Psicologia Evolucionista РEdição Especial Psique

A edi√ß√£o Especial Psique Ci√™ncia & Vida sobre Psicologia Evolucionista saiu no final de 2007 pela editora Escala. ‚ÄúUm olhar sobre a Psicologia Evolucionista‚ÄĚ, que ainda est√° nas bancas, e √© nada mais nada menos que a primeira publica√ß√£o nacional em divulga√ß√£o cient√≠fica sobre Psicologia Evolucionista feita por pesquisadores da √°rea no Brasil.
A pretens√£o foi mostrar ao leitor interessado como as a√ß√Ķes mais simples, atuais e corriqueiras, como escolher uma roupa, assistir TV ou mesmo prestar aten√ß√£o em certas coisas em detrimento de outras, podem ser explicadas e estudadas pela Psicologia Evolucionista. E o resultado j√° est√° aparecendo desde no site do Projeto Mil√™nio em Psicologia Evolucionista at√© em postagens na comunidade de Psicologia Evolucionista do orkut at√© elogios em blogs de ci√™ncia, como no Cient√≠fica Mente.
O Especial √© fruto de um empenho de divulga√ß√£o inteiramente volunt√°rio de graduandos em psicologia e p√≥s-graduandos em Psicologia Experimental da USP em parceria com graduandos em psicologia e p√≥s-graduandos em Psicobiologia da UFRN. Nas palavras editoriais: ‚ÄúTrabalhando com o rigor cient√≠fico que caracteriza esta disciplina, h√° hoje um prof√≠cuo grupo de profissionais e estudantes, em diferentes centros geradores de saber no Pa√≠s, dedicados √† pesquisa de temas t√£o centrais na defini√ß√£o do que seja ser humano [Se referindo ao Projeto do Mil√™nio de Psicologia Evolucionista]. Alguns deles se dispuseram generosamente a compartilhar seus conhecimentos e descobertas nas p√°ginas deste Especial da revista Psique e produziram textos ricos e esclarecedores sobre a aplica√ß√£o da Psicologia Evolucionista nos mais diferentes contextos.‚ÄĚ

O Especial conta com 8 textos escritos por pesquisadores especialistas (no qual estou incluído), dois retirados da Agência Notisa de Jornalismos Científico, uma lista com dicas de livros da área, uma lista com dicas de links importantes e um fechamento feito pela também especialista Doutora Cibele Biondo na Coordenação Técnica.

O texto introdut√≥rio intitulado ‚ÄúUma longa hist√≥ria‚ÄĚ pelos psic√≥logos Altay Alves de Souza e Leonardo Cosentino em conjunto com os bi√≥logos Jos√© Henrique Ferreira e eu, Marco Varella, apresenta de forma simples as hist√≥ria dos antepassados da Psicologia Evolucionista e seus fundamentos te√≥ricos e conceituais. Alem disso, apresenta tamb√©m um hist√≥rico da pesquisa nacional na √°rea gra√ßas ao Grupo de Trabalho de Psicologia Evolucionista na Associa√ß√£o Nacional de P√≥s-Gradua√ß√£o em Psicologia e ao Instituto do Mil√™nio de Psicologia Evolucionista.
O segundo texto trata dos mal-entendidos. Em ‚ÄúA era dos mal-entendidos‚ÄĚ Isabella Bertelli, estudante de psicologia e eu, Marco Varella, bi√≥logo apresentamos a quest√£o dos mal-entendidos mais comuns sobre da Psicologia Evolucionista. Como todo campo de ci√™ncia, a Psicologia Evolucionista sofre cr√≠ticas e contesta√ß√Ķes. O prop√≥sito deste artigo √© oferecer subs√≠dios conceituais esclarecedores aos leitores para conseguirem diferenciar uma cr√≠tica fundamentada de cr√≠ticas baseadas em interpreta√ß√Ķes equivocadas e preconceituosas, gerando problemas de entendimento.
O terceiro √© sobre Neotenia, expresso no artigo ‚ÄúQue olhos grandes voc√™ tem!‚ÄĚ da psic√≥loga Lia Vi√©gas. Ela conta como as caracter√≠sticas neot√™nicas (infantilizadas) geram efeitos nas pessoas e como isso ocorre como resultado de um importante processo evolutivo que contribuiu na sobreviv√™ncia e reprodu√ß√£o do ancestral humano no passado e hoje garante a vincula√ß√£o materna (e os afagos) dos nossos beb√™s.
O terceiro texto √© sobre diferen√ßas cerebrais entre homens e mulheres. √Č um texto extra√≠do da Ag√™ncia Notisa de Jornalismos Cient√≠fico que aborda apenas a Neuroci√™ncia e n√£o faz muita liga√ß√£o com a Psicologia Evolucionista. √Č sobre uma cardiologista que escreveu um livro sobre as diferen√ßas cerebrais entre homens e mulheres ‚ÄúPorque os homens nunca lembram e as mulheres nunca esquecem‚ÄĚ. Isso mostra como as ag√™ncias de not√≠cia v√™m negligenciando a Psicologia Evolucionista e at√© confundindo com Neuroci√™ncias.
O quarto texto √© sobre heur√≠sticas e tomadas de decis√£o. O artigo ‚ÄúSer√° que caso ou compro uma bicicleta?‚ÄĚ dos psic√≥logos Altay Alves Lino de Souza e √Ālvaro da Costa Batista Guedes aborda um dos comportamentos mais prosaicos e importantes do ser humano: tomar decis√Ķes. Eles detalham quais s√£o os mecanismos impl√≠citos nos processos de julgamento e tomada de decis√£o, como eles poderiam ter ajudado nossos ancestrais a sobreviver e a reproduzir e como por meio deles, podemos cometer ‚Äúerros‚ÄĚ sistem√°ticos.
O quinto texto √© sobre desejo por variedade sexual. √Č a reedi√ß√£o do meu texto sobre as primeiras pesquisas inter-culturais com rela√ß√£o ao desejo por diferentes parceiros sexuais ao longo na vida e as diferen√ßas entre homens e mulheres. Este texto est√° postado numa vers√£o melhorada aqui no MARCO EVOLUTIVO.
O sexto √© sobre as vis√Ķes evolucionistas sobre a depress√£o p√≥s parto. Tema que tem vindo a tona n√£o s√≥ no √Ęmbito cient√≠fico, mas tamb√©m na comunidade como um todo. Sobretudo ap√≥s as freq√ľentes not√≠cias de beb√™s abandonados ou mesmo infantic√≠dios. O artigo ‚ÄúQuando a dor √© M√£e‚ÄĚ das psic√≥logas Gabriela Andrade, Lia Viegas, Marina Cecchini e Emma Otta com a bi√≥loga Renata Pereira de Felipe apresenta como a Psicologia Evolucionista pode contribuir nessa quest√£o de sa√ļde p√ļblica.
O sétimo é sobre a neurologia da homossexualidade. Mais uma vez a Psique por intermédio da Agência Notisa de Jornalismos Científico confunde Psicologia Evolucionista com Neurociência. O texto focado em como as preferências sexuais se instalam nas áreas cerebrais aborda também pesquisas genéticas sobre a homossexualidade.
O oitavo texto √© sobre a sele√ß√£o de parceiros amorosos. Em ‚ÄúProcura-se‚ÄĚ, a psic√≥loga Lu√≠sa Spinelli e o bi√≥logo Wallisen Hattori apresentam os fundamentos te√≥ricos da Sele√ß√£o Sexual e da Teoria do Investimento Parental. Al√©m disso, eles apresentam os resultados emp√≠ricos de diferentes pesquisas sobre as prefer√™ncias afetivo-emocionais para a escolha de parceiros e as diferen√ßas entre homens e mulheres. Tudo indica que em mat√©ria de sexo, Darwin explica!
O nono texto √© sobre a amizade e a constitui√ß√£o de v√≠nculos. Em ‚ÄúUma m√£o lava a outra‚ÄĚ o bi√≥logo C√©sar Ornelas discute qual a import√Ęncia das estrat√©gias sociais como forma de obter sucesso e garantir a sobreviv√™ncia na comunidade. Neste ponto entra a quest√£o do ego√≠smo e altru√≠smo e qual a import√Ęncia de cada um para a sobreviv√™ncia do indiv√≠duo e do grupo.
Na lista de livros constam: Tabula Rasa de Steven Pinker; Não há dois iguais: Natureza humana e individualidade de Judith Harris; The Evolution os Mind: fundamental questions and controversies de Steve Gangestad e Jeffry Simpson (eds.); Introducing Evolutionary Psychology de Dylan Evans e Oscar Zarate; Instinto Humano de Robert Winston; e O Pensamento de animais e intelectuais: evolução e epistemologia de Denis Werner.
Na lista de links constam o Center of Evolutionary Psychology, o The Human Behavior & Evolution Society, o The International Society or Human Ethology, O Instituto do Milênio, o Laboratório de Psicologia Comparativa e Etologia da USP, e a Sociedade Brasileira de Etologia. Todos esses links e outros se encontram na lista de links do MARCO EVOLUTIVO.
E no fechamento a Doutora Cibele Biondo faz um brilhante balanço dos textos publicados, da contribuição da visão biologicamente cultural da Psicologia Evolucionista para a Psicologia e Ciências Humanas bem como enquanto campo frutífero de pesquisa em plena expansão mundial e nacional.
No geral o grupo trabalhou muito, dentro do prazo editorial curt√≠ssimo, e fez um √≥timo e in√©dito trabalho de esclarecimento p√ļblico, por√©m alguns erro editoriais apareceram, pois n√£o tivemos acesso √† vers√£o editada pronta para a publica√ß√£o. Os erros foram desde grandes atribui√ß√Ķes err√īneas de autoria a at√© pequenos detalhes dos textos principalmente nas legendas de figuras. Mas que no geral n√£o desmerece todo o esfor√ßo e entusiasmo depositado nesta empreitada nova tanto para muitos autores quanto para a divulga√ß√£o cient√≠fica nacional.
Todos estão de parabéns pesquisadores, divulgadores e editores pelo magnífico presente aos leitores brasileiros. Boa Leitura!

Criatividade: nossa cauda de pav√£o mental

Voc√™ j√° assistiu a algum programa mostrando premia√ß√Ķes de comerciais de televis√£o? Um comercial melhor que o outro, mais engra√ßado, mais inusitado, mais criativo. N√£o d√° para assistir e n√£o ficar admirado com a capacidade criativa do ser humano. E por mais que a estrutura do comercial seja previs√≠vel, o desfecho sempre √© inusitado e interessante. Todo comercial premiado tem um come√ßo que soa estranho ou √≥bvio sobre algo familiar, da√≠ no final vem a p√©rola criativa, o cl√≠max, que d√° um novo sentido para a estranheza ou para o √≥bvio inicial. Essas cria√ß√Ķes humanas nos deixam instigados em compreender as origens dessa capacidade criativa que permeia toda a vida social do ser humano.
A criatividade √© frequentemente considerada uma das caracter√≠sticas fundamentais do nosso comportamento moderno. Enfoques etnogr√°ficos, arqueol√≥gicos e etol√≥gicos mostram que muitos dos comportamentos que expressam a criatividade, como a ornamenta√ß√£o corporal, a pintura, a dan√ßa, a m√ļsica, o humor e a cria√ß√£o de hist√≥rias s√£o comportamentos universais para todas as culturas e t√™m ra√≠zes em √©pocas muito antigas. Somado a isso, a facilidade e espontaneidade com que as crian√ßas precocemente expressam sua criatividade em brincadeiras nos sugerem que nossa capacidade criativa seja uma potencialidade intr√≠nseca da natureza humana.
Adaptação mental
Mas será que a criatividade humana é apenas um efeito colateral da atividade neural caótica de nossos cérebros complexos e grandes? Ou ela teria algum valor adaptativo ao longo de nossa evolução? Tendo em vista a universalidade, a antiguidade e a precocidade envolvida nos processos criativos, bem como a quantidade de energia e tempo que gastamos com comportamentos criativos, desde produção, participação e apreciação, é bem possível que a cognição envolvida na criatividade tenha desempenhado alguma função adaptativa em nosso ambiente ancestral. Dado que a evolução elimina facilmente da população ancestral comportamentos que consomem muitos recursos e não proporcionam consideráveis benefícios evolutivos à sobrevivência ou à reprodução dos indivíduos.
De certo modo n√£o precisamos usar muito a criatividade para imaginar como a sele√ß√£o natural teria favorecido ancestrais que solucionavam criativamente seus problemas de sobreviv√™ncia. Qualquer id√©ia nova que ajudasse na obten√ß√£o de alimento como armadilhas, utens√≠lios como cestos e redes, e estrat√©gias para surpreender a ca√ßa dariam uma enorme vantagem adaptativa ao indiv√≠duo, seus parentes e amigos. Ou ent√£o qualquer forma criativa de solucionar melhor outros problemas de sobreviv√™ncia, como evitar doen√ßas, espantar predadores, lidar com o frio e com a seca, traria conseq√ľ√™ncias positivas para a evolu√ß√£o da criatividade.
De fato muita pesquisa sobre criatividade tem seu foco principal na capacidade de se resolver problemas pr√°ticos, como os de sobreviv√™ncia. A pr√≥pria defini√ß√£o de criatividade envolve a habilidade de se produzir algo novo e √ļtil. A utilidade envolve a adequa√ß√£o da id√©ia criativa para a solu√ß√£o de um problema bem definido. A novidade reflete a dificuldade daquela solu√ß√£o para tal problema dada a baixa freq√ľ√™ncia com que as pessoas puderam solucion√°-lo anteriormente. Por esse foco, as pesquisas sobre criatividade justificam seus custos como um modo de descobrir como as pessoas poderiam melhorar sua capacidade de resolver problemas t√©cnicos. As empresas valorizam pensadores criativos para poderem solucionar melhor problemas empresariais internos e externos, al√©m de patentear novas inven√ß√Ķes. Como se a busca por novidade n√£o pudesse ser estudada como tendo um fim em si mesma, apenas como um meio de encontrar solu√ß√Ķes para problemas dif√≠ceis.

Seleção sexual entra em cena

√Č bem poss√≠vel que haja vantagens adaptativas √† criatividade pautadas na sobreviv√™ncia, mas isso n√£o exclui poss√≠veis vantagens relacionadas √† reprodu√ß√£o. Pense no p√© humano. Ele √© diferente do p√© do chimpanz√©, pois foi adaptado ao nosso modo b√≠pede de andar. Essa vantagem √† sobreviv√™ncia n√£o exclui a possibilidade da sele√ß√£o sexual ter atuado, pois a escolha de parceiros pode valorizar al√©m da funcionalidade, a est√©tica das adapta√ß√Ķes. Isso acrescenta uma nova din√Ęmica seletiva somada √† anterior. Agora n√£o apenas a press√£o cega do ambiente atua e sim a escolha ativa e consciente por parte das pessoas. E voc√™ deve conhecer pessoas que admiram, adoram ou t√™m fetiches por p√©s (podolatria), ou ainda pessoas que n√£o gostam do pr√≥prio p√© a ponto de ter vergonha de sair com o p√© √† mostra. Al√©m disso, ningu√©m duvida que a est√©tica de m√£os e p√©s n√£o seja importante dada as consagradas profiss√Ķes de manicure e pedicure, fora aqueles profissionais modelos de m√£os e p√©s para comerciais. Ent√£o, assim como a est√©tica e a sensualidade do p√© pode evoluir tamb√©m pela sele√ß√£o sexual, al√©m da press√£o seletiva para o andar b√≠pede, a criatividade pode ter evolu√≠do em parte por suas vantagens na atra√ß√£o, manuten√ß√£o e na disputa por parceiros amorosos.
Essa mudança de foco da solução criativa visando problemas técnicos para a exibição criativa relacionada à paquera tem sido um novo campo frutífero de investigação científica. Apoiando a idéia da influência da seleção sexual, estudos têm mostrado que nós expressamos um desejo por criatividade num parceiro amoroso. Mesmo quem não é cientista já vivenciou uma situação de conquista amorosa, e percebeu na pele como a criatividade é importante para transformar um primeiro contato duvidoso numa conversa interessante, descontraída e prazerosa ou num tremendo fora desconcertante.
A primeira pesquisa
Uma pesquisa de 2006, amostrando no total 262 homens e 353 mulheres, traz grandes contribui√ß√Ķes a essa quest√£o ao testar as influ√™ncias da sele√ß√£o sexual na criatividade humana. Griskevicius, Cialdini e Kenrick reconhecem que os √≥rg√£os mentais, que s√£o os processadores cognitivos voltados para problemas adaptativos espec√≠ficos, s√£o adaptativamente bem sens√≠veis a pistas ecol√≥gicas indicadoras de determinado problema ou oportunidade para os quais s√£o voltados. Pistas ambientais relacionadas ao acasalamento ativam o sistema de busca por parceiros amorosos e os mecanismos cognitivos relacionados ao cortejo amoroso, facilitando percep√ß√Ķes, cogni√ß√Ķes e comportamentos particulares associados ao sucesso reprodutivo. Ent√£o, se exibi√ß√Ķes de criatividade evolu√≠ram em parte por seu benef√≠cio na conquista amorosa, pistas voltadas para ativar a busca por parceiros amorosos ativariam exibi√ß√Ķes de criatividade nas pessoas.

Eles realizaram quatro experimentos para testar a influ√™ncia da ativa√ß√£o mental rom√Ęntica no aumento da exibi√ß√£o de criatividade. Usaram medidas repetidas (antes e depois) da criatividade dos participantes, que escreviam hist√≥rias livres sobre diferentes figuras equivalentes antes e depois do tratamento experimental. As hist√≥rias eram avaliadas por juizes independentes quanto a serem criativas, originais, inteligentes, imaginativas, cativantes, engra√ßadas, envolventes e charmosas, atributos que juntos compunham a medida subjetiva de criatividade.

Estudo n√ļmero 1

No primeiro estudo, o procedimento de ativa√ß√£o era a apresenta√ß√£o para metade dos participantes de fotos de pessoas atraentes e era pedido para que escolhessem a que mais agradasse e depois que escrevessem como imaginariam o primeiro encontro com a pessoa. A outra metade era a controle, viam uma foto de uma rua com alguns pr√©dios e era pedido para que se imaginassem l√° e escrevessem quais seriam as melhores condi√ß√Ķes clim√°ticas para passear e ver os pr√©dios. A an√°lise mostrou que os homens que viram as fotos de mulheres bonitas apresentaram maiores √≠ndices de criatividade na segunda hist√≥ria. Para as mulheres, n√£o houve diferen√ßa no n√≠vel de criatividade da primeira para a segunda hist√≥ria entre as que viram homens bonitos e as que viram a rua.
Estudo n√ļmero 2
No segundo estudo o procedimento de ativa√ß√£o mudou de fotos para hist√≥rias de contextos de busca de parceiros. Isso visando evitar vieses das diferen√ßas entre homens e mulheres no efeito da exposi√ß√£o visual de parceiros em potencial, j√° que homens s√£o mais visuais e mulheres mais contextuais. As hist√≥rias de contextos de busca de parceiros eram textos descrevendo uma situa√ß√£o em tr√™s vers√Ķes: curto prazo, longo prazo e controle, que compunham grupos independentes.
Na vers√£o de curto prazo, o texto descrevia uma situa√ß√£o de busca de parceiro rom√Ęntico para um relacionamento curto e levava o participante a se imaginar encontrando e sendo correspondido por uma pessoa atraente no √ļltimo final de semana de sua viagem de f√©rias, numa ilha ex√≥tica, sem a possibilidade de reencontro e que termina com beijos na praia. Na vers√£o de longo prazo o texto descrevia uma situa√ß√£o de busca de parceiro rom√Ęntico para um relacionamento de longo prazo e levava o participante a se imaginar encontrando e sendo correspondido por uma pessoa atraente que estuda na mesma universidade, que √© vista frequentemente e termina com beijos. Na vers√£o controle o texto descrevia uma situa√ß√£o neutra quanto √† busca de parceiros em que o participante era levado a se imaginar com um amigo do mesmo sexo procurando os ingressos de um show que iriam √† noite e depois de muito procurar eles encontram e assistem ao show. A an√°lise mostrou que tanto os homens que leram as hist√≥rias de curto prazo quanto os que leram as de longo prazo apresentaram maiores √≠ndices de criatividade na segunda hist√≥ria. Para as mulheres n√£o houve diferen√ßa entre as controle, curto prazo e longo prazo.

Estudo n√ļmero 3

No terceiro estudo o procedimento das tr√™s vers√Ķes de hist√≥rias se manteve, mas visando evitar vieses das diferen√ßas entre homens e mulheres quanto √† necessidade de comprometimento amoroso no relacionamento de longo prazo, o texto da hist√≥ria de longo prazo foi completado. Acrescentaram uma frase indicando que a pessoa j√° se mostrou comprometida para a rela√ß√£o s√©ria anterior, que os seus amigos e os amigos da pessoa aprovam a rela√ß√£o e termina com beijos de reatamento do casal.
Os autores usaram antes e depois das hist√≥rias uma medida objetiva da criatividade, o teste RAT (Remote Associates Test), que avalia a capacidade e a facilidade dos indiv√≠duos em fazer associa√ß√Ķes apropriadas entre palavras relacionadas. A an√°lise mostrou que, assim como com as hist√≥rias criativas, o teste RAT foi influenciado pelo contexto de curto prazo apenas para os homens. J√° no contexto de longo prazo comprometido, homens e mulheres apresentaram igualmente melhores resultados de criatividade do que o controle. Isso mostra que homens e mulheres t√™m capacidades de aumento nas capacidades criativas quando expostos a contextos amorosos, mesmo as mulheres sendo muito mais exigentes quanto √†s condi√ß√Ķes necess√°rias para sua melhora.
Estudo n√ļmero 4¬†

No √ļltimo dos quatro estudos, o teste objetivo de criatividade RAT foi usado e o procedimento de hist√≥ria continha: a de curto prazo, a controle, e um terceiro grupo que receberia uma proposta de incentivo econ√īmico para ser mais criativo. Aqueles que, tentando ao m√°ximo ser mais criativo, estivessem entre os 30% melhores ganhariam 60 d√≥lares. A an√°lise mostrou que, assim como os outros estudos, os homens expostos ao contexto de busca de parceiros de curto prazo se mostraram mais criativos do que o grupo controle. E se mostraram mais criativos tamb√©m do que os que receberiam o incentivo monet√°rio e se esfor√ßaram para ficarem criativos. N√£o houve diferen√ßas para as mulheres das condi√ß√Ķes controle, curto prazo e incentivo monet√°rio.
Os quatro experimentos exploraram os efeitos das motiva√ß√Ķes rom√Ęnticas na exibi√ß√£o de criatividade. Mesmo sem incentivos espec√≠ficos, motiva√ß√Ķes rom√Ęnticas aumentaram a criatividade dos indiv√≠duos segundo indicadores subjetivos e objetivos. Esse aumento n√£o est√° relacionado com um maior empenho nas tarefas, como mais palavras escritas ou mais tempo elaborando a hist√≥ria, nem com mudan√ßas de humor e n√£o foi alcan√ßado pelo incentivo monet√°rio para ser mais criativo.
Conclus√Ķes interessantes
Para os homens, as pistas contextuais voltadas para relacionamentos de curto e de longo prazo aumentaram as exibi√ß√Ķes de criatividade. O que mostra que as exig√™ncias sobre a qualidade da parceira requeridas pelos homens para ativar exibi√ß√Ķes de criatividade s√£o baixas. Isso porque eles n√£o t√™m muito a perder em ambos os tipos de relacionamento, j√° que n√£o foram eles que carregaram os custos fisiol√≥gicos de gesta√ß√Ķes desejadas e indesejadas durante todo o per√≠odo no ambiente ancestral. Para as mulheres, apenas as pistas contextuais voltadas para relacionamentos de longo prazo comprometidos aumentaram as exibi√ß√Ķes de criatividade. Isso indica que as exig√™ncias sobre a qualidade do parceiro requeridas pelas mulheres para sua exibi√ß√£o criativa s√£o mais elevadas. Isso porque o comprometimento por parte dos homens garantia a uni√£o do casal necess√°ria para o cuidado bi-parental da prole no ambiente ancestral.
As Musas
√Č poss√≠vel supor que exibi√ß√Ķes criativas evolu√≠ram em parte por seu benef√≠cio na conquista amorosa pela sele√ß√£o sexual, ent√£o poderemos finalmente ter uma explica√ß√£o evolutiva para o antigo e muito difundido fen√īmeno das musas inspiradoras. O Guinness Book lista o pintor Pablo Picasso como o artista mais produtivo da hist√≥ria, com admir√°veis 147.800 obras de arte.¬†

A carreira de Picasso √© marcada por uma s√©rie de per√≠odos art√≠sticos de profunda inspira√ß√£o criativa ‚Äď a fase azul, rosa, cubista, surrealista ‚Äď nas quais sua pintura revelava transforma√ß√Ķes visuais extravagantes. Por√©m um olhar mais atento para seus per√≠odos gerativos mostra uma constante intrigante: cada nova √©poca criativa floresce com pinturas de uma nova mulher, uma musa. Essa hist√≥ria art√≠stica n√£o √© exclusiva de Picasso: Salvador Dali, Friedrich Nietzsche e Dante dentre outros que tamb√©m tiveram musas inspiradoras influenciando suas cria√ß√Ķes.
A no√ß√£o enigm√°tica de musa tem ra√≠zes na mitologia grega em que nove deusas musas atravessavam a Terra agitando os esp√≠ritos criativos de mortais artistas e pensadores. Segundos historiadores, todas as musas compartilham um fator comum intrigante e inexplic√°vel: musas tanto reais da hist√≥ria quanto da mitologia s√£o universalmente mulheres. Pense em quantas m√ļsicas existem com nomes de mulheres: Michele, Ana J√ļlia, Janaina, Maria Maria, Carolina, Ive Brussel, Bebete, Madalena, Dinorah Dinorah, Iracema, Aurora, Am√©lia, Bete Balan√ßo dentre muitas outras.

Agora podemos explicar isso. As musas não são todas mulheres porque a figura masculina não é capazes de inspirar pessoas, nem porque os homens são mais criativos do que mulheres. Mas sim porque, como o estudo demonstrou, os homens têm seu potencial criativo disparado por mais contextos amorosos: imagens do sexo oposto, relacionamentos de curto prazo, longo prazo, e longo prazo comprometido. Enquanto as mulheres, que são tão criativas quanto os homens, têm seu potencial criativo disparado apenas quanto o companheiro demonstra comprometimento.

Um exemplo do efeito equivalente aos das musas para as mulheres e que tamb√©m est√° de acordo com os resultados femininos do estudo vem de Elizabeth Barrett Browning, uma poetisa vitoriana renomada. Aos vinte anos, enquanto se encontrava com uma produ√ß√£o art√≠stica mediana, ela recebeu uma carta de um f√£ apaixonado, Robert Browning, que lhe declarou seu amor. Elizabeth n√£o se convenceu das inten√ß√Ķes de seu f√£ por pelo menos um ano inteiro quando, muitas cartas de Robert depois, eles concordaram em iniciar a s√©rio seu relacionamento. E foi precisamente durante esse per√≠odo do relacionamento quando Elizabeth inspirou-se a escrever Sonnets from the Portuguese, que se tornou sua obra criativa mais importante e mais aclamada criticamente.

Criatividade como indicador de aptid√£o
Tudo bem, a criatividade tem muita import√Ęncia na sele√ß√£o de parceiros amorosos, mas por que essa caracter√≠stica mental humana seria valorizada? O que ela t√™m de especial? Ser√° que a criatividade indica alguma coisa relevante para a sele√ß√£o sexual? √Č bem poss√≠vel que sim. A criatividade pode tanto indicar confiavelmente algo sobre a pessoa criativa quanto ela pode explorar as propens√Ķes cognitivas preexistentes nos espectadores superestimulando-as no cortejo amoroso. Uma propens√£o cognitiva que temos √© a neofilia, a atra√ß√£o pelo novo, ela est√° entranhada no c√©rebro dos animais. Os c√©rebros s√£o naturalmente voltados para previs√Ķes. As mentes operam um modelo interno do que de biologicamente relevante est√° acontecendo no mundo e prestam aten√ß√£o quando o mundo desvia-se do esperado. O poder de atra√ß√£o da aten√ß√£o, da novidade, √© uma das inclina√ß√Ķes psicol√≥gicas mais fundamentais que poderiam ter influenciado a evolu√ß√£o das exibi√ß√Ķes de cortejo. No livro A Origem do Homem e a Sele√ß√£o Sexual de 1971, Charles Darwin escreveu: ‚ÄúPareceria at√© que a mera novidade, ou a mudan√ßa pela mudan√ßa em si mesma, √†s vezes tem agido como um encanto sobre as f√™meas de p√°ssaros, do mesmo modo que as mudan√ßas na moda nos afetam.‚ÄĚ


Anti-tédio

Nas sociedades humanas modernas, a neofilia √© a funda√ß√£o de muitas manifesta√ß√Ķes como a pintura, m√ļsica, televis√£o (programas e comerciais), filmes, m√≠dia, imprensa, drogas, viagens, pornigrafia, moda, r√°dio e industrias de pesquisa, que respondem por uma propor√ß√£o substancial da economia global. Antes dessas ind√ļstrias do entretenimento come√ßar a nos divertir, precis√°vamos divertir uns aos outros na savana africana ancestral. Nessa vis√£o, a criatividade evoluiu pela sele√ß√£o sexual como um dispositivo anti-t√©dio. Os parceiros sexuais entediados depois de alguns dias ou semanas podem n√£o ter estabelecido relacionamentos mais duradouros abrindo m√£o de vantagens reprodutivas. C√©rebros menos criativos que ofereciam menos novidades cont√≠nuas, sendo menos interessantes como parceiros sexuais, amantes, amigos e companheiros, n√£o tinham o suporte necess√°rio para deixar muitos filhos.

As formas atraentes de novidade tendem a basear-se em um truque unicamente humano: a recombina√ß√£o criativa de elementos simb√≥licos aprendidos, como palavras, gestos, movimentos, s√≠mbolos visuais, para a produ√ß√£o de arranjos novos com novos significados emergentes, como em hist√≥rias, melodias, poesias, dan√ßas, piadas e pinturas. Este truque permite que as exibi√ß√Ķes de cortejo humanas n√£o apenas provoquem os sentidos e a aten√ß√£o de potenciais parceiros amorosos, mas criem novas id√©ias e emo√ß√Ķes nas mentes de todas as pessoas independentes de inten√ß√Ķes sexuais e de paquera expl√≠cita. Como podemos ver, essas exibi√ß√Ķes sociais n√£o precisam ser sexuais como a p√īrno-chanchada para ser produto de sele√ß√£o sexual. Se um filme de terror entreter, causar fasc√≠nio e admira√ß√£o nas pessoas de modo que seu criador tenha um melhor status e uma maior aprecia√ß√£o social, inevitavelmente suas chances de reproduzir v√£o aumentar.
Sabemos ent√£o como nossas propens√Ķes neof√≠licas podem ter sido exploradas pela sele√ß√£o sexual da criatividade. Agora precisamos saber se a criatividade em si indica alguma caracter√≠stica evolutivamente desej√°vel no parceiro. Como a maioria dos mam√≠feros come√ßa a vida sendo graciosos, brincalh√Ķes e inovadores, e gradualmente tornam-se s√©rios, pragm√°ticos e levados pelo h√°bito, comportamentos brincalh√Ķes e criativos na p√≥s-puberdade podem ser indicadores de juventude, sa√ļde e fertilidade. E como existe uma correla√ß√£o positiva moderada entre a criatividade e a intelig√™ncia, de modo que a alta intelig√™ncia parece ser uma condi√ß√£o necess√°ria, mas n√£o suficiente para a alta criatividade, √© poss√≠vel que a criatividade seja um bom indicador de intelig√™ncia geral tamb√©m.
Juventude, sa√ļde, fertilidade, humor e intelig√™ncia s√£o caracter√≠sticas influenciadas pela intera√ß√£o entre muitos genes e muito sens√≠veis ao ambiente de desenvolvimento, portanto elas s√£o mais vulner√°veis a muta√ß√Ķes e a efeitos ambientais delet√©rios o que as torna bons indicadores de qualidade gen√©tica, de bons genes. Se a criatividade for um indicador de bons genes ent√£o ela deveria estar mais relacionada a relacionamentos de curto prazo do que de longo prazo. Essa quest√£o foi pesquisada em 2006 num trabalho de Haselton e Miller. Eles tamb√©m avaliaram se a prefer√™ncia pela criatividade masculina por parte das mulheres variava conforme as mudan√ßas na fertilidade ao longo das fases do ciclo menstrual.

A segunda pesquisa

Haselton e Miller amostraram 41 mulheres que n√£o tomavam contraceptivos hormonais e tinham o ciclo menstrual regular. As participantes liam pequenas descri√ß√Ķes de homens muito criativos e pobres e de homens pouco criativos e ricos al√©m de dar informa√ß√Ķes sobre a data da √ļltima menstrua√ß√£o, que possibilitou calcular n√≠vel de fertilidade da participante no dia da pesquisa. As an√°lises mostraram a exist√™ncia de uma correla√ß√£o positiva entre fertilidade e a prefer√™ncia por homens criativos e pobres apenas quando as mulheres respondiam pensando em relacionamentos de curto prazo. E para relacionamentos de longo prazo n√£o houve rela√ß√£o entre prefer√™ncia por criatividade e fase do ciclo menstrual. A estimativa da fertilidade feminina previu sua prefer√™ncia para o curto prazo tanto na sua prefer√™ncia por cada tipo de homem, quanto na escolha for√ßada entre o criativo e pobre e o pouco criativo e rico.
Amplos horizontes
Esses resultados sugerem que a intelig√™ncia criativa masculina seja um indicador de aptid√£o referente a bons genes e que ela evoluiu em parte pela sele√ß√£o sexual, com as mulheres preferindo homens mais criativos para relacionamentos de curto prazo. O trabalho sobre a prefer√™ncia pela criatividade em relacionamentos de curto prazo no per√≠odo f√©rtil e o trabalho anterior sobre a maior exibi√ß√£o da criatividade em contextos relacionados com a busca de parceiros d√£o uma boa no√ß√£o de quanto √© promissor o estudo de caracter√≠sticas psicol√≥gicas imersas na criatividade pela √≥tica da sele√ß√£o sexual. Muitos estudos sobre m√ļsica, dan√ßa, poesia, pintura, escultura, teatro, malabarismos, humor e narra√ß√£o de hist√≥rias dentre outros ainda est√£o por vir. Isso ir√° aproximar as pessoas das √°reas de comunica√ß√£o e artes de psic√≥logos e bi√≥logos. E al√©m de mais pesquisadores nessa √°rea, a Psicologia Evolucionista vai precisar de muita criatividade para desenvolver desenhos experimentais como esses capazes de testar hip√≥teses evolucionistas de sele√ß√£o sexual.
Dicas de leituras
Darwin, C. R. (1871/2004). A origem do homem e a seleção sexual. Belo Horizonte: Itatiaia.
Griskevicius, V.; Cialdini, R. B. & Kenrick, D. (2006). Peacocks, Picasso, and parental investment: The effects of romantic motives on creativity. Journal of Personality and Social Psychology, 91(1), 63 ‚Äď 76.
Haselton, M. G. & Miller, G. F. (2006). Women‚Äôs fertility across the cycle increases the short-term attractiveness of creative intelligence. Human Nature, 17(1), 50 ‚Äď 73.
Miller, G. F. (2001). A mente seletiva. Rio de Janeiro: Campus.