Publicar ou perecer, considerações sobre (a ausência de) valores – (re-publicando)

Quando fazia graduação, lembro-me que uma preocupação recorrente entre estudantes e professores envolvidos com pesquisa era o fato de que boa parte das pesquisas feitas na universidade estava fadada a mofar nas estantes, como dizíamos. Pouco do que era feito por nós chegaria a beneficiar a vida de alguém. Essa era nossa principal preocupação e nós éramos um punhado de ideologistas pensando nos rumos da agricultura e do ambiente no semi-árido nordestino. Hoje, quase nada tem chance de mofar nas prateleiras. Tudo é publicado ou, no mínimo, “publicável”, embora muito pouco seja lido e menos ainda aplicado praticamente. Um ingênuo poderia achar que provavelmente mais resultados de pesquisa estariam “chegando à mesa” dos cidadãos. Tenho minhas dúvidas quanto à linearidade desta correlação.

Uma das características típicas de nossa sociedade liberal é o egoísmo extremo. É verdade que hoje se publica muito, mas a impressão que se tem é que os pesquisadores muitas vezes publicam artigos para impressionar outros pesquisadores. O mesmo valor que outrora se dava a uma árvore genealógica enfeitada de títulos nobiliárquicos, hoje se dá a um currículo pesado de títulos de artigos. O público leigo talvez desconheça a existência de uma entidade quase sagrada entre a classe acadêmica chamada Currículo Lattes. O Currículo Lattes é um fetiche, é quase sagrado. O número de trabalhos publicados é exibido orgulhosamente, como noutros tempos se exibiam cicatrizes de batalhas. O artigo científico, referido preferencialmento pelo termo adequado na língua litúrgica, o paper, é a óstia sagrada no altar dos montadores de currículo.

Assim como a hipocrisia é a imitação vulgar das virtudes, a ânsia de publicar tornou-se uma distorção equivocada da competência: publica-se, em muitos casos, “para fazer currículo”, não porque se esteja interessado em criar uma obra acadêmica consistente, ou se queira contribuir para o avanço da Ciência. Aliás, consistência está em geral completamente ausente nos currículos fabricados, com trabalhos em todas as áreas imagináveis e o único avanço almejado é o de cargos.

Os valores estão distorcidos ou ausentes porque aqueles que os deveriam ensinar já não o fazem: pelo menos quatro professores universitários aconselharam-me a não levar em conta preocupações com qualidade e relevância do trabalho, isso seria o de menos importância, antes atrapalharia. O importante, segundo eles, seria publicar, o que quer que seja. Invariavelmente deram o exemplo de algum professor, íntegro e preocupado com qualidade, mas com o currículo tênue. A mensagem tornava-se aí bem clara: a honestidade intelectual vista como entrave ao avanço profissional. Pelo contrário, sobressai mesmo aquele que aconselha aos orientados escrever de qualquer jeito, os revisores que melhorem o estilo. E se perguntam onde nasce a corrupção, como se esta fosse gerada espontaneamente. Não é à toa que a palavra “elite” tem tão má reputação entre nós. A pretensa elite, que deveria dar o tom moral da sociedade, o exemplo a ser imitado, adota os padrões comportamentais mais vulgares.

Essa questão, creio, não se resume a uma tendência equivocada mas inconsequente da classe acadêmica. É um sintoma grave do vazio moral, ético, de todos os segmentos da sociedade. É a ditadura da mediocridade estendendo sua garra ao suposto bastião da qualidade e da meritocracia. É a intrusão da superficialidade, do marketing pessoal vazio onde deveria reinar o pensamento complexo, a introspecção contemplativa, a discussão relevante e enriquecedora. A estupidez angaria adeptos entre a auto-proclamada intelectualidade, entre as mentes pensantes.

Ao contrário do que eu idealizava (e idealizo), a academia parece não ter mais interesse em formar sábios, mas montadores de currículo. De tal forma, professores, que saí frustrado de minha pós-graduação, e não sou o único, porque ao invés de ter publicado muito, estudei e pensei muito, mas estudar e pensar não engordam currículo. Nem escrever blogs.

Discussão - 4 comentários

  1. Juliano disse:

    Saudades dos seus posts! Mas a demora valeu a pena, pois na minha atual situação estou pensando exatamente isso: falta de valores na pesquisa acadêmica e excesso de publicações acadêmicas.

    Estamos em um mundo com excesso de informações, muitas sem valores, e aquelas que possuem valores não são beneficiadas.

    • Italo M. R. Guedes disse:

      Juliano, fico feliz que você tenha gostado dos posts a ponto de sentir falta da assiduidade. As pressões da vida profissional, principalmente no início da carreira, tornam mais difíceis atividades como a manutenção do blog. Agora mais maduro e menos ansioso em “fazer um nome”, acredito que conseguirei ser um pouco mais constante nas postagens, que têm me feito falta também.

  2. Evandro disse:

    Isso é a mais pura verdade!
    Faz se necessário repensar a academia!

  3. Giovani disse:

    Prezado Ítalo, concordo com seus comentários, há muitas pessoas que montam currículo para se mostrar e para conseguir bolsa do CNPQ. No entanto, na área acadêmica este incentivo à grande quantidade de publicações tem uma utilidade, pois naquela fase a publicação (projeto – experimentos simples – análise estatística – resultados e discussão) é feita mais como um treinamento para o aluno aprender a fazer isso. Depois desta fase vem a vida profissional e o problema é que grande parte dos pesquisadores não se desligaram desta fase e não perceberam que agora precisa haver mais qualidade e utilidade prática. Por outro lado, tem também aqueles excelentes pesquisadores que contribuíram com tecnologias, mas que poderiam ter contribuído mais na publicação de artigos e livros (repassar a experiência), e também há aquelas publicações que contribuem pouco, mas que são melhores do que nada. Não sei se concorda. Abração e parabéns pelo blog.

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