Auto-hemoterapia e a ignor√Ęncia galopante (e algumas amea√ßas vazias)

Proponentes de uma terapia mecanicamente sem sentido e potencialmente perigosa descobriram (até que enfim) um artigo que eu publiquei em busca de paraquedistas semana passada. Bom ver que deu certo.
Alguns t√™m comentado abertamente no espa√ßo reservado para tal, enquanto outros n√£o t√™m coragem suficiente para “mostrar a cara” (termo muito pouco apropriado quando na Internet) e me atacam por email.
Ameaças vazias como neste comentário de Fernanda:

Se houver dignidade, publique-se
Se n√£o houver, ser√° publicado igual, como disse o Marcelo a√≠ acima, muitos receber√£o este email…

Uuu!! Muitos receber√£o!
Sabe quem s√£o esses “muitos”?
De acordo com a lista de emails repassado por outro comentarista, Marcelo Fetha, eles s√£o: a Procuradoria Geral do Minist√©rio P√ļblico, o Senador da Rep√ļblica Eduardo Suplicy, O Superior Tribunal Federal, uma coisa que eu acho ser uma ONG (Defesa Vida 2009), uma editora da revista √Čpoca e outros que eu n√£o conhe√ßo nem acho que importe muito.
Pois bem, usando a velha t√°tica do “olhe a√≠, se ligue viu!?”, esse pessoal “bonzinho” da AHT que s√≥ quer o bem da humanidade tenta intimidar um blogueiro para que ele se cale e fuja com medo e deixe a terapiazinha in√ļtil deles para l√°.
Aliás, esse mesmo Marcelo mandou, para esse mesmo conjunto aleatório de endereços, links para supostas pesquisas que suportam o tratamento da Auto-Hemoterapia.
O que não é o caso.
Um deles discorre sobre a aplica√ß√£o de oz√īnio (um f√°rmaco), outro sobre um tratamento t√≥pico na bexiga via endoscopia e outro t√£o desacreditado, com resultados t√£o pr√≥ximo do zero e ativamente diferentes dos propostos pela AHT que eu teria vergonha de confundir isso com provas da efic√°cia do tratamento.
Mais uma vez, nenhum dos estudos foi replicado, o que os torna cientificamente in√ļteis.
Mas, como disse outra (via email), eu estou na folha de pagamento da ind√ļstria m√©dica, que abafa esse tratamento perfeito por ele ser barato.
“S√≥ custa o pre√ßo de uma seringa!”, eles dizem. Ser√° que a ind√ļstria de materiais m√©dicos e farmac√™uticos n√£o tem um s√≥ caro√ßo de poder para enfrentar os malvad√Ķes da Medicina, que s√≥ querem seu dinheiro?
Ainda n√£o vi uma propaganda na TV de uma f√°brica de seringas dizendo: “a auto-
hemoterapia √© o caminho, se informe.”
Num mundo onde ainda se vende Epocler (que mudou o status de remédio e virou um neologismo lindo: hepatoprotetor), não seria difícil empurrar algumas seringas.
Alternativamente, existem pessoas educadas, como um Luiz Fernando, que se ofereceu a me mandar material caso eu tivesse interesse.
Aprendam com ele. N√£o quis me empurrar goela abaixo, foi gentil e elegante ao perguntar se eu estaria interessado em algumas palestras que ele coletou.
O problema é que isso é apenas mais do mesmo. Uma pessoa pode falar até cair a língua que não vai me convencer de que um tratamento médico funciona.
Medicina não vive de discurso. Um tratamento, para ser confiável (ou, no mínimo, etico), precisa passar pelas garras do Método Científico.
E outra, depois que passa n√£o fica imune. Toda a Ci√™ncia √© continuamente atacada por todos os lados. Se continuar em p√© √© porque presta. Se cair, foi merecidamente (vide a Lei da Gravidade, que apesar de ser razoavelmente simples e bem estabelecida, continua sendo “derrubada” e atualizada para se conformar melhor com observa√ß√Ķes).
Conselho para os que querem evitar caixas de email lotadas de verborragias incoerentes e amea√ßas rid√≠culas: n√£o mexam com as vacas sagradas dos outros. Disson√Ęncia cognitiva d√≥i muito e alguns indiv√≠duos n√£o reagem bem a dor.
ATUALIZAÇÃO
Est√£o me pedindo provas e provas do que estou falando. Mas gostaria de lembrar a todos que quem est√° fazendo alega√ß√Ķes extraordin√°rias n√£o sou eu.
Não sou eu que quer curar todas as doenças do mundo com mágica.
√Č uma pena que essas pessoas confundam “anedota” com “prova”.
P.S. Tem um a√≠ constantemente me chamando de “charlat√£o”. N√£o acho que ele saiba o que isso significa.

Auto-Hemoterapia e a medicina da Idade Média de mãos dadas

Sem ter o que fazer e procurando por pajés e feiticeiros modernos, me deparo com uma tal de Auto-hemoterapia (nome já devidamente adaptado às novas regras gramaticas) e uma rusga entre um médico e um jornalista acerca disso.
A ANIVSA proíbe, o Conselho Federal de Medicina apresentou um parecer sobre o assunto, dizendo que sua prática é potencialmente perigosa e o médico Munir Massud, escalado pelo tal conselho para preparar o documento (posteriormente apreciado, revisado e corrigido pelos 28 conselheiros federais do órgão) passou a ser furiosamente atacado pelo jornalista Walter Medeiros.
Um médico professor e pesquisador prepara um documento, a pedido do CFM, após decisão da ANVISA e um jornalista o ataca como sendo desonesto?
Achando um tanto quanto curioso, fui atr√°s de mais informa√ß√Ķes (novamente, era um dia ocioso, sem muito o que fazer).
Em primeiro lugar, auto-hemoterapia n√£o consiste em tratar a si mesmo ouvindo Nx Zero ou Fall Out Boy, pois isso seria auto EMO terapia.
Ou nem isso, apenas auto emossificação, nada que qualquer adolescente hoje em dia já não faça.
Auto-hemoterapia √© o ato de retirar sangue de uma veia e injet√°-lo em um m√ļsculo da mesma pessoa.
O “auto” a√≠ √© falacioso, pois quem faz o procedimento √© outra pessoa, em geral um m√©dico.
Mas se médicos fazem então é beleza, certo?
Alguns m√©dicos tamb√©m praticam homeopatia e acupuntura, dois m√©todos n√£o apenas comprovadamente falsos como tamb√©m potencialmente perigosos que n√£o trazem qualquer resultado ben√©fico aos pacientes al√©m do efeito placebo (agulhas podem causar inflama√ß√Ķes ser√≠ssimas e homeopatia √© caro e pode desviar recursos de, e aten√ß√£o a um tratamento realmente eficaz).
Zero efic√°cia e possibilidade de complica√ß√Ķes? Passo.
M√©dicos s√£o pessoas e como tal est√£o sujeitas a sugest√Ķes e preconceitos e uma das maiores for√ßas naturais que existe √© a Pregui√ßa.
√Č t√£o mais f√°cil receber um dado e deixar por isso mesmo. Procurar corrobora√ß√£o adequada e confi√°vel √© muito mais dif√≠cil que simplesmente acreditar.
(E existem ainda os charlat√Ķes sem car√°ter que les√£o propositalmente e que, como agravante, inventam est√≥rias mirabolantes para justificar seus m√©todos s√≥rdidos de infligir dor em outrem, como um tal de Francisco Rodrigues, que admitiu descaradamente em um peri√≥dico natalense (Di√°rio de Natal) que tratava doentes mentais com passes (pr√°tica supersticiosa que envolve “esp√≠ritos” tomando os corpos dos vivos) e que, pasmem, pois eu estou 100% indignado, criou a disciplina opcional Medicina e Espiritualidade na UFRN.)
Auto-hemoterapia (que daqui para frente ser√° referida por AHT para evitar repeti√ß√£o) n√£o possui efeitos adversos comprovadamente atrelados a ela (o que n√£o √© o mesmo que dizer que ela est√° livre de efeitos colaterais indesejados, mas apenas que estes ainda n√£o foram conectados sem sobra de d√ļvida √† terapia) por simples falta de observa√ß√Ķes controladas.
Isso é o que a literatura me diz, mas eu digo um efeito adverso agora: dor.
Para qualquer tratamento que não traga benefício, o menor desconforto já é um malefício por demais grande.
√Č como um tapa na cara; por menor que o dano causado seja, a plena falta de benef√≠cios torna o menor ind√≠cio de dor algo insuport√°vel.
E essa tal de AHT serve para o quê?
Segundo Luiz Moura, proeminente proponente da precitada pr√°tica; para tudo (incluindo c√Ęncer e HIV)!
Segundo a Ciência Médica, para nada!
Entre centenas de anos de melhoria, milhares de estudos e milh√Ķes de profissionais pesquisadores e um indiv√≠duo, aposto sempre no primeiro grupo.
Quer revolucionar a medicina? Prove.
Apresente um projeto de pesquisa de uma condição específica (não pode ser tudo ao mesmo tempo) a uma comissão de ética, mendigue dinheiro de uma universidade e siga o método científico com a metodologia adequada.
Todo pesquisador faz isso (principalmente a parte da mendic√Ęncia), por que alguns se acham perseguidos e merecedores de tratamento diferenciado?
Descobriu o moto-perpétuo da Medicina e acha que não precisa provar a ninguém?
Popper discorda de você.
Se acha o novo Newton e acha que é mais sabido que toda a comunidade médica?
Occam est√° de olho (e ele anda armado).
Voltando à confusão que me chamou atenção.
A maior parte das cr√≠ticas (uma busca no Google por “Munir Massud” mostra v√°rios resultados, podem ir atr√°s) s√£o simples ataques √† pessoa do m√©dico.
Nenhum comentário que li, tanto do seu arquirrival Walter Medeiros (jornalista E poeta!) quanto de outros colegas seus são críticas ao documento, mas ao sujeito que primeiro o escreveu.
Eles não conseguem sequer citar trabalhos razoáveis que cubram seus argumentos, apenas estiram a língua e chamam de bobo.
Na minha terra, o nome disso é meninice. Na terra dos mais instruídos, chama-se ad hominem.
Não consegue discutir no mesmo nível intelectual? Seus argumentos não passam de xingamentos e tentativas de desacreditar o oponente?
Parabéns, você é um falacioso!
H√° at√© um que o acusa de “criminoso” por ele assinar o documento como Professor Doutor Munir Massud.
Oxente, acusar Munir Massud de criminoso porque ele assina um texto como “professor doutor” √© de uma cretinice esf√©rica.
Em primeiro lugar, √© tradicional se referir a m√©dicos (e a advogados) por “doutor”.
Isso é um sinal de respeito pela dignidade da profissão e uma formalidade tradicional.
M√©dicos s√£o doutores em Medicina, n√£o necessariamente doutores acad√™micos. Contestar o fato tradicional (eis a palavra novamente) de que “m√©dico” pode ser substitu√≠do por “doutor” √© simplesmente desonestidade intelectual, visando somente ofender a honra e sujar o nome de Munir.
A n√£o ser que o sujeito tenha sido criado numa caverna por um louco, ele sabe o que “doutor” nesse contexto significa.
(E sim, quando eu digo “cretino” estou me referindo √† patologia de retardo mental.
Quem escreveu aquele texto tem duas op√ß√Ķes: ser extremamente idiota (novamente, outra forma de retardo) ou ser irremediavelmente sem car√°ter. Escolha.)
Em segundo lugar, ele d√° aulas numa universidade, logo pode se denominar “professor”.
E a premissa inicial ainda √© falsa! Massud n√£o foi o √ļnico respons√°vel pelo documento.
Ele n√£o fez uma apresenta√ß√£o .pps e saiu espalhando pelos emails de seus conhecidos. Ele procurou informa√ß√Ķes s√©rias (MedLine, EndNote) e teve seu artigo revisado e corrigido por um painel de 28 pessoas.
Houve ainda outro teorista da conspiração que sugeriu que a AHT não é aceita pela comunidade médica por ser uma terapia barata.
Beber água, caminhar meia hora por dia e dormir bem são atividades proibitivamente caras, por isso que são tão recomendadas por qualquer médico. Né?
Lavar as m√£os antes de comer ent√£o, aff! Os olhos da cara!
Meus xingamentos n√£o constituem ad hominens pois s√£o baseados em evid√™ncias emp√≠ricas. √Č perfeitamente poss√≠vel argumentar com algu√©m de igual para igual e continuar a cham√°-lo de “feio” se ele assim o for.
Ou mesmo que n√£o seja, argumentos s√≥lidos podem ser constru√≠dos e temperados com esculachos. Por exemplo: “Voc√™ est√° errado porque est√° usando estudos com metodologia d√ļbia que n√£o foram propriamente cegados e randomizados e que n√£o cont√™m o menor valor cient√≠fico, seu imbecil!”
A prop√≥sito, muito do que √© dito por a√≠ √© fruto exatamente daquilo: estudos porcamente mal feitos, sem controles, n√£o-cegos, n√£o-randomizados, n√£o-revisado por pares, n√£o-replicados e divulgados em publica√ß√Ķes sem crit√©rio.
Ou, pior ainda, divulgado em meios de mídia ANTES de passarem pelo crivo de pessoas que realmente sabem do que dizem.
Foi o que fez Luiz Moura, que distorceu estudos de um médico chamado Jesse Teixeira (já consideravelmente mal estruturados por terem sido idealizados antes de exigências metodológicas confiáveis) que se referiam a tratamentos de pós-operatórios.
Luiz Moura pegou a conclusão de Jesse e a esticou, sacudiu, dobrou, enrolou e distorceu até chegar a uma conclusão própria: AHT é a cura de todos os males!
URR√ö!!
Se você pegar um bolo solado e queimado feito de laranja azeda com farinha mofada e bater no liquidificador, temperar com alho e coentro, deixar no freezer por doze horas e reaquecer no micro-ondas e tentar comer, perceberá rapidamente que manipular algo que já começou ruim vai apenas incrementar a ruindade.
Ciência é como culinária nesse aspecto, mas várias ordens de magnitude maior.
Mexer em algo que desde o come√ßo j√° est√° fora do escopo cient√≠fico s√≥ tende a aumentar ainda mais a dist√Ęncia entre aquilo e o que √© cientificamente aceit√°vel.
E j√° que mencionei algumas fal√°cias, aqui vem outra: alguns defensores da AHT afirmam que ela √© boa por ser antiga (talvez n√£o com essas palavras, estou interpretando um pouco), pois baseiam sua efic√°cia nas observa√ß√Ķes dos trabalhos do Dr. Teixeira. Se for um Apelo a Antiguidade, √© um muito do rei√™ra, pois tem nem 80 anos direito. Velho o suficiente para ser ultrapassado, mas n√£o o bastante para ser ‘antiguidade’. Igual a um Chevette.
E em medicina, quanto mais antigo o tratamento, menos crédito merece (a não ser que continue se mostrando bom ao longo dos anos).

ATUALIZAÇÃO: hoje, primeiro de novembro, venho adicionar dizendo que meus comentaristas crentes (veja abaixo) demonstram que minha interpretação acima é confiável. Acreditam na terapia somente por ela ser antiga.

Mais uma vez, a ANVISA proibiu a prática da AHT e pediu ao Conselho Federal de Medicina que elaborasse um parecer com base científica.
Hoje em dia n√£o apenas Vigil√Ęncia Sanit√°ria e o CFM proibem essa pr√°tica como tamb√©m o fazem os Conselhos Federais de Enfermagem e Farm√°cia.
A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (notem a falta do “auto” no nome) apresentou o seguinte comunicado:

“A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia- SBHH, frente a in√ļmeros questionamentos recebidos, tanto por parte de profissionais m√©dicos como n√£o m√©dicos, relacionados √† suposta pr√°tica hemoter√°pica denominada “auto-hemoterapia”, vem a p√ļblico esclarecer o que se segue:
‚ÄĘ A Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia N√ÉO RECONHECE do ponto de vista cient√≠fico o procedimento “auto-hemoterapia”;
‚ÄĘ N√£o existe na literatura m√©dica, tanto nacional quanto internacional, qualquer estudo com evid√™ncias cient√≠ficas sobre o referido tema;
‚ÄĘ Por n√£o existirem informa√ß√Ķes cient√≠ficas sobre o referido procedimento, s√£o desconhecidos os poss√≠veis efeitos colaterais e complica√ß√Ķes desta pr√°tica, podendo colocar em risco a sa√ļde dos pacientes a ela submetidos;
‚ÄĘ Agrega-se a este parecer, a Resolu√ß√£o do Conselho Federal de Medicina- Resolu√ß√£o CFM no 1.499/98, que em seu artigo 1¬ļ, “Pro√≠be aos m√©dicos a utiliza√ß√£o de pr√°ticas terap√™uticas n√£o reconhecidas pela comunidade cient√≠fica”.
Frente ao exposto, a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia n√£o recomenda a pr√°tica desse procedimento.
O comunicado √© assinado pelo Presidente da SBHH, Dr. Carlos Chiattone”

Buraco cavado, caix√£o lacrado, cal por cima.
D√ļvidas, sugest√Ķes ou esculhamba√ß√Ķes, me procurem. Meu email est√° por aqui em algum lugar.
Eu procurei o jornalista Walter Medeiros para comentar o caso, mas ele se mostrou envergonhado e não quis gravar entrevista (mentira, apenas sempre quis dizer isso e, como agora posso oficialmente ser tão jornalista quanto ele, posso dizer esse tipo de coisa também).
O Dr. Munir, no entanto, estava disponível e me ajudou com material (verdade, mas não confiem em mim, pois eu minto tanto quanto vocês).

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam n√£o necessariamente por email. Achar posts, imagens, tu√≠tes, v√≠deos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso n√£o √© dif√≠cil. O dif√≠cil √© confirmar a veracidade das informa√ß√Ķes antes de sair por a√≠ espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alega√ß√Ķes s√£o, via de regra, as seguintes: as moedas falsas s√£o mais leves, n√£o brilham como as verdadeiras, n√£o s√£o atra√≠das por √≠m√£s, os detalhes s√£o grosseiros, a falsa √© “mais oval”, o tamanho dos detalhes “s√£o um pouco maior, pouca coisa, mas s√£o!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que n√£o significa que n√£o estejam todos certos, visto que n√£o existiria s√≥ um fals√°rio fazendo moedas sempre no mesmo padr√£o. O problema aqui √©, como muitos outros problemas na vida, ignor√Ęncia dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, voc√™ me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo √© uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

√Č como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois √©, ambas s√£o joaninhas). Se voc√™ sup√Ķe previamente que uma delas √© falsa, voc√™ vai concluir que uma delas n√£o √© uma joaninha. N√£o porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contr√°rio da primeira, √© sim uma aranha disfar√ßada) ou outra esp√©cie de inseto, mas porque voc√™ chegou a essa conclus√£o antes de obter dados suficiente para qualquer conclus√£o, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso √© comum em apologistas de pseudoci√™ncias como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles j√° come√ßam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X √© geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles n√£o entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contr√°rio). Os que s√£o um pouquinho mais dispostos da cabe√ßa (e n√£o pegam toda informa√ß√£o acerca de sua religi√£o pr√°tica exclusivamente atrav√©s de um blog escrito todo em mai√ļsculas e negrito) at√© se d√£o ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas j√° tendo certeza de que, digamos, exerc√≠cio e dieta balanceada n√£o funcionam, pois o que funciona √© s√≥ sua religi√£o pr√°tica e s√≥ pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religi√£o pr√°tica. No artigo tem algo como “mas certas pessoas t√™m problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARR√Ā! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL EST√Ā ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabe√ßa de Rorschach. No caso da pseudoci√™ncia ela precisa n√£o ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detect√°vel por qualquer instrumento que n√£o minha pr√≥pria f√© e precisa ser algo que n√£o me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que √© certo √© a moeda que eu “sei” que √© verdadeira. Como a outra n√£o se enquadra nas categorias arbitr√°rias pr√©-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circula√ß√£o moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modifica√ß√Ķes em suas caracter√≠sticas f√≠sicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na pr√°tica, as modifica√ß√Ķes na moeda de R$0,50 ‚Äď de disco prateado ‚Äď e na de R$1,00 ‚Äď de n√ļcleo prateado e anel dourado ‚Äď s√£o pouco significativas. Al√©m de apresentarem pequenas altera√ß√Ķes de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. J√° os desenhos de ambas n√£o sofreram nenhuma modifica√ß√£o.

E, saca s√≥!, nem cupron√≠quel e nem alpaca (liga de cobre, n√≠quel e zinco) s√£o ferromagn√©ticos e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos por √≠m√£s. S√£o tamb√©m ligas mais male√°veis que a√ßo, ficando mais propensas a riscos e pequenas deforma√ß√Ķes. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, s√£o ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na Rep√ļblica ou p√©-de-galinha no Bar√£o de Rio Branco √© prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil √© um pa√≠s vagabundo e vira-lata, que acha que √© primeiro mundo e cunha moedas de cupron√≠quel/alpaca mas n√£o tem sequer condi√ß√Ķes de recolher moedas que j√° circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cupron√≠quel/alpaca depois de apenas tr√™s anos porque eles s√£o caros demais e o custo n√£o √© compensado pelo valor irris√≥rio da face. [3]

Mas o Brasil √© um pa√≠s rico! E auto-hemoterapia cura c√Ęncer! E shiatsu tem comprova√ß√£o cient√≠fica! E homeopatia n√£o √© s√≥ √°gua e a√ß√ļcar! E o PT √© diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” s√£o apenas a√ßo-inox pintado. Cobre (mat√©ria-prima do bronze, do cupron√≠quel e da alpaca) √© caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes p√ļblicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher cap√īs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso Рtalvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensa√ß√£o de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da popula√ß√£o que nunca leu uma s√≥ linha de Sir Doyle e n√£o sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por a√≠ acusando algu√©m de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mist√©rios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

1 Macaco e Meio, um filme com Luisa Mell sobre a invasão do Instituto Royal que ninguém quer ver

O portal G1 fez uma mat√©ria entrevistando Mayana Zatz, geneticista de renome (termo relativo, mas…) e sua meio-prima Marina Zatz, ativista ambiental que invadiu (nada de relativo aqui, invas√£o √© crime, vide artigo 202 do C√≥digo Penal) o Instituto Royal e que prefere o codinome ‚ÄúLuisa Mell‚ÄĚ ao seu nome real.

A ‚Äúativista‚ÄĚ (que n√£o ser√° chamada de terrorista aqui porque ainda n√£o definimos legalmente o termo) aparenta ser tamb√©m malabarista de ideias, se utilizando do expediente j√° t√£o conhecido dos pseudocientistas (homeopatas, auto-hemoterapeutas e outros xam√£s) de contar apenas a verdade que lhe conv√©m completando os buracos com informa√ß√Ķes falsas e mentiras esteticamente bonitinhas.

(Recomendo que leiam a mat√©ria j√° linkada l√° em cima. Assim minhas cita√ß√Ķes do que Marina diz, entre aspas e italizadas, far√£o mais sentido.)

A primeira parte da pergunta sobre a possibilidade da extin√ß√£o de testes em animais √© respondida com “[√©] poss√≠vel e √© necess√°rio” enquanto a segunda parte, sobre quais seriam as alternativas, jamais √© sequer lembrada. Marina n√£o quer alternativas, apenas o fim do status quo. Desde que os avan√ßos cient√≠ficos que permitem que ela fa√ßa luzes nos cabelos e use batom e base matificante n√£o sumam, obviamente.

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Marina Zatz (voc√™ deve preferir “Luisa Mell” mas, em n√£o concordar com o uso de animais para o benef√≠cio da humanidade, n√£o acho justo usar o “mel” do seu nome), se voc√™ sabe com tanta propriedade como √© poss√≠vel, por que n√£o mostra a alternativa? Se √© t√£o necess√°rio, por que o maior poder do universo (a Economia) continua tolerando e preferindo tais m√©todos? Talvez voc√™ n√£o saiba ou prefira esquecer que um dia soube, mas testes em animais s√£o a etapa mais cara de uma pesquisa antes de chegar nos humanos. Se “testes cient√≠ficos em animais n√£o s√£o um sistema de teste robusto” e existe alternativa (e “vasta literatura a respeito” ‚Äď mais sobre isso daqui a pouco), por que a Big Pharma, que adora sarrabuiar em dinheiro, continua desperdi√ßando notas alt√≠ssimas fazendo testes em animais?

Voc√™ afirma que a “ind√ļstria farmac√™utica tem mais fracassos (…) do que sucessos” e que “nove em dez drogas experimentais falham em estudos cl√≠nicos (…) com base em estudos laboratoriais e animais“. Se testes em animais erram a previs√£o 90% das vezes como voc√™ diz, qual outro m√©todo tem um grau de acerto melhor? Voc√™ inclui estudos laboratoriais. Voc√™ quer que deixemos de usar animais E deixemos de usar laborat√≥rios tamb√©m? Como vamos testar efic√°cia e seguran√ßa ent√£o? Em pedras ao ar livre? Porque pela sua pr√≥pria admiss√£o os animais que “[p]ossuem caracter√≠sticas relacionadas evolutivamente” a n√≥s j√° n√£o servem e, mais para frente, diz que humanos tamb√©m n√£o podem ser envolvidos, como vamos criar compostos para salvar mais vidas? Vidas at√© desses mesmos animais que voc√™ quer ver saud√°veis e saltitantes fora dos laborat√≥rios.

Voc√™ diz ainda que esses erros “n√£o s√£o revelados por motivo √≥bvio: mercado“. Se eles n√£o s√£o revelados… como voc√™ sabe deles? E o que o mercado tem a ganhar com uma taxa absurda de erros dessa?

Voltando ao seu uso de “vasta literatura a respeito“. Onde voc√™ encontrou essa vasta literatura? Na Vogue ou na Marie Claire? Porque se voc√™ descobriu essa mina de informa√ß√£o em peri√≥dicos cient√≠ficos, no momento em que voc√™ diz que “Cientistas partem do pressuposto err√īneo” voc√™ est√° criando um paradoxo onde voc√™, ao mesmo tempo, acredita no que os cientistas escrevem na literatura E sabe, com uma propriedade √≠mpar que seu curso de direito a conferiu, que eles est√£o errados.

Mas não, o que está acontecendo aqui é que você prefere acreditar na informação que mais lhe seja confortável. Isso tem vários nomes; viés de confirmação, seleção discriminatória, falácia do atirador e etc, mas todos se resumem apenas a desonestidade intelectual. Você desacredita completamente na ciência e faz questão de tentar sujar o nome dos cientistas mas usa tanto dados científicos quanto o bom nome de qualquer cientista que você acha que concordam com seu ponto de vista enviesado. Só isso.

Ou você sabe que está errada e está sendo vilmente desonesta, ou não sabe que está esfericamente errada e está sendo hiperesfericamente ignorante.

V√°rios m√©dicos e cientistas americanos j√° s√£o contr√°rios a experimentos com animais, n√£o pela √©tica, mas sim por isso atrapalhar a ci√™ncia!“. E por que voc√™ acredita logo nessa minoria? Porque cita apenas um “ex-secret√°rio de Servi√ßos Humanos e de Sa√ļde dos EUA” e n√£o as dezenas de outros? O que esses poucos equivocados (n√£o sei porque voc√™ incluiu m√©dicos ali, sinceramente) t√™m de t√£o especial para voc√™, fora o fato de seu equ√≠voco ser o mesmo deles?

A segunda pergunta √© meio mal feita e sup√Ķe v√°rias coisas baseadas em achismos, mas sua resposta, Marina, √© ainda pior. Voc√™ diz que n√£o √© √©tico usar animais para beneficiar humanos. Voc√™ s√≥ n√£o definiu o que entende por “√©tica”, porque a alternativa, baseada na pergunta, pode ser resumida como “√© √©tico n√£o beneficiar humanos”. Voc√™ misturou humanos e demais animais no mesmo bolo e tentou sambar com palavras fortes como “instrumentalizar”, “mero meio”, “ser dotado de intelig√™ncia, consci√™ncia, projetos” (caracter√≠sticas humanas que voc√™ trouxe para o picadeiro por conta pr√≥pria e est√° misturando cretinamente numa discuss√£o sobre animais). E sinto informar, mas com essa linha de argumento √© voc√™ que est√° convertendo “seres vivos complexos em mero instrumento para nossos desejos e necessidades“. Quando o “desejo” √© o de melhorar a vida humana (e animal, gra√ßas a rem√©dios e tratamentos, nunca esque√ßa disso) e o “instrumento” √© uma pr√°tica controlada e constantemente refinada para justamente se aproximar cada vez mais desses “direitos mais b√°sicos” pelos quais voc√™ clama, suas palavras n√£o parecem mais t√£o apocal√≠pticas assim, n√©?

Voc√™ finaliza sua resposta com “al√©m de injusto, √© imoral“. Muito mais imoral √© deixar algu√©m morrer de tuberculose, muito mais injusto √© algu√©m perder uma perna por falta de insulina. Mas isso √© apenas uma opini√£o minha. Talvez voc√™ n√£o concorde com a minha defini√ß√£o de moralidade e justi√ßa.

A terceira pergunta (algo como “√© melhor assumirmos o bem-estar animal como prioridade, em detrimento √† nossa sa√ļde”, mais ou menos) √© at√© um tanto pior que a segunda em grau de direcionamento da resposta, mas voc√™ consegue enfiar os dois p√©s na boca mesmo assim.

Voc√™, Marina, afirma que testes animais s√£o uma metodologia equivocada (evid√™ncias?) que visam “atender uma necessidade exclusivamente humana“. S√©rio? Voc√™ conhece a hist√≥ria da ararinha-azul (que, ali√°s, muito ironicamente perdeu habitat para abelhas mel√≠feras, Luisa Mell)? Especialmente o peda√ßo sobre a luta para a restaura√ß√£o da esp√©cie? Recomendo uma leitura a respeito, textos estando dispon√≠veis em peri√≥dicos cient√≠ficos. Ah, e voc√™ sabia que seu bichinho favorito no momento, o beagle, pode sofrer uma morte horr√≠vel por causa de uma entidade conhecida por “doen√ßa do carrapato”? Voc√™ acha que o cachorro prefere o bem-estar de uma doen√ßa sangu√≠nea natural, provocada por outro animal, ou outro estilo de bem-estar que envolve uma coleira vermelha e at√≥xica? Novamente, minhas defini√ß√Ķes conflituam com as suas.

Voc√™ cita “Dr. John Pippin (diretor acad√™mico do Comit√™ de M√©dicos pela Medicina Respons√°vel, nos EUA)” e completa com “[i]sso n√£o √© ci√™ncia, √© bruxaria“.

Esse comit√™ do qual Pippin √© diretor √© o mesmo Physician’s Committee For Responsible Medicine (PCRM) que o Conselho Nacional Contra Fraudes na Sa√ļde diz ser ‚Äúuma associa√ß√£o sem fins lucrativos que alega promover uma ‚Äėdieta ideal para a preven√ß√£o de doen√ßas‚Äô, que diz n√£o haver evid√™ncias de que os seres humanos tenham um requisito diet√©tico espec√≠fico para prote√≠nas e ensina que ‚Äėmuita prote√≠na de origem animal na dieta √© prejudicial √† sa√ļde‚Äô e que ‚Äúseu l√≠der, Neal Barnard, m√©dico, foi identificado como consultor m√©dico da organiza√ß√£o radical pelos direitos dos animais, PETA, que tamb√©m substancialmente financia o PCRM.‚ÄĚ

O Conselho completa a introdu√ß√£o da an√°lise com: ‚ÄúNa nossa vis√£o, o PCRM √© uma m√°quina de propaganda cujas coletivas de imprensa s√£o teatros para disfar√ßar de not√≠cia sua ideologia.‚ÄĚ Mas tem mais nessa an√°lise. Muito mais.

Voc√™ confia absolutamente na palavra desse comit√™ pelo simples fato de que sua ideologia √© compartilhada com a dele. Nada al√©m disso. Com a mesma veem√™ncia, voc√™ acusa o FDA de cometer fraude “por causa de dinheiro” enquanto suas evid√™ncias s√£o somente as palavras que saem das bocas de pessoas de rabo preso ideol√≥gica e financeiramente com organiza√ß√Ķes radicais como a sua. Voc√™ faz parecer que o FDA financia testes em animais, o que n√£o √© verdade.

A quarta pergunta tenta comparar animais usados em pesquisa com animais criados para consumo.

Marina, sua resposta √© pouco mais que um desabafo que visa deixar claro o quanto voc√™ sofre, por procura√ß√£o, pelos animais, tipificado por “uma das in√ļmeras e terr√≠veis formas de explora√ß√£o animal“. Mais uma vez voc√™ escolhe certas defini√ß√Ķes que na sua boca parecem muito mais graves do que realmente s√£o. Nem toda “explora√ß√£o” √© “terr√≠vel”, vide a produ√ß√£o de mel, que deixa bilh√Ķes de abelhas felizes (voc√™ atropomorfiza, ent√£o tamb√©m posso) e permite a voc√™, vegetariana, se deliciar com tomates e am√™ndoas. Ou voc√™ acha que tomateiros e castanhas se polinizam sozinhos? Ou acha que outros animais que n√£o abelhas conseguem polinizar tomates e am√™ndoas?

Por outro lado, voc√™ tamb√©m mostra como pensa por procura√ß√£o atrav√©s dos explorados quando diz “t√£o errado quanto cri√°-los para abate por quest√Ķes t√£o fr√≠volas como h√°bito, tradi√ß√£o ou conveni√™ncia“. Quem √© o criador de gado que voc√™ conhece que tem um rebanho de milhares de cabe√ßas por h√°bito? Onde √© essa av√≠cola que insemina milh√Ķes de perus por tradi√ß√£o? Qual √© o agricultor que usa um boi para puxar um arado para plantar feij√£o por conveni√™ncia? Marina, ou voc√™ √© completamente desconectada da realidade e delirante ou refinou e sintonizou seu discurso precisamente para pintar uma humanidade muito mais macabra e sombria do realmente √© (logo eu tentando defender os humanos, quem diria) nos fazendo parecer monstros que matam, mutilam e torturam animais por prazer. Ou, pior, porque sim.

Voc√™ prega que animais s√£o “criaturas biogr√°ficas que percebem o mundo √† sua volta e interagem com ele” e, guess what? N√≥s tamb√©m somos! E parte dessa intera√ß√£o, parte dessa biografia que nos permitiu “parar de pensar como humanos da era paleol√≠tica” foi justamente a intera√ß√£o do nosso sistema digestivo com prote√≠na de origem animal e a intera√ß√£o das nossas necessidades (fome e abrigo) e desejos (parar de sentir fome e frio) com a intelig√™ncia inferior de bestas maiores, mais fortes e mais peludas que n√≥s. Nosso c√©rebro s√≥ serve para dar entrevistas porque nossos ancestrais paleol√≠ticos o cultivaram com mais e melhor nutri√ß√£o e mais tempo para us√°-lo. N√£o se iluda, absolutamente nenhum item que voc√™ consome √© animal free; das minhocas que limpam as ra√≠zes do alface aos jegues atropelados que viram a cola que segura as pedras dos seus an√©is e brincos. E se voc√™, atrav√©s de seus atos (vide foto abaixo), aceita esse uso “natural” de animais, por que n√£o o igualmente natural ato de consum√≠-los?

Imagem retirada da Wikipedia

Imagem retirada da Wikipedia

√Č justamente por n√£o pensarmos paleoliticamente que usamos animais da forma como usamos, ao inv√©s de correr atr√°s de rebanhos em dire√ß√£o a penhascos.

A √ļltima pergunta da mat√©ria √© sobre um suposto acordo para acabar com o uso de animais em pesquisas e seu prazo de cumprimento.

Quase sensatamente, Marina diz que mudan√ßas precisam de prazos e discuss√Ķes e que “[e]ssa discuss√£o (…) deve existir“. E existe. Desde d√©cadas atr√°s, especialmente entre os cientistas, que s√£o os mais habilitados/atingidos/interessados a ter essa discuss√£o.

Eu disse “quase” porque ela completa dizendo que a discuss√£o deve envolver “especialistas em √©tica e ci√™ncia, junto √† opini√£o imprescind√≠vel do p√ļblico leigo“. Por que a opini√£o do “p√ļblico leigo” (diferente de qual outro p√ļblico?) √© t√£o necess√°ria e imprescind√≠vel? O que um p√ļblico que, pela sua pr√≥pria admiss√£o, n√£o sabe do que est√° falando teria tanto a contribuir que n√£o desinforma√ß√£o, equ√≠vocos e no√ß√Ķes destoantes da realidade, como as suas, Marina?

Motivo do título:
twitter-luisa-mell

Uma elegia a um dinossauro

Para os que talvez ainda n√£o saibam, sinto informar que Carlos Hotta, do Brontossauros em meu Jardim se foi.

N√£o sei exatamente por onde come√ßar, ent√£o come√ßarei do come√ßo e deixarei o fluxo de consci√™ncia tomar conta (e se parecer que estou fazendo piada, estou mesmo. √Č assim que lido com as coisas no dia a dia).

At√© abril de 2008, parte da minha rotina consistia em responder/corrigir (com informa√ß√Ķes, na medida do poss√≠vel, corretas) a correntes de email e, aproveitando a imensa quantidade de endere√ßos que vinham atrelados a tais mensagens, espalhar algumas gotinhas de conhecimento da Natureza e aprecia√ß√£o da Ci√™ncia.

Quando vi uma imensa quantidade de emails retornando, percebi que estava sendo, na maior parte, mandado para a caixa de spam dos outros a quem tentava convencer de que o mundo √© fascinante e que tomate n√£o d√° nem cura c√Ęncer.

Ent√£o, um dia ap√≥s o meu anivers√°rio, aproveitei alguns textos que j√° havia escrito (e mandado por email para pessoas mal agradecidas) e resolvi iniciar um blog (ou “blogue”, como eu pedantemente chamava, at√© perceber que n√£o faz diferen√ßa) que, √† √©poca, se chamava “N√£o Acredite no que Eu Digo, Pois Minto Tanto Quanto Voc√™” e que, por motivos √≥bvios, rapidamente foi mudado para “42”, ainda sem o ponto final que adorna o cabe√ßalho deste.

Pouco mais de um mês e meio depois, um mundo completamente novo apareceu diante dos meus olhos: blogs especializados em ciência (o meu era do que quer que estivesse na minha cabeça no momento em que sentava para escrever) e, principalmente, em português (pois já conhecia alguns em inglês). Por ocasião de um comentário, conheci em poucos minutos Atila Iamarino, Rafael Soares e Carlos Hotta.

Mais ou menos um m√™s depois, sozinho e carente, escrevo um texto especificando nos m√≠nimos detalhes o tipo de mulher com quem desejo passar meus dias (e que demoraria ainda dois anos e meio para finalmente conseguir), finalizando com “se voc√™ se identificou com o texto, me procure”.

O primeiro comentário, poucos minutos após a publicação do post foi esse aí:

Carlos Hotta

Sem saber muito bem como reagir nem para que lado a intera√ß√£o penderia, mandei um email para Carlos da forma mais neutra poss√≠vel. Algo como “que foi?”.

Ao responder, ele me tranquilizou e disse que me queria para um projeto que ele e Atila estariam montando e que seria um “condom√≠nio” de blogs de ci√™ncia, chamado Lablogat√≥rios.

Logo original do Lablogatórios

Logo original do Lablogatórios

Cinquenta dias após aquela primeira notícia, entrava no ar o portal com o melhor nome de todos os tempos até hoje e que, apenas sete meses depois, viraria o Scienceblogs Brasil.

Toda essa celeridade que n√£o me deixa lembrar de como era ser blogueiro sem ser scienceblogueiro foi, em grande parte, por causa de Hotta.

Foi por causa dele que eu estou aqui hoje, falando para as milhares de pessoas que leem diariamente as insanidades que eu escrevo vez por outra.

Se uma mulher passou batom despreocupada por causa de um texto meu, agradeçam a Carlos.

Se alguém pesquisou por auto-hemoterapia, viu o comportamento animalesco de seus defensores e pensou duas vezes antes de abandonar um tratamento sério em busca de alternativas potencialmente arriscadas, os louros são de Carlos.

Se um médico deixou de usar seu jaleco na rua e uma infecção não piorou por causa disso, esse não-evento é devido, em parte, a Carlos.

Quando algu√©m conseguiu entender o motivo de espirrar sob luz forte; soube pela primeira vez que homeopatia √© s√≥ √°gua, a√ß√ļcar e pensamento m√°gico; descobriu que a chamada “medicina ortomolecular” s√≥ cura a falta de pedras nos rins; se divertiu com meus enigmas ou aprendeu o conceito de “napalm caseiro”, parte de tudo isso foi gra√ßas √† falta de tato de Carlos Hotta em me abordar num momento constrangedor.

Foi também por causa de sua influência que conheci outros seres, com os quais interajo quase diariamente, que foram e são muito importantes em minha formação intelectual e identidade pessoal, como Karl, que me ensinou que eu posso, ao mesmo tempo, estar correto mas ainda errado; Fafá, que se tornou meu amigo, ocasional hospedeiro e acessório em crimes companheiro em projetos extra-blogs; Fernanda e Bessa, que me mostraram, de pontos de vista diferentes, que um passeio pela universidade pode ser a mais fascinante jornada de conhecimento (certamente as duas pessoas que serviram de estopim para a minha saída do armário não-religioso); até mesmo Meire, a minha confidente e companheira esposa a quem eu provavelmente não teria conhecido caso não tivesse ainda a auto-bibliografia atrelada e on-line do 42. e que se encaixou como uma luva feita sob medida e com talco no texto tão rudemente epilogado por Hotta.

(Atila também é responsável por muito disso, mas como ele ainda está aqui não preciso falar bem dele. E Kentaro também é um que pertence à lista acima, mas eu já o conhecia antes, então não conta. Outros também deveriam aparecer, mas FOCO!)

Também ainda por causa dele, em uma reunião onde decidimos os rumos do condomínio, realizei um sonho e criei meu próprio podcast (que não durou o suficiente, mas isso é culpa minha).

At√© um restaurante japon√™s excelente em S√£o Paulo (quem diria que eles existissem…) me foi apresentado por ele.

Um jeito tranquilo de falar (com um leve problema nos fonemas PR e FR) mas sempre com algo relevante a dizer, com uma genialidade do tipo que sabe o que importa e sabe que chamar aten√ß√£o para o fato √© uma das que n√£o importam e com uma maturidade psicol√≥gica muito al√©m dos seus 45 anos (eu acho que nascemos no mesmo ano, mas ele adquiriu tantas realiza√ß√Ķes ao longo da vida que trinta e poucos anos n√£o seria tempo suficiente para um ser que vive na mesma velocidade dos outros).

Semana passada eu gravei uma entrevista com ele – talvez sua √ļltima. Quarta-feira que vem ela sair√° na p√°gina do Dispersando e por l√° dever√° ficar at√© que as circunst√Ęncias permitam, nos fazendo lembrar como ele foi um dia; tranquilo e s√°bio.

Este texto é dedicado (caso não tenha ficado extremamente óbvio ainda) a Carlos Hotta.

Sentirei, além de imensa e eterna gratidão, enormes saudades.

———

Antes que alguém se confunda com alguma coisa, Carlos Hotta não morreu. Apenas seu blog deixou o Scienceblogs.

Onze onzes de 2011, uma retrospectiva

J√° que ano passado n√£o teve poeminha e 11 √© um n√ļmero muito mais redondo que 10, aqui v√£o onze listas de onze coisas que aconteceram no ano 11 do Calend√°rio Apocal√≠ptico.

Os onze textos mais visitados:

1 – Participe da campanha ‚ÄúSeja um M√©dico Limpinho” (LINK);

2 – Cura do c√Ęncer ‚Äď ascens√£o e queda de um mito (LINK);

3 – Homeopatia, coitadinha, n√£o tem vez porque a ‚ÄúInd√ļstria Farmac√™utica”, que se preocupa apenas com dinheiro, n√£o deixa! (LINK);

4 – Batons com chumbo (LINK);

5 – Camar√Ķes, ars√™nio e vitamina C, uma est√≥ria (falsa) de amor (LINK);

6 – Avi√£o de papel (LINK) (minha primeira publica√ß√£o com um “scienceblogs” antes do meu “uoleo”);

7 РMédicos, CFM, homeopatia e imoralidades (LINK);

8 – Cuspir ou engolir?(LINK);

9 – Carnaval Proibido (LINK);

10 РEste blogue é a favor do aborto (LINK);

11 РAuto-Hemoterapia e a medicina da Idade Média de mãos dadas (LINK). [1]

Agora, para o tr√°fego “social”.

Os onze artigos mais lidos via Facebook:

Participe da campanha ‚ÄúSeja um M√©dico Limpinho”;

666, o mais besta dos n√ļmeros (LINK);

Ferro, Lítio, Zinco, Astato e Alumínio para todos! (LINK) (minha entrada mais roubada do ano, o que se torna algo ainda mais impressionante visto que foi publicada seis dias antes de 2011 acabar);

Este blogue é a favor do aborto;

Para cada escravo que você financiar, eu vou comprar três cintos de couro (LINK);

A latrina dos deuses (ou, a cólonização do espaço) (LINK)

Homeopatia, coitadinha, n√£o tem vez porque a ‚ÄúInd√ļstria Farmac√™utica”, que se preocupa apenas com dinheiro, n√£o deixa!;

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades;

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue (LINK);

Resenha ‚Äď Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas (LINK);

UTILIDADE P√öBLICA ‚Äď Cuidado com os ESPELHOS, ops, SPAMS! (LINK) (a dois dias do fim do ano! Valeu, Facebook!).

Artigos mais lidos via feed (volta GReader!)

Participe da campanha ‚ÄúSeja um M√©dico Limpinho”;

666, o mais besta dos n√ļmeros;

Homeopatia, coitadinha, n√£o tem vez porque a ‚ÄúInd√ļstria Farmac√™utica”, que se preocupa apenas com dinheiro, n√£o deixa!;

Para cada escravo que você financiar, eu vou comprar três cintos de couro;

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar) (LINK);

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23 (LINK);

A mais nerd das piadas (LINK);

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades;

Ferro, Lítio, Zinco, Astato e Alumínio para todos!;

‚ÄúBebida amarga torna as pessoas mais cr√≠ticas, mostra estudo” <= N√£o, n√£o mostra. (LINK);

Pedofilia nem sempre é crime (LINK).

Artigos mais lidos via Twitter: [2]

Homeopatia, coitadinha, n√£o tem vez porque a ‚ÄúInd√ļstria Farmac√™utica”, que se preocupa apenas com dinheiro, n√£o deixa!;

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades;

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue;

Pedofilia nem sempre é crime;

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23;

Desafio #ten23 ‚Äď overdose homeop√°tica: v√≠deo-di√°rio (LINK);

666, o mais besta dos n√ļmeros;

Desafio #ten23 ‚Äď overdose homeop√°tica. Ou, ‚Äėo dia em que eu n√£o morri‚Äô (LINK);

Douglas Adams: frases aleat√≥rias (LINK) (‚ÄúA lojinha do hotel s√≥ tinha dois livros bons, ambos escritos por mim.“);

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar);

A mais nerd das piadas;

Agora, mudando um pouquinho a abordagem, alguns termos de busca que, de uma forma ou de outra, d√£o aqui no 42.

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Google, ipsis litteris:

1 – 42;

2 Рjosé alexandre barbuto;

3 – carnaval proibido;

4 – cura do c√Ęncer;

5 – batom com chumbo;

6 – candiru;

7 – douglas adams frases;

8 – avi√£o de papel;

9 – pavesio advogados associados;

10 – a favor do aborto;

11 – vidente tara.

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Bing:

1 – carnaval proibido;

2 – horas iguais;

3 Рjosé alexandre barbuto;

4 – 42;

5 – aviao de papel;

6 – receita de sorvete;

7 – carnavalproibido;

8 – horas diferentes;

9 – avi√£o de papel;

10 – batons com chumbo;

11 Рwww.carnavalproibido.com.br (sério, isso leva ao 42. através do Bing).

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Yahoo: [3]

1 Рjosé alexandre barbuto;

2 – carnaval proibido;

3 – carnaval proibido 2010;

4 – jornal do carnaval proibido;

5 – camar√£o e vitamina c;

6 – amish;

7 – engolir ou cuspir;

8 – horas iguais;

9 – 42;

10 Рalergia a luz (texto que propiciou minha primeira entrevista à Folha de São Paulo, bitches!);

11 – chumbo nos batons da natura?

As onze maneiras mais comuns de se chegar aqui via Ask (por que n√£o? Povo ainda usa Yahoo…): [4]

1 – receita de sorvete;

2 – carnaval proibido;

3 Рdoença toxoplasmose;

4 Рjosé alexandre barbuto;

5 Рmedidas de tijolo <= Não tem link porque eu não faço ideia do que se trata. Mas um de oito furos mede 9 por 18 por 18;

6 – mega da virada 2009;

7 – receita de sorvete de massa;

8 – receita sorvete de creme;

9 – banda cheiro verde;

10 Рdoença de toxoplasmose;

11 – horoscopo 2010.

As onze maneiras mais usadas para questionar a Internet sobre o n√ļmero 42 que o Google interpreta como sendo da minha al√ßada:

+42!

42=

42,

42]

#42

“42.”

42 ?

:42:.

42:)

42 ????????????????/

47

Onze frases aleatórias acerca do 42:

42 bin√°rio

define: 42

teoria do 42

42 com bolhas

42 mandamentos

42 o que significa ?

42 o que é? nerd

42.: a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

420 coisas para se fazer chapado

42 = 666

41 science blogs

E, finalmente, os onze termos mais estranhos usados para se chegar ao 42. (comentado):

11 – como tirar cheiro de suvaco da roupa <= Tome banho antes de se vestir?

10 – frases sobre sustentabilidade na moda <= Este aqui est√° a prestes de ter uma excelente surpresa.

9 Рcatarro que não acaba <= Ê fartura!

8 Рcurar vomito de bebida <= Aí depende. Se for o vinho que estiver vomitando, coloque a rolha de volta. Se for cerveja em lata, acho que um copo é a melhor solução. Se for o champanhe, então é ano novo, divirta-se.

7 – filme idiota 2010 congelado passa a ser o mais inteligente <= O congelado passa a ser o mais inteligente? √Č um filme sobre criacionistas?

6 – prefiro+ficar+chapado+sozinho <= Excelente. Quanto menos me envolver nisso, melhor.

5 Рcomo é o nome do francês que descobriu a cura da cancar <= François Charlataun

4 – oops! url est√° incompleta ou url desconhecida !!! <= Sem brincadeira.

3 – como parar de falar cuspindo <= Tomara que seja um colega meu, tomara que seja um colega meu, tomara que seja um colega meu. E tomara que ele aprenda.

2 Рcomo tirar o cheiro do nabo <= Mais alguém leu errado? o/

1 Рigor hikari domine sol <= Um dos melhores comentários até hoje no meu blogue. O que me faz lembrar de uma décima segunda categoria, em homenagem a 2012:

Os melhores coment√°rios do ano.

11 – mew axo q eh 6 o numiro do crabuno pq 20 eh numiro d calsio e 5 eh do boro .. ta td na orde alfabeteca mais vrado .. vc coloco os numiro ao crontrario p comprica vey .. mais eu tava prestanu atensao na aula la pq a bateria d meu ifone cabo ea tia num deixo enxe ela .. sacanage ne ? <= √Č. Tia m√°. (LINK)

10 – caro colega! vejo que vc conhece bem de homeopatia,mas por que tanta raiva, ela-le encomada? oque n√£o ‚Äúexiste‚ÄĚ n√£o deveria preocupa-lo? #certo#!,ent√£o use seu tempo para fazer ci√™ncia √©tica e n√£o ficar com possionamento c√©tico irrelut√°vel e sensacionalista,al√©m de tudo glosseiro,h√° tava me esquecendo eu concordo com o felipe, e vc foi muito mal educado com ele#feio#!para um culto? <= Tem como n√£o amar? (LINK)

9 – Calnes de cerdo o porco sa√Ķ rexeitadas por ignor√Ęncia relixiosa. Como existem muixos m√©dicos Xudeus‚Ķ <= N√£o sabia que Xuxa era judia. (LINK)

8 – Voc√™s sabem que, nos Estados Unidos onde o cuidado com medicamentos √© muito maior que no Brasil, mais de 100.000 pessoas por ano morrem apenas devido √† IATROGENIA? (…) Que voc√™s sabem para falar mal da homeopatia? Sabem o que √© cancer metast√°tico? <= Portanto, homeopatia √© real. Adoro gente assim. (LINK)

7 РAssim como você, muita gente incentiva o preconceito sobre a Homeopatia, e por isso as revistas científicas não saem publicando muito sobre os avanços na área homeopática. Dessa forma, quando publicam, escolhem pesquisas que não incluem a palavra HOMEOPATIA em seu título. <= Porque a melhor forma de publicar um artigo é escondendo as palavras-chave. Homeopatia mexe em alguma coisa no centro da ingenuidade do cérebro das pessoas, eu acho. (LINK)

6 – A homeopatia possui um princ√≠pio ativo que n√£o √© enxerg√°vel. (…) Para a homeopatia fazer efeito, o paciente deve ter sua sintonia alinhada com as energias que a homeopatia oferece. (…) Se vc n√£o cr√™ em homeopatia, ela n√£o far√° efeito em voc√™. Se voc√™ cr√™ na homeopatia, MUITO PROVAVELMENTE ela far√° efeito em voc√™, isto n√£o significa que voc√™ deva abandonar outros m√©todos medicinais. A evolu√ß√£o da humanidade depende de pessoas como voc√™, com seu blog, para que avancemos. Caso contr√°rio, aprenderemos por dor e n√£o por Amor. <= Uma das provas da minha hip√≥tese de que homeopatia √© s√≥ mais uma forma de religi√£o. (LINK)

5 – homeopatia pode ser usada na elimina√ßao de pragas numa planta√ßao. utiliza-se o inseto da praga para para criar uma solu√ßao venenosa para o proprio inseto <= J√° pensou se algu√©m morre no mar? A trag√©dia que isso causaria para todas as popula√ß√Ķes costeiras ao redor do globo? (LINK)

4 Рa homeopatia em si não tem como provar e tão cedo irá, pois a homeopatia é energia do elemento condensado <= Sem comentários. Vou deixar vocês se deliciarem com a frase. (LINK)

3 – O que acontece √© que a homeopatia √© uma releitura da industria farmac√™utica √† luz do pragmatismo. <= √Č como se essas palavras tivessem sido contempladas em algum sorteio e colocadas nessa ordem por cara-ou-coroa. (LINK)

2 – Muuiittoo!consagro o Daime a dois anos e declaro que nunca senti meu racioc√≠nio t√£o l√ļcido e esclarecido como sinto hoje!Compreendi grande segnificado da palavra amor e me livrei de um v√≠cio de 20 anos(maconha) (…) Prefiro dizer que esse ch√° sagrado ,que para n√≥s √© a manifesta√ß√£o do ser divino ,√© ‚Äúilumin√≥geno‚ÄĚ <= Reiterando: "nunca senti meu racioc√≠nio t√£o l√ļcido e esclarecido como sinto hoje" (LINK);

E, o melhor de todos, do meu colega João Carlos, quando eu disse que homeopatia era "macumba disfarçada de medicina":

1 – Ei!‚Ķ Mais respeito com a macumba, p√ī! (LINK)

A maior quantidade de abuso recebido em 2011, ironicamente, empatou entre homeopatas e os médicos (dos que gostam de desfilar de jaleco pelas ruas).

E que venham mais 2012 abusos!

Minha cara de preocupação.

———

[1]Os auto-hemoterapeutas quase n√£o entraram na lista.

Mas calma, amiguinhos! Considerando que aquele é um texto escrito em 2009, vocês ainda chamam minha atenção! Não chorem!

[2]Parab√©ns ao Twitter pela sua luta constante contra o engodo da ind√ļstria da homeopatia, ou Big Homeo, atrav√©s da campanha #ten23 (aguardem novidades nesta frente).

[3]Pessoal que ainda usa o Yahoo √© meio, digamos assim, excitado, n√©? Mas eu acho bom que a maioria das buscas seja por “carnaval proibido” e que os visitantes se deparem com um exerc√≠cio em racioc√≠nio cr√≠tico.

[4]Já os que acham por bem usar o Ask, ao meu ver, formam a parcela mais aleatória da sociedade. Banda cheiro verde? Sério que isso existe?

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar)

AHT - quadrado auto-hemoterapia
AHT - retangulo auto-hemoterapia
AHT - losango auto-hemoterapia
AHT - trapezio auto-hemoterapia
AHT - controle placebo randomizado auto-hemoterapia
AHT - estudo sem controle auto-hemoterapia
AHT - estudo sem placebo auto-hemoterapia
AHT - evidencia anedotica auto-hemoterapia
AHT ilustrada auto-hemoterapia

“Bebida amarga torna as pessoas mais cr√≠ticas, mostra estudo” <= N√£o, n√£o mostra.

Numa “mat√©ria” (aspas ir√īnicas) sobre um “estudo” (elas aqui novamente), a Folha.com d√° uma aula de como jornalismo √© feito atualmente: ctrl+c -> Google Translate -> ctrl+v.

Sem sequer a menor das críticas, o tradutor da Folha fez exatamente o que sua função exige, que é traduzir coisas. Pronto.

Com a diferen√ßa de que n√£o se deu ao trabalho de incluir nem o nome do chefe do trabalho (Kendall Eskine) nem o nome da universidade que produziu tal primor de pesquisa (visto que “City University of New York” n√£o √© o mesmo que “Universidade da Cidade de Nova York”, a n√£o ser que o jornal tamb√©m traduza Cambridge e Oxford como “as universidades da Ponte de Came e Vau do Boi“).

A matéria foi capa do caderno Ciência e, como tal, deveria ter sido tratado com pelo menos uma nesguinha de ceticismo. Mas não, é bem mais fácil traduzir o que a New Scientist (adeus, qualidade) diz e deixar por isso mesmo.
Capa do caderno de ciência da Folha.com

A primeira linha j√° refor√ßa o t√≠tulo, com: “O gosto amargo de uma bebida pode alterar o julgamento moral, fazendo com que as pessoas se tornem mais cr√≠ticas.

√Č? E quem disse?

A√≠ vem a primeira bomba: “Esse √© o resultado de uma pesquisa realizada com 57 volunt√°rios (…)”

Cinquenta e sete volunt√°rios? Que amostra imensa!

AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

J√° pode morrer?

Minha frase favorita do artigo: “(…) o grupo teve que analisar cenas como a de um homem comendo um cachorro morto (…)”. <= WTF!?

Mas n√£o, n√£o era necrozoofilia. Era apenas um lanche mesmo.

Só não sei se isso melhora ou piora o ocorrido.

A tradu√ß√£o continua peba e a necessidade de destrui√ß√£o n√£o se mostra instant√Ęnea, at√© que chegamos no “curioso” dado que “surgiu” e que “mostrou que os partid√°rios conservadores s√£o mais afetados pelo gosto amargo, e consequentemente suas cr√≠ticas, do que os liberais.

√Č. Foi. Porque conservadores s√£o naturalmente menos cr√≠ticos que os liberais, n√£o √©?

N√ÉO! N√ÉO √Č!

E morrer agora, j√° pode?

Confundir causa e efeito √© coisa de auto-hemoterapeuta. Esse tipo de fal√°cia n√£o deveria ter vez numa publica√ß√£o que se prop√Ķe a divulgar Ci√™ncias.

Agora, meus amigos (porque em momentos de desespero, todos se tornam amigos), preparem-se para a maior conjectura j√° presumida numa mat√©ria (notem a presen√ßa das Aspas Triplas do Rep√ļdio) “””cient√≠fica“””: “Embora o mecanismo entre paladar e comportamento n√£o seja totalmente claro (…)”.

N√£o seja totalmente claro? N√£o seja totalmente claro?? E essa ‚Ėą‚Ėą‚Ėą‚Ėą existe??

Acho mais produtivo primeiro demonstrar que o mecanismo existe antes de insinuar a suposi√ß√£o de que j√° √© um fen√īmeno bem estabelecido. √Č como dizer “embora o mecanismo entre florais de Bach e peidos de unic√≥rnios n√£o seja totalmente claro…”

Mas calma, ainda tem um restinho pegajoso no fundo desse copo marrom de Danone azedo das trevas. Vamos raspar com a colher (sic, sic, mil vezes sic).

[O]s pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova York (EUA) que desenvolveram o estudo se perguntam se um j√ļri deveria evitar o consumo de l√≠quidos amargos antes de um julgamento ou se a prefer√™ncia de determinados alimentos influenciam nos ideias pol√≠ticos dos indiv√≠duos.

N√£o tenho resqu√≠cio homeop√°tico de d√ļvida de que pesquisadores desse calibre realmente se perguntem coisas desse tipo.

Me lembra Homer Simpson, em referência a donuts, se perguntando se há algo que elas não consigam fazer.

Folha, por favor, melhore.

A veia da minha testa agradece.
veia da testa

Parem o mundo que eu quero vomitar! Nele, preferencialmente.

Eu desisto.

Foi complicado no come√ßo mas agora parece bastante simples. √Č imposs√≠vel competir com ignor√Ęncia gerada por desinforma√ß√£o gerada por p√Ęnico gerada por ignor√Ęncia, todas de m√£os dadas numa cadeia infinita de estupidez quadr√°tica.

“P√©rolas aos porcos” n√£o √© uma analogia apropriada. Os porcos podem at√© fazer alguma coisa com elas, nem que seja fu√ß√°-las para o lado de modo que n√£o se misturem com sua comida.

A sensação que eu tenho é de jogar pérolas embaixo da máquina de lavar roupa onde permanecerão para sempre num limbo inalcançável.

Quantos de vocês leram o que Carlos escreveu e passaram a mensagem adiante?

Agora, quantas das pessoas que receberam a mensagem fizeram o mesmo?

Porque eu mandei para todo mundo que costuma trocar email comigo e tenho certeza de que meu esforço morreu neles.

Levei at√© esculhamba√ß√£o por usar dados e evid√™ncias em meus esfor√ßos e por ter “mudado de opini√£o”, indo de “defensor de que a doen√ßa n√£o era l√° essas coisas todas” para “defensor da vacina√ß√£o”. Porque essas duas afirma√ß√Ķes s√£o mutuamente excludentes, n√©?

Logo em seguida, no entanto, recebo já de terceira ou quarta mão um email com tantas cores e mudanças tão bruscas de tipo e tamanho de fontes que foi difícil ler até o fim sem ficar com dor de cabeça.

Esse email rid√≠culo √© t√£o mal escrito e cheio de erros que fica dif√≠cil corrig√≠-lo da mesma forma que √© dif√≠cil contar todos os gr√£os de arroz num saco. √Č poss√≠vel, mas √© uma tarefa t√£o monstruosa que se torna previamente opressiva.

Um dos pontos levantados na mensagem √© que merc√ļrio √© t√≥xico e vacina tem merc√ļrio.

Botulismo tamb√©m √© t√≥xico e nem por isso milh√Ķes de pessoas ao redor do mundo deixam de injet√°-lo frequentemente no rosto. Basta vir sob a alcunha de “Botox”.

Ferro é atraído por campos magnéticos e temos ferro no sangue. Por que operadores de eletroímãs não têm seu sangue esguichado de seus corpos durante a realização de seus serviços?

Porque subst√Ęncias existem em formas variadas na natureza. Ferro pode ser f√©rrico ou ferroso. Um ajuda a transportar oxig√™nio para o c√©rebro de algumas pessoas enquanto o outro serve para fazer agulhas que s√£o atra√≠das pelo campo magn√©tico terrestre.

O merc√ļrio da vacina n√£o o mesmo merc√ļrio dos term√īmetros de outrora, mas uma forma org√Ęnica do neg√≥cio.

Tão segura para consumo humano que era usado em mertiolate. Disso ninguém lembra, né?

O email continua dizendo que a vacinação é uma forma do governo matar milhares de pessoas para tomar o controle.

Porque o governo já não tem o controle, né?

E menos pessoas é bem melhor para o governo, né?

Diz l√° tamb√©m que a doen√ßa foi criada em laborat√≥rio e que “a gripe “apareceu” no M√©xico” (sic).

Porque esta é a primeira vez que temos H1N1 no mundo, né?

Eu poderia fazer uma an√°lise detalhada, ponto a ponto, do spam que recebi, mas eu n√£o me importo mais.

N√£o sou mais adolescente, j√° percebi que n√£o vou conseguir mudar o mundo.

Se estiver sendo injusto com alguém, peço desculpas.

Mas minha experi√™ncia justifica minhas palavras. O bot√£o de foward rapidamente se torna dif√≠cil de apertar nesses casos…

Próxima vez eu coloco cores mais variadas e pontuação e gramática incorretas.

No come√ßo da semana eu recebi um outro email de um rapaz que, se o ditado “clareza na escrita denota clareza de pensamento” for v√°lido, √© bem inteligente e capaz. Infelizmente ele est√° muito mal (possivelmente tendo sido erroneamente diagnosticado com uma doen√ßa fict√≠cia) e a sensa√ß√£o de impot√™ncia pode ter feito com ele acreditasse em algo que n√£o acreditaria em condi√ß√Ķes normais.

Ele me disse que pratica auto-hemoterapia e citou em favor da t√©cnica alguns argumentos quebradi√ßos dos crentes mais inflamados como “a Ind√ļstria Farmac√™utica impede que a efic√°cia do tratamento seja testada” ou “√© mais barato comprar agulha que comprar rem√©dio”.

Mas eu digo mais nada. Se funcionar para ele, viva! Se não, o destino do sujeito não é da minha conta mesmo, então por que eu me importaria?

N√£o cabe a mim julgar (como me foi posto claramente em uma discuss√£o recente) pois eu realmente sei muito pouco das coisas, mas, vendo daqui, o mundo n√£o merece ser salvo.

E, se n√£o fosse esse o caso, n√£o seria salvo por mim de todo jeito. Ent√£o meu argumento morre logo na premissa.

Agora, eu vou ficar ali, estudando maneiras inovadoras de fazer coisas antiquadas, como usar o YouTube para assistir a vídeos filmados de uma TV ligada a um vídeo cassete reproduzindo uma fita produzida pela Editora Bloch em 1976.

Até.

P.S. Muito provavelmente este artigo est√° recheado de informa√ß√Ķes imprecisas e erros gramaticais, mas n√£o se importem em corrigir. Eu n√£o me importo mais.

Minhas previs√Ķes para 2010

Eu sofro de apneia do sono t√£o intensa que tenho epis√≥dios at√© quando estou acordado. Sempre que isso acontece enquanto estou na rua, eu desmaio um pouquinho, ainda em p√©, e tenho vis√Ķes do futuro.
Hoje eu resolvi transcrever minhas previs√Ķes alucinat√≥rias movidas a roncos e engasgos separando-as por assuntos.
Sem mais delongas, aqui est√£o as coisas que eu sei que v√£o acontecer em 2010 EC:
Mortes
Começando pelo tópico favorito de todos (não se enganem, todo mundo sabe o quão mórbidos vocês são), as pessoas que vão morrer em 2010 são:
Hugh Hefner (em setembro), Stephen Hawking (at√© maio), Stephen King (no dia seguinte), James Randi (dia 31 de dezembro, 23:56 GMT), Faust√£o (meu √°libi j√° est√° sendo preparado, n√£o se preocupem) e um atleta internacionalmente famoso (o √ļnico esportista que eu conhe√ßo por nome √© Pel√©, mas como ele s√≥ vai morrer em 2013 vou ficar devendo, mas quando a pessoa em quest√£o bater as botas voc√™s v√£o lembrar da minha previs√£o e preencher essa lacuna).
Milhares de pessoas v√£o matar outras milhares em uma ou mais guerras motivadas por assuntos de suma import√Ęncia, como qual entidade fict√≠cia deve ser temida com mais for√ßa.
Ou ordens. Porque seguir ordens cegamente é a base da democracia.
Um blogueiro famoso (na blogosfera, não na vida real) vai sofrer um acidente grave e correr risco de morte. Após um tempo de recuperação, passará a correr risco de vida.
Eric Drexler vai morrer num bizarro acidente envolvendo gosma cinzenta (enquanto preparava uma massa para empanar e fritar camar√Ķes, misturando, displicentemente, farinha com fermento vencida, bicarbonato de s√≥dio e cerveja ao lado de uma auto-clave) e Charles de Windsor vai dizer “n√£o disse?”.
Falando nisso, em 2010, na categoria Tecnologia:
Células-solares e microprocessadores vão ficar mais eficientes, mas não muito. Uns mais, outros menos.
Um novo tipo de malha vai surgir da mescla de duas tecnologias têxteis com a promessa de manter o usuário seco e limpo por mais tempo. Trolls de Internet vão aplaudir a vinda das novas fraldas geriátricas com capacidade extra.
Um inventor no hemisf√©rio norte criar√° um m√©todo para se fazer papel com fuligem e cinzas de cigarro, mas n√£o ter√° como patentear sua inven√ß√£o devido √† falta de dinheiro causada pelo car√≠ssimo tratamento contra c√Ęncer de garganta que j√° o acomete mas do qual ele ainda √© ignorante.
Sua esposa eventualmente irá casar com um especulador da bolsa que achará os planos e os venderá para a Faber Castell, que os perderá num treinamento de evacuação de emergência.
Um cachorro de duas cabeças será clonado. Só não se sabe a partir de que outro bicho.
Já na categoria Ciências:
A Nature vai publicar um artigo (que ser√° capa) controverso que ser√° contestado e desprovado ainda em 2010.
Sobre células-tronco.
A Science vai evitar dar a capa e depois da refuta√ß√£o vai dizer que “j√° sabia”.
Uma nova espécia de inseto vai ser descoberta e vinte e sete vão desaparecer para sempre, incluindo aquela que acabou de se descoberta.
O mesmo acontecer√° com aves, mas n√£o tenho os n√ļmeros aqui comigo.
Venenos mais eficientes ser√£o produzidos para exterminar coelhos, esquilos, toupeiras, cobras, corvos, ratos e outras pragas em planta√ß√Ķes, antes que eles tenham chance de entrar nos campos, acabando de uma vez por todas com aquele gosto de sangue que acompanha a colheita de hortali√ßas vendidas como “org√Ęnicas” da qual vegetarianos t√™m tanto orgulho pois n√£o est√£o matando animais para servir de alimento quando comem suas cenouras car√≠ssimas.
O termo “org√Ęnico” vai perder todo e qualquer sentido por simples mal uso.
Uma nova constante f√≠sica ser√° proposta ainda no primeiro bimestre, mas ser√° refutada at√© o fim do ano, tendo em vista que “zero” j√° √© um nome razoavelmente bem estabelecido e vastamente conhecido internacionalmente e mudar seu nome para Constante de Keppe somente confundiria as coisas.
Falando em Keppe, entramos na √ļltima categoria deste texto, Misticismo:
Alguém vai lembrar de você no dia do seu aniversário e isso fará toda a diferença na vida de outrem.
Uma tia sua vai dizer que estava pensando em Faustão na hora em que ele morreu e que isso nada mais pode significar senão que ela prevê o futuro, o que apenas confirmará meus próprios poderes de clarividência, aqui expostos.
Eu vou continuar recebendo emails de pessoas inocentes que foram enganadas e acreditam que auto-hemoterapia serve para algo mais que causar dor ao furar dois pontos do corpo com apenas uma agulha (e cujo melhor argumento de efic√°cia que me foi apresentado at√© agora √© a frase “tamb√©m usam nos EUA“).
E emails de crentes antici√™ncias demonstrando como eu sou ing√™nuo por n√£o acreditar que meu pr√≥prio sangue √© a cura para todas as doen√ßas que eu virei a ter, porque eu vou precisar desse tratamento milagroso depois que eles me pegarem, porque al√©m de defender uma terapia in√ļtil essas pessoas tamb√©m gostam de amea√ßar a minha sa√ļde.
Um conhecido seu vai contar uma estória comovente sobre como um sujeito qualquer que ele conhece é sensitivo e, do nada, ligou para uma amiga (cujo pai tinha acabado de morrer, cujo filho ia mal na escola, cuja mãe estava doente, cujo carro havia sido roubado na manhã anterior) exatamente no momento em que ela estava triste e como isso prova o quão sensitivo ele é.
Charlat√Ķes sem escr√ļpulos continuar√£o se aproveitando de pessoas sem instru√ß√£o e processando por cal√ļnia qualquer um que ouse apresent√°-los como os enganadores que eles s√£o, pois apesar de certas coisas serem claras e aparentes, a lei exige documentos por escrito. Menos quando estes s√£o emails me amea√ßando.
Algum imbecil que apareceu na TV dizendo mais ou menos as mesmas coisas que eu disse aqui vai voltar para mostrar como estava certo quanto ao atleta morto.
E esquecer que esteve errado por toda sua vida até então.
Cartomantes e adivinhos continuar√£o cobrando car√≠ssimo por “leituras” com resultados bastante espec√≠ficos como “eu vejo um rapaz moreno na sua vida” ou “uma chave tem import√Ęncia para voc√™“.
E eu continuarei esbravejando de graça enquanto tento dispersar um pouco de conhecimento pelos tubos internéticos.
O que eu queria mesmo que acontecesse era o fim do mundo. Mas acho que vamos ter que sofrer mais um tempinho (pelo menos mais um ano).
Essas s√£o minhas previs√Ķes para o ciclo que inicia arbitrariamente daqui a nove dias.
Nove, eu digo!

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