A ciência de fazer arte e a arte de fazer ciência

A arte é uma questão de inspiração e habilidade nata, enquanto a ciência é uma questão de observar os fatos, fazer medições e extrair dessas observações leis genéricas, que possam ser comprovadas por futuras experiências.
Mas será só isso, mesmo? O quanto de ciência contém a produção artística? E o quanto de arte tem a produção científica?
As relações matemáticas nas artes plásticas são bem conhecidas, assim como na música. Mas quanta ciência haveria em um romance, por exemplo?
Por outro lado, o quanto a inspiração tem a ver com o trabalho científico?
É curioso observar que as grandes obras literárias – por exemplo – contém uma grande parcela que se pode identificar como “ciência”. Os equilíbrios e as dissonâncias, o emprego da lógica (principalmente para levar o leitor a um clímax surpreendente) e a forma de abordagem do tema, para a obtenção do efeito desejado: prender a atenção do leitor e transmitir a mensagem pretendida. É isso que diferencia uma grande obra literária, uma bela poesia, uma narrativa bem feita, da grande maioria das obras literárias que poderiam muito bem nem terem sido paridas.
Sempre se pode argumentar que grandes obras artísticas são produzidas por pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico. Concedo… O que não significa que a ciência não esteja lá: apenas o autor não tem a noção consciente disso. A melhor prova disso foi dada por Louis Armstrong – o genial trompetista – que respondeu a uma pergunta sobre como improvisar sobre um tema musical: “cara, se você tem que perguntar, nunca vai entender”. Qualquer um é capaz de improvisar sobre um tema musical, mas só aqueles que sabem como fazê-lo, vão obter resultados que provoquem admiração. Ciência? Em minha opinião, sim.
E o trabalho científico? Em sua maior parte a produção de dados científicos se assemelha àquelas obras literárias a que me referi acima: poderiam muito bem jamais terem sido feitas… É só verificar os anais do “Prêmio IgNobel” para ver quanto do que passa por trabalho científico nada acrescenta à ciência.
Mas toda e qualquer descoberta inovadora tem um “que” de inspiração. Algo que vai além da mera observação dos fatos e seu registro. Aquele momento em que o cientista para de observar o universo com os olhos do cotidiano e tem seu “momento de artista”: a inspiração de raciocinar “e se – em lugar de fazer como sempre – tentarmos uma abordagem diferente?”
Da mesma forma com que o escultor vê no bloco de pedra a estátua e trata de retirar os pedaços que sobram, o cientista busca o oculto na aparência do cotidiano. De igual modo ao poeta que alinhava palavras – gastas na repetição coloquial diária – e delas extrai efeitos comoventes, o cientista associa fatos conhecidos e deles extrai novas linhas de raciocínio que abrem novas fronteiras no conhecimento.
Em resumo: sem o fator “criatividade”, tanto a arte como a ciência já teriam desaparecido. A arte se resumiria a uma contínua repetição de fórmulas consagradas e a ciência a um “saber enciclopédico”, encerrado nas páginas amareladas do já conhecido.
Por isso, eu – que não sou artista, nem cientista – afirmo que, sem sombra de dúvida, existe uma ciência para fazer (boa) arte, assim como uma arte para fazer (boa) ciência.
(Por favor, qualquer comentário deve ser postado aqui)

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