Revolucion Darwin no Chile

revoluciondarwin.jpgComeçou hoje aqui em Santiago del  Chile o Seminário Revolução Darwin – el legado intelectual de Darwin en el siglo XXI. Simplesmente a maior comemoração darwinista do mundo em 2009!  São mais de 2.600 pessoas assistindo a palestras fantásticas sobre darwinismo fora todas aquelas assistindo em tempo real pela internet!

Organizado pela Fundacion Ciencia y Evolucion esse seminário que ocorre entre os dias 7 e 8 de setembro conta com as maiores personalidades da Psicologia Evolucionista. Trata-se de Steven Pinker; Daniel Dennet, Leda Cosmides, John Tooby, Matt Ridley, Helena Cronin entre outros.

As palestres estão muito interessantes e os professores muito acessíveis. Descubra mais no site do evento. Veja ao vivo aqui e descubra alguns videos aqui.

Luz, Vaga-Lumes e Ação … Sexual!!!

Como parte dessa primeira blogagem coletiva sobre luz do ScienceBlogs Brasil veremos aqui no MARCO EVOLUTIVO as influências da seleção sexual nos custos e benefícios do piscar do vaga-lume. Muitas das cerca de 1900 espécies diferentes de vaga-lume usam flashes luminosos para sua comunicação sexual. E veremos a trama sexual comandando a evolução do padrão de sua bioluminescência.

James Lloyd professor na Universidade da Florida, que estuda vaga-lumes por mais de 35 anos, acha que esses pequenos insetos são realmente incríveis. “Imagine antes da eletricidade o quão brilhante era o flash do vaga-lume. Isso deve ter sido muito misterioso”. Hoje sua luz não é mais um mistério, trata-se do óxido nítrico neurotransmitindo o impulso elétrico emitido pelos neurônios do vaga-lume para o abdômen disparar o flash luminoso, que é produzido pela enzima luciferase catalisando a oxidação da luciferina, gerando a emissão de luz.

Mas ainda hoje as nuances de sua comunicação ainda são pouco conhecidas. Para Lloyd, os vaga-lumes podem significar para o estudo da comunicação em insetos o equivalente ao que a drosófila é para a genética de insetos. Vaga-lumes são besouros e, assim como muitos outros insetos suas larvas só comem. Já os adultos só pensam em sexo, nem lembram de se alimentar. Eles têm uma vida adulta curta, de cerca de um dia a duas semanas. E na maioria das espécies o macho voa mais do que a fêmea. Então eles têm pouco tempo para voar, encontrar e conquistar uma fêmea. E para isso usam sua lanterna do amor!

“Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém
são os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!”
Herberto Helder

Tanto os vaga-lumes machos quanto as fêmeas produzem um padrão de flash específico que pode variar de uma piscada curta, um traço luminoso a uma sucessão flamejante, longa, tracejada ou contínua. Seu padrão varia de espécies para espécie. E as fêmeas preferem machos com flashes mais conspícuos, ou seja, de maior destaque, mais brilhantes. Elas respondem à piscadela deles piscando de volta e isso atrai os machos na hora. Mas por que será elas escolhem os mais brilhantes?

Bom para iluminar seus pensamentos pense numa vida adulta curta, nenhuma alimentação, muito vôo e milhares de flashes para conseguir acasalar. Isso deve ser muito custo, não é? Mas quanto afinal? Foi exatamente essa pergunta que a professora Sara Lewis da Universidade de Tufts procurou responder. Primeiro ela mediu a quantidade de gás carbônico produzida pelo vaga-lume sem piscar e piscando. Ela descobriu apenas uma pequena diferença. Então ela resolveu pesquisar se a predação não era maior custo. Usou várias armadilhas no campo sendo que algumas eram o controle (sem luz) e outras tinham um dispositivo luminoso que imitava um vaga-lume macho, de modo a capturar todos aqueles atraídos pelo padrão de piscada.

Para sua surpresa as armadilhas luminosas continham significativamente mais vaga-lumes do que as controle. Mas os vaga-lumes encontrados eram em grande parte de uma espécie diferente. Uma especializada em imitar o padrão de piscadela de outras espécies de vaga-lumes atraindo machos para devorá-los. Esse é o grande custo para aqueles vaga-lumes com flashes mais conspícuos, eles são mais facilmente encontrados por predadores.

Esses machos sofrem mesmo! Como estão sempre tarados, são facilmente ludibriados. Às vezes eles são atraídos por orquídeas que mimetizam a fêmea da vespa para serem polinizadas, como vimos em “Coevolução e Seleção Sexual no Caso da Vespa Tarada”, outras vezes como no caso do Ronaldo, são atraídos por homens mimetizando mulheres para extorqui-los nos mídia. E no caso dos vaga-lumes, são atraídos por fêmeas de outras espécies para predá-los.

Mas por que afinal as fêmeas iriam preferir acasalar com machos de sua espécie que tem mais chances de serem predados? À primeira vista não tem muita lógica porque os filhotes desse tipo de casal têm mais chances de serem devorados. Não seria melhor escolher machos mais camuflados? Não! Porque só os machos de melhor qualidade conseguem emitir sinais que também atraem predadores e continuar vivos. Essa é a lógica contra-intuitiva dos sinais honestos por desvantagem propostos por Zahavi em 1975, só os melhores podem se dar ao luxo de se colocar situações desfavorecedoras e ainda assim continuarem vivos, pois os de baixa qualidade quando colocados em desvantagem morrem fácil.

Como vimos, as pesquisas da Sara Lewis mostram como a evolução do padrão luminoso dos vaga-lumes é moldada por um processo dual tanto de seleção sexual (escolha da fêmea e competição com outros machos) quanto de seleção natural (predação). Abaixo vocês verão os vídeos das pesquisas de professora Sara Lewis que ilustram a dinâmica de sexo, luz e predação da vida dos vaga-lumes.

Meu coração, eu SEI porque!!

É um prazer comunicar a todos que hoje a noite, sábado dia 10/01, este que vos escreve aparecerá em um entrevista no Jornal da Cultura. O motivo é um artigo de opinião de uma página que o pesquisador Larry J. Young do National Primate Research Centrer na Universidade de Atlanta escreveu na Nature sobre a neuroquímica do amor.

O autor aponta as mais recentes descobertas no sentido de descrever as vias neuroquímicas envolvidas no apaixonamento e no amor. Os coadjuvantes são a ocitocina e a vasopressina. E é claro que ele cai no fetiche more das causas próximas: conhecer para controlar. Diz que no futuro teremos medicamentos que nos farão apaixonar por alguém e desapaixonar como se fosse uma febre.
Existem vários pontos aqui importantes de serem ressaltados. Não é de hoje essa busca por afrodisíacos mais eficazes. Do chifre de rinoceronte às placas do pangolim passando pelo olho de boto muito da nossa biodiversidade é agredida pela taradice humana. É bem mais barato e ecologicamente correto explorar os afrodisíacos contextuais e comportamentais do que acreditar em analogias superficiais com a rigidez de partes animais ou remédios milagrosos. Um simples abraço já libera ocitocina capaz de fortalacer os laços da relação, pense nisso.
Outra coisa, não precisamos temer o tanto assim o uso indevido de perfumes com feromônios e outras traquinagens científicas aplicadas, pois para toda estratégia existirá sempre uma contra-estratégia! E quanto mais eficaz a estratégia mais rápido surgirá uma a defesa. Pelo mesmo motivo que os pesticidas nunca vão eliminar as pragas e os antibióticos quanto mais usados menor o efeito. Nessa vida estamos correndo pra ficar no mesmo lugar, é o que nos ensina a rainha vermelha de Alice no País da Maravilhas.
Já está na hora de pararmos de acreditar literalmente que o amor foi inventado pelos trovadores ocidentais, que ele está no coração, depende do cupido e que no máximo a ciência vai acabar com a magia, beleza e mistério amor. Poesia e ciência não são incompatíveis só não podem ser confundidas. Muitas vezes o conhecer é até mais belo do que o desconhecer, e além do mais nunca iremos esgotar com os mistérios do universo, mas todo mistério está sujeito a ser decifrado. Então se depositarmos nossas angustias, nossa estética e ou até nossa religião em desconhecidos específicos estamos correndo o risco de nos desapontarmos no futuro.
O amor é uma adaptação mental universal da espécie humana e atua por vias muito conservadas filogeneticamente. Desista da imagem de nossos ancestrais puxando suas amadas pelo cabelo e perceba que muitos animais apresentam fortes capacidades de vinculação amorosa. Tanto que Helen Fisher, uma antropóloga que estudou a fundo amor em suas mais diversas manifestações, psicológica, antropológicas, evolutiva e neurológica chega a sentir se mal pelo frango em seu prato no jantar por saber que até estes possuem a capacidade neurológica para amar.
Todas as manifestações mais maravilhosas do amor e as mais nefastas também, não são pra mim proezas meramente químicas, mas sim proezas evolutivas. Os neurotrasmissores não estão milagrosamente e casualmente dispostos em nosso cérebro. Eles são as vias pelas quais a cognição amorosa funciona, devidamente instalada em nossa mente pela evolução e seleção sexual. Como a evolução não faz nada a partir do zero os mecanismos do amor romântico foram cooptados dos mecanismos de vinculação mãe-bebê. Daí podemos entender essa mania dos amantes de se tratar de forma infantilizada.
Helen Fisher, em suas palestras interessantíssimas no TED, aponta três mecanismos envolvidos no amor romântico: a luxuria, desejo de satisfação sexual; amor romântico, exaltação e obsessão do estar apaixonado; e o apego amoroso, a sensação de calma, paz e segurança na presença do ser amado. Ela teme que com o uso descontrolado de antidepressivos, os quais atuam nas mesmas vias neuroquímicas do amor, possam tornar as pessoas incapazes de amar. Um efeito colateral considerável.
Mais importante é não acharmos que a ciência vai dar desculpas para atos danosos. Nossas responsabilidades e culpabilidades estão intactas não importa o que os cientistas descubram sobre a neuroquímica ou a genética do amor ou qualquer outro comportamento humano. E não podemos  esquecer que a beleza e fascínio do amor serão sempre um prato cheio para os apaixonados, sejam poetas ou cientistas.
Abaixo estão dois vídeos bem informativos da Kate Bohner sobre a Biologia do amor como prova do nosso amor pela ciência da paixão.

Coevolução e Seleção Sexual no Caso da Vespa Tarada

Quer saber por que é muito mais fácil que vírus de computador se multipliquem via sites pornô? Então se ponha no lugar de uma vespa macho e desvende as relações entre a coevolução e a seleção sexual.
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As mudanças evolutivas recíprocas são o foco dos estudos coevolutivos. A coevolução pode ser definida como “mudanças evolutivas em um atributo de uma população em resposta a um atributo dos indivíduos de uma segunda população, seguido por uma resposta evolutiva da segunda população à mudança da primeira” (Janzen, 1980). Os estudos coevolutivos analisam os resultados diferentes tipos de interações entre populações que na maioria das vezes são entendidas como populações de espécies diferentes (Thompson,1989), mas populações dentro da mesma espécie, como macho e fêmeas, também coevoluem.
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Inicialmente o conceito de coevolução foi usado indiscriminadamente ao se referir a qualquer interação entre diferentes populações (Janzen, 1980). Atualmente o conceito está muito mais bem delimitado, reservado apenas para mudanças evolutivas claramente recíprocas, específicas e simultâneas. Tais pressupostos são facilmente contemplados se pensarmos na coevolução entre machos e fêmeas da mesma espécie.
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Nas espécies de reprodução sexuada, machos e fêmeas interagem específica, recíproca e simultaneamente ao longo de um amplo período evolutivo, o que possibilita a fácil exploração dos produtos e processos envolvidos nessa coevolução. Desta constatação é possível reconhecer a importância de se olhar para mudanças evolutivas recíprocas intra-específicas proporcionadas pela seleção sexual para o estudo da coevolução entre espécies diferentes.
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Os primeiros etólogos costumavam olhar os rituais de corte e acasalamento como uma associação harmoniosa, na qual machos e fêmeas cooperavam preenchendo funções de interesse comum aos dois sexos, tais como a “sincronização da receptividade sexual”, a “consolidação da ligação” ou ainda a “identificação de co-específicos”. Da mesma forma, como os primeiros ecólogos olhavam para a interação entre as diferentes espécies também como uma associação harmoniosa. Atualmente, a ênfase está colocada mais nos conflitos de interesse entre machos e fêmeas. Assim como se admite que ambos os sexos façam uma aliança incomoda, na qual cada um tenta maximizar o próprio sucesso na propagação dos genes, cada espécie envolvida num evento de coevolução também enfrenta conflitos de interesse (Krebs & Davies, 1996).
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A dinâmica coevolutiva entre machos e fêmeas pode abarcar a coevolução entre planta e polinizador, como é o caso do mimetismo sexual e a pseudocópula que ocorre na polinização das orquídeas do gênero Ophrys. Conhecido como mimetismo pouyanniano ou sexual ocorre quando uma flor de orquídea apresenta a forma, coloração (Spaethe, Moser & Paulus, 2007) e cheiro de acasalamento (Ayasse, Schiestl, Paulus, 2003) da fêmea de alguma espécie de abelhas na maioria dos casos, e na minoria, de vespas ou besouros todos espécie-específicos. Isso faz com que o macho da respectiva espécie seja atraído à flor para copular, o que acaba por dispersar as políneas para outros estigmas concluindo a polinização. O ajuste coevoluído não é apenas espacial, mas temporal. A atração dos machos pelas flores miméticas ocorre num período em que as fêmeas ainda não estão receptivas, ou às vezes nem disponíveis ainda.
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Recentemente, Schiestl e Cozzolino (2008), por meio de análises filogenéticas e comparativas em 18 espécies diferentes, encontraram indicações de que os alcanos presentes nos odores atrativos das orquideas Ophrys miméticas são características já presentes nos ancestrais do gênero. Tais compostos podem ser tidos como preadaptações existentes nas flores que evoluíram diversificando e intensificando-se ao entrar de carona na dinâmica química da seleção sexual coevoluída de insetos explorando, manipulando e às vezes superestimulando as preferências sensoriais e comportamentais dos machos.
Realmente os machos são manipulados pelas flores sem nenhum benefício em troca. Entretanto, após algumas tentativas passam a evitar o convite tentador das orquídeas, pois apenas machos inexperientes são enganados, e isso faz com que as orquídeas tenham menos oportunidades de polinização levando a uma maior pressão seletiva para o aumento da sua ornamentação (Andersson, 1994; Spaethe, Moser, Paulus, 2007).
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Segundo a teoria biológica da sinalização, os sinais evoluíram no emissor por manipular o comportamento do receptor em benefício próprio. Os sinais apareceram como instrumentos de manipulação, conduzindo assim, uma corrida armamentista entre a resistência à manipulação dos receptores e o poder de persuasão dos emissores (Krebs & Davies, 1996). Os machos polinizadores das orquídeas Ophrys estão evoluindo no sentido à resistência do sinal apresentado pela flor, porém sendo este muito semelhante ao sinal da fêmea da própria espécie, sua aptidão começa a diminuir a partir que eles começam ficar insensíveis às próprias fêmeas. Eles então estão presos em duas dinâmicas coevolutivas uma intra e outra interespecífica que fazem com que cada vez mais as orquídeas desse grupo fiquem mais perecidas com as fêmeas.
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Abaixo veremos no primeiro vídeo Sir Richard Dawkins narrando uma cópula alucinada de um macho vespa tarado por uma orquídea pra lá de sensual: compare na foto ao lado a orquídea poposuda e a fêmea que ela mimetiza. E no segundo veremos pela NewScientist que as orquídeas australianas que levam a vespa ao clímax do orgasmo tem mais chances de polinização.

Referências
Andersson, M. (1994). Sexual Seletion. Princeton: Princeton University Press.
Ayasse, M.; Schiestl, F. P.; Paulus, H. F. (2003). Pollinator attraction in a sexually deceptive orchid by means of unconventional chemicals. Proceedings Royal Society of London B, 270, 517–522.
Janzen, D. H. (1980). When is it coevolution? Evolution, 34(3), 611-612.
Krebs, J. R.; Davies, N. B. (1996). Introdução a Ecologia Comportamental. São Paulo: Atheneu.
Schiestl, F. P.; Cozzolino, S. (2008). Evolution of sexual mimicry in the orchid subtribe orchidinae: the role of preadaptations in the attraction of male bees as pollinators BMC Evolutionary Biology, 8:27
Spaethe, J.; Moser, W. H.; Paulus, H. F. (2007). Increase of pollinator attraction by means of a visual signal in the sexually deceptive orchid, Ophrys heldreichii (Orchidaceae). Plant Systematic and Evolution. 264: 31–40.
Thompson, J. N. (1989). Concepts of Coevolution. Trends in Ecology and Evolution. 4(6), 180-183.

Bowerbirds e a Arte de Seduzir II

É claro que na festa de aniversário do MARCO EVOLUTIVO estaria presente um grande artista dando um show. Conhecemos os bowerbirds em post anterior e vimos também a força da seleção sexual na evolução de ornamentos estéticos extra-corpóreos. Essa mesma seleção sexual no caso do Lyre bird pressionou a evolução de uma enorme capacidade de imitação vocal, que é muito difundida por entre as exibições sexuais de macho de muitas espécies, inclusive nos bowerbirds. Então será que é possível que ambas as formas de exibição possam estar relacionadas? E qual das duas as fêmeas gostam mais?
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Um artigo na Biology Letters nos responde a essas questões e mostra como as habilidades de construção estão relacionadas com as de imitação. Coleman et al (2007) mostraram que as preferências das fêmeas podem favorecer tanto a acurácia quanto a complexidade das exibições de imitação vocal de macho satin bowerbird, um espécie de olhos azuis que adora objetos azius.
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Eles testaram duas hipóteses sobre a função da imitação vocal em população natural de satin bowerbird. Segundo a hipótese da acurácia da imitação, as fêmeas acessam a qualidade e fidedignidade da imitação na escolha de parceiros, então a acurácia da imitação estará positivamente relacionada com o sucesso no acasalamento. Segundo a hipótese do tamanho do repertório, as fêmeas acessam o número de diferentes imitações vocais do macho quando escolhem parceiros, então o sucesso no acasalamento estará positivamente relacionado à quantidade de diferentes espécies imitadas pelo macho.

Por meio de comparações espectrográficas das exibições de imitação da corte do macho satin bowerbird com os cantos das espécies imitadas eles apoiaram ambas as hipóteses. Tanto a acurácia quanto o número de espécies imitadas contribuem positiva e independentemente para o sucesso no acasalamento do macho. A regressão múltipla mostrou que o número de espécies imitadas explicou 58% da variação no sucesso de acasalamento, mais do que a acurácia da imitação, que foi responsável por 38% da variação no acasalamento.
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Além disso, eles encontraram que tanto a acurácia quanto a variedade de cantos imitados estão positivamente correlacionados outros elementos da exibição masculina sabidamente importantes para o sucesso no acasalamento, como a qualidade do ninho construído e a atratividade de sua decoração. Tanto que a acurácia da imitação e a variedade de espécies imitadas explicaram mais o sucesso no acasalamento do que a qualidade e a decoração do ninho. Apesar de que a acurácia da imitação e a variedade de imitações não estarem relacionadas com a carga de ectoparasitas e nem as condições corporais, tais parâmetros podem prover às fêmeas informações importantes sobre a qualidade do macho quando jovem, época em que aprendem e refinam suas exibições sonoras.
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Agora veja no primeiro filme as artimanhas que os machos satin bowerbird usam para acumular objetos azuis para decorar seu ninho e por sua vez impressionar a fêmea. No segundo e no terceiro vídeo note a variedade de imitações de cantos diferentes que eles fazem na hora da corte. E neste link veja Sir David Attenborough falando sobre a extraordinária capacidade de construção e de decoração estética dos bowerbirds.

Referência
Coleman, S. W.; Patricelli, G. L.; Coyle, B.; Siani, J. & Borgia, G. (2007) Female preferences drive the evolution of mimetic accuracy in male sexual displays. Biology Letters, 3, 463-466.

Diferenças Sexuais e a Seleção Sexual

Qual a relação entre a revolução darwinista, a seleção sexual, a origem das células sexuais e as diferenças psicológicas entre homens e mulheres? Eduard Punset, um dos mais famosos divulgadores de ciência de língua espanhola, nos mostra essas relações em uma entrevista brilhante com a Filosofa Helena Cronin. Além disso, são incluídos comentários interessantes de alguns pesquisadores da Universidade de Barcelona.

Enquanto andam por um parque em Londres eles conversam de forma descontraída e esclarecedora. O vídeo tem 29 minutos, todo em espanhol e começa abordando a seleção sexual e as características sexualmente selecionadas nos sexos, a beleza e o corpão violão das mulheres e a força e a competitividade dos homens. O mito do “quadril largo = boa parideira” é desacreditado e a proporção quadril/cintura é explicada como indicador de fertilidade nas mulheres.
Eles conversam sobre a Revolução Darwinista no panorama geral das ciências. Punset considera Darwin o maior cientista que já existiu. Helena considera fantástico como Darwin acabou com a dicotomia “acaso/designo” mostrando que entre as opções “acaso” e “projeto-com-projetista” existe a possibilidade darwinista de “projeto-sem-projetista”. E essa noção explica a origem do projeto dos seres vivos de forma natural sem a necessidade de explicações sobrenaturais metafísicas.
Depois eles conversam sobre as origens do sexo e voltando 800 milhões de anos atrás com o surgimento das primeiras células sexuais diferenciadas em maiores e menores. Helena explicar que machos e fêmeas surgem da solução do dilema de alocação de investimentos reprodutivos em acasalamento versus parental. E então abordam as diferenças psicologias entre homens e mulheres começando pelos meninos e meninas.
As diferenças entre comportamento de homens e mulheres é um assunto muito delicado, pois reações emocionais contras o sexismo por vezes atrapalham o entendimento sobre o tema. Isabella a bordou profundamente essa temática no CientíficaMente e ajudou a desfazer mal-entendidos. A dica é nunca confundir diferenças com desigualdade. Não precisamos ser clones idênticos para temos igualdades de direitos e oportunidades. Helena mostra como um melhor entendimento das diferenças na distribuição de cada característica, em que homens estão mais representados do que mulheres nos dois extremos da curva, nos ajuda a entender fenômenos ditos machistas. O interessante é ver no vídeo o que pensam meninos e meninas sobre as diferenças entre homens e mulheres.
Espero que gostem do vídeo.

Curvando-se ao Corvo, o Pensador

É surpreendente o fato de que algumas aves, como os Bowerbirds, naturalmente apresentam grandes manifestações custosas e cuidadosamente ornamentadas, comportamento antes só relatado em humanos. Isso nos faz ter uma visão mais humilde do ser humano. Porém, mais surpreendente ainda é o corvo capaz de se reconhecer no espelho. Isso mesmo! Agora sim você vai se sentir realmente apenas mais uma espécie animal.

O teste do espelho é bem simples: anestesie um animal e faça uma marca colorida (transparente ou cor da pele para o controle) num local do animal onde ela possa ser vista apenas pelo espelho, então apresente um espelho a ele. Se o animal interagir mais com o espelho é sinal que ele não se reconhece, mas se ele interagir mais com sua própria marca é sinal que ele se reconhece.

O auto-reconhecimento ao espelho é um sinal de autoconhecimento, uma característica elevada e requintada. Algo como: reconheço-me, logo existo metalingüisticamente.

Como acompanhamos no texto Autoconhecimento em Comum, essa faculdade antes tida como exclusividade dos humanos, agora já é reconhecida nos grandes primatas, golfinhos e elefantes. O que já era difícil de aceitar agora ficou pior. A machadada final em nosso antropocentrismo foi dada por três pesquisadores alemães no paper de agosto de 2008 intitulado: “Mirror-Induced Behavior in the Magpie (Pica pica): Evidence of Self-Recognition” disponível online. Eles trouxeram a primeira evidência de autoconhecimento em aves, mais especificamente em corvos, seres conhecidamente inteligentes, capazes de resolver problemas complexos e usar ferramentas inusitadas.


Em testes iniciais, cinco corvos, ao serem apresentados ao espelho, agiram como se seu reflexo fosse outra ave, mas três deles mudaram seu comportamento e passaram a se examinar. Daí quando submetidos ao teste a mancha ao espelho, dois dos três prestaram mais atenção na própria mancha colorida do que na mancha controle. O vídeo mostra o lindo e incomodo momento do auto-reconhecimento. Resta sabermos o porquê dessa variação individual.

Esses resultados mostram que as habilidades cognitivas elaboradas responsáveis pela noção de si mesmo não são privilegio de mamíferos cabeçudos, mas evoluíram independentemente em grupos taxonômicos que se separaram evolutivamente a 300 milhões de anos atrás.


E para que a inteligência dos corvos não seja subestimada deixo outro vídeo estonteante na narração de Sir David Attenborough. Veja o que pode acontecer quando corvos usam os humanos no trânsito japonês como ferramentas para abrirem sua comida. E se você ainda não sabe usar a faixa de pedestre melhor aprender, porque eles já sabem.

Bowerbirds e a Arte de Seduzir I

Pense num animal que produza arte… Muito bem por considerar o ser humano mais um animal!! Mas agora pense em outro animal que produza manifestações artísticas, ou seja, manifestações intencionais extra-corpóreas, esteticamente valorizadas, bem trabalhadas, ornamentadas, muito apreciadas e invejadas. Será que existe? Lembre-se que não somos o ápice da evolução, nem somos os únicos a ter auto-conhecimento, característica que compartilhamos com orangotangos, golfinhos e elefantes.

Então será que até manifestações artísticas não são exclusividade dos humanos? Pois então conheça os Bowerbirds, ou pássaro-arquiteto, e descubra a continuidade evolutiva entre a ornamentação corporal e a arte, ou melhor, ornamentação extra-corporal. Os Bowerbirds são um grupo de várias espécies de pássaros da Austrália e Nova Guiné. Eles têm apenas 21 cm de altura, mas constroem ninhos de até 3m de vários tipos e formatos que enfeitam com flores, conchas, besouros e qualquer outro objeto coloridos.
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As fêmeas ancestrais de Bowerbirds desenvolveram um incrível senso estético, por isso, elas parecem favorecer ninhos robustos, simétricos e bem enfeitados com cores que podem refletir inclinações sensoriais. Eles realizam danças na frente desses ninhos, e quando uma parceira aparece, elas inspecionam e se gostaram andam para dentro do ninho, acasalam, e a fêmea sai para construir um outro ninho, pequeno e funcional, onde irá colocar seus ovos, sem qualquer participação do macho. Isso mesmo, tanto o macho quanto a fêmea constroem ninho, mas só o das fêmeas serve para chocar os ovos, pois o do macho seduz as fêmeas.
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A qualidade do ninho artístico, o número de decorações preferidas e as danças e cantos contribuem muito para o sucesso reprodutivo dos machos. Muitas fêmeas, de coloração mais clara, se acasalam com um único macho depois de visitar os ninhos de muitos machos. Alguns machos chegam a acasalar com 25 fêmeas em seu “ninho de amor” em uma estação de reprodução. As fêmeas que acasalaram com macho de alta qualidade reduzem muito suas buscas por ninhos e acabam retornando para acasalar com o mesmo macho nos anos sucessivos. E quanto mais experiente a fêmea fica ao longo das épocas de acasalamento ela passa da dar menos valor para a decoração do ninho e mais para o canto e a dança do macho.
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O alto custo despendido na construção, confecção e decoração dos ninhos pode refletir indicadores de aptidão do macho. Além disso, os machos brigam uns com os outros, tentando destruir os ninhos alheios, e tendo que lutar para defender e manter impecável o seu ninho. Isso mostra a aptidão do macho, pois se ele é capaz de construir um ninho com 15 vezes sua altura, decorá-lo, e mantê-lo inteiro e vistoso apesar do ataque constante de outros machos, é porque a sua aptidão é muito alta, e ele trará melhores características para passar para sua prole.
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Os ornamentos extra-corpóreos assim como os ornamentos corpóreos, como penas e cores, também evoluem por seleção sexual. Richard Dawkins cunhou o conceito de fenótipo estendido que é o alcance total dos genes do indivíduo no ambiente. Dawkins argumentou que os genes são selecionados, muitas vezes, pelos efeitos que se espalham para fora do corpo e chegam ao ambiente. Então, se até as construções estéticas do Bowerbird evoluíram por seleção sexual imaginem as nossas construções estéticas. Veja no vídeo abaixo a difícil vida artistica de um Bowerbird.

A Voz Inconfundível do Período Fértil


Nossas vozes dizem muito sobre nozes, ou melhor nós. Mas apesar de falarmos muito, falamos pouco sobre nossas vozes. O que tem que ser dito é que cada vez mais é estudado as influências da seleção sexual sobre a voz humana, principalmente com relação ao período fértil.

Atualmente é crescente entre os pesquisadores do comportamento humano a opinião de que essa história de ovulação oculta está por fora! A ovulação na nossa espécie nunca foi oculta, pois a cada mês são encontradas pesquisas que apontam mudanças psicológicas relevantes e evolutivamente previsíveis relacionadas ao período fértil.

Estudos já haviam mostrado que as mulheres (que não tomam contraceptivo hormonal), quando estão no período fértil preferem vozes mais masculinizadas, ou seja, manipuladas experimentalmente para parecerem envolver mais testosterona.
Outros apontam ainda que essa preferência além de ser maior por vozes mais graves no período fértil é maior também quando as mulheres buscam parceiros para relacionamentos amorosos de curto prazo.
Além de terem suas preferências influenciadas pelo período fértil, as mulheres parecem apresentar características na própria voz consideradas mais atraentes quando elas estão no período fértil.
Os cientistas, da Universidade Estadual de Nova York, gravaram mulheres contando de 1 até 10 em quatro fases diferentes do ciclo menstrual. Posteriormente, eles tocaram as gravações aleatoriamente para estudantes dos sexos masculino e feminino e pediram que apontassem as vozes mais atraentes.
O estudo mostrou que as vozes com timbre mais alto foram indicadas pelos estudantes como as mais sexy. Ou seja, a ovulação humana não é oculta, tá na cara, ou melhor na voz das mulheres se elas estão no período fértil ou não. Basta ver quão sexy lhe soa a voz. Veja o vídeo sobre esse estudo.

Os “Ricardões” da Evolução e da Seleção Sexual

Em muitos circulos, tanto leigos quanto científicos, a Evolução e principalmente a Seleção Sexual são precariamente entendidos e grandemente negados. E o biólogo Dr. Ricardo Waizbort tem se empenhado para que essa situação mude. Ele é especialista em genética, mestre e doutor em Letras, pela UFRJ. Desde 1998 trabalha na Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, com projetos que investigam a recepção do darwinismo no Brasil e o significado filosófico do darwinismo para o conhecimento científico e para a vida humana. Também estão no seu foco de interesse as discussões sobre o conceito de gene e as implicações do darwinismo para a compreensão e interpretação de obras literárias.
Nessa quinta, dia 05/06 (Dia Mundial do Meio Ambiente), às 14:30 ele fará uma palestra gratuita sobre Darwin, a Seleção Sexual e a Espécie Humana no Fórum de Sistemática e Evolução do Museu de Zoologia da USP. Ele já falou sobre esse assunto para os cariocas no ciclo de palestras da Exposição Darwin no Rio. O Fórum de Sistemática e Evolução visa estimular discussões de tópicos amplos relacionados à sistemática e evolução biológica, promovendo o desenvolvimento do pensamento teórico e da interação entre estas áreas e outras subdisciplinas das ciências da vida. No site do Fórum, entre em programação e no mês de junho lá estão disponibilidados as referências bibliográficas, textos muito interessantes do próprio Dr. Ricardo Waizbort .
E nada como uma boa discussão sobre Evolução, Seleção Sexual e Comportamento Humano. Em uma entrevista que o Dr. Ricardo Waizbort concedeu ao Ciência Hoje on line sobre o porquê de o brasileiro não acreditar em Darwin, ele abordou temas interessantes como aceitação da evolução, seu ensido e o problema com os religiosos. Segundo ele “Vivemos uma batalha muito mais retórica, de convencimento e persuasão, do que uma batalha racional, em que são expostos argumentos e evidências para debate. No Brasil, vemos uma situação de analfabetismo científico muito preocupante, porque existem problemas na formação e atualização dos professores.” E ele acredita que “enquanto tivermos essa fragmentação do conhecimento, será complicado fazer os alunos entenderem a biologia de forma completa.” Leia a entrevista na íntegra aqui.
Um outro autor eminente que adora divulgar a evolução, resolver os mal-entendidos e separar religião de ciência é o Dr. Richard Dawkins. Além de seus livros provocativos e brilhantes, em seu site oficial apresenta muito material interessante, assim como no youtube. Ficamos aqui com uma palestra de Dawkins sobre a Teoria da Razão Sexual e a Seleção Sexual.
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