6 anos de MARCO EVOLUTIVO e Feliz 2014

cupcake-6-candle-Feliz 2014 a todos seguidores, leitores e fãs do MARCO EVOLUTIVO! Iniciamos esse ano novo comemorando o singelo fato de que em novembro de 2013 completamos não UM, nem DOIS, TRÊS, QUATRO ou CINCO, mas sim 6 anos de existência. Agradeço muito todos os comentários, elogios e críticas recebidos e também aos mais de cem novos seguidores no Facebook que tivemos no ano passado, já estamos com 368. Continuem sempre acessando e compartilhando links do blog com os amigos.

Em 2013, grandes acontecimento acabaram freando um pouco a escrita no blog. O ano passado foi meu primeiro ano completo como professor universitário, então tive bastante trabalho, ministrei muitas aulas e por isso estou muito realizado. Estou desde abril como professor substituto no Departamento de Processos Psicológicos Básicos do Instituto de Psicologia da UnB e venho ministrando a disciplina de Introdução a Psicologia para graduandos dos mais variados cursos. Estou gostando muito da UnB e de morar em Brasília.

darwin_loveNo ano passado tamb√©m me casei com a mulher da minha vida, a Jaroslava Varella Valentova, Antrop√≥loga Tcheca. Estamos muito felizes e realizados morando juntos, alternando entre a vida no Brasil e na Rep√ļblica Tcheca. Enfrentamos o desafio de desenvolver uma cerim√īnia matrimonial humanista evolutivamente relevante com conte√ļdos de Psicologia, Biologia e Antropologia que ficou bem interessante e agradou a todos. Afinal, a ci√™ncia tem muito a dizer sobre o amor e as parcerias rom√Ęnticas.

fighting-irish-in-every-cultureMesmo com apenas 5 postagens, de janeiro de 2013 at√© janeiro de 2014 o MARCO EVOLUTIVO quase 15 mil visitas. Tivemos mais de 12 mil visitas no Brasil, 682 de Portugal e 534 dos EUA. As outras visitas foram de Angola, Mo√ßanbique, Reino Unido, √ćndia, M√©xico, Espanha, Fran√ßa, Rep√ļblica Tcheca, Canad√°, Alemanha, Cabo Verde, Jap√£o, Filipinas, Col√īmbia, Irlanda, Argentina, Chile, Su√≠√ßa e Equador, todos com 10 ou mais visitas.

WallaceEbookGutenberg.org

Os 5 posts mais lidos de 2013 foram: 1-‚ÄúLamarck ‚Äď A Verdadeira Id√©ia Errada‚ÄĚ, 2-‚ÄúO sexo chimpanz√© e o conflito de gera√ß√Ķes‚ÄĚ, 3- ‚ÄúDicas de Livros em Psicologia Evolucionista‚ÄĚ, 4-‚ÄúSele√ß√£o Sexual, de Parentesco, Natural, Artificial e Social‚ÄĚ, e 5-‚ÄúFestival de V√≠deos: Evolu√ß√£o da Sexualidade Humana I‚ÄĚ.¬†O destaque do ano passado foi a comemora√ß√£o dos Cem anos Sem Alfred Russel Wallace, quando celebramos a vida e a obra desse evolucionista esquecido por muitos.

index-tinbergen 4 questionsO presente evolutivo desse come√ßo de ano vem tamb√©m em forma de celebra√ß√£o. Em 2013, fez 50 anos da famosa publica√ß√£o de Nikolaas Tinbergen Sobre os Objetivos e M√©todos da Etologia, onde ele descreve as famosas Quarto Quest√Ķes de Tinbergen para o estudo do comportamento animal.
Tinbergen's legacyEnt√£o a√≠ vai um n√ļmero especial do Human Ethology Bulletin inteiro em homenagem ao meio s√©culo do paper On Aims and Methods do Tinbergen, que est√° bem interessante.
E aí vai ainda um artigo também em comemoração às 4 perguntas de Tinbergen que faz um retrospecto e atualização interessantes.
Fiquem com o v√≠deo do CrashCourse Biology sobre comportamento animal onde as quatro quest√Ķes s√£o abordadas de forma descontraida.

Parabéns Mendel pelos 190 anos e pelo legado!

Hoje, dia 20 de junho, estamos comemoramos os 190 anos de Gregor Johann Mendel, considerado pai da genética, mas com uma vida bem longe de uma celebridade. O Pai da Genética é famoso, mas pouco conhecido.

Ent√£o nossa intr√©pida equipe de jornalistas do MARCO EVOLUTIVO viajou at√© o Mendel Museum no seu Mosteiro Agostiniano em Brno, na Rep√ļblica Tcheca, para trazer a voc√™, em primeira m√£o, mais do que sopa de letrinha sabor ervilha.

Muitos acham que ele nasceu em dia 22 de julho de 1822, mas esse foi o dia em que foi batizado. Muitos acham que ele nasceu na √Āustria, mas sua cidade de nascen√ßa e seu mosteiro est√£o na Rep√ļblica Tcheca, que √© considerada o Ber√ßo da Gen√©tica. Naquele √©poca, a atual Hynńćice, cidade natal, era Heizendorf, a atual Brno era Br√ľnn, e a atual regi√£o da Rep√ļblica Tcheca era parte do Imp√©rio Austro-H√ļngaro e a l√≠ngua oficial era o alem√£o.

Filho de dona Rosina e seu Anton Mendel, humildes camponeses, Johann Mendel sempre gostou de estudar. At√© antes de completar 18 anos ele j√° ganhava a vida dando aulas particulares para outros alunos. Depois estudou Matem√°tica, F√≠sica, Filologia, Filosofia pr√°tica e te√≥rica, e √Čtica no Instituto de Filosofia de Olomouc, tamb√©m Rep. Tcheca. Aos 21 anos seguiu os estudos ao ingressar no Mosteiro Agostiniano em Brno, onde incorporou o primeiro nome, Gregor.

No Monsat√©rio teve mestres que o incentivaram muito nos estudos, o Abade Cyril FrantiŇ°ek Napp foi um deles. Ele foi quem construiu a avan√ßada estufa pra √©poca, com 30 metros por 6 de largura, que ofereceu as condi√ß√Ķes excelentes para os experimentos de Mendel.

Aos 24 anos concluiu um curso de estudos agr√≠colas de frutas e vinicultura no Instituto Filos√≥fico em Brno. Aos 29 anos o Abade Napp mandou e bancou os estudos de Mendel na Universidade de Viena, na √Āustria. L√° ele estudou mais F√≠sica, Matem√°tica e Hist√≥ria Natural e teve aulas como F√≠sica Experimental, Anatomia e Fisiologia de Plantas e aulas pr√°ticas de utiliza√ß√£o do microsc√≥pio.

Aos 32 anos com a estufa acabada de construir, Mendel colocou na pr√°tica seus conhecimentos ao estudar plantas, como feij√Ķes, chic√≥ria, plantas frut√≠feras, uva e principalmente ervilhas, nas quais descobriu as famosas Leis de Mendel. Ele tamb√©m criou camundongos e abelhas, desenvolveu seu pr√≥prio tipo de api√°rio e ainda criou uma linhagem de abelha que se mostrou muito agressiva e teve que ser eliminada. Ele tamb√©m sabia muito de astronomia e tamb√©m de metereologia.

Dos 32 aos 42, trabalhou em seus cuidadosos experimentos com ervilhas (Pisum sativum). Aos 40 Mendel leu uma tradu√ß√£o em alem√£o do ‚ÄėOrigem da Esp√©cies‚Äô de Darwin sublinhou e anotou em v√°rias partes da obra. Ajudou a criar a Sociedade Austr√≠aca de Meteorologia e foi co-fundador da Sociedade de Ci√™ncia Natural de Brno.

Aos 63 anos, 1865 apresentou o seu trabalho experimental em ervilhas em uma palestra intitulada “Experimentos sobre a hibridiza√ß√£o de plantas” nas reuni√Ķes de fevereiro e mar√ßo da Sociedade de Ci√™ncia Natural de Brno. Em 1866, Mendel publicou no jornal da Sociedade de de Ci√™ncia Natural de Brno sua palestra, o trabalho que fazer dele o Pai da Gen√©tica. Ele distribuiu c√≥pias de seu manuscrito para v√°rios cientistas, que foi ignorado por todos. Apesar de ter sido considerado sempre um √≥timo professor, ele fracassou duas vezes em concurso para ser professor da Universidade de Viena.

Mendel percebeu que n√£o herdamos as caracter√≠sticas f√≠sicas (hoje o fen√≥tipo), mas sim os elementos, fatores particulados (hoje chamados de genes). E sua genialidade foi perceber esses fatores heredit√°rios trabalham aos pares, nos gametas eles est√£o separados e na fertiliza√ß√£o eles se unem em novas combina√ß√Ķes. Apartir da√≠ foi f√°cil perceber que alguns fatores dominavam outros ao gerarem as caracter√≠sticas f√≠sicas abrindo caminha para a gen√©tica moderna. Suas descobertas pioneiras foram ignoradas at√© o come√ßo do seculo XX depois de sua morte em 1884 quando ficou consagrado.

√Č claro que assim que redescobertas muitos acharam contradit√≥rias as id√©ias de heran√ßa particulada com a fluidez gradual da varia√ß√£o populacional necess√°ria para o primeiro passo da Sele√ß√£o Natural. Os mutacionistas iniciais n√£o era Darwinistas por mais que fossem Evolucionistas. O pr√≥prio Darwin por ter abandonado o pensamento essencialista e valoriza√ß√£o a varia√ß√£o individual acabou criando uma teoria de heran√ßa baseada na mistura de caracter√≠sticas, algo que para ele faria mais sentido com sua teoria.

Somente na d√©cada de 1940 que com o surgimento da Gen√©tica de Popula√ß√Ķes pode haver concilia√ß√Ķes entre os geneticistas e os darwinistas. Eles concordaram que a evolu√ß√£o √© gradual, que o principal motor da evolu√ß√£o √© a sele√ß√£o natural, que a hereditariedade √© ‚Äúdura‚ÄĚ ou seja particulada, que o mesmo tipo de mecanismos gen√©ticos √© respons√°vel pela varia√ß√£o fenot√≠pica continua e discreta, que a macroevolu√ß√£o √© a acumula√ß√£o dos processos microevolutivos e a especia√ß√£o √© um processo de gen√©tica de popula√ß√Ķes.

Mendel morreu em 6 de janeiro 1884. Depois de uma vida posterior muito ocupada com a administra√ß√£o do monast√©rio. Ele foi enterrado tr√™s dias depois, no Cemit√©rio Central, em Brno. Em um obitu√°rio da Sociedade para a Promo√ß√£o da Natureza, Agricultura e Geografia de 1884, n ¬ļ 1 foi lido: “Suas experi√™ncias com h√≠bridos de plantas abriu uma nova era.” Hoje, sabemos que ele realmente inaugurou toda uma gama possibilidades para explicar muitos fen√īmenos heredit√°rios (h√≠bridos, mutantes, clones, varia√ß√£o, efeitos ambientais no genoma, etc) e para o desenvolvimento de v√°rias tecnologias de analise do DNA, como para solucionar crimes, por exemplo. Homenagem mais que merecida.

No mundo todo est√£o sendo celebradas suas realiza√ß√Ķes pioneiras para entendermos as quest√Ķes fundamentais da hereditariedade. Pelo menos de tr√™s ganhadores do Pr√™mio Nobel v√£o dar palestras no Museu de Mendel mantido pela Universidade de Masaryk em Brno. Acesse o site das celebra√ß√Ķes e fa√ßam a visita online ao Museu do Mendel.

Evolucionismo de Grande Alcance

Darwin anteviu que num futuro distante sua teoria iria transbordar do c√≠rculo da biologia e atingir outras esferas como a √°rea de Humanidades. A cada dia estamos mais perto de concretizar essa revolu√ß√£o Darwinista e perceber que o evolucionismo, por ser um tema transversal integrador, permeia todos os assuntos. Um bom exemplo disso √© o surgimento de uma revista online evolutivamente relevante chamada “Evolution:This View of Life Magazine”. Com o nome inspirado nas palavras de Darwin em que ao comentar sobre evolucionismo disse que h√° uma grandeza nessa vis√£o da vida.

Criada em outubro de 2011, a revista online gera e agrega conte√ļdo evolucionista relacionado √†s seguintes √°reas: Biologia, Palentologia, Cultura, Sa√ļde, Artes, Tecnologia, Religi√£o, Pol√≠tica, Mente, Economia e Educa√ß√£o. Mesmo com menos de um ano de exist√™ncia essa revista j√° √© um marco evolutivo na divulga√ß√£o do evolucionismo em todo seu alcance interdisciplinar. V√°rias entrevistas foram filmadas via internet com pesquisadores de cada uma dessas √°rea acima. A revista √© fruto de uma parceria do The Evolution Institute com o Cons√≥rcio EvoS, com financiamento da National Scince Fundation.

Por tr√°s da “Evolution:This View of Life Magazine” est√° David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton no EUA. Ele tem se esfor√ßado para expandir a influ√™ncia da evolu√ß√£o em diversas √°reas, como no ensino superior com o EvoS, nas pol√≠ticas p√ļblicas com The Evolution Institute, nas cidades com o The Binghamton Neighborhood Project e na religi√£o com o Evolutionary Religious Institute. √Č claro que como ele √© fiel ao grupo dos selecionistas de grupo acaba usando a revista para se promover e promover sua √°rea. Atualmente ela √© o palco para discuss√Ķes acad√™micas sobre o novo livro do Edward Wilson e a relev√Ęncia da sele√ß√£o de grupo. Felizmente cada uma das 11 √°reas acima tem seu editor pr√≥prio o que garante uma certa pluralidade para¬†a revista.

O surgimento da revista é mais inspirador. Um aluno da pós-graduação o EvoS na Universidade de Binghamton, chamado Robert Kadar, inspirado e motivado pelas leituras do Conciliência do Edward O. Wilson e do Evolution for Everyone do David S. Wilson vislumbrou a idéia dessa revista para catalizar a conciliência entre todas as áreas do conhecimento por meio do evolucionismo para todos.

Assim como a Evolution:This View of Life Magazine surgiu, uma nova geração de estudantes, vários biólogos, psicólogos e outros estão começando blogs de ciência engrossando o caldo da divulgação científica e evolucionista brasileira. Temos muito o que fazer num país com maioria religiosa e de pouca instrução. Ajude você também a promover a conciliação das áreas do saber.

Ades Egypti e seu Entusiasmo Contagiante

Era impossível ficar ao lado de nosso querido César Ades, que nasceu no Cairo, Egito, e não ser levado por seu entusiasmo contagiante. Conheci o César em 2003 no XX Enconto anual de Etologia (EAE) em Natal, em meu terceiro ano de graduação eu ainda não havia encontrado minha área de pesquisa. Lá depois de uma brilhante palestra sobre todos os EAEs anteriores eu estava mais do que cativado pela Etologia, principalmente voltada para os humanos. Ele autografou meu livro de resumo e me desejou um futuro brilhante.

Em meu √ļltimo ano de gradua√ß√£o fiz um trabalho sobre a consci√™ncia animal e se n√£o fosse um texto do C√©sar ter me tocado e me motivado n√£o teria tirado da nota m√°xima.

Em 2004, ao final de meu bacharelado na Unesp de Bauru com Sandro Caramaschi, ex-aluno do Prof. César, fui conversar com ele para estudar possibilidade de um mestrado. Eu estava super nervoso, mas ele me deixou bem a vontade e no decorrer da conversa percebemos que estávamos em sentidos contrários: ele era um psicólogo mais voltado para o comportamento dos outros animais e eu um biólogo interessado no ser humano. Então, ele me indicou a Profa Vera Bussab que acabou sendo minha orientadora de mestrado e de doutorado no Bloco F do IP-USP, inaugurado pelo César enquanto diretor do Instituto anos antes.

Sua disciplina de p√≥s sobre Comunica√ß√£o Animal me forneceu bases s√≥lidas para um estudo comparativo da musicalidade humana. Cada aula com ele era uma maravilha, ambiente descontra√≠do, informa√ß√Ķes precisas e conex√Ķes muito bem elaboradas.

Fora as belas homenagens oficiais a ele realizadas pelo Instituto de Psicologia da USP, muitas palavras relevantes e tocantes foram colocadas aqui na nossa Série Especial do ScienceBlogs Brasil em homenagem ao César, o Grande ao meu ver.

Eu (depois de ficar uma semana e meia fora do ar devido a uma fratura e cirurgia no braço dois dias após seu falecimento) gostaria de acrescentar algo que julgo muito louvável sobre ele. César Ades era tão entusiasmado e curioso por conhecimento que ele não conseguia se conter em apenas dar aulas, fazer pesquisas, publicar, orientar, ter cargos administrativos, organizar eventos, ele também fazia e valorizava a divulgação científica.

Ao ser esse acad√™mico generalista digno de um Da Vinci moderno, a divulga√ß√£o cient√≠fica n√£o poderia passar em branco. Ele deu diversas entrevistas tais como a brilhante ‚ÄėPsicologia e Biologia ‚Äď Entrevista com C√©sar Ades‚Äô, e a ‚ÄėEntrevista: C√©sar Ades estuda a evolu√ß√£o do comportamento animal‚Äô. Escreveu e deu v√°rias contribui√ß√Ķes para a Ci√™ncia Hoje Crian√ßa como explicando a import√Ęncia da limpeza nos animais em ‚ÄėT√° limpo!‚Äô. Ele deu v√°rias palestras e tamb√©m participou de v√°rias comemora√ß√Ķes do Dia de Darwin. Esse ano, C√©sar compareceu ao Catavento Cultural para participar de um talk show com o Prof N√©lio Bizzo. Como sempre tudo bem descontra√≠do e informativo. Ele sempre frisava na import√Ęncia de Darwin enquanto o primeiro psic√≥logo evolucionista. Sua import√Ęncia como divulgador √© crucial e assim como todas suas outras caracter√≠sticas ir√° continuar inspirando gera√ß√Ķes de pesquisadores e admiradores.

Uma de suas mais atuais metas era a de reunir etólogos eminentes da América Latina para um simpósio debatendo origens, desafios e perspectivas futuras da área, de modo a gerar um livro em conjunto sobre as experiências em cada país e a semente de uma aliança Latino-Americana de Etologia. Reuniremos esforços para realizar essa grande ideia junto a alunos e profs.

Um dos mais tocantes comentários sobre o César pra mim foi o do Prof. Fernando Ribeiro quando queria destacar uma virtude dele.

“Quem o v√™ hoje, e encanta-se com seu entusiasmo, conhece o mesmo C√©sar Ades de 40 anos atr√°s. E foi esse entusiasmo que escolhi, a fim de destacar uma de suas virtudes, ao cumpriment√°-lo, na ocasi√£o de sua indica√ß√£o para o Instituto de Estudos Avan√ßados, quando disse a ele: Fui percorrendo suas marcas, a intelig√™ncia, a erudi√ß√£o, o car√°ter… mas como me impus uma escolha, fiquei com o entusiasmo, sem o qual a intelig√™ncia n√£o se acende, a erudi√ß√£o n√£o se atinge, o car√°ter n√£o se transmite. Sim, porque C√©sar Ades √©, e sempre foi, um professor. Sua extrovers√£o e a expressividade com que se comunica constituem sua face vis√≠vel”

Fique agora com os dois vídeos de uma entrevista de César Ades concedida ao programa Trajetória da TV USP em 2011 e com o vídeo mais recente do César Ades no Dia de Darwin. Assim um pouco dele e seu entusiasmo sempre viverá em nós de modo a podermos contagiar toda uma outra geração com suas idéias e atitudes.

Dia de Darwin 2012

Jay Belsky e a Teoria Evolucionista da Socialização

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Continuando nossa s√©rie de palestras internacionais em Psicologia Evolucionista e Biologia Evolutiva veremos hoje o psic√≥logo do desenvolvimento Jay Belsky falando sobre a aplica√ß√£o do evolucionismo ao desenvolvimento das estrat√©gias reprodutivas. Professor na Birkbeck Univeristy of London, Belsky est√° preparado para a celebra√ß√£o esse ano dos 20 anos sua revitalizada Teoria Evolucionista da Socializa√ß√£o de 1991.
Gravada em outubro de 2010, sua palestra no ciclo de semin√°rio do EvoS da Birghamtom Univesity come√ßa com a constata√ß√£o dele que muitos dos psic√≥logos do desenvolvimento negligenciam a import√Ęncia da Evolu√ß√£o para o desenvolvimento. Ele conta a hist√≥ria de sua teoria, como foi inspirado por estudos sobre a influ√™ncia da aus√™ncia paterna nas estrat√©gias sexuais, e como a princ√≠pio relutou em abandonar teorias cl√°ssicas sobre o tema. Ele frisa que o suporte comparativo de diferentes esp√©cies e o poder de gerar novas predi√ß√Ķes o convenceram da relev√Ęncia do evolucionismo para as teorias de desenvolvimento e matura√ß√£o.

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Segundo a Teoria Evolucionista da Socializa√ß√£o, ambientes estressantes com escassez de recursos e suporte emocional na inf√Ęncia acelerariam a puberdade e induziriam a estilos de apego inseguros e uma estrat√©gia sexual de curto prazo – muito relacionamentos curtos sem muito la√ßo afetivo. Enquanto um ambiente infantil pouco estressante levaria a estilos de apego seguros e estrat√©gias sexuais de longo prazo. 
Ele apresenta todos seus e outros artigos mais importantes para o suporte de sua teoria, e com uma explica√ß√£o rica em met√°foras mostra o porqu√™ os resultados fazem sentido. Ao final ele mostra como tem lidado com cr√≠ticas e como atualizou sua teoria. A mais contundente √© a possibilidade de influ√™ncia gen√©tica determinar mais a estrat√©gias sexuais futuras do que o ambiente infantil. Estranhamente ele n√£o cita o estudo de g√™meos que mostrou que esse parecer ser o caso e nem o estudo intercultural que mostrou que a necessidade de cuidado biparental do ambiente atual √© mais determinante das estrat√©gias sexuais do que o ambiente infantil. Pelo menos ele j√° incorporou a possibilidade da exist√™ncia de uma mistura de estrat√©gias alternativas (gen√©ticas) e condicionais (abertas a influ√™ncias ambientais relevantes) nos determinantes das diferencias individuais quanto √† matura√ß√£o. E agora frisa a varia√ß√£o gen√©tica √† suscetibilidade a essa influencia ambiental na inf√Ęncia.
Childhood Experience and Development of Reproductive Strategies: An Evolutionary Theory of Socialisation Revisited. Uma palestra de uma hora, da hora, interessante e pertinente para muitas linhas de pesquisa no país. Aproveitem.

Jay Belsky – Childhood Experience and Development of Reproductive Strategies: An Evolutionary Theory of Socialisation Revisited from EvoS on Vimeo.

George C. Williams (1926 – 2010) Grande Evolucionista

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Morreu no dia 08, semana passada, do mal de Alzheimer aos 83 anos George C. Williams (1926 Р2010), um dos mais importantes evolucionistas da atualidade. Professor emérito da Biologia na State University of New York em Stony Brook nos EUA, foi visionário e pioneiro que contribuiu enormemente para nosso entendimento evolutivo sobre o envelhecimento, menopausa, a reprodução sexuada, o adaptacionismo, os níveis de seleção e a medicina e doenças.
Para Niles Eldredge, George C. Williams foi um pensador profundo e cuidadoso, muito t√≠mido e bem legal. Stephen Jay Gould o achava um cavalheiro quieto com uma enorme influ√™ncia na teoria evolucionista que sempre esteve avan√ßado em rela√ß√£o ao seu tempo quanto √† sua clareza te√≥rica. Para Richard Dawkins, ele foi um cientista maravilhoso e um grande cavalheiro de uma sabedoria lend√°ria. Para Steven Pinker ele √© um dos mais famosos escritores na hist√≥ria da ci√™ncia. Para Daniel Dennett, ele mostrou pela primeira vez como √© dif√≠cil ser um bom evolucionista e como √© f√°cil cometer erros simples. Para Martin Daly, George William faleceu sendo o maior bi√≥logo evolucionista de seu tempo que influenciou tanto a ecologia comportamental quanto a psicologia evolucionista. Para Michael Ruse, ele foi parte do grupo de bi√≥logos que mudou completamente a natureza da teoria da evolu√ß√£o a meio s√©culo atr√°s. Para Randolph Nesse, ele foi o mais importante bi√≥logo do s√©culo XX que com uma abordagem consistente e um pensamento met√≥dico perseguiu quest√Ķes importantes e destilou suas conclus√Ķes em prosa l√≠mpida.

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Em seu primeiro livro e um dos mais importantes da √°rea Adaptation and Natural Selection: A Critique of Some Current Evolutionary Thought (1966) ele influenciou gera√ß√Ķes de evolucionistas com um adaptacionismo mais rigoroso e desbancando de vez o selecionismo de grupo ing√™nuo, que infelizmente, ainda vemos muito na narra√ß√£o de document√°rios sobre animais, algo do tipo “tudo para o bem da esp√©cie”. Ele mostrou que a adapta√ß√£o √© um conceito oneroso e que teve ser criticamente testado segundo v√°rios crit√©rios antes de aceit√°-lo finalmente como conclus√£o.

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Em Sex and Evolution (1975), Natural Selection: Domains, Levels, and Challenges (1992), ele atualizou e expandiu suas idéias anteriores, introduziu a idéia de seleção de clado e foi fundo na questão dos níveis de seleção. Ele fez um distinção muito importante para evitarmos muitos mal entendidos em biologia evolutiva. Temos que reconhecer que existem dois domínios distintos em biologia evolutiva: um é o da matéria, no qual gene significa cadeia de DNA, o outro é o da informação, no qual gene significa pacote de informação, mensagem, receita. Então para entender os níveis de seleção não se pode incorrer no erro de misturar os dois domínios como indivíduo (material) e gene (pacote de informação), pois os diferentes domínios não são correspondentes, deve-se ter a clareza de comparar níveis dentro de um mesmo domínio.

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Mais tarde em seu livro Why We Get Sick (1995) (Por que Adoecemos. A nova ci√™ncia da medicina darwinista (1997) da Editora Campus na tradu√ß√£o brasileira) em coautoria com Randolph Nesse, introduz o campo da Medicina Darwinista. Ambos trazem todo o poder da teoria evolutiva em dar sentido, amarrar e guias novas perguntas mas toda a √°rea m√©dica. 

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Williams mostrou como é um absurdo a idéia de restaurar a homeostase, ou seja, tudo de incomum manifestado em seu corpo durante a doença deve ser combatido, com um exemplo bem claro: Imagine que você chega na sua casa e dois fatos incomuns estão acontecendo: 1) tem um caminhão vermelho estacionado na frente e vários seres jogando água na sua casa; 2) tem muita fumaça saindo pela sua janela. O que você deve fazer para restaurar a homeostase da sua casa é dar um fim em todos os fatos incomuns, então você se livrar dos seres molhados, guinchar o caminhão vermelho e não deixar fumaça sair pela janela, pronto resolvido!!! Eles mostraram que muitos dos sintomas das doenças são estratégias coordenadas do seu corpo inerentes do processo. Dawkins chegou a sugerir a todos que comprem duas cópias do livro e receitem um para seu médico. Segundo profetizou o próprio Williams:
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“In twenty or thirty years, medical students will be learning about natural selection, about things like balance between unfavorable mutations and selection. They will be learning about the evolution of virulence, of resistance to antib
iotics by microorganisms, they will be learning about human archaeology, about Stone Age life, and the conditions in the Stone Age that essentially put the finishing touches on human nature as we now have it. These same ideas then will be informing the work of practitioners of medicine, and the interactions between doctor and patient. They’ll be guiding the medical research establishment in a fundamental way, which isn’t true today. At the rate things are going, this is inevitable. These ideas ought to reach the people who are in charge — the doctors and the medical researchers — but it’s even more important that they reach college students, especially future medical students, and patients who go to the doctor.”

N√£o deixe de receitar os seguintes links para seu m√©dico, para seus amigos alunos e professores das √°reas m√©dicas. The Skeptical Adaptationist – blog do Randolph Nesse, The Evolution & Medicine Review, V√≠deos de Randolph Nesse sobre Medicina e Psiquiatria Darwinista

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Em seu √ļltimo livro Plan and Purpose in Nature (1996), Williams, rebate claramente os argumentos criacionistas mostrando que se existe um criador e ele √© minimamente inteligente nunca faria algo t√£o mal-adaptado como nosso corpo. Os exemplos v√£o de peixes ao olho, garganta e muitos outros. Nesse livro fica claro o porqu√™ Randolph Nesse o considera um mal-adaptacionista, j√° que eles compartilham o fasc√≠nio pelos aspectos do corpo e da mente que aparentam n√£o fazer sentido em termos evolutivos.
Sem d√ļvida George C. Williams foi um marco evolutivo com alcances para al√©m das ci√™ncias biol√≥gicas. Espero com essa homenagem aumentar o conhecimento sobre ele no Brasil e o ainda mais o alcance de sua contribui√ß√£o cient√≠fica.
Fique com uma palestra dada por Randolph Nesse na comemoração sobre o Ano de Darwin 2009 sobre The Great Opportunity: New Evolutionary Applications in Medicine.

2nd Biological Evolution Workshop Ao Vivo Online

Dos eventos para esse m√™s de novembro em comemora√ß√£o aos 150 anos do Origem das Esp√©cies divulgados aqui no MARCO EVOLUTIVO, o “II Porto Alegre Biologial Evolution Workshop” “Celebrating Darwin’s Year”, ter√° transmiss√£o ao vivo pelo site www.biologicalevolution.com.br a partir das √†s 9 da manh√£ dessa segunda dia 16/11.

O evento ocorrerá em Porto Alegre de 16 a 18/11 contará com 10 conferências internacionais com convidados ilustres e sobre os aspectos mais atuais da Biologia Evolutiva.
√Č muito raro termos a chance de acompanhar um evento de peso como esto pel net. A outra oportunidade dessa que tivemos foi a do evento REvoluci√≥n Darwin no Chile. Assistir √†s confer√™ncias e debates ao vivo online √© uma oportunidade √ļnica importante para todos aqueles interessados que, por diversos motivos, n√£o puderam se inscrever e viajar at√© Porto Alegre. Ent√£o n√£o percam essa super dica evolutiva.

Psicologia Evolucionista no Milênio

Acabo de voltar de Natal onde participei de um m√™s de estudos em Psicologia Evolucionista que culminou no primeiro evento no Brasil, o “Simp√≥sio Internacional Psicologia Evolucionista no Mil√™nio: Plasticidade de Adapta√ß√£o”. Foi um evento muito bom, inesquec√≠vel. N√£o estava t√£o lotado aponto de voc√™ n√£o conseguir conhecer ningu√©m, nem t√£o vazio aponto de voc√™ se desanimar. A organiza√ß√£o estava muito boa, o coffebreak tamb√©m e √© claro que os speakers nas palestras e os alunos nos p√īsteres deram um show, tudo em ingl√™s.

Foram cerca de 60 p√īsteres abordando temas dentre comportamento social, moral, reprodutivo, cogni√ß√£o, investimento parental, desenvolvimento, fam√≠lia, t√≥picos te√≥ricos e metodol√≥gicos, psicopatologia, linguagem, teoria da mente, comportamento alimentar, arte e religi√£o. O grande destaque vai para os p√īsteres ganhadores que (se eu n√£o me engano) foram: Discounting the future: psychological and context variables de T√Ęnia Abreu da Silva Victor, Dandara de Oliveira Ramos, Maria Lucia Seidl-de-Moura, and Luciana Fontes Pessoa; Like father like son: preference for babies that resemble their fathers in Brazilian mothers de Lu√≠sa Helena Pinheiro Spinelli, Maria Bernardete Cordeiro de Sousa, and Maria Emilia Yamamoto; e o Cooperate or retaliate? Influence of social cues on group categorization de Diego Macedo Gon√ßalves, Ana Carolina Morais Sales, and Maria Emilia Yamamoto.

As palestras foram as seguintes: na confer√™ncia de abertura o casal Martin Daly e Margo Wilson da McMaster University Canad√° falaram sobre rela√ß√Ķes de parentesco em Kinship in human Evolutionary Psychology. No dia seguinte Maria Emilia Yamamoto da Federal do Rio Grande do Norte falou sobre identifica√ß√£o de coaliz√Ķes em Group categorization and ethnocentrism: an evolutionary perspective e em seguida Martin Daly e Margo Wilson falaram sobre caracter√≠sticas dos homic√≠dios Homicides. Depois do almo√ßo Paulo Nadanovsky da Estadual do Rio de Janeiro falou sobre agress√£o contra crian√ßas em Can evolutionary theory help identify circumstances conducive to child physical abuse? E em seguinda Klaus Jaffe da Universidad Simon Bol√≠var, Venezuela falou sobre a psicologia dos cientistas em Is there such thing as an evolution of scientific personalities? No final do dia Carol Weisfeld da University of Detroit Mercy, EUA falou sobre o relacionamento rom√Ęntico est√°vel em Long-term partnership: what it means in the postmodern era.

No √ļltimo dia, Heidi Keller da Universit√§t Osnabr√ľck, Alemanha falou dos modelos de socializa√ß√£o infantil em The expression of positive emotionality in early socialization strategies in different ecocultural environments. Depois do almo√ßo Ricardo Waizbort da Fiocruz, Rio de Janeiro falou sobre a escolha feminina em The evolutionism of the “O corti√ßo” of Alu√≠sio Azevedo, depois Martin Br√ľne da Universit√§t Bochum, Alemanha sobre psicopatologias em Towards an evolutionarily informed approach to understanding and testing mental disorders. E no final Suzana Herculano-Houzel da Federal do Rio de Janeiro falou sobre as regras de constru√ß√£o dos c√©rebros de roedores e primetas em Not that special: the human brain as a linearly scaled-up primate brain. Todos adoraram o simp√≥sio e as lindas praias de natal.

A pr√≥pria Suzana Herculano-Houzel em seu blog “A neurocientista de plant√£o” disse que gostou, ensinou e aprendeu muito nesse Simp√≥sio Internacional de Psicologia Evolucionista. Ela falou sobre homens mulheres e evolu√ß√£o e percebeu que o adaptacionismo nem sempre √© intuitivamente √≥bvio, com o caso das m√£es baterem nos filhos mais do que os pais, os quais t√™m menos certeza da paternidade. Ela tamb√©m falou que gostou muito de se ver alvo de tietagem e recebeu v√°rios elogios nos coment√°rios. Eu mesmo pedi um autografo dela no livro Charles Darwin Em um Futuro n√£o t√£o distante onde ela tem um cap√≠tulo.

Estreou também na Psico Evolucionista o Ciência Vista, grupo do qual participo interessado na divulgação científica cotidiana por meio de produtos, alguns feitos a mão, como camisetas científicas. As camisetas em comemoração o bicentenário de Darwin e dos 150 anos do Origem das Espécies fizeram o maior sucesso, muita gente gostou, comprou e vestiu a camisa da ciência.

Em resumo foi um excelente coroamento do Projeto do Milênio em Psicologia Evolucionista, o primeiro da área da Psicologia no país, que alcançou muito mais do que suas metas previstas. E principalmente graças à dedicação das professoras Maria Emilia Yamamoto e Maria Lucia Seidl-de-Moura o Instituto do Milênio catalisou o nascimento de uma área sólida, produtiva e interdisciplinar em Psicologia Evolucionista no Brasil.

Psicologia Evolucionista e Natureza Humana

A Psicologia Evolucionista (que muitos confundem com psicologia evolutiva, ou seja, psicologia do desenvolvimento) √© uma √°rea que mais cresce no mundo e no Brasil. Infelizmente muito das cr√≠ticas negativas a ela est√° embasada em entendimentos err√īneos, preconceitos e no√ß√Ķes simplistas equivocadas sobre como o fator biol√≥gico se manifesta no comportamento humano e quais s√£o suas implica√ß√Ķes sociais.

Sugiro √†s pessoas que antes de despejarem seus ‚Äúismos‚ÄĚ indignados: biologismo, determinismo, sexismo, naturalismo, reducionismo, fatalismo, conformismo entre outros, leiam o texto sobre se n√≥s somos realmente dominados por nossos genes ou apenas por mal-entendidos. E descubram quantas no√ß√Ķes preconceituosas sobre a natureza humana temos enraizadas.
Os livros estão mais voltados para resolver esses entendimentos equivocados são o O Que Nos Faz Humanos de Matt Ridley e o Tabula Rasa de Steven Pinker. Nesses livros uma coisa fica bem clara, que nossa velha noção sobre a natureza humana é uma das coisas que devemos desaprender e deixar muito dos preconceitos que impedem nosso entendimento sobre a Psicologia Evolucionista para trás.
E o programa “Coisas que nunca deviamos aprender” sobre Psicologia Evolucionista, em espanhol, que veremos abaixo, trata justamente da quest√£o das novas no√ß√Ķes sobre a natureza humana que est√£o desafiando concep√ß√Ķes pautadas em entendimentos equivocados. Com a participa√ß√£o de Steven Pinker, ricamente ilustrado e com uma discuss√£o final sobre as mudan√ßas de paradigmas este programa tem tr√™s v√≠deos bem interessantes.
No primeiro v√≠deo veremos a discuss√£o sobre nossa tend√™ncias agressivas e medos de cobra, sobre a antiga vis√£o da tabula rasa, as inter-rela√ß√Ķes entre natureza e cria√ß√£o, as liga√ß√Ķes com o projeto genoma e com a discuss√£o das c√©lulas tronco, veremos ainda que existe um grande preconceito frente as sociedade de ca√ßadores coletores tribais, mas na verdade as habilidades mentais s√£o as mesmas em todas culturas.
No segundo v√≠deo ser√£o discutidas as diferen√ßas entre homens e mulheres, seu desenvolvimento ontogen√©tico, as influ√™ncias m√ļtuas entre cultura e circuitos cognitivos inatos, veremos que os seres humanos n√£o t√™m menos se n√£o mais instintos do que os outros animais, e como exemplo a linguagem, os tabus sexuais, ainda veremos as diferencias entre os sexos nas estrat√©gias sexuais e o movimento hippie enquanto mais uma utopia sexual.
No √ļltimo v√≠deo veremos o mal-entendido da suposta impossibilidade de mudan√ßa social, analisaremos a tabula rasa para perceber que diferen√ßa n√£o √© desigualdade, e na conversa final teremos a discuss√£o sobre a revolu√ß√£o cient√≠fica e as mudan√ßas de paradigmas. E mudan√ßa √© o que est√° acontecendo em todo o mundo quando se fala da natureza humana, pois como Hamilton disse em 1997 “a tabula da natureza humana nunca foi rasa e agora est√° sendo decifrada”.

Somos dominados por genes ou por mal-entendidos?

Por Isabella Bertelli Cabral dos Santos e Marco Ant√īnio Corr√™a Varella.
Isabella Bertelli Cabral dos Santos é graduanda em Psicologia pela USP e bolsista em Iniciação Científica pelo CNPq em Psicologia Experimental. Possui o blog Científica Mente e é minha namorada.
A livre interpretação dos estudos formulados à luz da Psicologia Evolucionista tem provocado uma série de idéias equivocadas acerca do comportamento humano e da própria disciplina.
A Psicologia Evolucionista √© uma √°rea recente que tem enriquecido a investiga√ß√£o dos processos psicol√≥gicos e promovido o entendimento de in√ļmeros aspectos do comportamento humano. Como em toda ci√™ncia, existem muitas cr√≠ticas pertinentes a ela. Contudo, grande parte das controv√©rsias com freq√ľ√™ncia decorre de preconceitos e mal-entendidos por parte de pesquisadores de outras √°reas, divulgadores cient√≠ficos e do p√ļblico em geral. √Č comum resultarem interpreta√ß√Ķes equivocadas, comumente veiculadas pela m√≠dia, a partir de estudos realizados sob essa linha te√≥rica.
Voc√™ j√° deve ter visto manchetes como ‚ÄúA linguagem √© inata‚ÄĚ, ‚ÄúInfidelidade est√° nos genes‚ÄĚ, ‚ÄúM√£es n√£o teriam amor aos filhos, e sim √† sua heran√ßa gen√©tica‚ÄĚ, s√≥ para citar alguns exemplos. Ou provavelmente j√° leu alguma mat√©ria sobre a evolu√ß√£o das diferen√ßas entre homens e mulheres e achou tudo uma grande bobagem, pois isso nada tem a ver com genes, e sim com a cultura. Dizer que existem aspectos comportamentais herdados parece uma tentativa de naturalizar as diferen√ßas e, portanto, de justific√°-las. Mas ser√° que √© isso mesmo?

Teste seus conhecimentos sobre a Psicologia Evolucionista descobrindo o que ela não é.

A Psicologia Evolucionista…
  • … n√£o diz que comportamentos adaptativos est√£o presentes no nascimento.

Essa vis√£o inatista extrema n√£o faz sentido nem para as adapta√ß√Ķes anat√īmicas. Beb√™s rec√©m-nascidos n√£o t√™m dentes, barba ou seios, o que n√£o implica em dizer que ‚Äúaprendemos‚ÄĚ a ter dentes, barba ou seios. Esses s√£o produtos da evolu√ß√£o e isso inclui sua matura√ß√£o e desenvolvimento tamb√©m. Ent√£o, eles se desenvolvem no per√≠odo em que promovem sua vantagem adaptativa: no caso dos dentes, depois do desmame, e no caso de barba e seios, na puberdade. O mesmo argumento √© v√°lido para o desenvolvimento de comportamentos humanos como gostar do sexo oposto e ajudar parentes. N√£o √© porque nascemos sem interesse em escolher parceiros amorosos que forma√ß√£o de casais em humanos n√£o envolve instinto algum;
  • … n√£o diz que nosso comportamento √© geneticamente determinado.

Genes n√£o s√£o deterministas implac√°veis como no caso das ervilhas de Mendel. A express√£o dos genes durante o desenvolvimento do sistema nervoso e durante o funcionamento de nosso c√©rebro muda constantemente em resposta a acontecimentos fora de nosso corpo. Os genes prov√™em os mecanismos para a experi√™ncia porque constroem os dispositivos cognitivos que nos capacitam a obter informa√ß√Ķes do ambiente. Temos propens√Ķes gen√©ticas para aprendermos facilmente a falar em uma idade muito precoce, mas se n√£o tivermos contato com falantes n√≥s n√£o aprendemos a falar. O que n√£o implica em n√£o sermos capazes de aprender outras l√≠nguas em outras idades. N√£o √© porque n√£o nascemos falando portugu√™s que a linguagem n√£o envolve predisposi√ß√Ķes cognitivas, assim como n√£o √© porque temos propens√Ķes cognitivas para aprender a linguagem quando crian√ßas que n√£o aprenderemos outros idiomas em outras idades;
  • … n√£o diz que n√£o temos flexibilidade comportamental.
Ter adapta√ß√Ķes mentais n√£o significa dizer que sempre faremos e agiremos do mesmo jeito. Pense em computadores. Imagine qual computador √© mais flex√≠vel e faz mais coisas diferentes e de forma variada: aquele que n√£o tem quase nenhum programa instalado e tem muita mem√≥ria livre, ou aquele que j√° vem com muitos programas instalados? √Č claro que o mais flex√≠vel √© aquele com mais programas diferentes instalados. Para o comportamento √© a mesma coisa. Parece contra-intuitivo falar que se fossemos t√°bulas rasas n√£o ter√≠amos quase nenhuma flexibilidade comportamental. Mas ao pensar nos computadores fica claro que quanto mais m√≥dulos mentais tivermos, mais flex√≠vel e pluralista ser√° nosso comportamento. Dizer que temos um programa de edi√ß√£o de texto ricamente instalado n√£o implica em dizer que independente do que for digitado sempre sair√° o mesmo texto da impressora;
  • … n√£o diz que comportamentos s√£o adapta√ß√Ķes.

Comportamentos podem ser adaptativos, mas n√£o herdamos diretamente comportamentos especificamente codificados ou programados. N√≥s herdamos as estruturas cognitivas, ou m√≥dulos mentais, que s√£o as adapta√ß√Ķes referentes ao comportamento. E s√£o os m√≥dulos mentais na sua intera√ß√£o com o ambiente em que vivemos que produzem comportamentos dentro de cada contexto cultural. Voltando ao paralelo do computador, o que √© herdado, ou seja, o que vem de f√°brica n√£o √© o texto impresso, mas sim o programa de edi√ß√£o de textos. Portanto, o foco n√£o recai sobre o comportamento manifesto, mas sim nas estruturas cognitivas que o geraram;
  • … n√£o diz que n√£o precisamos aprender nada.

Pensar que instinto e aprendizagem s√£o coisas opostas, excludentes ou inversamente proporcionais √© um erro muito comum. Trata-se do velho debate inato x aprendido. Justamente porque temos instintos √© que somos capazes de aprender. N√£o somos umas esp√©cie que aprende muito por que temos menos instintos, mas sim por que temos muitos. Os m√≥dulos mentais s√£o abertos e √°vidos por informa√ß√Ķes ambientais. Portanto, √© pela via do aprendizado que manifestamos nossa natureza, e pela via da natureza que temos as propens√Ķes para aprender conte√ļdos culturais e assim participar do mundo social. No paralelo do computador √© f√°cil perceber que at√© o programa de edi√ß√£o de texto est√° preparado para aprender, pois inserimos novos tipos de fontes, novas figuras. O programa aprende at√© palavras novas, se as adicionamos ao dicion√°rio. E isso possibilita inclusive a impress√£o de mais textos diferentes, a partir de um √ļnico programa;

  • … n√£o diz que a cultura n√£o √© importante.

Como a Psicologia Evolucionista reconhece que temos muitos m√≥dulos mentais, que s√£o abertos e calibr√°veis, ou seja, pl√°sticos e male√°veis pelo ambiente, e ainda, especializados em gerar e processar conte√ļdos culturais, segundo sua perspectiva, o ser humano √© biologicamente cultural. A cultura n√£o √© algo antinatural alheio √† biologia humana. A cultura √© parte essencial da natureza humana, influencia e √© influenciada por nossas adapta√ß√Ķes mentais. Portanto, a diversidade cultural n√£o √© a prova de que o comportamento humano independe de adapta√ß√Ķes mentais, mas sim de que nossas adapta√ß√Ķes mentais s√£o ricamente voltadas para os contextos culturais em que crescemos;

  • … n√£o diz que as pessoas s√£o id√™nticas nos comportamentos.

Assim como todas as pessoas t√™m um cora√ß√£o, dois pulm√Ķes, dois olhos e um est√īmago, todas as pessoas t√™m as mesmas adapta√ß√Ķes cognitivas. A hist√≥ria de vida e o contexto ecol√≥gico-cultural de cada pessoa influencia seus √≥rg√£os, o que faz com que esportistas tenham cora√ß√£o e pulm√Ķes diferentes de fumantes. Assim como as adapta√ß√Ķes mentais de cada pessoa tamb√©m s√£o fruto de uma intera√ß√£o √ļnica com seu ambiente, o que torna cada pessoa √ļnica. Mesmo que duas pessoas brasileiras tenham as mesmas adapta√ß√Ķes mentais voltadas ao aprendizado da linguagem, e tenham o mesmo contexto cultural da l√≠ngua portuguesa, elas podem ter sotaques e g√≠rias diferentes segundo as regi√Ķes espec√≠ficas em que cresceram. E isso n√£o √© a prova de que elas n√£o t√™m adapta√ß√Ķes mentais igualmente, mas sim de que suas adapta√ß√Ķes mentais s√£o abertas √† informa√ß√£o ambiental que varia de regi√£o pra regi√£o;

 

  • … n√£o diz que comportamentos adaptativos est√£o fora de nosso controle.

A Sele√ß√£o Natural moldou filogeneticamente adapta√ß√Ķes mentais que geram tanto comportamentos adaptativos mais control√°veis ‚Äď como a detec√ß√£o de trapaceiros e a escolha de parceiros ‚Äď, quanto os mais incontrol√°veis ‚Äď como os medos. Decis√Ķes r√°pidas frente a riscos reais de morte, assim como medo de cobra ou de altura, s√£o em geral mais incontrol√°veis, j√° que uma informa√ß√£o ambiental espec√≠fica potencialmente letal dispara a rea√ß√£o adaptativa. Mas o fato de serem adaptativos e pouco control√°veis n√£o implica a impossibilidade de agirmos de modo a minimizar seus efeitos negativos. Saber qual informa√ß√£o ambiental influencia o aparecimento de tal comportamento ‚Äď como ver uma cobra ou olhar para baixo na roda gigante ‚Äď aumenta nossas chances de controlar por antecipa√ß√£o nossas tend√™ncias incontrol√°veis;

  • … n√£o diz que todo comportamento atual √© adaptativo.

 

Nossos m√≥dulos mentais foram selecionados no ambiente ancestral, ou seja, no ambiente de nossa adaptabilidade evolutiva e n√£o no ambiente moderno e tecnol√≥gico atual. Ent√£o, pelo vi√©s da Psicologia Evolucionista muitos de nossos comportamentos atuais s√£o compreendidos como n√£o adaptados, por estarmos deslocados de nosso ambiente natural. Alguns comportamentos que eram adaptativos no ambiente ancestral atualmente podem n√£o ser, a exemplo de comer doces e gordura em excesso. No ambiente ancestral era adaptativo acumularmos o m√°ximo poss√≠vel de calorias em uma √ļnica refei√ß√£o, pois n√£o havia abund√Ęncia de alimentos tal como ocorre hoje. Outros exemplos v√£o no sentido oposto. √Č o caso da pr√°tica de atividades f√≠sicas. Fomos selecionados em um momento em que faz√≠amos grande quantidade de exerc√≠cios f√≠sicos, pois o modo de locomo√ß√£o era andar. Contudo, hoje, no ambiente urbano, sobretudo, h√° dispon√≠veis facilidades como os v√°rios tipos de ve√≠culos e at√© mesmo dispositivos como as escadas rolantes que auxiliam a locomo√ß√£o humana. Isso implica em pouca mobilidade f√≠sica e acaba gerando riscos para a sa√ļde;

  • … n√£o diz que as adapta√ß√Ķes s√£o perfeitas.

Mesmo se estiv√©ssemos em nosso ambiente ancestral vivendo como ca√ßadores-coletores nossas adapta√ß√Ķes mentais seriam fal√≠veis e imperfeitas. Se a sele√ß√£o natural mantivesse um perfeito medo de cobras de modo a que as pessoas jamais sa√≠ssem de suas casas, seriam drasticamente reduzidos os casos de mortes por picada de cobra. No entanto, haveria um custo alto a pagar: a capacidade explorat√≥ria humana seria inexistente, o que resultaria em falta de alimento, e conseq√ľentemente nos levaria √† morte. As adapta√ß√Ķes n√£o s√£o perfeitas porque se fossem muito eficazes seus custos ultrapassariam seus benef√≠cios √† sobreviv√™ncia e √† reprodu√ß√£o. Al√©m disso, as press√Ķes seletivas s√£o cegas quanto a um objetivo final a ser atingido futuramente pela adapta√ß√£o. Sendo assim, o modo como um problema adaptativo foi solucionado pela sele√ß√£o natural, ou seja pelo relojoeiro cego, quase nunca equivale √†quele pelo qual um engenheiro o solucionaria, partindo do zero e pensando em simplicidade, efici√™ncia e economia. Somado a este fato, n√£o se pode esquecer que as adapta√ß√Ķes nunca s√£o exatamente iguais dentro da popula√ß√£o, ou seja, mesmo se ela tiver atingido um n√≠vel √≥timo, este n√≠vel ser√° melhor para alguns do que para outros, pois sempre existe uma varia√ß√£o individual, que √© a mat√©ria-prima da evolu√ß√£o;

  • … n√£o diz que h√° genes para o ego√≠smo.

A abordagem do gene ego√≠sta n√£o √© uma abordagem molecular para o ego√≠smo. O gene ego√≠sta n√£o √© ‚Äúaquilo‚ÄĚ que pessoas ego√≠stas t√™m. Muito menos a teoria diz que todos os genes t√™m desejos conscientes ego√≠stas, como se eles s√≥ ‚Äúpensassem‚ÄĚ em si pr√≥prios. Os genes n√£o possuem desejos conscientes. Eles simplesmente se auto-replicam. Aqueles que n√£o se auto-replicaram n√£o sobreviveram e n√£o est√£o representados hoje. O padr√£o de auto-replica√ß√£o cega produz resultados que por vezes s√£o interpretados como se determinados genes tivessem interesse em ser mais representados nas pr√≥ximas gera√ß√Ķes. Tais genes n√£o ‚Äút√™m‚ÄĚ realmente esse interesse, mas agem cegamente como se tivessem. Trata-se de uma analogia com os interesses humanos. Usa-se a voz ativa e coloca-se inten√ß√£o pessoal onde n√£o h√°;

  • … n√£o diz que as pessoas inconscientemente visam aumentar a replica√ß√£o de seus genes nas gera√ß√Ķes seguintes.

Confundir os interesses dos genes com os das pessoas √© uma das principais confus√Ķes feitas com a Psicologia Evolucionista. Exemplo: ‚ÄúO adult√©rio n√£o pode ser uma estrat√©gia para propagar os genes ego√≠stas, pois os ad√ļlteros tomam provid√™ncias contraceptivas‚ÄĚ. O desejo sexual e o desejo de ter filhos n√£o s√£o uma estrat√©gia das pessoas para propagarem seus genes. S√£o uma estrat√©gia das pessoas para obter os prazeres do sexo e os prazeres de serem pais, e esses prazeres s√£o a estrat√©gia dos genes para propagarem-se nos filhos. Gene ego√≠sta n√£o implica em uma pessoa que faz tudo pensando em seus genes. As pessoas n√£o pensam no que seria melhor pra seus genes, elas simplesmente comem pelo prazer de comer, pra matar a fome e por qualquer outra cren√ßa e desejo. J√° os genes modelaram o desejo de comer quando se replicaram em pessoas que se alimentavam bem e conseq√ľentemente sobreviviam e reproduziam. O interesse dos genes e o interesse das pessoas est√£o separados por diferen√ßas gigantescas em unidades de tempo. O interesse pessoal √© pautado pelo hoje, ontem, amanh√£, m√™s que vem, vida toda, enquanto o interesse do gene √© pautado pela persist√™ncia de press√Ķes adaptativas em sucessivas gera√ß√Ķes no ambiente ancestral ao longo de milh√Ķes de anos;

  • … n√£o diz que n√£o somos livres.

Como voc√™ p√īde perceber, n√≥s vivemos em uma unidade de tempo mais r√°pida que a de nossos genes. Isso implica em n√£o sermos dominados e controlados por eles. Somos livres para escolher n√£o comer doces, se assim quisermos, e livres para seguir o prop√≥sito de n√£o ter filhos, se assim o desejamos, livres para abdicar do sexo e at√© da pr√≥pria sobreviv√™ncia. Temos esses pequenos vi√©ses herdados em comer doce, ter filhos, praticar sexo e sobreviver, o que torna mais prov√°vel realizarmos tudo isso e mais dif√≠cil resistir a esses comportamentos, por sermos herdeiros de ancestrais que sobreviveram a ponto de deixar descendentes. Tais propens√Ķes foram moldadas no ambiente ancestral e n√£o no atual. Ent√£o somos livres para fazermos o que bem entendermos agora com nosso corpo e com nossa mente.

  • … n√£o √© sexista ou machista.

A Psicologia Evolucionista vem descobrindo muitas diferen√ßas psicol√≥gicas in√©ditas entre homens e mulheres. Essas descobertas t√™m gerado confus√£o e muitos apregoam ser esta uma teoria baseada em machismo ou sexismo. Essa confus√£o vem de tr√™s problemas: Primeiro, a generaliza√ß√£o ing√™nua. Assim, dizer que os homens s√£o, em m√©dia, maiores que as mulheres n√£o significa que todos os homens sejam mais altos do que todas as mulheres. Dizer que as mulheres t√™m mais flu√™ncia verbal que os homens n√£o quer dizer que todos os homens sejam praticamente mudos. Depois vem o preconceito. O preconceito ocorre quando ingenuamente julgamos a priori uma pessoa pela m√©dia dos atributos de seu grupo. Dizer que homens t√™m mais facilidade para a localiza√ß√£o espacial n√£o habilita ningu√©m a destratar, desmerecer ou desqualificar uma mulher por seu modo de dirigir. Finalmente vem a confus√£o entre diferen√ßa e desigualdade. Nenhuma diferen√ßa anat√īmica ou mental entre homens e mulheres implica qualquer julgamento de valor. Todos os seres humanos devem, por princ√≠pio, ter iguais direitos e oportunidades. N√£o h√° incompatibilidade entre sermos diferentes e termos garantias de igualdade de direitos;

  • … n√£o embasa julgamentos morais, nem justifica nossas a√ß√Ķes.

Confundir explica√ß√Ķes cient√≠ficas com recomenda√ß√Ķes ou justificativas morais √© o erro mais perigoso, por seu forte conte√ļdo emocional. √Č conhecido como fal√°cia naturalista e implica numa nivela√ß√£o equivocada entre o ‚Äú√©‚ÄĚ das explica√ß√Ķes descritivas e o ‚Äúdeve ser‚ÄĚ das recomenda√ß√Ķes morais. Enquanto cientistas ‚Äď cientes de que todo conhecimento tem um grau de incerteza ‚Äď usam o verbo ‚Äúdever‚ÄĚ no sentido de ‚Äúhaver uma probabilidade de‚ÄĚ para explicar a previs√£o de uma possibilidade, como na frase ‚ÄúSe existirem componentes herd√°veis na propens√£o ao estupro e se alguns estupros tiverem gerado filhos, ent√£o deve ter havido uma press√£o seletiva favorecendo as propens√Ķes envolvidas no estupro‚ÄĚ; Outras pessoas ouvem o verbo ‚Äúdeve‚ÄĚ no sentido de ‚Äúser moralmente prefer√≠vel‚ÄĚ e acusam esses pesquisadores de estar justificando, ou naturalizando um ato brutal e criminoso, o que n√£o √© verdade. N√£o somos escravos das adapta√ß√Ķes mentais, uma vez que a pr√≥pria sele√ß√£o por flexibilidade de repert√≥rio conforme o contexto favorece um controle consciente dos nossos comportamentos, como a infidelidade. E, sendo um ato consciente, ele n√£o isenta a culpabilidade daqueles que, ao satisfazerem seus desejos irresponsavelmente, exp√Ķem parceiros a danos √† sa√ļde pelo sexo desprotegido e √† confian√ßa pela trai√ß√£o. Nossas propens√Ķes mentais n√£o s√£o desculpa para nenhum ato danoso;

Causas apontadas
Por que esses mal-entendidos acontecem com tanta freq√ľ√™ncia? Provavelmente n√£o existe uma resposta √ļnica. Diferentes explica√ß√Ķes foram dadas, n√£o necessariamente excludentes.


A primeira fonte de explica√ß√£o foca a causa dos mal-entendidos em nossos pr√≥prios padr√Ķes cognitivos de processamento de informa√ß√Ķes. Temos a tend√™ncia a simplificar qualquer informa√ß√£o para reduzir a demanda por recursos cognitivos e um forte desejo de gerar previs√Ķes a partir de casos espec√≠ficos, o que nos faz incorrer na generaliza√ß√£o. Quando esses padr√Ķes cognitivos s√£o usados na tentativa de entender a rela√ß√£o entre gene, ambiente e comportamento, facilmente ca√≠mos nas supersimplifica√ß√Ķes como ‚Äúgene gay‚ÄĚ ou ‚Äúgene da felicidade‚ÄĚ, na tentativa de se aplicar o modelo mendeliano, que √© simples, ao comportamento, que n√£o o √©. O desenvolvimento ontogen√©tico √© uma complexa intera√ß√£o singular entre genes, seq√ľ√™ncia temporal dos ambientes externos e eventos aleat√≥rios. Por isso, ainda n√£o foi desenvolvido um modelo did√°tico para descrever a influ√™ncia gen√©tica no comportamento de forma l√≥gica, como no modelo mendeliano, em que um gene √© igual a uma caracter√≠stica.

Outra fonte de mal-entendidos envolve a aparente simplicidade da teoria da evolução. A facilidade de apreender o conceito de seleção natural leva as pessoas a pensar que entenderam completamente a evolução depois de um rápido contato com a teoria. Saber o modo darwinista de explicar o tamanho do pescoço da girafa não garante pleno entendimento do evolucionismo, principalmente quando aplicado ao comportamento humano.
Isso contribuiu para o aparecimento de abusos que se seguiram ao surgimento da teoria da evolu√ß√£o, pautados em mal-entendidos. Nessa √©poca, a teoria de Darwin ainda n√£o contava com a gen√©tica, com estudos sobre comportamentos sociais de animais, com an√°lises de custos e benef√≠cios para as adapta√ß√Ķes e nem com estudos sobre a cogni√ß√£o. Isso n√£o permitia um arcabou√ßo te√≥rico adequado para o entendimento do comportamento humano sob bases evolutivas.
Al√©m disso, a cren√ßa na pretensa neutralidade da ci√™ncia e o entusiasmo de sua aplica√ß√£o √† sociedade gerou abusos sociais. Um grande abuso, que comprometeu a reputa√ß√£o do evolucionismo perante as ci√™ncias humanas, foi o caso do darwinismo social por suas extrapola√ß√Ķes equivocadas de id√©ias ditas evolutivas, mas que eram, no fundo, colonialistas, capitalistas selvagens, fascistas e racistas.
A rea√ß√£o a esses abusos foi o surgimento de uma longa tradi√ß√£o de nega√ß√£o da natureza humana nas Ci√™ncias Sociais do s√©c. XX e um isolamento conceitual, em que se considerava tudo o que envolvesse genes e comportamento como err√īneo e contr√°rio √† liberdade. Surgiu da√≠ a id√©ia de que a causalidade biol√≥gica √© determinista e ruim, enquanto a causalidade ambiental preserva o livre-arb√≠trio, e, portanto, √© boa. Voc√™ j√° deve ter ouvido coment√°rios pejorativos sobre a “biologiza√ß√£o” do comportamento e qu√£o “determinista”, “fatalista” e “ing√™nua” √© a vis√£o biol√≥gica do comportamento humano.

Valores morais e condição animal

No √Ęmago de todas essas controv√©rsias sempre esteve um grande temor humano: o de ser apenas mais um animal. Igualarmos-nos aos animais √© muito dif√≠cil, pois sempre nos sentimos o √°pice da cria√ß√£o divina, feitos √† imagem e semelhan√ßa de Deus. Darwin abalou essa cren√ßa, provendo uma explica√ß√£o para a nossa origem nos mesmos termos da origem dos outros animais e dos outros seres vivos. Se somos apenas animais, ent√£o, nada mais √© sagrado? Onde ficaria embasada a moral, como o n√£o matar√°s? O medo do desmoronamento dos valores morais sagrados andou lado a lado com a resist√™ncia √†s id√©ias evolucionistas.
Quando Cop√©rnico nos tirou de centro do Universo a rea√ß√£o tamb√©m foi de nega√ß√£o. Com o tempo, aprendemos que a esfera moral n√£o √© diretamente dedut√≠vel da esfera factual. Hoje convivemos muito bem sendo uma poeirinha c√≥smica na periferia na via L√°ctea e mantendo sentimentos morais. O mesmo deve acontecer com a Revolu√ß√£o Darwinista quando entendermos humildemente nossa igual posi√ß√£o na natureza. Entendermos que n√≥s fazemos parte da natureza, somos animais, somos parentes de todo ser vivo: lactobacilo vivo, tripanossomo, champignon, br√≥colis e baleia. N√£o somos o ‚Äú√°pice‚ÄĚ da vida, pois n√£o existe animal superior ou inferior, j√° que o formato da evolu√ß√£o da vida na Terra n√£o √© uma escada e sim uma √°rvore em que cada ser vivo existente √© o melhor de seu ramo.

Agora que sabemos algumas causas dos preconceitos e mal-entendidos e sabemos como resolv√™-los, fa√ßa um teste: busque not√≠cias sobre ci√™ncia que envolvam genes, comportamento e psicologia evolucionista e veja se consegue identificar algum mal-entendido. Ser√° mesmo que depois de ler esse texto voc√™ j√° est√° ‚Äúvacinado‚ÄĚ contra os mal-entendidos? Voc√™ agora sabe dizer o que est√° errado quando se fala em linguagem e infidelidade inatas? Voc√™ ainda acha que estudar diferen√ßas entre homens e mulheres na perspectiva evolucionista √© dar base moral para a domina√ß√£o masculina? Considera mesmo que o fato de sermos animais nos torna escravos dos nossos genes?

Esperamos que n√£o, e que a partir de agora voc√™ seja um leitor mais atento e cr√≠tico, com esclarecimentos essenciais para entender a nova ci√™ncia Psicologia Evolucionista e assim se beneficiar do valor de suas explica√ß√Ķes.
Lembre-se que Psicologia Evolucionista tamb√©m n√£o √©…
  • …Psicologia Evolucion√°ria, pois esta √© uma tradu√ß√£o err√īnea do ingl√™s Evolutionary Psychology.
  • …Psicologia Evolutiva, pois essa terminologia designa a Psicologia do Desenvolvimento. A teoria em que a Psicologia Evolucionista se embasa √© evolutiva, logo a disciplina √© evolucionista. Segundo um artigo que padroniza as tradu√ß√Ķes dos termos em ingl√™s da √°rea de Etologia publicado em 2002 por Yamamoto e Ades, Evolutionary Psychology no Brasil √© Psicologia Evolucionista.

Referências
BUSSAB, V. S. H.; RIBEIRO, F. J. L. Biologicamente cultural. In M. M. P. RODRIGUES; L. SOUZA; M. F. Q. FREITAS (Orgs.). Psicologia: Reflex√Ķes (in)pertinentes. S√£o Paulo: Casa do Psic√≥logo, 1998.
LEWONTIN, R. A Tripla H√©lice‚Äď Gene, Organismo e Ambiente. Companhia das Letras, 2002.
MEYER, D.; EL-HANI, C. N. Evolução: o sentido da biologia. São Paulo: UNESP, 2005.
OTTA, E.; RIBEIRO, F. J. L.; BUSSAB, V. S. R. (2003). Inato versus adquirido: Persistência de uma dicotomia. Revista de Ciências Humanas. Florianópolis, 2003. 34, 283-311.
PINKER, S. T√°bula rasa. S√£o Paulo: Companhia das Letras, 2004.
RIDLEY, M. O que nos faz humanos. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Vers√£o melhorada do texto “A Era dos Mal-Entendidos” publicado no Especial Psiqu√® Psicologia Evolucionista, ano II, n¬ļ 6.