Futuros líderes da energia limpa, será?

Há cerca de um mês atrás, salvo engano, li uma reportagem no caderno ambiente da Folha Online com o diretor do Centro de Leis e Políticas Ambientais da Universidade de Yale, Daniel Esty. O tema da reportagem era a possível liderança internacional do Brasil quando assuntos como geração de energia por fontes alternativas e mudanças climáticas globais estivessem em pauta. Segundo Esty, o Brasil apresenta-se fortemente inclinado a assumir tal posição. No entanto, ele chama a atenção para o fato de que o país deve, antes de tudo, resolver problemas internos que o colocam como o quarto maior emissor de gases do efeito estufa do mundo. Questões como o combate ao desmatamento e as queimadas, além de outras relacionadas à redução das emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis são fundamentais. Além disso, ele cobra um posicionamento do Brasil frente a uma nova conjuntura que se estabelecerá pós-Kyoto, cujo prazo de validade está se esgotando, expirando em 2012. Como já comentei em outros posts, o Brasil, assim como outros países em desenvolvimento grandes emissores de gases do efeito estufa, exemplificados aqui por China e Índia, não apresentam metas de redução de emissões, uma vez que, na época da elaboração do Protocolo de Kyoto, foram enquadrados como países do não Anexo I.
Na reportagem, Esty baseou seu prognóstico no fato do Brasil já ter um histórico positivo com relação ao uso do etanol. Além disso, o país apresenta um plano para uso desse e de outros biocombustíveis de segunda geração, além de ter uma matriz de geração de energia elétrica essencialmente limpa, hidrelétrica. Porém, algumas questões aqui podem e devem ser levantadas e discutidas. O fato de o Brasil ser líder em biocombustíveis e produzir energia elétrica essencialmente hidrelétrica já o torna aspirante a líder mundial do setor? Na minha opinião não. Antes de aspirar qualquer posição hierárquica mais alta o país tem que resolver problemas sócio-ambientais ligados à produção dessas “limpas” formas de energia. É só observar as condições de trabalho a que os cortadores de cana são submetidos ou observar como ganha força o movimento dos atingidos por barragens. Não obstante, é condenável um avanço das fronteiras agrícolas de cana-de-açúcar sem um planejamento adequado, levando-se em consideração aspectos importantes como a segurança alimentar ou mesmo planos de manejo e conservação ambiental. Também não é fora de mão discutir-se aspectos relacionados à geração de energia elétrica por fontes alternativas, como eólicas (a partir dos ventos) ou solares, cujo potencial de geração do país é grande, como pode ser visto aqui.
Se existe realmente a pretensão, por parte do governo brasileiro, de assumir tal posição, os números recentes não são nada animadores. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)  a taxa de desmatamento da Amazônia cresceu entre agosto de 2007 e julho de 2008, primeira alta anual desde 2004. Os números cresceram 3,8%, atingindo 11986 km2. Coincidência ou não, na segunda-feira dessa semana (08/12/2008), o presidente Lula em seu programa de rádio (Café com o Presidente), colocou o Brasil como postulante ao debate internacional, principalmente por meio do lançamento do Plano Nacional de Mudanças Climáticas. Uma das idéias bases é combater o desmatamento da Amazônia que hoje representa a principal fonte de gases do efeito estufa. As metas são ambiciosas, mas atingíveis. Elas visam reduzir à metade o desmatamento da floresta até 2017.
Enfim, é esperar pra ver. As cartas estão na mesa. O potencial existe, falta ser aproveitado. Para isso, nada como uma boa dose de vontade política para catalisar a reação. No entanto, uma coisa é certa. Não é com projetos que visam reduzir a necessidade de se preservar 80 % da floresta em propriedades particulares que isso será conseguido.
Carlos Pacheco

Depois do aquecimento global vem uma glaciação?!

Por Elton Luiz Valente

Já afirmei aqui no Geófagos que é razoável ter cautela antes de fazer afirmações categóricas sobre MUDANÇAS CLIMÁTICAS DE LONGO PRAZO. O que se pode afirmar, com um grau razoável de confiança, é que o sistema é cíclico. A um período de resfriamento segue-se outro de aquecimento, e vice-versa. Pelo menos foi assim que o clima se comportou ao longo da evolução do Planeta Terra.

Durante o Pleistoceno estima-se que houve quatro grandes glaciações, intercaladas por períodos quentes ou interglaciais. Segundo alguns autores, o Holoceno marcou o fim da última era glacial, que teve seu início a cerca de 70.000 anos. Portanto, o período “interglacial” que estamos vivendo agora começou a cerca de 10.000 anos, no início do Holoceno.

Entre algumas teorias interessantes e consistentes sobre mudanças climáticas, existe a “Teoria de Milankovitch”, que explica as mudanças climáticas responsáveis pelas glaciações. Com alguns incrementos, ela é bem aceita pela comunidade científica. Esta teoria, diga-se, foi baseada em outras teorias sobre variações climáticas provocadas pelos movimentos orbitais da Terra.

É bom lembrar que os limites entre um ciclo e outro, segundo registros paleoecológicos, foram marcados por mudanças muito bruscas no sistema como um todo, principalmente no relevo, a exemplo do que ocorreu nos ciclos do Terciário, entre 65 a 1,8 Milhões de anos (Ma), e do Quaternário, de 1,8 Ma até o presente. Ou seja, catástrofes ambientais não são nenhuma novidade nesse velho planeta. Se alguém aí se lembrou de Santa Catarina, pode até ser que exista alguma semelhança, ou relação. Mas para acalmar os ânimos de quem acha que pode acordar amanhã em um mundo arrasado pelo calor, como num Inferno de Dante ou, ao contrário, em plena Era do Gelo, é bom lembrar que no mundo real as coisas não costumam acontecer como nos filmes de Hollywood. No ‘tempo geológico’ as mudanças geralmente são graduais e costumam levar alguns milhares de anos, no mínimo algumas centenas.

Para exemplificar, há uma seqüência de eventos interessantes que ocorreram em um período entre 400 a 300 Ma. Em linhas gerais, durante um ciclo de aquecimento observou-se, entre outras coisas, o aumento de oxigênio gasoso (O2) na atmosfera, seguido de um avanço extraordinário no desenvolvimento de plantas terrestres, como Pteridófitas de até 50 m de altura, no Carbonífero (354-290 Ma), e um também extraordinário seqüestro de carbono (CO2) por via da fitomassa. Foi a maior crise de carbono já registrada na Terra – daí o nome do período ‘Carbonífero’. E então? Surpresa! O seqüestro de carbono foi tão violento que precipitou o planeta em uma nova glaciação. No final do Permiano (290-248 Ma) o sistema já estava experimentando uma dramática extinção em massa, talvez a maior delas. Alguns autores afirmam que essa extinção atingiu cerca de 90% da vida marinha e 70% da vida terrestre.

Mas é importante lembrar que, no Carbonífero, o acúmulo da fitomassa na forma de matéria orgânica deveu-se, principalmente, à inexistência de consumidores e decompositores em escala compatível. O que é muito diferente do que aconteceu nos ciclos mais recentes, em que houve um ‘equilíbrio’ entre seqüestro e emissão de CO2, e vice-versa. Mas nos últimos 100 anos a coisa mudou bastante com a chegada do Homo sapiens petroliferus no pedaço, trazendo suas emissões descontroladas de CO2. E agora? Ao que tudo indica, teremos uma crise ambiental pela frente. Uma TPM planetária não é pouca coisa, além de imprevisível é sempre desastrosa, quando não catastrófica. Se alguém propor uma boa hipótese sobre o rumo que ela vai tomar, estará se revelando um bom especulador. E ainda, esta crise certamente não será a última. Pode apostar, você não estará aqui para receber a aposta, mas pode apostar. Uma coisa é certa, o único dentre os filhos de Gaya capaz de pensar e arquitetar uma solução para o problema é o Homo sapiens sapiens. Só não sabemos se vai dar certo.

Os ciclos de aquecimento, glaciações, extinções me fazem lembrar do saudoso Raul Seixas, que já dizia, com o seu impagável deboche e bom humor: “… o planeta é como um cachorro, eu vejo, se ele já não agüenta mais as pulgas, ‘se livra’ delas num sacolejo…” É isso aí! O planeta já fez isso mais de uma vez.

Para finalizar, há uma outra variável nessa equação planetária que ainda é negligenciada. O nosso sistema solar não é novo, poderíamos dizer que está velho, com manifestos traços de senilidade. O Sol já está começando a ratear feito um velho motor de Kombi à gasolina. É bom pensar nisso também…

Religião ambientalista

Tenho verdadeiro horror à discussão superficial, à unanimidade dogmática e desinformada. O que aprendi, infelizmente não na escola, nem mesmo na universidade, mas lendo Gould, Sagan, Asimov e mesmo Dawkins, foi que o pensamento científico era e é a melhor saída para a rigidez mental típica da mentalidade bidimensional, sem profundidade. Apesar de não me incluir entre os ateus militantes, na verdade classificando-me mais como um agnóstico conciliador, tenho bem em mente que o pensamento religioso não raro dificulta ou impossibilita a discussão de temas mais controversos, pois se baseia na fé, na crença inabalável. A ciência, idealmente, se deveria guiar por dados. Idealmente. Tento ter em todos os aspectos da vida um pensamento, se não completamente cético, o mais crítico possível. Sigo assim os “preceitos” do genial Mário Schenberg, para quem o intelectual deveria manter uma distância crítica em relação às próprias crenças. Vejo, no entanto, que não são raras as pessoas que aceitam alguns fatos, ainda que cientificamente comprovados até o presente, como artigos de fé. Aceitariam estes fatos como verdadeiros, mesmo que a ciência não lhes desse o aval. Este tipo de atitude tem sido comum nas discussões relativas às mudanças climáticas e aos organismos geneticamente modificados.

Vejam bem, isto não invalida os fatos, invalida o modo de encarar a realidade destas pessoas. Li recentemente um post no De Rerum Natura em que se citava um trecho de discurso do recentemente falecido escritor Michael Crichton que achei bem interessante. O autor do post, o físico português Carlos Fiolhais, apesar de não fazer muitos comentários, foi duramente criticado por alguns leitores, aparentemente pela simples razão de não ter criticado Crichton. Desprezo este tipo de patrulhamento ideológico.

Pelo que ouço e leio, Crichton era cético em relação ao aquecimento global pelas atividades humanas. Minha impressão é de que as evidências científicas demonstrando a realidade das mudanças climáticas são muito fortes e expressei isto inúmeras vezes aqui no Geófagos e em outros fóruns de discussão. Na verdade, vejo este blog como um embrião de think tank cujo objetivo principal é pensar estratégias de enfrentamento ou convivência com estas mudanças. Não investiria tanto tempo nisto se não pensasse que as mudanças climáticas são reais. Tendo dito isto tudo, confesso que procurei ler o tal discurso de Michael Crichton e não nego, é um material muito bem escrito, pergunta questões bastante relevante e toca num problema que me preocupa muito: o ambientalismo como religião. Aliás, este é o título do discurso – Environmentalism as religion.

O trecho que Fiolhais transcreveu e que eu traduzo é o seguinte: “Hoje, uma das mais poderosas religiões no Mundo Ocidental é o ambientalismo. O ambientalismo parece ser a religião predileta dos ateus urbanos. (…) Há um Éden inicial, um paraíso, um estado de graça e unidade com a natureza, uma queda em desgraça para um estado de poluição como resultado de se ter comido da árvore do conhecimento, e como resultado de nossas ações há um dia do juízo vindo para nós todos. Somos todos pecadores da energia, fadados a morrer, a não ser que busquemos a salvação, chamada agora de sustentabilidade. A sustentabilidade é a salvação na igreja do ambiente. Da mesma forma que a comida orgânica é sua comunhão, aquela hóstia livre de pesticidas que as pessoas direitas com as crenças certas ingerirão.” E por aí continua ele, num tom que me pareceu equilibrado, embora cético, clamando ao final por uma ciência do ambientalismo no lugar de uma religião do ambientalismo. Não vi uma palavra em seu texto que o condenasse.

Não tenho dúvida que a questão das mudanças climáticas, assim como outras questões de interesse ambiental, tem não raro adotado a retórica religiosa onde seria mais apropriada a objetividade da feia prosa científica. Eu mesmo já fiz isso, e não deveria ter feito. Não sou o único. Em um artigo recente para a revista Prospect Magazine, o filósofo Edward Sidelski reclama por uma necessidade de se resgatarem valores morais quase extintos e diz tradução minha: “É fácil rir do ambientalismo radical. Suas projeções climáticas são duvidosas e mesmo que sejam exatas, não fica claro como um punhado de entusiastas podem reverter o apocalipse que se aproxima. Mas isto não é o importante. O movimento verde pode falar a língua da ciência, mas o que realmente o move é um imperativo ético. É uma tentativa de criar uma sociedade em que algumas escolhas são reconhecidamente melhores que outras, em que a natureza é vista como um obstáculo aos desejos irresponsáveis. Em resumo, é uma religião – uma religião sem Deus.” E vai além, comparando as comunidades orgânicas aos antigos monges beneditinos. O tom aqui é francamente favorável aos ambientalistas radicais, mas diz a mesma coisa que Crichton. Mas as palavras de Sidelski sugerem que o conhecimento científico por si só não é suficiente para despertar um comportamento ético, para guiar uma moral sem a necessidade de religião, o que acho no mínimo discutível.

O ambientalismo tornou-se um sucedâneo de religião, com dogmas inquestionáveis, inimigos da religião (Crichton), uma divindade maléfica (o sistema, as indústrias), infiéis, hereges e toda a profusão de maniqueísmo mal-disfarçado. Eu fico com Crichton: "… no fim, a ciência oferece a única saída para além da política. E se permitirmos a politização da ciência, estamos perdidos. Entraremos uma versão internet do período das trevas".

Setembro- o mês do Protocolo de Montreal

Neste mês de setembro está sendo comemorado o 21ο aniversário da assinatura do Protocolo de Montreal sobre substâncias que reduzem a camada de ozônio , considerado um dos maiores avanços em benefício ao bem estar do nosso planeta.  Na conveção de Montreal ficou estabelecido a redução da produção e do uso de gases que danificam a camada de ozônio. Anos antes da Segunda Guerra Mundial foi descoberto um composto, os clorofluorcarbonetos-CFCs, gás até então considerado inerte, que revolucionaria a indústria de refrigeradores, tornando possível o armazenamento de alimentos e, principalmente, remédios a baixas temperaturas.

O ápice da utilização dos CFCs foi na década de 70, onde eles foram empregados exaustivamente na fabricação dos novos modelos de refrigeradores da época. Porém, na década de 80, mais precisamente no ano de 1985, descobriu-se que este gás estava causando passívo ambiental sem precedentes, que era a depleção da camada de ozônio- principal responsável pela retenção dos raios ultravioletas emitidos pelo sol. Estima-se que em torno de 99% da radiação emitida pelo sol seja retido pela camada de ozônio. Sem ela, provalmente, não seria possível a vida na Terra.
Ao atingir a estratosfera (segunda camada da atmosfera), o cloro, um dos principais constituinte dos CFCs, reage prontamente com o ozônio (O3) destruindo sua molécula, provocando a depleção da camada protetora. Como consequência da emissão continuada dos CFCs observou-se o surgimento de um buraco na referida camada que se ampliava a cada ano, sendo que este evento é mais catastrófico nos polos onde a espessura da camada é menor.
A partir desta constatação, na conferência da Organização das Nações Unidas-ONU do dia 16 de setembro de 1987, na cidade de Montreal, Canadá, foi assinado o Protocolo de Montreal proibindo o uso dos CFCs pelas indústrias, com exceção dos equipamentos utilizados para uso exclusivo em hospitais. De acordo com as estimativas realizadas por especialistas, se for seguido a risca os termos assinados no protocolo, em 2050 haverá o completo restabelecimento da camada de ozônio. Porém, o legado deixado pelo incomensurável uso dos CFCs pode perdurar por mais tempo, haja visto que ainda existem emissões, embora pequenas, desses gases e, por se tratar de um gas inerte na superfície, eles têm tempo de vida útil bastante longo. Alguns podem chegar a 150 anos.
Embora seja um fenômeno que ocorre na atmosfera, não se pode confundir a depleção na camada de ozônio com o aquecimento global. Não obstante, hoje já se admite que alguns gases partipam de ambos os fenômenos, tais como os hidroclorofluorcarbonetos (HCFCs) e hidrofluorcarbonetos (HFCs). Considerando a relação molar de 1:1, estes compostos são até 10.000 vezes mais potentes como gases de efeito estufa que o CO2. Diante disso, tem se proposto o cancelamento gradual da utilização dos HCFCs até o ano de 2030. Entretanto não há nenhuma restrição quanto ao uso dos HFCs.
O Protocolo de Montreal figura-se entre os vários bons exemplos do porquê o Protocolo de Kyoto deveria ser ratificado!
Juscimar Silva

As fezes não morrerão de sede

Alguém já parou para pensar que absurdo é usar-se água limpa em abundância para transportar dejetos humanos para a rede de esgotos quando milhões de pessoas sequer têm o suficiente para beber? Este é o tipo de questão que vem naturalmente ao longo da leitura de um excelente artigo publicado na Scientific American Brasil de setembro (não estou ganhando nada pelo marketing), escrito pelo engenheiro ambiental americano Peter Rogers, sob o título “Preparando-se para enfrentar a crise da água”. Li o artigo ontem a noite, após a publicação deste post, mas fiquei feliz em encontrar trechos como este: “E a escassez se tornará mais comum em parte porque a população do mundo está aumentando. Uma parcela está ficando mais rica – aumentando assim a demanda – sem contar que a mudança climática global está ampliando a aridez e reduzindo as reservas em muitas regiões”. Mas o autor não se satisfaz em apenas desfiar informações – ele faz sugestões, algumas das quais o cidadão médio acharia bem antipáticas: “Estabelecer preços mais altos para a água está (…) quase no topo da minha lista de prescrições.” Nasci e cresci numa das regiões mais secas do semi-árido nordestino (Patos, na Paraíba), sei exatamente o que é escassez de água e quão frustrante é ver sociedade e governo agindo quase anualmente como se períodos de seca fossem uma anormalidade, um desvio do esperado. Aprendi quase no berço a economizar água de toda forma possível, nos pequenos hábitos, como desligar o chuveiro enquanto me ensaboava ou a torneira enquanto escovava os dentes. Tive oportunidade de morar numa região em que a água é um recurso abundante (Viçosa, Minas Gerais) e pude ver como meus hábitos econômicos surpreendiam e muitas vezes faziam rir aqueles para quem escassez de água era algo muito remoto e possivelmente exagerado, coisa de Jornal Nacional para ganhar audiência. Sinceramente creio que se mudanças drásticas nos hábitos da sociedade não forem adotadas, atitudes antipáticas terão que ser tomadas ou o mundo real baterá rudemente às nossas portas. Aos que têm acesso aos Periódicos da Capes e desejem se aprofundar no assunto, recomendo o excelente artigo Water Use, escrito por Peter H. Gleick, no Annual Review of Environment and Resources de 2003.
Ítalo M. R. Guedes

A riqueza, a hipocrisia e o fim do mundo

Querem saber qual é o problema ambiental mais grave do planeta? Não titubeio em dizer: a riqueza, ou melhor, o “desenvolvimento”. Os padrões ocidentais de riqueza e desenvolvimento. E não me refiro apenas à riqueza dos países desenvolvidos com seus padrões de consumo irresponsáveis. Em países “em desenvolvimento” também há o tipo de riqueza a que me refiro. Não queremos todos alcançar um nível de vida típico de classe média americana, nós da classe pensante brasileira? Até onde posso ver, é comum o desejo de possuir carros. Para aplacar a consciência, exigimos carros flex, ou a álcool, ou doravante movido a qualquer biocombustível, mas ignoramos tranqüilamente as montanhas de minério de Minas Gerais e do Pará literalmente transportadas para as siderúrgicas para retirada de ferro e alumínio destes mesmos carros. Alguém tem idéia do impacto disto? Alguém se predispõe a protestar contra o desejo de possuir um carro? Não, é melhor ser hipócrita. Bastam os biocombustíveis, aliás cultivados utilizando-se insumos agrícolas produzidos com o uso de combustíveis fósseis ou de recursos minerais não renováveis. Sim, porque pouquíssimos estariam dispostos a pagar por biocombustíveis totalmente orgânicos (alguém já viu os preços de hortaliças orgânicas?). Um outro grande desejo humano é ter casa, e a classe média bem informada prefere apartamentos, talvez na beira da praia, tirando a vista dos outros do mar. Uma surpresa para os que acham que só os grandes empresários e os agricultores do mal produzem gases de efeito estufa: a produção do cimento de seu apartamento comprado a suadas prestações é feita a partir da calcinação do carbonato de cálcio: CaCO3  → CaO + CO2. Este CO2 aí no final é o dióxido de carbono, principal gás de efeito estufa. Alguém se propõe a combater a construção de casas? Não, é melhor ser hipócrita. A vaquinha que produziu a picanha que entusiasticamente queimamos no fim de semana produz uma quantidade não desprezível de metano, um gás de efeito estufa mais poderoso que o CO2, imaginem quanto metano produzem vaquinhas para alimentar 6 bilhões de bocas. Ah, você não come carne? Um dos maiores produtores de metano no planeta são os plantios de arroz inundado. Você é um ambientalista ativamente preocupado com a possibilidade de construção de usinas nucleares? Orgulhoso porque o Brasil produz energia a partir da água, um recurso natural renovável? As hidrelétricas estão bem, obrigado, produzindo quantidades nada desprezíveis de metano. Creiam-me, pouquíssimos estão dispostos a realmente fazer as mudanças necessárias para que vivamos numa sociedade realmente sustentável. Modernizando a imagem que Cristo utiliza no Novo Testamento para descrever os hipócritas, preferimos ser sepulcros caiados exalando metano pelas mal disfarçadas rachaduras.
Ítalo M. R. Guedes

Seqüestro de carbono em solos tropicais II

Em solos tropicais profundos, submetidos a grande atividade bioturbadora (misturadora) da mesofauna (principalmente cupins e minhocas, mas também formigas e outros invertebrados), como os Latossolos, há presença de estoques de carbono consideráveis em profundidade, até mesmo com valores numericamente superiores aos estoques superficiais. No ambiente tropical não se podem considerar razoáveis estimativas de estoque de carbono que não contabilizem o que está armazenado subsuperficialmente nem adequadas ou eficientes estratégias de manejo de solos ou ecossistemas pensadas sem o levar em conta. Trata-se de uma promissora área de estudo, por serem ainda escassos os trabalhos contabilizando os estoques de carbono profundos em solos de regiões tropicais em escalas mais detalhadas, e ainda menos investigada a influência das práticas de manejo do solo sobre o compartimento. Saber-se quanto carbono se encontra acumulado no solo sem uma noção de sua estabilidade frente a mudanças ambientais traduz-se em conhecimento limitado. As perdas naturais de carbono orgânico do solo (COS) não são homogêneas, variando entre classes e regiões. Tanto a natureza da matéria orgânica do solo quanto as interações entre esta e o ambiente, quer seja no solo ou fora deste, influenciam sua estabilidade no solo. De particular importância são as interações com a matriz mineral, principalmente as argilas, que podem estabilizar a matéria orgânica no solo, dificultando sua perda na forma de CO2. Aliar as informações quanto ao carbono estocado com dados confiáveis sobre sua estabilidade torna mais factível estabelecer quais áreas são mais vulneráveis, auxiliar no planejamento de uso da terra e inclusive no estabelecimento, em áreas convertidas à agricultura, de valores padrões de perdas toleráveis de matéria orgânica do solo visando minimizar a perda de qualidade do solo.

Guiana vende serviços ambientais e conserva floresta

Há poucos dias o Jornal da Ciência publicou esta notícia anunciando a venda pelo governo da Guiana de serviços ambientais a um fundo de capitais britânico. Que serviços ambientais? Basicamente, os benefícios ao meio ambiente de uma floresta mantida intacta. Em dezembro publiquei aqui no Geófagos o post Como pagar ao meio ambiente?, infelizmente muito pouco lido, introduzindo aos leitores como seria a prestação de serviços ambientais e sua valoração. Vê-se agora um país vendendo os serviços de 405000 hectares de mata, entre os quais “regulação de chuvas, armazenagem de carbono e regulação do clima”. Os que não conhecem a realidade da pequena agricultura brasileira descapitalizada, criticam, a partir de seus escritórios com ar condicionado, a derrubada de matas para fazer carvão por agricultores ignorantes e de pequena visão. Mas a visão tem que ser pequena e de curto prazo: de que adianta salvar as florestas para o futuro e morrer de fome hoje? É inútil tentar-se salvar o mundo apelando para as consciências, principalmente quando estas estão famintas. O agricultor em geral não derruba matas por maldade, mas por necessidade. A forma mais eficaz de se evitar isto é pagando de forma justa para que eles mantenham a vegetação de pé, pagando os serviços ambientais prestado pelas matas intocadas. E não só das matas, o solo acumula muito mais carbono que a vegetação e isto é um grande e potencialmente caro serviço, deveria também ser pago. Aliás, isto seria uma alternativa interessante para auxiliar a conservação da caatinga e do cerrado, a primeira ameaçada pela completa ausência de fonte de renda de agricultores do semi-árido, o segundo pela voracidade entomológica de sojicultores et allii. Há regiões de difícil agricultura que poderiam ser usadas extensivamente para isso. A Zona da Mata mineira, por exemplo, é uma região extremamente montanhosa e de solos nutricionalmente pobres. As áreas mais produtivas são os terraços nos vales. Mesmo assim, os morros estão quase completamente desmatados para a formação de pastagens, aliás muito degradadas, e a madeira restante é em geral usada para fazer carvão. Os topos dos morros se prestam à regeneração das matas e prestariam um serviço ambiental essencial para a região: a captura e manutenção da água que alimenta as nascentes de rios da região. É necessário buscar-se alternativas ousadas para a resolução dos grandes problemas ambientais de nosso tempo e usar o realismo monetarista como aliado, revertendo o papel do dinheiro como grande causador das tragédias mundiais modernas.

Mudanças climáticas e segurança nacional. I: O caso do semi-árido

Um assunto de certa urgência vem preocupando as cabeças pensantes no mundo: a humanidade, por meio dos governos nacionais, terão capacidade de lidar com catástrofes naturais resultantes das mudanças climáticas globais? Pensando em âmbito mais local, terá o Brasil algum tipo de planejamento para superar ou minimizar os efeitos destas ainda parcialmente hipotéticas catástrofes? A forma mais lógica de se avaliar o preparo brasileiro é considerar-se o que tem sido feito neste país para se enfrentar crises geradas por fenômenos naturais catastróficos. Para deixar bem claro o quão despreparado o Brasil se encontra frente a estes problemas, claro que o primeiro exemplo a ser citado é o dos episódios recorrentes e bastante previsíveis de seca na área semi-árida da região Nordeste brasileira. Ora, uma série de previsões sugerem que nos trópicos poderá haver uma extensa semi-aridificação advinda das mudanças climáticas. O Brasil tem no Nordeste um por assim dizer laboratório tanto para prever as condições futuras de partes de seu território quanto uma oportunidade desperdiçada de aplicar medidas de grande alcance para reverter os efeitos desta eventual semi-aridificação. Entretanto, age-se no Brasil, em relação às secas, como os usuários contumazes de maconha, que têm a memória de curto prazo e o raciocínio crítico severamente comprometidos. Os episódios de seca são vistos como eventos absolutamente novos e cuja previsão fora impraticável. As consequências desastrosas repetem-se a cada ciclo, comprometendo o desenvolvimento da região e dando a impressão aos habitantes que não há como se precaver nem conviver harmoniosamente com a seca. Se houver seriedade e entendimento entre vontade política, educação da população e aplicação eficaz de tecnologias existentes, há como conviver harmoniosamente com o deserto, como bem mostra Israel. Para mim parece claro que há técnicas e tecnologias já desenvolvidas que permitiriam a conviência razoavelmente tranquila com a estiagem longa. Mas não só isso. As coisas devem deixar de ser feitas com amadorismo, como se não houvesse história, como se toda pesquisa fosse a primeira, como se as instituições, principalmente governamentais, ocupadas com a região tivessem que começar a pensar nas soluções a partir do zero: há necessidade absoluta de continuidade e apartidarismo. É necessário mapear-se com o máximo de detalhes possível as áreas em que se prestam técnicas de coleta e manutenção de água, como barragens subterrâneas, que permitam a existência de uma pequena agricultura viável. Há que se informar que as áreas que se prestam a perímetros irrigados são mínimas e devem se localizar principalmente em áreas sobre material geológico sedimentar, mais poroso e cujas águas ofereceriam um menor risco de salinização e assim mesmo, fazer-se uma grande campanha, talvez usando até a lei, para que se usem técnicas de irrigação de alta eficiência e que minimizem as perdas, como o gotejamento. É necessário uma dose grande de realismo quanto a existência de áreas que simplesmente não se prestam à agricultura, nem mesmo a pequena e familiar, devido entre outras coisas ao alto coeficiente de variação da média pluviométrica, à pequena profundidade dos solos, localizadas quase sempre sobre material geológico cristalino, como granitos e gnaisses, cujas águas subterrâneas apresentam grande potencial de salinização se usadas para irrigação, inda mais quando associadas a solos pouco profundos. E, para mim talvez o mais importante, mudar o perfil da região, ganhar dinheiro produzindo ciência, transformar boa parte do semi-árido em um novo Vale do Silício, deixar para trás as histórias dramáticas de safras perdidas e animais mortos de sede. Tudo isso pode ser feito a partir da conscientização que a seca é para sempre, a região não se tornará úmida.  A se continuar no ritmo que se encontra, as coisas tendem a piorar: a extinção gradual e irresponsável da caatinga só tenderá a agravar a situação de calamidade.

Soluções para problemas insolúveis I

A pesquisa científica nos últimos anos tem tentado dar soluções técnicas a um problema que se agrava: prover qualidade de vida a uma população humana crescente sem agredir demasiadamente o ambiente. Em minha área de especialização posso dar um exemplo real deste tipo de preocupação. Com o consenso em torno das mudanças climáticas globais, a pesquisa tem sido direcionada para alternativas de se diminuir ou desacelerar a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, principalmente o CO2 (dióxido de carbono) por meio do seqüestro de carbono, que é a retirada deste gás da atmosfera, através da fotossíntese dos vegetais superiores e o acúmulo estável deste carbono tanto na vegetação quanto na matéria orgânica do solo, que provem da decomposição incompleta do material vegetal que cai ao solo bem como da neossíntese de substâncias orgânicas mediada por microrganismos e minerais do solo. Ao mesmo tempo, a Ciência do Solo tem sido desafiada a desenvolver técnicas de manejo dos solos que possibilitem produzir alimentos, sustentavelmente, para bilhões de pessoas, perto estamos dos 10 bilhões. Ora, o pressuposto de que estes dois desafios sejam igualmente factíveis pode ser falso: talvez não seja possível uma solução técnica para ao mesmo tempo melhorar a qualidade de vida de uma população crescente e manter, ou também melhorar, as condições ambientais do mundo. Tenho dúvidas profundas acerca disto. É necessário que a classe intelectual, e não só a que possui conhecimentos técnico-científicos, perca o temor de fazer perguntas essenciais e de expor sugestões antipáticas. Este medo é um vício político, e o mundo não precisa mais de políticos, precisa de cientistas. Se alguém quiser salvar o mundo, não pode se prender a sugestões simpáticas. Consideremos o caso da agricultura. Como anteriormente discutido, os fatores de solo e clima que levam ao acúmulo de matéria orgânica nos solos geralmente são aqueles limitantes à agricultura. Esquece-se ou meramente desconhece-se que a disponibilização de nutrientes e outros benefícios da matéria orgânica para os vegetais ocorre devido à decomposição parcial do material orgânico. Seqüestrar carbono, no entanto, é tentar paralizar a decomposição o mais eficientemente possível. Combinar técnicas de manejo que maximizem produção agrícola e teores de matéria orgânica nos solos não é tarefa tão simples como alguns pesquisadores querem fazer crer. Uma saída seria separar bem as áreas destinadas à agricultura e ao seqüestro de carbono, mas o crescimento populacional e das atividades não agrícolas, como expansão da área urbana, indisponibilizam definitivamente solos com potencial agrícola. A própria cidade de Viçosa, a partir de onde escrevo, está sobre solos de várzea que seriam bastante produtivos. Sobram aqui então os morros para os agricultores. E os topos de morros, hoje utilizados para pastagens, são áreas que se prestariam bem ao seqüestro de carbono. Penso que enquanto o problema do tamanho da população humana não for seriamente considerado, as soluções técnicas que permitirão à humanidade ter um futuro serão paliativos ilusórios. Em um próximo post continuarei esta discussão. 

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