Feliz Darwin Day 2020 Brasil!!!

No dia 12 de fevereiro de 1809 nascia Charles R. Darwin. Aquele menino curioso, travesso, colecionador de besouros, e nada muito estudioso, virou um jovem explorador e ca√ßador de p√°ssaros. Mas o que ele fez depois de abandonar a faculdade de medicina o colocou no caminho para um futuro de muito impacto. Ao combinar geologia, com hist√≥ria natural e demografia, com observa√ß√Ķes cuidadosas, expedi√ß√£o ao redor do mundo, coletas de esp√©cimes e f√≥sseis, experimentos caseiros, muita leitura, reflex√£o, e troca de cartas com especialistas, Darwin, seus livros e descobertas, se tornaram o pilar da Biologia moderna, que por sua vez, ancora para as Ci√™ncias Humanas. Nesse Darwin Day de 2020, estamos comemorando os 211 anos de Darwin e os 161 anos do seu livro seminal “A Origem das Esp√©cies”. Trata-se da maior celebra√ß√£o mundial da Ci√™ncia e da Raz√£o inspirada na vida e obra de Darwin, continuando a tamb√©m merecida comemora√ß√£o de ontem do Dia Internacional da Mulher e Menina na Ci√™ncia.

No MARCO EVOLUTIVO, celebramos anualmente o Dia de Darwin come√ßando em 2008, passando pelo Bicenten√°rio em 2009, e por 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, pela D√©cada de Darwin Days em 2018 e at√© 2019.darwin day 2020 Me alegra muito ver o crescimento de celebra√ß√Ķes do Darwin Day no Brasil mesmo sendo num per√≠odo de f√©rias de ver√£o pr√©-carnaval. E como as abordagens se diversificaram, alguns celebram no dia 12 (UFU,¬†UFSC, MZ-USP), outros na semana inteira ou m√™s de fevereiro¬†(MZ-USP), outros em mar√ßo com o in√≠cio das aulas da gradua√ß√£o e p√≥s (Unesp Botucatu, FMVZ-USP). Tem muita programa√ß√£o imperd√≠vel. O importante √© aumentar o conhecimento, vislumbre e engajamento sobre o evolucionismo darwinista no Brasil. Afinal somos ainda a √ļnica esp√©cie do sistema solar que j√° descobriu a evolu√ß√£o por sele√ß√£o natural.

Darwin dia do orgulh ateuHoje tamb√©m √© celebrado o Dia do Orgulho Ateu no Brasil. Nada mais apropriado do que comemorar a liberdade das amarras da religi√£o no dia de nascimento do naturalista brit√Ęnico para quem apoiar a evolu√ß√£o por sele√ß√£o natural era como confessar um assassinato. Isso porque, com Darwin, as explica√ß√Ķes criacionistas n√£o s√£o mais necess√°rias para explicar a origem e diversifica√ß√£o dos seres vivos. Apesar de parecer que Darwin tornou de vez desnecess√°ria a cren√ßa religiosa, o que ele possibilitou, muito pelo contr√°rio, √© uma explica√ß√£o materialista evolutiva tanto para a origem e diversifica√ß√£o das esp√©cies e suas adapta√ß√Ķes corporais quanto suas adapta√ß√Ķes mentais. E assim, at√© a propens√£o para religiosidade e/ou seus subcomponentes afetivos-cognitivos tamb√©m podem ser explicadas evolutivamente. Os poss√≠veis valores adaptativos ancestrais da religiosidade podem ser desde refor√ßar o tribalismo, promover assimila√ß√£o cultural alheia, capa livro the biological evolution of religious mind and behaviormotivar expans√£o territorial e conflitos entre grupos, controlar a fidelidade, sexualidade e reprodu√ß√£o feminina, fomentar sexualidade mais conservadora, oferecer prop√≥sitos de vida al√©m dos de cuidado parental, ativar o efeito placebo de auto-cura, oferecer conforto e esperan√ßa frente ao medo da morte, entre outros. As pesquisas sobre esse tema est√£o florescendo nas √ļltimas d√©cadas, e assim que as evid√™ncias forem se acumulando saberemos quantos e quais desses valores adaptativos s√£o os mais embasados para explicar a evolu√ß√£o da propens√£o para desenvolver a capacidade da religiosidade/espiritualidade. Veja exemplos aqui e aqui¬†(livro da imagem).

Ent√£o, ao inv√©s dos religiosos ficarem chateados por Darwin ter explicado os seres vivos, incluindo a origem primata dos humanos, nos termos materialistas sem a interfer√™ncia de qualquer divindade mitol√≥gica, eles deveriam tamb√©m celebrar o Darwin Day, pois o evolucionismo pode explicar a exist√™ncia de sua pr√≥pria tend√™ncia a religiosidade/espiritualidade. Sabemos que n√£o √© manifesto na natureza a exist√™ncia de qualquer divindade criadora minimamente inteligente ou bondosa, visto a extin√ß√£o das esp√©cies, as crueldades que indiv√≠duos fazem uns com os outros, os √≥rg√£os vestigiais, os erros de design de v√°rios √≥rg√£os, suas disfun√ß√Ķes, as doen√ßas heredit√°rias, entre outras. Por√©m, a capacidade para se ter as experi√™ncias e tecer os racioc√≠nios religiosos tem sua realidade embasada na pr√≥pria evolu√ß√£o da mente humana. DARWIN-DAY-mobilizacao 2020√Č por isso que esses racioc√≠nios religiosos s√£o antigos, universais e experienciados subjetivamente como ver√≠dicos, intuitivos, profundos e poderosos, pois s√£o parte evolu√≠da de longa data da mente humana, e n√£o porque esse ou outro ser mitol√≥gico m√°gico local realmente exista invis√≠vel e antropomorficamente. Contra-intuitivamente, a pura f√© religiosa √© mais prova do alcance e poder da evolu√ß√£o biol√≥gica do que da exist√™ncia de qualquer suposta divindade. A evolu√ß√£o da f√© leva √† ‘f√©’ na evolu√ß√£o.

Muitas capacidade mentais foram recrutadas e reorganizadas para compor a religiosidade. Soeling & Voland (2002) elencaram as capacidades do misticismo, da √©tica, do racioc√≠nio mitol√≥gico, e da tend√™ncia para realizar rituais.paternicity taxonomy Dentro das capacidades para o misticismo, al√©m das tend√™ncias para a contempla√ß√£o transcendental, existem as tend√™ncias de pensamento essencialista, e de superativa√ß√£o da capacidade de identificar agentes intencionais (antropomorfiza√ß√£o). Veja tamb√©m van Leeuwen & van Elk (2019)¬†para um modelo mais recente. Na revis√£o da literatura sobre biopsicologia do antropomorfismo (Varella, 2018), mostrei como essa superativa√ß√£o da detec√ß√£o da intencionalidade √© profundamente enraizada e evolu√≠da da mente humana (junto com outros primatas pr√≥ximos). error management theory tableEla tem a fun√ß√£o protetora por nos fazer ver inten√ß√£o onde n√£o tem para n√£o deixarmos de ver onde tem, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Foi melhor para nossos ancestrais pr√©-hist√≥ricos se assustar com o vento mexendo a moita do que n√£o se assustar quando o tigre-dente-de-sabre estava escondido na moita. Como no geral os religiosos tem mais medo da morte¬†do que os n√£o religiosos (mas a coisa √© mais complicada do que isso) faz sentido eles verem agente intencional onde existem apenas processos astron√īmicos, f√≠sico-qu√≠micos, e biopopulacionais transgeracionais.

Animal Tool Behavior bookSomado a isso, os humanos (junto com outros primatas pr√≥ximos) projetam e fazem ferramentas que nos ajudam na sobreviv√™ncia e reprodu√ß√£o h√° muito tempo pra essa capacidade mental de projetista/engenheiro tamb√©m fazer parte intr√≠nseca da mente humana. E isso tamb√©m explica o qu√£o intuitivo √© o falacioso ‘argumento do design’ usado por criacionistas e adeptos do, tamb√©m pseudocient√≠fico, design inteligente. Achar piamente que para se produzir algo funcional e complexo √© preciso sempre de um projetista inteligente, apesar de ‘fazer sentido’ intuitivamente, n√£o √© prova da plausibilidade da teologia natural, mas sim do car√°ter evolu√≠do da nossa capacidade cognitiva de imaginar, reconhecer e produzir ferramentas e outros artefatos.

Atualmente temos o desafio de promover e intensificar o ensino de evolução em várias faixas etárias entre os humanos. orangutan criationism Futurama.S06E09.HDTV_.XviD-FEVER-02.07.33Mas no futuro quando conseguirmos nos comunicar melhor com as outras espécies (e impedirmos sua extinção por degradação de habitat) teremos que também enfrentar o criacionismo dos gorilas e orangotangos, e o design inteligente dos corvos e macacos-prego. Não só porque isso está em parte devidamente profetizado na série Futurama (S06E09), mas porque esses e outros animais também tem as mesmas capacidades de entender propósitos e metas em outros, e de produzir ferramentas. Penso que uma boa maneira de lidar com isso é reafirmar a realidade do sentimento religiosos e a intuitividade profunda dos raciocínios intencionais e projetistas como produtos legítimos da evolução biológica.
Desejo um ótimo Darwin Day em 2020 para todas as tribos!

Evolucionismo de Grande Alcance

Darwin anteviu que num futuro distante sua teoria iria transbordar do c√≠rculo da biologia e atingir outras esferas como a √°rea de Humanidades. A cada dia estamos mais perto de concretizar essa revolu√ß√£o Darwinista e perceber que o evolucionismo, por ser um tema transversal integrador, permeia todos os assuntos. Um bom exemplo disso √© o surgimento de uma revista online evolutivamente relevante chamada “Evolution:This View of Life Magazine”. Com o nome inspirado nas palavras de Darwin em que ao comentar sobre evolucionismo disse que h√° uma grandeza nessa vis√£o da vida.

Criada em outubro de 2011, a revista online gera e agrega conte√ļdo evolucionista relacionado √†s seguintes √°reas: Biologia, Palentologia, Cultura, Sa√ļde, Artes, Tecnologia, Religi√£o, Pol√≠tica, Mente, Economia e Educa√ß√£o. Mesmo com menos de um ano de exist√™ncia essa revista j√° √© um marco evolutivo na divulga√ß√£o do evolucionismo em todo seu alcance interdisciplinar. V√°rias entrevistas foram filmadas via internet com pesquisadores de cada uma dessas √°rea acima. A revista √© fruto de uma parceria do The Evolution Institute com o Cons√≥rcio EvoS, com financiamento da National Scince Fundation.

Por tr√°s da “Evolution:This View of Life Magazine” est√° David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton no EUA. Ele tem se esfor√ßado para expandir a influ√™ncia da evolu√ß√£o em diversas √°reas, como no ensino superior com o EvoS, nas pol√≠ticas p√ļblicas com The Evolution Institute, nas cidades com o The Binghamton Neighborhood Project e na religi√£o com o Evolutionary Religious Institute. √Č claro que como ele √© fiel ao grupo dos selecionistas de grupo acaba usando a revista para se promover e promover sua √°rea. Atualmente ela √© o palco para discuss√Ķes acad√™micas sobre o novo livro do Edward Wilson e a relev√Ęncia da sele√ß√£o de grupo. Felizmente cada uma das 11 √°reas acima tem seu editor pr√≥prio o que garante uma certa pluralidade para¬†a revista.

O surgimento da revista é mais inspirador. Um aluno da pós-graduação o EvoS na Universidade de Binghamton, chamado Robert Kadar, inspirado e motivado pelas leituras do Conciliência do Edward O. Wilson e do Evolution for Everyone do David S. Wilson vislumbrou a idéia dessa revista para catalizar a conciliência entre todas as áreas do conhecimento por meio do evolucionismo para todos.

Assim como a Evolution:This View of Life Magazine surgiu, uma nova geração de estudantes, vários biólogos, psicólogos e outros estão começando blogs de ciência engrossando o caldo da divulgação científica e evolucionista brasileira. Temos muito o que fazer num país com maioria religiosa e de pouca instrução. Ajude você também a promover a conciliação das áreas do saber.

Minha Defesa de Doutorado

 

Sei que muitos leitores est√£o aflitos com a falta de post dos √ļltimos s√©culos aqui no MARCO EVOLUTIVO. Pois √© logo isso vai mudar. Porque um evento √ļnico e evolutivo est√° por vir: minha defesa de doutorado.
Para aqueles que não sabem, depois de 4 anos (em média) de estudo da graduação ao se formar em uma universidade alguns percebem que gostam de fazer pesquisa, então fazem o mestrado que dura 2 anos (em média). Daí, alguns poucos decidem continuar a fazer ciência e entram no doutorado.
Muitos pensam que qualquer pol√≠tico ou algu√©m apenas formado em direito ou medicina √© doutor!! N√£o, doutor √© quem recebe o diploma de doutorado ap√≥s cumprir cr√©ditos assistindo aulas de p√≥s e pesquisar 4 anos (em m√©dia) algo in√©dito, qualificar para defender e defender¬†a tese. Tudo isso matriculado em um programa de p√≥s-gradua√ß√£o reconhecido pelo MEC. √Č como se fosse fazer uma nova gradua√ß√£o num tema s√≥. Imagine um trabalho de final de
 semestre que demore 8 vezes mais para ser feito e escrito, essa é a tese.
Assim como o uso popular do termo Teoria é diferente do uso científico, o termo tese não se refere a um palpite ou opinião, mas sim ao mais profundo trabalho de investigação científica, seja no aspecto teórico quanto metodológico. Claro que no final tem-se um texto do tamanho de um livro.
Meu doutorado, assim como o mestrado, foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da USP. Devo muito à minha orientadora, Vera Bussab, a mesma no mestrado e no doutorado, por todos esses anos juntos, ela sabe. Aprendi muito com ela.

Minha tese é intitulada
“Evolu√ß√£o da Musicalidade Humana: Sele√ß√£o Sexual e Coes√£o de Grupo”.

 

Nela abordo e testo algumas explica√ß√Ķes adaptativas para a exist√™ncia das propens√Ķes musicais e art√≠sticas em nossa esp√©cie.
A defesa √© um momento p√ļblico em que o doutorando apresenta em meia hora o resumo da tese e uma banca de 5 doutores, dois internos aos programa da p√≥s, 2 externos ao programa e o orientador fazem sua argui√ß√£o, que inclui cr√≠ticas, elogios, corre√ß√Ķes, coment√°rios, coloca√ß√Ķes e sugest√Ķes futuras.
Se você se interessa pelo tema venha assistir minha defesa dia 25/08, na próxima quinta feira, às 14 horas na sala 36 do bloco F no Instituto de Psicologia da USP da São Paulo, Cidade Universitária.

Três Anos de MARCO EVOLUTIVO e Palestra de Martin Daly

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√Č com muito prazer que comemoramos n√£o UM nem DOIS, mas TR√äS anos de MARCO EVOLUTIVO nesse √ļltimo dia 28 de novembro. Foi um ano inteiro aqui no ScienceBlogs Brasil sem mudan√ßas de endere√ßo virtual, mas com mudan√ßa de endere√ßo real. Nesse ano de 2010 estive aqui no Canad√° fazendo meu doutorado sandu√≠che na McMaster University ent√£o n√£o tive como me dedicar mais ao blog. Mesmo assim foi um ano de t√≥picos importantes e interessantes.

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A maioria dos 15 posts desse terceiro ano esteve relacionando m√ļsica e dan√ßa com ci√™ncia e evolu√ß√£o das mais diferentes formas: do rap evolutivo e a m√ļsica dos genes aos valores adaptativos da dan√ßa e da m√ļsica. Outros temas como o da Medicina e Psiquiatria Darwinistas receberam grande destaque. Os cinco textos mais lidos do per√≠odo (em ordem decrescente) foram: 1- Coevolu√ß√£o e Sele√ß√£o Sexual no Caso da Vespa Tarada, 2- O sexo chimpanz√© e o conflito de gera√ß√Ķes, 3- Dicas de Livros em Psicologia Evolucionista, 4- Lamarck – A Verdadeira Id√©ia Errada, seguido de 5- Psicologia Evolucionista e Natureza Humana. Os destaques fora os textos: A Ci√™ncia do Sex Appeal e Elei√ß√£o, Voz, Vit√≥ria e Pornografia que receberam alt√≠ssimas audi√™ncias por aparecerem do compilador de links U√™BA.

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No per√≠odo o blog teve mais de 33 mil visitas. Tivemos 31 mil visitas no Brasil e 1400 de Portugal, EUA e Canad√° com mais de 200 visitas cada, e Angola, Espanha, Reino Unido, Jap√£o, Irlanda com 50 ou mais visitas cada. Os pa√≠ses com mais de 10 acessos foram, em primeiro Portugal, EUA, Canad√°, Angola, Espanha, Reino Unido, Jap√£o, Irlanda, Mo√ßanbique, Fran√ßa, Alemanha, It√°lia, M√©xico, Su√≠√ßa, Argentina, Cabo Verde, Austr√°lia, (um pa√≠s n√£o reconhecido pelo google analytics!) e Col√īmbia. As palavras mais usadas antes de encontrar o MARCO EVOLUTIVO foram: “Lamarck”, “Antropocentrismo”, “Per√≠odo F√©rtil”, “Psicologia Evolucionista”, e “Sele√ß√£o Sexual”.

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E como presente evolutivo nesse terceiro anivers√°rio estou iniciando uma s√©rie de palestras internacionais de alt√≠ssimo n√≠vel sobre Psicologia Evolucionista e Biologia Evolutiva. Trarei uma compila√ß√£o √ļnica de temas importantes e professores renomados para que juntos complementemos nossa forma√ß√£o acad√™mica nacional (e nosso listening) conhecendo de perto autores internacionais e suas id√©ias. Inicio nossas palestras evolucionistas com um dos fundadores da Psicologia Evolucionista, Martin Daly e sua palestra de outubro de 2010 aqui na McMaster sobre Evolved Decision Processes and Rational Choice. Descubra de forma descontraida em 53 min que nossa racionalidade para algumas coisas e irracionalidade para outras, assim como a ilus√£o das decis√Ķes conscientes, s√£o mais bem explicadas a luz da evolu√ß√£o.

A Evolução da Arte e dos Rituais

¬†A arte a o ritual s√£o dificilmente separ√°veis. O que hoje vemos enquanto algo independente como a pintura, a moda, a dan√ßa, a m√ļsica e as religi√Ķes n√£o estavam t√£o claramente distintas em nosso ambiente ancestral. A perspectiva etol√≥gica busca em observa√ß√Ķes interculturais as constantes na manifesta√ß√£o da natureza humana. A arte e o rito, enquanto manifesta√ß√Ķes universais da natureza humana, podem ser foco de estudos etol√≥gicos sobre sua fun√ß√£o evolutiva.

Uma das vis√Ķes cl√°ssicas sobre a evolu√ß√£o do comportamento art√≠stico e ritual√≠stico em nossa esp√©cie aponta para a coes√£o grupal como um elemento chave na sele√ß√£o dessas manifesta√ß√Ķes. Os grupos em que a arte e os rituais tornavam mais coesos e integrados tinha vantagens para seus membros frente a outros grupos. No v√≠deo abaixo (de 4 minutos e meio), Ellen Dissanayake explica de uma forma rica e tocante essa vis√£o evolutiva sobre nossa arte e rituais.

Desejos por Variedade Sexual

A evolução diferenciada entre homens e mulheres

Idealmente, quantos parceiros sexuais voc√™ gostaria de ter no pr√≥ximo m√™s? E daqui a cinco anos? Quantos parceiros voc√™ gostaria de ter daqui a 30 anos? E durante toda sua vida? N√£o √© novidade que o desejo por variedade sexual, assim como o pr√≥prio desejo por sexo, est√° presente em maior ou menor grau na mente dos seres humanos. A novidade √© que essas perguntas, quando feitas a 16 mil pessoas de 52 na√ß√Ķes diferentes, podem ajudar a esclarecer as bases evolutivas do comportamento sexual. O desejo por variedade sexual √© uma caracter√≠stica mental chave para testar diferentes teorias evolutivas sobre o acasalamento humano.
As diferentes abordagens evolucionistas divergem quanto √† dimens√£o temporal t√≠pica dos relacionamentos amorosos. Existem teorias que dizem que n√≥s somos naturalmente inclinados apenas para relacionamentos monog√Ęmicos de longo prazo e que a promiscuidade √© patol√≥gica, oriunda do ambiente moderno antinatural. Outras dizem que somos naturalmente inclinados apenas para relacionamentos prom√≠scuos de curto prazo, dada nossa tamanha semelhan√ßa gen√©tica com os chimpanz√©s. A vis√£o intermedi√°ria √© a de que n√≥s possu√≠mos um repert√≥rio natural mais pluralista, que inclui relacionamentos tanto de longo quanto de curto prazos.
A quest√£o √© que, ao contr√°rio das teorias pluralistas, as que admitem inclina√ß√Ķes biol√≥gicas apenas para relacionamentos curtos ou longos n√£o prev√™em diferen√ßas espec√≠ficas entre homens e mulheres. As teorias pluralistas argumentam que ambos os sexos t√™m o mesmo repert√≥rio temporal flex√≠vel de estrat√©gias sexuais. Homens e mulheres possuem adapta√ß√Ķes mentais voltadas tanto para a ado√ß√£o de estrat√©gias de curto prazo em algumas ocasi√Ķes, quanto para ado√ß√£o de estrat√©gias de longo prazo em outras. Essa flexibilidade teria dado aos nossos ancestrais importantes benef√≠cios reprodutivos por permitir que eles respondessem adaptativamente a uma grande variedade de contextos familiares, culturais e ecol√≥gicos. Entretanto, √© previsto que homens e mulheres tenham inclina√ß√Ķes e desejos diferentes para cada n√≠vel de relacionamento.
Amor e sexo
Segundo a Teoria das Estrat√©gias Sexuais de David Buss e David Schmitt (1993), para relacionamentos de longo prazo – caracterizados por extenso flerte, elevado investimento, presen√ßa de amor, m√ļtuo comprometimento e a dedica√ß√£o de recursos ao relacionamento e aos poss√≠veis filhos por um longo per√≠odo ‚Äď √© esperado que as mulheres d√™em mais import√Ęncia do que os homens ao status, maturidade, recursos e ao comprometimento do parceiro a ela e aos filhos. Enquanto √© previsto que homens valorizem mais do que mulheres pistas de valor reprodutivo (idade e apar√™ncia f√≠sica) e fidelidade sexual.
Entretanto, para relacionamentos de longo prazo, ambos os sexos s√£o bastante seletivos e valorizam igualmente v√°rias qualidades internas como ‚Äúdoce e compreens√≠vel‚ÄĚ e ‚Äúintelig√™ncia‚ÄĚ. Muitas das diferen√ßas no crit√©rio de homens e mulheres s√£o geradas por adapta√ß√Ķes mentais especializadas em resolver diferentes problemas adaptativos que cada sexo enfrentou ao longo de nossa hist√≥ria evolutiva. Os problemas femininos eram mais relacionados ao car√°ter e √† possibilidade de recursos para seus filhos e os problemas masculinos eram mais relacionados √† certeza de fertilidade e da paternidade.
Por outro lado, para relacionamentos de curto prazo ‚Äď caracterizado por curto flerte, baixo investimento e aus√™ncia de comprometimento e sentimentos amorosos ‚Äď √© previsto que as mulheres valorizem seletivamente mais do que homens qualidades gen√©ticas (como beleza e simetria) e possibilidades de obten√ß√£o imediata de recursos. J√° para os homens, √© esperado que sejam bem menos seletivos do que mulheres e valorizem mais a variedade sexual. Biologicamente, as mulheres carregam todo o custo da gesta√ß√£o e lacta√ß√£o. Como a falta de comprometimento desse n√≠vel de relacionamento as deixa sozinhas com todo o custo da gravidez, houve uma press√£o favorecendo aquelas bem seletivas quanto √† obten√ß√£o imediata de vantagens materiais e/ou gen√©ticas. Ao passo que os homens s√≥ precisavam achar um grande n√ļmero de parceiras sexuais para ter vantagens evolutivas.

Fisiologicamente, mesmo se uma mulher fizer sexo com 100 homens em um ano, ela poder√° ter apenas uma gesta√ß√£o nesse per√≠odo. Enquanto que se um homem fizer sexo com 100 mulheres ele ter√° a possibilidade de ter 100 descendentes no mesmo per√≠odo. Essa diferen√ßa gerou press√Ķes evolutivas diferenciadas para esse n√≠vel de relacionamento nas mentes de homens e mulheres do ambiente ancestral. Mulheres que valorizavam a qualidade em detrimento da quantidade eram selecionadas e homens que valorizavam a quantidade em detrimento da qualidade eram selecionados. Ent√£o, em m√©dia, √© esperado que um forte desejo por variedade sexual seja caracter√≠stico de uma adapta√ß√£o mental masculina.
Mal-entendido sobre adaptação
Essa forte pressão seletiva atuando ao longo de nossa história evolutiva caçador-coletora deixou marcas nas mentes masculinas atuais na forma de desejos e preferências ideais favoráveis à variedade sexual. Isso não implica que os homens desejem maior variedade sexual porque inconscientemente querem ter mais filhos, eles simplesmente acham a idéia de muitas parceiras mais atraente e prazerosa. Para uma característica ser selecionada, não é necessário que a evolução favoreça um conhecimento consciente ou inconsciente sobre a lógica dos processos evolutivos que geraram a adaptação. Basta que a característica seja prazerosa e recompensadora ao indivíduo. Por isso, o desejo sexual não é uma estratégia das pessoas para ter filhos e propagar seus genes, mas sim uma estratégia pessoal para alcançar os prazeres do sexo. E os prazeres e desejos sexuais conscientes e inconscientes são as estratégias dos genes para propagarem-se via filhos.

Estudo inicial
Em 2001, com uma amostra de mais de mil pessoas, David Schmitt e colaboradores encontraram diferenças significativas entre homens e mulheres para todas as magnitudes de tempo. Estudantes universitários masculinos desejaram em média 1,3 parceiras para um mês, 2,8 para um ano, 7 para cinco anos, 9,1 para dez anos, 12,4 para 30 anos e 14,2 para a vida toda. Já as universitárias desejaram em média um parceiro para um mês, 1,6 para um ano, 3 para cinco anos, 3,6 para dez anos, 3,8 para 30 anos e 4 para a vida toda. Eles obtiveram as mesmas diferenças para todas as unidades de tempo até investigando uma população mais madura (em média, 40 anos). Os homens desejaram 2,1 parceiras para um mês, 31 pra cinco anos e 74 para a vida toda, enquanto as mulheres desejaram 1,2 para um mês, 1,7 para cinco anos e 1,8 para a vida toda.
Schmitt e colaboradores cercaram melhor as causas dessa diferen√ßa controlando poss√≠veis influ√™ncias da metodologia do auto-relato e de indicadores de baixa sa√ļde mental. Quando pediram a outra amostra de pessoas que respondesse sobre quantos parceiros sexuais a pessoa t√≠pica do sexo oposto desejaria para cada medida de tempo, eles tamb√©m encontraram as mesmas diferen√ßas. Mulheres disseram que o homem t√≠pico desejaria duas parceiras para um m√™s, 17,6 pra cinco anos e 27,7 para a vida toda, enquanto os homens disseram que a mulher t√≠pica desejaria 1,8 para um m√™s, 14,3 para cinco anos e 25,3 para a vida toda. Eles tamb√©m obtiveram que o desejo por variedade sexual n√£o est√° relacionado √† baixa auto-estima, instabilidade emocional, baixa abertura a novas experi√™ncias, entre outros. Pelo contr√°rio, o desejo por variedade sexual relacionou-se a caracter√≠sticas indicativas de sa√ļde mental em homens, como elevada auto-estima. Entretanto, ainda n√£o se sabia se esses resultados estavam restritos apenas aos americanos ou se eram extrapol√°veis interculturalmente.
Estudo intercultural
Em 2003, iniciou-se o Projeto Internacional de Descri√ß√£o da Sexualidade um in√©dito empenho colaborativo intercultural entre 119 cientistas comportamentais, sociais e biol√≥gicos, do qual o Brasil participou. Ele abrangeu 16.288 pessoas, em sua maioria universit√°rios, de seis continentes, 13 ilhas, 52 na√ß√Ķes e 27 l√≠nguas, incluindo a Am√©rica do Sul e do Norte, Sul da Europa, Leste e Oeste Europeu, Oriente M√©dio, √Āfrica, Oceania, Leste Asi√°tico e Sul/Sudeste Asi√°tico.
Pela primeira vez na história obteve-se que, interculturalmente, homens desejam maior variedade sexual do que mulheres. Os homens desejaram em média 1,87 parceiras pra um mês, 3,36 para um ano, 5,64 para cinco anos, 5,95 para dez anos e 6,62 para 30 anos; enquanto as mulheres desejaram, em média, 0,78 parceiros para um mês, 1,18 para um ano, 1,95 para cinco anos, 2,17 para dez anos e 2,47 para 30 anos.
O resultado se manteve independente do status de relacionamento. A porcentagem de homens desejando mais de uma parceira sexual para o próximo mês que são casados foi de 12,8% contra 3,5% das casadas, a porcentagem dos homens que moram junto e desejam mais de uma parceira foi de 18,2% contra 2,4% das mulheres, a dos que estão saindo com alguém exclusivamente e desejam mais de uma parceira sexual para o próximo mês foi de 19% contra 2,7% das mulheres e a porcentagem dos que estão solteiros foi de 28,6% contra 6,2%. Isso significa que, apesar do comprometimento em relação amorosa diminuir o desejo por variedade sexual em relação aos solteiros, a relação amorosa não foi capaz de igualar os desejos masculinos aos femininos.
Além disso, o resultado se manteve também independente da orientação sexual e do quanto a pessoa busca, ativamente, relacionamentos de curto prazo. A porcentagem de homens heterossexuais desejando mais de uma parceira para o próximo mês foi de 25% contra 4,4% das mulheres, a porcentagem de homens homossexuais desejando mais de um parceiro sexual foi de 29,1% contra 5,5 % de mulheres homossexuais, e a porcentagem de bissexuais masculinos foi de 30,1% contra 15,6% dos femininos. Similarmente, a porcentagem dos homens desejando mais de uma parceira para o próximo mês que estão fortemente procurando relacionamentos de curto prazo foi de 53,5% contra 18,7% das mulheres, e a porcentagem dos homens que não estão buscando o curto prazo foi de 10,5% contra 2% das mulheres.
Apesar da diferen√ßa entre homens e mulheres existir para todas as na√ß√Ķes, as localidades geogr√°ficas em que os homens desejam mais variedade sexual n√£o s√£o exatamente as mesmas em que as mulheres desejam maior variedade sexual. As tr√™s regi√Ķes que tiveram as maiores porcentagem de homens desejando mais de uma parceira sexual para o pr√≥ximo m√™s, em ordem crescente foram: o Sul/Sudeste Asi√°tico, o Oriente M√©dio e a Am√©rica do Sul com 35% dos homens, representada por Argentina, Bol√≠via, Brasil, Chile e Peru. J√° as tr√™s regi√Ķes que tiveram as maiores porcentagens de mulheres desejando mais de um parceiro para o pr√≥ximo m√™s, foram: o Sul da Europa, seguido por Am√©rica do Sul e em primeiro o Sul/Sudeste Asi√°tico com 6,4% das mulheres, representado por Indon√©sia, Mal√°sia e Filipinas. Isso indica que contextos familiares, culturais e ecol√≥gicos relevantes para o ajuste feminino no desejo por variedade sexual n√£o s√£o exatamente os mesmos relevantes para o ajuste masculino.
Inclinação universal
Esses dois estudos indicam que o maior desejo masculino por variedade sexual √© universal e existe independente da idade da amostra, do modo de coleta de dados, de sinais de baixa sa√ļde mental, do status de relacionamento, da orienta√ß√£o sexual e do buscar ativamente relacionamentos curtos, como previsto pela Teoria das Estrat√©gias Sexuais. Essa conclus√£o em apoio √†s teorias pluralistas deixa as teorias que admitem inclina√ß√Ķes naturais apenas para relacionamentos curtos ou longos em pior situa√ß√£o. √Č muito mais prov√°vel que o repert√≥rio em estrat√©gias de acasalamento humano seja flex√≠vel e igualmente presente em ambos os sexos, por√©m, diferentemente esculpido por press√Ķes seletivas distintas para cada o sexo.
Sa√ļde P√ļblica
Implica√ß√Ķes pr√°ticas dessa conclus√£o recaem sobre a sa√ļde p√ļblica. Dado que um potente fator de risco para se contrair AIDS e outras doen√ßas sexualmente transmiss√≠veis √© ter m√ļltiplos parceiros sexuais, estrat√©gias mais efetivas de preven√ß√£o podem ser alcan√ßadas considerando a diferen√ßa entre homens e mulheres no desejo por m√ļltiplos parceiros. Negar que essa diferen√ßa exista pode minar os progressos tanto na investiga√ß√£o das circunst√Ęncias em que o desejo por variedade sexual se traduz em comportamentos de risco, quanto no desenvolvimento de interven√ß√Ķes sexo-espec√≠ficas, que reduzam mais efetivamente as conseq√ľ√™ncias negativas do desejo por variedade sexual em cada sexo.
Adaptação mental não é desculpa
Est√° mais do que claro que os mesmos processos naturais que moldaram outras esp√©cies tamb√©m se aplicam ao ser humano. E que a Teoria da Evolu√ß√£o pode prever tanto adapta√ß√Ķes anat√īmicas, como os diferentes modelos de nossos dentes incisivos e molares, quanto adapta√ß√Ķes psicol√≥gicas, como o diferente design mental do desejo por variedade sexual. O que n√£o implica em pessoas escravas das adapta√ß√Ķes, pois a pr√≥pria sele√ß√£o por flexibilidade de repert√≥rio favorece um controle consciente dos impulsos naturais. Portanto, o discurso de que o desejo por m√ļltiplos parceiros √© natural n√£o √© justificativa para qualquer ato individual, por n√£o isentar a culpabilidade daqueles que, ao satisfazerem seus desejos, exp√Ķem conscientemente parceiros a danos √† sa√ļde pelo sexo desprotegido e √† confian√ßa pelas trai√ß√Ķes.
Adaptado de minha publica√ß√£o original na revista PSIQUE Ci√™ncia & Vida, ano II n¬ļ 18.
Referências

BUSS, D. M. Sexual Strategies Theory: Historical Origins and Current Status. The Jounal of Sex Reseach, 1998, v. 35, n¬ļ 1, p. 19-31.
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SCHMITT, D. P. et al. Universal Sex Differences in the Desire for Sexual Variety: Tests From 52 Nations, 6 Continents, and 13 islands. Jounal of Personality and Social Psychology, 2003, v.85, n¬ļ. 1, p. 85-104.
SCHMITT, D. P; SHACKELFORD, T. K.; DUNTLEY, J.; TOOKE, W; BUSS, D. M. The desire for sexual variety as a key to understanding basic human mating strategies. Personal Relationships, 2001, v.8, p. 425-455.

Evolutivamente Sexo Casual

Por Marco A. C. Varella e José H. B. P. Ferreira

José H. B. P. Ferreira é Biólogo Licenciado, Bacharel em Psicologia Experimental e mestrando em Psicologia Experimental no Instituto de Psicologia da USP.

Sexo casual, ou seja, o sexo sem envolvimento afetivo, tradicionalmente alvo das ci√™ncias humanas, recentemente passou a ser estudado com o enfoque evolutivo, pois dada a sua relev√Ęncia direta na reprodu√ß√£o, espera-se que as caracter√≠sticas psicol√≥gicas envolvidas tenham sofrido press√Ķes seletivas substanciais ao longo da evolu√ß√£o humana.

 

Nos seus famosos estudos sobre sexualidade da d√©cada de 50, Alfred Kinsey e colegas encontraram muitos praticantes, e grande varia√ß√£o individual quanto √†s motiva√ß√Ķes frente ao sexo casual. Eles nomearam essas motiva√ß√Ķes de ‚Äúorienta√ß√£o s√≥cio-sexual‚ÄĚ ou ‚Äús√≥cio-sexualidade‚ÄĚ. Essa id√©ia ficou esquecida na Psicologia at√© que, nos anos 90, Simpson e Gangestad conceitualizaram a s√≥cio-sexualidade como uma √ļnica dimens√£o cont√≠nua da personalidade com os p√≥los caracterizados como irrestritos e restritos.

 

Irrestritos s√£o pessoas com atitudes, comportamentos, fantasias e opini√Ķes mais permissivas do que a m√©dia populacional quanto ao sexo sem compromisso, j√° os restritos necessitam mais do que a m√©dia populacional de envolvimento afetivo e amoroso pr√©vio ao ato sexual. No popular, irrestritos separam mais sexo de amor do que restritos.

 

Segundo a Teoria Evolucionista da Hist√≥ria de Vida de Roff e Stearns (1992), os seres humanos enfrentaram um grande dilema evolutivo quanto √† reprodu√ß√£o. Ou se alocava a maioria dos esfor√ßos (energia, tempo, recursos), que s√£o finitos, em procurar o maior n√ļmero poss√≠vel de parceiros – conquist√°-los e fazer sexo -, ou se investia mais em manter um parceiro, fazer amor, assegurar fidelidade e investir nos filhos.

 

A s√≥cio-sexualidade descreve justamente a varia√ß√£o individual nas disposi√ß√Ķes, facilidades e propens√Ķes para solucionar esse dilema, demonstrando que cada indiv√≠duo possui e pode utilizar toda uma gama de estrat√©gias reprodutivas dependendo da oportunidade e das circunst√Ęncias situacionais. Segundo a Teoria das Estrat√©gias Sexuais (1993), a solu√ß√£o voltada para a conquista √© a estrat√©gia reprodutiva de curto prazo, e a voltada a assegurar um parceiro e investir nos filhos √© a estrat√©gia reprodutiva de longo prazo.

A primeira fonte de variação individual na sócio-sexualidade é a diferença entre homens e mulheres. Segundo a Teoria do Investimento Parental de Trivers (1972), o sexo que, fisiologicamente, tiver mais energia, tempo e recursos voltados para investir na prole terá sua solução do dilema reprodutivo mais voltado para a estratégia de longo prazo. Então, já que as mulheres a priori têm o alto custo com gametas maiores, gestação e lactação, elas serão, em média, mais restritas do que homens.

 

Outra fonte de varia√ß√£o individual √© a varia√ß√£o gen√©tica, apontada em um estudo com 4.901 g√™meos australianos. Eles demonstraram maior igualdade na escolha da estrat√©gia s√≥cio-sexual, nos homozig√≥ticos do que nos dizig√≥ticos de mesmo sexo e de sexo diferente, controlando os que foram criados juntos e separados. Outra fonte de varia√ß√£o s√£o os n√≠veis de masculiniza√ß√£o; argumenta-se que a varia√ß√£o na orienta√ß√£o s√≥cio-sexual seja um subproduto do n√≠vel de andr√≥genos pr√©-natais, e que as pessoas mais masculinas (expostas a um maior n√≠vel de andr√≥genos), seriam mais irrestritas. E outra fonte √© a do estilo de apego amoroso, onde o mediador da s√≥cio-sexualidade seria o contexto de cria√ß√£o na inf√Ęncia, em que o estilo de apego inseguro √† m√£e levaria a uma pessoa ser irrestrita.

 

Em abril de 2005, publicou-se o maior estudo j√° feito sobre s√≥cio-sexualidade. Ao todo, foram entrevistadas 14.059 pessoas, em seis continentes, dez ilhas, 26 l√≠nguas e 48 na√ß√Ķes, inclusive no Brasil. As principais conclus√Ķes foram:

 

1- A varia√ß√£o na s√≥cio-sexualidade entre as culturas parece ser adaptativamente ajustada a pelo menos dois aspectos da ecologia local, propor√ß√£o homem/mulher e as condi√ß√Ķes para cria√ß√£o dos filhos: culturas com menos mulheres s√£o mais restritas, e culturas com menos homens s√£o mais irrestritas, pois o poder de escolha √© do sexo mais raro; culturas com ambientes mais desfavor√°veis reprodutivamente (altas taxas de mortalidade e desnutri√ß√£o infantil) demandam um maior cuidado biparental, logo, s√£o mais restritas.

 

2- A diferença prevista entre os sexos existe e é universal, em todo o mundo homens são em média mais voltados para o sexo casual do que mulheres.

 

3- Essa diferen√ßa entre os sexos foi maior nas culturas em que o ambiente reprodutivo era mais exigente, mas foi reduzida a n√≠veis moderados nas culturas com mais igualdade pol√≠tica e econ√īmica entre os sexos.

 

A abordagem evolutiva sobre a sexualidade humana tem vantagens por ter grande abrang√™ncia, constata√ß√£o emp√≠rica inter-cultural, parcim√īnia e habilidade de gerar novas predi√ß√Ķes. A s√≥cio-sexualidade √© cada vez mais estudada e debatida, e est√° em franca amplia√ß√£o te√≥rica. Abordar o sexo casual em suas bases gen√©ticas, filogen√©ticas e adaptativas, s√≥ traz explica√ß√Ķes sobre o como as coisas ‚Äús√£o‚ÄĚ, n√£o sobre como ‚Äúdevem ser‚ÄĚ. O fato de homens serem mais propensos n√£o diminui a culpa de nenhum homem que trai sua mulher, pois essas propens√Ķes n√£o implicam em um fatalismo incontrol√°vel. Assim, o objetivo dos cientistas √© entender melhor nossa esp√©cie e n√£o dar diretrizes morais de conduta.

Adaptado da nossa publica√ß√£o original na revista PSIQUE Ci√™ncia & Vida, ano I n¬ļ 9

Referências bibliográficas:

 

BAILEY, J. M., DUNNE, M. P., KIRK, K. M., ZHU, G. & MARTIN N. G. Do individual Differences in Sociosexuality Represent Genetic or Environmentally Contigent Strategies? Evidence From the Australian Twin Registry. Journal of Personality and Social Psychology, 2000, v. 78, n. 3, p. 537-545.

BELSKY, J., STEINBERG, L. & DRAPER, P. Childhood experience, interpersonal development, and reproductive strategy: an evolutionary theory of socialization. Child development, 1991, v. 62, p. 647-670.

BUSS D. M. Sexual strategies theory: Historical Origins and Current Status. The Journal of Sex Research, 1998, v. 35, p. 19-31.

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SCHMITT, D. P. et al. Sociosexuality from Argentina to Zimbabwe: a 48-nation study of sex, culture and strategies of human mating. Behavioral and Brain Sciences, 2005, v. 28, p. 247-275.

SIMPSON, J. A. & GANGESTAD, S. W. (1991). Individual differences in sociosexuality: evidence for convergent and discriminant validity. Journal of Personality and Social Psychology, v. 60, n 6, p. 870-883.