“Liberdade de comércio” é o cacete!

Livre comércio e perda de sistemas de apoio estão acabando com a produção de alimentos na África

CORVALLIS, Oregon – A despeito das boas intenções, a pressão pela privatização de funções do governo e a insistência no “livre comércio” que frequentemente é injusto, fez cair a produção de alimentos, aumentou a pobreza e uma crise de fome para milhões de pessoas em várias nações africanas, concluiram os pesquisadores em um recente estudo.

As reformas dos mercados que começaram no meio da década de 1980 e, supostamente, deveriam ajudar o crescimento econômico, sairam pela culatra em algumas das nações mais pobres do mundo e, nos últimos anos, levaram a motins de fome, relatam os cientistas hoje em Proceedings of the National Academy of
Sciences
.

“Muitas dessas reformas eram projetadas para tornar os países mais eficientes e vistas como uma solução para o precário sistema de ensino, saúde e infraestrutura em geral”, declara Laurence Becker, um professor associado de geociências na Universidade do Estado do Oregon (OSU). “Porém elas algumas vezes eliminaram sistemas de apoio críticos para fazendeiros pobres que não tinham carro, nem títulos de posse, ganhavam US$ 1 por dia e tinham suas economias da ordem de US$ 600 escondidas debaixo do colchão”.

“Então se pedia que essas pessoas competissem com alguns dos sistemas agrícolas mais eficientes do mundo e elas simplesmente não conseguiam”, continua Becker. “Com as barreiras tarifárias removidas, a comida importada mais barata inundava os paises, alguns dos quais eram quase que auto-suficientes em agricultura. Muitas pessoas deixaram a agricultura e abandonaram os sistemas que tinham funcionado por séculos em suas culturas”.

A pesquisa chegou à conclusão que essas forças minaram a produção de alimentos por 25 anos. A coisa estourou no início de 2008 quando o preço do arroz – um produto de primeira necessidade em muitas nações africanas – dobrou no período de um ano, para consumidores que gastavam grande parte de sua renda unicamente em alimento. Motins de fome e anarquia econômica e política foram a consequência.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da OSU, da Universidade da Califórnia em Los Angeles e do Macalester College, tomando como base pesquisas habitacionais e de mercado e dados das produções nacionais.

Becker diz que não há soluções simples ou óbvias, mas que as nações desenvolvidas e organizações tais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional precisam reconhecer que abordagens que podem ser eficazes em economias mais evoluídas, não são imediatamente traduzíveis para nações menos desenvolvidas.

Becker explica que “não sugerimos que todos os produtores locais, tais como pequenos fazendeiros, vivam em uma economia fictícia que seja isolada do resto do mundo”..

“Mas, ao mesmo tempo, temos que compreender que essas pessoas frequentemente têm pouca educação formal, nenhum sistema de extensão, nem contas bancárias, quase nunca tem carros, nem estradas. Eles podem cultivar suas fazendas e fornecer comida e empregos para seus países, mas algumas vezes precisam de uma pequena ajuda, de uma forma que funcione para eles. Algumas boas sementes, boa assessoria, um pouco de fertilizante e um mercado local para seus produtos”.

Muitas pessoas em nações africanas, prossegue Becker, exploram a terra local em comunidade, como têm feito por gerações, sem títulos de propriedade ou equipamentos caros, e desenvolveram sistemas que podem não ser avançados, mas são funcionais. Elas frequentemente não estão preparadas para competir com multinacionais e sofisticados sistemas de comércio. A perda da produção agrícola local as coloca à mercê de súbitas altas dos preços dos alimentos no mercado mundial. E alguns dos fazendeiros competem com os dos EUA, Leste Asiático e outras nações que subsidiam escanacaradamente suas agriculturas, enquanto dizem a elas que elas devem adotar totalmente o livre comércio, sem qualquer ajuda.

Becker declara: “Um mercado realmente livre é coisa que não existe neste mundo. Nós não temos um, mas dizemos às pessoas famintas que elas deveriam ter”. 

Esta pesquisa examinou os problemas em Gâmbia e Costa do Marfim na África Ocidental, onde os problemas dessa natureza se agravaram recentemente. Também foram examinadas as condições no Mali, que, em contraste, foi mais capaz de sustentar a produção local de alimentos – por causa de uma melhor malha viária, uma posição geográfica que torna o arroz importado mais caro, uma tradição cultural de preferência pelos produtos locais e outros fatores. .

Os governos historicamente corruptos continuam a ser um problema, dizem os pesquisadores.

“Em muitas nações africanas, o governo é encarado como um saqueador, não como uma ajuda ou como protetores dos direitos”, afirma Becker. “Apesar disso, temos que conseguir um resultado melhor em fazer com que o governo preste um mínimo de apoio para ajudar a agricultura local a sobreviver”.

A ênfase sobre uma maior responsabilidade do setor privado que começou na década de 1980, diz o relatório, funcionou até certo ponto, enquanto o preço dos alimentos importados, especialmente do arroz, permaneceu barato. Mas isso causou um crescente desemprego e uma erosão da produção local de alimentos que, em 2007-08 explodiu em uma crise de alimentos global, motins urbanos e violência. As técnicas sofisticadas e a ênfase da “Revolução Verde” podem ter causado mais males do que bens em vários locais, conclui o estudo.

Outro problema, afirmama os pesquisadores” foi uma “tendência urbana” nos programas assistenciais dos governos, onde os poucos sistemas de apoio que funcionavam, eram mais orientados para as necessidades da população urbana do que da rural.

As possíveis soluções, concluem os pesquisadores, incluem uma maior diversidade de cultivos locais, barreiras tarifárias adequadas e os sistemas de crédito, viário e de processamento locais necessários a processar as colheitas locais e levá-las aos mercados locais.

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Eu não costumo comentar os press-releases que traduzo, mas este, não dá para calar…

Em primeiro lugar, ainda bem que apareceu um estudo honesto que diz o que todos já sabiam, mas fingiam que não.

Eu só gostaria de saber se algum desses luminares do FMI, por exemplo, aceitaria aprender a jogar poker, apostando toda sua renda com um profissional…

A conclusão de Becker: “Não temos um mercado livre de verdade, mas dizemos aos famintos que eles têm que ter”, é uma re-descoberta da pólvora!

O que me leva a sombrias considerações sobre as campanhas contra a destruição das florestas e contra o aquecimento global…

“Nós também não paramos de poluir e gastar à rodo, mas vocês têm que limpar e economizar… por mais que passem fome…”

Ora!… Passe ontem!…


A navegação na Europa vista do espaço

Mapa de emissões de NO2 sobreposto ao mapa das rotas de navegação

Mapas da ESA revelam as rotas de navegação eu­ropéias como nunca feito antes

 

22 de maio de 2009

Uma visão sinóptica das rotas de navegação européias pode ser vista agora pela primeira vez graças a um novo mapa criado a partir de sete anos de dados de radar coletados pelo satélite Envisat da ESA (Agência Espacial Européia).

Os satélites de observação da Terra têm prestado serviços de detecção de navios por muitos anos, mas esta é a primeira vez que essa quantidade de dados, coletados por um período assim extenso, foi proces­sada para produzir uma visão geral dos padrões das rotas dos navios

.

O Dr Vincent Kerbaol e Guillaume Hajduch da CLS (Collecte Localisation Satel­lite, uma subsidiária do Centre national d’études spatiales, CNES, da França) cria­ram o mapa com base em um novo algoritmo de detecção de navios, desen­volvido por eles. Usando esse algoritmo, eles processaram dados produzidos em tempo quase real pelo Advanced Synthetic Aperture Radar (ASAR) do Envisat de 2002 a 2009.

Hajduch calibrou os dados recuperados do arquivo da ESA e então, como os navios aparecem como pontos brilhantes nas imagens de radar, identificou os pon­tos mais brilhantes nas áreas marítimas. 
 
Embora os navios apresentem uma eficiência energética maior do que outras formas de transporte comercial, muitos motores marítimos funcionam com combustíveis extremamente sujos que causam grandes emissões de poluidores da atmosfera, tais como o dióxido de enxofre (SO2) e o dióxido de nitrogênio (NO2).

As emissões de SO2 e NO2 vindas de navios são responsáveis por chuvas ácidas que são danosas para o meio ambiente, e partículas finas de matéria que são danosas para as pessoas. Assim como é para detectar as emissões indus­triais e de outros meios de transporte comerciais, as emissões de NO2 de navios podem ser medidas a partir do espaço ao longo das prinicipais rotas de nave­gação. Para ilustrar esse fato, na animação acima foram sobrepostos um mapa de emissão de NO2 e um mapa das rotas de navegação. As rotas correspondem cla­ramente ao padrão de NO2 detectado.
 

Shipping lanes off the coast of Portugal
Rotas de navegação ao largo de Portugal

O monitoramento dos navios na superfície do mar é muito importante para a observação do transporte marítimo e pode auxiliar as autoridades marítimas a verificarem que as rotas prescritas vem sendo obedecidas.

Por exemplo, o Comitê de Segurança Marítima modificou os esquemas de separação de tráfego ao largo da costa de Portugal em 2005 para adicionar duas novas rotas e afastar as rotas da costa. As imagens do ASAR à direita, obtidas antes e depois de serem implantados os novos esquemas, mostram que foram implementados com sucesso.

 
 

Ship distribution in European harbours
Distribuição dos navios pelos portos da Europa

Além de por em evidência as rotas de navegação, as vistas de satélite também detectam quais portos estão recebendo navios, como mostra a imagem do ASAR do Mar do Norte à esquerda. Os portos de Calais na França, Antuérpia na Bélgica, Bremen e Hamburgo na Alemanha e o Europoort na Holanda  (um dos portos mais movimentados do mundo), todos aparecem apinhados de navios nesta imagem (denotados pelos pontos azuis mais densos).


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