Notas e Neur√īnios

√Č com muito prazer que inicio as blogagens de 2010 diretamente do Canad√°. Dessa vez n√£o vim a um congresso. Acabei de me mudar, estou morando no Canad√° h√° uma semana. Durante todo esse ano at√© janeiro de 2011 estarei vivendo o “recheio” do meu doutorado sandu√≠che pela USP (financiando pelo CNPq) aqui na McMaster Univesity. Estou no laborat√≥rio de NeuroArts e come√ßando a entrar em contato com um rico ambiente intelectual e aprendendo muitos aspectos evolutivos, antropol√≥gicos e neurol√≥gicos das manifesta√ß√Ķes musicais entre outras artes.

E nesse clima apresento o “Notes & Neurons” do World Science Festival de 2009. Trata-se de uma √≥tima entrevista-discuss√£o-apresenta√ß√£o-documen√°rio sobre as novas descobertas da neuroci√™ncia sobre nossa musicalidade. Nessa s√©rie de cinco v√≠deos voc√™ vai ver como nosso c√©rebro decomp√Ķe as v√°rias dimens√Ķes da m√ļsica usando diferentes √°reas e depois reitegra de forma paralela as informa√ß√Ķes para termos a experi√™ncia musical. O √Ęncora √© o John Schaefer e os convidados s√£o os cientistas Jamshed Barucha da Tufts Univ., Daniel Levitin da McGill Univ., Lawrence Parsons da Univ. de Sheffield, e o m√ļsico Bobby McFerrin (“Don`t worry, be happy”) que faz interven√ß√Ķes bem interessantes.

No primeiro v√≠deo, ap√≥s o solo de Bobby eles falam um pouco do crescente interesse pelas bases neurais da musicalidade, suas quest√Ķes universais e particularidades culturais. No segundo v√≠deo, veremos que nossa musicalidade sempre inclui m√ļsica e dan√ßa, que n√£o existe uma √ļnica √°rea cerebral respons√°vel por toda a cogni√ß√£o subjascente √† nossa musicalidade, ela est√° distribuida por todo o c√©rebro e o sistema nervoso perif√©rico. Basicamente temos √°reas cerebrais envolvidas na percep√ß√£o e an√°lise auditiva, na mem√≥ria e associa√ß√Ķes, na expectativa do que vai acontecer, no movimento, na sensa√ß√£o corporal, na emo√ß√£o, e na percep√ß√£o visual.
Eles falam dos intervalos muscais que s√£o

universais como a oitava, a quinta, a quarta e a ter√ßa. Falam tamb√©m que quando falamos algo triste usamos o mesmo contorno mel√≥dico dos acordes menores que tamb√©m soam tristes, e quanto estamos com raiva fazemos um intervalo de meio tom. O interessante √© que temos muito mais facilidade de reconhecer o pacote mel√≥dico da fala pra emo√ß√Ķes negativas. J√° que evolutivamente, as consequ√™ncias das emo√ß√Ķes negativas tiveram maior chance de prejudicar a aptid√£o de nossos ancestrais. Bobby McFerrin faz √≥timas demostra√ß√Ķes de varia√ß√£o no timbre, e eles mostram varia√ß√Ķes tamb√©m no ritmo.

No terceiro v√≠deo, eles demostram diferen√ßas entre as escalas ocidentas e as escalas da m√ļsica indiana. Mostram que ter crescido em uma cultura faz com que criemos expectativas musicais t√≠picas das escalas usadas, mas ainda assim possu√≠mos uma platicidade para aprender diferentes escalas e m√ļsicas de culturas distantes. Com a crescente dissemina√ß√£o da afina√ß√£o e da harmonia ocidental atrav√©s do mundo, gra√ßas a pop music industry, corremos o risco de n√£o termos exemplos de m√ļsicas sem a influ√™ncia ocidental para estudos etnomusicol√≥gicos. Mas pensando bem, Jamshed est√° certo em dizer que sim, ainda existe uma √ļltima tribo n√£o exposta √† m√ļsica do resto do mundo, os EUA!

No quarto v√≠deo, veremos a bel√≠ssima e muito did√°tica demostra√ß√£o de Bobby McFerrin sobre as expectativas universais quanto √† escala pentat√īnica. Depois eles falam das rela√ß√Ķes entre musicalidade e linguagem, os casos de l√≠nguas tonais como o chin√™s, tudo parte de uma grande viv√™ncia social compartilhada permeando m√ļsica, dan√ßa e linguagem. E no final comentam que os beb√™s antes de nascer facilmente encorporam as escalas musicais de cada cultura. No √ļltimo v√≠deo m√ļsicos e convidados tocam juntos. Aproveitem e feliz 2010!