Monteiro Lobato é racista? Pior: é obsoleto

O que motiva este post é outro post do meu querido Declev no Diário de um Professor, a respeito da discussão (que chegou ao Supremo) sobre supostos conteúdos racistas na obra de Monteiro Lobato, mais exatamente no livro “Caçadas de Pedrinho”, livro este proposto como livro-texto para estudantes.

A primeira constatação que se deve fazer é que Lobato – como, de resto, a elite intelectual brasileira de sua época – é racista, sim. É racista e eurocentrista como todos os “bem-pensantes” da primeira metade do século passado. Antes de sair me xingando de iconoclasta, burro, ou qualquer outro epiteto, é sempre bom lembrar que “preconceito” é exatamente o que a origem etimológica sugere: um “conceito” (uma ideia) que uma pessoa absorve de uma cultura existente, sem que essa ideia passe pelo crivo de uma análise lógica. E eu me confesso racista: a todo momento tenho que fazer minha razão protestar contra os preconceitos que eu adquiri quando era criança e que eram tidos como “verdades por si só evidentes”.

Será, então, que o livro “Caçadas de Pedrinho” deve ser banido da bibliografia escolar?… Eu opino que sim. Não só pelas duas ou três referências derrisórias à personagem “Tia Nastácia” por ser negra, mas, principalmente, por deixar subentendido que caçar animais silvestres (especialmente a onça-pintada – espécie ameaçada de extinção) é algo digno de louvor.

Na época em que Lobato escreveu o livro, nada disso era tido como pernicioso. Nenhum negro iria se manifestar ofendido pela caracterização de Tia Nastácia como analfabeta, ignorante, supersticiosa, porque isso não era ficção; era a realidade para a esmagadora maioria dos negros no Brasil, recém saídos da escravidão e sem a menor chance de progresso social. Para ser mais enfático, quando eu era criança, quase metade dos brasileiros eram analfabetos e dava para contar nos dedos quantos dos alfabetizados eram negros ou mestiços de negro (e, para apresentar a exceção que confirma a regra, um dos meus colegas de infância era filho de um desses negros, um deputado federal e sociólogo de boa cepa).

Igualmente, uma das oportunidades que um menino tinha de “se mostrar homem-feito”, era exatamente participar de caçadas – coisa que grande parte daqueles que moravam no interior faziam até mesmo por questão de subsistência. Onça, ainda tinha muita…

O caso é que a sociedade que Lobato descreve e onde ambienta suas obras é coisa do passado. As crianças de hoje não vivem mais em um mundo onde o meio de comunicação mais rápido é o telegrama. As fazendas das Vovós “Benta Encerrabodes de Oliveira” não são mais vizinhas de matas onde se encontre um mísero cachorro-vinagre; estes e outros animais silvestres são, cada vez com mais frequência, encontrados vagando atônitos por bairros de cidades que invadiram seu habitat.

Eu cresci lendo Lobato e meus filhos ainda curtiram Lobato adaptado para a televisão. E a própria versão para televisão já fazia algumas concessões. Por exemplo, “pirlimpimpim” tinha deixado de ser um pó (com conotações óbvias) e passado a ser uma palavra-mágica… Ah!… Sim… Na primeira metade do século passado, cocaína era algo que se comprava na farmácia para dor de dentes.

Hoje, eu não consigo fazer meu neto largar os “animes” e “mangas” e se interessar por um sabugo de milho com ares de fidalgo e filósofo.

Se é com esses textos de (nas palavras de Lobato) uma sensaboria relambória que pretendem ensinar o português a nossas crianças de hoje, boa sorte!… Talvez seja possível cativar ainda algum futuro (sempre nas palavras de Lobato) “Sr. Coisado Pereira, intelectual de Pilão Arcado, onde vive tísico e todo caspas” que venha a escrever outra obra como “A Mulatinha do Caroço no Pescoço” (obra e autor fictícios, extraídos de um texto de Lobato defendendo a tradução dos clássicos estrangeiros).

Fica para o Supremo descascar este abacaxi… E, para os que são incapazes de reconhecer as limitações de uma “vaca-sagrada”, acreditar na máxima: “O que foi bom para meu avô e meu pai, foi também bom para mim e será bom para meus filhos e netos”.

Lobato estaria corado de vergonha…

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