Podcast Dispensáveis

Rapidamente porque eu tenho muita coisa na minha mesa que precisa ser digitada daqui para mais tarde.

Semana passada eu participei da gravação do sexto episódio do podcast Dispensáveis, falando sobre viagem no tempo.

E este já está no ar.

O que precipitou minha intervenção foi, muito provavelmente, meu ensaio especulativo sobre viajantes temporais, escrito numa época em que eu era ingênuo e não revisava concordância e/ou pontuação (sério, o texto tem uns dez anos já, escrito quando nem blogue existia ainda. Sejam gentis).

Para sua comodidade, aqui está o link direto para a página onde o episódio pode ser ouvido direto em seu navegador ou baixado como mp3 para o seu máximo prazer.

Sempre lembrando, nós do ScienceBlogs Brasil também temos um podcast, o Dispersando.

Lembrando sempre mais uma vez ainda, ele está parado por falta de fundos.

Nota mental para mim mesmo: preciso de calças novas.

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue

Em Natal, a prefeita Micarla de Sousa (eleita pelo PV) sancionou a Lei nº 6.252, de 25 de maio de 2011 (link em PDF) que diz:

A PREFEITA DO MUNICÍPIO DE NATAL,

Faço saber que a Câmara Municipal aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º – Autoriza o Poder Executivo a realizar estudos e pesquisas no sentido de adotar medicação homeopática, no combate e prevenção de dengue em Natal.

I – A medicação a que se refere o artigo 1º poderá ser ministrada nos bairros que apresentem os maiores índices de infestação da doença ou nas áreas onde a equipe técnica da Secretaria Municipal de Saúde definir como prioritárias ou de risco iminente para proliferação de casos;

II – A aplicação do medicamento será executada pelas unidades de saúde, na dosagem prescrita por profissional competente;

III – A Secretaria de Saúde do Município de Natal, através de uma equipe multidisciplinar, fará o acompanhamento e monitoramento, com as notificações necessárias, dos usuários atendidos pela medicação a que se refere o artigo 1ª desta Lei.

Art. 2º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Um grande problema não é o texto acima, mas a maneira como a coisa foi levada à frente. Esses “estudos e pesquisas” não ocorreram. Especialista não foram consultados e, especialmente, o Conselho Regional de Medicina não foi ouvido.

Entrando em vigor, essa lei certamente beneficiaria, e muito, algumas pessoas, tendo em vista que homeopatia é feita de nada.

O pior, no entanto, é o fato de existirem pessoas em cargos altos (como prefeita e vereadores) que não só acreditam nessa macumba disfarçada de medicina que é a homeopatia como não têm o mínimo interesse na saúde da população (se tivessem, teriam consultado infectologistas ou teriam procurado o CRM, o que não ocorreu).

Jeancarlo Cavalcante, presidente do Conselho, falando ao jornal Tribuna do Norte disse que, tanto a sanção quanto a aplicação dessa lei são “uma temeridade”. Mas ele disse isso porque é o presidente.

Como eu não devo contas políticas a ninguém, posso dizer com mais letras: dar homeopatia a pessoas doentes ou tentar usar homeopatia para prevenir doenças potencialmente fatais é uma irresponsabilidade e demonstra, mais uma vez, o descaso do poder administrativo da minha cidade para com a população, cujo interesse deveria ser prioridade.

Por mais que esse “passe de mágica” (como disse ao mesmo jornal o presidente da Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia, Hênio Lacerda) estivesse sendo aceito por ingenuidade de Micarla de Sousa, seria dever da primeira servidora pública da cidade procurar pessoas que, ao contrário dela, realmente soubessem do que se trata medicina, doenças, tratamento, etc. Confiar na própria suposta inteligência é, demonstrativamente, um erro para pessoas assim, em cargos tão importantes.

Em entrevista ao Novo Jornal, Munir Massud, Professor da UFRN e especialista em Bioética Médica, aponta que homeopatia “não serve para nada. Na Medicina, o que não é científico não é ético”. E, para o Conselho Nacional de Saúde, antes de ser usado em humanos, um medicamento precisa ser fundamentado com experimentações prévias, cientificamente. Coisa que a homeopatia falhou em fazer 100% das vezes que tentou.

Em vista disso, a Secretaria Municipal de Saúde informou ao Novo Jornal que: “em razão da polêmica levantada pela lei, irá solicitar um parecer técnico à Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia”.

Sim, vocês já devem ter notado. A Secretaria de Saúde só irá se informar a respeito com especialistas no assunto porque o CRM e a própria Sociedade de Infectologia foram atrás.

Então, ao invés de combater o mosquito (não há uma propaganda de prevenção, um só folheto pregado em poste, nada), a prefeita achou por bem beneficiar financeiramente os feiticeiros medievais que venderiam água a preço de remédio. Porque, já que a população não gosta dela, porque ela haveria de gostar da população, não é?
Já que ela nem se trata aqui, por que então cuidar do sistema de saúde do município?

Recapitulando: matérias circularam pela Tribuna, Novo Jornal (já citados), Diário de Natal e nominuto.com após uma coletiva de imprensa organizada pelo Conselho Regional de Medicina e pela Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia, pois nenhum dos dois órgãos foram consultados antes da prefeita passar uma lei dando água e açúcar para a população como forma de combater a dengue.

Mas eu vou esperar até Micarla divulgar o resultados dos estudos e testes que realizou, segundo prevê a lei que ela promulgou semana passada.

Enquanto isso, pessoas de fora, estejam avisadas: não venham a Natal em hipótese alguma. Gastem seu dinheiro turistando na Paraíba ou no Ceará. Aqui vocês podem morrer de Dengue a qualquer minuto.

Não há mais salvação para nós, natalenses, mas estamos resignados quanto à falta de estrutura da prefeitura para combater um mosquito.

Como consolação, fiquem com Amanda Gurgel, uma das poucas coisas boas que aconteceram na minha cidade nos últimos anos.

E que venha a Copa!

Participe da campanha “Seja um Médico Limpinho”

Andando por São Paulo semana passada me deparei com a incrível necessidade de alguns médicos e estudantes de medicina de precisar afirmar que são profissionais de saúde. E como eles tentam mostrar ao mundo o que são? Através de um desfile de moda monocromática na forma de jalecos brancos.

Se essa toga moderna fosse apenas para mostrar como certas pessoas têm uma auto-estima tão baixa que precisam criar uma ilusão de grandeza com uma farda que lhes garante o pseudostatus de supercidadãos, tudo bem; cada Bob com seu Mundo Fantástico.

O problema que eu tenho com isso é que essa mesma autopropaganda em página dupla que é usada na rua é também usada dentro dos hospitais.

Jaleco não é só o nome vulgar de um pequeno tamanduá do Maranhão. Não. Jaleco deveria ser também uma proteção, uma luva para as roupas, uma camisinha para o corpo.

Se seu padeiro contar o dinheiro com a mesma luva que usa para colocar seu pão no saco você teria nojo.

(A analogia da camisinha e a dicotomia “cabaré/sua mulher em casa” fica para outro dia.)

Por causa dessa prática irresponsável, eu resolvi criar (no meu outro blogue) duas camisetas grátis, tanto para os aprendizes de boçal estudantes de medicina quanto para os caroneiros de infecção médicos (clique nas imagens para vê-las maior):
Jaleco para a campanha médico limpinhoJaleco para a campanha médico limpinho

A repercussão foi boa e estudos mostram que alguns já estão usando a peça na rua! Fantárdigo!
No entanto, outros ainda assim preferem o guarda-pó mesmo, pois camiseta qualquer um pode ter. Um sobretudo branco, por sua vez, só é vendido mediante apresentação do CRM.

Então, usando a ideia de uma comentarista do artigo original (já linkado), achei por bem criar, mais uma vez sem qualquer custo para os pobres profissionais, um modelo de jaleco para evitar confusão entre o de sair e o de trabalhar (porque, para alguns médicos, jaleco é como bolsa de mulher; um para cada ocasião):

Jaleco para a campanha médico limpinho

E, o mais importante, a mensagem:

jaleco para uso externo costas

Ainda, feita por Atila, também participando da Campanha, uma camiseta para aqueles momentos de descontração fora dos horários de trabalho (pois sair de jaleco nas madrugadas pode atrair atenções indesejadas e fazer os outros pensarem que você é o Cadeirudo):
camiseta para medicos

Então vamos lá, todo mundo! Participem da Campanha “Seja um Médico Limpinho”!

Envie esse artigo do médico Karl para todos os médicos que você conhece.

Presenteie pelo menos um deles com algum dos modelos grátis acima.

Bata palmas quando vir algum estudante de jaleco no metrô! Vamos compensar a falta de auto-estima deles fazendo-os se sentir especiais.

No texto de Atila, um reclamou da reclamação dizendo que a correria é muita e até roupa íntima carregam bactérias. Meu recado para ele é: Super Homem, a cueca não vai por cima das calças. Quanto tempo você precisa para abrir oito botões? E não consegue fazer isso e andar ao mesmo tempo? Você deveria passar menos tempo aperfeiçoando sua boçalidade e mais tempo aprendendo a fazer duas ações simples simultaneamente. Ah, e aprenda também o significado de “profissão mais antiga” porque você está usando errado sem saber.

Outro ainda disse que esse tipo de crítica é inveja. Quem diz que crítica é inveja é porque não tem autoconfiança suficiente para receber uma e critica de volta da forma mais infantil possível. Seu feio, una! 😛

Todavia, eu preciso concordar com outro comentarista: “Novamente, ridiculo, vontade de aparecer e se sentir superior, quando na verdade está so expondo desnecessariamente os cidadaos e seus pacientes.

Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes,

mantendo-me longe de todo o dano voluntário…”

(Juramento de Hipócrates, trecho)

Douglas Adams: frases aleatórias

“Aprender por experiência é uma daquelas coisas, do tipo que diz: ‘Sabe isso que você acabou de fazer? Não faça mais isso’.”

D.N.A

Pedofilia nem sempre é crime

Apesar da lei brasileira não especificar o termo pedofilia em sua letra, o Artigo 217-A da seção “crimes sexuais contra vulnerável” do Código Penal dá uma descrição razoável:

Estupro de vulnerável

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de catorze anos.

Pena – reclusão, de oito a quinze anos.

O que as pessoas normalmente não se dão conta é que pedofilia não é um crime em si. Como somos aficcionados por metonímia, temos a forte tendência de confundir “pedofilia” com “crime de pedofilia”. Enquanto este é o que vemos na mídia e com razão condenamos, aquela é uma entidade psiquiátrica, um distúrbio.

Classificado atualmente como uma parafilia, o assunto é bem mais extenso do que temos vontade de admitir, pois nem todo pedófilo é criminoso e mesmo aqueles que são, geralmente não são os únicos culpados.

Assistam ao vídeo a seguir (por Meire Gomes, do Bule Voador) e entendam do que estou falando.

Sintam-se à vontade para discutir aqui nos comentários.

Douglas Adams: frases aleatórias

“Estamos soterrados de tecnologia quando o que realmente precisamos é de coisas que funcionem.”

D.N.A

Lição de geometria básica para auto-hemoterapeutas e demais pseudocientistas (é tudo ilustrado, não precisa se desesperar)

AHT - quadrado auto-hemoterapia
AHT - retangulo auto-hemoterapia
AHT - losango auto-hemoterapia
AHT - trapezio auto-hemoterapia
AHT - controle placebo randomizado auto-hemoterapia
AHT - estudo sem controle auto-hemoterapia
AHT - estudo sem placebo auto-hemoterapia
AHT - evidencia anedotica auto-hemoterapia
AHT ilustrada auto-hemoterapia

“Bebida amarga torna as pessoas mais críticas, mostra estudo” <= Não, não mostra.

Numa “matéria” (aspas irônicas) sobre um “estudo” (elas aqui novamente), a Folha.com dá uma aula de como jornalismo é feito atualmente: ctrl+c -> Google Translate -> ctrl+v.

Sem sequer a menor das críticas, o tradutor da Folha fez exatamente o que sua função exige, que é traduzir coisas. Pronto.

Com a diferença de que não se deu ao trabalho de incluir nem o nome do chefe do trabalho (Kendall Eskine) nem o nome da universidade que produziu tal primor de pesquisa (visto que “City University of New York” não é o mesmo que “Universidade da Cidade de Nova York”, a não ser que o jornal também traduza Cambridge e Oxford como “as universidades da Ponte de Came e Vau do Boi“).

A matéria foi capa do caderno Ciência e, como tal, deveria ter sido tratado com pelo menos uma nesguinha de ceticismo. Mas não, é bem mais fácil traduzir o que a New Scientist (adeus, qualidade) diz e deixar por isso mesmo.
Capa do caderno de ciência da Folha.com

A primeira linha já reforça o título, com: “O gosto amargo de uma bebida pode alterar o julgamento moral, fazendo com que as pessoas se tornem mais críticas.

É? E quem disse?

Aí vem a primeira bomba: “Esse é o resultado de uma pesquisa realizada com 57 voluntários (…)”

Cinquenta e sete voluntários? Que amostra imensa!

AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH!

Já pode morrer?

Minha frase favorita do artigo: “(…) o grupo teve que analisar cenas como a de um homem comendo um cachorro morto (…)”. <= WTF!?

Mas não, não era necrozoofilia. Era apenas um lanche mesmo.

Só não sei se isso melhora ou piora o ocorrido.

A tradução continua peba e a necessidade de destruição não se mostra instantânea, até que chegamos no “curioso” dado que “surgiu” e que “mostrou que os partidários conservadores são mais afetados pelo gosto amargo, e consequentemente suas críticas, do que os liberais.

É. Foi. Porque conservadores são naturalmente menos críticos que os liberais, não é?

NÃO! NÃO É!

E morrer agora, já pode?

Confundir causa e efeito é coisa de auto-hemoterapeuta. Esse tipo de falácia não deveria ter vez numa publicação que se propõe a divulgar Ciências.

Agora, meus amigos (porque em momentos de desespero, todos se tornam amigos), preparem-se para a maior conjectura já presumida numa matéria (notem a presença das Aspas Triplas do Repúdio) “””científica“””: “Embora o mecanismo entre paladar e comportamento não seja totalmente claro (…)”.

Não seja totalmente claro? Não seja totalmente claro?? E essa ████ existe??

Acho mais produtivo primeiro demonstrar que o mecanismo existe antes de insinuar a suposição de que já é um fenômeno bem estabelecido. É como dizer “embora o mecanismo entre florais de Bach e peidos de unicórnios não seja totalmente claro…”

Mas calma, ainda tem um restinho pegajoso no fundo desse copo marrom de Danone azedo das trevas. Vamos raspar com a colher (sic, sic, mil vezes sic).

[O]s pesquisadores da Universidade da Cidade de Nova York (EUA) que desenvolveram o estudo se perguntam se um júri deveria evitar o consumo de líquidos amargos antes de um julgamento ou se a preferência de determinados alimentos influenciam nos ideias políticos dos indivíduos.

Não tenho resquício homeopático de dúvida de que pesquisadores desse calibre realmente se perguntem coisas desse tipo.

Me lembra Homer Simpson, em referência a donuts, se perguntando se há algo que elas não consigam fazer.

Folha, por favor, melhore.

A veia da minha testa agradece.
veia da testa

Douglas Adams: frases aleatórias

Voltei de férias com a seguinte frase na cabeça:

“A lojinha do hotel só tinha dois livros bons, ambos escritos por mim.”

D.N.A

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23

Bob Marley, músico, nascido em 1945, diagnosticado com câncer metástico em 1980.

Preferiu se tratar com homeopatia.
Se homeopatia funcionasse, Bob Marley teria chegado aos 66 semana passada.

Morreu oito meses depois.

While touring in America, Marley went jogging in Central Park and collapsed on Sept. 21, 1980. Doctors discovered his cancer had moved into his brains, stomach and lungs. Though he tried many homeopathic remedies, Marley died in Miami on May 11, 1981.

José Alencar, empresário e político, nascido em 1931, diagnosticado com câncer abdominal em 1998.

Preferiu se tratar com Medicina.
José Alencar, não tão firme nem tão forte, mas ainda vivo.

Completará 80 anos em outubro.

O ex-vice-presidente da República José Alencar está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e seu quadro de saúde é estável, de acordo com o boletim médico divulgado nesta quinta-feira [10.02.2011]. O político está consciente e tomando antibióticos.

Homeopatia e rastafarianismo mataram Bob Marley.

Cirurgias e quimioterapia salvaram José Alencar. Várias vezes.

Então, antes de vir me dizer “eu sei que homeopatia funciona porque eu e minha família usamos”, pense em Bob, mon.

Homeopatia não funciona.

E isso não é só meu ponto de vista. É a realidade.

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