150 anos do livro A Descendência do Homem e a Seleção Sexual de Darwin

Neste dia de 24 de fevereiro há exatos 150 anos foi publicado em Londres com dois volumes de 450 páginas o The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex de Charles Darwin. O livro foi um marco para o estudo da evolução humana e aqui no MARCO EVOLUTIVO não poderíamos deixar de celebrar esta data. Originalmente a ideia de Darwin era apenas ter um capítulo sobre humanos em seu livro The variation of animals and plants under domestication de 1866, mas como o livro já estava grande ele resolveu fazer em separado um pequeno ensaio sobre nossa ancestralidade primata e a seleção sexual, o que acabou crescendo e virando os dois volumes do The Descent of Man em 1871. Neste livro Darwin finalmente pode desenvolver tudo o que ele se referiu ao final do Origem das Espécies quando disse que, por conta da evolução por seleção natural, no futuro muita luz seria lançada sobre a origem dos humanos e nossa psicologia e história.

Intuitivamente sempre nos parece que a diferen√ßa psicol√≥gica entre humanos e outros primatas √© enorme, tanto que at√© o Alfred Wallace abandonou a explica√ß√£o evolucionista ao se tratar da mente humana por achar pouco poss√≠vel de que toda nossa capacidade intelectual tenha evolu√≠do naturalmente em contextos tribais aparentemente pouco exigentes por grandes intelig√™ncias. Muito do The Descent √© uma reposta ao desafio de Wallace. Darwin argumenta que todas as nossas caracter√≠sticas psicol√≥gicas podem ser encontradas em algum grau em outras esp√©cies, incluindo capacidades para a m√ļsica, a beleza, e a moralidade. √Č por isso que numa carta a Wallace Darwin diz que a evolu√ß√£o humana era o maior e mais interessante problema para o naturalista.

Outra no√ß√£o popular na √©poca era a de que toda a exuberante beleza na natureza teria sido magicamente criada para satisfazer os humanos que seriam o √°pice da evolu√ß√£o. Gra√ßas a Darwin e anos de pesquisa subsequente, hoje sabemos que a evolu√ß√£o n√£o tem √°pice e que somos t√£o √ļnicos e t√£o especiais quanto cada uma das outras esp√©cies. No The Descent Darwin argumenta que a beleza sonora e visual encontrada no mundo animal evoluiu naturalmente pelo processo de sele√ß√£o sexual. Indiv√≠duos mais vistosos e sonoros eram preferidos na busca por um parceiro sexual, o que ao longo de muitos ciclos de sele√ß√£o, d√° origem a cada vez mais beleza.

A evolução dos armamentos como chifres era mais facialmente explicada pela competição entre machos o que deixara as armas mais eficientes e maiores. Mas para explicar a evolução da beleza era necessário perceber que as fêmeas das outras espécies também têm senso estético e que a variação nesse senso estético era a pressão social favorecendo a evolução dos ornamentos animais. Portanto, para Darwin a beleza do pavão ou da ave do paraíso não necessariamente precisa indicar uma qualidade de sobrevivência, basta ela ser agradável o suficiente para as fêmeas da espécie que a ornamentação poderia evoluir sendo um fim em si mesma.

Atualmente como parte das celebra√ß√Ķes do sesquicenten√°rio do The Descent, diversas iniciativas tentam resgatar o que Darwin acertou e o que Darwin errou no livro, e todos o desdobramento mais atuais nos dois t√≥picos centrais do livro: evolu√ß√£o humana e sele√ß√£o sexual. O livro A Most Interesting Problem: What Darwin‚Äôs Descent of Man Got Right and Wrong about Human Evolution apresenta uma releitura da perspectiva atual de cada cap√≠tulo relativo ao ser humano. Est√° sendo muito bem avaliado e me pareceu muito interessante tanto para quem quer se atualizar sobre evolu√ß√£o humana quanto para quem quer se aprofundar nas hip√≥teses do The Descent. Em Darwin, sexual selection, and the brain Micheal Ryan faz uma revis√£o das v√°rias linhas de pesquisa relacionadas √† ideia da Darwin sobre a evolu√ß√£o da beleza sendo um fim em si mesma. Em Darwin‚Äôs closet: the queer sides of The descent of man (1871), Ross Brooks ressalta como Darwin integrou a ideia de varia√ß√£o individual nos assuntos da sele√ß√£o sexual o que foi fundamental para o nascimento da sexologia moderna. No Peri√≥dico Evolutionary Human Sciences existem uma compila√ß√£o de artigos celebrando os 150 anos do The Descent, por enquanto com 3 artigos e com promessa de outros mais por vir.

Claro que como todo livro, o The Descent tem v√°rias limita√ß√Ķes e vieses de √©poca, mas nele Darwin deixou claro que as origens evolutivas dos humanos podem sim ser desvendadas. E nesse sentido enquanto um programa de pesquisa a ser desenvolvido, Darwin deu uma inestim√°vel contribui√ß√£o √† evolu√ß√£o humana. E, se percebermos como aspectos morfol√≥gicos, biogeogr√°ficos, interespecificamente comparativos, mas tamb√©m psicol√≥gicos e comportamentais est√£o integrados, o The Descent pode ser considerado bem moderno. Isto porque, de l√° para c√°, ainda s√£o poucos bi√≥logos focando na psicologia e no comportamento, e pouco psic√≥logos focando na evolu√ß√£o. Felizmente as √°reas est√£o cada vez mais se integrando e talvez um dia cheguemos ao grau de integra√ß√£o que o pr√≥prio Darwin expressou 150 atr√°s.

Quatro Anos de MARCO EVOLUTIVO e Feliz 2012

Feliz 2012 a todos nós primatas e a todos os outros seres vivos. Começamos o ano já comemorando não UM, nem DOIS, nem TRÊS, mas sim QUATRO anos (e dois meses) de MARCO EVOLUTIVO, o seu, o meu, o nosso canal online sobre evolução e comportamento humano e todos os temas correlatos, de preservação ambiental a eventos e palestras.

Depois de um 2011 conturbado com a defesa do meu doutorado e de final de ano intenso, cheio de pesquisas e viagens, estou começando esse 2012 com muita energia e grandes perspectivas futuras. Agradeço todos os comentários, elogios e críticas ao blog, tanto de novos leitores quanto dos de longa data. Continuem acessando e compartilhando com os amigos.

Os 5 textos mais lidos em 2011 foram: 1- “O sexo chimpanz√© e o conflito de gera√ß√Ķes“, 2- “Dicas de Livros em Psicologia Evolucionista“, 3- “Coevolu√ß√£o e Sele√ß√£o Sexual no Caso da Vespa Tarada“, 4- “Lamarck – A Verdadeira Id√©ia Errada“, 5- “Criatividade: nossa cauda de pav√£o mental“. O posts de 2011 mais lidos foram “A beleza da competi√ß√£o feminina“, “Dance seu doutorado” e “Diferen√ßas sexuais e o darwinismo“.

De janeiro de 2011 at√© janeiro de 2012 o blog teve quase 22 mil visitas. Tivemos 20 mil visitas no Brasil e 1.000 de Portugal. As outras visitas foram de EUA, Canad√°, Mo√ßanbique,¬†Reino Unido, Espanha,¬†Angola, ¬†Fran√ßa,¬†Jap√£o, Gr√©cia, Argentina, Pol√īnia, It√°lia, Chile, Paraguai, Col√īmbia, Cabo Verde, Peru, Su√≠√ßa, Alemanha.¬†As palavras mais usadas antes de encontrar o¬†MARCO EVOLUTIVO¬†foram: ‚ÄúLamarck‚ÄĚ, ¬†“Marco Evolutivo”, ‚ÄúPsicologia Evolucionista‚ÄĚ, “Steven Pinker”,¬†“Coevolu√ß√£o”, ‚ÄúAntropocentrismo‚ÄĚ, e ‚ÄúSele√ß√£o Sexual‚ÄĚ.

De cara nova desde setembro do ano passado, o MARCO EVOLUTIVO evoluíu bastente na sua aparência e possibilidades em 2011. O destaque foi para a imagem do cérebro humano e da árvore evolutiva da interdisciplinaridade. Agora, além de já ter 84 seguidores na nova página criada no Facebook, conta também com os links para minha dissertação de mestrado e para minha tese de doutorado. Assim todos que tiverem o interesse poderão baixar cada uma e se aprofundar nos temas das diferenças individuais quando ao sexo casual e na evolução das nas nossas capacidades musicais e artísticas através da seleção sexual.

E para o presente evolutivo desse anivers√°rio veremos a palestra de David Sloan Wilson sobre Evolution for Everyone! Aproveitem!

Dance seu doutorado

No ritmo de defesa de doutorado e de comportamento humano art√≠stico veremos hoje formas descontraidas de se apresentar sua pesquisa de doutorado. Agrade√ßo aqui os coment√°rios no post e congratula√ß√Ķes sobre minha defesa de doutorado. Em breve, assim que minha tese sair na biblioteca virtual de teses e disserta√ß√£oes da USP, eu coloco o link aqui para todos poderem baixar.

Agrade√ßo tamb√©m os coment√°rios certeiros sobre a figura com os homin√≠deos segurando instrumentos que passa a impress√£o err√īnea da grande cadeira dos seres. √Č bom ver que os leitores est√£o cada vez mais afiados. Ao cortar o chimpanz√© da imagem inicial deixei a coisa um pouco menos destorcida. Juntos temos que acabar com essa no√ß√£o arrogante de que o ser humano √© o √°pice da cria√ß√£o, pois n√£o existem nem √°pice nem cria√ß√£o. Mais sobre a escala natura veja “Lamarck: a verdadeira id√©ia errada”.

A figura que achei mais interessante n√£o sucitou nenhum coment√°rio. Como assim apresentar a tese de doutorado em forma de dan√ßa interpretativa? Pois √©, sem mais nem menos descubro da exist√™ncia do “The ‘Dance your ¬†Ph.D’ contest”, que j√° est√° na segunda edi√ß√£o. Promovido pelo Gonzo Lab e patrocinado pela Science Magazine e agora pelo TEDx de Bruxelas, concurso premia com $500 dolares a melhor apresenta√ß√£o de trabalhos em cada uma das √°reas: de F√≠sica, Qu√≠mica, Biologia e Ci√™ncias Sociais.

Além de ser uma nova forma de fazer divulgação científica incentivando habilidades artísticas (tão desvalorizadas pela educação atual) essa competição ofereçe mais uma janela sobre o comportamento humano.

No primeiro v√≠deo, que √© da rodada do ano passado, veremos como os conflitos de interesse do comportamento de corte de galin√°ceos pode ser claramente entendido quando transposto para o comportamento humano de corte, muito por serem os mesmo conflitos em jogo. Al√©m disso vimos em “Dan√ßa: um f√©rtil campo de pesquisa evolutiva” a import√Ęncia da dan√ßa na sele√ß√£o sexual.

Male ageing and sexual conflict in the feral fowl (Dance your PhD 2010) from Rebecca Dean on Vimeo.

No segundo v√≠deo, agora de um competidor desse ano, veremos como nem sempre as pessoas tem motiva√ß√Ķes ego√≠stas quando engajam em trocas sociais.

Dance your PhD 2011 – Alexios Arvanitis (Social Exchange Theory) from Alexios Arvanitis on Vimeo.

S√£o muitos outros v√≠deos interessantes e engra√ßados, confira. As inscri√ß√Ķes est√£o abertas at√© dia 10 de outubro. Leia as dicas de como fazer um bom v√≠deos e participe.

Minha Defesa de Doutorado

 

Sei que muitos leitores est√£o aflitos com a falta de post dos √ļltimos s√©culos aqui no MARCO EVOLUTIVO. Pois √© logo isso vai mudar. Porque um evento √ļnico e evolutivo est√° por vir: minha defesa de doutorado.
Para aqueles que não sabem, depois de 4 anos (em média) de estudo da graduação ao se formar em uma universidade alguns percebem que gostam de fazer pesquisa, então fazem o mestrado que dura 2 anos (em média). Daí, alguns poucos decidem continuar a fazer ciência e entram no doutorado.
Muitos pensam que qualquer pol√≠tico ou algu√©m apenas formado em direito ou medicina √© doutor!! N√£o, doutor √© quem recebe o diploma de doutorado ap√≥s cumprir cr√©ditos assistindo aulas de p√≥s e pesquisar 4 anos (em m√©dia) algo in√©dito, qualificar para defender e defender¬†a tese. Tudo isso matriculado em um programa de p√≥s-gradua√ß√£o reconhecido pelo MEC. √Č como se fosse fazer uma nova gradua√ß√£o num tema s√≥. Imagine um trabalho de final de
 semestre que demore 8 vezes mais para ser feito e escrito, essa é a tese.
Assim como o uso popular do termo Teoria é diferente do uso científico, o termo tese não se refere a um palpite ou opinião, mas sim ao mais profundo trabalho de investigação científica, seja no aspecto teórico quanto metodológico. Claro que no final tem-se um texto do tamanho de um livro.
Meu doutorado, assim como o mestrado, foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da USP. Devo muito à minha orientadora, Vera Bussab, a mesma no mestrado e no doutorado, por todos esses anos juntos, ela sabe. Aprendi muito com ela.

Minha tese é intitulada
“Evolu√ß√£o da Musicalidade Humana: Sele√ß√£o Sexual e Coes√£o de Grupo”.

 

Nela abordo e testo algumas explica√ß√Ķes adaptativas para a exist√™ncia das propens√Ķes musicais e art√≠sticas em nossa esp√©cie.
A defesa √© um momento p√ļblico em que o doutorando apresenta em meia hora o resumo da tese e uma banca de 5 doutores, dois internos aos programa da p√≥s, 2 externos ao programa e o orientador fazem sua argui√ß√£o, que inclui cr√≠ticas, elogios, corre√ß√Ķes, coment√°rios, coloca√ß√Ķes e sugest√Ķes futuras.
Se você se interessa pelo tema venha assistir minha defesa dia 25/08, na próxima quinta feira, às 14 horas na sala 36 do bloco F no Instituto de Psicologia da USP da São Paulo, Cidade Universitária.

Apreciação Estética: um ponto de vista Evolutivo

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Apresento aqui uma palestra muito interessante por dois motivos: ser muito bem ilustrada graficamente e por se tratar de um ponto de vista evolutivo para nossas capacidades de aprecia√ß√£o est√©tica. Denis Dutton lan√ßou ano passado o livro The Art Instinct e nele apresenta a Est√©tica Evolucionista e as liga√ß√Ķes entre a sele√ß√£o sexual e as manifesta√ß√Ķes art√≠sticas. De nossa fascina√ß√£o por paisagens ao humor, passando pela m√ļsica e dan√ßa todas guardam as cicatrizes evolutivas das intera√ß√£o sociais ancestrais que promoveram o sucesso reprodutivo diferencial. Vale a pena dar uma conferida nessa sua palestra, na outra palestra de uma hora abaixo mais aprofundada e no site do seu livro. Aproveitem.

Notas e Neur√īnios

√Č com muito prazer que inicio as blogagens de 2010 diretamente do Canad√°. Dessa vez n√£o vim a um congresso. Acabei de me mudar, estou morando no Canad√° h√° uma semana. Durante todo esse ano at√© janeiro de 2011 estarei vivendo o “recheio” do meu doutorado sandu√≠che pela USP (financiando pelo CNPq) aqui na McMaster Univesity. Estou no laborat√≥rio de NeuroArts e come√ßando a entrar em contato com um rico ambiente intelectual e aprendendo muitos aspectos evolutivos, antropol√≥gicos e neurol√≥gicos das manifesta√ß√Ķes musicais entre outras artes.

E nesse clima apresento o “Notes & Neurons” do World Science Festival de 2009. Trata-se de uma √≥tima entrevista-discuss√£o-apresenta√ß√£o-documen√°rio sobre as novas descobertas da neuroci√™ncia sobre nossa musicalidade. Nessa s√©rie de cinco v√≠deos voc√™ vai ver como nosso c√©rebro decomp√Ķe as v√°rias dimens√Ķes da m√ļsica usando diferentes √°reas e depois reitegra de forma paralela as informa√ß√Ķes para termos a experi√™ncia musical. O √Ęncora √© o John Schaefer e os convidados s√£o os cientistas Jamshed Barucha da Tufts Univ., Daniel Levitin da McGill Univ., Lawrence Parsons da Univ. de Sheffield, e o m√ļsico Bobby McFerrin (“Don`t worry, be happy”) que faz interven√ß√Ķes bem interessantes.

No primeiro v√≠deo, ap√≥s o solo de Bobby eles falam um pouco do crescente interesse pelas bases neurais da musicalidade, suas quest√Ķes universais e particularidades culturais. No segundo v√≠deo, veremos que nossa musicalidade sempre inclui m√ļsica e dan√ßa, que n√£o existe uma √ļnica √°rea cerebral respons√°vel por toda a cogni√ß√£o subjascente √† nossa musicalidade, ela est√° distribuida por todo o c√©rebro e o sistema nervoso perif√©rico. Basicamente temos √°reas cerebrais envolvidas na percep√ß√£o e an√°lise auditiva, na mem√≥ria e associa√ß√Ķes, na expectativa do que vai acontecer, no movimento, na sensa√ß√£o corporal, na emo√ß√£o, e na percep√ß√£o visual.
Eles falam dos intervalos muscais que s√£o

universais como a oitava, a quinta, a quarta e a ter√ßa. Falam tamb√©m que quando falamos algo triste usamos o mesmo contorno mel√≥dico dos acordes menores que tamb√©m soam tristes, e quanto estamos com raiva fazemos um intervalo de meio tom. O interessante √© que temos muito mais facilidade de reconhecer o pacote mel√≥dico da fala pra emo√ß√Ķes negativas. J√° que evolutivamente, as consequ√™ncias das emo√ß√Ķes negativas tiveram maior chance de prejudicar a aptid√£o de nossos ancestrais. Bobby McFerrin faz √≥timas demostra√ß√Ķes de varia√ß√£o no timbre, e eles mostram varia√ß√Ķes tamb√©m no ritmo.

No terceiro v√≠deo, eles demostram diferen√ßas entre as escalas ocidentas e as escalas da m√ļsica indiana. Mostram que ter crescido em uma cultura faz com que criemos expectativas musicais t√≠picas das escalas usadas, mas ainda assim possu√≠mos uma platicidade para aprender diferentes escalas e m√ļsicas de culturas distantes. Com a crescente dissemina√ß√£o da afina√ß√£o e da harmonia ocidental atrav√©s do mundo, gra√ßas a pop music industry, corremos o risco de n√£o termos exemplos de m√ļsicas sem a influ√™ncia ocidental para estudos etnomusicol√≥gicos. Mas pensando bem, Jamshed est√° certo em dizer que sim, ainda existe uma √ļltima tribo n√£o exposta √† m√ļsica do resto do mundo, os EUA!

No quarto v√≠deo, veremos a bel√≠ssima e muito did√°tica demostra√ß√£o de Bobby McFerrin sobre as expectativas universais quanto √† escala pentat√īnica. Depois eles falam das rela√ß√Ķes entre musicalidade e linguagem, os casos de l√≠nguas tonais como o chin√™s, tudo parte de uma grande viv√™ncia social compartilhada permeando m√ļsica, dan√ßa e linguagem. E no final comentam que os beb√™s antes de nascer facilmente encorporam as escalas musicais de cada cultura. No √ļltimo v√≠deo m√ļsicos e convidados tocam juntos. Aproveitem e feliz 2010!

Origem das Espécies em Reggae

Hoje veremos uma iniciativa de homenagem a Darwin pelo Origem das Espécies muito interessante e inusitada. Dois acadêmicos, Prof Mark Pallen e doutorando Dom White, ambos da Birmingham University, tiveram a idéia de criar um novo estilo musical: o Genomic Dub. E nesse novo estivo eles fizeram reggae music do Origem das Espécies!!

O Genopmic Dub √© uma empreitada s√©rie a com muito objetivos dentre os quais celebrar a vida e obra de Dariwn bem como os recentes sucessos na √°rea da Gen√īmica e da Biologia Evolutiva. Em sua p√°gina The Genomic Dub Collective, Pallen & White mostram como essa iniciativa pode integrar cultura e ci√™ncia criando um movimento que estimula o interesse geral pela ci√™ncia.

O álbum The Origin of Species in Dub eles incluíram trechos do Origem capítulo por capítulo e exploraram a temática da evolução humana na áfrica e o legado de Darwin. Abaixo veremos os 12 vídeos disponíveis essa incrível iniciativa científica e musical capaz de libertar nossa mente.
E pra fechar esse post descobri hoje que o apelido de inf√Ęncia de Charles Darwin era “Bobby”, algo bem reggae!!

Simp√≥sio de Sexologia e Colet√Ęnia em Sele√ß√£o Sexual

Nesta quinta feita, dia 01/09 tem in√≠cio na UNESP de S√£o Jos√© do Rio Preto o Simp√≥sio de Sexologia promovido pelo Centro Acad√™mico de Biologia “3 de Setembro”. O evento abordar√° os estudos acerca da sexualidade, envolvendo tr√™s grandes tem√°ticas: a biol√≥gica comparativa e adaptativa; a do direito envolvendo aborto e crimes sexuais; e a informativa e de sa√ļde envolvendo orienta√ß√£o sexual, sexualidade nas universidades e DSTs. Achei muito interessante a programa√ß√£o, pois geralmente a abordagem evolutiva para a sexualidade est√° fora da Sexologia.

Durante o Simp√≥sio de Sexologia eu darei um mini-curso sobre a Evolu√ß√£o das Estrat√©gias Sexuais. Para os participantes e para todos interessados no tema eu recomendo que leiam os posts sobre sele√ß√£o sexual do MARCO EVOLUTIVO. Para descobrir sobre os padr√Ķes da sele√ß√£o sexual nos outros animais vejam:

Para descobrir influências da seleção sexual no comportamento humano vejam:

E para vejam ótimos vídeos de especialistas no assunto vejam:
 

E falando em ótimos vídeos, aqui veremos em primeira mão um vídeo colocado hoje no youtube de um podcast do Biólogo Evolucionista Tim Clutton-Brock do Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge. Nele Clutton-Brock aborda primeiro o desafio à evolução que os ornamentos representaram pra Darwin e sua solução foi criar a Seleção Sexual. Ele separa a beleza em dois tipos: a beleza simples e funcional do design adaptativo que evoluiu por seleção natural; e a beleza exagerada, multifacetada e complexa dos ornamentos que evoluiu por seleção sexual.

Ele fala que a sele√ß√£o sexual, apesar de pensada s√≥ para formas e cores, atua em todas as formas de sistemas de sinaliza√ß√£o e envolve sons e cheiros atraentes. Para ele as aves e mam√≠feros diferem quanto aos canais de comunica√ß√£o o que pode ser evidenciado nas diferen√ßas de ornamentos. As aves s√£o em geral mais visuais e sonoras enquanto os mam√≠feros s√£o em geral mais voltados para os ornamentos olfativos. Ele borda tamb√©m que a maioria das pesquisas tem foco nas exibi√ß√Ķes masculinas, mas que atualmente os ornamentos femininos est√£o sendo mais estudados. Aborda tamb√©m o efeito da assimetria no investimento parental nas diferen√ßas sexuais nos humanos e nos benef√≠cios que as f√™meas t√™m na sele√ß√£o sexual.

A Mente Musical

Ocorreu em Goi√Ęnia no final de maio o V Simp√≥sio de Cogni√ß√£o e Artes Musicais (SIMCAM). Um verdadeiro ponto de encontro entre humanidades e ci√™ncias em torno da musicalidade humana. Uma iniciativa anual de cinco anos da Associa√ß√£o Brasileira de Cogni√ß√£o e Artes Musicais, composta por pesquisadores brasileiros de diversas √°reas de educa√ß√£o musical at√© neuroci√™ncias da m√ļsica.

O SIMCAM sempre tem convidados internacionais, √≥timas palestras e mesas redondas, apresenta√ß√Ķes orais e de p√īsteres, al√©m de v√°rias apresenta√ß√Ķes musicais de todos os estilos e g√™neros: de m√ļsica barroca at√© eletroac√ļstica. O SIMCAM √© sempre uma √≥tima oportunidade para conhecermos melhor pesquisas e pesquisadores interessados nos v√°rios aspectos de musicalidade humana.

Nesse ano foram dois os convidados internacionais. A Katie Overy da University of Edinburgh, Reino Unido n√£o pode comparecer de √ļltima hora, mas mandou sua apresenta√ß√£o e o pdf do seu artigo a tempo de divulgar a todos suas pesquisas. Sua comunica√ß√£o girou em torno das rela√ß√Ķes entre a experi√™ncia musical e o sistema de neur√īnio espelho propondo um modelo de experi√™ncias afetivas e gestuais da m√ļsica.

O Steven Brown da McMaster University, Canad√° compareceu e falou sobre porque algumas pessoas cantam desafinado. Mostrou com suas pesquisas como a desafina√ß√£o n√£o est√° relacionada a aspectos da mem√≥ria, da percep√ß√£o mel√≥dica, nem habilidade motora e sim na habilidade imita√ß√£o vocal. Sua palestra foi muito interessante, pois al√©m de tudo mostrou v√°rias pessoas cantando desafinado, cantos de outras esp√©cies e de outras culturas, que arrancou risadas e exclama√ß√Ķes da plat√©ia.

O Steven Brown ainda veio para o Instituto de Psicologia da USP dar uma disciplina de p√≥s-gradua√ß√£o a convite meu e da minha orientadora. A disciplina foi sobre as Artes e o C√©rebro e ele abordou o estudo unificado das artes, suas origens evolutivas, os mecanismos cerebrais envolvidos na dan√ßa e m√≥dulos cerebrais relacionados a diferentes manifesta√ß√Ķes art√≠sticas. A disciplina foi muito boa, rica em conte√ļdos e discuss√Ķes. Apareceram quase 30 alunos dentre mestrandos doutorandos e professores de outras unidades.


A grande quantidade de pessoas interessadas na disciplina somada √†s centenas de pessoas que j√° participaram dos SIMCAMs mostram crescente interesse pelas pesquisas sobre artes e principalmente m√ļsica. Muitos livros atualmente est√£o sendo lan√ßados sobre o tema dentre os famosos est√£o o “Alucina√ß√Ķes musicais” do Oliver Sacks e o “This is your Brain on Music” de Daniel Levitin.

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A uni√£o interdisciplinar promovida pela Associa√ß√£o Brasileira de Cogni√ß√£o e Artes Musicais j√° at√© culminou no o primeiro livro brasileiro sobre cogni√ß√£o musical, o “Em Busca da Mente Musical”, um esfor√ßo de v√°rios autores editado pela Beatriz Ilari da UFPR. O livro conta com um capitulo escrito pelo pr√≥prio Daniel Levitin.

Abaixo veremos v√≠deo e entrevista de Oliver Sacks comentando sobre os interessantes casos neurol√≥gicos relacionados √† musicalidade, como sinestesias e amusias. E NESSE link voc√™s poder√£o assistir um document√°rio The Muscial Brain de 45 min com Daniel Levitin sobre v√°rios aspectos do c√©rebro musical desde o desenvolvimento musical em beb√™s at√© a evolu√ß√£o da musicalidade. Nesse document√°rio Levitin submete o cantor Sting do The Police ao imagiamento cerebral realizando diferentes tarefas. S√£o V√≠deos e livros imperd√≠veis para os amantes da ci√™ncia e da m√ļsica.

Criatividade: nossa cauda de pav√£o mental

Voc√™ j√° assistiu a algum programa mostrando premia√ß√Ķes de comerciais de televis√£o? Um comercial melhor que o outro, mais engra√ßado, mais inusitado, mais criativo. N√£o d√° para assistir e n√£o ficar admirado com a capacidade criativa do ser humano. E por mais que a estrutura do comercial seja previs√≠vel, o desfecho sempre √© inusitado e interessante. Todo comercial premiado tem um come√ßo que soa estranho ou √≥bvio sobre algo familiar, da√≠ no final vem a p√©rola criativa, o cl√≠max, que d√° um novo sentido para a estranheza ou para o √≥bvio inicial. Essas cria√ß√Ķes humanas nos deixam instigados em compreender as origens dessa capacidade criativa que permeia toda a vida social do ser humano.
A criatividade √© frequentemente considerada uma das caracter√≠sticas fundamentais do nosso comportamento moderno. Enfoques etnogr√°ficos, arqueol√≥gicos e etol√≥gicos mostram que muitos dos comportamentos que expressam a criatividade, como a ornamenta√ß√£o corporal, a pintura, a dan√ßa, a m√ļsica, o humor e a cria√ß√£o de hist√≥rias s√£o comportamentos universais para todas as culturas e t√™m ra√≠zes em √©pocas muito antigas. Somado a isso, a facilidade e espontaneidade com que as crian√ßas precocemente expressam sua criatividade em brincadeiras nos sugerem que nossa capacidade criativa seja uma potencialidade intr√≠nseca da natureza humana.
Adaptação mental
Mas será que a criatividade humana é apenas um efeito colateral da atividade neural caótica de nossos cérebros complexos e grandes? Ou ela teria algum valor adaptativo ao longo de nossa evolução? Tendo em vista a universalidade, a antiguidade e a precocidade envolvida nos processos criativos, bem como a quantidade de energia e tempo que gastamos com comportamentos criativos, desde produção, participação e apreciação, é bem possível que a cognição envolvida na criatividade tenha desempenhado alguma função adaptativa em nosso ambiente ancestral. Dado que a evolução elimina facilmente da população ancestral comportamentos que consomem muitos recursos e não proporcionam consideráveis benefícios evolutivos à sobrevivência ou à reprodução dos indivíduos.
De certo modo n√£o precisamos usar muito a criatividade para imaginar como a sele√ß√£o natural teria favorecido ancestrais que solucionavam criativamente seus problemas de sobreviv√™ncia. Qualquer id√©ia nova que ajudasse na obten√ß√£o de alimento como armadilhas, utens√≠lios como cestos e redes, e estrat√©gias para surpreender a ca√ßa dariam uma enorme vantagem adaptativa ao indiv√≠duo, seus parentes e amigos. Ou ent√£o qualquer forma criativa de solucionar melhor outros problemas de sobreviv√™ncia, como evitar doen√ßas, espantar predadores, lidar com o frio e com a seca, traria conseq√ľ√™ncias positivas para a evolu√ß√£o da criatividade.
De fato muita pesquisa sobre criatividade tem seu foco principal na capacidade de se resolver problemas pr√°ticos, como os de sobreviv√™ncia. A pr√≥pria defini√ß√£o de criatividade envolve a habilidade de se produzir algo novo e √ļtil. A utilidade envolve a adequa√ß√£o da id√©ia criativa para a solu√ß√£o de um problema bem definido. A novidade reflete a dificuldade daquela solu√ß√£o para tal problema dada a baixa freq√ľ√™ncia com que as pessoas puderam solucion√°-lo anteriormente. Por esse foco, as pesquisas sobre criatividade justificam seus custos como um modo de descobrir como as pessoas poderiam melhorar sua capacidade de resolver problemas t√©cnicos. As empresas valorizam pensadores criativos para poderem solucionar melhor problemas empresariais internos e externos, al√©m de patentear novas inven√ß√Ķes. Como se a busca por novidade n√£o pudesse ser estudada como tendo um fim em si mesma, apenas como um meio de encontrar solu√ß√Ķes para problemas dif√≠ceis.

Seleção sexual entra em cena

√Č bem poss√≠vel que haja vantagens adaptativas √† criatividade pautadas na sobreviv√™ncia, mas isso n√£o exclui poss√≠veis vantagens relacionadas √† reprodu√ß√£o. Pense no p√© humano. Ele √© diferente do p√© do chimpanz√©, pois foi adaptado ao nosso modo b√≠pede de andar. Essa vantagem √† sobreviv√™ncia n√£o exclui a possibilidade da sele√ß√£o sexual ter atuado, pois a escolha de parceiros pode valorizar al√©m da funcionalidade, a est√©tica das adapta√ß√Ķes. Isso acrescenta uma nova din√Ęmica seletiva somada √† anterior. Agora n√£o apenas a press√£o cega do ambiente atua e sim a escolha ativa e consciente por parte das pessoas. E voc√™ deve conhecer pessoas que admiram, adoram ou t√™m fetiches por p√©s (podolatria), ou ainda pessoas que n√£o gostam do pr√≥prio p√© a ponto de ter vergonha de sair com o p√© √† mostra. Al√©m disso, ningu√©m duvida que a est√©tica de m√£os e p√©s n√£o seja importante dada as consagradas profiss√Ķes de manicure e pedicure, fora aqueles profissionais modelos de m√£os e p√©s para comerciais. Ent√£o, assim como a est√©tica e a sensualidade do p√© pode evoluir tamb√©m pela sele√ß√£o sexual, al√©m da press√£o seletiva para o andar b√≠pede, a criatividade pode ter evolu√≠do em parte por suas vantagens na atra√ß√£o, manuten√ß√£o e na disputa por parceiros amorosos.
Essa mudança de foco da solução criativa visando problemas técnicos para a exibição criativa relacionada à paquera tem sido um novo campo frutífero de investigação científica. Apoiando a idéia da influência da seleção sexual, estudos têm mostrado que nós expressamos um desejo por criatividade num parceiro amoroso. Mesmo quem não é cientista já vivenciou uma situação de conquista amorosa, e percebeu na pele como a criatividade é importante para transformar um primeiro contato duvidoso numa conversa interessante, descontraída e prazerosa ou num tremendo fora desconcertante.
A primeira pesquisa
Uma pesquisa de 2006, amostrando no total 262 homens e 353 mulheres, traz grandes contribui√ß√Ķes a essa quest√£o ao testar as influ√™ncias da sele√ß√£o sexual na criatividade humana. Griskevicius, Cialdini e Kenrick reconhecem que os √≥rg√£os mentais, que s√£o os processadores cognitivos voltados para problemas adaptativos espec√≠ficos, s√£o adaptativamente bem sens√≠veis a pistas ecol√≥gicas indicadoras de determinado problema ou oportunidade para os quais s√£o voltados. Pistas ambientais relacionadas ao acasalamento ativam o sistema de busca por parceiros amorosos e os mecanismos cognitivos relacionados ao cortejo amoroso, facilitando percep√ß√Ķes, cogni√ß√Ķes e comportamentos particulares associados ao sucesso reprodutivo. Ent√£o, se exibi√ß√Ķes de criatividade evolu√≠ram em parte por seu benef√≠cio na conquista amorosa, pistas voltadas para ativar a busca por parceiros amorosos ativariam exibi√ß√Ķes de criatividade nas pessoas.

Eles realizaram quatro experimentos para testar a influ√™ncia da ativa√ß√£o mental rom√Ęntica no aumento da exibi√ß√£o de criatividade. Usaram medidas repetidas (antes e depois) da criatividade dos participantes, que escreviam hist√≥rias livres sobre diferentes figuras equivalentes antes e depois do tratamento experimental. As hist√≥rias eram avaliadas por juizes independentes quanto a serem criativas, originais, inteligentes, imaginativas, cativantes, engra√ßadas, envolventes e charmosas, atributos que juntos compunham a medida subjetiva de criatividade.

Estudo n√ļmero 1

No primeiro estudo, o procedimento de ativa√ß√£o era a apresenta√ß√£o para metade dos participantes de fotos de pessoas atraentes e era pedido para que escolhessem a que mais agradasse e depois que escrevessem como imaginariam o primeiro encontro com a pessoa. A outra metade era a controle, viam uma foto de uma rua com alguns pr√©dios e era pedido para que se imaginassem l√° e escrevessem quais seriam as melhores condi√ß√Ķes clim√°ticas para passear e ver os pr√©dios. A an√°lise mostrou que os homens que viram as fotos de mulheres bonitas apresentaram maiores √≠ndices de criatividade na segunda hist√≥ria. Para as mulheres, n√£o houve diferen√ßa no n√≠vel de criatividade da primeira para a segunda hist√≥ria entre as que viram homens bonitos e as que viram a rua.
Estudo n√ļmero 2
No segundo estudo o procedimento de ativa√ß√£o mudou de fotos para hist√≥rias de contextos de busca de parceiros. Isso visando evitar vieses das diferen√ßas entre homens e mulheres no efeito da exposi√ß√£o visual de parceiros em potencial, j√° que homens s√£o mais visuais e mulheres mais contextuais. As hist√≥rias de contextos de busca de parceiros eram textos descrevendo uma situa√ß√£o em tr√™s vers√Ķes: curto prazo, longo prazo e controle, que compunham grupos independentes.
Na vers√£o de curto prazo, o texto descrevia uma situa√ß√£o de busca de parceiro rom√Ęntico para um relacionamento curto e levava o participante a se imaginar encontrando e sendo correspondido por uma pessoa atraente no √ļltimo final de semana de sua viagem de f√©rias, numa ilha ex√≥tica, sem a possibilidade de reencontro e que termina com beijos na praia. Na vers√£o de longo prazo o texto descrevia uma situa√ß√£o de busca de parceiro rom√Ęntico para um relacionamento de longo prazo e levava o participante a se imaginar encontrando e sendo correspondido por uma pessoa atraente que estuda na mesma universidade, que √© vista frequentemente e termina com beijos. Na vers√£o controle o texto descrevia uma situa√ß√£o neutra quanto √† busca de parceiros em que o participante era levado a se imaginar com um amigo do mesmo sexo procurando os ingressos de um show que iriam √† noite e depois de muito procurar eles encontram e assistem ao show. A an√°lise mostrou que tanto os homens que leram as hist√≥rias de curto prazo quanto os que leram as de longo prazo apresentaram maiores √≠ndices de criatividade na segunda hist√≥ria. Para as mulheres n√£o houve diferen√ßa entre as controle, curto prazo e longo prazo.

Estudo n√ļmero 3

No terceiro estudo o procedimento das tr√™s vers√Ķes de hist√≥rias se manteve, mas visando evitar vieses das diferen√ßas entre homens e mulheres quanto √† necessidade de comprometimento amoroso no relacionamento de longo prazo, o texto da hist√≥ria de longo prazo foi completado. Acrescentaram uma frase indicando que a pessoa j√° se mostrou comprometida para a rela√ß√£o s√©ria anterior, que os seus amigos e os amigos da pessoa aprovam a rela√ß√£o e termina com beijos de reatamento do casal.
Os autores usaram antes e depois das hist√≥rias uma medida objetiva da criatividade, o teste RAT (Remote Associates Test), que avalia a capacidade e a facilidade dos indiv√≠duos em fazer associa√ß√Ķes apropriadas entre palavras relacionadas. A an√°lise mostrou que, assim como com as hist√≥rias criativas, o teste RAT foi influenciado pelo contexto de curto prazo apenas para os homens. J√° no contexto de longo prazo comprometido, homens e mulheres apresentaram igualmente melhores resultados de criatividade do que o controle. Isso mostra que homens e mulheres t√™m capacidades de aumento nas capacidades criativas quando expostos a contextos amorosos, mesmo as mulheres sendo muito mais exigentes quanto √†s condi√ß√Ķes necess√°rias para sua melhora.
Estudo n√ļmero 4¬†

No √ļltimo dos quatro estudos, o teste objetivo de criatividade RAT foi usado e o procedimento de hist√≥ria continha: a de curto prazo, a controle, e um terceiro grupo que receberia uma proposta de incentivo econ√īmico para ser mais criativo. Aqueles que, tentando ao m√°ximo ser mais criativo, estivessem entre os 30% melhores ganhariam 60 d√≥lares. A an√°lise mostrou que, assim como os outros estudos, os homens expostos ao contexto de busca de parceiros de curto prazo se mostraram mais criativos do que o grupo controle. E se mostraram mais criativos tamb√©m do que os que receberiam o incentivo monet√°rio e se esfor√ßaram para ficarem criativos. N√£o houve diferen√ßas para as mulheres das condi√ß√Ķes controle, curto prazo e incentivo monet√°rio.
Os quatro experimentos exploraram os efeitos das motiva√ß√Ķes rom√Ęnticas na exibi√ß√£o de criatividade. Mesmo sem incentivos espec√≠ficos, motiva√ß√Ķes rom√Ęnticas aumentaram a criatividade dos indiv√≠duos segundo indicadores subjetivos e objetivos. Esse aumento n√£o est√° relacionado com um maior empenho nas tarefas, como mais palavras escritas ou mais tempo elaborando a hist√≥ria, nem com mudan√ßas de humor e n√£o foi alcan√ßado pelo incentivo monet√°rio para ser mais criativo.
Conclus√Ķes interessantes
Para os homens, as pistas contextuais voltadas para relacionamentos de curto e de longo prazo aumentaram as exibi√ß√Ķes de criatividade. O que mostra que as exig√™ncias sobre a qualidade da parceira requeridas pelos homens para ativar exibi√ß√Ķes de criatividade s√£o baixas. Isso porque eles n√£o t√™m muito a perder em ambos os tipos de relacionamento, j√° que n√£o foram eles que carregaram os custos fisiol√≥gicos de gesta√ß√Ķes desejadas e indesejadas durante todo o per√≠odo no ambiente ancestral. Para as mulheres, apenas as pistas contextuais voltadas para relacionamentos de longo prazo comprometidos aumentaram as exibi√ß√Ķes de criatividade. Isso indica que as exig√™ncias sobre a qualidade do parceiro requeridas pelas mulheres para sua exibi√ß√£o criativa s√£o mais elevadas. Isso porque o comprometimento por parte dos homens garantia a uni√£o do casal necess√°ria para o cuidado bi-parental da prole no ambiente ancestral.
As Musas
√Č poss√≠vel supor que exibi√ß√Ķes criativas evolu√≠ram em parte por seu benef√≠cio na conquista amorosa pela sele√ß√£o sexual, ent√£o poderemos finalmente ter uma explica√ß√£o evolutiva para o antigo e muito difundido fen√īmeno das musas inspiradoras. O Guinness Book lista o pintor Pablo Picasso como o artista mais produtivo da hist√≥ria, com admir√°veis 147.800 obras de arte.¬†

A carreira de Picasso √© marcada por uma s√©rie de per√≠odos art√≠sticos de profunda inspira√ß√£o criativa ‚Äď a fase azul, rosa, cubista, surrealista ‚Äď nas quais sua pintura revelava transforma√ß√Ķes visuais extravagantes. Por√©m um olhar mais atento para seus per√≠odos gerativos mostra uma constante intrigante: cada nova √©poca criativa floresce com pinturas de uma nova mulher, uma musa. Essa hist√≥ria art√≠stica n√£o √© exclusiva de Picasso: Salvador Dali, Friedrich Nietzsche e Dante dentre outros que tamb√©m tiveram musas inspiradoras influenciando suas cria√ß√Ķes.
A no√ß√£o enigm√°tica de musa tem ra√≠zes na mitologia grega em que nove deusas musas atravessavam a Terra agitando os esp√≠ritos criativos de mortais artistas e pensadores. Segundos historiadores, todas as musas compartilham um fator comum intrigante e inexplic√°vel: musas tanto reais da hist√≥ria quanto da mitologia s√£o universalmente mulheres. Pense em quantas m√ļsicas existem com nomes de mulheres: Michele, Ana J√ļlia, Janaina, Maria Maria, Carolina, Ive Brussel, Bebete, Madalena, Dinorah Dinorah, Iracema, Aurora, Am√©lia, Bete Balan√ßo dentre muitas outras.

Agora podemos explicar isso. As musas não são todas mulheres porque a figura masculina não é capazes de inspirar pessoas, nem porque os homens são mais criativos do que mulheres. Mas sim porque, como o estudo demonstrou, os homens têm seu potencial criativo disparado por mais contextos amorosos: imagens do sexo oposto, relacionamentos de curto prazo, longo prazo, e longo prazo comprometido. Enquanto as mulheres, que são tão criativas quanto os homens, têm seu potencial criativo disparado apenas quanto o companheiro demonstra comprometimento.

Um exemplo do efeito equivalente aos das musas para as mulheres e que tamb√©m est√° de acordo com os resultados femininos do estudo vem de Elizabeth Barrett Browning, uma poetisa vitoriana renomada. Aos vinte anos, enquanto se encontrava com uma produ√ß√£o art√≠stica mediana, ela recebeu uma carta de um f√£ apaixonado, Robert Browning, que lhe declarou seu amor. Elizabeth n√£o se convenceu das inten√ß√Ķes de seu f√£ por pelo menos um ano inteiro quando, muitas cartas de Robert depois, eles concordaram em iniciar a s√©rio seu relacionamento. E foi precisamente durante esse per√≠odo do relacionamento quando Elizabeth inspirou-se a escrever Sonnets from the Portuguese, que se tornou sua obra criativa mais importante e mais aclamada criticamente.

Criatividade como indicador de aptid√£o
Tudo bem, a criatividade tem muita import√Ęncia na sele√ß√£o de parceiros amorosos, mas por que essa caracter√≠stica mental humana seria valorizada? O que ela t√™m de especial? Ser√° que a criatividade indica alguma coisa relevante para a sele√ß√£o sexual? √Č bem poss√≠vel que sim. A criatividade pode tanto indicar confiavelmente algo sobre a pessoa criativa quanto ela pode explorar as propens√Ķes cognitivas preexistentes nos espectadores superestimulando-as no cortejo amoroso. Uma propens√£o cognitiva que temos √© a neofilia, a atra√ß√£o pelo novo, ela est√° entranhada no c√©rebro dos animais. Os c√©rebros s√£o naturalmente voltados para previs√Ķes. As mentes operam um modelo interno do que de biologicamente relevante est√° acontecendo no mundo e prestam aten√ß√£o quando o mundo desvia-se do esperado. O poder de atra√ß√£o da aten√ß√£o, da novidade, √© uma das inclina√ß√Ķes psicol√≥gicas mais fundamentais que poderiam ter influenciado a evolu√ß√£o das exibi√ß√Ķes de cortejo. No livro A Origem do Homem e a Sele√ß√£o Sexual de 1971, Charles Darwin escreveu: ‚ÄúPareceria at√© que a mera novidade, ou a mudan√ßa pela mudan√ßa em si mesma, √†s vezes tem agido como um encanto sobre as f√™meas de p√°ssaros, do mesmo modo que as mudan√ßas na moda nos afetam.‚ÄĚ


Anti-tédio

Nas sociedades humanas modernas, a neofilia √© a funda√ß√£o de muitas manifesta√ß√Ķes como a pintura, m√ļsica, televis√£o (programas e comerciais), filmes, m√≠dia, imprensa, drogas, viagens, pornigrafia, moda, r√°dio e industrias de pesquisa, que respondem por uma propor√ß√£o substancial da economia global. Antes dessas ind√ļstrias do entretenimento come√ßar a nos divertir, precis√°vamos divertir uns aos outros na savana africana ancestral. Nessa vis√£o, a criatividade evoluiu pela sele√ß√£o sexual como um dispositivo anti-t√©dio. Os parceiros sexuais entediados depois de alguns dias ou semanas podem n√£o ter estabelecido relacionamentos mais duradouros abrindo m√£o de vantagens reprodutivas. C√©rebros menos criativos que ofereciam menos novidades cont√≠nuas, sendo menos interessantes como parceiros sexuais, amantes, amigos e companheiros, n√£o tinham o suporte necess√°rio para deixar muitos filhos.

As formas atraentes de novidade tendem a basear-se em um truque unicamente humano: a recombina√ß√£o criativa de elementos simb√≥licos aprendidos, como palavras, gestos, movimentos, s√≠mbolos visuais, para a produ√ß√£o de arranjos novos com novos significados emergentes, como em hist√≥rias, melodias, poesias, dan√ßas, piadas e pinturas. Este truque permite que as exibi√ß√Ķes de cortejo humanas n√£o apenas provoquem os sentidos e a aten√ß√£o de potenciais parceiros amorosos, mas criem novas id√©ias e emo√ß√Ķes nas mentes de todas as pessoas independentes de inten√ß√Ķes sexuais e de paquera expl√≠cita. Como podemos ver, essas exibi√ß√Ķes sociais n√£o precisam ser sexuais como a p√īrno-chanchada para ser produto de sele√ß√£o sexual. Se um filme de terror entreter, causar fasc√≠nio e admira√ß√£o nas pessoas de modo que seu criador tenha um melhor status e uma maior aprecia√ß√£o social, inevitavelmente suas chances de reproduzir v√£o aumentar.
Sabemos ent√£o como nossas propens√Ķes neof√≠licas podem ter sido exploradas pela sele√ß√£o sexual da criatividade. Agora precisamos saber se a criatividade em si indica alguma caracter√≠stica evolutivamente desej√°vel no parceiro. Como a maioria dos mam√≠feros come√ßa a vida sendo graciosos, brincalh√Ķes e inovadores, e gradualmente tornam-se s√©rios, pragm√°ticos e levados pelo h√°bito, comportamentos brincalh√Ķes e criativos na p√≥s-puberdade podem ser indicadores de juventude, sa√ļde e fertilidade. E como existe uma correla√ß√£o positiva moderada entre a criatividade e a intelig√™ncia, de modo que a alta intelig√™ncia parece ser uma condi√ß√£o necess√°ria, mas n√£o suficiente para a alta criatividade, √© poss√≠vel que a criatividade seja um bom indicador de intelig√™ncia geral tamb√©m.
Juventude, sa√ļde, fertilidade, humor e intelig√™ncia s√£o caracter√≠sticas influenciadas pela intera√ß√£o entre muitos genes e muito sens√≠veis ao ambiente de desenvolvimento, portanto elas s√£o mais vulner√°veis a muta√ß√Ķes e a efeitos ambientais delet√©rios o que as torna bons indicadores de qualidade gen√©tica, de bons genes. Se a criatividade for um indicador de bons genes ent√£o ela deveria estar mais relacionada a relacionamentos de curto prazo do que de longo prazo. Essa quest√£o foi pesquisada em 2006 num trabalho de Haselton e Miller. Eles tamb√©m avaliaram se a prefer√™ncia pela criatividade masculina por parte das mulheres variava conforme as mudan√ßas na fertilidade ao longo das fases do ciclo menstrual.

A segunda pesquisa

Haselton e Miller amostraram 41 mulheres que n√£o tomavam contraceptivos hormonais e tinham o ciclo menstrual regular. As participantes liam pequenas descri√ß√Ķes de homens muito criativos e pobres e de homens pouco criativos e ricos al√©m de dar informa√ß√Ķes sobre a data da √ļltima menstrua√ß√£o, que possibilitou calcular n√≠vel de fertilidade da participante no dia da pesquisa. As an√°lises mostraram a exist√™ncia de uma correla√ß√£o positiva entre fertilidade e a prefer√™ncia por homens criativos e pobres apenas quando as mulheres respondiam pensando em relacionamentos de curto prazo. E para relacionamentos de longo prazo n√£o houve rela√ß√£o entre prefer√™ncia por criatividade e fase do ciclo menstrual. A estimativa da fertilidade feminina previu sua prefer√™ncia para o curto prazo tanto na sua prefer√™ncia por cada tipo de homem, quanto na escolha for√ßada entre o criativo e pobre e o pouco criativo e rico.
Amplos horizontes
Esses resultados sugerem que a intelig√™ncia criativa masculina seja um indicador de aptid√£o referente a bons genes e que ela evoluiu em parte pela sele√ß√£o sexual, com as mulheres preferindo homens mais criativos para relacionamentos de curto prazo. O trabalho sobre a prefer√™ncia pela criatividade em relacionamentos de curto prazo no per√≠odo f√©rtil e o trabalho anterior sobre a maior exibi√ß√£o da criatividade em contextos relacionados com a busca de parceiros d√£o uma boa no√ß√£o de quanto √© promissor o estudo de caracter√≠sticas psicol√≥gicas imersas na criatividade pela √≥tica da sele√ß√£o sexual. Muitos estudos sobre m√ļsica, dan√ßa, poesia, pintura, escultura, teatro, malabarismos, humor e narra√ß√£o de hist√≥rias dentre outros ainda est√£o por vir. Isso ir√° aproximar as pessoas das √°reas de comunica√ß√£o e artes de psic√≥logos e bi√≥logos. E al√©m de mais pesquisadores nessa √°rea, a Psicologia Evolucionista vai precisar de muita criatividade para desenvolver desenhos experimentais como esses capazes de testar hip√≥teses evolucionistas de sele√ß√£o sexual.
Dicas de leituras
Darwin, C. R. (1871/2004). A origem do homem e a seleção sexual. Belo Horizonte: Itatiaia.
Griskevicius, V.; Cialdini, R. B. & Kenrick, D. (2006). Peacocks, Picasso, and parental investment: The effects of romantic motives on creativity. Journal of Personality and Social Psychology, 91(1), 63 ‚Äď 76.
Haselton, M. G. & Miller, G. F. (2006). Women‚Äôs fertility across the cycle increases the short-term attractiveness of creative intelligence. Human Nature, 17(1), 50 ‚Äď 73.
Miller, G. F. (2001). A mente seletiva. Rio de Janeiro: Campus.