Minha Defesa de Doutorado

 

Sei que muitos leitores est√£o aflitos com a falta de post dos √ļltimos s√©culos aqui no MARCO EVOLUTIVO. Pois √© logo isso vai mudar. Porque um evento √ļnico e evolutivo est√° por vir: minha defesa de doutorado.
Para aqueles que não sabem, depois de 4 anos (em média) de estudo da graduação ao se formar em uma universidade alguns percebem que gostam de fazer pesquisa, então fazem o mestrado que dura 2 anos (em média). Daí, alguns poucos decidem continuar a fazer ciência e entram no doutorado.
Muitos pensam que qualquer pol√≠tico ou algu√©m apenas formado em direito ou medicina √© doutor!! N√£o, doutor √© quem recebe o diploma de doutorado ap√≥s cumprir cr√©ditos assistindo aulas de p√≥s e pesquisar 4 anos (em m√©dia) algo in√©dito, qualificar para defender e defender¬†a tese. Tudo isso matriculado em um programa de p√≥s-gradua√ß√£o reconhecido pelo MEC. √Č como se fosse fazer uma nova gradua√ß√£o num tema s√≥. Imagine um trabalho de final de
 semestre que demore 8 vezes mais para ser feito e escrito, essa é a tese.
Assim como o uso popular do termo Teoria é diferente do uso científico, o termo tese não se refere a um palpite ou opinião, mas sim ao mais profundo trabalho de investigação científica, seja no aspecto teórico quanto metodológico. Claro que no final tem-se um texto do tamanho de um livro.
Meu doutorado, assim como o mestrado, foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da USP. Devo muito à minha orientadora, Vera Bussab, a mesma no mestrado e no doutorado, por todos esses anos juntos, ela sabe. Aprendi muito com ela.

Minha tese é intitulada
“Evolu√ß√£o da Musicalidade Humana: Sele√ß√£o Sexual e Coes√£o de Grupo”.

 

Nela abordo e testo algumas explica√ß√Ķes adaptativas para a exist√™ncia das propens√Ķes musicais e art√≠sticas em nossa esp√©cie.
A defesa √© um momento p√ļblico em que o doutorando apresenta em meia hora o resumo da tese e uma banca de 5 doutores, dois internos aos programa da p√≥s, 2 externos ao programa e o orientador fazem sua argui√ß√£o, que inclui cr√≠ticas, elogios, corre√ß√Ķes, coment√°rios, coloca√ß√Ķes e sugest√Ķes futuras.
Se você se interessa pelo tema venha assistir minha defesa dia 25/08, na próxima quinta feira, às 14 horas na sala 36 do bloco F no Instituto de Psicologia da USP da São Paulo, Cidade Universitária.

David Buss e a Psicologia Evolucionista

No final no Origem das Esp√©cies, nosso aniversariante do m√™s, Darwin vislumbrou uma revolu√ß√£o na Psicologia: “Num futuro distante eu vejo campos abertos para pesquisas muito importantes. A Psicologia estar√° embasada em uma nova funda√ß√£o, aquela da aquisi√ß√£o necess√°ria de cada poder e capacidade mental de forma gradualista. Muita luz ser√° lan√ßada sobre a origem do homem e sua hist√≥ria”.

O surgimento da Psicologia Evolucionista e disciplinas relacionadas que estudam a natureza humana indicam o começo da concretização da previsão de Darwin, segundo David Buss no artigo intitulado The Great Struggles of Life: Darwin and the Emergence of Evolutionary Psychology de 2009.

Dr David Buss √© professor da Universidade do Texas e um dos pioneiros em Psicologia Evolucionista. √Č dele o famoso estudo de 1986 amostrando 10.047 pessoas em 37 culturas indicando diferentes diferen√ßas sexuais consistentes nos crit√©rios para sele√ß√£o de parceiros rom√Ęnticos. Ele j√° escreveu livros sobre a evolu√ß√£o do desejo e motiva√ß√£o sexual, ci√ļmes, assassinato, conflito entre homens e mulheres, personalidade al√©m de dois livros sobre Psicologia Evolucionista.

Nos vídeos abaixo veremos uma palestra de Buss dublada para o espanhol concedida ao programa La Ciudad de las Ideas de 2008. (25 min). No primeiro vídeo ele fala que as estratégias de acasalamento (formação de casais) surgem do desejo, que existem diferenças entre homens e mulheres na esfera do acasalamento, qual o papel e a história da seleção sexual de Darwin e que temos um menu complexo de estratégias de acasalamento contendo relacionamentos de longo prazo, curto prazo, extraconjugais, seriais e mistos.

Quanto ao longo prazo, ele fala do estudo com 37 culturas em que, apesar de ambos os sexos valorizarem igualmente o amor mutuo, a inteligência e a amabilidade, homens valorizam mais aparência a e juventude e mulheres valorizam boas perspectivas financeiras. Quanto ao curto prazo, ele mostra que homens desejam por volta de 20 parceiras sexuais diferentes pra vida inteira ao passo que as mulheres desejam cerca de cinco para toda vida. Veja mais sobre o desejo por variedade sexual em Desejos por Variedade Sexual do MARCO EVOLUTIVO.

No segundo v√≠deo ele fala que evolutivamente as mulheres traem por recursos ou bons genes ou pra conquistar um parceiro melhor, fala tamb√©m que homens tem mais ci√ļme sexual enquanto as mulheres tem mais ci√ļme emocional devido a incerteza da paternidade para os homens e da incerteza do comprometimento masculino para as mulheres. E pra finalizar ele fala tamb√©m que durante o per√≠odo f√©rtil as mulheres desejam mais sexo, acham mais atraentes homens mais sim√©tricos e com faces, corpos e vozes mais masculinas. Aproveitem os v√≠deos.
 

Simp√≥sio de Sexologia e Colet√Ęnia em Sele√ß√£o Sexual

Nesta quinta feita, dia 01/09 tem in√≠cio na UNESP de S√£o Jos√© do Rio Preto o Simp√≥sio de Sexologia promovido pelo Centro Acad√™mico de Biologia “3 de Setembro”. O evento abordar√° os estudos acerca da sexualidade, envolvendo tr√™s grandes tem√°ticas: a biol√≥gica comparativa e adaptativa; a do direito envolvendo aborto e crimes sexuais; e a informativa e de sa√ļde envolvendo orienta√ß√£o sexual, sexualidade nas universidades e DSTs. Achei muito interessante a programa√ß√£o, pois geralmente a abordagem evolutiva para a sexualidade est√° fora da Sexologia.

Durante o Simp√≥sio de Sexologia eu darei um mini-curso sobre a Evolu√ß√£o das Estrat√©gias Sexuais. Para os participantes e para todos interessados no tema eu recomendo que leiam os posts sobre sele√ß√£o sexual do MARCO EVOLUTIVO. Para descobrir sobre os padr√Ķes da sele√ß√£o sexual nos outros animais vejam:

Para descobrir influências da seleção sexual no comportamento humano vejam:

E para vejam ótimos vídeos de especialistas no assunto vejam:
 

E falando em ótimos vídeos, aqui veremos em primeira mão um vídeo colocado hoje no youtube de um podcast do Biólogo Evolucionista Tim Clutton-Brock do Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge. Nele Clutton-Brock aborda primeiro o desafio à evolução que os ornamentos representaram pra Darwin e sua solução foi criar a Seleção Sexual. Ele separa a beleza em dois tipos: a beleza simples e funcional do design adaptativo que evoluiu por seleção natural; e a beleza exagerada, multifacetada e complexa dos ornamentos que evoluiu por seleção sexual.

Ele fala que a sele√ß√£o sexual, apesar de pensada s√≥ para formas e cores, atua em todas as formas de sistemas de sinaliza√ß√£o e envolve sons e cheiros atraentes. Para ele as aves e mam√≠feros diferem quanto aos canais de comunica√ß√£o o que pode ser evidenciado nas diferen√ßas de ornamentos. As aves s√£o em geral mais visuais e sonoras enquanto os mam√≠feros s√£o em geral mais voltados para os ornamentos olfativos. Ele borda tamb√©m que a maioria das pesquisas tem foco nas exibi√ß√Ķes masculinas, mas que atualmente os ornamentos femininos est√£o sendo mais estudados. Aborda tamb√©m o efeito da assimetria no investimento parental nas diferen√ßas sexuais nos humanos e nos benef√≠cios que as f√™meas t√™m na sele√ß√£o sexual.

O sexo chimpanz√© e o conflito de gera√ß√Ķes

Os chimpanz√©s, nossos parentes mais pr√≥ximos na Terra, apresentam n√£o s√≥ uma √≥tima oportunidade para nos entendermos com um olhar mais amplo, mas tamb√©m para estudar suas pr√≥prias peculiaridades comportamentais. O in√≠cio da Primatologia foi marcado por um interesse secund√°rio no comportamento dos outros macacos e sim mais uma oportunidade comparada ao estudo do ser humano. Atualmente existe um interesse leg√≠timo no comportamento e nas peculiaridades dos outros primatas, visto que eles n√£o s√£o ‚Äúpiores‚ÄĚ do que n√≥s e muitos est√£o sofrendo amea√ßas de extin√ß√£o.

E nada mais interessante do que falarmos sobre o sexo dos nossos parentes mais próximos. As chimpanzés fêmeas não apresentam menopausa, ficando fértil por todos seus 40 anos médios de vida, ao contrário dos humanos. Então, será que os machos chimps apresentam a mesma preferência por fêmeas mais novas que homens apresentam? Foi exatamente essa questão que motivou uma pesquisa feita pelo antropólogo Martin Muller da Boston University. Ele observou a faixa etária das fêmeas mais abordadas para cópula num grupo de chimps no Kibale National Park em Uganda.
Ele obteve que, ao contr√°rio dos homens, os chimpanz√©s machos preferem f√™meas mais velhas. Os machos competem intensamente pelas f√™meas mais velhas, enquanto as mais novas t√™m que se esfor√ßar mais para atrair a aten√ß√£o. Comparado com as mais novas as f√™meas mais velhas s√£o mais abordadas, acasalam mais comumente no per√≠odo do estro, copulam com maior freq√ľ√™ncia com os machos dos altos postos da hierarquia e geram intensa disputa entre os machos na √©poca de acasalamento.
Bom, vocês perceberam que existe hierarquia entre as fêmeas sendo as mais velhas as mais dominantes, e assim elas obtêm um acesso melhor a melhores alimentos. E uma fêmea bem nutrida apresenta maior fecundidade, ou seja, maior a probabilidade de darem à luz em qualquer ciclo fértil. Então seria de se esperar que as fêmeas mais novas desenvolvessem estratégias para contornar essa influência dominante das mais velhas e também se dar bem na reprodução (duplo sentido opcional).
E foi exatamente isso que o psic√≥logo Simon Townsend da University of St Andrews e colegas obtiveram em seus estudos sobre as er√≥ticas vocaliza√ß√Ķes de c√≥pula que as f√™meas emitem, quase como gemidos sexuais. A hip√≥tese vigente dizia que essas sinaliza√ß√Ķes vocais das f√™meas funcionavam indicando sua fertilidade para os machos, incitando a competi√ß√£o de modo que quem copulava era o melhor macho, o que ganhou a competi√ß√£o. Mas eles n√£o encontraram suporte para essa hip√≥tese, pois n√£o houve rela√ß√£o entre os chamados de c√≥pula e o per√≠odo f√©rtil.
Ao inv√©s disso eles obtiveram que as f√™meas gemiam mais quando copulavam com machos de domin√Ęncia mais elevada, mas elas suprimiam as vocaliza√ß√Ķes quando f√™meas de maior domin√Ęncia estavam por perto. Essa flexibilidade estrat√©gica na emiss√£o dos chamados de c√≥pula acaba por prevenir a competi√ß√£o social, que muitas vezes √© violenta, entre as f√™meas de diferentes idades.
As f√™meas chimpanz√©s parecem estar muito mais interessadas em fazer sexo com diferentes machos sem que as f√™meas dominantes descubram para n√£o gerar confus√£o pra cima delas, do que gerar competi√ß√£o barulhenta entre os machos. N√£o esper√°vamos que o conflito de gera√ß√Ķes entre as chimps fosse originar c√≥pulas silenciosas e veladas.

Como vimos, o sexo primata pode dar muito o que falar como pode dar muito o que calar. Ali√°s, calar foi a √ļnica coisa que os humanos (crian√ßas e adultos) n√£o fizeram frente ao ato sexual chimpanz√© deste v√≠deo.

Vídeos: Evolução da Sexualidade Humana II


Para finalizar o Festival de Vídeos sobre a Evolução da Sexualidade Humana veremos o documentário The Nature of Sex .

São seis vídeos que buscam pistas para nossa própria sexualidade em nossos parentes próximos e no passado distante. Assim como o documentário passado este é ricamente ilustrado e elucidativo, além de ser bem abrangente.
No primeiro v√≠deo, de quase 10 minutos, veremos o Homo Habilis, as press√Ķes que ele enfrentou na savana e faremos compara√ß√Ķes com a sociedade de Babuinos. Depois veremos o comportamento sexual do Chimpanz√© e tra√ßaremos paralalos com o cio humano.
No segundo v√≠deo, de 10 minutos, veremos o Homo Erectus, seu modo de ca√ßa, sua sa√≠da da √Āfrica e o cont√≠nuo aumento do cuidado parental. Veremos tamb√©m a origem do seio. Manteremos aquele olhar de auto-estranhamento ao analisarmos a fam√≠lia do ponto de vista evolucionista.
No terceiro v√≠deo, de 10 minutos, veremos as origens do favorecimento de parentes. Ao analisarmos as caracter√≠sticas que escolhemos nos parceiros amorosos veremos a origem do nariz. Como em nossa esp√©cie tanto homens quanto mulheres escolhem, veremos as press√Ķes seletivas para indicadores como tamanho e for√ßa corporal, e fertilidade e cuidado da prole.
No quarto v√≠deo, de 10 minutos, veremos a origem de olhos grandes e l√°bio como sinalizadores, e que assim como ambos os sexos escolhem eles competem. Veremos um curioso desfile de beleza masculino e seus paralelos com os cuidados est√©ticos do Bowerbird. E descobriremos que n√£o h√° apenas indicadores de cuidados parentais, mas sim indicadores est√©ticos de bom gosto. Al√©m de ver as sutilidades n√£o-verbais da vigil√Ęncia de acasalamento.
No quinto vídeo, de 10 minutos, veremos o investimento feminino na prole e as tendências para evitar o incesto nas crianças em kibutz.
Veremos também qual é a profissão mais antiga do mundo e que não somos tão diferentes de muitos outros animais.
No √ļltimo v√≠deo, de 3 minutos, veremos nossas semelhan√ßas com os Bonobos e por fim sua mensagem de paz e amor.

Reserve uma horinha para ver esses vídeos interessantes e evolutivamente relevantes e ainda treine seu inglês.

Vou te dar muita press√£o, vou sim!

Um dos maiores ensinamentos evolutivos é que devemos tentar ao máximo olhar para os seres vivos Рinclusive para o animal humano Рcom o mesmo estranhamento que um biólogo marciano olharia. Ou seja, abandone seu antropocentrismo! Com esse sentimento podemos capturar as verdades evolutivas por trás do óbvio ao nosso redor, inclusive da letra de funk acima.

Desde Darwin e Wallace e os prim√≥rdios da sele√ß√£o natural a quest√£o sobre a consci√™ncia ou acaso das press√Ķes seletivas era muito controvertida. O pr√≥prio Darwin salientou que ‚ÄúMuitos escritores t√™m compreendido mal, ou t√™m criticado o termo Sele√ß√£o Natural. Alguns t√™m mesmo imaginado que a Sele√ß√£o Natural induz √† variabilidade, quando pelo contr√°rio envolve somente a conserva√ß√£o das varia√ß√Ķes acidentalmente produzidas, quando s√£o vantajosas ao indiv√≠duo nas condi√ß√Ķes de exist√™ncia em que vive. […] Outros t√™m objetado que o termo sele√ß√£o envolve uma escolha consciente nos animais que tornaram modificados; e tem-se mesmo argumentado que sendo as plantas isentas de qualquer vontade, a Sele√ß√£o Natural n√£o lhes √© aplic√°vel!‚ÄĚ
Como a palavra ‚Äúacidentalmente‚ÄĚ deixa bem claro as press√Ķes seletivas da Sele√ß√£o Natural n√£o envolvem qualquer tipo de consci√™ncia – para desespero dos criacionistas de designers inteligentes. O algor√≠timo darwiniano √© nada mais do que uma receita que independe do substrato, dadas as condi√ß√Ķes e ingredientes certos ela sempre funcionar√° mecanicamente. Essa √© a famosa perigosa id√©ia de Darwin esmiu√ßada por Daniel Dennett (1995).

Ent√£o podemos pensar que o ‚ÄúVou te dar muita press√£o‚ÄĚ n√£o passa de um absurdo criacionista, pois Darwin mostrou concretamente que o sujeito da ora√ß√£o (sem duplo sentido religioso heim! Eu quis dizer ‚Äúfrase‚ÄĚ) n√£o √© indeterminado nem est√° oculto, √© inexistente. Darwin ainda acrescenta que ‚ÄúNo sentido literal da palavra, n√£o h√° d√ļvida que o termo Sele√ß√£o Natural √© um termo err√īneo; mas quem jamais criticou os qu√≠micos, por se servirem do termo afinidade eletiva falando de diferentes elementos? […] Todos sabem o que significam e o que querem exprimir estas express√Ķes metaf√≥ricas e que s√£o quase necess√°rias para a concis√£o.‚ÄĚ

Mas ser√° que todo termo evolucionista ‚Äúsele√ß√£o‚ÄĚ est√° t√£o isento de vontade pr√≥pria assim? Mas √© claro que n√£o! E foi o pr√≥prio Darwin quem matou a charada descobrindo a Sele√ß√£o Sexual. Ao contr√°rio do sentido totalmente casual e mec√Ęnico do ‚Äúsele√ß√£o‚ÄĚ da Sele√ß√£o Natural, a Sele√ß√£o Sexual envolve sim uma vontade direcional. Mas n√£o uma vontade direcional divina, uma vontade literalmente animal. Essa vontade intencional pr√≥pria √© uma das maiores press√Ķes seletivas na evolu√ß√£o dos animais, pois s√£o as mentes dos pr√≥prio animais que exercem press√£o evolutiva em outros animais.
As mentes, enquanto funcionamento do sistema nervoso, s√£o t√£o materiais quanto o funcionamento do liquidificador. O interessante √© que um simples processo mec√Ęnico n√£o-intencional p√īde originar aparatos complexos e intencionais como as mentes animais (que maravilha de id√©ia perigosa). E s√£o as escolhas por livre e espont√Ęnea vontade dessas mentes que s√£o o obvio sujeito oculto por tr√°s da frase de funk.
Agora que percebemos que o ‚Äúeu‚ÄĚ oculto no ‚ÄúVou te dar muita press√£o‚ÄĚ n√£o √© divino, mas sexual olhamos com outros olhos o √≥bvio sentido sexual da letra. Al√©m disso, as press√Ķes seletivas intencionais n√£o est√£o s√≥ restritas √†s escolhas que os animais fazem intra-especificamente como na sele√ß√£o sexual, pois at√© quando se relacionam com outras esp√©cies sejam animais ou plantas est√£o ‚Äúdando muita press√£o‚ÄĚ tamb√©m. Mas, √© claro que as for√ßas s√£o maiores na dif√≠cil vida intra-espec√≠fica grandemente abarcada pela Sele√ß√£o Sexual.
Chegado o estranhamento, vamos aos ind√≠cios. Se existe uma diferen√ßa qualitativa da press√£o metaforicamente seletiva da Sele√ß√£o Natural para a press√£o literalmente seletiva da Sele√ß√£o Sexual esperar√≠amos encontrar adapta√ß√Ķes mais refinadas, complexas e mais bem esculpidas fruto das press√Ķes intencionais.
Aqui veremos um v√≠deo sobre como a paisagem passiva das florestas pressionou o canto das aves florestais para sons mais simples, com notas longas bem demarcadas e com menos varia√ß√£o de notas ‚Äď caracter√≠sticas sonoras que escapam √†s barreiras refletoras de sons das folhas. Veremos tamb√©m como a press√£o seletiva √© diferente no alto na floresta do ch√£o dela. Em quanto que neste v√≠deo veremos como a paisagem psicol√≥gica intencionalmente ativa das aves moldou as mais requintadas cores e exibi√ß√Ķes de corte.
Depois desse texto voc√™ nunca mais ouvir√° o Bonde do Tigr√£o do mesmo jeito. Porque o simples ato de escolher ouvir sempre ou nunca mais ouvir essa m√ļsica j√° √© ‚Äúdar muita press√£o‚ÄĚ literalmente.
Referência
Carvalho, E. M. M. (Org.) (1986). O Pensamento Vivo de Darwin. S√£o Paulo: Martin Claret.
Dennett, D. (1995). A perigosa Idéia de Darwin. Rio de Janeiro: Rocco.

Desejos por Variedade Sexual

A evolução diferenciada entre homens e mulheres

Idealmente, quantos parceiros sexuais voc√™ gostaria de ter no pr√≥ximo m√™s? E daqui a cinco anos? Quantos parceiros voc√™ gostaria de ter daqui a 30 anos? E durante toda sua vida? N√£o √© novidade que o desejo por variedade sexual, assim como o pr√≥prio desejo por sexo, est√° presente em maior ou menor grau na mente dos seres humanos. A novidade √© que essas perguntas, quando feitas a 16 mil pessoas de 52 na√ß√Ķes diferentes, podem ajudar a esclarecer as bases evolutivas do comportamento sexual. O desejo por variedade sexual √© uma caracter√≠stica mental chave para testar diferentes teorias evolutivas sobre o acasalamento humano.
As diferentes abordagens evolucionistas divergem quanto √† dimens√£o temporal t√≠pica dos relacionamentos amorosos. Existem teorias que dizem que n√≥s somos naturalmente inclinados apenas para relacionamentos monog√Ęmicos de longo prazo e que a promiscuidade √© patol√≥gica, oriunda do ambiente moderno antinatural. Outras dizem que somos naturalmente inclinados apenas para relacionamentos prom√≠scuos de curto prazo, dada nossa tamanha semelhan√ßa gen√©tica com os chimpanz√©s. A vis√£o intermedi√°ria √© a de que n√≥s possu√≠mos um repert√≥rio natural mais pluralista, que inclui relacionamentos tanto de longo quanto de curto prazos.
A quest√£o √© que, ao contr√°rio das teorias pluralistas, as que admitem inclina√ß√Ķes biol√≥gicas apenas para relacionamentos curtos ou longos n√£o prev√™em diferen√ßas espec√≠ficas entre homens e mulheres. As teorias pluralistas argumentam que ambos os sexos t√™m o mesmo repert√≥rio temporal flex√≠vel de estrat√©gias sexuais. Homens e mulheres possuem adapta√ß√Ķes mentais voltadas tanto para a ado√ß√£o de estrat√©gias de curto prazo em algumas ocasi√Ķes, quanto para ado√ß√£o de estrat√©gias de longo prazo em outras. Essa flexibilidade teria dado aos nossos ancestrais importantes benef√≠cios reprodutivos por permitir que eles respondessem adaptativamente a uma grande variedade de contextos familiares, culturais e ecol√≥gicos. Entretanto, √© previsto que homens e mulheres tenham inclina√ß√Ķes e desejos diferentes para cada n√≠vel de relacionamento.
Amor e sexo
Segundo a Teoria das Estrat√©gias Sexuais de David Buss e David Schmitt (1993), para relacionamentos de longo prazo – caracterizados por extenso flerte, elevado investimento, presen√ßa de amor, m√ļtuo comprometimento e a dedica√ß√£o de recursos ao relacionamento e aos poss√≠veis filhos por um longo per√≠odo ‚Äď √© esperado que as mulheres d√™em mais import√Ęncia do que os homens ao status, maturidade, recursos e ao comprometimento do parceiro a ela e aos filhos. Enquanto √© previsto que homens valorizem mais do que mulheres pistas de valor reprodutivo (idade e apar√™ncia f√≠sica) e fidelidade sexual.
Entretanto, para relacionamentos de longo prazo, ambos os sexos s√£o bastante seletivos e valorizam igualmente v√°rias qualidades internas como ‚Äúdoce e compreens√≠vel‚ÄĚ e ‚Äúintelig√™ncia‚ÄĚ. Muitas das diferen√ßas no crit√©rio de homens e mulheres s√£o geradas por adapta√ß√Ķes mentais especializadas em resolver diferentes problemas adaptativos que cada sexo enfrentou ao longo de nossa hist√≥ria evolutiva. Os problemas femininos eram mais relacionados ao car√°ter e √† possibilidade de recursos para seus filhos e os problemas masculinos eram mais relacionados √† certeza de fertilidade e da paternidade.
Por outro lado, para relacionamentos de curto prazo ‚Äď caracterizado por curto flerte, baixo investimento e aus√™ncia de comprometimento e sentimentos amorosos ‚Äď √© previsto que as mulheres valorizem seletivamente mais do que homens qualidades gen√©ticas (como beleza e simetria) e possibilidades de obten√ß√£o imediata de recursos. J√° para os homens, √© esperado que sejam bem menos seletivos do que mulheres e valorizem mais a variedade sexual. Biologicamente, as mulheres carregam todo o custo da gesta√ß√£o e lacta√ß√£o. Como a falta de comprometimento desse n√≠vel de relacionamento as deixa sozinhas com todo o custo da gravidez, houve uma press√£o favorecendo aquelas bem seletivas quanto √† obten√ß√£o imediata de vantagens materiais e/ou gen√©ticas. Ao passo que os homens s√≥ precisavam achar um grande n√ļmero de parceiras sexuais para ter vantagens evolutivas.

Fisiologicamente, mesmo se uma mulher fizer sexo com 100 homens em um ano, ela poder√° ter apenas uma gesta√ß√£o nesse per√≠odo. Enquanto que se um homem fizer sexo com 100 mulheres ele ter√° a possibilidade de ter 100 descendentes no mesmo per√≠odo. Essa diferen√ßa gerou press√Ķes evolutivas diferenciadas para esse n√≠vel de relacionamento nas mentes de homens e mulheres do ambiente ancestral. Mulheres que valorizavam a qualidade em detrimento da quantidade eram selecionadas e homens que valorizavam a quantidade em detrimento da qualidade eram selecionados. Ent√£o, em m√©dia, √© esperado que um forte desejo por variedade sexual seja caracter√≠stico de uma adapta√ß√£o mental masculina.
Mal-entendido sobre adaptação
Essa forte pressão seletiva atuando ao longo de nossa história evolutiva caçador-coletora deixou marcas nas mentes masculinas atuais na forma de desejos e preferências ideais favoráveis à variedade sexual. Isso não implica que os homens desejem maior variedade sexual porque inconscientemente querem ter mais filhos, eles simplesmente acham a idéia de muitas parceiras mais atraente e prazerosa. Para uma característica ser selecionada, não é necessário que a evolução favoreça um conhecimento consciente ou inconsciente sobre a lógica dos processos evolutivos que geraram a adaptação. Basta que a característica seja prazerosa e recompensadora ao indivíduo. Por isso, o desejo sexual não é uma estratégia das pessoas para ter filhos e propagar seus genes, mas sim uma estratégia pessoal para alcançar os prazeres do sexo. E os prazeres e desejos sexuais conscientes e inconscientes são as estratégias dos genes para propagarem-se via filhos.

Estudo inicial
Em 2001, com uma amostra de mais de mil pessoas, David Schmitt e colaboradores encontraram diferenças significativas entre homens e mulheres para todas as magnitudes de tempo. Estudantes universitários masculinos desejaram em média 1,3 parceiras para um mês, 2,8 para um ano, 7 para cinco anos, 9,1 para dez anos, 12,4 para 30 anos e 14,2 para a vida toda. Já as universitárias desejaram em média um parceiro para um mês, 1,6 para um ano, 3 para cinco anos, 3,6 para dez anos, 3,8 para 30 anos e 4 para a vida toda. Eles obtiveram as mesmas diferenças para todas as unidades de tempo até investigando uma população mais madura (em média, 40 anos). Os homens desejaram 2,1 parceiras para um mês, 31 pra cinco anos e 74 para a vida toda, enquanto as mulheres desejaram 1,2 para um mês, 1,7 para cinco anos e 1,8 para a vida toda.
Schmitt e colaboradores cercaram melhor as causas dessa diferen√ßa controlando poss√≠veis influ√™ncias da metodologia do auto-relato e de indicadores de baixa sa√ļde mental. Quando pediram a outra amostra de pessoas que respondesse sobre quantos parceiros sexuais a pessoa t√≠pica do sexo oposto desejaria para cada medida de tempo, eles tamb√©m encontraram as mesmas diferen√ßas. Mulheres disseram que o homem t√≠pico desejaria duas parceiras para um m√™s, 17,6 pra cinco anos e 27,7 para a vida toda, enquanto os homens disseram que a mulher t√≠pica desejaria 1,8 para um m√™s, 14,3 para cinco anos e 25,3 para a vida toda. Eles tamb√©m obtiveram que o desejo por variedade sexual n√£o est√° relacionado √† baixa auto-estima, instabilidade emocional, baixa abertura a novas experi√™ncias, entre outros. Pelo contr√°rio, o desejo por variedade sexual relacionou-se a caracter√≠sticas indicativas de sa√ļde mental em homens, como elevada auto-estima. Entretanto, ainda n√£o se sabia se esses resultados estavam restritos apenas aos americanos ou se eram extrapol√°veis interculturalmente.
Estudo intercultural
Em 2003, iniciou-se o Projeto Internacional de Descri√ß√£o da Sexualidade um in√©dito empenho colaborativo intercultural entre 119 cientistas comportamentais, sociais e biol√≥gicos, do qual o Brasil participou. Ele abrangeu 16.288 pessoas, em sua maioria universit√°rios, de seis continentes, 13 ilhas, 52 na√ß√Ķes e 27 l√≠nguas, incluindo a Am√©rica do Sul e do Norte, Sul da Europa, Leste e Oeste Europeu, Oriente M√©dio, √Āfrica, Oceania, Leste Asi√°tico e Sul/Sudeste Asi√°tico.
Pela primeira vez na história obteve-se que, interculturalmente, homens desejam maior variedade sexual do que mulheres. Os homens desejaram em média 1,87 parceiras pra um mês, 3,36 para um ano, 5,64 para cinco anos, 5,95 para dez anos e 6,62 para 30 anos; enquanto as mulheres desejaram, em média, 0,78 parceiros para um mês, 1,18 para um ano, 1,95 para cinco anos, 2,17 para dez anos e 2,47 para 30 anos.
O resultado se manteve independente do status de relacionamento. A porcentagem de homens desejando mais de uma parceira sexual para o próximo mês que são casados foi de 12,8% contra 3,5% das casadas, a porcentagem dos homens que moram junto e desejam mais de uma parceira foi de 18,2% contra 2,4% das mulheres, a dos que estão saindo com alguém exclusivamente e desejam mais de uma parceira sexual para o próximo mês foi de 19% contra 2,7% das mulheres e a porcentagem dos que estão solteiros foi de 28,6% contra 6,2%. Isso significa que, apesar do comprometimento em relação amorosa diminuir o desejo por variedade sexual em relação aos solteiros, a relação amorosa não foi capaz de igualar os desejos masculinos aos femininos.
Além disso, o resultado se manteve também independente da orientação sexual e do quanto a pessoa busca, ativamente, relacionamentos de curto prazo. A porcentagem de homens heterossexuais desejando mais de uma parceira para o próximo mês foi de 25% contra 4,4% das mulheres, a porcentagem de homens homossexuais desejando mais de um parceiro sexual foi de 29,1% contra 5,5 % de mulheres homossexuais, e a porcentagem de bissexuais masculinos foi de 30,1% contra 15,6% dos femininos. Similarmente, a porcentagem dos homens desejando mais de uma parceira para o próximo mês que estão fortemente procurando relacionamentos de curto prazo foi de 53,5% contra 18,7% das mulheres, e a porcentagem dos homens que não estão buscando o curto prazo foi de 10,5% contra 2% das mulheres.
Apesar da diferen√ßa entre homens e mulheres existir para todas as na√ß√Ķes, as localidades geogr√°ficas em que os homens desejam mais variedade sexual n√£o s√£o exatamente as mesmas em que as mulheres desejam maior variedade sexual. As tr√™s regi√Ķes que tiveram as maiores porcentagem de homens desejando mais de uma parceira sexual para o pr√≥ximo m√™s, em ordem crescente foram: o Sul/Sudeste Asi√°tico, o Oriente M√©dio e a Am√©rica do Sul com 35% dos homens, representada por Argentina, Bol√≠via, Brasil, Chile e Peru. J√° as tr√™s regi√Ķes que tiveram as maiores porcentagens de mulheres desejando mais de um parceiro para o pr√≥ximo m√™s, foram: o Sul da Europa, seguido por Am√©rica do Sul e em primeiro o Sul/Sudeste Asi√°tico com 6,4% das mulheres, representado por Indon√©sia, Mal√°sia e Filipinas. Isso indica que contextos familiares, culturais e ecol√≥gicos relevantes para o ajuste feminino no desejo por variedade sexual n√£o s√£o exatamente os mesmos relevantes para o ajuste masculino.
Inclinação universal
Esses dois estudos indicam que o maior desejo masculino por variedade sexual √© universal e existe independente da idade da amostra, do modo de coleta de dados, de sinais de baixa sa√ļde mental, do status de relacionamento, da orienta√ß√£o sexual e do buscar ativamente relacionamentos curtos, como previsto pela Teoria das Estrat√©gias Sexuais. Essa conclus√£o em apoio √†s teorias pluralistas deixa as teorias que admitem inclina√ß√Ķes naturais apenas para relacionamentos curtos ou longos em pior situa√ß√£o. √Č muito mais prov√°vel que o repert√≥rio em estrat√©gias de acasalamento humano seja flex√≠vel e igualmente presente em ambos os sexos, por√©m, diferentemente esculpido por press√Ķes seletivas distintas para cada o sexo.
Sa√ļde P√ļblica
Implica√ß√Ķes pr√°ticas dessa conclus√£o recaem sobre a sa√ļde p√ļblica. Dado que um potente fator de risco para se contrair AIDS e outras doen√ßas sexualmente transmiss√≠veis √© ter m√ļltiplos parceiros sexuais, estrat√©gias mais efetivas de preven√ß√£o podem ser alcan√ßadas considerando a diferen√ßa entre homens e mulheres no desejo por m√ļltiplos parceiros. Negar que essa diferen√ßa exista pode minar os progressos tanto na investiga√ß√£o das circunst√Ęncias em que o desejo por variedade sexual se traduz em comportamentos de risco, quanto no desenvolvimento de interven√ß√Ķes sexo-espec√≠ficas, que reduzam mais efetivamente as conseq√ľ√™ncias negativas do desejo por variedade sexual em cada sexo.
Adaptação mental não é desculpa
Est√° mais do que claro que os mesmos processos naturais que moldaram outras esp√©cies tamb√©m se aplicam ao ser humano. E que a Teoria da Evolu√ß√£o pode prever tanto adapta√ß√Ķes anat√īmicas, como os diferentes modelos de nossos dentes incisivos e molares, quanto adapta√ß√Ķes psicol√≥gicas, como o diferente design mental do desejo por variedade sexual. O que n√£o implica em pessoas escravas das adapta√ß√Ķes, pois a pr√≥pria sele√ß√£o por flexibilidade de repert√≥rio favorece um controle consciente dos impulsos naturais. Portanto, o discurso de que o desejo por m√ļltiplos parceiros √© natural n√£o √© justificativa para qualquer ato individual, por n√£o isentar a culpabilidade daqueles que, ao satisfazerem seus desejos, exp√Ķem conscientemente parceiros a danos √† sa√ļde pelo sexo desprotegido e √† confian√ßa pelas trai√ß√Ķes.
Adaptado de minha publica√ß√£o original na revista PSIQUE Ci√™ncia & Vida, ano II n¬ļ 18.
Referências

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SCHMITT, D. P. et al. Universal Sex Differences in the Desire for Sexual Variety: Tests From 52 Nations, 6 Continents, and 13 islands. Jounal of Personality and Social Psychology, 2003, v.85, n¬ļ. 1, p. 85-104.
SCHMITT, D. P; SHACKELFORD, T. K.; DUNTLEY, J.; TOOKE, W; BUSS, D. M. The desire for sexual variety as a key to understanding basic human mating strategies. Personal Relationships, 2001, v.8, p. 425-455.

Evolutivamente Sexo Casual

Por Marco A. C. Varella e José H. B. P. Ferreira

José H. B. P. Ferreira é Biólogo Licenciado, Bacharel em Psicologia Experimental e mestrando em Psicologia Experimental no Instituto de Psicologia da USP.

Sexo casual, ou seja, o sexo sem envolvimento afetivo, tradicionalmente alvo das ci√™ncias humanas, recentemente passou a ser estudado com o enfoque evolutivo, pois dada a sua relev√Ęncia direta na reprodu√ß√£o, espera-se que as caracter√≠sticas psicol√≥gicas envolvidas tenham sofrido press√Ķes seletivas substanciais ao longo da evolu√ß√£o humana.

 

Nos seus famosos estudos sobre sexualidade da d√©cada de 50, Alfred Kinsey e colegas encontraram muitos praticantes, e grande varia√ß√£o individual quanto √†s motiva√ß√Ķes frente ao sexo casual. Eles nomearam essas motiva√ß√Ķes de ‚Äúorienta√ß√£o s√≥cio-sexual‚ÄĚ ou ‚Äús√≥cio-sexualidade‚ÄĚ. Essa id√©ia ficou esquecida na Psicologia at√© que, nos anos 90, Simpson e Gangestad conceitualizaram a s√≥cio-sexualidade como uma √ļnica dimens√£o cont√≠nua da personalidade com os p√≥los caracterizados como irrestritos e restritos.

 

Irrestritos s√£o pessoas com atitudes, comportamentos, fantasias e opini√Ķes mais permissivas do que a m√©dia populacional quanto ao sexo sem compromisso, j√° os restritos necessitam mais do que a m√©dia populacional de envolvimento afetivo e amoroso pr√©vio ao ato sexual. No popular, irrestritos separam mais sexo de amor do que restritos.

 

Segundo a Teoria Evolucionista da Hist√≥ria de Vida de Roff e Stearns (1992), os seres humanos enfrentaram um grande dilema evolutivo quanto √† reprodu√ß√£o. Ou se alocava a maioria dos esfor√ßos (energia, tempo, recursos), que s√£o finitos, em procurar o maior n√ļmero poss√≠vel de parceiros – conquist√°-los e fazer sexo -, ou se investia mais em manter um parceiro, fazer amor, assegurar fidelidade e investir nos filhos.

 

A s√≥cio-sexualidade descreve justamente a varia√ß√£o individual nas disposi√ß√Ķes, facilidades e propens√Ķes para solucionar esse dilema, demonstrando que cada indiv√≠duo possui e pode utilizar toda uma gama de estrat√©gias reprodutivas dependendo da oportunidade e das circunst√Ęncias situacionais. Segundo a Teoria das Estrat√©gias Sexuais (1993), a solu√ß√£o voltada para a conquista √© a estrat√©gia reprodutiva de curto prazo, e a voltada a assegurar um parceiro e investir nos filhos √© a estrat√©gia reprodutiva de longo prazo.

A primeira fonte de variação individual na sócio-sexualidade é a diferença entre homens e mulheres. Segundo a Teoria do Investimento Parental de Trivers (1972), o sexo que, fisiologicamente, tiver mais energia, tempo e recursos voltados para investir na prole terá sua solução do dilema reprodutivo mais voltado para a estratégia de longo prazo. Então, já que as mulheres a priori têm o alto custo com gametas maiores, gestação e lactação, elas serão, em média, mais restritas do que homens.

 

Outra fonte de varia√ß√£o individual √© a varia√ß√£o gen√©tica, apontada em um estudo com 4.901 g√™meos australianos. Eles demonstraram maior igualdade na escolha da estrat√©gia s√≥cio-sexual, nos homozig√≥ticos do que nos dizig√≥ticos de mesmo sexo e de sexo diferente, controlando os que foram criados juntos e separados. Outra fonte de varia√ß√£o s√£o os n√≠veis de masculiniza√ß√£o; argumenta-se que a varia√ß√£o na orienta√ß√£o s√≥cio-sexual seja um subproduto do n√≠vel de andr√≥genos pr√©-natais, e que as pessoas mais masculinas (expostas a um maior n√≠vel de andr√≥genos), seriam mais irrestritas. E outra fonte √© a do estilo de apego amoroso, onde o mediador da s√≥cio-sexualidade seria o contexto de cria√ß√£o na inf√Ęncia, em que o estilo de apego inseguro √† m√£e levaria a uma pessoa ser irrestrita.

 

Em abril de 2005, publicou-se o maior estudo j√° feito sobre s√≥cio-sexualidade. Ao todo, foram entrevistadas 14.059 pessoas, em seis continentes, dez ilhas, 26 l√≠nguas e 48 na√ß√Ķes, inclusive no Brasil. As principais conclus√Ķes foram:

 

1- A varia√ß√£o na s√≥cio-sexualidade entre as culturas parece ser adaptativamente ajustada a pelo menos dois aspectos da ecologia local, propor√ß√£o homem/mulher e as condi√ß√Ķes para cria√ß√£o dos filhos: culturas com menos mulheres s√£o mais restritas, e culturas com menos homens s√£o mais irrestritas, pois o poder de escolha √© do sexo mais raro; culturas com ambientes mais desfavor√°veis reprodutivamente (altas taxas de mortalidade e desnutri√ß√£o infantil) demandam um maior cuidado biparental, logo, s√£o mais restritas.

 

2- A diferença prevista entre os sexos existe e é universal, em todo o mundo homens são em média mais voltados para o sexo casual do que mulheres.

 

3- Essa diferen√ßa entre os sexos foi maior nas culturas em que o ambiente reprodutivo era mais exigente, mas foi reduzida a n√≠veis moderados nas culturas com mais igualdade pol√≠tica e econ√īmica entre os sexos.

 

A abordagem evolutiva sobre a sexualidade humana tem vantagens por ter grande abrang√™ncia, constata√ß√£o emp√≠rica inter-cultural, parcim√īnia e habilidade de gerar novas predi√ß√Ķes. A s√≥cio-sexualidade √© cada vez mais estudada e debatida, e est√° em franca amplia√ß√£o te√≥rica. Abordar o sexo casual em suas bases gen√©ticas, filogen√©ticas e adaptativas, s√≥ traz explica√ß√Ķes sobre o como as coisas ‚Äús√£o‚ÄĚ, n√£o sobre como ‚Äúdevem ser‚ÄĚ. O fato de homens serem mais propensos n√£o diminui a culpa de nenhum homem que trai sua mulher, pois essas propens√Ķes n√£o implicam em um fatalismo incontrol√°vel. Assim, o objetivo dos cientistas √© entender melhor nossa esp√©cie e n√£o dar diretrizes morais de conduta.

Adaptado da nossa publica√ß√£o original na revista PSIQUE Ci√™ncia & Vida, ano I n¬ļ 9

Referências bibliográficas:

 

BAILEY, J. M., DUNNE, M. P., KIRK, K. M., ZHU, G. & MARTIN N. G. Do individual Differences in Sociosexuality Represent Genetic or Environmentally Contigent Strategies? Evidence From the Australian Twin Registry. Journal of Personality and Social Psychology, 2000, v. 78, n. 3, p. 537-545.

BELSKY, J., STEINBERG, L. & DRAPER, P. Childhood experience, interpersonal development, and reproductive strategy: an evolutionary theory of socialization. Child development, 1991, v. 62, p. 647-670.

BUSS D. M. Sexual strategies theory: Historical Origins and Current Status. The Journal of Sex Research, 1998, v. 35, p. 19-31.

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SCHMITT, D. P. et al. Sociosexuality from Argentina to Zimbabwe: a 48-nation study of sex, culture and strategies of human mating. Behavioral and Brain Sciences, 2005, v. 28, p. 247-275.

SIMPSON, J. A. & GANGESTAD, S. W. (1991). Individual differences in sociosexuality: evidence for convergent and discriminant validity. Journal of Personality and Social Psychology, v. 60, n 6, p. 870-883.