Parabéns Mendel pelos 190 anos e pelo legado!

Hoje, dia 20 de junho, estamos comemoramos os 190 anos de Gregor Johann Mendel, considerado pai da genética, mas com uma vida bem longe de uma celebridade. O Pai da Genética é famoso, mas pouco conhecido.

Ent√£o nossa intr√©pida equipe de jornalistas do MARCO EVOLUTIVO viajou at√© o Mendel Museum no seu Mosteiro Agostiniano em Brno, na Rep√ļblica Tcheca, para trazer a voc√™, em primeira m√£o, mais do que sopa de letrinha sabor ervilha.

Muitos acham que ele nasceu em dia 22 de julho de 1822, mas esse foi o dia em que foi batizado. Muitos acham que ele nasceu na √Āustria, mas sua cidade de nascen√ßa e seu mosteiro est√£o na Rep√ļblica Tcheca, que √© considerada o Ber√ßo da Gen√©tica. Naquele √©poca, a atual Hynńćice, cidade natal, era Heizendorf, a atual Brno era Br√ľnn, e a atual regi√£o da Rep√ļblica Tcheca era parte do Imp√©rio Austro-H√ļngaro e a l√≠ngua oficial era o alem√£o.

Filho de dona Rosina e seu Anton Mendel, humildes camponeses, Johann Mendel sempre gostou de estudar. At√© antes de completar 18 anos ele j√° ganhava a vida dando aulas particulares para outros alunos. Depois estudou Matem√°tica, F√≠sica, Filologia, Filosofia pr√°tica e te√≥rica, e √Čtica no Instituto de Filosofia de Olomouc, tamb√©m Rep. Tcheca. Aos 21 anos seguiu os estudos ao ingressar no Mosteiro Agostiniano em Brno, onde incorporou o primeiro nome, Gregor.

No Monsat√©rio teve mestres que o incentivaram muito nos estudos, o Abade Cyril FrantiŇ°ek Napp foi um deles. Ele foi quem construiu a avan√ßada estufa pra √©poca, com 30 metros por 6 de largura, que ofereceu as condi√ß√Ķes excelentes para os experimentos de Mendel.

Aos 24 anos concluiu um curso de estudos agr√≠colas de frutas e vinicultura no Instituto Filos√≥fico em Brno. Aos 29 anos o Abade Napp mandou e bancou os estudos de Mendel na Universidade de Viena, na √Āustria. L√° ele estudou mais F√≠sica, Matem√°tica e Hist√≥ria Natural e teve aulas como F√≠sica Experimental, Anatomia e Fisiologia de Plantas e aulas pr√°ticas de utiliza√ß√£o do microsc√≥pio.

Aos 32 anos com a estufa acabada de construir, Mendel colocou na pr√°tica seus conhecimentos ao estudar plantas, como feij√Ķes, chic√≥ria, plantas frut√≠feras, uva e principalmente ervilhas, nas quais descobriu as famosas Leis de Mendel. Ele tamb√©m criou camundongos e abelhas, desenvolveu seu pr√≥prio tipo de api√°rio e ainda criou uma linhagem de abelha que se mostrou muito agressiva e teve que ser eliminada. Ele tamb√©m sabia muito de astronomia e tamb√©m de metereologia.

Dos 32 aos 42, trabalhou em seus cuidadosos experimentos com ervilhas (Pisum sativum). Aos 40 Mendel leu uma tradu√ß√£o em alem√£o do ‚ÄėOrigem da Esp√©cies‚Äô de Darwin sublinhou e anotou em v√°rias partes da obra. Ajudou a criar a Sociedade Austr√≠aca de Meteorologia e foi co-fundador da Sociedade de Ci√™ncia Natural de Brno.

Aos 63 anos, 1865 apresentou o seu trabalho experimental em ervilhas em uma palestra intitulada “Experimentos sobre a hibridiza√ß√£o de plantas” nas reuni√Ķes de fevereiro e mar√ßo da Sociedade de Ci√™ncia Natural de Brno. Em 1866, Mendel publicou no jornal da Sociedade de de Ci√™ncia Natural de Brno sua palestra, o trabalho que fazer dele o Pai da Gen√©tica. Ele distribuiu c√≥pias de seu manuscrito para v√°rios cientistas, que foi ignorado por todos. Apesar de ter sido considerado sempre um √≥timo professor, ele fracassou duas vezes em concurso para ser professor da Universidade de Viena.

Mendel percebeu que n√£o herdamos as caracter√≠sticas f√≠sicas (hoje o fen√≥tipo), mas sim os elementos, fatores particulados (hoje chamados de genes). E sua genialidade foi perceber esses fatores heredit√°rios trabalham aos pares, nos gametas eles est√£o separados e na fertiliza√ß√£o eles se unem em novas combina√ß√Ķes. Apartir da√≠ foi f√°cil perceber que alguns fatores dominavam outros ao gerarem as caracter√≠sticas f√≠sicas abrindo caminha para a gen√©tica moderna. Suas descobertas pioneiras foram ignoradas at√© o come√ßo do seculo XX depois de sua morte em 1884 quando ficou consagrado.

√Č claro que assim que redescobertas muitos acharam contradit√≥rias as id√©ias de heran√ßa particulada com a fluidez gradual da varia√ß√£o populacional necess√°ria para o primeiro passo da Sele√ß√£o Natural. Os mutacionistas iniciais n√£o era Darwinistas por mais que fossem Evolucionistas. O pr√≥prio Darwin por ter abandonado o pensamento essencialista e valoriza√ß√£o a varia√ß√£o individual acabou criando uma teoria de heran√ßa baseada na mistura de caracter√≠sticas, algo que para ele faria mais sentido com sua teoria.

Somente na d√©cada de 1940 que com o surgimento da Gen√©tica de Popula√ß√Ķes pode haver concilia√ß√Ķes entre os geneticistas e os darwinistas. Eles concordaram que a evolu√ß√£o √© gradual, que o principal motor da evolu√ß√£o √© a sele√ß√£o natural, que a hereditariedade √© ‚Äúdura‚ÄĚ ou seja particulada, que o mesmo tipo de mecanismos gen√©ticos √© respons√°vel pela varia√ß√£o fenot√≠pica continua e discreta, que a macroevolu√ß√£o √© a acumula√ß√£o dos processos microevolutivos e a especia√ß√£o √© um processo de gen√©tica de popula√ß√Ķes.

Mendel morreu em 6 de janeiro 1884. Depois de uma vida posterior muito ocupada com a administra√ß√£o do monast√©rio. Ele foi enterrado tr√™s dias depois, no Cemit√©rio Central, em Brno. Em um obitu√°rio da Sociedade para a Promo√ß√£o da Natureza, Agricultura e Geografia de 1884, n ¬ļ 1 foi lido: “Suas experi√™ncias com h√≠bridos de plantas abriu uma nova era.” Hoje, sabemos que ele realmente inaugurou toda uma gama possibilidades para explicar muitos fen√īmenos heredit√°rios (h√≠bridos, mutantes, clones, varia√ß√£o, efeitos ambientais no genoma, etc) e para o desenvolvimento de v√°rias tecnologias de analise do DNA, como para solucionar crimes, por exemplo. Homenagem mais que merecida.

No mundo todo est√£o sendo celebradas suas realiza√ß√Ķes pioneiras para entendermos as quest√Ķes fundamentais da hereditariedade. Pelo menos de tr√™s ganhadores do Pr√™mio Nobel v√£o dar palestras no Museu de Mendel mantido pela Universidade de Masaryk em Brno. Acesse o site das celebra√ß√Ķes e fa√ßam a visita online ao Museu do Mendel.

Seleção Sexual, de Parentesco, Natural, Artificial e Social

O papel e a import√Ęncia das f√™meas t√™m mudado muito, n√£o s√≥ em nossa sociedade, mas tamb√©m nas pr√≥prias teorias evolutivas. Ap√≥s 141 da publica√ß√£o do livro¬†‘A Descend√™ncia do Homem e a Sele√ß√£o Sexual’, em que Darwin introduz a import√Ęncia e as implica√ß√Ķes evolutivas da escolha da f√™mea, pesquisadores rediscutem o papel das f√™meas na sele√ß√£o sexual e sua abrang√™ncia para incluir aspectos n√£o diretamente relacionados com a reprodu√ß√£o.

MARCO EVOLUTIVO traz diretamente do futuro, do dia 19 de agosto de 2012, um n√ļmero especial do peri√≥dico Philosophical Transactions of the Royal Society B: biological Sciences. Intitulado “Sele√ß√£o sexual, conflito social e a perspectiva feminina”, o n√ļmero conta com 11 artigos que giram em torno da competi√ß√£o social feminina.

Enquanto alguns sugerem expandir o escopo da sele√ß√£o sexual para incluir todas as formas de competi√ß√£o entre f√™meas, outros prop√Ķem incluir a sele√ß√£o sexual dentro de algo maior chamado de sele√ß√£o social, outros ainda querem substitu√≠-la completamente por esta. Num sentido mais amplo, a sele√ß√£o social √© tida simplesmente como, a sele√ß√£o resultante das intera√ß√Ķes intraespec√≠ficas sociais. Tudo surgiu quando alguns pesquisadores n√£o conseguiram ver como parte da sele√ß√£o sexual algo que n√£o fosse diretamente ligado √† reprodu√ß√£o, como domin√Ęncia social, por exemplo. Da√≠ inventaram essa tal sele√ß√£o social.

Sinceramente, pra mim essa discuss√£o √© decepcionante. Primeiro, assim como a sele√ß√£o natural n√£o parou no Darwin, a sele√ß√£o sexual tamb√©m evoluiu. O fato de o Dariwn n√£o ter valorizado a ornamenta√ß√£o da f√™mea, nem a competi√ß√£o entre f√™meas, n√£o significa que hoje n√£o saibamos que todas as op√ß√Ķes ocorrem: competi√ß√£o entre machos, entre f√™meas, entre macho e f√™meas, escolha da f√™mea e do macho. E pra isso n√£o precisamos inventar outro conceito.

Segundo, o simples fato da existência da consagrada competição intrasexual, ou seja, luta direta e indireta ritualizada, mostra que seleção sexual não é só sobre sexo, ou apenas coisas diretamente relacionadas à cópula. Ela envolve até as coisas indiretamente relacionadas ao sexo.

Agora, só há evolução, se há reprodução, seja direta, via filhos, ou indireta, via filhos de parentes. Então, a meta final evolutiva, não é só sobreviver (seleção natural), nem só socializar (seleção social), essas atividades são apenas meios para o fim da reprodução (seleção sexual e seleção de parentesco). Mesmo assim, muitos evolucionistas eminentes, como era o caso do próprio Ernst Mayr, consideram a seleção sexual apenas algo menor dentro da seleção natural e de parentesco.

Terceiro, o simples fato de Darwin ter colocado a origem do homem em processos naturais, deixa turva a distin√ß√£o entre sele√ß√£o natural e sele√ß√£o artificial. N√£o h√° nada de mais artificial no ser humano (e nem no que ele faz) do que em qualquer outro animal. Pra mim, tudo isso mostra que n√£o adianta criarmos ou eliminarmos tais conceitos de sele√ß√Ķes se n√£o percebermos que estamos misturando duas coisas. Uma √© ‘quem faz a sele√ß√£o?’: a natureza, o homem, a sociedade ou a f√™mea. Outra coisa √©, ‘visando a que? sobreviv√™ncia, reprodu√ß√£o direta ou reprodu√ß√£o indireta.

Quanto √† √ļltima quest√£o, a coisa √© tranquila, por mim, deixaria a sobrevi√™ncia com a sele√ß√£o natural, a reprodu√ß√£o direta com a sexual e a indireta com a de parentesco.
Para a primeira questão podemos simplificar em dois grupos de atores seletivos: os físicos, os quais são, em geral, mais inertes, não coevoluem com aquilo que selecionam, no sentido de não possuir conflito de interesses; e os biológicos, os quais são direcionais e reativos, pois sempre coevoluem com o que selecionam.

Alguns fatores f√≠sicos s√£o sim alterados em resposta a uma sele√ß√£o condicionada por ele, √© o caso da constru√ß√£o de nicho, em que todo animal (n√£o s√≥ o ser humano) altera seu meio de acordo com suas necessidades, afrouxando algumas press√Ķes seletivas e criando outras. Mas essas press√ßoes nunca ‘revidam’ ou ‘perseguem’ evolutivamente aqueles que selecionam, n√£o t√™m uma agenda pr√≥pria. Os fatores seletivos biol√≥gicos podem vir de outras esp√©cies (como predadores, parasitas, gripes, presas ou domestica√ß√£o) ou ser intraespec√≠ficos. A import√Ęncia da din√Ęmica intraespec√≠fica √© grande, pois veja: ao ca√ßar uma capivara, a on√ßa n√£o s√≥ vence um indiv√≠duos de outra esp√©cie, como sai na frente, naquele dia, na competi√ß√£o por comida com os indiv√≠duos da sua pr√≥pria esp√©cie.

As intera√ß√Ķes intraespec√≠ficas podem ser afiliativas, aversivas ou neutras, de cunho sexual ou n√£o, pra ambos os sexos. O grande desafio ent√£o, √© expandir o entendimento atualizado sobre os conceitos e n√£o criar novos termos tapa-buraco. Assim como existe competi√ß√£o intrassexual (macho-macho e claro tamb√©m f√™mea-f√™mea), existe competi√ß√£o intersexual, entre macho e f√™mea, e ainda existe tamb√©m coopera√ß√£o intrassexual (macho-macho e f√™mea-f√™mea). Assim como existe sele√ß√£o intersexual (f√™mea escolhe macho, e tamb√©m macho escolhe f√™mea), existe sele√ß√£o intrasexual (macho escolhe macho e f√™mea escolhe f√™mea). Tudo isso influenciando a evolu√ß√£o de armamentos (agress√Ķes diretas e indiretas, incluindo piadas ofensivas, bulling e fofoca) e ornamentos (diretos ou indiretos, incluindo piadas positivas, altru√≠smo e recomenda√ß√£o/indica√ß√£o de pessoas).

Al√©m disso, as intera√ß√Ķes sociais dentro da esp√©cie podem ser afiliativas, aversivas ou neutras, de cunho sexual ou n√£o, pra ambos os sexos, sendo parente ou n√£o! Ou seja, existe sim toda uma gama de interrela√ß√Ķes entre sele√ß√£o sexual e de parentesco que deve ser mais bem explorada, afinal ambas s√£o reprodu√ß√£o.
Bom, espero ter ajudado pra abrir o leque de op√ß√Ķes e esclarecer que essa onda de fazer caricatura de conceitos cl√°ssicos, for√ßando a barra em aplic√°-los apenas¬†em casos espec√≠ficos para ent√£o abrir caminho para conceitos ditos ‘mais abrangentes’ (que fazem a mesma coisa no final), t√° por fora.

Evolucionismo de Grande Alcance

Darwin anteviu que num futuro distante sua teoria iria transbordar do c√≠rculo da biologia e atingir outras esferas como a √°rea de Humanidades. A cada dia estamos mais perto de concretizar essa revolu√ß√£o Darwinista e perceber que o evolucionismo, por ser um tema transversal integrador, permeia todos os assuntos. Um bom exemplo disso √© o surgimento de uma revista online evolutivamente relevante chamada “Evolution:This View of Life Magazine”. Com o nome inspirado nas palavras de Darwin em que ao comentar sobre evolucionismo disse que h√° uma grandeza nessa vis√£o da vida.

Criada em outubro de 2011, a revista online gera e agrega conte√ļdo evolucionista relacionado √†s seguintes √°reas: Biologia, Palentologia, Cultura, Sa√ļde, Artes, Tecnologia, Religi√£o, Pol√≠tica, Mente, Economia e Educa√ß√£o. Mesmo com menos de um ano de exist√™ncia essa revista j√° √© um marco evolutivo na divulga√ß√£o do evolucionismo em todo seu alcance interdisciplinar. V√°rias entrevistas foram filmadas via internet com pesquisadores de cada uma dessas √°rea acima. A revista √© fruto de uma parceria do The Evolution Institute com o Cons√≥rcio EvoS, com financiamento da National Scince Fundation.

Por tr√°s da “Evolution:This View of Life Magazine” est√° David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton no EUA. Ele tem se esfor√ßado para expandir a influ√™ncia da evolu√ß√£o em diversas √°reas, como no ensino superior com o EvoS, nas pol√≠ticas p√ļblicas com The Evolution Institute, nas cidades com o The Binghamton Neighborhood Project e na religi√£o com o Evolutionary Religious Institute. √Č claro que como ele √© fiel ao grupo dos selecionistas de grupo acaba usando a revista para se promover e promover sua √°rea. Atualmente ela √© o palco para discuss√Ķes acad√™micas sobre o novo livro do Edward Wilson e a relev√Ęncia da sele√ß√£o de grupo. Felizmente cada uma das 11 √°reas acima tem seu editor pr√≥prio o que garante uma certa pluralidade para¬†a revista.

O surgimento da revista é mais inspirador. Um aluno da pós-graduação o EvoS na Universidade de Binghamton, chamado Robert Kadar, inspirado e motivado pelas leituras do Conciliência do Edward O. Wilson e do Evolution for Everyone do David S. Wilson vislumbrou a idéia dessa revista para catalizar a conciliência entre todas as áreas do conhecimento por meio do evolucionismo para todos.

Assim como a Evolution:This View of Life Magazine surgiu, uma nova geração de estudantes, vários biólogos, psicólogos e outros estão começando blogs de ciência engrossando o caldo da divulgação científica e evolucionista brasileira. Temos muito o que fazer num país com maioria religiosa e de pouca instrução. Ajude você também a promover a conciliação das áreas do saber.