“Onde eu vou usar isso na minha vida?”

Durante minha vida acad√™mica eu testemunhei em v√°rias oportunidades alguns dos meus colegas reclamando das informa√ß√Ķes que recebiam dos professores, acusados de ensinar muita coisa desnecess√°ria.

Preciso dizer aqui que concordo com tal observa√ß√£o. A escola tradicionalmente nos empurra informa√ß√Ķes que s√£o completamente in√ļteis no mundo real e que em nada nos ajuda no nosso cotidiano (ou “na vida real”, como eu chamo o per√≠odo de tempo que ocorre fora da Academia).

Por exemplo: quantos entre voc√™s sabem usar estat√≠stica? Arriscaria dizer que menos de 50% sabe usar porcentagem e menos de metade √© familiar com o uso de fra√ß√Ķes.

Quanto mais eu estudava logaritmo, menos e menos eu aprendia. E também nunca precisei de matrizes para colocar um teto sobre a minha cabeça.

Quem precisou aprender sobre degrada√ß√£o de prote√≠na nas aulas de Biologia ou sobre liga√ß√Ķes i√īnicas nas de Qu√≠mica para colocar comida na mesa?

Para quê perder tempo aprendendo Física se toda a nossa informação hoje em dia vem pela Internet e TV (geralmente a cabo ou via satélite)?

Antigamente ningu√©m estudava Hist√≥ria e em nenhuma parte do mundo as civiliza√ß√Ķes deixavam de existir por n√£o saberem Geografia.

Filosofia e Literatura s√£o duas coisas in√ļteis tamb√©m, pois como j√° dizia Voltaire, “o valor dos grandes homens mede-se pela import√Ęncia dos seus servi√ßos prestados √† humanidade“.

Ningu√©m nunca precisou estudar um segundo idioma para pedir uma long neck e uma pizza ao gar√ßom, ou um croissant com cocktail de champagne no piano bar, nem para comprar tickets num site de Internet para um show de rock em turn√™ do CD de top hits, ou assumir que uma madame de batom e blush usa tamb√©m spray de cabelo e gosta de buqu√™ de tulipas e se veste como drag queen de pr√™t-√†-porter. Nem para constatar que o layout de um ateli√™ de fashion design num shopping √© igual a um camel√ī laissez-faire on-line que se acha chic por ser pink e n√£o ter toilette. Por exemplo.

Ai, que chato...

Ai, que chato…

Eu estudei at√© quebrar a perna do √≥culos e at√© hoje nunca usei uma catacrese ou hip√©rbole em minha na vida. A escola acabou e jamais usei uma meton√≠mia. Elipse, ent√£o…

Tirei muita nota ruim e horas da minha vida e, pá!, não aprendi o que é zeugma, onomatopeia, assíndeto, eufonia.

Alguém além dos alargados alambrados acadêmicos aprendeu a lidar com aliteração?

Eu, pessoalmente, olhei com meus próprios olhos para o livro até ele ficar com medo e não sei o significado de pleonasmo, perissologia, batologia ou prosopopeia.

A escola tentou me ensinar o que é tautologia porque a escola serve para ensinar.

Sabe-se lá o que significa ênclise! Tê-lo-ia aprendido se não me tivesse sido apresentado ao mesmo tempo em que mesóclise e próclise.

Não é excelente como a escola, excelente instituição de formação, nos fez aprender o que é diasirmo?

E de todas as figuras de linguagem, pelo menos uma delas eu domino plenamente. A rima!

Resenha – Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo

“Salvo em alguns setores do pa√≠s, ainda conservam nossas rela√ß√Ķes sociais, em particular as de classe, um acentuado cunho colonial. (…) Quem percorre o Brasil de hoje fica muitas vezes surpreendido com aspectos que se imagina existirem nos nossos dias unicamente em livros de hist√≥ria.”

Surpreendentemente (ou n√£o), as palavras acima foram publicadas pela primeira vez 72 anos atr√°s. Caio Prado Jr. descreveu, em 1942, um Brasil que parece rec√©m sa√≠do da situa√ß√£o de col√īnia escravista, onde o trabalho livre ainda √© desorganizado, a economia interna ainda √© quase inexistente e a sociedade ainda n√£o aprendeu a lidar com a falta de escravos sociais. Isso tudo, tristemente, continua desconfortavelmente atual hoje em dia, quase duzentos anos depois do nosso “grito de independ√™ncia”.

caiopradojr

Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo foi o livro que mais contribuiu para o autoconhecimento do nosso pa√≠s, at√© ent√£o dividido em ilhas de informa√ß√Ķes com intercomunica√ß√£o inadequada. Ele investiga esmiu√ßadamente a realidade do pa√≠s desde que √©ramos col√īnia portuguesa at√© a entitulada forma√ß√£o do Brasil como na√ß√£o.

A forma como ele exp√Ķe os problemas atuais (sim, a maioria continua bem fresca, mostrando como evolu√≠mos muito pouco nos √ļltimos dois s√©culos) e suas causas no passado nos ajuda a compreender o contexto para o resto do livro e nos d√° os fundamentos do que ele pensa ser a melhor forma de resolver nosso ran√ßo colonial, que serviu para nos distanciar do resto do mundo, e que nos desviou para o lado errado da evolu√ß√£o social.

Caio Prado Jr. deixa bem claro que fomos colonizados somente para facilitar os interesses mercantilistas, transformando o país num imenso galpão fornecedor de riquezas para os outros e que isso nos afeta até hoje (1942 para ele, 2014 para nós). Por estarmos na zona tropical, nossa sociedade foi inventada, diferente da tradicional sociedade colonial temperada, parecida o suficiente com a colonizadora a ponto de ser quase uma extensão desta. Aqui fomos diferentes desde o primeiro dia. A ocupação do interior, por exemplo, foi apenas uma necessidade num mundo sedento por monoculturas, tanto agrícolas quanto pecuárias.

Ele fala tamb√©m sobre as ra√ßas no Brasil, reclamando da falta de an√°lise sistem√°tica que “[f]ornece por isso ainda muito poucos elementos para a explica√ß√£o de fatos hist√≥ricos gerais, e temos por isso de nos contentar aqui no estudo da composi√ß√£o √©tnica do Brasil, em tomar as tr√™s ra√ßas como elementos irredut√≠veis, considerar cada qual unicamente na sua totalidade“. Especialmente na homogeneiza√ß√£o dos escravos, provenientes de v√°rias culturas distintas que foram for√ßados a conviver sob o peso dos grilh√Ķes pelos brancos, geralmente cat√≥licos.

Outra parte interessante √© quando ele discorre sobre a cria√ß√£o disforme da nossa sociedade, antes baseada no mercantilismo e escravid√£o, que precisa agora crescer, de alguma forma, num mundo onde existe liberdade social e econ√īmica. Esse monstro que se forma dessa situa√ß√£o cria a nossa sociedade com imensas fendas entre os abastados, que podem ter tudo do bom e do melhor que a Europa pode oferecer, e os desafortunados, impedidos de possuir.

Isso lembra alguma coisa?

Da coloniza√ß√£o e povoamento, passando por economia e com√©rcio e findando em (literalmente, sendo a √ļltima parte do livro) vida social e pol√≠tica, uma excelente leitura; did√°tica e intrigante. Certamente, este √© um dos livros que sempre quis ler mas me faltava oportunidade.

O volume acaba com uma entrevista sobre a import√Ęncia hist√≥rica de Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo com o historiador Fernando Novais, seguida por um posf√°cio de Bernardo Ricupero.

O livro √© muito bom para nos fazer enxergar como nossa sociedade mudou muito pouco nestas √ļltimas oito ou doze d√©cadas e que algumas solu√ß√Ķes que poderiam ter sido postas em pr√°tica antes ainda t√™m seu lugar hoje em dia.

Recomendo para aqueles que gostam de aprender de onde vieram e, tudo coninuando da mesma forma, para onde ir√£o. Talvez marxista demais para a maioria dos gostos, mas objetivo em suas descri√ß√Ķes.

A bibliografia me deixou um pouco nervoso. √Č muita coisa interessante e muito pouco tempo para ler (ou at√© achar) tudo.

E, como bem lembrou minha esposa, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro (O Povo Brasileiro Рtambém na Companhia das Letras) e Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala) são os três autores indispensáveis para aqueles que querem entender melhor do Brasil. Por favor, se você gostar de um, leia-os todos.

Forma√ß√£o do Brasil Contempor√Ęneo, de Caio Prado Jr., relan√ßado pela Companhia das Letras e dispon√≠vel em livro eletr√īnico ou arb√≥reo.

———

Resenha atrasadíssima. Mas a culpa não é minha, afinal não posso ser responsabilizado pelas coisas que a procrastinação me força a fazer. Ou não fazer, como seja.

Aguardem mais resenhas de volumes da Companhia das Letras nos próximos meses. Fizemos uma parceria.

33 curiosidades sobre o n√ļmero 33

Hoje, por nenhum motivo especial, resolvi compilar uma lista de trinta e tr√™s propriedades sobre o n√ļmero 33. Um n√ļmero t√£o redondo que √© capicua at√© em bin√°rio!

Para aquecer, e como estamos em 2014, vamos começar multiplicando este por aquele. 2014 * 33 = 66462. Notaram alguma relação interessante?

Em ASCII, simbolizando a minha surpresa no fim daquela conta, 33 equivale a uma exclamação! Como a que usei lá em cima! Uau!

Falando nisso, trinta e tr√™s fatorial, ou 33! = 8683317618811886495518194401280000000. O que por extenso se l√™: oito undecilh√Ķes, seiscentos e oitenta e tr√™s decilh√Ķes, trezentos e dezessete nonilh√Ķes, seiscentos e dezoito octilh√Ķes, oitocentos e onze septilh√Ķes, oitocentos e oitenta e seis sextilh√Ķes, quatrocentos e noventa e cinco quintilh√Ķes, quinhentos e dezoito quadrilh√Ķes, cento e noventa e quatro trilh√Ķes, quatrocentos e um bilh√Ķes e duzentos e oitenta milh√Ķes. Com direito a metade de um “33” ocupando a posi√ß√£o dos decilh√Ķes, que √© um n√ļmero com 33 d√≠gitos.

A primeira vez que uma sequ√™ncia de sete zeros seguidos (como no final do n√ļmero acima) aparece em pi √© a partir da 3794571¬™ casa decimal. 3794571 √© divis√≠vel por 33.

Voltando um pouco, 33 √© a soma dos fatoriais dos quatro primeiros n√ļmeros inteiros. 1! + 2! + 3! + 4! = 33.

33 √© o menor n√ļmero com 9 (ou 3 vezes 3) representa√ß√Ķes da soma de 3 primos. 2 + 2 + 29 = 3 + 7 + 23 = 3 + 11 + 19 = 3 + 13 + 17 = 5 + 5 + 23 = 5 + 11 + 17 = 7 + 7 + 19 = 7 + 13 + 13 = 11 + 11 + 11.

33 √© tamb√©m o menor n√ļmero que pode ser expresso como a soma de dois n√ļmeros positivos elevados √† quinta pot√™ncia. 1^5 + 2^5 = 33.

Agora vamos para algo mais, digamos assim, “org√Ęnico”.

Nos c√≠rculos da engenharia de √°udio, conta-se que 33Hz seria “a frequ√™ncia de resson√Ęncia clitoriana”. Aparentemente (n√£o acho que isso tenha sido calculado em condi√ß√Ķes ideais e/ou livres de √°lcool), existe uma faixa de peso ideal para o efeito mas dizem que uma m√°quina de lavar em modo centrifuga√ß√£o alcan√ßa tal frequ√™ncia (#ficadica). Alternativamente, se voc√™ tem um subwoofer em casa (em casa! N√£o posso frisar isso o suficiente), eis aqui dez minutos de 33 hertz para sua aprecia√ß√£o.

John Cage, compositor experimental, escreveu uma m√ļsica em tr√™s movimentos chamada 4’33”. A partitura recomenda ao(s) m√ļsico(s) que n√£o toque no seu instrumento por exatamente quatro minutos e trinta e tr√™s segundos. Muita gente acha Cage louco por fazer isso, outros o acham engra√ßado, mas poucos se d√£o conta de que o verdadeiro foco de 4’33” n√£o s√£o os m√ļsicos, mas os espectadores que, ap√≥s quase um minuto de sil√™ncio, come√ßam a “tocar” a m√ļsica em si, uma m√ļsica org√Ęnica, improvisada e irrepet√≠vel, composta por cochichos, tosses, reclama√ß√Ķes, rangidos de assento e, quem sabe, talvez at√© um vibrador na plateia.

Terceiro movimento da composição 4'33", já se aproximando do clímax.

Terceiro movimento da composi√ß√£o 4’33”, j√° se aproximando do cl√≠max.

No mar, a pressão sobre um corpo aumenta uma atmosfera (1 atm) a cada dez metros, ou 33 pés, que o corpo afunda.

O sul africano Nuno Gomes tem o recorde do Guinness de mergulho ultraprofundo, chegando aos 318 metros. Outro mergulhador, Pascal Bernabé, contesta o recorde, dizendo que chegou aos 330 metros (ficando sob 33 atmosferas) mas ainda falta evidência confirmável disso.

Da área terrestre onde podemos andar sem molhar as canelas, 33% da superfície é formada por desertos. Tanto os frios quanto os quentes.
Alguns até se encontrando diretamente com o mar, como na Namíbia ou na Austrália.

Falando em deserto quente, o √Ęngulo de repouso cr√≠tico da areia seca √© mais ou menos 33 graus. Digo “mais ou menos” porque depende da granulosidade da areia e da defini√ß√£o funcional de “seca”.

A coluna vertebral humana (que sofre mais problemas de compress√£o por mergulhos em √°reas pr√≥ximas aos 33% acima) tem 33 ossos. O que me parece um pouco de trapa√ßa, j√° que, dos 33, cinco s√£o fundidos para formar o sacro. Que √© um frase que deve ser dita com muito cuidado e aten√ß√£o aos fonemas quando em p√ļblico.

A Divina Com√©dia √© dividida em tr√™s partes de 33 cantos cada. N√£o tenho muito mais a acrescentar, j√° que nunca consegui terminar de ler o livro. Posso dizer, pelo menos, que a p√°gina 33 da minha c√≥pia discorre sobre o quarto c√≠rculo do inferno, onde “encontram-se os pr√≥digos e os avarentos“, dentre eles “papas, cl√©rigos ou cardeais, dominados pela torpe avareza“.

Em 1633, Galileu Galilei √© condenado por heresia por defender que a Terra gira ao redor do Sol. Na √©poca em que a Igreja mandava, uma condena√ß√£o dessas n√£o era besteira e ele ficou preso pelos √ļltimos nove anos de sua vida por ter escrito uma coisa que era verdade. Ele foi julgado e condenado por causa de uma ideia. Esta arbitrariedade combinada com um poder supremo √© o principal problema num estado teocr√°tico.

Em Barcelona, na igreja da Sagrada Familia (aquela cuja construção nunca acaba) existe um quadrado mágico cuja soma é 33. Mas aí eu acho que tem algo a ver com mitos cristãos.

O fil√≥sofo William Whewell cunhou o termo “cientista” em 1833. Mesmo ano em que Ada Lovelace conheceu Charles Babbage e sua m√°quina diferencial. Talvez “1833” seja um n√ļmero importante para a Ci√™ncia da Computa√ß√£o.

Magnitude absoluta √© a medida do brilho instr√≠nseco de um objeto celestial a 10 parsecs, ou, aproximadamente, 33 anos-luz. A dist√Ęncia daqui para P√≥lux, a estrela gigante mais pr√≥xima de n√≥s.

Nesta escala, a Terra é invisível.

Nesta escala, a Terra é invisível.

A famosa nebulosa Cabe√ßa de Cavalo, descoberta por Williamina Fleming dentro de um espa√ßo catalogado cem anos antes por Caroline Herschel, √© oficialmente (para certas defini√ß√Ķes de “oficialmente”) conhecida como Barnard 33.

33 √© o n√ļmero at√īmico do ars√™nico, cuja formula√ß√£o homeop√°tica n√£o me matou (PASMEM!) e que jamais poderia ser criado pela mistura de camar√Ķes com vitamina C porque isso seria rid√≠culo.

Em 1972, a aeromo√ßa (denomina√ß√£o da √©poca) Vesna Vulovińá sobreviveu a uma queda de 33 mil, 330 p√©s depois que o avi√£o onde trabalhava explodiu no ar. Ou pelo menos √© o que o Guinness registra (documentos recentes parecem mostrar que o avi√£o foi abatido “por engano” enquanto voava bem mais baixo que isso – mas mesmo assim…).

Num rel√≥gio anal√≥gico, os ponteiros das horas e dos minutos formam um √Ęngulo de 33¬į entre eles apenas duas vezes em minutos inteiros, √†s 11:54 e 12:06. N√£o sei se voc√™s sabem, mas existe uma f√≥rmula para calcular os √Ęngulos entre os ponteiros do rel√≥gio. S√©rio, existe uma f√≥rmula matem√°tica especificamente para isso. Quem disse que estabilidade no emprego n√£o compensa?

Aos 33 anos:

Douglas Adams viajou pela primeira vez a Madagascar, no que seria a primeira de muitas viagens ao redor do mundo que findariam no document√°rio ambientalista Last Chance to See;

Charles Darwin publicou The Structure and Distribution of Coral Reefs, seu primeiro livro científico;

Arthur C. Clarke publicou Interplanetary Flight: An Introduction to Astronautics, um livro de divulgação sobre exploração espacial;

Machado de Assis publicou seu primeiro romance, Ressurreição;

Isaac Asimov publicou Second Foundation, compilado de seriados menores;

Terry Pratchett j√° havia publicado Strata mas ainda nenhum Discworld, e;

John Bonham j√° estava morto. 33 anos atr√°s.

PUDUM TISSSSssssss...

PUDUM TISSSSssssss…

Anivers√°rios do 42.

Hoje[1] o 42. completa três anos marcianos! E, para melhorar ainda mais o clima, terça-feira nosso blog favorito escrito por mim no Scienceblogs completará 4 \sqrt{2} anos!

Primeira evid√™ncia f√≠sica de aproxima√ß√£o de ‚ąö2, j√° em prepara√ß√£o para este anivers√°rio.

Primeira evid√™ncia f√≠sica de aproxima√ß√£o de ‚ąö2, j√° em prepara√ß√£o para este anivers√°rio.

No começo deste ano, em 17 de janeiro, completamos 2e anos e, no primo seguinte, dia 19, alcançamos nosso tricentésimo-primo dia.

Dois primos mais tarde, inteiramos três anos áureos.[2]

Não é a lei, é a proporção.

Não é a lei, é a proporção.

Muitos anivers√°rios ainda est√£o por vir este ano. Fiquem ligados!

———

[1] Contando a partir da separa√ß√£o do u√īleo, meu mais antigo e mais aleat√≥rio.

[2] Já sob a tutela do Scienceblogs, após o fim do Lablogatórios.

Alguém me explica que Merd, ops, Nerdologia foi esse?

Como venho me dedicando aos livros em detrimento aos podcasts, venho marcando a passagem das semanas pelas quintas-feiras. Mais especificamente pelo excelente Nerdologia, escrito e apresentado por Atila Iamarino (sim, aquele do Rainha Vermelha).

O videocast √© patrocinado, via de regra, pela Nerdstore (autoexplicativo) e, vez por outra, por alguma outra empresa fora do conglomerado Jovem Nerd (do qual o Nerdologia faz parte), mas nunca deixando de ser algo relacionado ao mundo neo-nerd, como videogames, computadores, esportes de a√ß√£o (hein?). Exceto este √ļltimo.

O episódio mais recente me pegou de surpresa. E me pegou num lugar inesperado. E privado.

Logo no comecinho, na primeira aparição do patrocinador, surge a imagem abaixo:

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Desconhecida por mim mas totalmente cromulente e inocente.

Como a imagem aparece por menos de dois segundos na tela, li “hearing guardian” e achei que fosse algum tipo de protetor auricular. Sabe? Daquele que guard sua hearing? Pois. N√£o √©.

No final, meio distra√≠do (porque quando estou prestando aten√ß√£o eu fecho o v√≠deo antes da propaganda come√ßar), escuto uma voz diferente exclamando(sic): “Agora que voc√™ j√° sabe para que servem as suas c√©lulas ciliadas, voc√™ pode exercitar as suas com o Hearing Guardian V1 da Biosom.”

Depois de recolher meu diploma do ch√£o e recoloc√°-lo na parede, voltei para ouvir o resto. A propaganda alega que o produto Hearing Guardian V1 da empresa Biosom (sic) “√© um software que ativa e movimenta as suas c√©lulas ciliadas uma a uma, como se fosse um afinador de piano, deixando elas mais resistentes ao longo de sua vida”.

Eu at√© poderia discorrer sobre as propriedades fisiol√≥gicas dos estereoc√≠lios (o nome pr√≥prio das c√©lulas que o software promete re-energizar reativar ressuscitar rejuvenescer exercitar) e fazer compara√ß√Ķes do tipo “alegar que um programa pode exercitar as c√©lulas do seu ouvido com est√≠mulos sonoros √© como tentar vender um massageador de per√≠neo que promete deixar seus espermatoz√≥ides mais bronzeados, j√° que ambos prometem dar novas propriedades √†s celulas” ou ainda que dizer que isso vai deixar os estereoc√≠lios “mais resistentes ao longo da sua vida” √© semelhante a propor que a pedra s√≥ √© dura porque precisou aguentar, por anos a fio, as pancadas da √°gua (que √© mole pelo mesmo motivo, s√≥ que ao contr√°rio).

Todavia, como sou formado apenas em engenharia de √°udio, vou me ater aqui ao que vem escrito na fonte.

E sabe o que mais movimenta suas células ciliadas uma a uma? Barulho. Qualquer barulho. E isso para não falar nada sobre o fato de que elas não ficam isoladas, mas sim em feixes de várias ao mesmo tempo.

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria...

Um a um? Acho que Senhor Miyagi discordaria…

O locutor da propaganda diz, em seguida, que o software foi desenvolvido na Cor√©ia do Sul e teve sua efic√°cia comprovada pelo Instituto Earlogic de Pesquisa da Cor√©ia. Bom, a partir dessa informa√ß√£o impressionante de comprova√ß√£o de efic√°cia, j√° posso passar para o site da empresa Biosom. L√°, me deparo com a temida se√ß√£o “depoimentos” que todo pseudocientista adora, j√° que experi√™ncia pessoal √© sempre mais importante que qualquer estudo bem feito com milhares de pessoas (agora, adivinha o que nunca tem nessas p√°ginas? Um formul√°rio de “escreva aqui o seu depoimento” ou algo semelhante). S√£o oitenta depoimentos dos quais cinquenta e um (63,75%) agradecem √† marca por uma melhora significativa do zumbido ou tinnitus. Mas isso s√≥ fica importante mais para a frente.

Em seguida, encontro a subse√ß√£o “estudo“, onde se l√™:

V√°rios estudos t√™m relatado que o condicionamento de som (ou seja, exposi√ß√£o pr√©via a sons de baixo n√≠vel) poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ru√≠do traum√°tico em um n√ļmero de esp√©cies de mam√≠feros, incluindo humanos.

Palavra-chave ali √© “proteger”, correto? Como em portugu√™s essa frase s√≥ existe nessa p√°gina e noutras apontando para ela (e n√£o sei do que se trata coreano), catei em ingl√™s at√© achar isto aqui:

“In addition to delaying progressive hearing loss, acoustic stimuli could also protect hearing ability against damage by traumatic noise. In particular, a method called forward sound conditioning (i.e., prior exposure to moderate levels of sound) has been shown to reduce noise-induced hearing impairment in a number of mammalian species, including humans.”

Isso eu achei no ClinicalTrials.gov, uma base de dados de estudos cl√≠nicos em humanos do Instituto Nacional de Sa√ļde americano. Esse estudo deveria comparar a diferen√ßa de percep√ß√£o entre tons puros, antes e depois da estimula√ß√£o sonora. Pena que, mesmo tendo sido completado dois anos atr√°s, ele nunca apresentou os resultados.

Um dos links na se√ß√£o “Outros estudos sobre a tecnologia” √© este, igualmente sem resultados publicados.

Ambos, prepare-se para a surpresa, patrocinados pela Earlogic Korea, Inc., tendo como investigadores principais Eunyee Kwak, Ph.D. e Earlogic Auditory Research Institute, empresa que o locutor diz ter comprovado a efic√°cia do software. Volto j√° para a Earlogic, calma.

Procurando mais especificamente pelo resultado do ^estudo^ (aspas ir√īnicas) na p√°gina da Biosom vejo que na Internet inteira (ou na parte alcan√ßada pelo Google, pelo menos), n√£o h√° uma s√≥ men√ß√£o (fora, claro, o site da marca) que relacionasse “13,51 dB” com “P= 0.00049” a um estudo sobre audi√ß√£o. Ou sequer a qualquer outra coisa sen√£o o pr√≥prio texto.

Me interessando bastante o “v√°rios” em “v√°rios estudos t√™m relatado que o condicionamento de som poderia proteger contra danos na capacidade auditiva causados por ru√≠do traum√°tico”, fui atr√°s. Achei um bem interessante, este sim publicado (no Journal of Neurophysiology da American Physiological Society).

O teste mostrou que o condicionamento sonoro (em ratos, seis horas di√°rias) realmente melhora a resposta coclear. Exceto na faixa testada acima de 12kHz. Que √© o que acontece com a idade, quando os agudos come√ßam a morrer. Como se ela tivesse sido exposta a sons, como quem passou anos ouvindo (como os ratos que passaram seis horas di√°rias e consecutivas durante dez dias ouvindo o equivalente ao som de um liquidificador de 600W triturando cem gramas de gelo a uma dist√Ęncia de noventa e cinco cent√≠metros, mais ou menos [1]).

O estudo acima diz que √© poss√≠vel melhorar (simplificando, porque a explica√ß√£o toda envolve termos como “permanent threshold shift” e “high pass filter” que eu aprendi quando fui alfabetizado em ingl√™s e estou com s√©ria indisposi√ß√£o agora) a efici√™ncia coclear. Sabe o que o estudo n√£o diz? Ali√°s, sequer cita? Que essa macumba sonora cura tinnitus ou zumbido ou perda de audi√ß√£o. Que √© no que os depoimentos do site se concentram.

Se eles dizem ter sido curados de seus zumbidos e a propaganda diz que a eficácia foi comprovada pela Earlogic, vamos agora para a Coréia do Sul (a boazinha da duas) conhecer de perto a empresa.

Procurando primeiro por Eunyee Kwak, Ph.D., vejo que ela é a diretora de pesquisa da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Investigadora principal da Earlogic Corporation.

Na página da Biosom ela é constantemente associada a outro Kwak, Sangyeop. Este, descobri, é o fundador e presidente/CEO da Earlogic Corporation (link em PDF). Segundo seu currículo, Sangyeop não publica desde 2010.

Fu√ßando na publica√ß√Ķes curriculares, tem o promissor “Hearing Improvement with Customized Sound Stimulation“, supostamente publicado na American Academy of Audiology. O problema √© que a academia nunca ouviu falar desse trabalho.

Aliás, somente a Eartronic e sua irmã Earlogic (digo irmã porque o currículo Kwak está no fileadmin da primeira, mostrando que ele é dono da segunda) parecem saber dessa publicação.

Do tamb√©m excitante Ameliorative Effect of Customized Sound Stimulation on Sensorinerual Hearing Loss, s√≥ achei o abstract na Association for Research in Otolaryngology. As demais supostas publica√ß√Ķes do curr√≠culo s√£o mais espec√≠ficas da pr√°tica de otologia do que da de magia negr, ops, “condicionamento sonoro antecipado”.

Aprofundando-me mais ainda naquele(a) obscuro(a) fosso(a) de desinforma√ß√£o que √© o site da Biosom, encontro a se√ß√£o “curiosidades“, onde acho o trecho a seguir:

“O software foi baseado no nosso equipamento que se chama REVE 134 (…)”

O que é esse REVE 134? O produto vendido pela Earlogic, criado por Kwak.

Ali√°s, as passagens ‚ÄúUm aparelho auditivo auxilia os deficientes auditivos amplificando os sons externos. Ele n√£o tem a fun√ß√£o de uma terapia fundamental para perda auditiva‚ÄĚ da Biosom e ‚ÄúAccording to the current hearing loss management, hearing aids is used to help hearing-impaired people hear better by amplifying external sounds.It is not a fundamental therapy for hearing loss and does not cure the damaged auditory hair cell.‚ÄĚ da Earlogic s√£o bem, digamos assim, traduzidas.

Na parte de “Perguntas frequentes -> D√ļvidas sobre os efeitos do Hearing Guardian V1 -> H√° provas da efic√°cia do software?”, podemos ler e confirmar o que o locutor da propaganda diz, que:

“(…) estudos do Instituto Earlogic de Pesquisas da Cor√©ia do Sul e do Grupo de Pesquisa Tecnol√≥gica Adaptive Neuromodulation GmbH (ANM) da Alemanha comprovaram que a utiliza√ß√£o da tecnologia adequadamente pode recuperar em at√© 10dB a audi√ß√£o perdida no prazo de duas semanas, podendo assim diminuir sintomas decorrentes da perda auditiva, como zumbido e dores de cabe√ßa.”

O produto Hearing Guardian V1, que tamb√©m responde por REVE 134, foi desenvolvido pela Earlogic, aquela l√° do Doutor Quack – ops, Kwak (hoje estou especialmente disl√©xico, que diabos!), mesma empresa (ou “Instituto”, como eles anunciam) que ^provou a efic√°cia^ do pr√≥prio produto em ^v√°rios estudos^ nunca publicados.

O m√©todo descrito no ^estudo^ do site da Biosom usa um certo tom “a um n√≠vel m√≠nimo aud√≠vel” (o que n√≥s, detentores de um diploma basicamente in√ļtil, chamamos de “limiar de audi√ß√£o”). Bem diferente do som de liquidificador do estudo realmente publicado! O ^estudo^ com 17 volunt√°rios (!) publicado no site √© uma tradu√ß√£o do “The Effect of Sound Stimulation on Pure-tone Hearing Threshold” que o ClinicalTrials.gov diz n√£o ter sido completado (√ļltima atualiza√ß√£o em 7 de setembro de 2011) enquanto a Eartronic (irm√£ da Earlogic) publica uma vers√£o atualizada dia 7 de janeiro de 2011 (PDF). Huuum…

E todos, todos os estudos, reais ou n√£o, sempre dizem que o treinamento sonoro melhora a percep√ß√£o de alguns tons ou ajuda a proteger contra les√Ķes traum√°ticas. Nenhum deles cita zumbido/tinnitus ou restaura√ß√£o de audi√ß√£o perdida. Essas alega√ß√Ķes s√≥ aparecem nas propagandas, subrepticiamente sempre conectada a “v√°rios estudos” ou “teve sua efic√°cia comprovada” usando testes que nunca disseram coisas do tipo. E isso √© propaganda enganosa, desonestidade intelectual e fal√™ncia moral.

N√£o posso dizer que me decepcionei com o Nerdologia, visto que seu conte√ļdo continua sendo muito bom, al√©m do programa ser bem produzido. O que posso afirmar √© que o locutor do an√ļncio n√£o pode dizer que o software teve sua efic√°cia comprovada. Especialmente tendo o p√ļblico-alvo que tem. Mais ainda quando um deslize desses pode sujar a reputa√ß√£o de um cientista de verdade. Mais especificamente quando se trata de um amigo meu.

Agora durma com esse barulho.

———

[1] Segundo meu decibelímetro e minha fita métrica.

Moedas falsas de 1 Real e 50 centavos? Ou só um país vira-lata?

Na imagem abaixo, ache a moeda falsa!

Notem a terceira moeda.

Notem a terceira moeda.

Uma mensagem de alerta acerca de moedas falsas de 1 real e cinquenta centavos vem circulando desde 2002 num tipo de spam n√£o necessariamente por email. Achar posts, imagens, tu√≠tes, v√≠deos e compartilhamento de Facebook que afirmem isso n√£o √© dif√≠cil. O dif√≠cil √© confirmar a veracidade das informa√ß√Ķes antes de sair por a√≠ espalhando o que pode ser mentira.

(Né, Internet? Estou olhando para você.)

Às vezes até alguém com espírito mais empreendedor tira uma ruma de moeda fedida do bolso para uma demonstração ao vivo. Ninguém tem nada a ganhar com isso, assim como ninguém tem nada a ganhar inventando que carro quente produz benzeno. [1]

As alega√ß√Ķes s√£o, via de regra, as seguintes: as moedas falsas s√£o mais leves, n√£o brilham como as verdadeiras, n√£o s√£o atra√≠das por √≠m√£s, os detalhes s√£o grosseiros, a falsa √© “mais oval”, o tamanho dos detalhes “s√£o um pouco maior, pouca coisa, mas s√£o!” e etc. Cada um tem sua teoria.

O que n√£o significa que n√£o estejam todos certos, visto que n√£o existiria s√≥ um fals√°rio fazendo moedas sempre no mesmo padr√£o. O problema aqui √©, como muitos outros problemas na vida, ignor√Ęncia dos fatos.

Mas, antes disso, outro teste rápido. Qual dessas duas joaninhas é uma aranha?

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Uma dessas é uma joaninha. Foto de Kathy Keatley Garvey

Se você procurar diferenças você vai achá-las. Não necessariamente porque elas existam, mas porque você está se concentrando tanto em anomalias que vai acabar achando alguma. Ou achando que achou. Isso se dá porque você está comparando apenas duas moedas e considerando que uma é necessariamente verdadeira e a outra é necessariamente falsa. Logo, qualquer risco, qualquer deformação, qualquer desgaste será interpretado como prova de diferença entre as duas, uma sendo legítima e deixando a outra como cópia barata.

“Ei, bonitinho, voc√™ me chamou de ingnorante e vai ficar por isso mesmo?”

Hum. Tá, não é todo mundo que visita a página do Banco Central quando está com tempo livre, então vou deixar aqui um link com as características relevantes.

Mais que o "jeitinho brasileiro", o vira-latismo é uma mania nacional.

Mais que o “jeitinho brasileiro”, o vira-latismo √© uma mania nacional.

As moedas são diferentes e legítimas. Mas isso você não notou até alguém ter dito que uma é falsa. Então, você até passa a achar a moeda mais leve apesar de uma diferença de oitenta e quatro centésimo de um grama. Mas, sei lá, vai que você realmente é capaz de detectar uma diferença de 12% no peso entre duas moedas e é uma daquelas pessoas extraordinárias que é (como a maioria da população) acima da média. [2]

√Č como comparar as duas joaninhas da imagem acima (pois √©, ambas s√£o joaninhas). Se voc√™ sup√Ķe previamente que uma delas √© falsa, voc√™ vai concluir que uma delas n√£o √© uma joaninha. N√£o porque ela realmente seja uma aranha (a da foto abaixo, ao contr√°rio da primeira, √© sim uma aranha disfar√ßada) ou outra esp√©cie de inseto, mas porque voc√™ chegou a essa conclus√£o antes de obter dados suficiente para qualquer conclus√£o, positiva ou negativa.

JoaninhAranha.

JoaninhAranha.

Isso √© comum em apologistas de pseudoci√™ncias como auto-hemoterapia, homeopatia, florais de Bach, shiatsu, ortomolecular e demais charlatanices. Eles j√° come√ßam partindo do pressuposto de que X faz mal, onde X √© geralmente algo que funciona, tipo medicina ou farmacologia, mas eles n√£o entendem como (criando um medo irracional que os faz querer atacar e xingar de “vendido” qualquer um que afirme o contr√°rio). Os que s√£o um pouquinho mais dispostos da cabe√ßa (e n√£o pegam toda informa√ß√£o acerca de sua religi√£o pr√°tica exclusivamente atrav√©s de um blog escrito todo em mai√ļsculas e negrito) at√© se d√£o ao trabalho de ler um artigo ou outro, mas j√° tendo certeza de que, digamos, exerc√≠cio e dieta balanceada n√£o funcionam, pois o que funciona √© s√≥ sua religi√£o pr√°tica e s√≥ pode ter uma coisa no mundo que funciona e tem que ser a sua religi√£o pr√°tica. No artigo tem algo como “mas certas pessoas t√™m problema no joelho” ou “exceto naqueles com alergia a amendoim ou nozes” e, se congratulando, dizem para si mesmos “ARR√Ā! EU SABIA! TODA A MEDICINA OCIDENTAL EST√Ā ERRADA!”.

No caso da joaninha ela precisa ter cor vermelho-suvinil, ter bolotas pretas por toda parte e uma cabe√ßa de Rorschach. No caso da pseudoci√™ncia ela precisa n√£o ter nenhum efeito colateral, nenhum efeito direto detect√°vel por qualquer instrumento que n√£o minha pr√≥pria f√© e precisa ser algo que n√£o me assuste. No caso das moedas, elas precisam “ser da cor certa, ter o formato certo e as propriedades certas”. E quem decide o que √© certo √© a moeda que eu “sei” que √© verdadeira. Como a outra n√£o se enquadra nas categorias arbitr√°rias pr√©-dados, ela tem que ser falsa.

E quais os dados que faltam? No caso das pseudociências, todos. No caso das moedas, isso aqui:

A partir de junho de 2002, o Banco Central coloca em circula√ß√£o moedas de 50 centavos e de 1 real com pequenas modifica√ß√Ķes em suas caracter√≠sticas f√≠sicas.

Um aumento significativo no preço dos materiais utilizados na fabricação das moedas levou o Banco Central a estudar alternativas para garantir a continuidade na sua produção. A solução encontrada foi a substituição dos metais utilizados: o cuproníquel e a alpaca foram trocados, respectivamente, pelo aço inoxidável e pelo aço revestido de bronze.

Na pr√°tica, as modifica√ß√Ķes na moeda de R$0,50 ‚Äď de disco prateado ‚Äď e na de R$1,00 ‚Äď de n√ļcleo prateado e anel dourado ‚Äď s√£o pouco significativas. Al√©m de apresentarem pequenas altera√ß√Ķes de tonalidade e brilho, as novas moedas ficaram ligeiramente mais leves. J√° os desenhos de ambas n√£o sofreram nenhuma modifica√ß√£o.

E, saca s√≥!, nem cupron√≠quel e nem alpaca (liga de cobre, n√≠quel e zinco) s√£o ferromagn√©ticos e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos por √≠m√£s. S√£o tamb√©m ligas mais male√°veis que a√ßo, ficando mais propensas a riscos e pequenas deforma√ß√Ķes. E, talvez o fator que mais influencia a dicotomia falso-verdadeiro, s√£o ligas consideravelmente mais foscas. Depois disso, qualquer estrela mais gordinha ou qualquer olheira na Rep√ļblica ou p√©-de-galinha no Bar√£o de Rio Branco √© prova de falsidade.

Só que não.

O Brasil √© um pa√≠s vagabundo e vira-lata, que acha que √© primeiro mundo e cunha moedas de cupron√≠quel/alpaca mas n√£o tem sequer condi√ß√Ķes de recolher moedas que j√° circulam a vinte anos no modelo errado e deixa de usar cupron√≠quel/alpaca depois de apenas tr√™s anos porque eles s√£o caros demais e o custo n√£o √© compensado pelo valor irris√≥rio da face. [3]

Mas o Brasil √© um pa√≠s rico! E auto-hemoterapia cura c√Ęncer! E shiatsu tem comprova√ß√£o cient√≠fica! E homeopatia n√£o √© s√≥ √°gua e a√ß√ļcar! E o PT √© diferente do PSDB!

Ah, e nossas moedas de “cobre” e “bronze” s√£o apenas a√ßo-inox pintado. Cobre (mat√©ria-prima do bronze, do cupron√≠quel e da alpaca) √© caro. Que o digam aqueles que ganham a vida minerando cobre nos postes p√ļblicos enquanto passam displicentemente a oportunidade de recolher cap√īs de carros.

O risco de espalhar esse tipo de boato (sem sequer pensar em procurar por confirmação robusta) pode parecer baixo, ou até nulo, já que você provavelmente tem mais de uma moeda no bolso Рtalvez até algumas notas. Mas e se alguém sem muitos meios vai comprar R$1,50 de pão e o padeiro nega, alegando que o cliente está tentando repassar dinheiro falso? O mínimo que pode acontecer é o sujeito passar fome enquanto, literalmente, joga dinheiro fora e, no pior caso, pode ir preso injustamente porque você (sim, você, espalhador de boatos) saiu por aí dizendo inconsequentemente que moeda fosca é falsa, o que, no fim das contas, só serviu para jogar um pobre coitado e faminto na cadeia.

———

[1] Fora notoriedade, claro. E a sensa√ß√£o de “sou um verdadeiro Sherlock desvendando esse caso!” que acomete boa parte da popula√ß√£o que nunca leu uma s√≥ linha de Sir Doyle e n√£o sabe o trabalho que o detetive tem antes de sair por a√≠ acusando algu√©m de roubar um peru. Poirot – este sim desvenda mist√©rios sem se levantar da cadeira.

[2] Não, você não é. Especialmente considerando que o modelo mais recente é que é o mais leve.

[3] E quem vai perder tempo falsificando moedas de Real? Sério. Quem?

Dez livros que marcaram a minha vida

Com muito tempo livre e sem ter algo mais construtivo para fazer, Rafael e Ana me incluiram numa corrente de Facebook. Com ainda mais tempo livre e com menos algos construtivos a fazer, eu aceitei o convite indica√ß√£o intima√ß√£o praga elo (porque √© uma corrente, sacou? H√£? H√É!?). Seguem as instru√ß√Ķes.

Consiste em fazer uma lista com os 10 livros (ficção ou não-ficção) que tenham me marcado. A ideia não é gastar muito tempo, nem pensar muito. Não precisam ser grandes obras, apenas que tenham sido importantes pra mim. Eu tenho que marcar 10 amigos que vão gostar da brincadeira. E eles me incluírem quando fizerem suas listas para que eu possa ver a lista deles e conferir boas dicas.

O par√°grafo acima est√° em Comic Sans porque √© um trecho copiado. Eu jamais come√ßaria uma frase com “consiste em”. O “e eles me inclu√≠rem” tamb√©m n√£o √© da minha safra. Mas se voc√™s passaram mais que dois minutos no Facebook ultimamente sabem do que se trata. Ent√£o vamos aos livros:

1) Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa РAurélio Buarque de Hollanda Ferreira. Não somente para consulta. Eu o li de capa a capa e esse exercício em inutilidade foi bom para o desenvolvimento do meu pedantismo.

O primeiro Aurélio

Eu já lia Aurélio antes de virar Aurélio.

2) B√≠blia Sagrada, Nova Vers√£o Internacional – v√°rios. Esta vers√£o em especial √© importante porque foi escrita por gente que sabe “tu” e “v√≥s” saiu de voga h√° muito e que palavreado rebuscado √© apenas uma forma de arrebanhar a massa ignorante que mal sabe escrever o nome direito, quanto mais conjugar verbos irregulares em segunda pessoa ou entender que est√° sendo amea√ßado por um aproveitador da ingenuidade alheia. Tamb√©m lida de capa a capa, me fez entender o sentido da palavra “hipocrisia” e descobrir que muito “religioso de verdade” jamais leu uma s√≥ linha do que tanto gosta de impor aos outros.

A seção de fantasia da minha biblioteca

A seção de fantasia da minha biblioteca.

3) C√Ęndido – Voltaire. Me ensinou que otimista s√≥ se lasca. E que se voc√™ for bonzinho vai se lascar mais ainda.

4) Breve História de Quase Tudo РBill Bryson. Num dia frio e solitário, numa biblioteca centenária de um país muito, muito distante, este livro reacendeu minha paixão por aprender Рcoisa que o Sistema Formal de Ensino (SiFodE) me havia estripado anos antes. O universo (ou natureza) é uma coisa massa. Ultramassa. Quem acha que não, ou nunca chegou a ser apresentado ao conceito, ou não gosta de pensar.

Nota-se que ele já foi bem amado. Tem muita informação já ultrapassada, mas continua sendo excelente.

Nota-se que ele já foi bem amado. Tem muita informação já ultrapassada, mas continua sendo excelente.

5) O M√©dico e O Monstro – Robert Louis Stevenson. Quando li este, ainda crian√ßa, notei como somos ruins em traduzir t√≠tulos. E quando digo “ruim”, uso no sentido de “aquele que gosta de fazer ruindade”, porque “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde” n√£o chocaria ningu√©m.

6) Cole√ß√£o Descobrir – Editora Globo. Competiu bravamente contra o j√° mencionado SiFodE pela domina√ß√£o da √°rea da curiosidade no meu c√©rebro[1]. Perdeu, no entanto. Mas ainda guardo boas lembran√ßas (apesar das instru√ß√Ķes para montar uma “armadilha para fantasmas” que vieram em um dos fasc√≠culos).

Stevenson, Conan Doyle e King. LeCarre apareceu de gaiato na foto.

Stevenson, Conan Doyle e King. LeCarre apareceu de gaiato na foto.

7) The Meaning of Liff – Douglas Adams. Mais um dicion√°rio, desta vez escrito por Douglas Adams. Fui amea√ßado de expuls√£o da biblioteca supracitada se n√£o conseguisse controlar minhas convuls√Ķes gargalh√°ticas. Sofri dores abdominais por uma semana por causa do livro.

8) Dicionário Filosófico РVoltaire novamente. Terceiro dicionário. Poderia roubar e incluir um quarto, o Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce, mas este é bem parecido com aquele, o Filosófico sendo melhor. Me ajudou a entender que sarcasmo, ironia, desconfiança e chacota são armas mais poderosas que dogmas ou ameaças termodinamicamente impossíveis na criação de caráter.

Foto tirada em frente à biblioteca anteriormente aludida

Foto tirada em frente à biblioteca anteriormente aludida.

9) O Cão dos Baskervilles РArthur Conan Doyle. Olá, ceticismo. Tudo bem? Meu nome é Igor Santos, prazer conhecê-lo.

10) O Homem que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu РOliver Sacks. Ninguém é normal mas ninguém demonstra saber disso. Apenas alguns não conseguem esconder.

Oliver Sacks, mais um médico que sabe escrever.

Oliver Sacks, mais um médico que sabe escrever.

Quase entrou na lista: Uma Breve Hist√≥ria do Tempo, de Hawking; Deus N√£o √Č Grande, de Hitchens; Deus, um Delirio, de Dawkins; uma cole√ß√£o de contos de Lovecraft; Quatro Esta√ß√Ķes, de Stephen King; WWZ, de Max Brooks; A Vida na Terra, de Attenborough; um livro de Chico An√≠sio com o mais negro dos humores (Telefone Amarelo, talvez?), e a trilogia da distopia: 1984, Admir√°vel Mundo Novo e Fahrenheit 451.

Melhores que a Escolinha do Professor Estereótipo.

Melhores que a Escolinha do Professor Estereótipo.


Ateus malditos! Por que precisam escrever t√£o bem?

Ateus malditos! Por que precisam escrever t√£o bem?

S√≥ n√£o entraram na lista porque n√£o t√™m nome, autor ou editora: minhas apostilas de m√ļsica.

N√£o entraram porque n√£o s√£o exatamente livros mas deveriam fazer parte da lista: Enciclop√©dia Koogan Larousse, blogs de ci√™ncia, meus livros de culin√°ria, a revista Scientifc American (que, por incr√≠vel que pare√ßa, foi minha porta de entrada no mundo dos podcasts), o roteiro do √ļltimo epis√≥dio jamais produzido de Caverna do Drag√£o, a cole√ß√£o de cromos do chocolate Surpresa, os r√≥tulos das coisas, encartes de discos, uma enciclop√©dia/dicion√°rio (mais um) da hist√≥ria da m√ļsica (n√£o encontro, devo ter perdido), a Constitui√ß√£o Federal, tamb√©m lida na √≠ntegra, e uma cole√ß√£o da Reader’s Digest chamada Fa√ßa Voc√™ Mesmo.

J√° lia DIY antes de virar sigla.

J√° lia DIY antes de virar sigla.

N√£o entrou porque n√£o lembro do nome: um de antropologia, que me fez perceber que somos todos macacos; um de hist√≥rias das religi√Ķes, que me fez perceber que somos todos macacos; um tratado filos√≥fico, que me fez perceber que somos todos macacos metidos, e; um pdf de psicologia. Mas a√≠ eu j√° sabia que somos todos macacos.

Alguns macacos s√£o mais metidos a besta que outros.

Alguns macacos s√£o mais metidos que outros.

Mas o livro que me marcou mais profundamente foi um de Lair Ribeiro que continha um CD que, fato desconhecido por mim, tende a explodir quando queimado.

Menção honrosa: A Divina Comédia. Primeiro livro que não consegui ler todo. Me ajudou a entender a bossalidade, especialmente daqueles que dizem tê-lo lido mas que sabem apenas da existência dos nove círculos do inferno, de Beatriz e Virgílio.

O "-pedia" em "Wikipedia".

O “-pedia” em “Wikipedia”.

Leiam também a lista da minha mulher e entendam porque me casei.

E a sua lista, como seria?

———

[1] Eu sei que isso n√£o existe, mas o SiFodE quis me ensinar o contr√°rio.

2013 no 42. em n√ļmeros (em palavras {em imagens})

Em 2013 eu consegui escrever de forma vocabularicamente consistente e diversa (excetuando-se “ser” e “ainda”, dos quais ainda n√£o conseguir ser livre), como mostra a nuvem de palavras abaixo.

Clique para ampliar

Clique para ampliar

N√£o t√£o consistente assim foram as buscas dos leitores que findaram aqui. Me parece que, al√©m dos que procuram formas alternativas para se drogar, consegui um bom p√ļblico desmistificando spams e videntes.

Clique para vasculhar

Clique para vasculhar

E agora, um poeminha pros paraquedistas.
Por favor, não achem que drogas ou catarro são vitamina mas saibam que Tupak é um charlatão que vai drogar seu intelecto e fazer você engolir besteiras. A Avon não vai chapar a ladra Tara, outra charlatã, nem vai fazer você ficar chapado, pois muito mal pode causar o alpiste, mas nada em comparação ao aborto que é o vidente que insiste em cuspir na cara da realidade, como uma diabetes em forma de batom (batons) que não contem nem camarão e nem muito menos chumbo. Essa foi a lição de 2013.

A Wikipédia em português e a panelinha editorial pseudocientífica

Eu j√° contei um pouco da minha hist√≥ria com a Wiki-PT no meu outro blog ent√£o n√£o vou repetir que j√° fui editor logo no come√ßo mas desisti porque minhas edi√ß√Ķes (baseadas em evid√™ncias e com links corrobor√°veis) eram sistematicamente deletadas pelos editores da panelinha ideol√≥gica da qual eu me recusava a fazer parte. Dito isso que eu disse que n√£o repetiria, hoje eu fui ver o que a Wikipedia original (regulada por pessoas menos investidas emocional e monetariamente com seus assuntos favoritos) tinha a dizer da milenar [1] t√©cnica da dedada oriental, conhecida no oeste por shiatsu.

Qual não foi minha surpresa ao constatar que, em inglês, o verbete atual de shiatsu cabe em apenas um screenshot

Clique para a vers√£o completa.

Clique para a vers√£o completa.

…enquanto o verbete na Wiki-PT √© consideravelmente mais extenso! Em todos esses anos nesta ind√ļstria vital, esta √© a primeira vez em que isso me acontece!

O que primeiro me chamou atenção após os cinco pagedowns necessários para ler o texto completo (tá, o que me segundo chamou atenção) foi isso aqui:

wiki-estilo

Para os n√£o-iniciados, isso significa que quem escreveu o artigo o fez sem consultar as regras (ou sem se importar com o conte√ļdo) que regem a enciclop√©dia. Ou seja, algu√©m escreveu o que achava que deveria ser escrito, publicou e… ficou por isso mesmo. H√° mais de um ano e meio.

Uma das genialidades da equipe de Jimmy Wales (comparem aqui o tamanho e a qualidade dos verbetes em inglês e português do fundador da Wikipedia) foi ter embutido no sistema uma ferramenta antifraude na forma de um histórico impossível de ser editado ou manipulado e que registra cada mudança mínima numa página.

Isso nos permite verificar que o maior contribuidor individual do verbete √© Arnie rj, login de Arnaldo V. Carvalho, criador do Portal Verde e que, segundo seu curr√≠culo naquela mesma p√°gina, tem (sic) “Capacita√ß√£o em Medicina Tradicional Chinesa e Naturopatia, em seus segmentos shiatsu (tradicional, ohashiatsu, shiatsu emocional, zen shiatsu e Express), massagem sueca, thai massagem, ramma, sei-tai, lomilomi, drenagem linf√°tica manual, recep√ß√£o ativa, corre√ß√£o postural postural, aromaterapia, fitoterapia, reeduca√ß√£o alimentar, cromoterapia, relaxamento e controle mental“. Ele tamb√©m d√° cursos de shiatsu emocional (√© at√© propriet√°rio de um blog sobre isso). Ou seja, poucas pessoas seriam mais beneficiadas do que o pr√≥prio editor pela inclus√£o da se√ß√£o Valida√ß√£o e Produ√ß√£o Cient√≠fica que diz, muito dissimuladamente e sem qualquer sombra de evid√™ncia (sic): “A Ci√™ncia vem se interessando em conhecer os mecanismos de a√ß√£o do Shiatsu, e avaliar sua efic√°cia em diversos tratamentos. Atualmente h√° milhares de artigos cient√≠ficos sobre o tema. Segundo o Conselho Nacional de Desenvolvimento e Pesquisa Tecnologica, (CNPq), 356 dos pesquisadores cadastrados na Plataforma Lattes, incluindo 49 doutores, possuem algum tipo de forma√ß√£o em Shiatsu.[2]

Esses supostos “milhares de artigos” s√£o frutos de buscas simples no PubMed, SciELO e Google Scholar pelo termo “shiatsu” (evidenciado pelas notas de rodap√© da edi√ß√£o, j√° que as da vers√£o atual est√£o desencontradas e completamente confusas, mostrando o n√≠vel nasc√īxa de qualidade de edi√ß√£o) e n√£o uma an√°lise qualitativa. Ali√°s, at√© quantitativamente √© mentira, porque eu acabei de fazer a mesma busca no PubMed e obtive 758 resultados que, at√© onde eu saiba contar, √© menos de mil. O SciELO me devolveu incr√≠veis dois (02) resultados e o Google Scholar mostra qualquer coisa remotamente relacionada ao nome “shiatsu”, incluindo livros (que n√£o s√£o publica√ß√Ķes acad√™micas), entrevistas (idem anterior), patentes (menos ainda), cita√ß√Ķes (“o mundo √© como o shiatsu: vive de dar dedada nos outros” √© uma cita√ß√£o) e etc. Acho pouco prov√°vel que o editor do verbete tenha lido um por um. Esse “segundo o CNPq” √© igualmente uma busca no site do Conselho. Ent√£o n√£o tenho como saber de onde ele tirou essa cita√ß√£o factual do CNPq.

E finalizar com “49 doutores” √© s√≥ apelo a autoridade. E j√° sabemos que isso n√£o √© exatamente confi√°vel. Especialmente eu tendo achado no Lattes 3236 doutores em “coc√ī” e 47 em “bosta”. S√≥ 3 em urinoterapia, no entanto.

(Já sabemos que argumento de autoridade não é confiável, não é? Vocês sabem disso, né? Bom, ótimo, vamos em frente.)

Agora, qual editor incluiu essa seção pela primeira vez, mais especificamente às 14h53min de 31 de julho de 2012? Isso mesmo, Arnie rj. Aliás, a versão atual tem links tanto na nota de rodapé quanto na bibliografia para a página do editor, o Portal Verde anteriormente aludido e que lhe é fonte parcial de renda.

"Não estou dizendo que é shiatsu, mas..."

“N√£o estou dizendo que √© shiatsu, mas…”

Em abril de 2012 uma edi√ß√£o se desfez do seguinte trecho, nunca mais citado (sic): “O Shiatsu n√£o √© recomendado para infec√ß√Ķes, doen√ßas contagiosas, fraturas, varizes ou como terap√™utica √ļnica do c√Ęncer(…)”. E sabem quem fez essa edi√ß√£o? O financeiramente envolvido Arnie rj.

Ele n√£o √© de todo mau (ali√°s, nem acho que ele seja particularmente maligno, apenas equivocado e desprovido de pensamento cr√≠tico – a culpa maior sendo dos editores seniores da Wiki-PT), j√° que tirou tamb√©m o trecho que recomenda shiatsu como coadjuvante no tratamento do c√Ęncer.

Sempre lembrando que shiatsu é somente uma massagem com os dedos (exclusivamente em gente branca, a julgar pelos resultados do Google Imagens. Credo) e nada mais que uma massagem com os dedos.

Se o verbete come√ßasse com “o shiatsu √© somente uma massagem inventanda num-sei-quando num-sei-onde que relaxa as pessoas e causa forte tendinite nos terapeutas…” eu n√£o teria problema algum com isso. Eu passo a ter no momento em que o site mais acessado do mundo usa linguagem evasiva e informa√ß√Ķes amb√≠guas dissimuladas para tentar dizer que shiatsu √© uma ci√™ncia e que deve ser vista e aceita como tal. O nome disso √© “pseudoci√™ncia”, palavra que parece n√£o fazer parte do vocabul√°rio da Wiki-PT. Ou at√© faz, mas parece merecer um grau mais alto de escrut√≠nio sequer aludido na p√°gina discutida:

pseudociencia-wiki

Enquanto o √ļnico pecado do verbete de shiatsu √© n√£o estar formatado num padr√£o espec√≠fico, o de pseudoci√™ncias n√£o cita fontes suficientes, usa dados duvidosos e n√£o √© considerado neutro.

Não usaram a mesma régua aí.

O Lexus LS 600h tem um banco com bolsas de ar que simula shiatsu. Não dizem, mas acho que ter um carro desses também serve como 'shiatsu emocional'.

O Lexus LS 600h tem um banco com bolsas de ar que simula shiatsu. N√£o dizem, mas acho que ter um carro desses tamb√©m serve como ‘shiatsu emocional’.

Existe um grupo chamado Ceticismo de Guerrilha na Wikipedia que tenta melhorar a qualidade do conte√ļdo de certos verbetes que serviriam como propaganda para profissionais das pseudoci√™ncias. O problema √© que esse grupo n√£o tem boa representa√ß√£o no Brasil ou em Portugal e, ainda por cima, quando tentam melhorar um artigo na Wiki-PT acontece o que acontecia comigo em 2006/07. Porque a c√ļpula ideol√≥gica da Wikipedia lus√≥fona n√£o admite que outros venham corrigir o que eles acreditam ser o correto.

Não sei qual canal devo acionar para tentar corrigir esse problema. Talvez já seja tarde demais para nós, que florescemos tardiamente no Lácio.

———

[1] Mentira, shiatsu tem nem 100 anos.

[2] O que faz dele um especialista em shiatsu, que é exatamente o que a Wikipedia pede e incentiva. Ele só não é especialista em ciência. Ou sequer em procurar resultados num site de busca.

Homeopatia, evangelhoterapia, teoria da harmonia energética e eu.

Ontem eu recebi dois emails. Recebi v√°rios, na verdade (a maioria deles sendo de pessoas que acham que meu endere√ßo √© algum tipo de √Ęncora ou registro oficial para todo e qualquer Igor Santos), mas com algum tipo de import√Ęncia foram s√≥ dois.

E quando qualifico import√Ęncia como “algum tipo”, quero dizer “sem a menor import√Ęncia para qualquer ser vivo”. Porque o primeiro dos aludidos veio com o assunto “Colabora√ß√£o” e com o t√≠tulo (sim, t√≠tulo, pois √© como se fosse uma c√≥pia de um panfleto qualquer) “Teoria da Harmonia Energ√©tica“.

Agora vocês vão ver porque estou perdendo meu tempo com isso. O email começa (sic):

A energia √© essencialmente harm√īnica e as formas organizadas de energia, como √© o caso da mat√©ria, que √© uma organiza√ß√£o de energia percebida por nossos sentidos, tendem a voltar a ser energia.

Em primeiro lugar, o que significa “essencialmente harm√īnica”? Porque s√£o necess√°rias pelo menos duas coisas para existir harmonia entre elas. Da mesma forma como n√£o pode existir nado sincronizado individual n√£o posso afirmar que A energia √© harm√īnica. Falta um outro agente a√≠. Mas vamos ignorar esse erro conceitual b√°sico e passar para outro; “mat√©ria √© uma forma organizada de energia”.

√Č? E a energia √©, ao mesmo tempo, harm√īnica e desorganizada? Mas calma! Olhem o que vem a seguir:

Esta volta √† energia √© estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas, ou seja, que contrariam a harmonia energ√©tica. Assim sendo, a√ß√Ķes poluidoras, por exemplo, desencadeiam processos destrutivos da mat√©ria.

Eu vou organizar as afirma√ß√Ķes em uma s√≥ linha para facilitar a visualiza√ß√£o. “A energia √© essencialmente harm√īnica, a mat√©ria √© uma organiza√ß√£o de energia e tende a voltar a ser energia estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas”. Ou seja, o ^j√™nio^ que n√£o consegue escrever duas linhas coerentes entre si acha que a mat√©ria volta a ser harm√īnica por um processo de desarmonia. √Č como dizer que passar com o carro por cima de um viol√£o bem afinado faz com que ele volte a ser afinado pelo fato de ter sido destru√≠do. Ou algo assim, esse email me deixou confuso.

No nosso organismo, a√ß√Ķes perturbadoras da harmonia desencadeiam rea√ß√Ķes, agravadas por novas interven√ß√Ķes perturbadoras da harmonia inicial.

Eu adoro frases como “desencadeiam rea√ß√Ķes”. Me lembra uma picha√ß√£o que vi numa mesa da faculdade onde algu√©m escreveu com corretivo “a mol√©cula do √°tomo”. A frase acima parece dizer muita coisa mas n√£o sobrevive √† mais superficial an√°lise, como outra frase j√° discutida aqui. S√©rio, leia l√° de novo e pense a respeito.

stephen%20fry

Na sociedade humana, decis√Ķes desarm√īnicas como, por exemplo, concentra√ß√£o de recursos financeiros em determinadas pessoas, contrariam a harmonia social, que √© um aspecto da harmonia energ√©tica.

Harmonia social √© um aspecto da harmonia energ√©tica? Ent√£o essas a√ß√Ķes socialmente desarm√īnicas s√£o desej√°veis, j√° que foi estabelecido que a desarmonia traz harmonia. E √© harmonia que queremos, n√£o?

Portanto, sigam o conselho do email e concentrem seus recursos financeiros em mim! Vamos atingir o máximo de harmonia possível!

A Teoria da Harmonia Energ√©tica permite o entendimento da individualidade harm√īnica, mesmo sem substrato f√≠sico…” Opa, pera√≠! Preciso interromper aqui. Qual dos dois √©: energia sendo harm√īnica em si mesma ou indiv√≠duos (necessariamente materiais) s√£o harm√īnicos mesmo n√£o tendo forma f√≠sica? Essa deve ser mesmo uma teoria de lascar porque s√≥ seus preceitos j√° est√£o em outro plano de exist√™ncia.

Continuando:

…pois ela se aplica a um conjunto organizado de princ√≠pios harm√īnicos, orientados para pintura, arquitetura, artesanato, inven√ß√Ķes √ļteis, m√ļsica, magist√©rio, verso, prosa, e tantas outras formas de a√ß√Ķes harm√īnicas que encantam nossos sentidos e melhoram a qualidade de vida. Quem age segundo a harmonia energ√©tica preservar√° a individualidade, n√£o importa sob que forma esteja atuando.

Pintura, arquitetura, artesanato, m√ļsica, magist√©rio, verso e prosa, essas inven√ß√Ķes in√ļteis… Sem falar do magist√©rio, esse grande encantador dos sentidos. N√£o passa um s√≥ dia sem que minha propriocep√ß√£o e minha percep√ß√£o temporal n√£o sejam estimuladas pelo magist√©rio.

E, novamente, por que devemos preservar a individualidade? Ela existe? Como “a energia” pode ser harm√īnica sendo desarmonizada pela mat√©ria descondensada enquanto indiv√≠duos sem substrato f√≠sico poluentes e m√ļsicos? Hein?

No par√°grafo a seguir h√° um destaque por minha conta. Vamos ver quem consegue perceber o motivo.

Corruptos, corruptores, maus administradores, criminosos, assassinos, mistificadores, ladr√Ķes, demagogos, parasitas e tantos outros que agridem a harmonia social, simplesmente desaparecer√£o com a desencarna√ß√£o, pois estavam em desacordo com a harmonia energ√©tica.

Todos desaparecer√£o. Seja por desencarna√ß√£o, inuma√ß√£o, falecimento, vencimento do prazo de validade ou qualquer outro eufemismo rid√≠culo que se queira usar. Mas deixando o galopante e relinchante √≥bvio de lado, volto a perguntar: se estamos procurando harmonia, por que devemos nos preocupar em manter a “harmonia social, que √© um aspecto da harmonia energ√©tica” se a “volta √† energia √© estimulada por a√ß√Ķes desarm√īnicas” e a “energia √© essencialmente harm√īnica“? Eu quero harmonia! E, para isso, segundo as diretrizes da teoria, preciso ser desarm√īnico.

Esta singela, e despretensiosa, teoria permite que se entenda o que somos e o que seremos na eternidade., inexistindo qualquer julgamento, mas sim harmonia ou desarmonia energética.

E sabem por que n√£o existe julgamento? Porque √© imposs√≠vel entender uma coisa que n√£o faz sentido por ser apenas uma s√©rie de contradi√ß√Ķes. E o sujeito ainda quer entender a eternidade? #com√īfas?

Vou suprimir o nome do remetente para preservar… n√£o sei o que. Ia dizer “preservar seu bom nome” mas n√£o fui eu que enviou o email. Email que, ali√°s, veio com o assunto “colabora√ß√£o” apesar de nenhuma outra palavra a esse respeito ter surgido. Talvez ele queira que eu colabore com a desarmonia.

Tamos aí.

———

O segundo email, recebido nos √ļltimos minutos do dia (certamente para algum outro Igor Santos que ainda n√£o aprendeu como emails funcionam) √© de um m√©dico. *suspiro*

Infelizmente, como eu j√° disse aqui, homeopatia √© uma especializa√ß√£o em medicina no nosso querido territ√≥rio pol√≠tico federativo brasileiro. Por mais imoral que isso seja, continua sendo verdade. Falando em imoralidades, eu sempre tremo um pouco quando ou√ßo que o mesmo indiv√≠duo se qualifica como pediatra e homeopata. Como √© o caso desse pr√≥ximo remetente que, apesar de se qualificar tamb√©m como escritor, refere-se a si mesmo na terceira pessoa e acha que campo de assunto de email n√£o precisa de pontua√ß√£o, acentua√ß√£o ou ortografia em geral, j√° que esse veio como “saude homeopatia e evangelho“. Sic, sempre lembrando.

"Eu sei o que estou fazendo, n√£o se preocupe!"

“Eu sei o que estou fazendo, n√£o se preocupe!”

Desta vez eu vou deixar o nome porque, apesar de tudo, nada do que ele escreveu para mim é considerado errado no querido território supracitado e infrapodal (mais sobre pés daqui a pouco).

Gilberto Ribeiro Vieira √© m√©dico pediatra e homeopata e escritor. Al√©m disso, √© professor do curso de medicina da Universidade Federal do Acre ‚Äď UFAC e possui diversos livros publicados que abordam sa√ļde, homeopatia e Evangelho. A concilia√ß√£o desses dois temas rendeu diversas publica√ß√Ķes.

Er, quais dois? Voc√™ citou tr√™s assuntos que, se tentassem, n√£o poderiam ser mais opostos. Mantendo sempre em mente que homeopatia n√£o √© sa√ļde, mas bruxaria e xamanismo, coisa que o evangelho rejeita fortemente (ver 2 Cr√īnicas 33, por exemplo).

O objetivo principal √© mostrar a possibilidade de obter benef√≠cios ao se reunir conhecimento e espiritualidade, mesmo quando se caminha com relativa independ√™ncia entre as religi√Ķes organizadas do cristianismo. Seu trabalho tem m√ļltiplas faces.

Eu juro que li aquela √ļltima palavra como “faeces” mas talvez seja culpa de um vi√©s involunt√°rio meu. Falando em involunt√°rio, viram ali como ele separou claramente “conhecimento” de “espiritualidade”?

E, para um escritor, ele at√© √© meio ruinzinho em evitar ambiguidades. O que significa “relativa independ√™ncia”? Minha interpreta√ß√£o √© que ele √© dependente de algumas religi√Ķes crist√£s mas n√£o tanto quanto algu√©m que pratique somente uma.

Discorrendo sobre as m√ļltiplas f√¶ces do seu trabalho, ele continua:

Na primeira predomina a ci√™ncia e o racioc√≠nio. A jornada come√ßa pela an√°lise detalhada de alguns casos de cura do Cristo no Evangelhoterapia ‚Äď a Ci√™ncia de Amar, juntamente com a descri√ß√£o sucinta das virtudes divinas na cria√ß√£o ‚Äď em Deus Radiografia Simples.

Faltou s√≥ incluir ci√™ncia e racioc√≠nio ali. Especialmente no lugar de “virtudes divinas na cria√ß√£o“.

Em seguida, √© conduzido um estudo rigoroso das palavras e contradi√ß√Ķes de Jesus em O Evangelho Dial√©tico. Por fim, o autor tem o privil√©gio de apresentar a abordagem homeop√°tica num enfoque in√©dito e contempor√Ęneo em Homeopatia e Sa√ļde: do reducionismo ao sist√™mico, publicado por coedi√ß√£o pelo Conselho Regional de Medicina do Acre e a Editora da UFAC.

Novamente, cadê a ciência e o raciocínio? O que o estudo das palavras do Hércules judaico tem a ver com ciência? Porque já sabemos que homeopatia tem exatamente zero ciência e/ou raciocínio atrelados.

E, se o Conselho de Medicina do Acre for igual ao daqui, qualquer m√©dico tem apoio editorial para lan√ßar qualquer livro. Ou gravar um disco, pintar um quadro, expor fotografias, etc. O CRM gosta de incentivar m√©dicos em suas persegui√ß√Ķes art√≠sticas. Ent√£o citar o CRM/AC como parceiro n√£o √© medalha de m√©rito.

Na segunda etapa prevalecem o sentimento e a f√©.” <= Na primeira tamb√©m, amig√£o.

Com esse enfoque, surgem cr√īnicas repletas de ternura e criatividade em Os Filhos de Deus. Ao mesmo tempo, nasce um novo entendimento da rela√ß√£o √≠ntima e profunda entre o Eu e o Pai em DeuS, gra√ßas √† an√°lise meticulosa dos vers√≠culos do Novo Testamento.

√Č sempre interessante quando um escritor se refere a si mesmo como criativo. Especialmente quando isso leva √† frase “gra√ßas √† an√°lise meticulosa dos vers√≠culos do Novo Testamento”. Eu s√≥ queria dizer, j√° que estamos firmemente no mundo das pseudoci√™ncias, que Freud mandou lembran√ßas.

Por fim, o autor descortina o significado original dos chacras desde os p√©s ‚Äď cidadania ‚Äď ao mais elevado do homem ‚Äď intui√ß√£o ‚Äď no instigante Poema das Moradas.

Isso est√° escrito desse jeito. Ele descortinou o significado original dos chacras. E, melhor ainda, o chacra da cidadania reside nos p√©s. Por isso que eu fiz aquele trocadilho l√° em cima, sacaram? N√£o? Nem eu. Especialmente porque o chacra “mais elevado do homem” √© a intui√ß√£o.

E A P¬į—Ź—Ź4 DA CI√äNCIA, CAD√ä!?

"chacras"

Uma terceira vertente √© exposta em um livro que aborda dois temas: Adole*sente, publicado pela Secretaria de Estado de Sa√ļde do Acre, une-se ao Adole*santo e mistura informa√ß√£o cient√≠fica e reflex√Ķes crist√£s, em linguagem direcionada aos adolescentes e √†s pessoas que se relacionam com eles.

Queria muito saber o teor e a qualidade dessa informação científica que o autor cita. Principalmente ajustando a linguagem para adolescentes.

(Vocês viram os títulos? Eu consigo até imaginar o quão estufado ficou o peito do autor ao pensar nesses excelentes jogos de palavras.)

E, encerrando os trabalhos, A Fraternidade em Movimento, obra que cont√©m as experi√™ncias e opini√Ķes do autor sobre um dos amores de sua vida, o Movimento da Fraternidade, iniciativa espiritualista de amor ao pr√≥ximo, gerada em Belo Horizonte em meados do s√©culo XX. Alguns livros est√£o em edi√ß√£o e ser√£o publicados em breve e, portanto, ainda n√£o se encontram dispon√≠veis. O pre√ßo de lan√ßamento √© promocional juntamente com o frete gr√°tis por tempo limitado.

Eu gostaria de reiterar que quem escreveu isso tudo aí em itálico foi o próprio autor, através de seu email pessoal.

Lembram das profundas an√°lises dos evangelho pelo autor? E lembram do 2 Cr√īnicas, cap√≠tulo 33 l√° em cima? A p√°gina p√ļblica do perfil do Facebook do autor mostra que, entre seus favoritos, est√° o Pai Toninho de Xango.

———

Pensamento fant√°stico, del√≠rios m√≠sticos, disson√Ęncia cognitiva, dificuldade de autoan√°lise, nega√ß√£o do √≥bvio, teorias conspirat√≥rias. Pseudoci√™ncias v√™m em v√°rias embalagens diferentes. E boa parte delas custa dinheiro.

Boa noite.

Categorias