Manchete comentadas – Medicina Ortomolecular

Se o título acima parecer familiar é porque vocês frequentam o blogue de Bessa. Muito bem, continuem assim.

Ontem eu recebi um email de um amigo (que escreve o excelente Capsaicina, inspira√ß√£o total para o meu blogue gastron√īmico) recomendando uma mat√©ria do Fant√°stico sobre Medicina Ortomolecular e n√£o quis clicar pois estou meio doente e fiquei com medo de que o s√ļbito aumento de press√£o estourasse alguma coisa no meu c√©rebro.

Só cliquei no link porque ele lê MEDICINA+ORTOMOLECULAR+APRESENTA+FESTIVAL+DE+IRREGULARIDADES.

Levei um susto ao ler a manchete “M√©dico ortomolecular atribui sintomas a problemas espirituais” mas, ao ler o subt√≠tulo (sic) “S√£o testes proibidos, diagn√≥sticos errados, tratamentos perigosos, falsas garantias de emagrecimento e rejuvenescimento. Um esc√Ęndalo.“, percebi que se tratava de (pasmem!) uma reportagem c√©tica!

Eu fiquei t√£o excitado que vomitei um pouquinho dentro da boca e senti uma s√ļbita vontade de conferir se o fog√£o estava desligado, uma curiosidade intensa quanto ao conte√ļdo da minha geladeira e um desejo incontrol√°vel de organizar meus livros por ordem alfab√©tica de endere√ßos das editoras, mas sei que isso foi s√≥ uma desculpa do meu corpo para gastar energia dando uma voltinha pela casa.

Quando parei de tremer, me sentei novamente e li o artigo até o fim, sempre retornando ao cabeçalho sem acreditar muito que estava lendo algo associado ao programa Fantástico.

Mas já chega de insultos à revista digital de variedades, vamos ao muciço da reportagem.

N√£o existe evid√™ncia alguma da efic√°cia da pr√°tica ortomolecular e j√° √© bastante claro que a maioria dos testes usados pelos ortomoleculares s√£o in√ļteis.

E, por venderem ilegalmente remédios em suas clínicas, alguns praticantes ainda são criminosos!

Ou contraventores. Não sou jurista, não sei bem a diferença.

Mas sei que, de toda forma, isso é anti-ético.

E feio, muito feio. Una! =¦¤P
hipervitaminose ortomolecular.jpg

“N√£o se preocupe, eu sei o que estou fazendo. Isso √© apenas dez mil vezes mais que a sua dose di√°ria recomendada. O que poderia dar errado?”

Por favor, leiam a matéria completa (eis o link novamente, por escrito e incrustado Рhttp://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1539131-15605,00-MEDICINA+ORTOMOLECULAR+APRESENTA+FESTIVAL+DE+IRREGULARIDADES.html -copiem e colem ou cliquem) porque vale a pena.

Pelo menos para mim valeu. Eu sorri com tanta força do início ao fim que descobri dentes que achava que não tinha.

Verdade deve ser dita, o texto √© meio mal escrito, como se n√£o houvesse sido revisado. Mas eu entendo caso o escritor (que eu morro de procurar mas n√£o descubro quem √©) seja algu√©m como eu. Se eu tremi tanto ao ler o t√≠tulo, teria sofrido convuls√Ķes permanentes enquanto escrevesse tudo. Gram√°tica e pontua√ß√£o √© o de menos.

Frases lindas adornam o texto, como essa a seguir:

“A nova resolu√ß√£o do Conselho Federal de Medicina tamb√©m determina: altas doses de vitaminas e minerais, s√≥ se o paciente tiver falta dessas subst√Ęncias no organismo. Fora isso, basta se alimentar direito.”

Isso aí é poesia! Eu quero montar um sarau para declamar isso aí!

Um dos praticantes daquele ramo da merdicina usa a velha defesa do argumento de autoridade ao dizer que o criador da Medicina Ortomolecular foi Linus Pauling e que ele ganhou dois prêmios Nobel. Infelizmente, porém, ganhar um prêmio em química e ser defensor do desarmamento nuclear não o torna especialista em biologia ou medicina nem o salva de virar um velho cabeça-dura, gagá e rabugento).

O mesmo sujeito, Felippe J√ļnior, num contorcionismo argumentativo extraordin√°rio, diz: (sic) “Ortomolecular chegou ao Brasil um pouco com o p√© quebrado. Fizeram propagandas indevidas. Por isso, eu uso biomolecular.”

¬ŅHein?

A p√°gina do Instituto de Medicina Biomolecular sequer cita “ortomolecular”, mas ambas s√£o exatamente a mesma coisa, com confirma√ß√£o da Associa√ß√£o Brasileira de Medicina Biomolecular[1] e tudo!

R√°! Pegue esse argumento de autoridade e esfregue na sua cara!

Essa segrega√ß√£o impl√≠cita nas palavras do presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Biomolecular para mim tem cheiro de briga entre fac√ß√Ķes, como uma religi√£o acusando a outra de adorar a divindade errada.

O antepen√ļltimo par√°grafo da reportagem me fez rir t√£o alto que eu fiquei alguns minutos tossindo.

Uma “terapeuta” (aspas introduzidas pelo/a brilhante autor/a da pe√ßa) chamada Marina Pieroni se defende de acusa√ß√Ķes de que est√° ilegalmente vendendo f√°rmacos e praticando medicina sem licen√ßa da seguinte forma:

“Eu estou fazendo uma coisa totalmente legal, n√£o estou fazendo nada ilegal. N√£o tem por que eu ficar dando entrevista”.

Será que ela falou isso aí com os braços cruzados, punhos cerrados, marcando as sílabas com fortes pisadas enquanto tentava manter o lábio inferior tesamente apontando para a frente em postura de desafio à verdadeira autoridade da Lei?
birra ortomolecular.jpg

“Hmmmmmm… eu n√£o quero dar entrevista…”

Darwin cuida.

[1] Detalhe interessante: apesar de orgulhosamente expor em seu rodap√© “¬© 2004 Associa√ß√£o Brasileira de Medicina Complementar. Todos os Direitos Reservados“, a p√°gina, j√° entrando em seu sexto ano de exist√™ncia, n√£o informa aos internautas exatamente quem eles sejam.

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