150 anos do livro A Descendência do Homem e a Seleção Sexual de Darwin

Neste dia de 24 de fevereiro há exatos 150 anos foi publicado em Londres com dois volumes de 450 páginas o The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex de Charles Darwin. O livro foi um marco para o estudo da evolução humana e aqui no MARCO EVOLUTIVO não poderíamos deixar de celebrar esta data. Originalmente a ideia de Darwin era apenas ter um capítulo sobre humanos em seu livro The variation of animals and plants under domestication de 1866, mas como o livro já estava grande ele resolveu fazer em separado um pequeno ensaio sobre nossa ancestralidade primata e a seleção sexual, o que acabou crescendo e virando os dois volumes do The Descent of Man em 1871. Neste livro Darwin finalmente pode desenvolver tudo o que ele se referiu ao final do Origem das Espécies quando disse que, por conta da evolução por seleção natural, no futuro muita luz seria lançada sobre a origem dos humanos e nossa psicologia e história.

Intuitivamente sempre nos parece que a diferença psicológica entre humanos e outros primatas é enorme, tanto que até o Alfred Wallace abandonou a explicação evolucionista ao se tratar da mente humana por achar pouco possível de que toda nossa capacidade intelectual tenha evoluído naturalmente em contextos tribais aparentemente pouco exigentes por grandes inteligências. Muito do The Descent é uma reposta ao desafio de Wallace. Darwin argumenta que todas as nossas características psicológicas podem ser encontradas em algum grau em outras espécies, incluindo capacidades para a música, a beleza, e a moralidade. É por isso que numa carta a Wallace Darwin diz que a evolução humana era o maior e mais interessante problema para o naturalista.

Outra noção popular na época era a de que toda a exuberante beleza na natureza teria sido magicamente criada para satisfazer os humanos que seriam o ápice da evolução. Graças a Darwin e anos de pesquisa subsequente, hoje sabemos que a evolução não tem ápice e que somos tão únicos e tão especiais quanto cada uma das outras espécies. No The Descent Darwin argumenta que a beleza sonora e visual encontrada no mundo animal evoluiu naturalmente pelo processo de seleção sexual. Indivíduos mais vistosos e sonoros eram preferidos na busca por um parceiro sexual, o que ao longo de muitos ciclos de seleção, dá origem a cada vez mais beleza.

A evolução dos armamentos como chifres era mais facialmente explicada pela competição entre machos o que deixara as armas mais eficientes e maiores. Mas para explicar a evolução da beleza era necessário perceber que as fêmeas das outras espécies também têm senso estético e que a variação nesse senso estético era a pressão social favorecendo a evolução dos ornamentos animais. Portanto, para Darwin a beleza do pavão ou da ave do paraíso não necessariamente precisa indicar uma qualidade de sobrevivência, basta ela ser agradável o suficiente para as fêmeas da espécie que a ornamentação poderia evoluir sendo um fim em si mesma.

Atualmente como parte das celebrações do sesquicentenário do The Descent, diversas iniciativas tentam resgatar o que Darwin acertou e o que Darwin errou no livro, e todos o desdobramento mais atuais nos dois tópicos centrais do livro: evolução humana e seleção sexual. O livro A Most Interesting Problem: What Darwin’s Descent of Man Got Right and Wrong about Human Evolution apresenta uma releitura da perspectiva atual de cada capítulo relativo ao ser humano. Está sendo muito bem avaliado e me pareceu muito interessante tanto para quem quer se atualizar sobre evolução humana quanto para quem quer se aprofundar nas hipóteses do The Descent. Em Darwin, sexual selection, and the brain Micheal Ryan faz uma revisão das várias linhas de pesquisa relacionadas à ideia da Darwin sobre a evolução da beleza sendo um fim em si mesma. Em Darwin’s closet: the queer sides of The descent of man (1871), Ross Brooks ressalta como Darwin integrou a ideia de variação individual nos assuntos da seleção sexual o que foi fundamental para o nascimento da sexologia moderna. No Periódico Evolutionary Human Sciences existem uma compilação de artigos celebrando os 150 anos do The Descent, por enquanto com 3 artigos e com promessa de outros mais por vir.

Claro que como todo livro, o The Descent tem várias limitações e vieses de época, mas nele Darwin deixou claro que as origens evolutivas dos humanos podem sim ser desvendadas. E nesse sentido enquanto um programa de pesquisa a ser desenvolvido, Darwin deu uma inestimável contribuição à evolução humana. E, se percebermos como aspectos morfológicos, biogeográficos, interespecificamente comparativos, mas também psicológicos e comportamentais estão integrados, o The Descent pode ser considerado bem moderno. Isto porque, de lá para cá, ainda são poucos biólogos focando na psicologia e no comportamento, e pouco psicólogos focando na evolução. Felizmente as áreas estão cada vez mais se integrando e talvez um dia cheguemos ao grau de integração que o próprio Darwin expressou 150 atrás.

Dia de Darwin 2021 e os 150 anos do “Descendência do Homem”

É chegado o Darwin Day 2021, a grande celebração internacional da biografia, publicações e legado de Charles Robert Darwin. Hoje, dia 12/2/21, Darwin faz 212 anos. E daqui 12 dias seu livro “A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo” (1971) completa 150 anos de publicação, 12 anos depois do sesquicentenário do “Origem das espécies”.  No “Descendência” (12 letras), Darwin aborda as semelhanças morfológicas, comportamentais e psicológicas entre humanos e não-humanos como evidência da ancestralidade comum, e discute a importância da seleção sexual para a evolução de algumas características compartilhadas. Darwin deixa claro que as diferenças que existem entre nós e os outros animais são de grau e não de tipo, e que todos os humanos vieram de um ancestral comum africano. Trata-se então de um dia, um mês e um ano muito especiais para o evolucionismo, especialmente aplicado ao ser humano.

Nos últimos 12 anos aqui no MARCO EVOLUTIVO, temos celebrado ininterruptamente o Dia de Darwin começando em 2008, passando pelo Bicentenário em 2009, e por 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, pela Década de Darwin Days em 2018, 2019 e em 2020. Por conta da pandemia muitos eventos no Brasil e no mundo todo estão sendo realizados online, o que facilita muito a participação e a disseminação das ideias e do legado de Darwin. Então busque online por Darwin Day 2021 e aproveite. Veja a discussão sobre Evolução Humana promovida pela Sociedade Brasileira de Genética.

No “Descendência” Darwin ressalta que epidemias, assim como guerras, são um importante fator de seleção fazendo com que a população humana não realize todo seu potencial de multiplicação. Seguindo esses primeiros passos de se abordar os surtos de doenças evolutivamente, especialmente num livro sobre a evolução do corpo e do comportamento humano, alguns psicólogos evolucionistas contemporâneos têm continuado essa linha durante a atual pandemia de COVID-19 causada pelo novo coronavírus. Temas como as tendências evoluídas de se evitar contágio por patógenos, as respostas comportamentais e psicológicas a ameaças, cooperação e cuidado em tempos de crise de saúde, entre outros, estão sendo abordados teórica e empiricamente no momento. Veja Seitz et al. (2020), Arnot et al., (2020), Dezecache et al. (2020), Troisi (2020), e Ackerman et al. (2020).

Um tema comum nessas novas publicações é o descompasso temporal evolutivo (evolutionary mismatch) entre o ambiente ancestral, para o qual boa parte das nossas tendências está adaptada, e o ambiente atual, que preserva cada vez menos semelhança com as condições ancestrais. Se o descompasso entre o ambiente de adaptação evolutiva ancestral e o contexto moderno urbanizado, pós-industrial e tecnológico pré-pandemia já era considerado pouco representativo do modo de vida caçador coletor ancestral, levando a vários problemas como o sedentarismo, obesidade, solidão e estresse crônico, esse descompasso só aumentou durante a atual pandemia de COVID-19. A pandemia de COVID-19 está sendo referida como o grande descompasso evolutivo.

O conceito evolutivo do descompasso é importante pois mostra que as adaptações não são absolutas, mas sim relativas a um ambiente específico. Quem conhece o tamanho do ambiente natural dos grandes felinos entende porque eles estão sempre andando para lá e para cá em seus recintos no zoológico. Assim como os leões, os humanos também vão tender a querer se comportar como se ainda estivessem em sua família estendida tribal rodeados de parentes e amigos, alta interação social diária, alimentação comunal, deslocamento diário e entretenimento em grupo ao redor da fogueira à noite.

Ao longo dos anos fomos criando substitutos como a televisão, cinema, o telefone, internet, email, vídeo chamadas, realidade virtual, educação à distância, esteira de corrida/caminhada, aplicativos de escolha de parceiros, pornografia, os documentários de natureza, etc. Mas, ainda assim, quanto mais perto do contexto original maior é o apelo psicológico, como de reencontrar a família no restaurante ou os amigos na escola/universidade ou no bar à noite, o futebol com os amigos no final de semana, a atividade física na academia de ginástica, a socialização nos cultos religiosos, e as oportunidades de se encontrar novos parceiros sexuais nas boates e discotecas.

Porém, durante a pandemia essa resistência de se deixar a vida moderna mais virtual/online ainda, que é compreensível e prevista à luz dos descompassos evolutivos, está colocando a sociedade e a espécie inteira em perigo. São justamente a escola/universidade, o restaurante, o bar, a igreja, a academia, as boates e discotecas que estão sendo identificados como locais com eventos de super-espalhamento do novo coronavírus (suprespreading events) que poderiam ser evitados visto que os indivíduos oportunisticamente decidem se expor ao perigo.

Mais do que nunca teremos que utilizar e disseminar os vários substitutos virtuais  para manter os mínimos níveis de estimulação e atuação social, os quais ajudam a manter a sanidade corporal e mental (apesar de eles também levarem a alguns prejuízos). Então, nesse dia de Darwin é importante participar dos vários eventos online, e entender a problemática dos descompassos evolutivos para tentar ao máximo minimizar mortes evitáveis decorrente da irresponsabilidade epidemiológica de alguns poucos.

 

 

 

 

Mulheres cientistas no combate à pandemia

Começamos o primeiro ano 21 do Século XXI com muitos desafios e, incrivelmente, algumas razões para celebrar. Porém, reinicio as postagens no MARCO EVOLUTIVO pedindo um minuto de silêncio em respeito aos mais de 235 mil mortos pelo SARS-COV-2 causados da COVID-19 no Brasil até então, e aos mais de 2,371 milhões que se tem notícia no Mundo todo até então. Se nos EUA 40% das mortes por COVID-19 poderiam ter sido evitadas caso Trump tivesse levado a pandemia e à ciência à sério, no Brasil governado por Bolsonaro essa porcentagem deve ser ainda maior, infelizmente. Até porque, um estudo pre-registrado mostrou que decretar a obrigatoriedade do uso de máscaras é a solução mais efetiva, justa, socialmente responsável para diminuir a transmissão do novo coronavírus.

Nesse 11 de fevereiro estamos no Dia Internacional da Mulher e Menina na Ciência. Trata-se de uma celebração mundial enfatizando a imensa importância das mulheres na Ciência, apontando formas de se corrigir a desigualdade de gênero das oportunidades na Ciência, e inspirando as meninas a seguirem este trajeto profissional. Durante desastres e crises de saúde pública, sempre são as mulheres que mais sofrem devido ao fechamento das creches e escolas e o decorrente aumento da já carregada dupla jornada de trabalho, pessoal e profissional. Portanto, o poder público e a sociedade precisam se mobilizar para proteger as mulheres ainda mais durante essa pandemia. Apesar disso, um estudo em 8 países com 21.649 participantes mostrou que as mulheres são as que mais entendem a seriedade da pandemia e mais respeitam e seguem as medidas sanitárias de saúde pública que evitam o aumento na transmissão do coronavírus; elas fazem mais distanciamento social, usam mais máscara, e assim, protegem a si mesmas e à toda a sociedade. Temos muito o que agradecê-las.

Então, nada mais apropriado do que o tema desse ano do Dia Internacional da Mulher e Menina na Ciência, pois celebra as mulheres cientistas à frente do combate à pandemia da COVID-19, seu papel crucial desde a descoberta do primeiro coronavirus humano, passando pelo sequenciamento do genoma do novo coronavírus até a elaboração e testagem das vacinas. Da Ciência básica à aplicada, as mulheres cientistas tem contribuído para o rápido avanço no conhecimento e nas medidas protetivas contra a COVID-19. Portanto, a Ciência precisa de mais mulheres porque o mundo precisa de mais Ciência para lidar com os novos desafios fruto da progressiva devastação ambiental.

Quase tão antiga quanto meu último post, essa pandemia do novo coronavírus está mostrando claramente que não há futuro para humanidade sem respeito, disseminação, financiamento, vagas e estabilidade para a Ciência e cientistas. Até porque, a Ciência é a única forma de produção de conhecimento que pode gerar aplicações cotidianas como as vacinas beneficiando a todos, inclusive aqueles que negam os inegáveis avanços da Ciência. Temos algumas dezenas de meses de pandemia pela frente ainda, mas nunca é tarde para parar, ouvir, entender e seguir as recomendações científicas sobre as melhoras formas de se evitar a pandemia. Basta seguir as várias publicações científicas (como essa sobre a importância do uso de máscaras), os vários informes de Sociedades Científicas (como a de Infectologia), e os vários divulgadores de ciência nacionais (como o Atila Iamarino) e internacionais (como o pessoal do SciShow) com atualizações e recomendações sobre a pandemia de COVID-19.

Nesse sentido gostaria de ressaltar o excelente trabalho sendo realizado pelo Blogs de Ciência da Unicamp. Liderado pela cientista Ana de Medeiros Arnt do Instituto de Biologia, o grupo tem publicado desde o começo da pandemia muita informação embasada cientificamente em forma de texto, áudio e vídeo sobre COVID-19. Trata-se de conteúdo e didática de primeira no momento em que mais precisamos da Ciência em nossas vidas. Então, nada mais óbvio do que o ScienceBlogs Brasil se juntar ao grupo e se hospedar no Blogs de Ciência da Unicamp. Tal junção ocorreu em abril de 2020 e estamos muito satisfeitos por poder engrossar o coro do jornalismo, da divulgação, da disseminação, da popularização, e da educação não-formal científica no Brasil.

 

Feliz Darwin Day 2020 Brasil!!!

No dia 12 de fevereiro de 1809 nascia Charles R. Darwin. Aquele menino curioso, travesso, colecionador de besouros, e nada muito estudioso, virou um jovem explorador e caçador de pássaros. Mas o que ele fez depois de abandonar a faculdade de medicina o colocou no caminho para um futuro de muito impacto. Ao combinar geologia, com história natural e demografia, com observações cuidadosas, expedição ao redor do mundo, coletas de espécimes e fósseis, experimentos caseiros, muita leitura, reflexão, e troca de cartas com especialistas, Darwin, seus livros e descobertas, se tornaram o pilar da Biologia moderna, que por sua vez, ancora para as Ciências Humanas. Nesse Darwin Day de 2020, estamos comemorando os 211 anos de Darwin e os 161 anos do seu livro seminal “A Origem das Espécies”. Trata-se da maior celebração mundial da Ciência e da Razão inspirada na vida e obra de Darwin, continuando a também merecida comemoração de ontem do Dia Internacional da Mulher e Menina na Ciência.

No MARCO EVOLUTIVO, celebramos anualmente o Dia de Darwin começando em 2008, passando pelo Bicentenário em 2009, e por 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, pela Década de Darwin Days em 2018 e até 2019.darwin day 2020 Me alegra muito ver o crescimento de celebrações do Darwin Day no Brasil mesmo sendo num período de férias de verão pré-carnaval. E como as abordagens se diversificaram, alguns celebram no dia 12 (UFUUFSC, MZ-USP), outros na semana inteira ou mês de fevereiro (MZ-USP), outros em março com o início das aulas da graduação e pós (Unesp Botucatu, FMVZ-USP). Tem muita programação imperdível. O importante é aumentar o conhecimento, vislumbre e engajamento sobre o evolucionismo darwinista no Brasil. Afinal somos ainda a única espécie do sistema solar que já descobriu a evolução por seleção natural.

Darwin dia do orgulh ateuHoje também é celebrado o Dia do Orgulho Ateu no Brasil. Nada mais apropriado do que comemorar a liberdade das amarras da religião no dia de nascimento do naturalista britânico para quem apoiar a evolução por seleção natural era como confessar um assassinato. Isso porque, com Darwin, as explicações criacionistas não são mais necessárias para explicar a origem e diversificação dos seres vivos. Apesar de parecer que Darwin tornou de vez desnecessária a crença religiosa, o que ele possibilitou, muito pelo contrário, é uma explicação materialista evolutiva tanto para a origem e diversificação das espécies e suas adaptações corporais quanto suas adaptações mentais. E assim, até a propensão para religiosidade e/ou seus subcomponentes afetivos-cognitivos também podem ser explicadas evolutivamente. Os possíveis valores adaptativos ancestrais da religiosidade podem ser desde reforçar o tribalismo, promover assimilação cultural alheia, capa livro the biological evolution of religious mind and behaviormotivar expansão territorial e conflitos entre grupos, controlar a fidelidade, sexualidade e reprodução feminina, fomentar sexualidade mais conservadora, oferecer propósitos de vida além dos de cuidado parental, ativar o efeito placebo de auto-cura, oferecer conforto e esperança frente ao medo da morte, entre outros. As pesquisas sobre esse tema estão florescendo nas últimas décadas, e assim que as evidências forem se acumulando saberemos quantos e quais desses valores adaptativos são os mais embasados para explicar a evolução da propensão para desenvolver a capacidade da religiosidade/espiritualidade. Veja exemplos aqui e aqui (livro da imagem).

Então, ao invés dos religiosos ficarem chateados por Darwin ter explicado os seres vivos, incluindo a origem primata dos humanos, nos termos materialistas sem a interferência de qualquer divindade mitológica, eles deveriam também celebrar o Darwin Day, pois o evolucionismo pode explicar a existência de sua própria tendência a religiosidade/espiritualidade. Sabemos que não é manifesto na natureza a existência de qualquer divindade criadora minimamente inteligente ou bondosa, visto a extinção das espécies, as crueldades que indivíduos fazem uns com os outros, os órgãos vestigiais, os erros de design de vários órgãos, suas disfunções, as doenças hereditárias, entre outras. Porém, a capacidade para se ter as experiências e tecer os raciocínios religiosos tem sua realidade embasada na própria evolução da mente humana. DARWIN-DAY-mobilizacao 2020É por isso que esses raciocínios religiosos são antigos, universais e experienciados subjetivamente como verídicos, intuitivos, profundos e poderosos, pois são parte evoluída de longa data da mente humana, e não porque esse ou outro ser mitológico mágico local realmente exista invisível e antropomorficamente. Contra-intuitivamente, a pura fé religiosa é mais prova do alcance e poder da evolução biológica do que da existência de qualquer suposta divindade. A evolução da fé leva à ‘fé’ na evolução.

Muitas capacidade mentais foram recrutadas e reorganizadas para compor a religiosidade. Soeling & Voland (2002) elencaram as capacidades do misticismo, da ética, do raciocínio mitológico, e da tendência para realizar rituais.paternicity taxonomy Dentro das capacidades para o misticismo, além das tendências para a contemplação transcendental, existem as tendências de pensamento essencialista, e de superativação da capacidade de identificar agentes intencionais (antropomorfização). Veja também van Leeuwen & van Elk (2019) para um modelo mais recente. Na revisão da literatura sobre biopsicologia do antropomorfismo (Varella, 2018), mostrei como essa superativação da detecção da intencionalidade é profundamente enraizada e evoluída da mente humana (junto com outros primatas próximos). error management theory tableEla tem a função protetora por nos fazer ver intenção onde não tem para não deixarmos de ver onde tem, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Foi melhor para nossos ancestrais pré-históricos se assustar com o vento mexendo a moita do que não se assustar quando o tigre-dente-de-sabre estava escondido na moita. Como no geral os religiosos tem mais medo da morte do que os não religiosos (mas a coisa é mais complicada do que isso) faz sentido eles verem agente intencional onde existem apenas processos astronômicos, físico-químicos, e biopopulacionais transgeracionais.

Animal Tool Behavior bookSomado a isso, os humanos (junto com outros primatas próximos) projetam e fazem ferramentas que nos ajudam na sobrevivência e reprodução há muito tempo pra essa capacidade mental de projetista/engenheiro também fazer parte intrínseca da mente humana. E isso também explica o quão intuitivo é o falacioso ‘argumento do design’ usado por criacionistas e adeptos do, também pseudocientífico, design inteligente. Achar piamente que para se produzir algo funcional e complexo é preciso sempre de um projetista inteligente, apesar de ‘fazer sentido’ intuitivamente, não é prova da plausibilidade da teologia natural, mas sim do caráter evoluído da nossa capacidade cognitiva de imaginar, reconhecer e produzir ferramentas e outros artefatos.

Atualmente temos o desafio de promover e intensificar o ensino de evolução em várias faixas etárias entre os humanos. orangutan criationism Futurama.S06E09.HDTV_.XviD-FEVER-02.07.33Mas no futuro quando conseguirmos nos comunicar melhor com as outras espécies (e impedirmos sua extinção por degradação de habitat) teremos que também enfrentar o criacionismo dos gorilas e orangotangos, e o design inteligente dos corvos e macacos-prego. Não só porque isso está em parte devidamente profetizado na série Futurama (S06E09), mas porque esses e outros animais também tem as mesmas capacidades de entender propósitos e metas em outros, e de produzir ferramentas. Penso que uma boa maneira de lidar com isso é reafirmar a realidade do sentimento religiosos e a intuitividade profunda dos raciocínios intencionais e projetistas como produtos legítimos da evolução biológica.
Desejo um ótimo Darwin Day em 2020 para todas as tribos!

Feliz Darwin Day 2019 Brasil com 210 anos de Darwin e 160 do “Origem”

Darwin Day torradaApesar de tudo isso que tá aí, 2019 tem sim algum motivo para comemoração. Nesse 12 de fevereiro de 2019 estamos comemorando os 210 anos do meu, do seu, do nosso eterno bom velhinho Charles Robert Darwin. São inúmero eventos ocorrendo no mundo inteiro. Trata-se de uma celebração internacional da vida e obra de Darwin, os 160 anos da Origem das Espécies, bem como da Ciência e da Razão, dois pilares de sustentação da modernidade que andam imprudentemente cada vez mais desacreditados e desconsiderados. Um dia depois do Dia Internacional da Mulher e Menina na Ciência, hoje também é celebrado o Dia do Orgulho Ateu e a biografia de Darwin nos ensina que é preciso muita coragem, curiosidade e honestidade intelectual para eclodir do conforto da religião e encarar o mundo real de peito aberto. Em 12 de fevereiro de 1809 também nascia Abraham Lincoln que lutou contra a escravidão, assim como Darwin e sua família. É de notório saber que Darwin quando esteve no Brasil rejeitou a escravidão, disse nunca mais na vida voltar a visitar um país escravocrata, e até torceu para o Brasil seguir o exemplo do Haiti e fazer uma revolta contra os colonizadores.

evolution of the parasiteO que Darwin pensaria do Brasil do século XXI? Onde empresas privadas por ganância e puro descaso destroem bacias hidrográficas inteiras envenenando seu ecossistema e toda sua biodiversidade e população, onde áreas de conservação ambiental estão sem recursos e sendo ameaçadas, onde governantes cada vez mais rejeitam a laicidade do estado e a teoria evolutiva, onde cada vez menos se faz para combater o trabalho escravo, chegando até a ilusória negação da existência da escravidão em nosso país, onde as terras indígenas continuam a ser invadidas e nossos nativos dizimados. Darwin velho na velha Rio de JaneiroAcho que Darwin até sentiria saudade do antigamente que ele outrora rejeitou assim que visse o quanto poderíamos estar avançados enquanto civilização, mas só que não. Com mais mulheres na política e na ciência muitos desses e outros desafios estariam solucionados.

Aqui no MARCO EVOLUTIVO, celebramos anualmente o Dia de Darwin começando em 2008, passando pelo Bicentenário em 2009, e por 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, e até a Década de Darwin Days em 2018. Nesse período de mais de uma década vi muitos cientistas se empolgarem pelo Darwin Day e começarem a divulgar, prestigiar e até organizar eventos alinhados com as celebrações internacionais. Afinal, com um legado desse não dá pra não se engajar de vez, ainda mais em tempos sombrios como os atuais, talkei.

-charles-darwin-surrealism-paintingDarwin, além de ser a razão do meu blogar anual, é simplesmente a pessoa que viabilizou a real integração entre matéria e propósito, forma e função, ancestral e atual, adaptado e vestigial, individual e populacional, armamento e ornamento, domesticado e selvagem, animal e humano, corporal e emocional, geológico e biológico, vegetal e animal, sobrevivência e reprodução. Por isso que o Darwin Day iniciado no mundo em 1995 veio para ficar.

Só nos resta colar e lotar pessoal ou virtualmente nas várias celebrações desse ano, algumas já ocorreram, outras estão ocorrendo agora e outras vão ocorrer depois do começo do ano letivo ou até no segundo semestre. Você que é do Rio de Janeiro, fique de olho no Darwin Day na Livraria Travessa Ipanema com 3 ótimos palestrantes e no Museu do Amanhã com o incrível Ver Ciência. Em Botucatu, fique ligado no Darwin Day Unesp, sempre com ótima programação. Em Ribeirão Preto, fique ligado no Darwin Day RP na USPsempre muito bom. Em Osasco, tem celebração sempre interessante e descontraída no segundo semestre no Borboletário municipal. Em Uberlândia, se ligue no Darwin Day da UFU de Umuarama, que promete. Em Belém, fique ligado no DNA & Darwin Day da LAGEN na UFPA. Em Alagoas, o pessoal do GESEB na UFAL já celebrou seu Darwin Day.

darwin day 2019 mesa seleção sexual Jarka e Marco no MZ-uspEm São Paulo, haverá o Darwin Day da Veterinária na FMVZ da USP com programação excelente o dia inteiro, e que poderá ser acompanhado online pelo IPTV USP. Haverá, também em São Paulo, a tradicional e famosa Semana de Darwin no Museu de Zoologia da USP com programação excelente a semana inteira. Serão 4 mesas redondas com ótimos convidados, todas iniciando às 19h: uma hoje, dia 12/02, sobre Os 160 anos do Origem das Espécies, uma amanhã, dia 13/02, sobre Seleção Sexual onde estarei junto com a Profa Dra. Jaroslava V. Valentova, minha esposa, uma dia 14/02 sobre Genes e Cultura, e a última dia 15/02 sobre Cultura e Cognição. Tenho muito orgulho de ter sido convidado a palestras duas vezes no Darwin Day do Borboletário de Osasco, uma vez no de Ribeirão Preto, uma no da Unesp de Botucatu e agora no do Muzeu de Zoologia da USP. Espero que cada vez mais instituições comecem a celebrar esse Dia de Darwin (ou até essa Semana de Darwin) e a brilhantar esse dia num momento tão sombrio do nosso país e do mundo.

Desejo a todos um Dia de Darwin bem subversivo, produtivo, desconstruído e evoluído.

Fique com um Darwin Day especial do Stated Clearly sobre Darwin e Seleção Sexual.

Feliz Década Darwin Day Brasil 2008-2018

Darwin-Day_ss_515355631-790x400Foi com muita emoção e descontração que comemorei o nosso 12 de fevereiro com minha esposa Jarka e meus dois filhos Alice (1 ano e 6 meses) e Bernardo (3 semanas). Entre a visita ao Butantã e a ida à piscina muitas alegrias e choros, claro. Que dia especial é sempre nosso Darwin Day. Ele que faria 209 anos, teve 10 filhos, então devia ter vários motivos para comemorar o 12 de fevereiro. Que dia esse… Do nascimento de Martinho da Vila em 1938 ao falecimento de Tomie Ohtake em 2015, no Darwin Day tudo pode acontecer. Assim como que em qualquer outro dia… É quando menos se nota a importância histórica daquele momento que notadamente se faz e vive a história.

Comemoramos o Dia de Darwin no MARCO EVOLUTIVO há uma década. Temos, então dez visões sobre a importância desse dia e do quanto ele ainda precisa crescer. Desde 2008,  passando por 2009 (Bicentenário – Ano de Darwin), 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017. Nessa década, vivenciamos um pleno crescimento do interesse e de celebrações promovendo a vida e a obra desse naturalista que com muita dedicação reuniu as evidências e foi às últimas consequências em suas conclusões evolutivas.

Nosso pensamento darwinista do ano vem de Ron Amundson que em um capítulo de 2001 fez uma observação em um parágrafo bem intrigante. Para ele o Origem das Espécies foi a “primeira reconciliação científica genuína entre forma e função”. Antes de Darwin a escola estruturalista focada na embriologia e na anatomia comparativa explicava os padrões das formas corporais segundo tipos gerais, bem diferentemente do que a escola da teologia natural que focava na perfeição de funções específicas. Pois bem, Darwin conectou as duas peças do quebra-cabeça: usou a escola estruturalista para embasar a descendência comum marcando o trajeto evolutivo, e a seleção natural como motor da mudança evolutiva, o que explicava tanto as perfeições quanto as imperfeições funcionais das adaptações e órgãos vestigiais. Desde Aristóteles forma e finalidade tinham respostas próprias e distintas, agora com a evolução por seleção natural continuam cada uma na sua, mas com alguma coisa em comum: É o sucesso funcional de cada versão de uma forma que propele sua evolução e os padrões estruturais interagindo com o ambiente que definem sua versão formal. Que legado!

Para além de simplesmente unificar escolas de pensamento e linhas de pesquisa, o Darwinismo abriu caminho para explicar a nossa origem e a de todos os outros seres vivos no planeta. Então, mesmo aqueles muitos curtiram um ótimo carnaval contestação Fora Temer & coalizão, no fundo por esbanjar presença, atitude, vivência e experiência momentânea estão celebrando a vida, sua diversidade e complexidade, em forma e função, sobrevivência e reprodução.

Fiquem de olho nos eventos comemorativos do Darwin Day Brasil 2018 em todos os locais onde já se comemoraram o dia em anos anteriores.

E fiquem bem com Sir David Attenborough sobre a importância da Darwin.

 

Feliz Dia de Darwin 2017, Brasil

darwin day 2017É chegado o dia mais esperado do ano novo: hoje, 12 de fevereiro Charles Robert Darwin completaria 208 anos e sua obra prima “A Origem das Espécies” completa 158 aninhos. É o famoso “Dia de Darwin”, momento em que celebramos sua obra e legado para a humanidade. Nós do MARCO EVOLUTIVO marcamos essa data em nosso calendário desde 2008, passando por 2009 (Bicentenário – Ano de Darwin), 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 até 2016. No Brasil e ao redor do mundo (Veja o DARWINDAY.ORG) estão sendo mantidos e criados novos eventos para promover e disseminar o pensamento darwinista.

O pensamento darwinista ainda é jovem, está só começando a segunda metade do seu segundo século, então é esperado que as pessoas vão ter dificuldades em compreender sua lógica básica. Além disso, o maior inimigo do pensamento darwinista ainda é, de longe, a mente humana primata cheia de vieses, atalhos cognitivos, e de agendas próprias de um mamífero da nossa laia. Um desses becos sem saída psicológicos é o “Erro Beethoven”, nomeado por Frans de Waal em seu livro “Eu, Primata: Por Que Somos Como Somos (2007)” [Our Inner Ape: The Best and Worst of Human Nature (2005)”.
beethoven apartment

O “Erro Beethoven” ocorre sempre que confundimos ou igualamos o processo ao seu produto e vice-versa. Os conhecidos de Beethoven ficavam chocados e incrédulos sempre que visitavam o compositor em seu apartamento. Ele viveu em 39 apartamentos diferentes, teve cinco pianos todos sem pernas que ficavam no chão. No geral, seu apê era sujo, bagunçado, fedido, cheio de restos de comida e partituras amassadas espalhadas. Não era possível, imaginar que todas aquelas peças musicais sublimes, criativas e elegantes foram compostas ao chão em meio ao um caos repulsivo. Normalmente as pessoas imaginam que o produto demonstrará claramente características do processo e, quanto melhor é o produto, mais positivamente imaginamos o processo correspondente. Ocorre o mesmo problema com a Seleção Natural: ‘já que somos seres bem complexos, conscientes e perfeitinhos então não é possível que um processo cego, mecânico e sem destino tenha nos produzido.’ Ou então ocorre o contrário: ‘já que a natureza é selvagem e cruel – tipo cada um por si – somos naturalmente cruéis por sermos seu produto‘ ou então ‘já que, na evolução, os genes mais egoístas deixam mais descendentes, então só podemos ser naturalmente egoístas mesmo’.

Qualquer pessoa que já foi ao barbeiro ou cabeleireiro sabe que para ter um corte novo, lindo e impecável é preciso passar pelo corte, esse processo longo, desconfortável e ‘sujo’ (cheio de fios em pedaços pra todo lado). Qualquer pessoa que já ralou um queijo sabe que para ter um delicioso, soltinho e leve queijo ralaralando queijodo, tem que ralar (literalmente), é preciso passar por esse processo cansativo, árduo e potencialmente perigoso. Qualquer pessoa que já mudou de casa sabe que para ter um novo lar, confortável, acolhedor e organizado é preciso passar pelo processo caótico, cansativo e angustiante da mudança. Como o produto é mais saliente do que o processo acabamos imaginando o processo à luz do produto. Mas temos que lembrar que na maioria dos casos processo e produto têm características distintas. Então, com a Evolução por Seleção Natural é a mesma coisa: o processo evolutivo que é simples, desnorteado, amoral, implacável e ignorante dá origem, após vários ciclos, a seres complexos, focados, morais, funcionais e inteligentes. Totalmente possível, nada que possa nos denegrir, pelo contrário, só pode nos exaltar já que nossa complexidade e outras qualidades não são versões pioradas vindas de um processo ainda mais complexo e melhor, mas sim as primeiras do gênero para cada ramos da árvore da vida.oficinas-darwin day mzusp 2017jpg

Esse ano no Brasil tivemos, temos e teremos vários eventos Darwindaynianos. É muito bom ver que a lista só aumenta. No Museu de Zoologia da USP em São Paulo como sempre houve a Semana de Darwin com apresentação de documentários, ótimas palestras, oficinas e exposição. Hoje a programação vai até as 17 e serão duas palestras na parte da tarde. O destaque vai para o jogo Caçada no Museu: Edição especial Charles Darwin, para criançada.
Darwinday osasco 2017

No Borboletário de Osasco houve do 2º Darwin Day com discussão aberta sobre “Por que a vida é assim?” no dia 10/fev contando com o Prof. Dr. Nélio Bizzo, o Prof. Dr. Waldir Stefano, e a MsC. Carolina Yamaguchi.darwin day catavento 2017

No Catavento Cultural está tendo esse final de semana a “Mostra VerCiência – Dia de Darwin” com exibição continua de curtas-metragens com ‘o que é evolução?’ e ‘como funciona a evolução’.

Ver ciência Rio de Janeiro museu do Amanhã 2017No Rio de Janeiro, haverá hoje a partir das 14h no Darwin Day no Museu do Amanhã exibição de dois documentários e debates mediados por Sergio Brandão, curador internacional da Mostra VerCiência.

Darwin Day Lagen UFPA 2017

Em Belém do Pará no Instituto de Ciências Biológicas da UFPA no dia 15/fev quinta-feira haverá o 2º Darwin Day com carga horária de 10 horas, para o dia todo sobre o tema “A teoria Evolutiva precisa ser repensada?” a ótima discussão serão 7 palestras imperdíveis. Sobre Construção de Nicho, Epigenética, Evolução Cultural, Plasticidade Fenotípica, Evolução e Saúde, Assimilação Genética e Evo-Devo. As inscrições antecipadas saem por R$10  e no dia sae por R$15, basta enviar email para o pessoal da Liga Acadêmica de Genética lagenufpa@hotmail.com

Darwin Day UNESP - Botucatu - BrazilPela primeira vez na UNESP de Botucatu organizado com apoio da Pós-Graduação em Genética e do Instituto de Biociências de Botucatu haverá dia 30 de março o Darwin Day UNESP contando com três palestras com o Prof Dr. Ricardo Waizbort falando sobre o ‘Darwinismo no Brasil’, Prof Dr. Mario de Pinna falando sobre ‘A Evolução da Perspectiva Evolutiva’ e Profa. Dra. Jaroslava Varella Valentova (minha esposa e mãe da minha filha Alice) falando sobre a ‘Seleção Sexual’. O Prof. Dr. Danillo Pinhal organizador do evento será o mediador da mesa-redonda onde eu vou falar sobre Evolução Adaptativa, o Prof. Dr. Reinaldo de Brito falara sobre o Neodarwinismo, e o Prof Dr. Cesar Martins sobre Revolução Genômica. Imperdível!

E todo ano o pessoal da Pós-Graduação em Biologia Comparada e em Entomologia, da USP de Riberião Preto, organiza o Darwin Day USP de Ribeirão geralmente entre abril e maio. Então fiquem ligados no face.

Fiquem com uma série de falas do saudoso biólogo britânico John Maynard Smith (1920-2004) sobre Biologia, Genética e Evolução.

Sem reprodução não há evolução; sim e não.

Da ideia inicial a respeito da ‘sobrevivência dos mais fortes’ para a ‘sobrevivência dos mais aptos’, o foco no tempo de Darwin era nas condições necessárias para se gerar descendência. Sim é necessário ter alguma força para se alimentar, vitalidade, saúde, estar bem ajustado às condições locais, enfim, sobreviver. Porém, apesar de ser necessário, sobreviver não é suficiente para gerar descendência, pois é preciso ainda se acasalar, ter filhos e cuidar da prole, enfim, realizar a reprodução propriamente dita.

Foi percebendo isso, entre outras coisas, que Darwin propôs a seleção sexual, a qual frisa que até as diferenças individuais herdáveis nas capacidades de escolher e atrair parceiros, defender e competir por parceiros, e cuidar da prole podem influir na quantidade de filhos. Infelizmente, por introduzir a dimensão estética aos animais e dar muito poder para a escolha das fêmeas a ideia da seleção sexual, principalmente a atração e escolha de parceiros, foi rejeitada na época.

Décadas depois, veio a concepção mais moderna de que sem a reprodução individual não há evolução na população. Como sabemos não é o indivíduo que evolui, ele só se desenvolve: nasce, cresce, se reproduz e morre. Quem evolui é a população, e por meio da reprodução diferencial entre os coespecíficos. Porém, imersos na rejeição da seleção sexual, a modelagem da mudança na população ao longo das gerações bem frequentemente assumia o fictício acasalamento ao acaso; a famosa e ideal população panmítica (do grego pan= todos, e do latim miscere= misturar). Mesmo assim, até aqui: sim e não. Sim, sem reprodução não há evolução, no sentido de que se ninguém da população se reproduzir, não existirá linhagem futura a partir dessa população. Só que também não, pois se evolução é qualquer mudança (casual ou selecionada) na composição da população ao longo das gerações, então até extinção também é mudança evolutiva.
Pouco depois, com o aumento do interesse e conhecimento sobre comportamento animal, o foco voltou para saber quais indivíduos vão contribuir mais com sua descendência nas gerações seguintes. Veio a concepção de que sem a reprodução do próprio indivíduo não há contribuição sua na evolução na população. Mesmo assim até aqui ainda: sim e não. Sim, sem reprodução do indivíduo não há evolução, no sentido de que seus traços e adaptações não serão herdados, não contribuindo para a evolução futura da população. Só que também não, pois se evolução é fruto de qualquer reprodução diferencial, seja pra mais ou para menos (favorecendo ou eliminando), então até no não deixar descendentes próprio o indivíduo contribui para a mudança evolutiva em sua população.

Com a integração sociobiológica do comportamento social e da genética de populações, ficou claro que o comportamento de um indivíduo altruísta ajudando um parente a sobreviver e se reproduzir pode aumentar a representação genética do indivíduo altruísta na proporção em que são relacionados genealogicamente. Muitos entenderam errado essa tal de reprodução indireta, pois ela não é apenas o número de filhos dos parentes porcionado pelo grau de parentesco. Mas tem que se levam em conta quantos mais filhos o parente consegui ter graças à ajuda do altruísta em sua reprodução. Então aqui sim é só não. Pois mesmo sem se reproduzir diretamente o indivíduo poderá contribuir positivamente na sua descendência, no sentido de que se ele ajudar a sobrevivência e reprodução dos seus parentes, uma porção dos seus traços e adaptações estarão representados nas próximas gerações. Com isso sobreviver ajudando na reprodução dos parentes passou a ser condição suficiente para a evolução. Apesar que, ainda assim, a reprodução direta dá uma contribuição positiva maior na descendência do que a indireta. Por isso que fazendo os dois, seja reprodução direta ou indireta, ou nenhum deles, em um sentido ou de outro, todos contribuiremos na evolução.

Esse foi o post especial sobre reprodução e evolução, dada a condição pré-parto pós-data que minha esposa e eu nos encontramos; prestes a ter nossa primeira descendência direta, e muito felizes.

Assista ao programa sobre os top 10 extremos animais em matéria de reprodução comparado aos humanos.

FELIZ DARWIN DAY 2016 BRASIL

Darwin day osasco 2016É chegado o seu, o meu, o nosso Dia de Darwin! Hoje, dia 12 de fevereiro, Charles Robert Darwin faria 207 anos, então no mundo todo estão sendo rememorados e comemorados sua obra e seu legado científico para a humanidade. Isso porque seu livro mais influente “A Origem das Espécies” foi publicado em 1859, no ano em que ele comemorava 50 anos, então hoje também estamos comemorando os 157 anos desse que foi o livro que mudou a história das ciências naturais e acabou influenciando também exatas e humanas. Aqui no MARCO EVOLUTIVO incentivamos e comemoramos essa data desde em 2008, 2009 (Bicentenário – Ano de Darwin), 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, até 2015.

O segredo de como a Revolução Darwiniana nos deu uma nova visão de mundo está em identificarmos os pilares do mundo aristotélico que ela ajudou a quebrar. Encontramos essa ideia no livro de 2015 “From Aristotle’s Teleology to Darwin’s Genealogy: The Stamp of Inutility” de Marco Solinas, um historiador italiano que virá à FEUSP dar uma disciplina condensada de pós-graduação de 22 a 26 de fevereiro 2016, a convite do
Prof. Nélio Bizzo. Os pilares do mundo Aristotélico, segundo Solinas, são o Fixismo (o mundo e as espécies não mudam), Essencialismo (cada espécie teria Teleology to Darwin's Genealogyqualidades únicas e descontínuas), e a Teleologia aristotélica (tudo e todos estavam perfeitamente adaptados funcionalmente para a manutenção das relações existentes). Eu torno explícito a adição do Antropocentrismo (os humanos são qualitativamente superiores em importância aos outros seres vivos e são o centro das atenções) como um quarto pilar aristotélico, o qual Solinas comenta, mas não chega a elevar a condição de pilar.  Assim temos esse ‘quadrúpede’ aristotélico que sobreviveu séculos chegando ao fim graças às marteladas de Darwin em cada uma das suas bases.

Darwin, que era um naturalista (não confundir com naturista!), rompe com o fixismo ao perceber que, assim como com a geologia, as condições e os seres vivos estavam em constante mudança lenta e gradual; tornou-se um trasformacionista (não confundir com transformista!). Darwin rompe com o essencialismo ao aplicar o pensamento populacional e perceber que a variação individual não é um mero ruído, mas sim a matéria prima para a seleção; assim percebeu que são as populações que evoluem e não o indivíduo, então tornou-se um populacionista (não confundir com populista!). Darwin então rompe com a teleologia panadaptacionista e perfeccionista de Aristóteles ao chamar atenção para as muitas imperfeições e inutilidades dos seres vivos, como os órgãos vestigiais, justamente o que deveríamos observar se um processo demográfico cego e automático como a seleção natural estivesse atuando; tornou-se um selecionista (não confundir com seletista). Darwin day osasco endereçoE finalmente Darwin rompe com o antropocentrismo ao perceber que o ser humano não é o ápice da evolução,  pois esta é multirramificada e sem metas ou rumo, então não existem seres superiores nem inferiores; torna se um indivíduo humilde perante a biodiversidade.

Enquanto você não enfrentar e demolir cada um dos pilares do mundo pré-darwinista você vai ter alguns mal-entendidos sobre evolução biológica e não vai sentir todo o peso e poder da Revolução Darwinista. Nada melhor do que um bom Darwin Day cheio de atrações para abraçarmos de vez seu legado.

Em Osasco, o Nélio Bizzo e eu estaremos hoje 12/02 na Escola de Artes “Antonio Savi”/Biblioteca Municipal “Monteiro Lobato” de Osasco a partir das 18h30 assistindo e discutindo um documentário, tudo organizado pela Secretaria do Meio Ambiente e Borboletário Municipal. O Darwin Day em Osasco tem entrada gratuita, o evento será transmitido ao vivo através das mídias sociais. Note que o endereço correto é o Rua Tenente Avelar Pires de Azevedo nº 360

darwin day brasil mzusp 2016Em São Paulo, teremos Darwin Day no Museu de Zoologia da USP e no Museu Catavento.

No MZUSP, que foi recentemente reaberto ao público com uma excelente exposição, a programação vai de hoje 12/02 até dia 19/02 com ótimas palestras, oficinas, jogos e exposições. Vale muito a pena conferir.

darwin day no catavento 2016No Catavento – Espaço Cultural da Ciência em Sampa, no novíssimo Museu do Amanhã no Rio de Janeiro e no Sesi Tiradentes – Centro Cultural Yves Alves em Tiradentes, Minas, a MOSTRA VERCIÊNCIA DIA DE DARWIN vai exibir o episódio “Darwin no Brasil” uma produção da BBC de 1978 sobre a viagem a bordo do HMS Beagle e vinda de Darwin ao Brasil entre outros vídeos.

No Catavento serão sessões às 12h e as 14h hoje 12/02 e amanhã 13/02.

No Museu do Amanhã será a tarde inteira de sábado dia 13/02 das 13 às 19h com uma palestra e cinco vídeos. Imperdível para os cariocas.

O Prof Gastão Galvão dará a palestra A importância da pesquisa de Darwin e a vinda dele ao Brasil”. Depois virão os documentários:

13h20 – “A viagem de Charles Darwin – Episódio Darwin no Brasil” (50min)DArwin day 2016 tiradentes

14h20 – Darwin e a árvore da vida (60min)

15h30 – Macacos geniais (60min)

16h40 – Grandes britânicos: Darwin (50min)

17h40 – O jardim de Darwin (60min)

No Sesi Tiradentes serão duas  exibições de vídeo: Darwin e a Árvore da Vida (às 18h00) e A Viagem de Charles Darwin (às 20h00).

Em Belém do Pará, o pessoal do Lagen do ICB da Universidade Federal do Pará organiza o seu 1º Darwin Day desde ontem. Hoje a partir das 14h terão ainda duas palestras imperdíveis: uma sobre a Teoria Evolutiva ministrada pelo Prof Júlio Pieczarka, e outra sobre EVODEVO ministrada pelo Prof Igor Schneider.darwin day belen 2016

Outros locais como o IB-USP e a USP Ribeirão
provavelmente terão as comemorações do Darwin Day em alguns meses. É lindo demais ver o Darwin Day se difundindo pelo país. Convido as outras universidades a organizarem o seu Darwin Day e ampliarem essa tendência mundial evolucionista. Aproveitem!

Fechamos então com a gravação do III Darwin Day de USP de Ribeirão Preto do ano passado que teve 5 horas de duração e palestras e discussões muito interessantes e instigantes.

 

Feliz 2016, 7 e 8 anos de MARCO EVOLUTIVO

Feliz 2016 a todos leitores e fãs do MARCO EVOLUTIVO! cupcake_with_birthday_candle_for_eight_year_old_Iniciamos a segunda metade da segunda década do século XXI já comemorando não um, mas dois aniversários do blog. Isso é porque, em novembro de 2014 completamos 7 anos de existência (não comemorados), e no final de 2015 completamos não UM, nem DOIS, TRÊS, QUATROCINCO ou SEIS, mas sim 8 anos de blogagem evolutiva. Haja fôlego! Agradeço muito todos os comentários, elogios e críticas recebidos e também aos novos seguidores na página do Facebook, que já está com 686 seguidores. Continuem sempre acompanhando e compartilhando links do blog com os amigos.

Em 2014 e 2015, o blog obviamente seguiu a tendência de desaceleração. Isso por conta da carga horária de aulas na Unb, junto com a organização do congresso internacional da ISHE (Sociedade Internacional de Etologia Humana) em 2014 e a mudança de volta a São Paulo em 2015. Foi um período para se dedicar mais à esposa, à casa e aos artigos científicos que escrevemos juntos. Agora estou ministrando aulas de Ciência e Science para alunos do Ensino Fundamental II na Escola Internacional de Alphaville e estou gostando muito, estou muito empolgado com essa oportunidade de ouro para aguçar o pensamento científico dessa juventude.

Com certeza, a experiência IMGP3380de aulas tanto na universidade quanto no fundamental vão influenciar as postagens, assim como as postagens influenciaram algumas das minhas aulas. Outra coisa que me motivou foi rever blogueiros das antigas dos tempos do saudoso Lablogatório como o grande Átila do Rainha Vermelha e do Nerdologia, e ainda conhecer os novos vlogueiros de ciência cheios de energia para fazer a diferença e elevar o nível da divulgação científica em língua portuguesa. Mais sobre eles em breve.

Em 2015 tivemos 14.813 visualizações com o óbvio pico no Darwin Day e com o esperado declínio durante os períodos de férias. Desse público 86,32% foi de brasileiros e os países acima de 1% foram Portugal, EUA e Índia. Em 2014 tivemos 16.035 visualizações também com um grande pico óbvio no Darwin Day, novamente a única publicação do ano todo. O perfil do público se manteve, 85,20% de brasileiros seguido de portugueses, estadosunidenses e indianos. A novidade é que podemos traçar o uso de celulares que visualizaram o MARCO EVOLUTIVO. O sistema operacional mais usado foi Android (64% em 2014 e 73% em 2015), seguido de iOS (26% em 2014 e 19% em 2015), com o Windows Phone já passando 4% em 2015.

Fechamos esse começo com um vídeo da Science Magazine sobre os maiores feitos científicos de 2015. Aproveitem.

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