Darwin Day 2026 e os 50 anos da Nova Síntese Evolutiva

É chegado o nosso Darwin Day do ano! Neste 12 de fevereiro de 2026, celebramos o Dia de Darwin, o aniversário de 217 anos de Charles Robert Darwin. Ele foi o cientista que transformou profundamente a Biologia e diversos campos do saber ao articular evidências variadas em sua teoria da evolução biológica fundamentada na descendência comum, na seleção natural e sexual, no gradualismo e na diversificação das espécies. O Darwin Day é uma celebração mundial que reconhece o legado de Darwin à ciência e convida à reflexão sobre como a teoria evolutiva segue iluminando nossa percepção do mundo e auxiliando no enfrentamento dos desafios contemporâneos.

Aqui no MARCO EVOLUTIVO comemoramos anualmente o Dia de Darwin desde 2008, passando pelo Bicentenário de Darwin e 150 anos do ‘Origem da Espécies’ em 2009, e por 20102011201220132014201520162017, pela Década de Darwin Days no Blog em 201820192020pelo sesquicentenário do “A Descendência do Homem a Seleção Sexual’ em 2021, pelo sesquicentenário do ‘A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais’ em 202220232024, 2025.

Neste Darwin Day estamos comemorando os 51 anos da publicação do livro “Sociobiologia: a Nova Síntese” de Edward Wilson (1975), e 50 anos da publicação do “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins (1976). Ambos os livros formam a grande divulgação pública das explicações evolutivas e adaptativas para o comportamento social dos animais ao abordarem cooperação, acasalamento, agressão, territorialidade, conflitos pais e filhos entre outros. Foi um período muito produtivo pois aproximou mais efetivamente o comportamento social da genética de populações e da dinâmica adaptativa da seleção natural. Os etólogos puderam finalmente afastar noções vagas e imprecisas sobre as adaptações servirem para o ‘bem da espécie’ ou ‘perpetuação da espécie’, e puderam abraçar noções de benefício genético abrangente e um maior rigor em termos de custos e benefícios das adaptações psicocomportamentais.

O próprio Darwin identificou corretamente o que a Helena Cronin (1991) chamou de o “problema da formiga”: como era possível a evolução de castas estéreis de formiga com morfologia e comportamentos próprios sem que elas mesmas deixassem seus descendentes? No Origem das Espécies (1859), em seu capítulo sobre as possíveis objeções à Teoria da Seleção Natural, Darwin escreveu sobre “uma dificuldade específica, que a princípio me pareceu insuperável e, na verdade, fatal para toda a minha teoria. Refiro-me aos indivíduos neutros ou fêmeas estéreis nas comunidades de insetos: pois esses indivíduos neutros frequentemente diferem muito em instinto e estrutura tanto dos machos quanto das fêmeas férteis, e, no entanto, por serem estéreis, não podem propagar sua espécie.” De forma geral, este era o problema evolutivo do altruísmo: como é possível evoluir alguma tendência comportamental que beneficia outros em detrimento de si mesmo?

Este paradoxo evolutivo das castas estéreis dos insetos sociais foi plenamente resolvido só em 1964 com a formalização da seleção de parentesco por William Hamilton, o qual nasceu no mesmo dia que Lamarck. Ele demonstrou que por compartilharmos mais as nossas versões dos genes com nossos parentes era possível evoluir tendências altruísticas para ajudar a sobrevivência e a reprodução dos parentes. E quanto mais próximos os parentes, maiores seriam os benefícios de se sacrificar por eles. Isso explicou a existência de castas estéreis em insetos sociais, visto que as operárias são proximamente aparentadas à rainha. A aptidão evolutiva, que antes era operacionalizada em número de filhos que sobrevivem à idade reprodutiva, passou a ser entendida de forma a abranger, além dos próprios filhos, todo o número de sobrinhos, primos, netos e filhos de outros parentes próximos que chegassem à idade reprodutiva (aptidão abrangente, ou do inglês, inclusive fitness). A partir desse avanço teórico foi possível acrescentar a explicação evolutiva para o amor parental e para muitos comportamentos, como o fato das abelhas morrerem após ferroar um possível inimigo da colmeia, que não faziam sentido pensando apenas a reprodução própria do indivíduo. A mesma lógica também lançou luz sobre o conflito entre pais e filhos, como no caso do desmame, pois apesar de proximamente relacionados geneticamente ainda existem 50 % de diferenças genéticas entre eles na maioria dos casos. George Williams foi outro grande evolucionista que ajudou a dar as bases da síntese sociobiológica.

Nos livros cinquentenários “Sociobiologia” e “Gene Egoísta” este avanço explicativo sobre o altruísmo foi amplamente demonstrado e interligado com outros avanços da época como o altruísmo reciproco (como o ‘uma mão lava a outra’), investimento parental, sinalização custosa etc. Assim, em meados de década de 1970, estes livros finalmente ajudaram a devidamente incluir o comportamento animal no mesmo arcabouço teórico da Síntese Moderna da Evolução, das décadas de 1930-40. Ambos livros ajudaram a alicerçar o estudo do comportamento social em modelos matemáticos e na genética de populações, transformando a etologia social em uma ciência quantitativa e preditiva. Desta Nova Síntese Evolutiva surgiram novas disciplinas como a Ecologia Comportamental, a Psicologia Evolucionista, a Memética, por exemplo. Sim, pois no último capítulo do “Gene Egoísta”, Dawkins introduziu o conceito de memes, que são unidades culturais coesas que se replicam de mentes em mentes por aprendizado social (imitativo) na ‘sopa primordial’ das tradições socioculturais. Décadas depois a noção de memes foi aplicada ao que hoje conhecemos como os memes de internet, em que uma cena ou expressão facial conhecida é reinterpretada em outro contexto distinto, mas com reação semelhante, o que é engraçado e nos faz compartilhar até viralizar enquanto unidade cultural de replicação.

Enquanto Dawkins foi da replicação genética para a replicação cultural no final de seu livro, no ano anterior Wilson foi das sociedades animais à sociedade humana ao final do “Sociobiologia”. Apesar de ser um especialista de formigas, Wilson conseguiu apresentar alguns insights de como poderíamos entender os comportamentos sociais humanos pelas lentes sociobiológicas. A Sociobiologia humana cultivou a interdisciplinaridade, por incluir informações paleontropológicas, históricas, etnográficas, interculturais, adaptativas e comparativas com outras espécies. Ele mostrou a importância de se considerar tanto as bases biológicas quanto os contextos socioecológicos e históricos. Porém, estava longe de ser a palavra final ou o entendimento mais profundo e avançado sobre os humanos na época. As editoras e a imprensa inflaram muito a importância dos livros gerando uma percepção que seriam a palavra final sobre o comportamento humano que substituiria as explicações das ciências sociais. O que não é verdade. É claro que o fato de ambos livros ligarem evolução aos seres humanos deixou muitos criacionistas chateados. Por terem colocado humanos na mesma dinâmica evolutiva comportamental das outras espécies incomodou pessoas antropocêntricas que acham humanos superiores aos outros animais. Por terem focado muito nos genes como unidades fundamentais de evolução e não no indivíduo deixou chateados os que queriam protagonismo ao indivíduo. Por terem focado as influências genéticas e evolutivas no comportamento animal incluindo os humanos (natureza humana) deixou chateados muitos que acreditavam no mito da tabula rasa, em que tudo é aprendido e nada é herdado ou instintivo. Muitos não tinham embasamento biológico para captar a profundidade da mensagem dos livros e passaram a rotulá-los como mero determinismo genético ou fatalismo biológico. Tanto é que muitos acharam que “O Gene Egoísta” era sobre os genes do egoísmo e não um livro sobre a evolução do altruísmo. Muitos achavam que a Sociobiologia e a perspectiva do gene egoísta eram meras racionalizações para justificar atrocidades sociais, como as realizadas no passado em nome do darwinismo social e da eugenia.

Apesar da polêmica, da recepção conturbada e da difamação infundada, as críticas científicas recebidas fizeram com que a área progredisse e se diversificasse. Hoje sabemos que além do fato dos genes serem praticamente imortais e fundamentais para a evolução, existe outras formas menos estáveis de herança, como a herança epigenética, citológica, comportamental e cultural, que também influenciam o processo evolutivo. O fato de termos herdado propensões comportamentais não quer dizer que todos vamos nos comportar igualmente, ou que não temos escolha nem capacidades inibitórias. O fato de termos inclinações comportamentais evoluídas não nos impede de aprender nem nos ajustar social e ecologicamente. Hoje a Genética Comportamental e a Sociogenômica já demostraram que temos sim centenas de genes cada um com efeitos pequenos que influenciam, junto com os efeitos ambientais, em como somos, pensamos e nos comportamos. Apesar de termos predisposições genéticas, temos até certo ponto a capacidade de melhorarmos como somos mediante mudanças de contextos e hábitos de vida.

Diante de todo avanço científico proporcionado pela ampla divulgação da solução de antigos paradoxos evolutivos comportamentais era de se esperar que toda graduação em Biologia tivesse comportamento animal como disciplina obrigatória, que toda graduação das Ciências Humanas e Sociais tivesse as bases biológicas do comportamento humano em seu contexto comparativo como disciplina obrigatória, pelo menos antropologia e psicologia. Mas, mesmo depois de 50 anos e muitos avanços subsequentes, são poucas as universidades que oferecem cursos sobre a biologia comportamental e ainda precisa avançar muito a compreensão, aceitação e integração do comportamento animal nos currículos universitários. Isso porque hoje sabemos que as abordagens evolutivas nos ajudam a entender desafios contemporâneos como a pandemia e a crise ecoclimática. Além disso, hoje sabemos que interculturalmente e controlando para religião e orientação política, a aceitação da evolução humana está relacionada a menor homofobia, transfobia, racismo e xenofobia (Syrapulous et al., 2022), ao contrário do que os críticos imaginavam. Então, neste Darwin Day 2026, vamos todos abrir a mente e nos atualizar lendo livros sobre a evolução do comportamento humano, como o Manual de Psicologia Evolucionista.

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