jogo.
Aconteceu comigo, aconteceu uma vez e pronto. Eu sou estatisticamente irrelevante em relação ao mundo.
E mais ainda, um acontecimento em minha vida é estatisticamente irrelevante em relação ao resto da minha experiência.
O seu relato de que a auto-hemoterapia o curou de uma conjuntivite é mais inútil que garçom de costas.
Mas para quem acha que isso é verdade, ver o outro lado é muito difícil.
A pergunta do título é uma chave que abre mentes e revela o que dentro há.
Se a resposta é “nada”, você é um crente (termo abertamente pejorativo), seja para um lado, seja para o outro.
Se nenhuma quantidade de evidências é suficiente para que você aceite um ponto de vista diferente do seu, você é um crente e sua vida (especificamente ou como um todo) está sendo regida por fé pura e simples. Você acredita naquilo e isso é suficiente.
Novamente, para um lado ou para o outro.
Se nada conseguirá provar-lhe que X funciona ou que X não funciona.
“Para quem crê, nenhuma prova é necessária; para quem duvida, nenhuma prova é suficiente.”
Outra resposta para a pergunta é: “provas adequadas.”
Mas aí existe outra armadilha; a adequação.
Eu quero que meu remédio de careca funcione, portanto se eu achar uns três ou quatro estudos que eu considere como bons, vou parar de procurar antes que comece a achar estudos melhores que mostrem o contrário.
É possível também achar estudos igualmente rigorosos com resultados opostos, o que apenas indica que mais estudos precisam ser conduzidos para que um resultado apenas seja obtido. Resultados mutuamente excludentes são suspeitos.
Alguns indivíduos, porém, mantêm padrões mais altos de qualidade.
Cinco ou seis estudos bons não são suficientes. Nove ou dez estudos excelentes sim. Independente do resultado (que é o que eu deveria fazer: achar resultados confiáveis, sem escolher meu lado favorito. Mesmo que isso signifique que eu vou ficar careca).
Integridade é isso. Aceitar uma verdade que não é sua pelo simples fato de ela ser verdade.
Mesmo que ela o prejudique.
A melhor ferramente que existe para se achar a verdade é o Método Científico, pois a Verdade pode até ser uma coisa estática, mas o caminho até ela é tortuoso.
E o Método é 100% íntegro. Se precisar, ele muda de opinião completamente para se adequar a observações mais confiáveis.
Observação, falseamento, replicação.
Veja uma coisa acontecer e investigue o motivo.
Verifique se o fenômeno pode ter outra causa.
Imite o ocorrido.
MAS
Aqui eu estou dando aulas de natação a peixes.
Quem vem por aqui constantemente é porque concorda com o que eu digo e eu estou praticamente falando para as paredes, pois minhas palavras são nada. Apenas reforço amigável das ideias que já existem.
Quem não concorda comigo e apareceu aqui só uma vez, saiu continuando não concordando, agitando os punhos fechados ao ar e gritando “HEREGE!”.
O título deste texto ia ser “cavando buraco n’água” por causa disso.
Por mais que eu me esforce, não atinjo meu objetivo principal: no caso da metáfora, manter um buraco aberto; em realidade, convencer alguém a pensar um pouco mais sobre a vida e ver que existe algo além das preconcepções individuais inatas.
Eu não alego que sei onde a verdade reside; apenas sei mais ou menos o melhor caminho para chegar lá.
p.s. O caminho é longo e cheio de gente brandindo placas de “O Fim Está Próximo” e “Beco Sem Saída” que olham para você com ar de superioridade conseguida às custas de fechamento intelectual irremediável e que acreditam que o mundo acaba no horizonte, onde residem os monstros marinhos. E a imensa maioria dessas pessoas nunca lê além do título do artigo.

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