“Homeopatia √© rem√©dio”

Recentemente, uma leitora (ou espectadora, mais especificamente) do 42. me convenceu, via email, de que homeopatia funciona.

Vou reproduzir aqui (sic, sempre lembrando) os argumentos dela para que vocês também sejam convertidos.

[nota: eu estava de f√©rias e, mesmo com um assunto t√£o chamativo que claramente (conhecendo os apologistas que se d√£o ao trabalho de me alcan√ßar por correspond√™ncia eletr√īnica) haveria de ter sido t√£o bem pesquisado e argumentado, aguentei bravamente e deixei para ler o email quando voltasse ao ritmo normal de vida.]

16/05

De: Suzane [suzane.******@hotmail.com]

Assunto: Homeopatia é remédio

Achei você bobão de tudo com aqueles vídeos da homeopatia.
Pra você ver que a homeopatia funciona, quando estiver com caganeira beba o Arsenicun Albun pra ver que cura, a não que ser que esteja com algo grave no intestino.
Minha filha que bebia antibiótico todos os meses pra dor de garganta, passou 13 anos sem tomar, pois quando tinha dor de garganta usava essa fórmula; Beladona, Mercurio solb.e Barita Carb.
A homeopatia não é milagrosa, é remédio e tem que tomar com perseverança.

Os vídeos aos quais ela se refere são os da minha overdose homeopática e meu vídeo-diário de sintomas.

Abaixo, minha resposta, no início de junho:

Pois é, remédio não precisa de perseverança. Homeopatia precisa porque, no fim das contas, dor de garganta se cura sozinha enquanto você está se enganando e pondo sua filha em risco de algo mais sério acreditando em bruxaria.

E, finalmente, agora há pouco, chega em minha caixa de mensagens sua réplica inescrupulosamente impenetrável impressionantemente inteligente, idioticamente inescusável instigantemente inescrutável, intragavelmente insípida incrivelmente inspirada, imbativelmente incompreensível intrinsecamente inédita, indescritívelmente impenetrável intrigantemente imaculada e inescrupulosamente ideológica impositivamente imparcial da correspondente imberbe?:

16/06

De: Suzane [suzane.******@hotmail.com]

Assunto: Homeopatia é remédio

Igor
Tenho pena de ti!
Esses dias ainda li, um cara achando um absurdo que a homeopatia tem remédio feito de veneno de cobra.
Eu disse pra ele: Boboca que não sabe de nada, o capotril que tu bebes que não é homeopático, pra pressão alta também é feito de veneno de cobra.
Mas num país que o médicos não dão valor na alimentação, o povo tem que ser doentão da cabeça e não confiar na homeopatia.

E pronto! Bastou isso para me converter à religião prática charlatã curativa da homeopatia.
Viu? √Č assim que a ci√™ncia funciona. Bons argumentos, apresentados de forma clara, preferencialmente por email, provando que homeopatia funcio.., opa, o que √© isso?

Mil e oitocentos estudos mais tarde, cientistas concluem (mais uma vez) que homeopatia n√£o funciona.

De acordo com a Revista do Smithsonian:

“Talvez voc√™ lembre de quando os cientistas desbancaram a homeopatia em 2002. Ou 2010. Ou 2014. Por√©m, agora um grande estudo australiano, analisando mais de 1800 trabalhos mostrou que homeopatia (‚Ķ) √© completamente ineficaz.

“Ap√≥s avaliar mais de 1800 estudos sobre homeopatia, o Conselho Nacional de Pesquisa M√©dica e de Sa√ļde Australiano (NHMRC) conseguiu achar apenas 225 que eram bons o suficiente para analisar. E uma revis√£o sistem√°tica desses estudos revelou ‚Äúnenhuma evid√™ncia de qualidade que ap√≥ie as alega√ß√Ķes de que homeopatia √© eficaz para tratamentos de problemas de sa√ļde‚ÄĚ.”

Aqui o link (PDF) diretamente para o estudo do NHMRC: Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions.

Hum. E agora? Em quem eu confio? Numa an√°lise sistem√°tica de quase dois mil trabalhos feitos por uma institui√ß√£o de boa reputa√ß√£o envolvendo centenas de profissionais qualificados que comprova que algo f√≠sica, qu√≠mica, farmacol√≥gica e biologicamente imposs√≠vel n√£o funciona ou na opini√£o semi-intelig√≠vel de uma an√īnima da Internet que mal sabe usar pontua√ß√£o, que me acha um “bob√£o de tudo” e que tem pena de mim?

Hum...

Hum…

Homeopatia, evangelhoterapia, teoria da harmonia energética e eu.

Ontem eu recebi dois emails. Recebi v√°rios, na verdade (a maioria deles sendo de pessoas que acham que meu endere√ßo √© algum tipo de √Ęncora ou registro oficial para todo e qualquer Igor Santos), mas com algum tipo de import√Ęncia foram s√≥ dois.

E quando qualifico import√Ęncia como “algum tipo”, quero dizer “sem a menor import√Ęncia para qualquer ser vivo”. Porque o primeiro dos aludidos veio com o assunto “Colabora√ß√£o” e com o t√≠tulo (sim, t√≠tulo, pois √© como se fosse uma c√≥pia de um panfleto qualquer) “Teoria da Harmonia Energ√©tica“.

Agora vocês vão ver porque estou perdendo meu tempo com isso. O email começa (sic):

A energia √© essencialmente harm√īnica e as formas organizadas de energia, como √© o caso da mat√©ria, que √© uma organiza√ß√£o de energia percebida por nossos sentidos, tendem a voltar a ser energia.

Em primeiro lugar, o que significa “essencialmente harm√īnica”? Porque s√£o necess√°rias pelo menos duas coisas para existir harmonia entre elas. Da mesma forma como n√£o pode existir nado sincronizado individual n√£o posso afirmar que A energia √© harm√īnica. Falta um outro agente a√≠. Mas vamos ignorar esse erro conceitual b√°sico e passar para outro; “mat√©ria √© uma forma organizada de energia”.

√Č? E a energia √©, ao mesmo tempo, harm√īnica e desorganizada? Mas calma! Olhem o que vem a seguir:

Esta volta √† energia √© estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas, ou seja, que contrariam a harmonia energ√©tica. Assim sendo, a√ß√Ķes poluidoras, por exemplo, desencadeiam processos destrutivos da mat√©ria.

Eu vou organizar as afirma√ß√Ķes em uma s√≥ linha para facilitar a visualiza√ß√£o. “A energia √© essencialmente harm√īnica, a mat√©ria √© uma organiza√ß√£o de energia e tende a voltar a ser energia estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas”. Ou seja, o ^j√™nio^ que n√£o consegue escrever duas linhas coerentes entre si acha que a mat√©ria volta a ser harm√īnica por um processo de desarmonia. √Č como dizer que passar com o carro por cima de um viol√£o bem afinado faz com que ele volte a ser afinado pelo fato de ter sido destru√≠do. Ou algo assim, esse email me deixou confuso.

No nosso organismo, a√ß√Ķes perturbadoras da harmonia desencadeiam rea√ß√Ķes, agravadas por novas interven√ß√Ķes perturbadoras da harmonia inicial.

Eu adoro frases como “desencadeiam rea√ß√Ķes”. Me lembra uma picha√ß√£o que vi numa mesa da faculdade onde algu√©m escreveu com corretivo “a mol√©cula do √°tomo”. A frase acima parece dizer muita coisa mas n√£o sobrevive √† mais superficial an√°lise, como outra frase j√° discutida aqui. S√©rio, leia l√° de novo e pense a respeito.

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Na sociedade humana, decis√Ķes desarm√īnicas como, por exemplo, concentra√ß√£o de recursos financeiros em determinadas pessoas, contrariam a harmonia social, que √© um aspecto da harmonia energ√©tica.

Harmonia social √© um aspecto da harmonia energ√©tica? Ent√£o essas a√ß√Ķes socialmente desarm√īnicas s√£o desej√°veis, j√° que foi estabelecido que a desarmonia traz harmonia. E √© harmonia que queremos, n√£o?

Portanto, sigam o conselho do email e concentrem seus recursos financeiros em mim! Vamos atingir o máximo de harmonia possível!

A Teoria da Harmonia Energ√©tica permite o entendimento da individualidade harm√īnica, mesmo sem substrato f√≠sico…” Opa, pera√≠! Preciso interromper aqui. Qual dos dois √©: energia sendo harm√īnica em si mesma ou indiv√≠duos (necessariamente materiais) s√£o harm√īnicos mesmo n√£o tendo forma f√≠sica? Essa deve ser mesmo uma teoria de lascar porque s√≥ seus preceitos j√° est√£o em outro plano de exist√™ncia.

Continuando:

…pois ela se aplica a um conjunto organizado de princ√≠pios harm√īnicos, orientados para pintura, arquitetura, artesanato, inven√ß√Ķes √ļteis, m√ļsica, magist√©rio, verso, prosa, e tantas outras formas de a√ß√Ķes harm√īnicas que encantam nossos sentidos e melhoram a qualidade de vida. Quem age segundo a harmonia energ√©tica preservar√° a individualidade, n√£o importa sob que forma esteja atuando.

Pintura, arquitetura, artesanato, m√ļsica, magist√©rio, verso e prosa, essas inven√ß√Ķes in√ļteis… Sem falar do magist√©rio, esse grande encantador dos sentidos. N√£o passa um s√≥ dia sem que minha propriocep√ß√£o e minha percep√ß√£o temporal n√£o sejam estimuladas pelo magist√©rio.

E, novamente, por que devemos preservar a individualidade? Ela existe? Como “a energia” pode ser harm√īnica sendo desarmonizada pela mat√©ria descondensada enquanto indiv√≠duos sem substrato f√≠sico poluentes e m√ļsicos? Hein?

No par√°grafo a seguir h√° um destaque por minha conta. Vamos ver quem consegue perceber o motivo.

Corruptos, corruptores, maus administradores, criminosos, assassinos, mistificadores, ladr√Ķes, demagogos, parasitas e tantos outros que agridem a harmonia social, simplesmente desaparecer√£o com a desencarna√ß√£o, pois estavam em desacordo com a harmonia energ√©tica.

Todos desaparecer√£o. Seja por desencarna√ß√£o, inuma√ß√£o, falecimento, vencimento do prazo de validade ou qualquer outro eufemismo rid√≠culo que se queira usar. Mas deixando o galopante e relinchante √≥bvio de lado, volto a perguntar: se estamos procurando harmonia, por que devemos nos preocupar em manter a “harmonia social, que √© um aspecto da harmonia energ√©tica” se a “volta √† energia √© estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas” e a “energia √© essencialmente harm√īnica“? Eu quero harmonia! E, para isso, segundo as diretrizes da teoria, preciso ser desarm√īnico.

Esta singela, e despretensiosa, teoria permite que se entenda o que somos e o que seremos na eternidade., inexistindo qualquer julgamento, mas sim harmonia ou desarmonia energética.

E sabem por que n√£o existe julgamento? Porque √© imposs√≠vel entender uma coisa que n√£o faz sentido por ser apenas uma s√©rie de contradi√ß√Ķes. E o sujeito ainda quer entender a eternidade? #com√īfas?

Vou suprimir o nome do remetente para preservar… n√£o sei o que. Ia dizer “preservar seu bom nome” mas n√£o fui eu que enviou o email. Email que, ali√°s, veio com o assunto “colabora√ß√£o” apesar de nenhuma outra palavra a esse respeito ter surgido. Talvez ele queira que eu colabore com a desarmonia.

Tamos aí.

———

O segundo email, recebido nos √ļltimos minutos do dia (certamente para algum outro Igor Santos que ainda n√£o aprendeu como emails funcionam) √© de um m√©dico. *suspiro*

Infelizmente, como eu j√° disse aqui, homeopatia √© uma especializa√ß√£o em medicina no nosso querido territ√≥rio pol√≠tico federativo brasileiro. Por mais imoral que isso seja, continua sendo verdade. Falando em imoralidades, eu sempre tremo um pouco quando ou√ßo que o mesmo indiv√≠duo se qualifica como pediatra e homeopata. Como √© o caso desse pr√≥ximo remetente que, apesar de se qualificar tamb√©m como escritor, refere-se a si mesmo na terceira pessoa e acha que campo de assunto de email n√£o precisa de pontua√ß√£o, acentua√ß√£o ou ortografia em geral, j√° que esse veio como “saude homeopatia e evangelho“. Sic, sempre lembrando.

"Eu sei o que estou fazendo, n√£o se preocupe!"

“Eu sei o que estou fazendo, n√£o se preocupe!”

Desta vez eu vou deixar o nome porque, apesar de tudo, nada do que ele escreveu para mim é considerado errado no querido território supracitado e infrapodal (mais sobre pés daqui a pouco).

Gilberto Ribeiro Vieira √© m√©dico pediatra e homeopata e escritor. Al√©m disso, √© professor do curso de medicina da Universidade Federal do Acre ‚Äď UFAC e possui diversos livros publicados que abordam sa√ļde, homeopatia e Evangelho. A concilia√ß√£o desses dois temas rendeu diversas publica√ß√Ķes.

Er, quais dois? Voc√™ citou tr√™s assuntos que, se tentassem, n√£o poderiam ser mais opostos. Mantendo sempre em mente que homeopatia n√£o √© sa√ļde, mas bruxaria e xamanismo, coisa que o evangelho rejeita fortemente (ver 2 Cr√īnicas 33, por exemplo).

O objetivo principal √© mostrar a possibilidade de obter benef√≠cios ao se reunir conhecimento e espiritualidade, mesmo quando se caminha com relativa independ√™ncia entre as religi√Ķes organizadas do cristianismo. Seu trabalho tem m√ļltiplas faces.

Eu juro que li aquela √ļltima palavra como “faeces” mas talvez seja culpa de um vi√©s involunt√°rio meu. Falando em involunt√°rio, viram ali como ele separou claramente “conhecimento” de “espiritualidade”?

E, para um escritor, ele at√© √© meio ruinzinho em evitar ambiguidades. O que significa “relativa independ√™ncia”? Minha interpreta√ß√£o √© que ele √© dependente de algumas religi√Ķes crist√£s mas n√£o tanto quanto algu√©m que pratique somente uma.

Discorrendo sobre as m√ļltiplas f√¶ces do seu trabalho, ele continua:

Na primeira predomina a ci√™ncia e o racioc√≠nio. A jornada come√ßa pela an√°lise detalhada de alguns casos de cura do Cristo no Evangelhoterapia ‚Äď a Ci√™ncia de Amar, juntamente com a descri√ß√£o sucinta das virtudes divinas na cria√ß√£o ‚Äď em Deus Radiografia Simples.

Faltou s√≥ incluir ci√™ncia e racioc√≠nio ali. Especialmente no lugar de “virtudes divinas na cria√ß√£o“.

Em seguida, √© conduzido um estudo rigoroso das palavras e contradi√ß√Ķes de Jesus em O Evangelho Dial√©tico. Por fim, o autor tem o privil√©gio de apresentar a abordagem homeop√°tica num enfoque in√©dito e contempor√Ęneo em Homeopatia e Sa√ļde: do reducionismo ao sist√™mico, publicado por coedi√ß√£o pelo Conselho Regional de Medicina do Acre e a Editora da UFAC.

Novamente, cadê a ciência e o raciocínio? O que o estudo das palavras do Hércules judaico tem a ver com ciência? Porque já sabemos que homeopatia tem exatamente zero ciência e/ou raciocínio atrelados.

E, se o Conselho de Medicina do Acre for igual ao daqui, qualquer m√©dico tem apoio editorial para lan√ßar qualquer livro. Ou gravar um disco, pintar um quadro, expor fotografias, etc. O CRM gosta de incentivar m√©dicos em suas persegui√ß√Ķes art√≠sticas. Ent√£o citar o CRM/AC como parceiro n√£o √© medalha de m√©rito.

Na segunda etapa prevalecem o sentimento e a f√©.” <= Na primeira tamb√©m, amig√£o.

Com esse enfoque, surgem cr√īnicas repletas de ternura e criatividade em Os Filhos de Deus. Ao mesmo tempo, nasce um novo entendimento da rela√ß√£o √≠ntima e profunda entre o Eu e o Pai em DeuS, gra√ßas √† an√°lise meticulosa dos vers√≠culos do Novo Testamento.

√Č sempre interessante quando um escritor se refere a si mesmo como criativo. Especialmente quando isso leva √† frase “gra√ßas √† an√°lise meticulosa dos vers√≠culos do Novo Testamento”. Eu s√≥ queria dizer, j√° que estamos firmemente no mundo das pseudoci√™ncias, que Freud mandou lembran√ßas.

Por fim, o autor descortina o significado original dos chacras desde os p√©s ‚Äď cidadania ‚Äď ao mais elevado do homem ‚Äď intui√ß√£o ‚Äď no instigante Poema das Moradas.

Isso est√° escrito desse jeito. Ele descortinou o significado original dos chacras. E, melhor ainda, o chacra da cidadania reside nos p√©s. Por isso que eu fiz aquele trocadilho l√° em cima, sacaram? N√£o? Nem eu. Especialmente porque o chacra “mais elevado do homem” √© a intui√ß√£o.

E A P¬į—Ź—Ź4 DA CI√äNCIA, CAD√ä!?

"chacras"

Uma terceira vertente √© exposta em um livro que aborda dois temas: Adole*sente, publicado pela Secretaria de Estado de Sa√ļde do Acre, une-se ao Adole*santo e mistura informa√ß√£o cient√≠fica e reflex√Ķes crist√£s, em linguagem direcionada aos adolescentes e √†s pessoas que se relacionam com eles.

Queria muito saber o teor e a qualidade dessa informação científica que o autor cita. Principalmente ajustando a linguagem para adolescentes.

(Vocês viram os títulos? Eu consigo até imaginar o quão estufado ficou o peito do autor ao pensar nesses excelentes jogos de palavras.)

E, encerrando os trabalhos, A Fraternidade em Movimento, obra que cont√©m as experi√™ncias e opini√Ķes do autor sobre um dos amores de sua vida, o Movimento da Fraternidade, iniciativa espiritualista de amor ao pr√≥ximo, gerada em Belo Horizonte em meados do s√©culo XX. Alguns livros est√£o em edi√ß√£o e ser√£o publicados em breve e, portanto, ainda n√£o se encontram dispon√≠veis. O pre√ßo de lan√ßamento √© promocional juntamente com o frete gr√°tis por tempo limitado.

Eu gostaria de reiterar que quem escreveu isso tudo aí em itálico foi o próprio autor, através de seu email pessoal.

Lembram das profundas an√°lises dos evangelho pelo autor? E lembram do 2 Cr√īnicas, cap√≠tulo 33 l√° em cima? A p√°gina p√ļblica do perfil do Facebook do autor mostra que, entre seus favoritos, est√° o Pai Toninho de Xango.

———

Pensamento fant√°stico, del√≠rios m√≠sticos, disson√Ęncia cognitiva, dificuldade de autoan√°lise, nega√ß√£o do √≥bvio, teorias conspirat√≥rias. Pseudoci√™ncias v√™m em v√°rias embalagens diferentes. E boa parte delas custa dinheiro.

Boa noite.

Homeopatia, coitadinha, n√£o tem vez porque a “Ind√ļstria Farmac√™utica”, que se preocupa apenas com dinheiro, n√£o deixa!

Por que homeopatia √© gratuita, n√©? Todos os homeopatas s√£o filantropos e fazem eles mesmos as prepara√ß√Ķes, sem qualquer custo para os clientes pacientes, n√£o √© verdade?

A pobrezinha homeopatia n√£o tem do qu√™ viver, apenas sobrevive de doa√ß√Ķes daqueles que por ela foram salvos, e… Opa, pera√≠! Que manchete √© essa?

Multinacional homeop√°tica processa blogueiro acerca de afirma√ß√Ķes de que seu curativo mitol√≥gico “n√£o tem ingrediente ativo”.

Samuele Riva, um blogueiro italiano, est√° sendo processado pela Boiron, multinacional francesa de “rem√©dios” homeop√°ticos. Riva ousou fazer uma piada com a alega√ß√£o de que Ooscillococcinum teria “ingrediente ativo”. A companhia alega que o produto √© feito diluindo-se “oscillococcinum” (uma subst√Ęncia mitol√≥gica que dizem estar presente em f√≠gados de patos, apesar de nenhuma evid√™ncia apoiar aquele fato) em 200 dilui√ß√Ķes de 1 para 100, o que “equivale a diluir 1ml do ingrediente original num volume de √°gua do tamanho do Universo conhecido”.

Multinacional? Sim, a Boiron √©, segundo eles mesmos, “grupo farmac√™utico pioneiro e l√≠der da Homeopatia no mundo”.

E uma multinacional está processando um blogueiro que teve o disparate de dizer que seus supostos remédios não contêm um ingrediente ativo que sequer existe.
Mas a homeopatia n√£o tinha como √ļnico intuito curar todas as pessoas de todas as doen√ßas do mundo de forma completamente gr√°tis?

N√£o.

Homeopatia √© uma ind√ļstria. N√£o √© “farmac√™utica” porque n√£o existem f√°rmacos associados aos seus produtos, por√©m √© uma ind√ļstria assim mesmo.

E a Boiron está processando Samuele Riva porque ele disse que um remédio não pode ser feito com um ingrediente que não existe.

Explicitando, a Boiron diz que o Ooscillococcinum é feito diluindo raspa de chifre de unicórnio até que ele deixe de existir. Sem jamais ter existido em primeiro lugar.

Faz sentido para algum de vocês? Por que para mim não faz.

Samuele diz que a empresa n√£o s√≥ amea√ßou o provedor com um processo para apagar o post como exigiu “bloqueio de acesso ao meu website“.

E agora, fez sentido? Não, né? Que bom. Sinal de que não estou tão desconectado da realidade assim.

Homeopatia continua não funcionando mesmo quando você faz a diluição impossível de uma coisa que não existe.

Provas? Eu ainda estou vivo.

Via Kentaro, pelo GReader.

Homeopatia é feita de nada e NÃO funciona contra dengue

Em Natal, a prefeita Micarla de Sousa (eleita pelo PV) sancionou a Lei n¬ļ 6.252, de 25 de maio de 2011 (link em PDF) que diz:

A PREFEITA DO MUNIC√ćPIO DE NATAL,

Fa√ßo saber que a C√Ęmara Municipal aprovou e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1¬ļ – Autoriza o Poder Executivo a realizar estudos e pesquisas no sentido de adotar medica√ß√£o homeop√°tica, no combate e preven√ß√£o de dengue em Natal.

I – A medica√ß√£o a que se refere o artigo 1¬ļ poder√° ser ministrada nos bairros que apresentem os maiores √≠ndices de infesta√ß√£o da doen√ßa ou nas √°reas onde a equipe t√©cnica da Secretaria Municipal de Sa√ļde definir como priorit√°rias ou de risco iminente para prolifera√ß√£o de casos;

II – A aplica√ß√£o do medicamento ser√° executada pelas unidades de sa√ļde, na dosagem prescrita por profissional competente;

III – A Secretaria de Sa√ļde do Munic√≠pio de Natal, atrav√©s de uma equipe multidisciplinar, far√° o acompanhamento e monitoramento, com as notifica√ß√Ķes necess√°rias, dos usu√°rios atendidos pela medica√ß√£o a que se refere o artigo 1¬™ desta Lei.

Art. 2¬ļ – Esta Lei entra em vigor na data de sua publica√ß√£o, revogadas as disposi√ß√Ķes em contr√°rio.

Um grande problema n√£o √© o texto acima, mas a maneira como a coisa foi levada √† frente. Esses “estudos e pesquisas” n√£o ocorreram. Especialista n√£o foram consultados e, especialmente, o Conselho Regional de Medicina n√£o foi ouvido.

Entrando em vigor, essa lei certamente beneficiaria, e muito, algumas pessoas, tendo em vista que homeopatia é feita de nada.

O pior, no entanto, √© o fato de existirem pessoas em cargos altos (como prefeita e vereadores) que n√£o s√≥ acreditam nessa macumba disfar√ßada de medicina que √© a homeopatia como n√£o t√™m o m√≠nimo interesse na sa√ļde da popula√ß√£o (se tivessem, teriam consultado infectologistas ou teriam procurado o CRM, o que n√£o ocorreu).

Jeancarlo Cavalcante, presidente do Conselho, falando ao jornal Tribuna do Norte disse que, tanto a san√ß√£o quanto a aplica√ß√£o dessa lei s√£o “uma temeridade”. Mas ele disse isso porque √© o presidente.

Como eu não devo contas políticas a ninguém, posso dizer com mais letras: dar homeopatia a pessoas doentes ou tentar usar homeopatia para prevenir doenças potencialmente fatais é uma irresponsabilidade e demonstra, mais uma vez, o descaso do poder administrativo da minha cidade para com a população, cujo interesse deveria ser prioridade.

Por mais que esse “passe de m√°gica” (como disse ao mesmo jornal o presidente da Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia, H√™nio Lacerda) estivesse sendo aceito por ingenuidade de Micarla de Sousa, seria dever da primeira servidora p√ļblica da cidade procurar pessoas que, ao contr√°rio dela, realmente soubessem do que se trata medicina, doen√ßas, tratamento, etc. Confiar na pr√≥pria suposta intelig√™ncia √©, demonstrativamente, um erro para pessoas assim, em cargos t√£o importantes.

Em entrevista ao Novo Jornal, Munir Massud, Professor da UFRN e especialista em Bio√©tica M√©dica, aponta que homeopatia “n√£o serve para nada. Na Medicina, o que n√£o √© cient√≠fico n√£o √© √©tico”. E, para o Conselho Nacional de Sa√ļde, antes de ser usado em humanos, um medicamento precisa ser fundamentado com experimenta√ß√Ķes pr√©vias, cientificamente. Coisa que a homeopatia falhou em fazer 100% das vezes que tentou.

Em vista disso, a Secretaria Municipal de Sa√ļde informou ao Novo Jornal que: “em raz√£o da pol√™mica levantada pela lei, ir√° solicitar um parecer t√©cnico √† Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia”.

Sim, voc√™s j√° devem ter notado. A Secretaria de Sa√ļde s√≥ ir√° se informar a respeito com especialistas no assunto porque o CRM e a pr√≥pria Sociedade de Infectologia foram atr√°s.

Então, ao invés de combater o mosquito (não há uma propaganda de prevenção, um só folheto pregado em poste, nada), a prefeita achou por bem beneficiar financeiramente os feiticeiros medievais que venderiam água a preço de remédio. Porque, já que a população não gosta dela, porque ela haveria de gostar da população, não é?
J√° que ela nem se trata aqui, por que ent√£o cuidar do sistema de sa√ļde do munic√≠pio?

Recapitulando: mat√©rias circularam pela Tribuna, Novo Jornal (j√° citados), Di√°rio de Natal e nominuto.com ap√≥s uma coletiva de imprensa organizada pelo Conselho Regional de Medicina e pela Sociedade Riograndense do Norte de Infectologia, pois nenhum dos dois √≥rg√£os foram consultados antes da prefeita passar uma lei dando √°gua e a√ß√ļcar para a popula√ß√£o como forma de combater a dengue.

Mas eu vou esperar até Micarla divulgar o resultados dos estudos e testes que realizou, segundo prevê a lei que ela promulgou semana passada.

Enquanto isso, pessoas de fora, estejam avisadas: não venham a Natal em hipótese alguma. Gastem seu dinheiro turistando na Paraíba ou no Ceará. Aqui vocês podem morrer de Dengue a qualquer minuto.

Não há mais salvação para nós, natalenses, mas estamos resignados quanto à falta de estrutura da prefeitura para combater um mosquito.

Como consola√ß√£o, fiquem com Amanda Gurgel, uma das poucas coisas boas que aconteceram na minha cidade nos √ļltimos anos.

E que venha a Copa!

Medicina cura. Homeopatia mata. #ten23

Bob Marley, m√ļsico, nascido em 1945, diagnosticado com c√Ęncer met√°stico em 1980.

Preferiu se tratar com homeopatia.
Se homeopatia funcionasse, Bob Marley teria chegado aos 66 semana passada.

Morreu oito meses depois.

While touring in America, Marley went jogging in Central Park and collapsed on Sept. 21, 1980. Doctors discovered his cancer had moved into his brains, stomach and lungs. Though he tried many homeopathic remedies, Marley died in Miami on May 11, 1981.

Jos√© Alencar, empres√°rio e pol√≠tico, nascido em 1931, diagnosticado com c√Ęncer abdominal em 1998.

Preferiu se tratar com Medicina.
José Alencar, não tão firme nem tão forte, mas ainda vivo.

Completar√° 80 anos em outubro.

O ex-vice-presidente da Rep√ļblica Jos√© Alencar est√° internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e seu quadro de sa√ļde √© est√°vel, de acordo com o boletim m√©dico divulgado nesta quinta-feira [10.02.2011]. O pol√≠tico est√° consciente e tomando antibi√≥ticos.

Homeopatia e rastafarianismo mataram Bob Marley.

Cirurgias e quimioterapia salvaram José Alencar. Várias vezes.

Ent√£o, antes de vir me dizer “eu sei que homeopatia funciona porque eu e minha fam√≠lia usamos”, pense em Bob, mon.

Homeopatia n√£o funciona.

E isso n√£o √© s√≥ meu ponto de vista. √Č a realidade.

Médicos, CFM, homeopatia e imoralidades

Antes de qualquer outra coisa, eu gostaria de deixar claro que homeopatia não é medicina fitoterápica ou herbácea.

Homeopatia, tradicionalmente, √© apenas solvente (√°gua ou √°lcool) e um espessante (farinha ou a√ß√ļcar).

Homeopatia é baseada em três conceitos demonstrativamente falsos:

1¬ļ – uma doen√ßa pode ser curada pela sua pr√≥pria causa (envenenamento por merc√ļrio pode ser curado tomando-se ainda mais merc√ļrio);

2¬ļ – quanto mais dilu√≠da uma subst√Ęncia, mais potente ela se torna (al√©m de serem situa√ß√Ķes totalmente contradit√≥rias, como que por m√°gica, a potencializa√ß√£o ocorre apenas para a subst√Ęncia que o homeopata quer, desconsiderando milhares de outras coisas que possam estar dilu√≠das na mesma √°gua), e;

3¬ļ – para essa potencializa√ß√£o ocorrer, a dilui√ß√£o precisa ser agitada um certo n√ļmero de vezes (esse n√ļmero √© fixo para cada tipo de dilui√ß√£o e o frasco agitador deve se chocar com uma superf√≠cie firme por√©m macia. Como uma B√≠blia encadernada em couro, por exemplo).

Por ter sido idealizada no século 18, é de se desculpar preceitos tão absurdamente ingênuos (pelo menos para nós, do cientificamente avançado século 21) e sem sentido.

Tenho certeza de que o criador da homeopatia tinha a melhor das inten√ß√Ķes (leia mais sobre isso neste link), mas tamb√©m as tinham os xam√£s que achavam que cuspe e fuma√ßa curavam febre.

A Ciência evolui. Coisas como homeopatia e florais que se mantêm imutáveis à luz de evidências de ineficácia não são Ciência. Longe disso.

A p√°gina da Associa√ß√£o M√©dica Homeop√°tica Brasileira, na se√ß√£o risivelmente intitulada “A √©tica da ci√™ncia“, demonstra claramente o desd√©m que a homeopatia em geral tem com a ci√™ncia m√©dica.

Notem que no quarto par√°grafo √© dito abertamente que evid√™ncias n√£o importam tanto(sic): “N√£o √© o m√©rito terap√™utico em si, que estamos analisando neste momento, pois isto, fundamentalmente, o tempo e as experi√™ncias nos dar√£o melhores respostas“.

O que importa mesmo √© o argumento de autoridade: “Queremos mesmo √© destacar a import√Ęncia de tal declara√ß√£o [do presidente do Conselho Regional de Medicina do estado de Mato Grosso do Sul]”.

E o trecho acima diz respeito a uma declara√ß√£o sobre o uso de “medicamentos” (aspas ir√īnicas do mesmo tipo que s√£o usadas no texto da AMHB quando falam de cientistas) homeop√°ticos para o tratamento e preven√ß√£o de gripe.

(Outro detalhe bastante percept√≠vel √© a necessidade que o autor do texto sente em notar h√° quanto tempo a homeopatia √© praticada e reconhecida no Brasil. √Č at√© ligeiramente constrangedor.)

O resto do texto tenta ridicularizar cientistas da Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde que se op√Ķem ao criminoso (aos meus olhos) m√©todo de receitar √°gua e a√ß√ļcar para curar AIDS na √Āfrica, levantando pontos como “n√≥s sabemos o que √© terceiro mundo” e “homeopatia n√£o faz parte da ci√™ncia imperialista que contaminou os pa√≠ses africanos com aquelas doen√ßas” (apesar de Mal√°ria ser uma doen√ßa end√™mica da regi√£o… mas vamos ignorar esse pequeno fato, j√° que outros t√£o maiores tamb√©m o est√£o sendo).

O que me leva adequadamente ao tema que pretendo expor aqui: imoralidades.

Eu, enquanto varria o chão do meu lar e exercitava minha capacidade cognitiva lógico-numérica, consegui enumerar quatro tipos de imoralidade acerca da homeopatia como especialidade médica.

São elas: pessoal, profissional, científica e institucional.

Imoralidade pessoal

O ser humano é, intrinsecamente, moral.

Simplificando: temos uma capacidade de reconhecer os outros como seres independentes e uma disposição inata para evitar causar-lhes dano.

Se um de nós vê outro em dificuldade (pense nas vítimas das enchentes recentes que tivemos) e sabe que possui a capacidade de ajudar (neste cenário, podemos ajudar doando roupas, comida e remédios), esse um é tomado por um desconforto emocional, fruto do reconhecimento da dor alheia, que faz a maioria dos seres humanos querer dar suporte aos outros que dele necessitam.

Logo, negar conscientemente esse apoio é, do ponto de vista deste argumento, imoral.

Uma pessoa com um grau de conhecimento suficiente para ser aprovado num vestibular genérico e se formar num dos cursos mais puxados do nosso sistema de ensino sabe, ou deveria saber, que expor outrem a riscos desnecessários é, para a maioria dos fins, errado.

Portanto, se voc√™ v√™ uma pessoa usando um tratamento completamente ineficaz (al√©m do efeito de placebo, que pode ser conseguido gratuitamente por outros m√©todos) e que, ao desviar recursos monet√°rios (homeopatia √© um neg√≥cio caro, muito caro) e desperdi√ßar tempo (quem est√° se tratando com homeopatia geralmente n√£o procura medicina real e pode ter sua condi√ß√£o piorada pelo tempo perdido), est√° comprometendo a pr√≥pria sa√ļde (e em muitos casos a sa√ļde de seus filhos) e permite que isso ocorra sem, no m√≠nimo, explicar o outro lado, voc√™ est√° sendo pessoalmente imoral.

Imoralidade profissional

Se você é médico, me arrisco a dizer que entrou nessa vida sabendo mais ou menos do que se tratava.

√Č certo que existem aqueles que querem virar m√©dicos por status ou por sal√°rio, mas a faculdade cuida da maioria desses casos. A maioria entra (e, mais importante, sai) sabendo que o papel da Medicina na sociedade √© ajudar os outros.

O foco maior da Medicina √© a vida. Seja para salv√°-la ou para faz√™-la o mais suport√°vel poss√≠vel em outros casos. O m√©dico √© o agente que faz daquele objetivo uma a√ß√£o; o Profissional da Sa√ļde.

Ao exercer essa profiss√£o, lhe cabe usar de todos os meios poss√≠veis e razo√°veis para que seus pacientes, se valendo da ci√™ncia m√©dica, adquiram, recuperem ou mantenham sua sa√ļde.

Os princípios homeopáticos (mostrados acima) são, ao mesmo tempo, impossíveis e desarrazoados, cabendo apenas ao mundo da ficção ideológica ou do pensamento mágico, onde tudo é possível.

Receitar p√≠lulas de a√ß√ļcar para tratar Tuberculose n√£o √© prestar um servi√ßo de sa√ļde mas apenas adequar-se a uma corrente de pensamento ultrapassada e desacreditada com quase dois s√©culos de imutabilidade dogm√°tica.

O mesmo estilo mental que não enxerga cientificamente o quão implausível homeopatia é pode confortavelmente considerar olho-gordo como doença e receitar uma simpatia como tratamento.

Se você é médico e não se importa em manter-se atualizado com tratamentos modernos comprovadamente cada vez mais efetivos e prefere render-se ao curandeirismo de um século pré-científico receitando mágica para seus pacientes, você está sendo profissionalmente imoral.

Imoralidade científica

Estendendo o tema acima: se voc√™ √© um agente de uma modalidade que deve se moldar aos achados contempor√Ęneos dos avan√ßos cient√≠ficos, sejam eles quais forem (interrup√ß√£o do uso de eletrochoque em doentes mentais; uso de medicamentos como alternativa para drenagem de l√≠quido sinovial do joelho; redu√ß√£o de casos de extra√ß√£o previamente indiscriminada de am√≠dalas; substitui√ß√£o de lepros√°rios por antibi√≥ticos, entre outros) e n√£o cumpre o que tal modalidade exige preferindo se manter fiel a ideias, por favor, cancele seu CRM e rasgue seu diploma. Voc√™ n√£o merece a denomina√ß√£o de “M√©dico” e todo o peso associado ao termo.

Pinte a cara, compre um cachimbo, se mude para uma tenda no meio do mato e vire curandeiro.

A Ci√™ncia (ou o M√©todo Cient√≠fico, mais especificamente) tem um mecanismo embutido de auto-corre√ß√£o. Eu dei quatro exemplos no par√°grafo acima de maneiras comuns de se tratar (pelo menos) quatro problemas de sa√ļde que foram, se n√£o completamente abandonados, pelo menos melhor pensados.

Isso n√£o caiu do c√©u. Muita gente estudou por muito tempo para que avan√ßos fossem poss√≠veis e negar todo esse esfor√ßo isso em favor de uma ideologia √©, em primeiro lugar, extrema arrog√Ęncia (de achar que sua opini√£o vale mais que todas as evid√™ncias coletadas por tantas pessoas ao longo de tantos anos) e, em segundo, pseudoci√™ncia.

Se voc√™ √© m√©dico, profissional da Sa√ļde, e prefere negar todo o corpo cient√≠fico-liter√°rio da sua profiss√£o em prol de uma cren√ßa, voc√™ est√° sendo cientificamente imoral.

Imoralidade institucional
(Agora, a parte onde eu posso de verdade me dar mal.)

O Conselho Federal de Medicina aprovou e reconheceu o uso da homeopatia em 1980, quando o “presidente” da nossa querida na√ß√£o era o General Jo√£o Figueiredo. N√£o sou muito bom de pol√≠tica mas, durante uma ditadura militar, que poderes reais uma autarquia “(…) fiscalizada e tutelada pelo Estado” [Dicion√°rio Houaiss Eletr√īnico 3.0] como o CFM tem de fato?

Se, na √©poca, o primo de algum governador apontado pela presid√™ncia quisesse mudar a defini√ß√£o de “unic√≥rnio”, ele conseguiria facilmente faz√™-lo. Independente do bicho existir ou n√£o.

O que é um pedaço de papel? E o que é um pedaço de papel com algo escrito que não vai afetar você diretamente?

Antes corrigir o que o pedaço de papel diz do que ter sua carreira apagada pela mão autoritária de algum ideólogo poderoso.

Deixando claro o que eu tentei esconder no par√°grafo sem sentido acima: n√£o tenho d√ļvida alguma de que a homeopatia virou especialidade m√©dica porque algum poderoso quis que fosse assim e pronto. Em 1980, viv√≠amos num mundo onde isso era completamente poss√≠vel (n√£o que n√£o seja tamb√©m hoje em dia, que o diga Tiririca e seus rec√©m-adquiridos 61,8%).

O que não cabe na minha cabeça (por maior que ela seja, e ela é enorme Рvide foto) é que hoje, 2011, continuemos com esse joguinho. Eu entendo que o CFM é uma organização política, mas a vontade de agradar a todos (ou, mais certamente, não desagradar a ninguém) não pode ser colocada acima da responsabilidade institucional de criar um ambiente saudável para a população em geral.

O Conselho √© uma organiza√ß√£o reguladora, al√©m de administrativa, e essa aparente carta-branca para pseudoci√™ncia (que inclui acupuntura) pesa sobremaneira. √Č uma declara√ß√£o aberta de apoio a pr√°ticas que n√£o t√™m como comprovar seu valor e, sinceramente, um tapa na cara da Ci√™ncia M√©dica.

N√£o √© poss√≠vel manter esse tipo de atitude; tradi√ß√£o n√£o √© resposta. Manter homeopatia em seus quadros porque ela “sempre esteve l√°” n√£o √© correto. Ao deixar que homeopatia permane√ßa como especialidade m√©dica, o CFM est√° ignorando tudo que a ci√™ncia mostra ser correto para o benef√≠cio de nada. Porque homeopatia √© exatamente isso; nada.

Os conselheiros que formam a instituição precisam escapar da politicagem que os mantêm calados (conheço pessoalmente vários deles e estou supondo que todos são excelentes praticantes da medicina baseada em evidência e só não se pronunciam contra esse abuso por força política), caso contrário o CFM acabará sendo só mais uma agência política. E desse tipo já temos suficiente.

Se você é conselheiro federal e deixa que a política fale mais alto que a ciência num órgão que deveria ser regida por esta com a finalidade de proteger a sociedade, eu sinto muito, mas você está sendo institucionalmente imoral.

E apenas mais um nisso.
10:23 - Homeopatia: é feita de nada

E como eu sei que vão pedir que eu prove a negativa, vou logo adiantando: a alegação extraordinária que requer provas extraordinárias é dos homeopatas, que precisam que todas as leis conhecidas da Física, Química e Biologia sejam inválidas para que a homeopatia funcione como eles dizem.

Fora isso, eu sei que homeopatia não funciona porque meu dragão invisível indetectável que flutua silenciosamente e cospe fogo sem temperatura que mora na minha garagem me disse. Sintam-se à vontade para provar que ele não existe e não é onisciente.

Homeopatia √© feita de nada. Tanto que dia 5 agora eu tomarei uma “overdose” homeop√°tica num local p√ļblico. Se “rem√©dios” homeop√°ticos funcionam, devem seguir a fun√ß√£o dose-resposta que diz que a magnitude da resposta est√° relacionada com a dose (quanto mais eu tomo, mais eu sinto), at√© que se chegue num n√≠vel t√≥xico.

Mas a n√£o ser que eu seja al√©rgico a a√ß√ļcar (n√£o sou, a n√£o ser que ele esteja muito quente), nada acontecer√° comigo.

Se você mora em Natal e quer testemunhar (já que não posso convidar ninguém a participar), entre em contato comigo para saber onde estarei.

Saiba mais sobre os outros corajosos (homeopatia é inofensiva, mas não posso garantir que não tenha um homeopata doido por aí querendo nos pegar) ao redor do mundo que farão o mesmo como parte da campanha mundial 10:23 acessando http://1023.haaan.com/.

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam n√£o necessariamente por email. Achar posts, imagens, tu√≠tes, v√≠deos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso n√£o √© dif√≠cil. O dif√≠cil √© confirmar a veracidade das informa√ß√Ķes antes de sair por a√≠ espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alega√ß√Ķes s√£o, via de regra, as seguintes: as moedas falsas s√£o mais leves, n√£o brilham como as verdadeiras, n√£o s√£o atra√≠das por √≠m√£s, os detalhes s√£o grosseiros, a falsa √© “mais oval”, o tamanho dos detalhes “s√£o um pouco maior, pouca coisa, mas s√£o!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que n√£o significa que n√£o estejam todos certos, visto que n√£o existiria s√≥ um fals√°rio fazendo moedas sempre no mesmo padr√£o. O problema aqui √©, como muitos outros problemas na vida, ignor√Ęncia dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, voc√™ me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo √© uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

√Č como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois √©, ambas s√£o joaninhas). Se voc√™ sup√Ķe previamente que uma delas √© falsa, voc√™ vai concluir que uma delas n√£o √© uma joaninha. N√£o porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contr√°rio da primeira, √© sim uma aranha disfar√ßada) ou outra esp√©cie de inseto, mas porque voc√™ chegou a essa conclus√£o antes de obter dados suficiente para qualquer conclus√£o, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso √© comum em apologistas de pseudoci√™ncias como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles j√° come√ßam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X √© geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles n√£o entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contr√°rio). Os que s√£o um pouquinho mais dispostos da cabe√ßa (e n√£o pegam toda informa√ß√£o acerca de sua religi√£o pr√°tica exclusivamente atrav√©s de um blog escrito todo em mai√ļsculas e negrito) at√© se d√£o ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas j√° tendo certeza de que, digamos, exerc√≠cio e dieta balanceada n√£o funcionam, pois o que funciona √© s√≥ sua religi√£o pr√°tica e s√≥ pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religi√£o pr√°tica. No artigo tem algo como “mas certas pessoas t√™m problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARR√Ā! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL EST√Ā ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabe√ßa de Rorschach. No caso da pseudoci√™ncia ela precisa n√£o ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detect√°vel por qualquer instrumento que n√£o minha pr√≥pria f√© e precisa ser algo que n√£o me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que √© certo √© a moeda que eu “sei” que √© verdadeira. Como a outra n√£o se enquadra nas categorias arbitr√°rias pr√©-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circula√ß√£o moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modifica√ß√Ķes em suas caracter√≠sticas f√≠sicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na pr√°tica, as modifica√ß√Ķes na moeda de R$0,50 ‚Äď de disco prateado ‚Äď e na de R$1,00 ‚Äď de n√ļcleo prateado e anel dourado ‚Äď s√£o pouco significativas. Al√©m de apresentarem pequenas altera√ß√Ķes de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. J√° os desenhos de ambas n√£o sofreram nenhuma modifica√ß√£o.

E, saca s√≥!, nem cupron√≠quel e nem alpaca (liga de cobre, n√≠quel e zinco) s√£o ferromagn√©ticos e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos por √≠m√£s. S√£o tamb√©m ligas mais male√°veis que a√ßo, ficando mais propensas a riscos e pequenas deforma√ß√Ķes. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, s√£o ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na Rep√ļblica ou p√©-de-galinha no Bar√£o de Rio Branco √© prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil √© um pa√≠s vagabundo e vira-lata, que acha que √© primeiro mundo e cunha moedas de cupron√≠quel/alpaca mas n√£o tem sequer condi√ß√Ķes de recolher moedas que j√° circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cupron√≠quel/alpaca depois de apenas tr√™s anos porque eles s√£o caros demais e o custo n√£o √© compensado pelo valor irris√≥rio da face. [3]

Mas o Brasil √© um pa√≠s rico! E auto-hemoterapia cura c√Ęncer! E shiatsu tem comprova√ß√£o cient√≠fica! E homeopatia n√£o √© s√≥ √°gua e a√ß√ļcar! E o PT √© diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” s√£o apenas a√ßo-inox pintado. Cobre (mat√©ria-prima do bronze, do cupron√≠quel e da alpaca) √© caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes p√ļblicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher cap√īs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso Рtalvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensa√ß√£o de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da popula√ß√£o que nunca leu uma s√≥ linha de Sir Doyle e n√£o sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por a√≠ acusando algu√©m de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mist√©rios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

1 Macaco e Meio, um filme com Luisa Mell sobre a invasão do Instituto Royal que ninguém quer ver

O portal G1 fez uma mat√©ria entrevistando Mayana Zatz, geneticista de renome (termo relativo, mas…) e sua meio-prima Marina Zatz, ativista ambiental que invadiu (nada de relativo aqui, invas√£o √© crime, vide artigo 202 do C√≥digo Penal) o Instituto Royal e que prefere o codinome ‚ÄúLuisa Mell‚ÄĚ ao seu nome real.

A ‚Äúativista‚ÄĚ (que n√£o ser√° chamada de terrorista aqui porque ainda n√£o definimos legalmente o termo) aparenta ser tamb√©m malabarista de ideias, se utilizando do expediente j√° t√£o conhecido dos pseudocientistas (homeopatas, auto-hemoterapeutas e outros xam√£s) de contar apenas a verdade que lhe conv√©m completando os buracos com informa√ß√Ķes falsas e mentiras esteticamente bonitinhas.

(Recomendo que leiam a mat√©ria j√° linkada l√° em cima. Assim minhas cita√ß√Ķes do que Marina diz, entre aspas e italizadas, far√£o mais sentido.)

A primeira parte da pergunta sobre a possibilidade da extin√ß√£o de testes em animais √© respondida com “[√©] poss√≠vel e √© necess√°rio” enquanto a segunda parte, sobre quais seriam as alternativas, jamais √© sequer lembrada. Marina n√£o quer alternativas, apenas o fim do status quo. Desde que os avan√ßos cient√≠ficos que permitem que ela fa√ßa luzes nos cabelos e use batom e base matificante n√£o sumam, obviamente.

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Imagem retirada de blog da Jovem Pan

Marina Zatz (voc√™ deve preferir “Luisa Mell” mas, em n√£o concordar com o uso de animais para o benef√≠cio da humanidade, n√£o acho justo usar o “mel” do seu nome), se voc√™ sabe com tanta propriedade como √© poss√≠vel, por que n√£o mostra a alternativa? Se √© t√£o necess√°rio, por que o maior poder do universo (a Economia) continua tolerando e preferindo tais m√©todos? Talvez voc√™ n√£o saiba ou prefira esquecer que um dia soube, mas testes em animais s√£o a etapa mais cara de uma pesquisa antes de chegar nos humanos. Se “testes cient√≠ficos em animais n√£o s√£o um sistema de teste robusto” e existe alternativa (e “vasta literatura a respeito” ‚Äď mais sobre isso daqui a pouco), por que a Big Pharma, que adora sarrabuiar em dinheiro, continua desperdi√ßando notas alt√≠ssimas fazendo testes em animais?

Voc√™ afirma que a “ind√ļstria farmac√™utica tem mais fracassos (…) do que sucessos” e que “nove em dez drogas experimentais falham em estudos cl√≠nicos (…) com base em estudos laboratoriais e animais“. Se testes em animais erram a previs√£o 90% das vezes como voc√™ diz, qual outro m√©todo tem um grau de acerto melhor? Voc√™ inclui estudos laboratoriais. Voc√™ quer que deixemos de usar animais E deixemos de usar laborat√≥rios tamb√©m? Como vamos testar efic√°cia e seguran√ßa ent√£o? Em pedras ao ar livre? Porque pela sua pr√≥pria admiss√£o os animais que “[p]ossuem caracter√≠sticas relacionadas evolutivamente” a n√≥s j√° n√£o servem e, mais para frente, diz que humanos tamb√©m n√£o podem ser envolvidos, como vamos criar compostos para salvar mais vidas? Vidas at√© desses mesmos animais que voc√™ quer ver saud√°veis e saltitantes fora dos laborat√≥rios.

Voc√™ diz ainda que esses erros “n√£o s√£o revelados por motivo √≥bvio: mercado“. Se eles n√£o s√£o revelados… como voc√™ sabe deles? E o que o mercado tem a ganhar com uma taxa absurda de erros dessa?

Voltando ao seu uso de “vasta literatura a respeito“. Onde voc√™ encontrou essa vasta literatura? Na Vogue ou na Marie Claire? Porque se voc√™ descobriu essa mina de informa√ß√£o em peri√≥dicos cient√≠ficos, no momento em que voc√™ diz que “Cientistas partem do pressuposto err√īneo” voc√™ est√° criando um paradoxo onde voc√™, ao mesmo tempo, acredita no que os cientistas escrevem na literatura E sabe, com uma propriedade √≠mpar que seu curso de direito a conferiu, que eles est√£o errados.

Mas não, o que está acontecendo aqui é que você prefere acreditar na informação que mais lhe seja confortável. Isso tem vários nomes; viés de confirmação, seleção discriminatória, falácia do atirador e etc, mas todos se resumem apenas a desonestidade intelectual. Você desacredita completamente na ciência e faz questão de tentar sujar o nome dos cientistas mas usa tanto dados científicos quanto o bom nome de qualquer cientista que você acha que concordam com seu ponto de vista enviesado. Só isso.

Ou você sabe que está errada e está sendo vilmente desonesta, ou não sabe que está esfericamente errada e está sendo hiperesfericamente ignorante.

V√°rios m√©dicos e cientistas americanos j√° s√£o contr√°rios a experimentos com animais, n√£o pela √©tica, mas sim por isso atrapalhar a ci√™ncia!“. E por que voc√™ acredita logo nessa minoria? Porque cita apenas um “ex-secret√°rio de Servi√ßos Humanos e de Sa√ļde dos EUA” e n√£o as dezenas de outros? O que esses poucos equivocados (n√£o sei porque voc√™ incluiu m√©dicos ali, sinceramente) t√™m de t√£o especial para voc√™, fora o fato de seu equ√≠voco ser o mesmo deles?

A segunda pergunta √© meio mal feita e sup√Ķe v√°rias coisas baseadas em achismos, mas sua resposta, Marina, √© ainda pior. Voc√™ diz que n√£o √© √©tico usar animais para beneficiar humanos. Voc√™ s√≥ n√£o definiu o que entende por “√©tica”, porque a alternativa, baseada na pergunta, pode ser resumida como “√© √©tico n√£o beneficiar humanos”. Voc√™ misturou humanos e demais animais no mesmo bolo e tentou sambar com palavras fortes como “instrumentalizar”, “mero meio”, “ser dotado de intelig√™ncia, consci√™ncia, projetos” (caracter√≠sticas humanas que voc√™ trouxe para o picadeiro por conta pr√≥pria e est√° misturando cretinamente numa discuss√£o sobre animais). E sinto informar, mas com essa linha de argumento √© voc√™ que est√° convertendo “seres vivos complexos em mero instrumento para nossos desejos e necessidades“. Quando o “desejo” √© o de melhorar a vida humana (e animal, gra√ßas a rem√©dios e tratamentos, nunca esque√ßa disso) e o “instrumento” √© uma pr√°tica controlada e constantemente refinada para justamente se aproximar cada vez mais desses “direitos mais b√°sicos” pelos quais voc√™ clama, suas palavras n√£o parecem mais t√£o apocal√≠pticas assim, n√©?

Voc√™ finaliza sua resposta com “al√©m de injusto, √© imoral“. Muito mais imoral √© deixar algu√©m morrer de tuberculose, muito mais injusto √© algu√©m perder uma perna por falta de insulina. Mas isso √© apenas uma opini√£o minha. Talvez voc√™ n√£o concorde com a minha defini√ß√£o de moralidade e justi√ßa.

A terceira pergunta (algo como “√© melhor assumirmos o bem-estar animal como prioridade, em detrimento √† nossa sa√ļde”, mais ou menos) √© at√© um tanto pior que a segunda em grau de direcionamento da resposta, mas voc√™ consegue enfiar os dois p√©s na boca mesmo assim.

Voc√™, Marina, afirma que testes animais s√£o uma metodologia equivocada (evid√™ncias?) que visam “atender uma necessidade exclusivamente humana“. S√©rio? Voc√™ conhece a hist√≥ria da ararinha-azul (que, ali√°s, muito ironicamente perdeu habitat para abelhas mel√≠feras, Luisa Mell)? Especialmente o peda√ßo sobre a luta para a restaura√ß√£o da esp√©cie? Recomendo uma leitura a respeito, textos estando dispon√≠veis em peri√≥dicos cient√≠ficos. Ah, e voc√™ sabia que seu bichinho favorito no momento, o beagle, pode sofrer uma morte horr√≠vel por causa de uma entidade conhecida por “doen√ßa do carrapato”? Voc√™ acha que o cachorro prefere o bem-estar de uma doen√ßa sangu√≠nea natural, provocada por outro animal, ou outro estilo de bem-estar que envolve uma coleira vermelha e at√≥xica? Novamente, minhas defini√ß√Ķes conflituam com as suas.

Voc√™ cita “Dr. John Pippin (diretor acad√™mico do Comit√™ de M√©dicos pela Medicina Respons√°vel, nos EUA)” e completa com “[i]sso n√£o √© ci√™ncia, √© bruxaria“.

Esse comit√™ do qual Pippin √© diretor √© o mesmo Physician’s Committee For Responsible Medicine (PCRM) que o Conselho Nacional Contra Fraudes na Sa√ļde diz ser ‚Äúuma associa√ß√£o sem fins lucrativos que alega promover uma ‚Äėdieta ideal para a preven√ß√£o de doen√ßas‚Äô, que diz n√£o haver evid√™ncias de que os seres humanos tenham um requisito diet√©tico espec√≠fico para prote√≠nas e ensina que ‚Äėmuita prote√≠na de origem animal na dieta √© prejudicial √† sa√ļde‚Äô e que ‚Äúseu l√≠der, Neal Barnard, m√©dico, foi identificado como consultor m√©dico da organiza√ß√£o radical pelos direitos dos animais, PETA, que tamb√©m substancialmente financia o PCRM.‚ÄĚ

O Conselho completa a introdu√ß√£o da an√°lise com: ‚ÄúNa nossa vis√£o, o PCRM √© uma m√°quina de propaganda cujas coletivas de imprensa s√£o teatros para disfar√ßar de not√≠cia sua ideologia.‚ÄĚ Mas tem mais nessa an√°lise. Muito mais.

Voc√™ confia absolutamente na palavra desse comit√™ pelo simples fato de que sua ideologia √© compartilhada com a dele. Nada al√©m disso. Com a mesma veem√™ncia, voc√™ acusa o FDA de cometer fraude “por causa de dinheiro” enquanto suas evid√™ncias s√£o somente as palavras que saem das bocas de pessoas de rabo preso ideol√≥gica e financeiramente com organiza√ß√Ķes radicais como a sua. Voc√™ faz parecer que o FDA financia testes em animais, o que n√£o √© verdade.

A quarta pergunta tenta comparar animais usados em pesquisa com animais criados para consumo.

Marina, sua resposta √© pouco mais que um desabafo que visa deixar claro o quanto voc√™ sofre, por procura√ß√£o, pelos animais, tipificado por “uma das in√ļmeras e terr√≠veis formas de explora√ß√£o animal“. Mais uma vez voc√™ escolhe certas defini√ß√Ķes que na sua boca parecem muito mais graves do que realmente s√£o. Nem toda “explora√ß√£o” √© “terr√≠vel”, vide a produ√ß√£o de mel, que deixa bilh√Ķes de abelhas felizes (voc√™ atropomorfiza, ent√£o tamb√©m posso) e permite a voc√™, vegetariana, se deliciar com tomates e am√™ndoas. Ou voc√™ acha que tomateiros e castanhas se polinizam sozinhos? Ou acha que outros animais que n√£o abelhas conseguem polinizar tomates e am√™ndoas?

Por outro lado, voc√™ tamb√©m mostra como pensa por procura√ß√£o atrav√©s dos explorados quando diz “t√£o errado quanto cri√°-los para abate por quest√Ķes t√£o fr√≠volas como h√°bito, tradi√ß√£o ou conveni√™ncia“. Quem √© o criador de gado que voc√™ conhece que tem um rebanho de milhares de cabe√ßas por h√°bito? Onde √© essa av√≠cola que insemina milh√Ķes de perus por tradi√ß√£o? Qual √© o agricultor que usa um boi para puxar um arado para plantar feij√£o por conveni√™ncia? Marina, ou voc√™ √© completamente desconectada da realidade e delirante ou refinou e sintonizou seu discurso precisamente para pintar uma humanidade muito mais macabra e sombria do realmente √© (logo eu tentando defender os humanos, quem diria) nos fazendo parecer monstros que matam, mutilam e torturam animais por prazer. Ou, pior, porque sim.

Voc√™ prega que animais s√£o “criaturas biogr√°ficas que percebem o mundo √† sua volta e interagem com ele” e, guess what? N√≥s tamb√©m somos! E parte dessa intera√ß√£o, parte dessa biografia que nos permitiu “parar de pensar como humanos da era paleol√≠tica” foi justamente a intera√ß√£o do nosso sistema digestivo com prote√≠na de origem animal e a intera√ß√£o das nossas necessidades (fome e abrigo) e desejos (parar de sentir fome e frio) com a intelig√™ncia inferior de bestas maiores, mais fortes e mais peludas que n√≥s. Nosso c√©rebro s√≥ serve para dar entrevistas porque nossos ancestrais paleol√≠ticos o cultivaram com mais e melhor nutri√ß√£o e mais tempo para us√°-lo. N√£o se iluda, absolutamente nenhum item que voc√™ consome √© animal free; das minhocas que limpam as ra√≠zes do alface aos jegues atropelados que viram a cola que segura as pedras dos seus an√©is e brincos. E se voc√™, atrav√©s de seus atos (vide foto abaixo), aceita esse uso “natural” de animais, por que n√£o o igualmente natural ato de consum√≠-los?

Imagem retirada da Wikipedia

Imagem retirada da Wikipedia

√Č justamente por n√£o pensarmos paleoliticamente que usamos animais da forma como usamos, ao inv√©s de correr atr√°s de rebanhos em dire√ß√£o a penhascos.

A √ļltima pergunta da mat√©ria √© sobre um suposto acordo para acabar com o uso de animais em pesquisas e seu prazo de cumprimento.

Quase sensatamente, Marina diz que mudan√ßas precisam de prazos e discuss√Ķes e que “[e]ssa discuss√£o (…) deve existir“. E existe. Desde d√©cadas atr√°s, especialmente entre os cientistas, que s√£o os mais habilitados/atingidos/interessados a ter essa discuss√£o.

Eu disse “quase” porque ela completa dizendo que a discuss√£o deve envolver “especialistas em √©tica e ci√™ncia, junto √† opini√£o imprescind√≠vel do p√ļblico leigo“. Por que a opini√£o do “p√ļblico leigo” (diferente de qual outro p√ļblico?) √© t√£o necess√°ria e imprescind√≠vel? O que um p√ļblico que, pela sua pr√≥pria admiss√£o, n√£o sabe do que est√° falando teria tanto a contribuir que n√£o desinforma√ß√£o, equ√≠vocos e no√ß√Ķes destoantes da realidade, como as suas, Marina?

Motivo do título:
twitter-luisa-mell

Uma elegia a um dinossauro

Para os que talvez ainda n√£o saibam, sinto informar que Carlos Hotta, do Brontossauros em meu Jardim se foi.

N√£o sei exatamente por onde come√ßar, ent√£o come√ßarei do come√ßo e deixarei o fluxo de consci√™ncia tomar conta (e se parecer que estou fazendo piada, estou mesmo. √Č assim que lido com as coisas no dia a dia).

At√© abril de 2008, parte da minha rotina consistia em responder/corrigir (com informa√ß√Ķes, na medida do poss√≠vel, corretas) a correntes de email e, aproveitando a imensa quantidade de endere√ßos que vinham atrelados a tais mensagens, espalhar algumas gotinhas de conhecimento da Natureza e aprecia√ß√£o da Ci√™ncia.

Quando vi uma imensa quantidade de emails retornando, percebi que estava sendo, na maior parte, mandado para a caixa de spam dos outros a quem tentava convencer de que o mundo √© fascinante e que tomate n√£o d√° nem cura c√Ęncer.

Ent√£o, um dia ap√≥s o meu anivers√°rio, aproveitei alguns textos que j√° havia escrito (e mandado por email para pessoas mal agradecidas) e resolvi iniciar um blog (ou “blogue”, como eu pedantemente chamava, at√© perceber que n√£o faz diferen√ßa) que, √† √©poca, se chamava “N√£o Acredite no que Eu Digo, Pois Minto Tanto Quanto Voc√™” e que, por motivos √≥bvios, rapidamente foi mudado para “42”, ainda sem o ponto final que adorna o cabe√ßalho deste.

Pouco mais de um mês e meio depois, um mundo completamente novo apareceu diante dos meus olhos: blogs especializados em ciência (o meu era do que quer que estivesse na minha cabeça no momento em que sentava para escrever) e, principalmente, em português (pois já conhecia alguns em inglês). Por ocasião de um comentário, conheci em poucos minutos Atila Iamarino, Rafael Soares e Carlos Hotta.

Mais ou menos um m√™s depois, sozinho e carente, escrevo um texto especificando nos m√≠nimos detalhes o tipo de mulher com quem desejo passar meus dias (e que demoraria ainda dois anos e meio para finalmente conseguir), finalizando com “se voc√™ se identificou com o texto, me procure”.

O primeiro comentário, poucos minutos após a publicação do post foi esse aí:

Carlos Hotta

Sem saber muito bem como reagir nem para que lado a intera√ß√£o penderia, mandei um email para Carlos da forma mais neutra poss√≠vel. Algo como “que foi?”.

Ao responder, ele me tranquilizou e disse que me queria para um projeto que ele e Atila estariam montando e que seria um “condom√≠nio” de blogs de ci√™ncia, chamado Lablogat√≥rios.

Logo original do Lablogatórios

Logo original do Lablogatórios

Cinquenta dias após aquela primeira notícia, entrava no ar o portal com o melhor nome de todos os tempos até hoje e que, apenas sete meses depois, viraria o Scienceblogs Brasil.

Toda essa celeridade que n√£o me deixa lembrar de como era ser blogueiro sem ser scienceblogueiro foi, em grande parte, por causa de Hotta.

Foi por causa dele que eu estou aqui hoje, falando para as milhares de pessoas que leem diariamente as insanidades que eu escrevo vez por outra.

Se uma mulher passou batom despreocupada por causa de um texto meu, agradeçam a Carlos.

Se alguém pesquisou por auto-hemoterapia, viu o comportamento animalesco de seus defensores e pensou duas vezes antes de abandonar um tratamento sério em busca de alternativas potencialmente arriscadas, os louros são de Carlos.

Se um médico deixou de usar seu jaleco na rua e uma infecção não piorou por causa disso, esse não-evento é devido, em parte, a Carlos.

Quando algu√©m conseguiu entender o motivo de espirrar sob luz forte; soube pela primeira vez que homeopatia √© s√≥ √°gua, a√ß√ļcar e pensamento m√°gico; descobriu que a chamada “medicina ortomolecular” s√≥ cura a falta de pedras nos rins; se divertiu com meus enigmas ou aprendeu o conceito de “napalm caseiro”, parte de tudo isso foi gra√ßas √† falta de tato de Carlos Hotta em me abordar num momento constrangedor.

Foi também por causa de sua influência que conheci outros seres, com os quais interajo quase diariamente, que foram e são muito importantes em minha formação intelectual e identidade pessoal, como Karl, que me ensinou que eu posso, ao mesmo tempo, estar correto mas ainda errado; Fafá, que se tornou meu amigo, ocasional hospedeiro e acessório em crimes companheiro em projetos extra-blogs; Fernanda e Bessa, que me mostraram, de pontos de vista diferentes, que um passeio pela universidade pode ser a mais fascinante jornada de conhecimento (certamente as duas pessoas que serviram de estopim para a minha saída do armário não-religioso); até mesmo Meire, a minha confidente e companheira esposa a quem eu provavelmente não teria conhecido caso não tivesse ainda a auto-bibliografia atrelada e on-line do 42. e que se encaixou como uma luva feita sob medida e com talco no texto tão rudemente epilogado por Hotta.

(Atila também é responsável por muito disso, mas como ele ainda está aqui não preciso falar bem dele. E Kentaro também é um que pertence à lista acima, mas eu já o conhecia antes, então não conta. Outros também deveriam aparecer, mas FOCO!)

Também ainda por causa dele, em uma reunião onde decidimos os rumos do condomínio, realizei um sonho e criei meu próprio podcast (que não durou o suficiente, mas isso é culpa minha).

At√© um restaurante japon√™s excelente em S√£o Paulo (quem diria que eles existissem…) me foi apresentado por ele.

Um jeito tranquilo de falar (com um leve problema nos fonemas PR e FR) mas sempre com algo relevante a dizer, com uma genialidade do tipo que sabe o que importa e sabe que chamar aten√ß√£o para o fato √© uma das que n√£o importam e com uma maturidade psicol√≥gica muito al√©m dos seus 45 anos (eu acho que nascemos no mesmo ano, mas ele adquiriu tantas realiza√ß√Ķes ao longo da vida que trinta e poucos anos n√£o seria tempo suficiente para um ser que vive na mesma velocidade dos outros).

Semana passada eu gravei uma entrevista com ele – talvez sua √ļltima. Quarta-feira que vem ela sair√° na p√°gina do Dispersando e por l√° dever√° ficar at√© que as circunst√Ęncias permitam, nos fazendo lembrar como ele foi um dia; tranquilo e s√°bio.

Este texto é dedicado (caso não tenha ficado extremamente óbvio ainda) a Carlos Hotta.

Sentirei, além de imensa e eterna gratidão, enormes saudades.

———

Antes que alguém se confunda com alguma coisa, Carlos Hotta não morreu. Apenas seu blog deixou o Scienceblogs.

Previs√Ķes cientificamente est√°veis para 2013

Alguns anos atr√°s eu previ v√°rias coisas e conseguir errar 100% delas. Isso s√≥ prova como meu poder √© forte, j√° que estatisticamente eu deveria ter acertado pelo menos uma ou duas (ou seja, eu sou mais poderoso que a Estat√≠stica (ou algo assim – n√£o consigo construir uma frase positiva com dados negativos envolvendo flutua√ß√Ķes num√©ricas) ou ent√£o preciso ser mais conciso e direto (o que n√£o √© dif√≠cil para mim, acreditem. Eu sei ser bastante direto e focado (como semana passada, por exemplo, quando fui resolver um neg√≥cio com meu plano de sa√ļde e precisei passar em seis locais diferentes e falar com, literalmente, oito pessoas distintas (imagine s√≥ quem n√£o tem plano de sa√ļde e/ou um carro. O que me remete ao meu desejo de vender o meu (o que seria uma imensa economia, tanto de combust√≠vel quanto de manuten√ß√£o (e at√© mesmo uma economia emocional, j√° que est√° cada vez mais dif√≠cil dirigir sem se aborrecer nesta cidade (e, pior ainda, est√° estacionar. Na rua j√° √© imposs√≠vel (apesar de eu achar que deve haver algum momento em que existam vagas, j√° que n√£o creio que todos aqueles carros passem semanas estacionados (eu sei que eles n√£o passam, a verdade √© essa, vez por outra eu consigo uma vaga (algumas vezes (mas n√£o sempre) at√© perto de algum estabelecimento que eu pretendo visitar) mas ou estaciono imediatamente ou perco a vez) ocupando os mesmos lugares, entra dia, sai dia) e os estacionamentos pagos est√£o ficando cada vez mais ridiculamente caros, o que aumenta ainda mais meu gasto com o carro) porque o motorista atual √© s√≥ um pouco menos selvagem que um dem√īnio-da-Tasm√Ęnia (especialmente os motoqueiros, que parecem ter algum fetiche com espa√ßos apertados (e at√© mesmo quando n√£o existem carros na frente eles andam costurando um tr√Ęnsito virtual (o que s√≥ aumenta o desgaste do ve√≠culo (ou, como √© mais costumeiro, ficam mirando a moto nas faixas pintadas no ch√£o (o que me lembra uma crian√ßa tentando andar na ponta da cal√ßada, se equilibrando) mesmo tendo toda uma rua livre para transitar) e os custos de manuten√ß√£o de algo que deveria ser bem barato) que s√≥ existe na parte de seus c√©rebros que cria a expectativa e a recompensa (acho que √†s vezes at√© sexual (se bem que talvez “emocional” fosse uma palavra mais adequada para o contexto), se bem que n√£o posso ter certeza do que se passa na cabe√ßa de algu√©m assim), realizando a proeza de atrapalhar o tr√Ęnsito preventivamente), talvez at√© causado pelo enclausuramento dos capacetes que usam (ser√° que existe alguma correla√ß√£o com isso? Pode ser que sim, vou pesquisar a respeito (nota mental: pesquisar o efeito do aumento da temperatura do capacete num c√©rebro j√° debilitado (ou seria o contr√°rio, esse tipo de mente j√° seria predisposto?) pelo desejo de andar no meio de transporte mais arriscado j√° produzido) e talvez renda um post interessante) ou pela adrenalina constante que recebem na circula√ß√£o) raivoso e acuado) e ainda eu deixaria de me preocupar em t√™-lo roubado (a viol√™ncia s√≥ piora, s√≥ piora), arranhado, etc) e investir o dinheiro em alguma coisa mais rent√°vel), n√£o contando as que confrontei por engano (porque, obviamente, os endere√ßos nas guias estavam errados e desatualizados) e que n√£o sabiam do que eu estava falando (n√£o que as outras partes diretamente envolvidas tamb√©m soubessem) nem como me direcionar ao lugar correto, mesmo assim n√£o me tirando a concentra√ß√£o) em praticamente todos os momentos, jamais perdendo o fio da meada) para n√£o confundir tanto os meus leitores com divaga√ß√Ķes aleat√≥rias) ao inv√©s do meu placar perfeitamente zerado.

Ent√£o, sem mais delongas, vamos √†s previs√Ķes para 2013!

Ao longo deste ano, terremotos inesperados ocorrer√£o na Europa e na √Āsia, surpreendendo os moradores da regi√£o E virando not√≠cia em v√°rios locais ao redor do globo. Pessoas predispostas a esse tipo de comportamento se compadecer√£o e demonstrar√£o apoio (nunca se saber√° ao qu√™ exatamente).

L√° pelo meio do ano – prevejo que entre julho e agosto -, uma chuva de meteoros aparecer√° no c√©u do norte, anunciando mudan√ßas. A este fen√īmeno ser√° dado o nome gen√©rico referente aos filhos do primeiro grande her√≥i. Visiono ainda que est√° her√≥i teria cortado a cabe√ßa de um terr√≠vel monstro com cabelos de serpente e que seu nome rima com a frase “ter seu“, que pode ser completada com coisas bonitas como “cora√ß√£o”, “n√ļmero de telefone” ou “cachorro na minha casa nunca mais! Da pr√≥xima vez que voc√™ viajar, deixo-o num hotel”.

Um artista famoso vai fazer algo que chocar√° o mundo, enquanto alguns o defender√£o, chamando de “arte” qualquer que seja a bizarrice que aquele venha a fazer. Trocadilhos com seu nome surgir√£o e seu nome virar√° um meme nas redes sociais. O termo “celebridade” ser√° inadequadamente utilizado.

Em 2013, o planeta ficar√° em trevas. Pelo menos parte dele. E no dia 3 de novembro.

As noites de 25 de abril, 25 de maio (COINCIDÊNCIA???) e 18 de outubro também ficarão ligeiramente mais escuras. Isto é, nos locais com pouca iluminação artificial e dentro da região afetada pelos eclipses lunares.

Voc√™ que est√° lendo isto agora tamb√©m est√° sendo pr√©-lido. Voc√™ (ou algum familiar ou algu√©m pr√≥ximo) ter√° algum sintoma em pelo menos uma das regi√Ķes especificadas no diagrama abaixo:

Se você é mulher, as chances aumentam significativamente naquela parte mais abaixo. Aquela bem vermelha que parece está escorrendo. Viu qual é?

Um centen√°rio morrer√°. Seja literalmente ou apenas semanticamente, completando 101 anos e ultrapassando o t√≠tulo de “centen√°rio”. De toda forma, prevejo que um centen√°rio morrer√°.

Em previs√Ķes relacionadas, antevejo o nascimento de um(a) futuro(a) centen√°rio(a) e ainda acrescento que este(a) viver√° at√© depois do fim deste s√©culo(a).

Vejo ainda futuramente que os homeopatas continuar√£o dizendo que o conceito cient√≠fico de vacina confirma seus conceitos m√°gicos de ultradilui√ß√Ķes de √°gua com √°gua¬≤ enquanto denunciam que toda a ci√™ncia m√©dica est√° errada e mata milh√Ķes de pessoas. √Č tamb√©m certeza que eles dir√£o que homeopatia √© boa porque n√£o muda h√° 200 anos (errado, mas j√° que estamos ignorando uma realidade, vamos ignorar todas as outras – menos as que nos beneficiam) e citar√£o, sempre que poss√≠vel, a Talidomida.

O Sol mostrar√° toda a sua indiferen√ßa pela ra√ßa humana aumentando a incid√™ncia de casos de c√Ęnceres de pele e, mesmo com todo o calor que vem fazendo, continuar√° a brilhar normalmente, jamais diminuindo a temperatura terrestre.

Ele também vai mostrar sua indiferença a tudo, continuando a ser uma estrela inanimada e desprovida de consciência.

Para o meu prazer, continuarei a ser xingado pelos pseudocientistas que passam tanto tempo insistindo em me mandar estudar que ficam sem tempo de estudar eles mesmos. Qualquer coisa, não só o assunto sobre o qual eles dominam exatamente zero.

Este ano será o primeiro em vinte e seis cujos dígitos não se repetem.

Antecipo ainda que os calendários de outras culturas continuarão a ser um mistério para a maioria eurocêntrica que não entende porque os judeus dizem que estamos em 5773 ou qual motivo levaria os chineses a contar os anos em animais. Sério, como eles esperam obter alguma vantagem com isso?

E que Al√° nos proteja!

E, finalmente, em 2013, alguns post ficar√£o inacabados, possivelmente causando tens√£

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