Dedos, sim!… (mas, para que?…)

Descobri essa no EurekAlert… E peço aos biólogos que me expliquem melhor:

Uppsala University

Peixes pré-históricos tinham dedos rudimentares

Os Tetrápodes, os primeiros animais de quatro patas, são vistos como os primeiros organismos a terem dedos. Agora, pesquisadores da Universidade de Uppsala podem demonstrar que essa idéia está errada.  Usando equipamentos médicos de raios-X, eles encontraram rudimentos de dedos nas nadadeiras de fósseis de Panderichthys, o “animal de transição,” o que indica que dedos rudimentares se desenvolveram consideravelmente mais cedo do que se pensava.

Nossos ancestrais peixes evoluíram para os primeiros animais de quatro patas, tetrápodes, há cerca de 380 milhões de anos. Eles são os antepassados de todos as aves, dos mamíferos, répteis e anfíbios. Uma vez que pernas e seus dedos são tão importantes para a evolução, os pesquisadores sempre se perguntaram se eles apareceram primeiro nos tetrápodes, ou se haviam evoluído de elementos que já existiam em seus ancestrais peixes.

Quando eles examinaram os genes que são necessários para a evolução de nadadeiras em peixes-leão (uma espécie de peixe com nadadeiras semelhantes às das arraias que são um parente distante dos celacantos) e compararam esses com o gene que regulava o desenvolvimento de patas em ratos, os pesquisadores descobriram que os peixes-leão não tinham os mecanismos genéticos necessários para o desenvolvimento de dedos. Portanto, se concluiu que os dedos apareceram primeiramente nos tetrápodes.  Esta interpretação era apoiada pela circunstância de que o fóssil Panderichthys, um “animal de transição”  entre os peixes e tetrápodes parecia não ter os rudimentos de dedos em suas nadadeiras.

No presente estudo, a ser publicado na Nature, foram usados raios-X médicos (Tomografias computadorizadas) para reconstruir uma imagem tridimensional das nadadeiras do Panderichthys. O resultado mostrou elementos, até então desconhecidos, que constituem rudimentos de dedos nas nadadeiras. Rudimentos similares já haviam sido demonstrados existentes anteriormente, há dois anos, nos Tiktaaliks, que são um grupo mais próximo dos tetrápodes. Juntando isso com informações sobre o desenvolvimento das nadadeiras em tubarões, peixes-espátula e peixes-pulmonados-australianos, os cientistas podem, agora, concluir definitivamente que os dedos não eram uma coisa nova nos tetrápodes.

“Esta é a peça chave do quebra-cabeças que confirma que dedos rudimentares já estavam presentes nos ancestrais dos tetrápodes”, diz Catherine Boisvert.

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Sem dúvida, uma questão importante foi resolvida: ao mesmo tempo em que a evolução criou as patas, dotou-as de dedos. Parece lógico…
O que eu não consigo entender é: que “vantagem evolutiva” a presença dessas patas e dedos rudimentares poderia significar para os “animais de transição”?… A capacidade de permanecer por algum tempo fora d’água faz sentido como “melhoramento” (uma enorme expansão do ambiente). Mas os dedos?… Que raios de função eles poderiam exercer?… Em outras palavras: a mutação só vai apresentar uma real vantagem a longuíssimo prazo (quando os dedos deixarem de ser rudimentares e se tornarem funcionais). Então por que eles já existiam “de forma latente”?
Ou será que o artigo deixou de fora algum exemplo de “proto-patas” que jamais desenvolveram dedos (e o “animal de transição” se tornou um “beco-sem-saída” evolutivo e desapareceu)?…
Da forma que a coisa está colocada, parece que o desenvolvimento de patas com dedos é um “caminho único” e perigosamente próximo de um “Intelligent Design”…

Discussão - 5 comentários

  1. André disse:

    Nao sei a importancia, mas levando em conta que eles nao podiam passar 100% de sua vida na terra, e viviam transitando entre terra e água, podemos imaginar que de inicio o tempo disponível na terra era muito pequeno, entao os dedos ajudariam muito na hora de voltar para água antes que ele morresse
    nao sei 😛

  2. maria disse:

    a gente não tem como saber de que maneira a coisa funcionava, mas a evolução não prevê o futuro nem é tão utilitária como costumamos pensar.
    muitas vezes as estruturas são como são não porque é a melhor maneira, mas porque foi como deu pra construir com o material (genes, ossos etc.) à mão. muito da evolução está nas restrições ao que dá para inventar, está em reaproveitar peças de outra maneira.
    os tais dedos rudimentares, que pelo que entendi estavam dentro de nadadeiras, talvez dessem alguma mobilidade à nadadeira que fosse útil em sua função. mas é possível que fosse simplesmente a maneira mais simples de se construir uma nadadeira.
    depois esse material foi usado de outra maneira e acabou dando origem aos dedos.
    aguarde a matéria sobre evolução que escrevi para a próxima edição de pesquisa fapesp (de outubro).

  3. André disse:

    concordo com a maria (apesar de nao ter base o suficiente para isso)
    nao tem como um gene prevê a forma mais útil de uma característica que ele ainda nao utiliza, a modificaçao vem com a necessidade, mutaçoes, evoluçao mesmo. Por algum motivo os dedos apareceram, talvez por ser mais viável que outras possíveis características

  4. Eu chuto que havia uma outra função para esses dedos, por exemplo segurar fêmeas dentro d’agua…
    O problema não é que não possamos formular alguma teoria sobre para que serviam os proto-dedos, mas sim que poderiamos criar, com imaginação suficiente, muitas hipóteses, a maior parte delas não testáveis…

  5. Caro João Carlos,
    Sua pergunta deriva de uma visão talvez um pouco estreita (ingênua?) sobre a natureza do processo evolutivo. Essa perspectiva é adotada, por exemplo, por Richard Dawkins (de quem você não gosta, sei disso) e é chamada, por vezes, de ultra-darwinismo: é a idéia de que tudo na natureza (qualquer característica biológica) tem que ter sido, necessariamente, selecionada em um processo natural, garantindo algum tipo de reprodução diferencial. É a tal linguagem adaptacionista que eu critico às vezes.
    Podemos construir narrativas adaptacionistas para explicar a origem e manutenção de praticamente qualquer coisa durante a história dos organismos. No entanto, quando não encontramos uma explicação plausível, tendemos a pensar que a evolução é capenga e falha em responder grande parte das suas questões.
    Richard Lewontin, eu seu livro “A tripla hélice” disse: “O organismo não é determinado nem pelos seus genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de processos aleatórios”. É o mesmo que S.J.Gould diz quando fala da contingência: muitos planos estruturais (bauplans) dos animais permaneceram mais por acaso do que por alguma vantagem intrínseca que eles podem ter proporcionado aos seus portadores.
    Abraço!

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