150 anos do livro A Descendência do Homem e a Seleção Sexual de Darwin

Neste dia de 24 de fevereiro há exatos 150 anos foi publicado em Londres com dois volumes de 450 páginas o The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex de Charles Darwin. O livro foi um marco para o estudo da evolução humana e aqui no MARCO EVOLUTIVO não poderíamos deixar de celebrar esta data. Originalmente a ideia de Darwin era apenas ter um capítulo sobre humanos em seu livro The variation of animals and plants under domestication de 1866, mas como o livro já estava grande ele resolveu fazer em separado um pequeno ensaio sobre nossa ancestralidade primata e a seleção sexual, o que acabou crescendo e virando os dois volumes do The Descent of Man em 1871. Neste livro Darwin finalmente pode desenvolver tudo o que ele se referiu ao final do Origem das Espécies quando disse que, por conta da evolução por seleção natural, no futuro muita luz seria lançada sobre a origem dos humanos e nossa psicologia e história.

Intuitivamente sempre nos parece que a diferen√ßa psicol√≥gica entre humanos e outros primatas √© enorme, tanto que at√© o Alfred Wallace abandonou a explica√ß√£o evolucionista ao se tratar da mente humana por achar pouco poss√≠vel de que toda nossa capacidade intelectual tenha evolu√≠do naturalmente em contextos tribais aparentemente pouco exigentes por grandes intelig√™ncias. Muito do The Descent √© uma reposta ao desafio de Wallace. Darwin argumenta que todas as nossas caracter√≠sticas psicol√≥gicas podem ser encontradas em algum grau em outras esp√©cies, incluindo capacidades para a m√ļsica, a beleza, e a moralidade. √Č por isso que numa carta a Wallace Darwin diz que a evolu√ß√£o humana era o maior e mais interessante problema para o naturalista.

Outra no√ß√£o popular na √©poca era a de que toda a exuberante beleza na natureza teria sido magicamente criada para satisfazer os humanos que seriam o √°pice da evolu√ß√£o. Gra√ßas a Darwin e anos de pesquisa subsequente, hoje sabemos que a evolu√ß√£o n√£o tem √°pice e que somos t√£o √ļnicos e t√£o especiais quanto cada uma das outras esp√©cies. No The Descent Darwin argumenta que a beleza sonora e visual encontrada no mundo animal evoluiu naturalmente pelo processo de sele√ß√£o sexual. Indiv√≠duos mais vistosos e sonoros eram preferidos na busca por um parceiro sexual, o que ao longo de muitos ciclos de sele√ß√£o, d√° origem a cada vez mais beleza.

A evolução dos armamentos como chifres era mais facialmente explicada pela competição entre machos o que deixara as armas mais eficientes e maiores. Mas para explicar a evolução da beleza era necessário perceber que as fêmeas das outras espécies também têm senso estético e que a variação nesse senso estético era a pressão social favorecendo a evolução dos ornamentos animais. Portanto, para Darwin a beleza do pavão ou da ave do paraíso não necessariamente precisa indicar uma qualidade de sobrevivência, basta ela ser agradável o suficiente para as fêmeas da espécie que a ornamentação poderia evoluir sendo um fim em si mesma.

Atualmente como parte das celebra√ß√Ķes do sesquicenten√°rio do The Descent, diversas iniciativas tentam resgatar o que Darwin acertou e o que Darwin errou no livro, e todos o desdobramento mais atuais nos dois t√≥picos centrais do livro: evolu√ß√£o humana e sele√ß√£o sexual. O livro A Most Interesting Problem: What Darwin‚Äôs Descent of Man Got Right and Wrong about Human Evolution apresenta uma releitura da perspectiva atual de cada cap√≠tulo relativo ao ser humano. Est√° sendo muito bem avaliado e me pareceu muito interessante tanto para quem quer se atualizar sobre evolu√ß√£o humana quanto para quem quer se aprofundar nas hip√≥teses do The Descent. Em Darwin, sexual selection, and the brain Micheal Ryan faz uma revis√£o das v√°rias linhas de pesquisa relacionadas √† ideia da Darwin sobre a evolu√ß√£o da beleza sendo um fim em si mesma. Em Darwin‚Äôs closet: the queer sides of The descent of man (1871), Ross Brooks ressalta como Darwin integrou a ideia de varia√ß√£o individual nos assuntos da sele√ß√£o sexual o que foi fundamental para o nascimento da sexologia moderna. No Peri√≥dico Evolutionary Human Sciences existem uma compila√ß√£o de artigos celebrando os 150 anos do The Descent, por enquanto com 3 artigos e com promessa de outros mais por vir.

Claro que como todo livro, o The Descent tem v√°rias limita√ß√Ķes e vieses de √©poca, mas nele Darwin deixou claro que as origens evolutivas dos humanos podem sim ser desvendadas. E nesse sentido enquanto um programa de pesquisa a ser desenvolvido, Darwin deu uma inestim√°vel contribui√ß√£o √† evolu√ß√£o humana. E, se percebermos como aspectos morfol√≥gicos, biogeogr√°ficos, interespecificamente comparativos, mas tamb√©m psicol√≥gicos e comportamentais est√£o integrados, o The Descent pode ser considerado bem moderno. Isto porque, de l√° para c√°, ainda s√£o poucos bi√≥logos focando na psicologia e no comportamento, e pouco psic√≥logos focando na evolu√ß√£o. Felizmente as √°reas est√£o cada vez mais se integrando e talvez um dia cheguemos ao grau de integra√ß√£o que o pr√≥prio Darwin expressou 150 atr√°s.

Dia de Darwin 2021 e os 150 anos do “Descend√™ncia do Homem”

√Č chegado o Darwin Day 2021, a grande celebra√ß√£o internacional da biografia, publica√ß√Ķes e legado de Charles Robert Darwin. Hoje, dia 12/2/21, Darwin faz 212 anos. E daqui 12 dias seu livro ‚ÄúA Descend√™ncia do Homem e Sele√ß√£o em Rela√ß√£o ao Sexo‚ÄĚ (1871) completa 150 anos de publica√ß√£o, 12 anos depois do sesquicenten√°rio do ‚ÄúOrigem das esp√©cies‚ÄĚ. ¬†No ‚ÄúDescend√™ncia‚ÄĚ (12 letras), Darwin aborda as semelhan√ßas morfol√≥gicas, comportamentais e psicol√≥gicas entre humanos e n√£o-humanos como evid√™ncia da ancestralidade comum, e discute a import√Ęncia da sele√ß√£o sexual para a evolu√ß√£o de algumas caracter√≠sticas compartilhadas. Darwin deixa claro que as diferen√ßas que existem entre n√≥s e os outros animais s√£o de grau e n√£o de tipo, e que todos os humanos vieram de um ancestral comum africano. Trata-se ent√£o de um dia, um m√™s e um ano muito especiais para o evolucionismo, especialmente aplicado ao ser humano.

Nos √ļltimos 12 anos aqui no MARCO EVOLUTIVO, temos celebrado ininterruptamente o Dia de Darwin come√ßando em 2008, passando pelo Bicenten√°rio em 2009, e por 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, pela D√©cada de Darwin Days em 2018, 2019 e em 2020. Por conta da pandemia muitos eventos no Brasil e no mundo todo est√£o sendo realizados online, o que facilita muito a participa√ß√£o e a dissemina√ß√£o das ideias e do legado de Darwin. Ent√£o busque online por Darwin Day 2021 e aproveite. Veja a discuss√£o sobre Evolu√ß√£o Humana promovida pela Sociedade Brasileira de Gen√©tica.

No ‚ÄúDescend√™ncia‚ÄĚ Darwin ressalta que epidemias, assim como guerras, s√£o um importante fator de sele√ß√£o fazendo com que a popula√ß√£o humana n√£o realize todo seu potencial de multiplica√ß√£o. Seguindo esses primeiros passos de se abordar os surtos de doen√ßas evolutivamente, especialmente num livro sobre a evolu√ß√£o do corpo e do comportamento humano, alguns psic√≥logos evolucionistas contempor√Ęneos t√™m continuado essa linha durante a atual pandemia de COVID-19 causada pelo novo coronav√≠rus. Temas como as tend√™ncias evolu√≠das de se evitar cont√°gio por pat√≥genos, as respostas comportamentais e psicol√≥gicas a amea√ßas, coopera√ß√£o e cuidado em tempos de crise de sa√ļde, entre outros, est√£o sendo abordados te√≥rica e empiricamente no momento. Veja Seitz et al. (2020), Arnot et al., (2020), Dezecache et al. (2020), Troisi (2020), e Ackerman et al. (2020).

Um tema comum nessas novas publica√ß√Ķes √© o descompasso temporal evolutivo (evolutionary mismatch) entre o ambiente ancestral, para o qual boa parte das nossas tend√™ncias est√° adaptada, e o ambiente atual, que preserva cada vez menos semelhan√ßa com as condi√ß√Ķes ancestrais. Se o descompasso entre o ambiente de adapta√ß√£o evolutiva ancestral e o contexto moderno urbanizado, p√≥s-industrial e tecnol√≥gico pr√©-pandemia j√° era considerado pouco representativo do modo de vida ca√ßador coletor ancestral, levando a v√°rios problemas como o sedentarismo, obesidade, solid√£o e estresse cr√īnico, esse descompasso s√≥ aumentou durante a atual pandemia de COVID-19. A pandemia de COVID-19 est√° sendo referida como o grande descompasso evolutivo.

O conceito evolutivo do descompasso √© importante pois mostra que as adapta√ß√Ķes n√£o s√£o absolutas, mas sim relativas a um ambiente espec√≠fico. Quem conhece o tamanho do ambiente natural dos grandes felinos entende porque eles est√£o sempre andando para l√° e para c√° em seus recintos no zool√≥gico. Assim como os le√Ķes, os humanos tamb√©m v√£o tender a querer se comportar como se ainda estivessem em sua fam√≠lia estendida tribal rodeados de parentes e amigos, alta intera√ß√£o social di√°ria, alimenta√ß√£o comunal, deslocamento di√°rio e entretenimento em grupo ao redor da fogueira √† noite.

Ao longo dos anos fomos criando substitutos como a televis√£o, cinema, o telefone, internet, email, v√≠deo chamadas, realidade virtual, educa√ß√£o √† dist√Ęncia, esteira de corrida/caminhada, aplicativos de escolha de parceiros, pornografia, os document√°rios de natureza, etc. Mas, ainda assim, quanto mais perto do contexto original maior √© o apelo psicol√≥gico, como de reencontrar a fam√≠lia no restaurante ou os amigos na escola/universidade ou no bar √† noite, o futebol com os amigos no final de semana, a atividade f√≠sica na academia de gin√°stica, a socializa√ß√£o nos cultos religiosos, e as oportunidades de se encontrar novos parceiros sexuais nas boates e discotecas.

Porém, durante a pandemia essa resistência de se deixar a vida moderna mais virtual/online ainda, que é compreensível e prevista à luz dos descompassos evolutivos, está colocando a sociedade e a espécie inteira em perigo. São justamente a escola/universidade, o restaurante, o bar, a igreja, a academia, as boates e discotecas que estão sendo identificados como locais com eventos de super-espalhamento do novo coronavírus (suprespreading events) que poderiam ser evitados visto que os indivíduos oportunisticamente decidem se expor ao perigo.

Mais do que nunca teremos que utilizar e disseminar os vários substitutos virtuais  para manter os mínimos níveis de estimulação e atuação social, os quais ajudam a manter a sanidade corporal e mental (apesar de eles também levarem a alguns prejuízos). Então, nesse dia de Darwin é importante participar dos vários eventos online, e entender a problemática dos descompassos evolutivos para tentar ao máximo minimizar mortes evitáveis decorrente da irresponsabilidade epidemiológica de alguns poucos.

 

 

 

 

5 Anos de MARCO EVOLUTIVO e Feliz 2013

5 year cakeComeçamos esse feliz ano de 2013 já celebrando não UM, nem DOIS, TRÊS ou QUATRO mas sim os 5 anos que o MARCO EVOLUTIVO fez em novembro de 2012. Nosso science-canal online sobre Biologia, Evolução, sua História e Filosofia, e Comportamento Animal e Humano está com meia década de existência, e amadurecendo junto com você.
Agrade√ßo como sempre todos os coment√°rios, elogios e cr√≠ticas recebidos. Continuem sempre acessando e compartilhando links do blog com os amigos. Aqui ao lado esquerdo ¬†do post temos v√°rias op√ß√Ķes para curtir e compartilhar!

Tive um 2012 cheio de viagens pra congressos, pesquisas, orientação, palestras, minicursos e concursos, pricipalmente no segundo semestre o que tomaram todo o meu tempo para blogar. Fiquei noivo da Jaroslava Valentová, a Antropóloga Tcheca que é a mulher dos meus sonhos. Estou muito feliz que tudo está dando certo conosco e logo estaremos vivendo juntos.

Estive tamb√©m trabalhando com rep√≥rter de Ci√™ncia e Sa√ļde na Folha de S.Paulo. Gostaria de agradecer ao Reinaldo Jos√© Lopes e toda a equipe da reda√ß√£o por essa fant√°stica experi√™ncia profissional em jornalismo cient√≠fico. Para acessar todos os textos que publiquei pela Folha √© s√≥ clicar AQUI.

Fora isso participei do Boteco Behaviorista #4: “Biologia, Evolu√ß√£o e Comportamento”¬†a convite do Felipe Epaminondas. Clique para assistir ao hangout coletivo inteiro gravado no dia 2 de setembro.

De janeiro de 2012 at√© janeiro de 2013 o MARCO EVOLUTIVO teve quase 27 mil visitas. Tivemos mais de 24 mil visitas no Brasil e 1.200 de Portugal. As outras visitas foram de EUA, Angola, Reino Unido,¬†Mo√ßanbique, Espanha, M√©xico, Rep√ļblica Tcheca, Alemanha, Fran√ßa, Irlanda, Col√īmbia, Cabo Verde, Canad√°, It√°lia, Chile, Su√≠√ßa, Eslov√°quia, Argentina, Venezuela, Jap√£o, Peru, B√©lgica, Bol√≠via, Equador, Holanda, todos com 10 ou mais visitas.¬†

Cesar Ades e Marco

As palavras mais usadas antes de encontrar o MARCO EVOLUTIVO foram: ‚ÄúBiologia‚ÄĚ, ‚ÄĚSomos dominados por genes ou mal-entendidos‚ÄĚ, ‚ÄúLamarck‚ÄĚ, ‚ÄúPsicologia Evolucionista‚ÄĚ, ‚ÄúBiosseguran√ßa‚ÄĚ , ‚ÄúRevolu√ß√£o gen√īmica‚ÄĚ ‚ÄúSteven Pinker‚ÄĚ, ‚ÄúDarwin‚ÄĚ, ‚ÄúSele√ß√£o Sexual‚ÄĚ e ‚ÄúMarco Evolutivo‚ÄĚ.

Os 5 posts mais lidos de 2012 foram: 1-‚ÄúDicas de Livros em Psicologia Evolucionista‚ÄĚ, 2- 2009 o ‚ÄúANO DA BIOLOGIA‚ÄĚ, 3-“Lamarck ‚Äď A Verdadeira Id√©ia Errada”, 4-‚ÄúO sexo chimpanz√© e o conflito de gera√ß√Ķes‚ÄĚ, e 5- “Sele√ß√£o Sexual, de Parentesco, Natural, Artificial e Social”, que data de 2012. O destaque do ano passado foi o tr√°gico acidente que vitimou nosso querido C√©sar Ades, um dos pais da Etologia no Brasil e seu representante ilustre em todos os Dias de Darwin. “Ades Egypti e seu Entusiasmo Contagiante”. C√©sar Ades foi devidamente homenageado diversas vezes por sua obra e car√°ter. Todos seguimos em frente pesquisando e divulgando Etologia inspirados e contagianos pelo seu entusiasmo.

Nesse início de 2013 o MARCO EVOLUTIVO já conta com 246 seguidores pela Página no Facebook, três vezes mais do que tinham no começo do ano passado. E já estamos contando as horas para celebrar o Dia de Darwin depois de amanhã. Não percam.

Evolucionismo de Grande Alcance

Darwin anteviu que num futuro distante sua teoria iria transbordar do c√≠rculo da biologia e atingir outras esferas como a √°rea de Humanidades. A cada dia estamos mais perto de concretizar essa revolu√ß√£o Darwinista e perceber que o evolucionismo, por ser um tema transversal integrador, permeia todos os assuntos. Um bom exemplo disso √© o surgimento de uma revista online evolutivamente relevante chamada “Evolution:This View of Life Magazine”. Com o nome inspirado nas palavras de Darwin em que ao comentar sobre evolucionismo disse que h√° uma grandeza nessa vis√£o da vida.

Criada em outubro de 2011, a revista online gera e agrega conte√ļdo evolucionista relacionado √†s seguintes √°reas: Biologia, Palentologia, Cultura, Sa√ļde, Artes, Tecnologia, Religi√£o, Pol√≠tica, Mente, Economia e Educa√ß√£o. Mesmo com menos de um ano de exist√™ncia essa revista j√° √© um marco evolutivo na divulga√ß√£o do evolucionismo em todo seu alcance interdisciplinar. V√°rias entrevistas foram filmadas via internet com pesquisadores de cada uma dessas √°rea acima. A revista √© fruto de uma parceria do The Evolution Institute com o Cons√≥rcio EvoS, com financiamento da National Scince Fundation.

Por tr√°s da “Evolution:This View of Life Magazine” est√° David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton no EUA. Ele tem se esfor√ßado para expandir a influ√™ncia da evolu√ß√£o em diversas √°reas, como no ensino superior com o EvoS, nas pol√≠ticas p√ļblicas com The Evolution Institute, nas cidades com o The Binghamton Neighborhood Project e na religi√£o com o Evolutionary Religious Institute. √Č claro que como ele √© fiel ao grupo dos selecionistas de grupo acaba usando a revista para se promover e promover sua √°rea. Atualmente ela √© o palco para discuss√Ķes acad√™micas sobre o novo livro do Edward Wilson e a relev√Ęncia da sele√ß√£o de grupo. Felizmente cada uma das 11 √°reas acima tem seu editor pr√≥prio o que garante uma certa pluralidade para¬†a revista.

O surgimento da revista é mais inspirador. Um aluno da pós-graduação o EvoS na Universidade de Binghamton, chamado Robert Kadar, inspirado e motivado pelas leituras do Conciliência do Edward O. Wilson e do Evolution for Everyone do David S. Wilson vislumbrou a idéia dessa revista para catalizar a conciliência entre todas as áreas do conhecimento por meio do evolucionismo para todos.

Assim como a Evolution:This View of Life Magazine surgiu, uma nova geração de estudantes, vários biólogos, psicólogos e outros estão começando blogs de ciência engrossando o caldo da divulgação científica e evolucionista brasileira. Temos muito o que fazer num país com maioria religiosa e de pouca instrução. Ajude você também a promover a conciliação das áreas do saber.

Homenagem ao César Ades amanhã no CRP 06

Nosso querido C√©sar Ades receber√° uma homenagem p√≥stuma solene em cerim√īnia do Conselho Federal de Psicologia amanh√£ dia 27 de junho √†s 17h. Trata-se de um reconhecimento oficial para sua imensa contribui√ß√£o para o desenvolvimento da profiss√£o de Psic√≥logo no Brasil, passado, presente e futuro. Na ocasi√£o, o presidente do CFP, Humberto Verona, inaugurar√° uma placa em mem√≥ria aos servi√ßos prestados por C√©sar Ades √† Psicologia Brasileira.

A cerim√īnia ocorrer√° no audit√≥rio do Conselho Regional de Psicologia da 6¬™ Regi√£o (CRP 06), em Pinheiros, S√£o Paulo. (veja o mapa abaixo). Toda a solenidade ser√° transmitida ao vivo pelo site do CFP e em espa√ßos de proje√ß√£o disponibilizados nos Conselhos Regionais de Psicologia de todo pa√≠s e em salas de aula de cursos de Psicologia que aderirem √† atividade.
Durante a homenagem, e como parte das atividades de comemoração dos 50 anos de regulamentação nacional da Psicologia, o CFP lançará o

“Pr√™mio Monogr√°fico C√©sar Ades: Desafios para o futuro da Psicologia”. O pr√™mio visa estimular nos estudantes e profissionais da √°rea uma reflex√£o acerca do futuro da profiss√£o.

Os textos acad√™micos inscritos para concorrer ao pr√™mio, tanto na modalidade psic√≥logo como a de estudante, dever√£o estar dentro de tr√™s subtemas: As Pol√≠ticas P√ļblicas e o Futuro da Psicologia; Contribui√ß√Ķes da Psicologia na Constru√ß√£o do Conhecimento no S√©culo XXI; e A Psicologia Latino-Americana: Desafios e Possibilidades. Mais informa√ß√Ķes sobre o Pr√™mio Monogr√°fico C√©sar Ades e inscri√ß√Ķes poder√£o ser acessadas em: http://premiocesarades.cfp.org.br

Exibir mapa ampliado

Ades Egypti e seu Entusiasmo Contagiante

Era impossível ficar ao lado de nosso querido César Ades, que nasceu no Cairo, Egito, e não ser levado por seu entusiasmo contagiante. Conheci o César em 2003 no XX Enconto anual de Etologia (EAE) em Natal, em meu terceiro ano de graduação eu ainda não havia encontrado minha área de pesquisa. Lá depois de uma brilhante palestra sobre todos os EAEs anteriores eu estava mais do que cativado pela Etologia, principalmente voltada para os humanos. Ele autografou meu livro de resumo e me desejou um futuro brilhante.

Em meu √ļltimo ano de gradua√ß√£o fiz um trabalho sobre a consci√™ncia animal e se n√£o fosse um texto do C√©sar ter me tocado e me motivado n√£o teria tirado da nota m√°xima.

Em 2004, ao final de meu bacharelado na Unesp de Bauru com Sandro Caramaschi, ex-aluno do Prof. César, fui conversar com ele para estudar possibilidade de um mestrado. Eu estava super nervoso, mas ele me deixou bem a vontade e no decorrer da conversa percebemos que estávamos em sentidos contrários: ele era um psicólogo mais voltado para o comportamento dos outros animais e eu um biólogo interessado no ser humano. Então, ele me indicou a Profa Vera Bussab que acabou sendo minha orientadora de mestrado e de doutorado no Bloco F do IP-USP, inaugurado pelo César enquanto diretor do Instituto anos antes.

Sua disciplina de p√≥s sobre Comunica√ß√£o Animal me forneceu bases s√≥lidas para um estudo comparativo da musicalidade humana. Cada aula com ele era uma maravilha, ambiente descontra√≠do, informa√ß√Ķes precisas e conex√Ķes muito bem elaboradas.

Fora as belas homenagens oficiais a ele realizadas pelo Instituto de Psicologia da USP, muitas palavras relevantes e tocantes foram colocadas aqui na nossa Série Especial do ScienceBlogs Brasil em homenagem ao César, o Grande ao meu ver.

Eu (depois de ficar uma semana e meia fora do ar devido a uma fratura e cirurgia no braço dois dias após seu falecimento) gostaria de acrescentar algo que julgo muito louvável sobre ele. César Ades era tão entusiasmado e curioso por conhecimento que ele não conseguia se conter em apenas dar aulas, fazer pesquisas, publicar, orientar, ter cargos administrativos, organizar eventos, ele também fazia e valorizava a divulgação científica.

Ao ser esse acad√™mico generalista digno de um Da Vinci moderno, a divulga√ß√£o cient√≠fica n√£o poderia passar em branco. Ele deu diversas entrevistas tais como a brilhante ‚ÄėPsicologia e Biologia ‚Äď Entrevista com C√©sar Ades‚Äô, e a ‚ÄėEntrevista: C√©sar Ades estuda a evolu√ß√£o do comportamento animal‚Äô. Escreveu e deu v√°rias contribui√ß√Ķes para a Ci√™ncia Hoje Crian√ßa como explicando a import√Ęncia da limpeza nos animais em ‚ÄėT√° limpo!‚Äô. Ele deu v√°rias palestras e tamb√©m participou de v√°rias comemora√ß√Ķes do Dia de Darwin. Esse ano, C√©sar compareceu ao Catavento Cultural para participar de um talk show com o Prof N√©lio Bizzo. Como sempre tudo bem descontra√≠do e informativo. Ele sempre frisava na import√Ęncia de Darwin enquanto o primeiro psic√≥logo evolucionista. Sua import√Ęncia como divulgador √© crucial e assim como todas suas outras caracter√≠sticas ir√° continuar inspirando gera√ß√Ķes de pesquisadores e admiradores.

Uma de suas mais atuais metas era a de reunir etólogos eminentes da América Latina para um simpósio debatendo origens, desafios e perspectivas futuras da área, de modo a gerar um livro em conjunto sobre as experiências em cada país e a semente de uma aliança Latino-Americana de Etologia. Reuniremos esforços para realizar essa grande ideia junto a alunos e profs.

Um dos mais tocantes comentários sobre o César pra mim foi o do Prof. Fernando Ribeiro quando queria destacar uma virtude dele.

“Quem o v√™ hoje, e encanta-se com seu entusiasmo, conhece o mesmo C√©sar Ades de 40 anos atr√°s. E foi esse entusiasmo que escolhi, a fim de destacar uma de suas virtudes, ao cumpriment√°-lo, na ocasi√£o de sua indica√ß√£o para o Instituto de Estudos Avan√ßados, quando disse a ele: Fui percorrendo suas marcas, a intelig√™ncia, a erudi√ß√£o, o car√°ter… mas como me impus uma escolha, fiquei com o entusiasmo, sem o qual a intelig√™ncia n√£o se acende, a erudi√ß√£o n√£o se atinge, o car√°ter n√£o se transmite. Sim, porque C√©sar Ades √©, e sempre foi, um professor. Sua extrovers√£o e a expressividade com que se comunica constituem sua face vis√≠vel”

Fique agora com os dois vídeos de uma entrevista de César Ades concedida ao programa Trajetória da TV USP em 2011 e com o vídeo mais recente do César Ades no Dia de Darwin. Assim um pouco dele e seu entusiasmo sempre viverá em nós de modo a podermos contagiar toda uma outra geração com suas idéias e atitudes.

Dia de Darwin 2012

Quatro Anos de MARCO EVOLUTIVO e Feliz 2012

Feliz 2012 a todos nós primatas e a todos os outros seres vivos. Começamos o ano já comemorando não UM, nem DOIS, nem TRÊS, mas sim QUATRO anos (e dois meses) de MARCO EVOLUTIVO, o seu, o meu, o nosso canal online sobre evolução e comportamento humano e todos os temas correlatos, de preservação ambiental a eventos e palestras.

Depois de um 2011 conturbado com a defesa do meu doutorado e de final de ano intenso, cheio de pesquisas e viagens, estou começando esse 2012 com muita energia e grandes perspectivas futuras. Agradeço todos os comentários, elogios e críticas ao blog, tanto de novos leitores quanto dos de longa data. Continuem acessando e compartilhando com os amigos.

Os 5 textos mais lidos em 2011 foram: 1- “O sexo chimpanz√© e o conflito de gera√ß√Ķes“, 2- “Dicas de Livros em Psicologia Evolucionista“, 3- “Coevolu√ß√£o e Sele√ß√£o Sexual no Caso da Vespa Tarada“, 4- “Lamarck – A Verdadeira Id√©ia Errada“, 5- “Criatividade: nossa cauda de pav√£o mental“. O posts de 2011 mais lidos foram “A beleza da competi√ß√£o feminina“, “Dance seu doutorado” e “Diferen√ßas sexuais e o darwinismo“.

De janeiro de 2011 at√© janeiro de 2012 o blog teve quase 22 mil visitas. Tivemos 20 mil visitas no Brasil e 1.000 de Portugal. As outras visitas foram de EUA, Canad√°, Mo√ßanbique,¬†Reino Unido, Espanha,¬†Angola, ¬†Fran√ßa,¬†Jap√£o, Gr√©cia, Argentina, Pol√īnia, It√°lia, Chile, Paraguai, Col√īmbia, Cabo Verde, Peru, Su√≠√ßa, Alemanha.¬†As palavras mais usadas antes de encontrar o¬†MARCO EVOLUTIVO¬†foram: ‚ÄúLamarck‚ÄĚ, ¬†“Marco Evolutivo”, ‚ÄúPsicologia Evolucionista‚ÄĚ, “Steven Pinker”,¬†“Coevolu√ß√£o”, ‚ÄúAntropocentrismo‚ÄĚ, e ‚ÄúSele√ß√£o Sexual‚ÄĚ.

De cara nova desde setembro do ano passado, o MARCO EVOLUTIVO evoluíu bastente na sua aparência e possibilidades em 2011. O destaque foi para a imagem do cérebro humano e da árvore evolutiva da interdisciplinaridade. Agora, além de já ter 84 seguidores na nova página criada no Facebook, conta também com os links para minha dissertação de mestrado e para minha tese de doutorado. Assim todos que tiverem o interesse poderão baixar cada uma e se aprofundar nos temas das diferenças individuais quando ao sexo casual e na evolução das nas nossas capacidades musicais e artísticas através da seleção sexual.

E para o presente evolutivo desse anivers√°rio veremos a palestra de David Sloan Wilson sobre Evolution for Everyone! Aproveitem!

3¬ļ Simp√≥sio em Psicobiologia na UFRN

Como os neur√īnios d√£o sentido musical √†s vibra√ß√Ķes de ar que chegam aos nossos ouvidos? Como evoluiu a vis√£o em cores em n√≥s primatas? Porque achamos beb√™s t√£o cuti-cuti? Como pode a ecologia comportamental ajudar na conserva√ß√£o? Como o c√©rebro mede o tempo ou como cria a realidade? Como o medo e a mem√≥ria se organizam no c√©rebro?
Estas, outras perguntas e todas a respostas voc√™s encontrar√£o no 3¬ļ Simp√≥sio em Psicobiologia, C√©rebro: desafios sem fronteira de 24 a 26 de novembro em Natal. Organizado pela p√≥s-gradua√ß√£o em Psicobiologia da UFRN a terceira edi√ß√£o do evento conta com palestras, minicursos e apresenta√ß√£o de trabalhos.
Já estão abertas para a submissão de resumos que vai de 10 de outubro a 11 de novembro. O processo de submissão é todo online e cada autor pode submeter até 3 trabalhos.
As palestras s√£o dadas ao longo dos tr√™s dias de evento tanto por alunos do pr√≥prio programa, quanto de professores convidados vindos de outras universidades. Ser√£o 9 os minicursos apresentando temas variados, desde cogni√ß√£o em peixes at√© modelos farmacol√≥gicos no estudo da doen√ßa de Parkinson. As inscri√ß√Ķes s√£o bem acess√≠veis para estudantes e profissionais. Tudo isso fora as maravilhas das paisagens e praias de Natal. Compare√ßam.

Minha Defesa de Doutorado

 

Sei que muitos leitores est√£o aflitos com a falta de post dos √ļltimos s√©culos aqui no MARCO EVOLUTIVO. Pois √© logo isso vai mudar. Porque um evento √ļnico e evolutivo est√° por vir: minha defesa de doutorado.
Para aqueles que não sabem, depois de 4 anos (em média) de estudo da graduação ao se formar em uma universidade alguns percebem que gostam de fazer pesquisa, então fazem o mestrado que dura 2 anos (em média). Daí, alguns poucos decidem continuar a fazer ciência e entram no doutorado.
Muitos pensam que qualquer pol√≠tico ou algu√©m apenas formado em direito ou medicina √© doutor!! N√£o, doutor √© quem recebe o diploma de doutorado ap√≥s cumprir cr√©ditos assistindo aulas de p√≥s e pesquisar 4 anos (em m√©dia) algo in√©dito, qualificar para defender e defender¬†a tese. Tudo isso matriculado em um programa de p√≥s-gradua√ß√£o reconhecido pelo MEC. √Č como se fosse fazer uma nova gradua√ß√£o num tema s√≥. Imagine um trabalho de final de
 semestre que demore 8 vezes mais para ser feito e escrito, essa é a tese.
Assim como o uso popular do termo Teoria é diferente do uso científico, o termo tese não se refere a um palpite ou opinião, mas sim ao mais profundo trabalho de investigação científica, seja no aspecto teórico quanto metodológico. Claro que no final tem-se um texto do tamanho de um livro.
Meu doutorado, assim como o mestrado, foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da USP. Devo muito à minha orientadora, Vera Bussab, a mesma no mestrado e no doutorado, por todos esses anos juntos, ela sabe. Aprendi muito com ela.

Minha tese é intitulada
“Evolu√ß√£o da Musicalidade Humana: Sele√ß√£o Sexual e Coes√£o de Grupo”.

 

Nela abordo e testo algumas explica√ß√Ķes adaptativas para a exist√™ncia das propens√Ķes musicais e art√≠sticas em nossa esp√©cie.
A defesa √© um momento p√ļblico em que o doutorando apresenta em meia hora o resumo da tese e uma banca de 5 doutores, dois internos aos programa da p√≥s, 2 externos ao programa e o orientador fazem sua argui√ß√£o, que inclui cr√≠ticas, elogios, corre√ß√Ķes, coment√°rios, coloca√ß√Ķes e sugest√Ķes futuras.
Se você se interessa pelo tema venha assistir minha defesa dia 25/08, na próxima quinta feira, às 14 horas na sala 36 do bloco F no Instituto de Psicologia da USP da São Paulo, Cidade Universitária.

Jay Belsky e a Teoria Evolucionista da Socialização

jay-belsky.jpg

Continuando nossa s√©rie de palestras internacionais em Psicologia Evolucionista e Biologia Evolutiva veremos hoje o psic√≥logo do desenvolvimento Jay Belsky falando sobre a aplica√ß√£o do evolucionismo ao desenvolvimento das estrat√©gias reprodutivas. Professor na Birkbeck Univeristy of London, Belsky est√° preparado para a celebra√ß√£o esse ano dos 20 anos sua revitalizada Teoria Evolucionista da Socializa√ß√£o de 1991.
Gravada em outubro de 2010, sua palestra no ciclo de semin√°rio do EvoS da Birghamtom Univesity come√ßa com a constata√ß√£o dele que muitos dos psic√≥logos do desenvolvimento negligenciam a import√Ęncia da Evolu√ß√£o para o desenvolvimento. Ele conta a hist√≥ria de sua teoria, como foi inspirado por estudos sobre a influ√™ncia da aus√™ncia paterna nas estrat√©gias sexuais, e como a princ√≠pio relutou em abandonar teorias cl√°ssicas sobre o tema. Ele frisa que o suporte comparativo de diferentes esp√©cies e o poder de gerar novas predi√ß√Ķes o convenceram da relev√Ęncia do evolucionismo para as teorias de desenvolvimento e matura√ß√£o.

Chimpanzee-comforting-a-crying-child-John-Drysdale-200434.jpg

Segundo a Teoria Evolucionista da Socializa√ß√£o, ambientes estressantes com escassez de recursos e suporte emocional na inf√Ęncia acelerariam a puberdade e induziriam a estilos de apego inseguros e uma estrat√©gia sexual de curto prazo – muito relacionamentos curtos sem muito la√ßo afetivo. Enquanto um ambiente infantil pouco estressante levaria a estilos de apego seguros e estrat√©gias sexuais de longo prazo. 
Ele apresenta todos seus e outros artigos mais importantes para o suporte de sua teoria, e com uma explica√ß√£o rica em met√°foras mostra o porqu√™ os resultados fazem sentido. Ao final ele mostra como tem lidado com cr√≠ticas e como atualizou sua teoria. A mais contundente √© a possibilidade de influ√™ncia gen√©tica determinar mais a estrat√©gias sexuais futuras do que o ambiente infantil. Estranhamente ele n√£o cita o estudo de g√™meos que mostrou que esse parecer ser o caso e nem o estudo intercultural que mostrou que a necessidade de cuidado biparental do ambiente atual √© mais determinante das estrat√©gias sexuais do que o ambiente infantil. Pelo menos ele j√° incorporou a possibilidade da exist√™ncia de uma mistura de estrat√©gias alternativas (gen√©ticas) e condicionais (abertas a influ√™ncias ambientais relevantes) nos determinantes das diferencias individuais quanto √† matura√ß√£o. E agora frisa a varia√ß√£o gen√©tica √† suscetibilidade a essa influencia ambiental na inf√Ęncia.
Childhood Experience and Development of Reproductive Strategies: An Evolutionary Theory of Socialisation Revisited. Uma palestra de uma hora, da hora, interessante e pertinente para muitas linhas de pesquisa no país. Aproveitem.

Jay Belsky – Childhood Experience and Development of Reproductive Strategies: An Evolutionary Theory of Socialisation Revisited from EvoS on Vimeo.