Resenha: “Os 10 mandamentos para uma vida melhor”

“Os 10 mandamentos para uma vida melhor”, por William Douglas, Thomas Nelson Brasil, (Ediouro), Rio de Janeiro, RJ, 2008. (ISBN 978-85-6030-369-4) (Exemplar de cortesia do editor).

Na linha editorial da Thomas Nelson, de “livros de auto-ajuda e de literatura inspiracional e motivacional”, este é um livro que pretende se dirigir não só ao público cristão, mas a todos que procuram este tipo de literatura. Apesar disso, o autor (que, apesar do nome, é um Juiz Federal brasileiro) abusa do “argumento de autoridade” da Bíblia, quando mais não seja “porque foi o primeiro livro impresso e é um dos mais difundidos no mundo”. Mesmo procurando deixar de lado essa falsa premissa e relevando o fato do autor, em diversas instâncias considerar a Bíblia um texto sagrado “de inspiração divina”, temos que considerar essa circunstância para avaliar a validade da argumentação.

Evidentemente, se o leitor não concordar com essas premissas, pelo menos metade da força da argumentação se perde (o que é bem meu caso…) Mas o autor concede que, mesmo para alguém que as aceite, os famosos “10 Mandamentos” revelados por Moisés são de tal forma impositivos e expressos em termos de “proibições” que causam perplexidade e uma sensação de ser impossível “agradar a Deus”, o que, de forma alguma, se enquadra no pressuposto que “Deus ama você incondicionalmente”. A partir da colocação do psicólogo Leonard Felder que os considera não “mandamentos”, mas “desafios”, o autor propõe uma re-interpretação dos “10 mandamentos” em termos de atitudes positivas que, em seu entender, são universalmente aplicáveis a qualquer um que queira “melhorar sua vida”.

Dentro da lógica e do ponto de vista de quem aceita a Bíblia como uma “revelação divina”, o livro propõe atitudes perfeitamente sensatas que, devidamente adotadas, certamente trarão uma “paz de espírito” maior àqueles que se preocupam não só com a própria “salvação”, mas procuram fazer algum sentido das contradições que a crença em um ser onipotente, onisciente e onipresente (e, supostamente, benevolente), e a realidade de um mundo evidentemente caótico apresentam. Apesar da estreiteza da aceitação das premissas bíblicas (e de que Deus teria, realmente, ditado pessoalmente a Moisés os 10 mandamentos), uma interpretação mais abrangente das (supostas) “Leis Divinas” torna não só a coisa mais palatável, como coloca freios nas diversas diferentes “interpretações” da letra da Bíblia (que – concede o autor – foram responsáveis por inúmeros desmandos e malefícios à humanidade). Seu “Primeiro Mandamento” é um primor: “Deixe Deus ser Deus; ele faz isso melhor do que ninguém”, deveria ser universalmente adotado. Para os que não aceitam um Deus, não é iníquo, nem inócuo: se há um Deus, ele existe independente de você acreditar nele ou não. Para os que acreditam, relembra que Deus não vai ficar mudando as “regras do jogo” porque você não gosta delas, ou acha que está sendo tratado de maneira injusta. Em resumo: o universo funciona assim e não adianta você querer “favores especiais” só porque fica “puxando o saco” de Deus, enquanto nada faz por si próprio.

Os demais “novos mandamentos” são apenas conselhos para organizar sua própria vida, de forma a não ter que ficar rezando para a água ir de morro acima, para consertar situações em que você próprio se meteu, por fraqueza de caráter ou falta de discernimento.

Um livro que eu reputo muito útil a todos os que se professam Cristãos, mas cuja argumentação deixa muito a desejar para quem é cético. Mas, como céticos dificilmente precisam de livros de “auto-ajuda”… Para o “público alvo”, certamente, eu o recomendo. “Com um grão de sal”, evidentemente…

Discussão - 3 comentários

  1. Paula disse:

    Vou reescrever:
    “Seu “Primeiro Mandamento” é um primor: “Deixe A CIÊNCIA ser A CIÊNCIA; elA faz isso melhor do que ninguém”, deveria ser universalmente adotado. Para os que não aceitam A CIÊNCIA, não é iníquo, nem inócuo: se há umA CIÊNCIA, elA existe independente de você acreditar nelA ou não. Para os que acreditam, relembra que A CIÊNCIA não vai ficar mudando as “regras do jogo” porque você não gosta delas, ou acha que está sendo tratado de maneira injusta. Em resumo: o universo funciona assim e não adianta você querer “favores especiais” só porque fica “puxando o saco” dOS CIENTISTAS, enquanto nada faz por si próprio.”
    Ficou até que bom, vai? A grande questão para um cético seria: pra que colocar toda a culpa (ou o mérito) sobre algo que não a Ciência e os cientistas, ou qualquer coisa mais palpável?
    Afinal: vc recomenda o livro ou não?

  2. João Carlos disse:

    Não se aplica… A Ciência não envolve questões de crenças pessoais, nem se pretende que a ciência tenha criado o universo, muito menos que ela tenha qualquer predisposição contra ou a favor da humanidade.
    Quanto aos céticos, eu não posso responder por eles, porque não sou um. Mas encarar a vida e a existência em termos de “culpa” e “mérito” é exatamente uma das coisas que o autor alerta para não fazer. Em minha opinião, ele está certo, embora pelos motivos errados.
    E, não!… Eu só recomendaria o livro a um Cristão que aceitasse que a Bíblia é, letra por letra, “inspirada por Deus”. Esses poderiam tirar proveito dos conselhos do autor, porque aceitam esses “argumentos de autoridade”.
    O restante dos conselhos do autor são apenas uma questão de bom senso, que não é privilégio nem de céticos, nem de crentes…

  3. Igor Santos disse:

    Mas aí é vender água a quem está com sede. Um livro que nem fede nem cheira. Quem concorda, vai achar ótimo, quem discorda, vai querer distância.
    Esse é o tipo de livro que não vale a pena ler, pois (acho) não introduz uma informação nova sequer…

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